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terça-feira, 18 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (6)

Símbolos, tipos e figuras de linguagem

Para se compreender devidamente a linguagem bíblica, certas particularidades precisam ser examinadas com cuidado. Os tipos, por exemplo, devem ser interpretados com base nas características similares, isto é, devemos confrontar o tipo e o seu antítipo para entendê-los corretamente. Um tipo sempre tem um antítipo, e são semelhantes em pelo menos um aspecto. Adão era um tipo do qual Cristo era o antítipo; mas não seríamos capazes de julgar em quais aspectos enquanto o próprio Cristo não viesse. Da mesma forma Eva é um tipo da Igreja, mas isso só pôde ser entendido quando surgiu a Igreja. As sete igrejas de Apocalipse também são tipos das congregações cristãs que surgiram no mundo desde a era apostólica. Mas só recentemente esse entendimento se tornou claro.
Os símbolos, por outro lado, podem ser entendidos antes de seu cumprimento, desde que seu sentido seja indicado de algum modo. Em Apocalipse, por exemplo, temos os candeeiros e as estrelas (1:20), as bestas que saem da terra e do mar (cap. 13), a mulher vestida de escarlate (cap. 17). Cada um desses elementos tem sua explicação própria e podem ser decodificados.
Às vezes a linguagem literal é mais difícil de entender do que a linguagem figurada, pois os profetas precisaram usar palavras de seu próprio tempo para descrever coisas que só existiriam no futuro, e com o tempo, as palavras mudaram de sentido, mas os símbolos não. Há termos que parecem símbolos (como em Apocalipse), em que muitos estudiosos se enrolam ao desconsiderar que João foi a um lugar onde nunca havia estado antes, e viu coisas que nunca havia visto na Terra. Essas coisas precisavam ser explicadas com palavras: coisas reais, mas não terrenas. Os cavaleiros, por exemplo, não são símbolos, mas algo que correspondia aos meios de locomoção de um exército da época. Trombetas, taças, vestes, coroas, tronos, são todos reais;
mas quando os virmos talvez não os achemos parecidos com objetos feitos na Terra. Não conhecemos nem uma palavra celestial sequer. O melhor que João pôde fazer, em Apocalipse, foi encontrar algo que correspondesse o mais próximo possível ao que ele via, expressando realidades celestes com palavras terrenas. Mar de vidro, por exemplo (4:6 e 15:2).
Mas algumas dicas nos ajudam a elucidar a linguagem simbólica. Uma delas é que a ação é sempre literal. Somente o sujeito da ação é simbólico. Basta você descobrir o significado do símbolo e aplicar a ação. Por exemplo, em Mateus 13, a pessoa ou o que a mulher representa, pegou o que o fermento representa e colocou no que a farinha representa. Em Apocalipse 12, a pessoa ou aquilo que a mulher representa, deu à luz ao que o filho representa, e o que esse filho representa foi arrebatado ao céu. Para interpretar corretamente passagens simbólicas, é preciso entender um pouco sobre a natureza dos símbolos como um todo.
Os alegoristas acusam os literalistas de serem preguiçosos e preferirem a interpretação literal para poupar esforço. Mas desde o século II, com a escola de Antioquia, e durante a Idade Média, com os valdenses e anabatistas, o alegorismo tem sido rejeitado. Mesmo entre os “pais da igreja”, Teodoro de Mopsuéstia (350-428), Crisóstomo (354-407), Teodoreto (386-458), e Diodoro de Tarso: “Os livros de Diodoro de Tarso foram dedicados a uma exposição das Escrituras em seu sentido literal, e ele escreveu um tratado, agora lamentavelmente perdido, sobre a diferença entre alegoria e o modo espiritualizado de se ver [a Bíblia]” (F.W. Farrar, History of Interpretation, pp. 213 -15). 
William Tyndale, o tradutor da primeira Bíblia em inglês, a partir do grego e do hebraico, no século XVI, disse: “A Escritura tem apenas um sentido, que é o sentido literal. E este sentido literal é a raiz e o fundamento de tudo, e a âncora que nunca falha; se te ligares a ela, nunca poderás errar ou ir para fora do caminho. E se tu deixas o sentido literal, tu não podes ir senão para fora do caminho. Sim, as Escrituras usam provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias, como todos os outros discursos usam; mas o que os provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias significam, é algo em adição ao sentido literal, que deves procurar diligentemente” (citado por Charles Briggs em Introduction to the Study of Holy Scripture, pp. 456-57).
As Escrituras, como toda literatura, usam figuras de linguagem, que devem ser entendidas como tais. Uma metáfora é uma comparação de similaridades entre duas coisas diferentes, como nas palavras de Cristo durante a última ceia: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice: “Bebam dele todos. Isto é o meu sangue da aliança” (Mateus 26:26-28). Jesus quis dizer que o pão era literalmente Seu corpo e o vinho era literalmente Seu sangue? O senso comum nos diz: não. As Escrituras nos dizem claramente que era pão e vinho que Jesus distribuiu, e não diz nada sobre eles terem se transformado literalmente em carne e sangue em algum ponto. Nem Pedro nem João, presentes na última ceia, reportaram tal coisa em suas epístolas, o que seria algo realmente digno de nota! Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo”. Para o próprio Agostinho, que como vimos aqui, era um dos mestres da interpretação alegórica, na Ceia Jesus nos deu “apenas o sinal de seu corpo”. A Confissão da Guanabara diz: “não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai”.
Alguns argumentam: “Mas Jesus disse que o pão e o vinho eram Seu corpo e sangue, então eu vou acreditar no que Jesus disse”! Mas Jesus também disse que Ele era a porta (João 10:9). Ele literalmente se transformou em uma porta com dobradiças e uma maçaneta? Jesus disse que era uma videira e que nós éramos os ramos (João 15:5). Ele literalmente se transformou em uma videira? Nós nos tornamos literalmente em ramos de videira? Jesus disse que era a luz do mundo e o pão que veio do céu (João 9:5; 6:41). Jesus também é a luz do sol e um pedaço de pão? Claramente, são figuras de linguagem – metáforas – uma comparação de coisas diferentes que guardam algumas similaridades. De algum modo, Jesus era como uma porta e uma videira; o vinho era como Seu sangue (em alguns pontos), e o pão era como Seu corpo (de certa forma). 
As parábolas são símiles, e sempre trazem a palavra como. Elas ensinam lições espirituais pela semelhança entre duas idéias. Precisamos nos lembrar disso; senão vamos cometer o erro de procurar significado em cada detalhe (como Orígenes na parábola do samaritano!). Há um ponto onde as similaridades acabam. Por exemplo, se eu disser à minha esposa: “Seus olhos são como lagos”, eu quero dizer que seus olhos são azuis, profundos e convidativos, e não que peixes nadam neles!
Outro exemplo de símile: “O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:47-50).
O céu e uma rede não são a mesma coisa. Mas assim como os peixes são separados em bons e ruins, assim será no reino de Deus. Um dia o perverso e o justo, que agora estão juntos, serão separados. Mas não podemos ir além da intenção do orador, assumindo que as diferenças são semelhanças. Peixes são selecionados se são comestíveis ou não. Pessoas são julgadas por sua obediência ou desobediência a Deus.  Por outro lado, os “peixes bons” acabam fritos ou assados, e os “ruins” voltam para a água... mas Jesus não mencionou isso! Teria ido contra Seu propósito. Os discípulos entenderam a lição (v. 51): os justos herdarão o reino de Deus e os perversos serão lançados no inferno, assim como os peixes bons são separados e os peixes ruins são jogados fora.
Essa parábola não ensina uma “estratégia de evangelismo”, onde tentamos arrastar todos para dentro da igreja, bons ou ruins, queiram eles vir ou não, ou estratégias para atrair o povo à igreja! Ela não ensina que é melhor ir evangelizar na praia. Não diz que o arrebatamento será no fim da tribulação. Não ensina que a salvação é uma escolha puramente divina de Deus porque os peixes não fizeram nada para serem escolhidos e nem decidiram por si. Via de regra as parábolas sempre vêm junto com seu significado (por exemplo, o joio e o trigo, o semeador etc.). Não force significados às parábolas!
A hipérbole (um “exagero” intencional) é outra figura de linguagem. Quando uma mãe diz ao filho: “Eu te chamei mil vezes”, é uma hipérbole. Na Bíblia: “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora” (Mateus 5:30). Se Jesus quis dizer literalmente que todos que pecassem devessem cortar a mão, então todos seríamos manetas! Mas não, Jesus está nos ensinando que o pecado pode nos mandar para o inferno, e evitamos isso removendo tentações e coisas que nos façam tropeçar, mesmo que nos pareçam importantes. Como vimos, Orígenes não soube interpretar corretamente esta passagem.
Outra figura é o antropomorfismo, onde características humanas são atribuídas a Deus para nos ajudar a entendê-Lo. Por exemplo, Gênesis 11:5: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre” [de Babel]. Isso é um antropocentrismo, porque não parece provável que Deus, onisciente, viajaria do céu a Babel para investigar o que as pessoas estavam construindo! Muitos acadêmicos consideram antropocentrismo todas as menções sobre “partes de Deus”, como mãos, pés, olhos e cabelo. Com certeza, eles dizem, o Deus todo-poderoso não teria tais partes como os humanos. Nem asas... Mas vemos que  Moisés, Arão, Nadabe e Abiú “viram o Deus de Israel, e debaixo de Seus pés havia como que uma calçada de pedra de safira, que parecia com o próprio céu na sua pureza. Deus, porém, não estendeu a Sua mão contra os nobres dos filhos de Israel” (Êxodo 24:9-11). Se você perguntasse a Moisés se Deus tinha pés e mãos, o que ele diria?
O profeta Daniel também teve uma visão de Deus: “Enquanto eu olhava, tronos foram colocados, e um ancião [Deus] se assentou. Sua veste era branca como a neve; o cabelo era branco como a lã. Seu trono era envolto em fogo” etc. (Daniel 7:9-10). Se você perguntasse a Daniel se Deus tinha cabelo e uma forma pela qual Ele pode sentar em um trono, o que ele diria? Deus Pai tem uma forma gloriosa que é de certa forma similar a forma de um ser humano, mesmo Ele não sendo carne e sangue, e sim espírito (João 4:24).
Então devemos rejeitar o alegorismo? Em parte sim, porque Deus deu as Escrituras para revelar a verdade ao homem, não para ocultá-la. A Bíblia foi dada para trazer luz, não confusão. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). Assim, nas Escrituras, Deus usa as regras normais da linguagem humana. O homem é feito à imagem de Deus, e assim foi dotado de habilidades comunicativas. O primeiro objetivo da linguagem humana é que o homem possa conhecer e se comunicar com Deus. Logo depois que Adão foi criado, não havia outros seres humanos com quem ele pudesse falar. Adão falava apenas com Deus, e é razoável supor que Deus desse ao homem a habilidade lingüística para que este pudesse comunicar-se com seu Criador de forma eficiente [completamente precisa].
Além do mais, as profecias sempre foram cumpridas literalmente (também neste link). Existem apenas duas situações, em todo o Novo Testamento, onde o método alegórico foi aplicado (I Coríntios 10 e Gálatas 4). São os únicos casos que mostram eventos do Velho Testamento como alegorias, sob a ótica do Novo Testamento.  No entanto, é totalmente diferente do que pregam os alegoristas, porque Paulo assume a existência literal de Hagar, Sara, a nuvem, o Sinai etc. Ele os cita como alegorias apenas para fins de ilustração, e nunca interpretou a profecia alegoricamente: tribulação literal (I Tessalonicenses 5:1-3), anticristo literal (II Tessalonicenses 2:8-12), ressurreição literal (I Coríntios 15), literal retorno de Cristo (I Tessalonicenses 3:13, 4:14), reino literal (II Timóteo 4:1), literal cumprimento de promessas de Israel (Romanos 11:25-27). 
Por tudo isso o método literal de interpretação da Bíblia é preferível e normal, pois é o modo pelo qual a linguagem humana é comumente interpretada. Deus tem revelado a Sua verdade através dos meios normais da linguagem humana. O sentido literal normal da Escritura deve prevalecer, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. Veremos isso quando falarmos sobre os animais puros e impuros, mais adiante, onde muito mais que informações biológicas e de zoologia, há uma lição espiritual para nós, hoje.

(fonte) (fonte)
Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987; Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000

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terça-feira, 11 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (5)

A interpretação alegórica

Mas há trechos na Bíblia que só podem ser devidamente entendidos se pudermos decodificar os símbolos, principalmente os de caráter profético; e este é um caminho complicado, pois muitos acabam presas fáceis de alegorias e simbolismos que mais confundem do que explicam.
O método de interpretação alegórica preconiza a máxima espiritualização da Escritura. A maioria dos textos teria uma espécie de “sub-texto”, entrelinhas misteriosas, cheias de simbolismos ocultos e passíveis de interpretações diversas. Assim, as profecias do Velho Testamento sobre um reino terrestre glorioso para Israel são consideradas alegorias da Igreja. “Sião” passa a significar a Igreja ao invés de Jerusalém. Vê-se “o deserto florescerá como a rosa” (Isaías 35) como uma imagem da expansão do Evangelho, ao invés de uma futura condição literal sobre a terra. Ezequiel 40-48 vira uma representação simbólica da Igreja, e não um futuro templo literal. Os acontecimentos em Apocalipse – os julgamentos sobre a terra, as guerras, as duas testemunhas, prisão de Satanás, são vistos simbolicamente, e não como futuros eventos literais. Os alegoristas dizem que os 144.000 não são realmente 144.000, e que o milênio não tem realmente mil anos. Veremos mais adiante que a maioria dos teólogos católicos adota esse método sem pestanejar - o que explica muita coisa, como você verá.
O método alegórico tem suas origens tanto no pensamento grego (que evitava a interpretação literal dos antigos mitos) quanto na literatura rabínica. Os estóicos elaboraram uma interpretação alegórica dos deuses, em que buscavam, além do texto, um significado mais profundo. Eles não usavam a palavra alegoria, mas, sim, υπόνοια (uponoia, cf. “suspeita”), uma forma de “comunicação indireta”, que diz algo para dar a entender outra coisa.
Entre os judeus, o nome mais proeminente nesse assunto é o de Fílon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.), um filósofo que tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz da filosofia grega e da alegoria, onde expôs a sua visão platônica do judaísmo. Foi como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à filosófica. Como, aliás, os gregos e depois os romanos haviam feito antes, tentando concatenar seus próprios mitos com os antigos mistérios egípcios.
Mas entre os cristãos, não se interpretava as Escrituras alegoricamente, pelo menos até o fim do século II.  A escola fundada em Alexandria se tornou o quartel-general desse método, sob a liderança de Panteno e depois Clemente e Orígenes. Alexandria era então o maior centro de estudos do mundo, local de reunião e estudo dos intelectuais mais proeminentes, com sua biblioteca de meio milhão de volumes; foi nesse ambiente de debate filosófico-teológico que Clemente achou em Panteno o mestre que tanto procurou. Converteu-se ao cristianismo e sucedeu ao mestre em 190, e misturou a filosofia de Platão com o Cristianismo. Como se sabe, o platonismo (e depois o neo-platonismo) enfatizava o conhecimento, como os gnósticos, e assim até mesmo a salvação pessoal dependia mais do conhecimento do que de Cristo. Clemente simpatizava com esses aspectos místicos e com o método alegórico, e a Escritura foi submetida a todo tipo de exercício metafísico, da mesma forma que Fílon fez com o Pentateuco – o que abriu espaço a doutrinas estranhas, como veremos adiante.
Clemente sentia-se mais à vontade com a filosofia do que qualquer outro mestre cristão, considerando-a o modo de Deus preparar os gregos para a vinda de Cristo. Por isso ele procurou integrá-la à fé cristã. Como os estóicos, ele cria que o verdadeiro cristão deve cultivar a sabedoria e ficar acima das paixões para se tornar semelhante a Deus. O verdadeiro conhecimento não está restrito a um único livro; pelo contrário, a Verdade divina está espalhada pelo mundo: “Há um rio da Verdade, mas muitos afluentes se encontram com ele, desse ou daquele lado”, escreveu.  Vemos aí uma semente de heresia, uma espécie de proto-panteísmo ecumênico ou coisa que o valha. E assim ele procurava interpretar as Escrituras: “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”.  Isso só pode ser obtido através do esforço e da fé do buscador, mas a essência da mensagem de Jesus estaria oculta, só compreendida pela interpretação alegórica ou simbológica. Segundo Eusébio de Cesaréia, Clemente fazia uso com freqüente de livros apócrifos, e dizia: “Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Por aí já se vê no que vai dar essa mistureba.
A partir de 202, a escola esteve sob Orígenes, que como Clemente e Panteno, acreditava na reencarnação e no karma. Entre suas idéias, derivadas do método alegórico, estão:  o celibato como estado santo e superior ao casamento; a vida ascética, contrária ao exemplo dos apóstolos; tentativa de conciliação da filosofia pagã com o Cristianismo; regeneração batismal; purgatório; todos os homens e até mesmo Satanás e demônios, eventualmente, seriam salvos (Cristo, na sua expiação, fez um resgate de Satanás); o Espírito Santo foi a primeira criatura feita por Deus; Jesus Cristo não é plenamente Deus. Eusébio atesta na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”.
Para Orígenes, assim como para muitos pseudo-intelectuais “modernos”, a Bíblia contém erros. Entendia ele que “intercalados com histórias reais estão acontecimentos que não aconteceram, que algumas vezes não poderiam acontecer e que algumas vezes poderiam acontecer, mas não aconteceram” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 138). Quando ele não conseguia entender uma passagem, ou tinha dificuldade para crer em algo, tentava uma interpretação simbólica. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Veja, por exemplo, a confusão que ele arranja com o bom samaritano. O homem assaltado é Adão; Jerusalém é o Paraíso e Jericó, o mundo. Os ladrões são os demônios, o sacerdote é a Lei e o levita simboliza os profetas. O samaritano é Cristo, as feridas a desobediência, a hospedaria é a Igreja, a promessa de retorno do samaritano é a volta de Cristo. Até aí tudo bem, mas então começa a confusão: ele continua dizendo que o burrinho é o corpo do Senhor, os dois denários são o Pai e o Filho (que vão cuidar do ferido), e o hospedeiro é o cabeça da igreja (“o papa”?). Como Jesus pode ser ao mesmo tempo um dos dois denários, o samaritano e o jumento? É muito mais lógico e coerente que o hospedeiro seja o Espírito Santo, que vai cuidar do homem até o samaritano retornar, e nem sei se precisamos procurar significado no jegue. Além do mais, podemos inferir que os dois denários são o Antigo e o Novo Testamentos, ou os mandamentos principais (amar a Deus e ao próximo), ou a fé e as obras... ou então que o levita e o sacerdote são as religiões institucionalizadas que não fazem caridade... etc... Não é preciso buscar sentido oculto em tudo. Tudo isso é legal e bacana como exercício investigativo, mas obviamente, o principal é o sentido literal – fazer o bem sem distinção de pessoas e não passar ao largo, como o levita e o sacerdote. Hall (op.cit.) opina que “embora o sermão de Orígenes seja muito interessante e homileticamente rico, a dúvida é se essa interpretação é correta e afinal, satisfatória. Como saber se Jesus pretendeu que a parábola do samaritano fosse interpretada alegoricamente?... os filósofos gregos haviam feito assim ao estudar as obras de Homero... Orígenes fez o mesmo com a Bíblia” (pg. 140/141).
Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Apesar de o método alegórico enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos, na prática Orígenes fez o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou Mateus 5:28-30 ao pé da letra e castrou-se. Orígenes foi descrito por Mosheim como “um composto de contradições: sábio e insensato, perspicaz e estúpido, criterioso e não criterioso; o inimigo da superstição, e seu protetor; um fervoroso defensor do Cristianismo, e seu adulterador; enérgico e irresoluto; um a quem a Bíblia deve muito, e de quem ela tem sofrido muito”.
Um outro grande disseminador do alegorismo foi  Agostinho (354-430), também um dos “pais da igreja”. Alguns ensinos danosos ao Cristianismo original, com base em suas interpretações alegóricas, foram: os sacramentos como meio de salvação; o batismo infantil, alegando que as crianças não batizadas estavam perdidas, e chamando todos que rejeitavam o batismo infantil de “infiéis e malditos”; que Maria não cometeu nenhum pecado. Como Orígenes, acreditava em purgatório; a autoridade da Igreja estava acima da Bíblia; e o amilenismo (ou amilenarismo), ensinando que a igreja católica é que era o reino de Deus. Nota – igrejas evangélicas que hoje pregam “domínio da nação”, “conquista de cidades”, “atos proféticos para conquistar territórios”, estão repercutindo a teoria amilenista católica/agostiniana, pois não crêem na Vinda de Cristo para implantar o Seu reino milenar na Terra. Acreditam que a Igreja substituiu Israel (“teologia da substituição”) e deve governar o mundo, aqui e agora. Por isso “determinam”, “decretam”, “reivindicam”, “estabelecem” coisas como a prosperidade, o governo etc. Cuidado. Tudo isso é derivação de interpretações alegóricas.
Para Agostinho, ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido oculto se pode aproximar da Verdade divina, sem nunca alcançá-la totalmente. Mais tarde, Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção entre a alegoria teológica (que não seria um artifício retórico mas sim uma visão particular do Universo) e a alegoria secular ou literária. O uso de alegorias se espalhou por outros campos: tornou-se comum na arte medieval o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, obedecendo a complicados esquemas alegóricos, pois acreditava-se que tudo deve significar algo mais do que o simplesmente observável. A literatura desse período também é muito influenciada por esses conceitos, como “A Divina Comédia”e outros textos da época.
Conceitos que ecoam até na Bíblia de Genebra, onde há uma nota em Apocalipse 9:11 identificando o “anjo do poço sem fundo” como “anticristo, o Papa, rei de hipócritas e embaixador de Satanás”. Porém não há razão para se ver esse anjo senão como um anjo caído literal em um buraco literal, e não um símbolo ou alegoria. 
Também o
 Lion Handbook of the Bible (1983), em sua interpretação de Apocalipse 13, diz que as duas bestas são “o Império Romano e a adoração ao seu imperador”.
E o
 Illustrated Bible Handbook assume uma abordagem não-comprometida de Apocalipse, apresentando tanto o ponto de vista literal-futurista como o alegórico, mas sem expor as falhas deste último. Dizem seus autores que os 144.000 remidos são “um número perfeito (12 x 12 x 1.000), representando toda a Igreja de todas as épocas”. A morte das duas testemunhas “simboliza toda a Igreja silenciada pela perseguição”. Os 1260 dias (três anos e meio) são “simbólicos” e representam “períodos de aflição” passados por todos os crentes. Os 42 meses em Apocalipse 13:5 “representam a época do evangelho”. A prisão de Satanás (cap. 20) “aconteceu no nascimento de Jesus”! Essas interpretações esdrúxulas são as preferidas por quem quer complicar e não explicar, e assim mostrar que “cada cabeça uma sentença”. Por isso essas interpretações são as que costumam aparecer em programas sobre catástrofes apocalípticas do Discovery Channell e similares.
O falso profeta Harold Camping, recentemente falecido, depois de agendar o arrebatamento para várias datas – e não acertar nem uma – apareceu certa vez com uma interpretação bizarra: as duas testemunhas representam a Igreja; a Igreja tem estado na grande tribulação, mas agora foi morta. Por isso, Deus chegou ao limite da paciência com igrejas e pastores e eles não têm mais autoridade. Obviamente, uma premissa equivocada que leva a conclusões no mínimo questionáveis.
Todos esses arrazoados místicos estão no núcleo da teologia católica, e deles bebem muitos evangélicos que adotam o dominionismo, a teologia da prosperidade e outras aberrações. Portanto devemos ficar alertas com esse método, tendo muito cuidado com a forma de interpretar a Bíblia, como veremos a seguir.

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Curiosidades
Os estóicos se reuniam sob os pórticos (“stoa”, em grego) dos templos, mercados e ginásios, e ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento; e que um sábio, ou pessoa com “perfeição moral e intelectual”, não sofreria dessas emoções; daí associarmos a palavra “estóico” a uma pessoa paciente, que não se abala. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino; a alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos harmônico.
Fílon de Alexandria também defendia a doutrina estóica do logos, a qual mais tarde infiltrou-se no Cristianismo. Para Fílon, o logos é a própria Lei (Torah), a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Por isso muitos identificam no início do Evangelho de João algumas semelhanças com o pensamento de Fílon.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O que está por trás dos dias de

A igreja católica romana tem como premissa o culto aos chamados “santos”, pessoas virtuosas que são “canonizadas” após a morte e, por estarem próximos a Deus, poderiam realizar milagres. O Brasil, apesar de ser considerado o país mais católico do mundo (cerca de 64% da população, segundo pesquisa), só tem dois “santos” nativos; mas, além do montão dos canonizados oficialmente, existem inúmeros outros, como a alegada “padroeira”. Para homenagear essa santaiada toda é que existe o dia “de todos os santos”.
Através dessa comemoração Roma pretende aproximar seus fiéis de Deus, com o seguinte arrazoado: como os “santos” foram pessoas de carne e osso, que tiveram condutas exemplares, todos têm potencial para tornarem-se santos. A “homenagem aos santos” geralmente é no dia do aniversário de suas mortes, mas como há mais “santos” do que dias no ano, os menos famosos que caem na mesma data de um “best-seller” acabam ofuscados. Para resolver esse problema, o “papa” Bonifácio IV criou uma espécie de aniversário coletivo, para acender velinha para todo mundo numa batelada só. Isso foi no século VII, e a data escolhida foi 13 de maio. No século seguinte, mais precisamente no ano 835, o “papa” da hora, Gregório III, atropelou a norma que diz que o “papa” é infalível em assuntos eclesiásticos, decretou que Boni 4 estava errado e o certo era 1º de novembro.
Dizem os historiadores – veja bem, não sou eu que estou dizendo, depois não digam que estou acusando, fazendo fofoca, intriga, que sou “cismático” etc. – historiadores afirmam que o principal objetivo da mudança da data foi para que ela passasse a coincidir com o Samhain – o ano-novo dos bruxos (que deu origem ao Halloween), e dessa forma atrair pagãos (possíveis novos fiéis) para a fé católica. Para o 13 de maio colocaram Maria no lugar, e de quebra disseram que esse agora era o dia “das mães”.
Como dizia uma lenda, no 1º de novembro demônios e espíritos malignos andavam livres pelo mundo, voltando às regiões abissais à meia-noite do “finados”. Assim o dia “das bruxas”, Halloween, como véspera “de todos os santos”, seria uma espécie de preparação para enfrentar e repelir o mal no dia seguinte. Confira a informação aqui. E assim a crença da “volta dos mortos” foi incorporada (hum hum mizinfi!) ao folclore católico, como veremos adiante.
Essa celebração mezzo-cristã/mezzo-pagã – como, aliás, é a maioria das festas católicas, um mix de cristianismo com paganismo, doa a quem doer – aproveita e homenageia a granel todos que “morreram em estado de graça” e não foram canonizados, e portanto, não têm um dia específico. Aliás, vou escrever um artigo sobre como surgem as crendices que transformam personagens bizarros e lendários em “santos” (como estes dois aqui), e como a igreja católica acaba patrocinando esquisitices, aceitando misturas até com religiões africanas. Aguarde que tem mais.
Olha só que curioso: em Portugal, no dia “de todos os santos”, crianças saem à rua a pedir o “pão-por-Deus” de porta em porta, recitando versos e recebendo em troca pão, broas, bolos e frutas como nozes, amêndoas e castanhas, que guardam em sacolas. Lembra alguma coisa? É também costume em algumas regiões oferecerem um bolo, o “Santoro”, e nesses lugares a data também é conhecida como “dia dos bolinhos”.
“Todos os santos” não é feriado, mas muitos tiram o dia para ir a “missas especiais” em honra dos “santos”, e até aproveitam para dar uma esticada ao cemitério limpar sepulturas, levar flores e aprontar tudo para o dia seguinte, 2 de novembro, “finados”.
Assim, vemos que o dia “de finados” é mais um resultado da mixórdia católica que, desde longa data, vem bolando estratégias de marketing para atrair e manter fiéis a qualquer custo. Mesmo que o crescimento numérico comprometa a sã doutrina – e agora os neo-evangélicos adotam essa tenebrosa barganha: desde a fusão da igreja cristã ao Estado romano, foram adotados crenças estranhas e costumes de vários povos. Rezar pelos antepassados junto aos seus túmulos é apenas um exemplo: no século XI isto foi oficializado pelos “papas” Silvestre II, João XVIII e Leão IX. Eles disseram que era para dedicar um dia por ano aos mortos, e o 2 de novembro foi institucionalizado a partir do século XIII como o dia “dos finados”.
Desde então as pessoas vão ao cemitério levar flores, acender velas, rezar pelos defuntos, em missas em nome dos falecidos – um grande negócio para a igreja, pois essas missas costumam ser cobradas, não são baratas, e como todo mundo quer seus parentes livres do “purgatório”, imagine só a indústria de exploração da fé que se formou. Por isso os homens de preto mantêm como pilar sagrado esse “purgatório”, pois no dia que o povo descobrir que é uma balela sem fundamento bíblico, a casa cai. E com ela o comércio paralelo de velas, flores, lanches, terços, imagens, bibelôs, enfeites, camisetas, cartõezinhos... um lucro enorme vai para o saco.
Vela, por exemplo, uma bobagem. Os católicos crêem que o testemunho daquele que morreu fica como luz acesa no coração de quem continua a peregrinação. Por isso acendem velas no dia “de finados”, para celebrar e perpetuar a luz do falecido.
No México fazem uma verdadeira festa e preparam um banquete. Segundo a tradição, nos dias 1º e 2 de novembro, Deus deixa os mortos visitarem seus familiares ainda vivos, e lhes permite comer e beber aquilo de que mais gostavam. No dia 1º chegam as crianças falecidas, e por isso chamam a data de “dia dos santos inocentes”: preparam um altar com doces, brinquedos e velas para iluminar o seu caminho de volta à terra. No dia 2 chegam os adultos. Para ter a certeza de que encontrarão o caminho do cemitério até suas casas, espalham pétalas de flores e velas pelas ruas. No altar preparado pela família, o morto encontrará as oferendas feitas pelos seus parentes, com os seus pratos favoritos em vida. 
Se isso é cristianismo, então danou-se.
A igreja católica aceita tudo isto como válido, e é por isso que eu digo que ela não é cristã. Ou uma coisa, ou outra. A base do ensino cristão é a Bíblia, e a Bíblia não ensina nada disto! Pelo contrário, somos instruídos a evitar esse tipo de mistura:
Nada de orações a quem já morreu: “Não vos voltareis para os que consultam os mortos nem para os feiticeiros; não os busqueis para não ficardes contaminados por eles. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 19:31);
“[não haverá entre vós] nem encantador, nem quem consulte um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos” (Deuteronômio 18:11).
Devemos seguir um único caminho: “E Elias se chegou a todo o povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; mas se Baal, segui-o” (I Reis 18:21);
“O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Deuteronômio 30:19);
“Vós sabeis que, quando éreis gentios, vos desviáveis para os ídolos mudos, conforme éreis levados” (I Coríntios 12:2).
Nada de oferecer coisas a mortos: “Nós pecamos, como nossos pais; cometemos a iniqüidade, andamos perversamente. Nossos pais não atentaram para as tuas maravilhas no Egito, não se lembraram da multidão das tuas benignidades; antes foram rebeldes contra o Altíssimo junto ao Mar Vermelho... Também se apegaram a Baal-Peor, e comeram sacrifícios oferecidos aos mortos. Assim o provocaram [a Deus] à ira com as suas ações; e uma praga rebentou entre eles... se misturaram com as nações, e aprenderam as suas obras” (Salmo 106:6, 7, 28,29, 35).
Não invente “rainha do céu” nem ofereça “homenagens”: “Os filhos apanham a lenha, e os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazerem bolos à rainha do céu, e oferecem libações a outros deuses, a fim de me provocarem à ira” (Jeremias 7:18).
Deus abomina os ídolos – e no fundo, esses “santos” são ídolos: “... porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos entre vós, e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro” (I Tessalonicenses 1:9);
“Os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, não se arrependeram das obras das suas mãos, para deixarem de adorar aos demônios, e aos ídolos de ouro, de prata, de bronze, de pedra e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar” (Apocalipse 9:20).
Quer mais? Clique aqui.

Insistir nessas práticas é querer inimizade com Deus.
Doa a quem doer.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Zoologia - ou zoofilia? - evangélica

Fechando a trilogia que começou com o marketing evangélico e continuou com a numerologia evangélica, agora vou falar de outro fenômeno não menos recente, mas certamente mais bizarro: a zoologia - ou seria zoofilia? - gospel.
Em seu ministério, Jesus usou alguns exemplos da natureza, tanto do reino vegetal – a semente de mostarda, o campo de trigo – como do reino animal: os peixes capturados numa rede, as ovelhas e seu inimigo, o lobo, as pombas e as serpentes, etc. Esse método de ensino se justifica porque seu público mais próximo era um povo simples, que teria facilidade em entender esses símbolos e parábolas. Isto é a essência do Evangelho, a simplicidade. Talvez por causa disto, dentre outras razões óbvias, seus opositores mais intelectualizados tenham se sentido ofendidos em sua erudição.
Mas hoje os novos “apóstolos” descobriram o filão do misticismo e, ao lado da numerologia, que discutimos semana passada, também fazem larga utilização de figuras de animais. Não se contentam em ser comparados por Jesus a ovelhas. Não, de jeito nenhum. Ovelha é um bicho idiota demais. Não tem direção, perde-se facilmente, precisa de alguém para lhe guiar, lhe dar alimento e lhe proteger de predadores, como os lobos. Os crentes de hoje não são assim! Isso equivale a ser um derrotado! Não. O crente de hoje é um vitorioso, habita a sala do trono, vive todo babado diante do trono, e não pode ser esse animal lerdo não. 
Os crentes de hoje se acham mais inteligentes, evoluídos e sofisticados, e então extrapolaram para bichos mais de acordo com sua posição de vitória, como leões e águias. Bichos fortes, valentes, que vivem por cima, no alto, dominando, urrando por aí afora.
Já ouvi pregações exaltando o contraste entre águias e galinhas. “Temos que ser como as águias”, dizem, “que quebram o bico nas pedras de tão valentes que são, e não como galinhas que vivem ciscando, olhando para o chão”. Interessante analogia do ponto de vista motivacional e para a auto-estima, mas Jesus disse que teríamos que ser não como as águias, mas como as pombas: simples e puras, não valentes e machonas... e de mais a mais, essa comparação de águia com galinha foi retirada palestras motivacionais de cunho neuro-lingüístico, aquela técnica que diz que, de tanto repetir para si mesmo coisas positivas, você acaba acreditando mesmo e as coisas acontecem. Mais esotérico do que isso, vai ser difícil. Um conhecido palestrante que usa esse exemplo em seus livros “nova-erenses” é o ex-padre Leonardo Boff (veja aqui). E a pastorada copiando, vendendo aos incautos a idéia como se fosse sua (veja aqui).
Da mesma forma o leão. O cyberespaço está cheio de sites “proféticos” conclamando a cristandade a ser como leões, com os dentões para fora, urrando na orelha uns dos outros.
Igualzinho ao que acontece com os números, esses profetóides pegam um bicho aqui e outro ali para dar a eles um sentido místico, de poder e de “unção”. Não sei se temos que ser como leões ou imitar leões. Leão, para mim, só existe um na Bíblia. A bem da verdade, tem um outro que o imita, e fica em derredor... por isso não quero ser um arremedo de leão, uma cópia de leão. Tenho que ser ovelha. Jesus disse que o bom pastor (que é Ele mesmo) daria a Sua vida pelas ovelhas, não pelos leões... Aliás, todos, inclusive os “líderes”, têm que ser mesmo é ovelha, nem que seja por uma semana (leia aqui)... e isso exclui também a águia valentona, temível: tenho que ser é como uma pomba. Pelo menos foi o que o Leão de Judá ensinou.
Posso enxergar duas coisas nessa prática pós-moderna:
1 - um reflexo da má interpretação da “batalha espiritual”, que já vimos antes, onde, quando a Bíblia ensina a ficarmos firmes, os moderninhos ensinam a ser agressivo e atacar, rodear a cidade, fazer mapeamento, “atos proféticos” e outras inovações estranhas ao ensino dos apóstolos (os de verdade, não os modernos que andam de jatinho e caminhonetes de luxo). Batalha espiritual não é isto, já discutimos esse assunto aqui e aqui. Assim, é até certo ponto previsível, nessa teologia rasa, que não se queira ser identificado com um bicho tão manso como a ovelha ou uma pomba, e sim com seus contrapontos, o leão e a águia.
2 - por outro lado, há claramente uma goteira por onde se infiltram crenças orientais, em que alguns procuram se identificar com animais para lhes extrair as virtudes ou capacidades que lhes atribuem. São conhecidas de todos as práticas de yoga onde se assumem posturas de determinados animais, e certas artes marciais cujos golpes são associados a bichos ferozes, inclusive com seus berros associados a cada gesto.
O resultado disso tudo é gente imitando bichos, para vergonha do evangelho, como neste vídeo ridículo que já rodou o mundo todo, quase travou o Youtube e já foi muito debatido:

Até o pessoal que toca na banda achou esquisito... o cara que toca violão faz uma cara de espanto aos 3min30seg, mas... deixa pra lá... tsc, tsc.
Acho que chega.
Para terminar a trilogia, dê uma olhadinha nas páginas de escândalos dos jornais e verá muitos “líderes religiosos” que estão mais para lobos e abutres do que para leões e águias.
Contentemo-nos em ser como Jesus mandou: como ovelhas e pombas.
Não águias e leões, doa a quem doer.
Sede simples como as pombas. Mateus 10:16.
Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas... Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. João 10:11,14,15.

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- atualizado em 17/11/2014

sábado, 13 de novembro de 2010

Numerologia evangélica

O conteúdo da Bíblia é em grande parte profético: trata de coisas que ainda não aconteceram mas já estão anunciadas. Cerca de 1/3 das Escrituras é de caráter profético. Temos muitas razões para crer que o que está predito há de se cumprir cabalmente, porque as profecias que já se cumpriram, o foram nos mínimos detalhes. Também é possível, por meio de regras de interpretação sérias, ter uma idéia razoavelmente precisa a respeito de determinada profecia, do seu significado, dos entes envolvidos etc.
Interessantes símbolos da profecia são os números. Deus dá certas “dicas” por meio dos números, como por exemplo, a questão da tribulação. Em Apocalipse há repetidas referências a um certo período de tempo, a saber, três anos e meio: no cap. 11: 2 (“Mas deixa o átrio que está fora do santuário, e não o meças; porque foi dado aos gentios; e eles pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses” – indicando que Jerusalém será dominada por forças de ocupação, provavelmente do Anticristo, devido ao contexto, durante esse tempo); e no cap. 13: 5 (“Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias; e deu-se-lhe autoridade para atuar por quarenta e dois meses” – que nos mostra que durante esse tempo o Homem do Mal reinará sob permissão de Deus). Conferir com Apocalipse 11:3 e 12:6, que guardam estreita relação com Lucas 4: 25 e Tiago 5: 17 (o tempo do Anticristo será de extrema dificuldade, apostasia e perseguição, como foi nos dias de Elias). E tem gente cantando para virem os dias de Elias sobre a terra... mas isto é outro assunto. 
Tudo bem.
Mas temos um problema quando alguns, ou melhor, muitos, se apegam aos números em si, e tentam atribuir a eles um aspecto místico ou mágico.
O número 12, por exemplo. Como Jesus teve 12 discípulos, inventou-se uma “visão de Deus” chamada G12 que imita grosseiramente o que Jesus fez. Essa tal “visão” não é nada mais nada e menos do que uma técnica de marketing, dentro do assunto já que abordamos  (“Marketing Evangélico”). Até empresas multinacionais como a Amway usam esse esquema para sua rede de distribuição: é o chamado “marketing de rede”. O G12, ou se quiserem, o M12, funciona da mesma forma: Cada pessoa que entra num grupo ou “célula” de 12 “discípulos” tem que logo formar seu próprio grupo de 12. O resultado esperado é um avanço em progressão geométrica. A primeira geração de 12 é seguida por uma segunda, de 144, que forma uma terceira, de 1.728, uma quarta de 20.736, e assim por diante. Não há nada de místico, profético ou divinamente inspirado nisso. Muito pelo contrário: para saber mais sobre o G12, leia aqui: http://bereianos.blogspot.com/2008/04/ponto-final-sobre-verdade-do-g12m12-e.html e descubra de onde veio essa idéia.
Já o 7 é ainda mais “forte”, como se uma campanha de 7 dias de oração tivesse todo o poder atribuído a esse número: é o número de Deus, o número da plenitude, da perfeição. Como Deus fez o mundo em 7 dias, e como o candelabro tem 7 braços, o povo deu 7 voltas e Jericó caiu, conclui-se que seja o número divino, e por isso com um poder especial. E assim por diante.
Vê-se que para fazer uma campanha ou um método de crescimento de sucesso basta escolher algum número bíblico e, em cima dele, forjar uma doutrina de mistério e poder sobrenatural.
Durante muito tempo fiquei encucado com uma tal “Campanha dos 318”, onde 318 “homens de branco” oravam pelas pessoas que compareciam a determinada igreja. Depois de muito matutar descobri que a campanha fazia referência aos 318 mercenários que Abraão recrutou para ir resgatar Ló. Até que é inteligente por parte da tal igreja, mas não custava nada explicar... os 318 iam resgatar os que estavam prisioneiros... gotcha?
Já o número 40 remete aos quarenta anos do povo hebreu e à tentação de Cristo no deserto. Também significa uma geração, segundo os videntes que procuram vincular o retorno de Jesus a 40 anos depois da restauração de Israel, por exemplo, o que daria 1988. Depois, como nada aconteeu, até uma pregadora do porte de Valnice Milhomens caiu na tentação de marcar a data para 2007, raciociando que depois da guerra dos Seis Dias, em 1967, mais 40 anos, daria 2007. Mais um tiro n'água.
E o número 70, então, significaria os enviados por Cristo. O fato é que qualquer número tem uma interpretação “profética”, um significado sobrenatural.
A Renascer, outro caso emblemático, reinaugurou o antigo “Espaço Renascer” em São Paulo. A obra de reforma durou 52 dias, e por isso o dono do empreendimento, “apóstolo” Hernandes, passou a se achar um novo Neemias, pois Neemias reconstruiu as muralhas de Jerusalém em prazo igual, 52 dias. Mas se a reforma do agora rebatizado “Renascer Hall” tivesse durado 49 dias, provavelmente ele diria que, como 49 dias são sete semanas, talvez a comparação fosse com o profeta Daniel. E se fossem 48 dias, diria que 4 mais 8 é igual a 12, número bem bacana: 12 tribos, 12 apóstolos, 12 portões da Nova Jerusalém, 12 pedras no peitoral do sacerdote. Se fossem 47, seriam os 4 evangelhos e os 7 braços do candelabro, uma soma do Antigo e do Novo Testamento, ou seja, a plenitude. Se fossem 42 dias, diriam que foram seis semanas e que agora se cumpriria a última das sete semanas proféticas, cheia de bênçãos.. Se a obra durasse 66 dias nunca diriam que o número é parecido com o do Anticristo, mas sim que a Bíblia tem 66 livros. Se fossem 51 dias, talvez dissessem que iriam se embriagar (no Senhor, é claro)... E toca o barco.
Há quem convoque para vigília de 12 horas (ao lado), com 12 pastores, 12 cantores e 12 orações, resultando em 12 meses de bênçãos. Mas se alguém fizer 13 ou 11 orações (de repente chegou atrasado, e não esteve nas 12 horas), será que a bênção para ele será reduzida? Ou aumentada? Gostamos de falar mal das religiões místicas, mas adoramos uma superstiçãozinha gospel!
Por que o fascínio por certos números? Quando se dá uma ênfase desnecessária a um método, transpõe-se para ele o poder para se chegar ao objetivo desejado. Dizer que tem que ir nas 40 semanas da campanha tal significa que, caso o fiel a siga à risca, terá sua bênção. Não passa de uma superstição grosseira, como um pé-de-coelho para dar sorte, ou de mandar rezar uma novena na igreja católica (ah, novena não pode, pois nove é número de satanista, já que 6+6+6=18, e 1+8=9)!
Além da superstição, há a clara alusão à uma barganha com Deus: eu fiz as 7 orações, então o Senhor tem que cumprir sua parte no acordo. Eu determino! Eu decreto! Eu declaro! Se a coisa dá certo, tome testemunho! Se não funciona, não tem problema: semana que vem tem uma nova, a dos 19 dias na presença de Deus, afinal 19 é 7+12, o que dá ainda mais força e poder...
Quando igrejas como a Quandrangular começaram a fazer campanhas décadas atrás, o intuito era simplesmente o de manter os fiéis “interessados”, freqüentes no culto, e também como meio de evangelização. Hoje a coisa degringolou de vez, tornando-se uma panacéia para a mesmice da igreja. Como falei na semana passada, uma ”Promoção de Vendas”. E com isso, a numerologia gospel é mais um ritual pagão em meio à Igreja de Cristo.
A mistura do cristianismo com o paganismo (ou gnosticismo) é muito antiga. O povo hebreu foi cativo no Egito e na Babilônia, incorporando o misticismo dessas culturas em seu culto doméstico, e isso foi motivo de exortação de Deus através dos profetas. Nos tempos de Jesus, os judeus ainda estavam envoltos numa atmosfera gnóstica, viviam sobre o poderio romano, e Paulo, em suas cartas, não se cansou de alertar sobre doutrinas estranhas ao Evangelho.
Já passou da hora de deixarmos de ser infantis espiritualmente, buscando as bênçãos e não ao Abençoador. Ir uma, duas, três, cem, mil vezes “à igreja” não nos fará mais ou menos merecedores de nada, mas mesmo assim Deus, em Sua infinita bondade, nos supre no que necessitamos, e muitas vezes nos leva a lugares nem sonhados. Busquemos o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais se acrescentará, e isso pode ser feito a todo o momento, não apenas faltando 7 minutos para a meia-noite ou durante 12 horas de vigília e oração.
Com informações do blog Uma Estrangeira No Mundo (http://estrangeira.wordpress.com/2009/07/22/numerologia-evangelica-quando-2-2-supersticao/)

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