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segunda-feira, 3 de abril de 2023

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Um grande abraço e que Deus te abençoe.


 

#Biblia #duvidas #estudobiblico #igreja #Deus #Cristo 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Cristão deve apoiar a pena de morte?

Reproduzo parte de um texto do prof. César Zanim, que retrata exatamente o meu sentimento.
Abro aspas:
Dois brasileiros foram condenados à pena de morte por fuzilamento na Indonésia, por tráfico de drogas. Um deles, Marco Archer Cardoso Moreira, foi executado em 17/01/2015. O governo brasileiro fez dois pedidos de clemência ao governo indonésio, tentando alterar a punição para evitar e pena capital, por questões humanitárias, mas não foi atendido. O outro condenado, Rodrigo Muxfeldt Gularte, também deverá ser fuzilado, em fevereiro de 2015.
A Indonésia tem uma das leis antidrogas mais rígidas do mundo, incluindo a pena de morte para o crime de tráfico. Quem for pego com mais de cinco gramas de droga pode ser condenado à morte, inclusive estrangeiros. E na Indonésia a maioria apoia a pena de morte, mas é pertinente salientar que com o passado recente desse país, sangrento e corrupto, era mesmo de se esperar. Para quem quiser saber mais sobre como o povo indonésio lida com a morte, indico os filmes de Joshua Oppenheimer (como por exemplo, este e este).
A pena de morte para crimes civis foi aplicada pela última vez no Brasil em 1876 e não é utilizada oficialmente desde a proclamação da república. Até então, o júri continuou a condenar pessoas à morte, ainda que Dom Pedro II comutasse todas as sentenças. O jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu“, sobre a pena de morte por enforcamento aplicada ao fazendeiro carioca Manoel da Motta Coqueiro (que era inocente), observa que a finalidade principal era reprimir e amedrontar os escravos – não à toa a punição foi retirada do Código Penal um ano depois da abolição da escravidão.
O inciso 47 do art. 5º da Constituição diz que “não haverá penas de morte, salvo em caso de guerra declarada”. Ou seja, a pena de morte no Brasil foi abolida para todos os crimes não-militares. O artigo 60 faz dessa abolição da pena de morte uma cláusula pétrea, ou seja, qualquer mudança no texto dependeria de uma Assembleia Constituinte que elaborasse uma nova Carta, algo bastante improvável.
Segundo uma pesquisa do Datafolha de 2002 a maioria da população brasileira queria a pena de morte no Brasil (45% contra e 51% a favor). Em 2008 essa pesquisa do Datafolha indicava empate técnico (46% – 47%), mas em 2013, 50% dos brasileiros acham que não cabe à Justiça determinar a morte de uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave. Outros 46% se disseram favoráveis à punição.  Essa tendência de declínio do apoio à pena de morte vinha sendo sentida também em outros países. Segundo um levantamento do Pew Research Center, o número de americanos que reprovam a pena de morte para condenados por homicídio passou de 31% em 2011 para 37%, em 2013, e segundo o Centro de Informações da Pena de Morte dos Estados Unidos, 2014 teve o menor número de execuções dos últimos 20 anos.
Mas aqui, desde junho de 2013, com a descrença nos políticos e decorrente queda nas pesquisas de aprovação da presidente Dilma, passando por todo o período conturbado da Copa do Mundo e culminando na campanha eleitoral de 2014, que escancarou de vez uma situação de conflito de ideias e confronto político numa sociedade cada vez mais dividida e agressiva, tudo pode virar motivo para mais lenha nas fogueiras. O fuzilamento do brasileiro na Indonésia conseguiu unificar esses dois temas: a pena de morte e a chamada guerra às drogas. Prato cheio para uma série de debates nada construtivos.
Na grande mídia o apoio à pena de morte e à guerra às drogas vem tomando espaço nos telejornais e na programação em geral. Nas redes sociais também tem muita gente se manifestando a favor da pena de morte e da guerra às drogas. Figuras públicas publicam coisas como “viva a polícia que mandou mais 4 bandidos para o saco”, e milhares – evangélicos inclusive talvez, principalmente – defendem, incentivam e/ou comemoram “a morte dos bandidos”. “Bandido bom é bandido morto”, repetem.
Quem nunca ouviu algo assim? Tenho visto esse tipo de coisa todos os dias nas redes sociais. Pois então, eu pergunto, o que é um bandido? E o dicionário me responde o que eu já suspeitava: Bandido é alguém mau caráter e de pouca honestidade que vive de atividades ilícitas.
Diversos canais religiosos, como por exemplo Gospel Prime, site do Pr. Marco Feliciano, Gospel Mais, comunhao.com.br, vcsabiacatolico.com.br, portalconservador.com, livreseradicais.com, levitasnews.com.br, entre outros, divulgaram matérias dizendo que a Arábia Saudita decretou a pena de morte para quem for pego com a Bíblia (um boato, como você pode ver aqui).
De fato, no Irã a “apostasia” e o adultério são punidos com a pena de morte. Em 2011 um homem chamado Abdolreza Gharabat foi condenado e executado por enforcamento porque estaria evangelizando jovens no sudoeste do país. Eu não consigo lembrar de qualquer mobilização a respeito aqui no Brasil (a favor ou contra). (Por estes dias se levantou um clamor em favor de cristãos no Níger, mas eles foram atacados em represália às palhaçadas do Charlie Hebdo e suas trágicas consequências – isto é outro assunto.)
Mas em todo caso, se você for um cristão brasileiro e for pego com a Bíblia em algum país islâmico, você também será um bandido e poderá ser condenado à pena de morte. Poderá ser dito que nesse caso é a lei desses lugares que é estúpida, pois usa a pena de morte de forma equivocada. Acontece que para a maioria dos indonésios, sauditas e iranianos, a lei deles é justa. Será que se fosse um brasileiro condenado à pena de morte por carregar a Bíblia na Arábia Saudita ou por adultério no Irã, haveria todo esse apoio à pena de morte e essa comemoração à morte do “bandido” em questão?  O crime é outro, não se trata de algo “grave” como tráfico de drogas, mas sob a ótica da legislação local, é um crime; afinal a lei do país é aquela.
Quem defende a pena de morte costuma argumentar usando o medo que se sente de um dia passar por uma situação nas mãos de um bandido, de um dia perder alguém querido assassinado, e que acha que todo mundo compartilha. Por isso tantas frases do tipo “eu queria ver você ser contra a pena de morte e defender bandido na mira de uma arma sendo assaltado”.
Quem defende a pena de morte afirma que se trata de uma medida para impedir crimes. Não impede, isso está comprovado. E nem me refiro ao assassinato do bandido perpetrado pelo Estado, como se vê nas tristemente comuns chacinas e massacres em rebeliões em prisões, ao que muitos cristãos comemoram, dizendo “bem feito”.  Nos países onde há a pena de morte os crimes continuam a ocorrer e em muitos deles inclusive aumenta, basta ver as estatísticas.
Um estudo publicado pelo Jornal de Lei Criminal e Criminologia da Universidade de Northwestern, em Chicago, mapeou as opiniões de 67 pesquisadores americanos que se especializaram nesse tema. Para 88,2% deles, executar detentos não tem qualquer impacto nos níveis de criminalidade. Segundo Joe Domanick, diretor do Centro de Mídia, Crime e Justiça da Universidade da Cidade de Nova York, “as pessoas que cometem os crimes mais violentos, que em geral são crimes de paixão ou acertos entre gangues, claramente não se preocupam com a pena de morte ao cometê-los”. Nos 36 estados americanos que adotam a pena, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes é maior que o registrado nos outros 14 estados que não a aplicam. Na França, especialistas em segurança pública garantem que a violência não explodiu depois que a guilhotina foi aposentada em 1977. No Irã, o exemplo inverso: a pena de morte foi reintroduzida em 1979 com a revolução islâmica, mas não significou redução das taxas de criminalidade.
Fecho aspas e escrevo eu agora:
Diante de tudo isso, e em especialmente depois de ver a reação de setores e indivíduos ditos “cristãos”, de regozijo pela execução do traficante brasileiro em um país islâmico, de história conturbada por corrupções de todo tipo, onde se aplica uma lei que é prejudicial aos cristãos que um dia forem chamados por Deus para evangelizar lá (ainda existe isso na Igreja brasileira, chamado missionário para países fora da Europa ou América do Norte?), fiquei muito triste.
Eu gosto sempre de pegar o exemplo dos primeiros cristãos, que foram considerados, grosso modo, criminosos. A partir de certa época, passaram a ser tidos como párias na sociedade a passaram a se reunir às escondidas. Não pensem os senhores que Roma era um paraíso e só os cristãos eram “caçados pela polícia”; não. Eram apenas “mais um tipo de bandido”. E eram condenados à morte, porque seu crime era dos mais abomináveis, traição à pátria, à religião (aos deuses antigos) e ao imperador.
Para se ter uma idéia, o historiador Tácito escreveu que os cristãos eram, para os romanos, “o que há de abominável e infame no mundo... uns foram revestidos de peles de animais ferozes e jogados aos cães pra serem devorados; outros eram pregados em cruzes; muitos foram queimados vivos, embebidos de matéria inflamável, acesos para servirem de tochas à noite” (Anais da Historia Romana, XV:44). Será que esses cristãos eram favoráveis à pena de morte, à sua própria morte? Aceitavam a pena, porque sabiam que algo muito melhor os esperava do outro lado, mas será que apoiariam a morte de “outros criminosos”?
Por exemplo, imaginemos um ladrão que tentasse assaltar o palácio do imperador e fosse pego. Imaginemos que fosse anunciado  a toda a população que aquele sujeito seria condenado à morte. Os cristãos apoiariam? Talvez não se manifestassem porque seriam pegos e por seu próprio “crime de traição” possivelmente teriam o mesmo destino, mas no íntimo, qual seria o sentimento dos nossos primeiros irmãos na fé? Seriam a favor do “olho por olho”, “aqui se faz aqui se paga”, ou seriam misericordiosos como Seu Senhor também fora, quando caminhava sobre a Terra?
Vibrariam intimamente de alegria ao ver o nosso ladrão nas chamas de uma fogueira, pendurado numa estaca e com as pernas arrancadas pelos leões no Coliseu? Ou chorariam arrependidos por não terem um dia compartilhado as boas novas da salvação com aquela alma irremediavelmente perdida?
Jesus foi condenado à morte. Mas “não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). Não criticou a lei, não fez campanha para mudar o legislativo ou a constituição, nem tampouco condenou o ladrão pendurado ao seu lado, sabidamente culpado de todos os crimes, diferentemente de Si. O próprio bandido admitiu sua culpa e a justiça de sua condenação: “nós, na verdade, [fomos condenados]com justiça; porque recebemos o que os nossos feitos merecem; mas este nenhum mal fez” (Lucas 23:41). Jesus o perdoou e nada disse a respeito da justiça ou injustiça das leis dos homens. Na verdade, Ele já havia dito antes que “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), com isso dizendo também que não devemos misturar as coisas terrenas com as celestiais, as leis terrenas com lá do alto. Ele disse que se deveria praticar “a justiça, a misericórdia e a fé” (Mateus 23:23), no mesmo versículo que alguns usam para justificar o dízimo. Muitos desses “dizimistas” pularam de alegria ao saber do fuzilamento lá do outro lado do mundo. Praticam o dízimo, mas omitem a misericórdia! Fariseus! Raça de víboras!
O mundo jaz no maligno (I João 5:19), e com isso, todas as realizações humanas – as artes, as ciências, os sistemas políticos, econômicos, judiciários – estão apodrecidas. As leis humanas nunca serão justas. Sempre veremos injustiças, e sempre haveremos de discordar disso ou daquilo. A lei brasileira é falha, e também a da Indonésia, dos Estados Unidos e da França, por mais que se tente vender o contrário – que lá fora é que é bom, mesmo na Indonésia e no Gabão, só aqui é que é tudo uma porcaria. A verdade é que TUDO é uma porcaria!
Mas a lei do Senhor é perfeita (Salmo 19:7). E ela nos ensina a ser misericordiosos, e não rancorosos. A desejar o bem, e não o mal. Isto é coisa do velho homem: “éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Efésios 2:3). Não temos que nos alegrar com a morte de um pecador, por mais mal que ele possa nos causar, ter causado ou vier a causar; mas sim lembrar que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (I Timóteo 2:4).


César Zanin é tradutor, professor, escritor e produtor. Seu texto original, que reproduzi em parte aqui, pode ser lido na íntegra neste endereço: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/pena-de-morte-e-guerra-drogas.html

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Contradições da Bíblia? 8

Uma lição em Levítico 11

Dúvida ou questionamento:
- Em Levítico 11, a lebre é tida como ruminante, o morcego como uma ave e menciona-se insetos alados com 4 pés.
Quando meu filho era bem pequeno, inventei uma brincadeira: eu dizia um nome de bicho bem estranho e ele tinha que adivinhar o que era. Assim, ele disse que gavial era um falcão, mutuca era uma vaca, mutum um tipo de pernilongo; geco seria uma espécie de pato, de burro ou um “jacarezinho”. Alguns animais tinham até detalhes: equidna era uma “galinha com espinhos”, manjuba um “macaco amarelo” e o carcará, um “cachorro magrelo do cerrado”. Outros ele nunca nem arriscou: taruíra, catita, társio, guariba... tinha mais, mas esqueci agora.
A questão em Levítico 11, sobre a proibição de se comer certos animais classificados como impuros, me lembra essa brincadeira de adivinhação. Já começo dizendo que a Bíblia não é um compêndio de Biologia, e talvez por isso o morcego, como “criatura alada”, pudesse ser facilmente incluído no “grupo das aves”. Eu faço caminhadas no fim da tarde, e costumo passar perto de parques bastante arborizados, bem na hora em que os morcegos saem. Quando passa um deles num vôo rasante perto de mim, quase não dá para saber se é um morcego ou uma coruja, que também tem muita por aqui. Não é difícil para ninguém dizer que o morcego é uma “criatura alada”.
O que classifica um animal como ave? Uma definição rápida de “aves” diz: “uma classe de animais vertebrados, bípedes, endotérmicos, ovíparos, caracterizados principalmente por possuírem penas, apêndices locomotores anteriores modificados [sic] em asas, bico córneo e ossos pneumáticos... Enquanto a maioria das aves se caracteriza pelo vôo... outras espécies perderam essa habilidade” (fonte). Ter asas, voar? O pinguim também tem “asas”, mas não voa; já o morcego, tem asas e voa. Botar ovo? O ornitorrinco bota ovo, tem bico e até pé de pato, mas não é ave. Ter penas... hummm... avestruz tem penas, bico, bota ovo, mas não voa. Já o kiwi tem bico e bota ovo, mas não tem penas (tem pelos), nem asas, nem voa... Ou seja, algumas características valem, outras não. Umas voam, outras não. Penas e asas, uns têm, outros não. Ter bico e botar ovo OK, mas outros animais também botam ovos, têm bicos e até asas; voam, mas não são aves. Alguns têm mais características de aves do que certas aves, mas não são aves. Problemão, hein? Olha só o rolo.
Se o texto de Levítico fosse escrito hoje, e o povo de Israel conhecesse um número maior de espécies animais do que naquela época, provavelmente o panda seria contado junto com os ursos, embora a ciência “moderna” diga que são completamente (?) diferentes, assim como a raposa é diferente do lobo, e esses dois do cão doméstico. Para mim são bastante similares, e para dizer a verdade, consigo ver nesses animais mais semelhanças entre si do que aquelas que alguns enxergam entre o Homem e o chimpanzé, que dizem ser 99% parecidos... Eu acho que não chega nem a 50%. Semelhança de 99% é entre a raposa e o lobo; ou o urso e o panda. E aliás, cá pra nós... Se o pingüim, que pouco tem a ver com uma “ave normal”, é assim classificado, o que é que tem incluir o morcego, “criatura alada”, junto com outros “animais voadores”?
A propósito, a palavra “ave” em hebraico é עוֹף (“owph” ou “ôph”) e se refere a: (a) animal que tem asas – no sentido de “alado”, “voador”; ou (b) que tem penas. No sentido exato do termo hebraico, o kiwi, cabeludo, sem pena e sem asa, seria “alado” ou “voador”? Por esse critério o morcego é mais “alado” e “voador” do que pinguim, kiwi e avestruz juntos. Isso é motivo para dizer que a Bíblia é uma fraude? Se tivesse pingüim em Israel, entraria no grupo das aves ou das criaturas marinhas? 3.500 anos atrás alguém diria que aquelas “barbatanas”, que só servem para nadar e são inúteis para o vôo, seriam “asas”? Duvido, mas se Moisés escrevesse que o pinguim era ave, os ateus estariam descendo a lenha nele há séculos, do mesmo jeito (pelo menos até alguém decidir que pinguim é mesmo “ave”). Eu tenho vontade de rir quando alguém diz que pinguim é ave, mas... fazer o que? E o golfinho, entraria como mamífero ou “criatura marinha”? Isso não importa, porque não interessava fazer uma enciclopédia. Interessava  dizer que alguns animais eram puros (e podiam ser comidos), e outros impuros (e não podiam ser comidos). Esse é o ensinamento que a Lei quer nos passar, e não que essa espécie possui exoesqueleto queratinoso, que essa outra é artrópode e aquela outra é tunicada, se tal bicho é eucariota ou procariota. Não é um compêndio de Zoologia. Apesar de Adão ter sido o primeiro taxonomista conhecido (Gênesis 2:20).
A lebre é a mesma coisa. Em hebraico, a palavra arnebeth ou shaphan serve para “lebre” e “coelho” (caso semelhante a Beemote e Leviatã, às vezes traduzidos como hipopótamo e crocodilo). Mesmo no século XVIII, o poeta inglês William Cowper, que observara longamente seus coelhos, comentou que eles “ruminavam o dia todo até a noitinha”. Linnaeus (Lineu, pai da moderna taxonomia), na mesma época, também cria que coelhos ruminavam. Ficavam mexendo a boca igual a um camelo! Mas depois descobriram que a lebre faz um processo chamado “reflexão”, em que certos vegetais indigestos são engolidos e depois “re-mastigados” (termos leigos), para que o animal possa digeri-los com maior facilidade, sendo muito semelhante à ruminação (ah, e também descobriram - depois - que o coelho, a lebre, o tapiti etc., eram monogástricos e não poligástricos como o camelo, o boi etc. Brilhante essa!). Assim, a frase hebraica “porque rumina” tanto pode ser a ruminação como a reflexão. O povo não conhecia os aspectos técnicos da ruminação, e poderia então considerar o arganaz e a lebre como puros. Como o judeu ia saber se o coelho era monogástrico ou poligástrico, se ele nem tocava no coelho? Por isso, foi necessário explicar que, mesmo parecendo ruminar, esses animais eram imundos por não terem as unhas fendidas. O importante era não confundir: é lebre ou coelho, então não coma. Me ajuda aí, né?
Moisés nunca trabalhou em zoológico (nem Noé), e não pretendeu informar a anatomia ou o DNA de cada bicho que havia. Ver Gênesis 7:2 – animais limpos e impuros, répteis, aves – e só. Mesmo hoje, com todo o “avanço científico”, fósseis de muitos dinossauros e “homens das cavernas”, tidos como autênticos, se mostraram fraudes burlescas; portanto, é justo criticar Moisés, que não era biólogo? O ornitorrinco, quando foi descoberto e levado à Inglaterra há 200 anos, muitos acharam que era uma fraude, um animal que não existia de verdade. Demoraram a achar um lugar para ele, e acabaram criando uma gaveta à parte, pois aquilo não combinava com nada.
O que diria Moisés sobre o ornitorrinco ou o kiwi? Muito provavelmente nós, criaturas modernas e científicas, acharíamos defeito na classificação mosaica, seja lá qual fosse... E nem falamos nesses bichos aqui...
Eu descobri recentemente que Aristóteles também classificava os animais segundo o seu habitat (aquáticos, terrestres e voadores). Sempre pensei que ele era um cara genial, mas parece que me enganei. Ele disse que a baleia era um “animal aquático” e o morcego uma ave. Então, se usarmos os mesmos critérios que se aplicam à Bíblia, concluiremos que: a) Aristóteles era um ignorante; b) não foi quem dizia ser; c) seus escritos foram alterados/editados por seus discípulos ao longo dos séculos; d) ou então ele não existiu, é uma invenção de filósofos carentes de sentido para suas vidas insignificantes e mesquinhas...
A taxonomia moderna não existia no tempo de Moisés. E desde Lineu e Buffon a coisa já mudou muito. Se daqui a 200 anos resolverem alterar os atuais critérios, e cismarem que o gafanhoto não é mais inseto, vão dizer que Bíblia está errada? Ou a Zoologia é que errou? A classificação científica é baseada em critérios humanos, e por isso, a cada nova descoberta, muda tudo (ou quase). Por exemplo, você sabia que o morcego e o cavalo agora são mais semelhantes entre si do que o cavalo e a vaca? Mais do que um gato e um cachorro. Pensava-se que os morcegos eram primatas, mas não, eles agora estão no mesmo grupo dos cavalos, baleias e toupeiras (link). Segundo este outro site, o kiwi era mamífero até recentemente... e não posso deixar de perguntar se o equidna é mais próximo do tamanduá ou do porco-espinho (dica: equidna é prototério, monotrema, mamífero... mas bota ovo!).
Como sempre tem evolucionistas de olho, poderiam até acrescentar algo ao debate. Desde que não seja um comentário enciclopédico... Os caras parece que não sabem resumir. Aliás, teve um aqui que não gostou de saber que a teoria da evolução perverte as leis da ciência, e escreveu dois artigos quilométricos em seu blog tosco. Achei estranho, pois expus minha opinião em quatro ou cinco parágrafos, e fui bem claro... já o cara gastou uns 50 parágrafos, e no final você percebe a verborragia técnica que não leva a nenhuma conclusão. É, amigo, haja coração... eu fui lá e li tudinho! Obs.: não é o Léo, que explicou muito bem o seu ponto de vista. É um outro cara.
Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Deus criou “cardumes de seres viventes... monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam... e toda ave que voa, segundo a sua espécie” (Gênesis 1:20-21). Será que então o pinguim, a avestruz e o kiwi - aves que não voam - não foram criados por Deus? Ele esqueceu de listar essas ou ave que não voa foi trazida de outro planeta por alienígenas?
Tenha santa paciência. O que seriam “monstros marinhos”? Godzilla? Mothra? O Kraken? Ou apenas baleias, lulas gigantes, cachalotes? Imaginar outro significado para “monstros marinhos” é viajar na maionese (só para ilustrar como a terminologia pode mudar com o tempo).
Aliás, por falar em monstros, ainda não entendi como o ovo do tiranossauro não quebrava, caindo de um metro de altura ou mais... ninguém ainda me mostrou uma “tiranossaura” agachada. Aliás, nem consigo imaginar como os tiranossauros acasalavam, aquela cauda grossona devia atrapalhar pra caramba... o triceratops idem... pense... mas nisso as pessoas acreditam sem pestanejar. E a bem da verdade, o triceratops parece mais com o mamífero rinoceronte do que com o réptil jacaré. Seria o mesmo caso do morcego e do cavalo? São parentes mas ninguém “descobriu” isso... ainda? E o canguru, tirando a pochete, não parece um tiranossauro? Será que vão “descobrir” isso um dia? Mas sobre dinossauros falaremos mais em outra ocasião.
Insetos alados? Eu já vi muitos e matei um monte a chinelada. Também já vi programas na TV dizendo que aranhas e escorpiões são insetos, e ninguém reclamou. Mas interessante é que o texto de Levítico diz claramente: “de todos os insetos alados que andam sobre quatro pés: os que têm pernas sobre os seus pés, para saltar com elas sobre a terra; isto é, deles podereis comer os seguintes: o gafanhoto segundo a sua espécie...” (etc.). Ora, se observar um gafanhoto, verá que ele tem quatro patinhas, como “pezinhos” com que se apóia e “anda”, e duas outras grandonas, com as quais salta! E o louva-a-deus: quatro “pés” apoiados e duas “mãos” com que agarra a presa... a descrição é correta, do ponto de vista de um “não-biólogo”.
Agora, confesso que nunca vi “solhão”, “hargol” e “hagabe”, outros bichos descritos no Levítico. Nem tenho a menor idéia do que seja “quebrantosso”, “xofrango”, “querogrilo” e “porfirião”, todos citados no capítulo 11 (imagino que “xofrango” seja algo parecido com um frango, sei lá). Se alguém souber, pode me informar que eu agradeço e dou o crédito. Mas não vale olhar na Wikipedia. E como não sou judeu, talvez eu peça um desses assado em algum restaurante por aí, já que o leitão e a lebre eu já experimentei (gafanhoto ainda não, obrigado). Não consigo parar de pensar no equidna, na tiranossaura e na brincadeira de anos atrás...
Isso tudo, para mim, é procurar um conjunto de papilas dérmicas cimentadas que formam um filamento queratinizado em forma de protuberância, na caixa craniana dos mamíferos hipomorfos, cordados, da ordem dos ungulados perissodáctilos, da família Equidae, gênero Equus e espécie ferus, subespécie caballus.
Mas sabe qual é a lição que tiramos aqui? O que tudo isso tem de relevante para nós, hoje, nós que não somos judeus ortodoxos, cristãos do século XXI que não estão debaixo da Lei Mosaica? Já que o sentido direto do texto não se aplica a nós, aí sim buscamos outro significado, aplicando um pouco da interpretação alegórica ou simbólica, como vimos aqui. E é este: os animais puros e impuros são exemplos para nós! Devemos ser como os animais puros, os que ruminam e possuem casco fendido. O “ruminar” significa que o nosso alimento (espiritual), a Palavra de Deus (cf. Deuteronômio 8:3, Lucas 4:4 e Mateus 4:4) deve ser não apenas engolido rapidamente, mas “ruminado”, “digerido” lentamente. Isto é, precisamos meditar na Palavra para poder extrair dela tudo que ela tem para nós, até a última fibra. E o casco fendido significa que precisamos deixar nossas pegadas bem claras e discerníveis por onde andarmos. Onde passamos deve ficar uma marca para os vêm depois, uma trilha, um caminho, um testemunho de vida.
De nada adianta uma coisa sem a outra: não vale nada o nosso testemunho se não estamos ruminando a Palavra - casco fendido, mas não rumina, é abominação, impureza. E também, se ruminamos, meditamos, absorvemos a Palavra, mas não damos testemunho de Cristo, somos como um animal impuro: ruminamos, mas não deixamos nossa marca no mundo.  Não valemos nada.
Esta é a lição de Levítico capítulo 11 para cada um de nós.  
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terça-feira, 18 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (6)

Símbolos, tipos e figuras de linguagem

Para se compreender devidamente a linguagem bíblica, certas particularidades precisam ser examinadas com cuidado. Os tipos, por exemplo, devem ser interpretados com base nas características similares, isto é, devemos confrontar o tipo e o seu antítipo para entendê-los corretamente. Um tipo sempre tem um antítipo, e são semelhantes em pelo menos um aspecto. Adão era um tipo do qual Cristo era o antítipo; mas não seríamos capazes de julgar em quais aspectos enquanto o próprio Cristo não viesse. Da mesma forma Eva é um tipo da Igreja, mas isso só pôde ser entendido quando surgiu a Igreja. As sete igrejas de Apocalipse também são tipos das congregações cristãs que surgiram no mundo desde a era apostólica. Mas só recentemente esse entendimento se tornou claro.
Os símbolos, por outro lado, podem ser entendidos antes de seu cumprimento, desde que seu sentido seja indicado de algum modo. Em Apocalipse, por exemplo, temos os candeeiros e as estrelas (1:20), as bestas que saem da terra e do mar (cap. 13), a mulher vestida de escarlate (cap. 17). Cada um desses elementos tem sua explicação própria e podem ser decodificados.
Às vezes a linguagem literal é mais difícil de entender do que a linguagem figurada, pois os profetas precisaram usar palavras de seu próprio tempo para descrever coisas que só existiriam no futuro, e com o tempo, as palavras mudaram de sentido, mas os símbolos não. Há termos que parecem símbolos (como em Apocalipse), em que muitos estudiosos se enrolam ao desconsiderar que João foi a um lugar onde nunca havia estado antes, e viu coisas que nunca havia visto na Terra. Essas coisas precisavam ser explicadas com palavras: coisas reais, mas não terrenas. Os cavaleiros, por exemplo, não são símbolos, mas algo que correspondia aos meios de locomoção de um exército da época. Trombetas, taças, vestes, coroas, tronos, são todos reais;
mas quando os virmos talvez não os achemos parecidos com objetos feitos na Terra. Não conhecemos nem uma palavra celestial sequer. O melhor que João pôde fazer, em Apocalipse, foi encontrar algo que correspondesse o mais próximo possível ao que ele via, expressando realidades celestes com palavras terrenas. Mar de vidro, por exemplo (4:6 e 15:2).
Mas algumas dicas nos ajudam a elucidar a linguagem simbólica. Uma delas é que a ação é sempre literal. Somente o sujeito da ação é simbólico. Basta você descobrir o significado do símbolo e aplicar a ação. Por exemplo, em Mateus 13, a pessoa ou o que a mulher representa, pegou o que o fermento representa e colocou no que a farinha representa. Em Apocalipse 12, a pessoa ou aquilo que a mulher representa, deu à luz ao que o filho representa, e o que esse filho representa foi arrebatado ao céu. Para interpretar corretamente passagens simbólicas, é preciso entender um pouco sobre a natureza dos símbolos como um todo.
Os alegoristas acusam os literalistas de serem preguiçosos e preferirem a interpretação literal para poupar esforço. Mas desde o século II, com a escola de Antioquia, e durante a Idade Média, com os valdenses e anabatistas, o alegorismo tem sido rejeitado. Mesmo entre os “pais da igreja”, Teodoro de Mopsuéstia (350-428), Crisóstomo (354-407), Teodoreto (386-458), e Diodoro de Tarso: “Os livros de Diodoro de Tarso foram dedicados a uma exposição das Escrituras em seu sentido literal, e ele escreveu um tratado, agora lamentavelmente perdido, sobre a diferença entre alegoria e o modo espiritualizado de se ver [a Bíblia]” (F.W. Farrar, History of Interpretation, pp. 213 -15). 
William Tyndale, o tradutor da primeira Bíblia em inglês, a partir do grego e do hebraico, no século XVI, disse: “A Escritura tem apenas um sentido, que é o sentido literal. E este sentido literal é a raiz e o fundamento de tudo, e a âncora que nunca falha; se te ligares a ela, nunca poderás errar ou ir para fora do caminho. E se tu deixas o sentido literal, tu não podes ir senão para fora do caminho. Sim, as Escrituras usam provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias, como todos os outros discursos usam; mas o que os provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias significam, é algo em adição ao sentido literal, que deves procurar diligentemente” (citado por Charles Briggs em Introduction to the Study of Holy Scripture, pp. 456-57).
As Escrituras, como toda literatura, usam figuras de linguagem, que devem ser entendidas como tais. Uma metáfora é uma comparação de similaridades entre duas coisas diferentes, como nas palavras de Cristo durante a última ceia: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice: “Bebam dele todos. Isto é o meu sangue da aliança” (Mateus 26:26-28). Jesus quis dizer que o pão era literalmente Seu corpo e o vinho era literalmente Seu sangue? O senso comum nos diz: não. As Escrituras nos dizem claramente que era pão e vinho que Jesus distribuiu, e não diz nada sobre eles terem se transformado literalmente em carne e sangue em algum ponto. Nem Pedro nem João, presentes na última ceia, reportaram tal coisa em suas epístolas, o que seria algo realmente digno de nota! Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo”. Para o próprio Agostinho, que como vimos aqui, era um dos mestres da interpretação alegórica, na Ceia Jesus nos deu “apenas o sinal de seu corpo”. A Confissão da Guanabara diz: “não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai”.
Alguns argumentam: “Mas Jesus disse que o pão e o vinho eram Seu corpo e sangue, então eu vou acreditar no que Jesus disse”! Mas Jesus também disse que Ele era a porta (João 10:9). Ele literalmente se transformou em uma porta com dobradiças e uma maçaneta? Jesus disse que era uma videira e que nós éramos os ramos (João 15:5). Ele literalmente se transformou em uma videira? Nós nos tornamos literalmente em ramos de videira? Jesus disse que era a luz do mundo e o pão que veio do céu (João 9:5; 6:41). Jesus também é a luz do sol e um pedaço de pão? Claramente, são figuras de linguagem – metáforas – uma comparação de coisas diferentes que guardam algumas similaridades. De algum modo, Jesus era como uma porta e uma videira; o vinho era como Seu sangue (em alguns pontos), e o pão era como Seu corpo (de certa forma). 
As parábolas são símiles, e sempre trazem a palavra como. Elas ensinam lições espirituais pela semelhança entre duas idéias. Precisamos nos lembrar disso; senão vamos cometer o erro de procurar significado em cada detalhe (como Orígenes na parábola do samaritano!). Há um ponto onde as similaridades acabam. Por exemplo, se eu disser à minha esposa: “Seus olhos são como lagos”, eu quero dizer que seus olhos são azuis, profundos e convidativos, e não que peixes nadam neles!
Outro exemplo de símile: “O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:47-50).
O céu e uma rede não são a mesma coisa. Mas assim como os peixes são separados em bons e ruins, assim será no reino de Deus. Um dia o perverso e o justo, que agora estão juntos, serão separados. Mas não podemos ir além da intenção do orador, assumindo que as diferenças são semelhanças. Peixes são selecionados se são comestíveis ou não. Pessoas são julgadas por sua obediência ou desobediência a Deus.  Por outro lado, os “peixes bons” acabam fritos ou assados, e os “ruins” voltam para a água... mas Jesus não mencionou isso! Teria ido contra Seu propósito. Os discípulos entenderam a lição (v. 51): os justos herdarão o reino de Deus e os perversos serão lançados no inferno, assim como os peixes bons são separados e os peixes ruins são jogados fora.
Essa parábola não ensina uma “estratégia de evangelismo”, onde tentamos arrastar todos para dentro da igreja, bons ou ruins, queiram eles vir ou não, ou estratégias para atrair o povo à igreja! Ela não ensina que é melhor ir evangelizar na praia. Não diz que o arrebatamento será no fim da tribulação. Não ensina que a salvação é uma escolha puramente divina de Deus porque os peixes não fizeram nada para serem escolhidos e nem decidiram por si. Via de regra as parábolas sempre vêm junto com seu significado (por exemplo, o joio e o trigo, o semeador etc.). Não force significados às parábolas!
A hipérbole (um “exagero” intencional) é outra figura de linguagem. Quando uma mãe diz ao filho: “Eu te chamei mil vezes”, é uma hipérbole. Na Bíblia: “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora” (Mateus 5:30). Se Jesus quis dizer literalmente que todos que pecassem devessem cortar a mão, então todos seríamos manetas! Mas não, Jesus está nos ensinando que o pecado pode nos mandar para o inferno, e evitamos isso removendo tentações e coisas que nos façam tropeçar, mesmo que nos pareçam importantes. Como vimos, Orígenes não soube interpretar corretamente esta passagem.
Outra figura é o antropomorfismo, onde características humanas são atribuídas a Deus para nos ajudar a entendê-Lo. Por exemplo, Gênesis 11:5: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre” [de Babel]. Isso é um antropocentrismo, porque não parece provável que Deus, onisciente, viajaria do céu a Babel para investigar o que as pessoas estavam construindo! Muitos acadêmicos consideram antropocentrismo todas as menções sobre “partes de Deus”, como mãos, pés, olhos e cabelo. Com certeza, eles dizem, o Deus todo-poderoso não teria tais partes como os humanos. Nem asas... Mas vemos que  Moisés, Arão, Nadabe e Abiú “viram o Deus de Israel, e debaixo de Seus pés havia como que uma calçada de pedra de safira, que parecia com o próprio céu na sua pureza. Deus, porém, não estendeu a Sua mão contra os nobres dos filhos de Israel” (Êxodo 24:9-11). Se você perguntasse a Moisés se Deus tinha pés e mãos, o que ele diria?
O profeta Daniel também teve uma visão de Deus: “Enquanto eu olhava, tronos foram colocados, e um ancião [Deus] se assentou. Sua veste era branca como a neve; o cabelo era branco como a lã. Seu trono era envolto em fogo” etc. (Daniel 7:9-10). Se você perguntasse a Daniel se Deus tinha cabelo e uma forma pela qual Ele pode sentar em um trono, o que ele diria? Deus Pai tem uma forma gloriosa que é de certa forma similar a forma de um ser humano, mesmo Ele não sendo carne e sangue, e sim espírito (João 4:24).
Então devemos rejeitar o alegorismo? Em parte sim, porque Deus deu as Escrituras para revelar a verdade ao homem, não para ocultá-la. A Bíblia foi dada para trazer luz, não confusão. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). Assim, nas Escrituras, Deus usa as regras normais da linguagem humana. O homem é feito à imagem de Deus, e assim foi dotado de habilidades comunicativas. O primeiro objetivo da linguagem humana é que o homem possa conhecer e se comunicar com Deus. Logo depois que Adão foi criado, não havia outros seres humanos com quem ele pudesse falar. Adão falava apenas com Deus, e é razoável supor que Deus desse ao homem a habilidade lingüística para que este pudesse comunicar-se com seu Criador de forma eficiente [completamente precisa].
Além do mais, as profecias sempre foram cumpridas literalmente (também neste link). Existem apenas duas situações, em todo o Novo Testamento, onde o método alegórico foi aplicado (I Coríntios 10 e Gálatas 4). São os únicos casos que mostram eventos do Velho Testamento como alegorias, sob a ótica do Novo Testamento.  No entanto, é totalmente diferente do que pregam os alegoristas, porque Paulo assume a existência literal de Hagar, Sara, a nuvem, o Sinai etc. Ele os cita como alegorias apenas para fins de ilustração, e nunca interpretou a profecia alegoricamente: tribulação literal (I Tessalonicenses 5:1-3), anticristo literal (II Tessalonicenses 2:8-12), ressurreição literal (I Coríntios 15), literal retorno de Cristo (I Tessalonicenses 3:13, 4:14), reino literal (II Timóteo 4:1), literal cumprimento de promessas de Israel (Romanos 11:25-27). 
Por tudo isso o método literal de interpretação da Bíblia é preferível e normal, pois é o modo pelo qual a linguagem humana é comumente interpretada. Deus tem revelado a Sua verdade através dos meios normais da linguagem humana. O sentido literal normal da Escritura deve prevalecer, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. Veremos isso quando falarmos sobre os animais puros e impuros, mais adiante, onde muito mais que informações biológicas e de zoologia, há uma lição espiritual para nós, hoje.

(fonte) (fonte)
Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987; Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000

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terça-feira, 11 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (5)

A interpretação alegórica

Mas há trechos na Bíblia que só podem ser devidamente entendidos se pudermos decodificar os símbolos, principalmente os de caráter profético; e este é um caminho complicado, pois muitos acabam presas fáceis de alegorias e simbolismos que mais confundem do que explicam.
O método de interpretação alegórica preconiza a máxima espiritualização da Escritura. A maioria dos textos teria uma espécie de “sub-texto”, entrelinhas misteriosas, cheias de simbolismos ocultos e passíveis de interpretações diversas. Assim, as profecias do Velho Testamento sobre um reino terrestre glorioso para Israel são consideradas alegorias da Igreja. “Sião” passa a significar a Igreja ao invés de Jerusalém. Vê-se “o deserto florescerá como a rosa” (Isaías 35) como uma imagem da expansão do Evangelho, ao invés de uma futura condição literal sobre a terra. Ezequiel 40-48 vira uma representação simbólica da Igreja, e não um futuro templo literal. Os acontecimentos em Apocalipse – os julgamentos sobre a terra, as guerras, as duas testemunhas, prisão de Satanás, são vistos simbolicamente, e não como futuros eventos literais. Os alegoristas dizem que os 144.000 não são realmente 144.000, e que o milênio não tem realmente mil anos. Veremos mais adiante que a maioria dos teólogos católicos adota esse método sem pestanejar - o que explica muita coisa, como você verá.
O método alegórico tem suas origens tanto no pensamento grego (que evitava a interpretação literal dos antigos mitos) quanto na literatura rabínica. Os estóicos elaboraram uma interpretação alegórica dos deuses, em que buscavam, além do texto, um significado mais profundo. Eles não usavam a palavra alegoria, mas, sim, υπόνοια (uponoia, cf. “suspeita”), uma forma de “comunicação indireta”, que diz algo para dar a entender outra coisa.
Entre os judeus, o nome mais proeminente nesse assunto é o de Fílon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.), um filósofo que tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz da filosofia grega e da alegoria, onde expôs a sua visão platônica do judaísmo. Foi como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à filosófica. Como, aliás, os gregos e depois os romanos haviam feito antes, tentando concatenar seus próprios mitos com os antigos mistérios egípcios.
Mas entre os cristãos, não se interpretava as Escrituras alegoricamente, pelo menos até o fim do século II.  A escola fundada em Alexandria se tornou o quartel-general desse método, sob a liderança de Panteno e depois Clemente e Orígenes. Alexandria era então o maior centro de estudos do mundo, local de reunião e estudo dos intelectuais mais proeminentes, com sua biblioteca de meio milhão de volumes; foi nesse ambiente de debate filosófico-teológico que Clemente achou em Panteno o mestre que tanto procurou. Converteu-se ao cristianismo e sucedeu ao mestre em 190, e misturou a filosofia de Platão com o Cristianismo. Como se sabe, o platonismo (e depois o neo-platonismo) enfatizava o conhecimento, como os gnósticos, e assim até mesmo a salvação pessoal dependia mais do conhecimento do que de Cristo. Clemente simpatizava com esses aspectos místicos e com o método alegórico, e a Escritura foi submetida a todo tipo de exercício metafísico, da mesma forma que Fílon fez com o Pentateuco – o que abriu espaço a doutrinas estranhas, como veremos adiante.
Clemente sentia-se mais à vontade com a filosofia do que qualquer outro mestre cristão, considerando-a o modo de Deus preparar os gregos para a vinda de Cristo. Por isso ele procurou integrá-la à fé cristã. Como os estóicos, ele cria que o verdadeiro cristão deve cultivar a sabedoria e ficar acima das paixões para se tornar semelhante a Deus. O verdadeiro conhecimento não está restrito a um único livro; pelo contrário, a Verdade divina está espalhada pelo mundo: “Há um rio da Verdade, mas muitos afluentes se encontram com ele, desse ou daquele lado”, escreveu.  Vemos aí uma semente de heresia, uma espécie de proto-panteísmo ecumênico ou coisa que o valha. E assim ele procurava interpretar as Escrituras: “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”.  Isso só pode ser obtido através do esforço e da fé do buscador, mas a essência da mensagem de Jesus estaria oculta, só compreendida pela interpretação alegórica ou simbológica. Segundo Eusébio de Cesaréia, Clemente fazia uso com freqüente de livros apócrifos, e dizia: “Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Por aí já se vê no que vai dar essa mistureba.
A partir de 202, a escola esteve sob Orígenes, que como Clemente e Panteno, acreditava na reencarnação e no karma. Entre suas idéias, derivadas do método alegórico, estão:  o celibato como estado santo e superior ao casamento; a vida ascética, contrária ao exemplo dos apóstolos; tentativa de conciliação da filosofia pagã com o Cristianismo; regeneração batismal; purgatório; todos os homens e até mesmo Satanás e demônios, eventualmente, seriam salvos (Cristo, na sua expiação, fez um resgate de Satanás); o Espírito Santo foi a primeira criatura feita por Deus; Jesus Cristo não é plenamente Deus. Eusébio atesta na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”.
Para Orígenes, assim como para muitos pseudo-intelectuais “modernos”, a Bíblia contém erros. Entendia ele que “intercalados com histórias reais estão acontecimentos que não aconteceram, que algumas vezes não poderiam acontecer e que algumas vezes poderiam acontecer, mas não aconteceram” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 138). Quando ele não conseguia entender uma passagem, ou tinha dificuldade para crer em algo, tentava uma interpretação simbólica. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Veja, por exemplo, a confusão que ele arranja com o bom samaritano. O homem assaltado é Adão; Jerusalém é o Paraíso e Jericó, o mundo. Os ladrões são os demônios, o sacerdote é a Lei e o levita simboliza os profetas. O samaritano é Cristo, as feridas a desobediência, a hospedaria é a Igreja, a promessa de retorno do samaritano é a volta de Cristo. Até aí tudo bem, mas então começa a confusão: ele continua dizendo que o burrinho é o corpo do Senhor, os dois denários são o Pai e o Filho (que vão cuidar do ferido), e o hospedeiro é o cabeça da igreja (“o papa”?). Como Jesus pode ser ao mesmo tempo um dos dois denários, o samaritano e o jumento? É muito mais lógico e coerente que o hospedeiro seja o Espírito Santo, que vai cuidar do homem até o samaritano retornar, e nem sei se precisamos procurar significado no jegue. Além do mais, podemos inferir que os dois denários são o Antigo e o Novo Testamentos, ou os mandamentos principais (amar a Deus e ao próximo), ou a fé e as obras... ou então que o levita e o sacerdote são as religiões institucionalizadas que não fazem caridade... etc... Não é preciso buscar sentido oculto em tudo. Tudo isso é legal e bacana como exercício investigativo, mas obviamente, o principal é o sentido literal – fazer o bem sem distinção de pessoas e não passar ao largo, como o levita e o sacerdote. Hall (op.cit.) opina que “embora o sermão de Orígenes seja muito interessante e homileticamente rico, a dúvida é se essa interpretação é correta e afinal, satisfatória. Como saber se Jesus pretendeu que a parábola do samaritano fosse interpretada alegoricamente?... os filósofos gregos haviam feito assim ao estudar as obras de Homero... Orígenes fez o mesmo com a Bíblia” (pg. 140/141).
Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Apesar de o método alegórico enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos, na prática Orígenes fez o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou Mateus 5:28-30 ao pé da letra e castrou-se. Orígenes foi descrito por Mosheim como “um composto de contradições: sábio e insensato, perspicaz e estúpido, criterioso e não criterioso; o inimigo da superstição, e seu protetor; um fervoroso defensor do Cristianismo, e seu adulterador; enérgico e irresoluto; um a quem a Bíblia deve muito, e de quem ela tem sofrido muito”.
Um outro grande disseminador do alegorismo foi  Agostinho (354-430), também um dos “pais da igreja”. Alguns ensinos danosos ao Cristianismo original, com base em suas interpretações alegóricas, foram: os sacramentos como meio de salvação; o batismo infantil, alegando que as crianças não batizadas estavam perdidas, e chamando todos que rejeitavam o batismo infantil de “infiéis e malditos”; que Maria não cometeu nenhum pecado. Como Orígenes, acreditava em purgatório; a autoridade da Igreja estava acima da Bíblia; e o amilenismo (ou amilenarismo), ensinando que a igreja católica é que era o reino de Deus. Nota – igrejas evangélicas que hoje pregam “domínio da nação”, “conquista de cidades”, “atos proféticos para conquistar territórios”, estão repercutindo a teoria amilenista católica/agostiniana, pois não crêem na Vinda de Cristo para implantar o Seu reino milenar na Terra. Acreditam que a Igreja substituiu Israel (“teologia da substituição”) e deve governar o mundo, aqui e agora. Por isso “determinam”, “decretam”, “reivindicam”, “estabelecem” coisas como a prosperidade, o governo etc. Cuidado. Tudo isso é derivação de interpretações alegóricas.
Para Agostinho, ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido oculto se pode aproximar da Verdade divina, sem nunca alcançá-la totalmente. Mais tarde, Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção entre a alegoria teológica (que não seria um artifício retórico mas sim uma visão particular do Universo) e a alegoria secular ou literária. O uso de alegorias se espalhou por outros campos: tornou-se comum na arte medieval o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, obedecendo a complicados esquemas alegóricos, pois acreditava-se que tudo deve significar algo mais do que o simplesmente observável. A literatura desse período também é muito influenciada por esses conceitos, como “A Divina Comédia”e outros textos da época.
Conceitos que ecoam até na Bíblia de Genebra, onde há uma nota em Apocalipse 9:11 identificando o “anjo do poço sem fundo” como “anticristo, o Papa, rei de hipócritas e embaixador de Satanás”. Porém não há razão para se ver esse anjo senão como um anjo caído literal em um buraco literal, e não um símbolo ou alegoria. 
Também o
 Lion Handbook of the Bible (1983), em sua interpretação de Apocalipse 13, diz que as duas bestas são “o Império Romano e a adoração ao seu imperador”.
E o
 Illustrated Bible Handbook assume uma abordagem não-comprometida de Apocalipse, apresentando tanto o ponto de vista literal-futurista como o alegórico, mas sem expor as falhas deste último. Dizem seus autores que os 144.000 remidos são “um número perfeito (12 x 12 x 1.000), representando toda a Igreja de todas as épocas”. A morte das duas testemunhas “simboliza toda a Igreja silenciada pela perseguição”. Os 1260 dias (três anos e meio) são “simbólicos” e representam “períodos de aflição” passados por todos os crentes. Os 42 meses em Apocalipse 13:5 “representam a época do evangelho”. A prisão de Satanás (cap. 20) “aconteceu no nascimento de Jesus”! Essas interpretações esdrúxulas são as preferidas por quem quer complicar e não explicar, e assim mostrar que “cada cabeça uma sentença”. Por isso essas interpretações são as que costumam aparecer em programas sobre catástrofes apocalípticas do Discovery Channell e similares.
O falso profeta Harold Camping, recentemente falecido, depois de agendar o arrebatamento para várias datas – e não acertar nem uma – apareceu certa vez com uma interpretação bizarra: as duas testemunhas representam a Igreja; a Igreja tem estado na grande tribulação, mas agora foi morta. Por isso, Deus chegou ao limite da paciência com igrejas e pastores e eles não têm mais autoridade. Obviamente, uma premissa equivocada que leva a conclusões no mínimo questionáveis.
Todos esses arrazoados místicos estão no núcleo da teologia católica, e deles bebem muitos evangélicos que adotam o dominionismo, a teologia da prosperidade e outras aberrações. Portanto devemos ficar alertas com esse método, tendo muito cuidado com a forma de interpretar a Bíblia, como veremos a seguir.

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Curiosidades
Os estóicos se reuniam sob os pórticos (“stoa”, em grego) dos templos, mercados e ginásios, e ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento; e que um sábio, ou pessoa com “perfeição moral e intelectual”, não sofreria dessas emoções; daí associarmos a palavra “estóico” a uma pessoa paciente, que não se abala. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino; a alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos harmônico.
Fílon de Alexandria também defendia a doutrina estóica do logos, a qual mais tarde infiltrou-se no Cristianismo. Para Fílon, o logos é a própria Lei (Torah), a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Por isso muitos identificam no início do Evangelho de João algumas semelhanças com o pensamento de Fílon.

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