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domingo, 31 de outubro de 2010

Ovelha por uma semana

Fiquei uns dias num hospital para fazer um tratamento e, com tempo de sobra e uma TV à disposição, tive a oportunidade de zapear à vontade, até descobrir alguma coisa interessante. Um dos programas que mais gostei chama-se “Undercover Boss”, ou “O Chefe Disfarçado”, algo assim.   
É o seguinte: altos executivos passam uma semana trabalhando como operários comuns em suas próprias empresas, fazendo as tarefas mas simples, algumas até nojentas, como limpar privadas, recolher lixo, etc. O objetivo é conhecer de perto a realidade da empresa e assim melhorar tanto métodos e rotinas como também as condições de trabalho dos empregados. Quase sempre deixam crescer a barba, passam a usar óculos de lentes grossas, mas sem grau, para esconder a cara, e em climas frios até usam toucas ou bonés. Os únicos que sabem da “tramóia” são os outros gerentes e diretores, que, obviamente, guardam segredo. Quando saem do escritório e pisam o chão da fábrica, não raro, esses executivos aprendem coisas que nenhuma universidade ou gabinete exclusivo com ar-condicionado e secretária particular jamais lhes ensinariam. 
Como por exemplo, um cavalheiro inglês, presidente de uma empresa de reciclagem de lixo, que trabalhou vários dias numa filial, no interior do país. Como ele ali era um completo desconhecido, colocaram-no para trabalhar com um funcionário mais experiente na tarefa que lhe designaram. Ele descobriu então que esse empregado era portador de câncer, e se negava a tirar licença médica e usava as próprias férias para se tratar em Londres, uma vez por ano. Numa outra filial, pôde ver de perto as condições precárias de banheiros, vestiários e refeitórios, e depois que retornou à matriz, fez reuniões com os seus diretores para melhorar o que havia visto e vivido. Só depois convocou os empregados com quem havia trabalhado e se deu a conhecer. Aí então lhes disse o que o motivara, o que os empregados faziam de bom e de ruim, e de quebra, lhes deu oportunidade para expor suas idéias e compartilhar experiências com colegas de outras unidades. E até mesmo promovendo-os a cargos de maior responsabilidade dentro da empresa, em razão de sua motivação, capacidade de liderança, criatividade e potencial.
Outro executivo, da Flórida, aprendeu com um empregado doente coisas importantes sobre motivação pessoal, descobriu como desempenhar as tarefas mais baixas com bom humor e dedicação, e viu funcionários mantendo ótimo relacionamento com os clientes, apesar das más condições de trabalho. Também pôde repreender maus supervisores e exigir deles respeito e consideração com os subordinados, tendo em vista melhorar o moral das equipes.
Uma idéia que sem dúvida faria melhorar muitas empresas brasileiras, pois muitas delas, públicas e privadas, têm suas diretorias tão divorciadas da realidade que na maioria das vezes impõem metas inatingíveis, sobrecarregam empregados com regras inúteis e abusam de punições rígidas por coisas mínimas, enquanto convenientemente se esquecem de, por exemplo, fazer uma justa distribuição de lucros - em especial os bancos, um dos segmentos mais lucrativos do planeta - com crise ou sem crise.
Mas, como este não é um blog sobre empresas, nem sobre endomarketing, você deve estar se perguntando o que tem tudo isso a ver. É que pensei em como seria bom se alguns líderes religiosos adotassem a ideia de se tornar, por uma semana que fosse, uma simples “ovelha”. Não com objetivos empresariais - como é o pensamento de muitos deles. Gerem suas igrejas como empresas: têm planos de metas, almejam atingir certo número de membros em determinado prazo (e para isso usam qualquer método que pareça razoável), constroem planilhas para arrecadação financeira, fazem campanhas de publicidade e promoções para atingir maiores públicos para suas arengas... as semelhanças são muitas, e não vamos perder tempo com isso. Esqueçamos isto tudo por ora.
Concentremo-nos no meu novo projeto: “undercover sheep” - a “ovelha disfarçada” - se bem que embora não goste, todo e qualquer “líder religioso” também permanece sendo ovelha no rebanho do Sumo Pastor. Não gosta, mas é. 
Pensemos em como seria bom se por uma semana, uma semana só, nossos “líderes” esquecessem seus diplomas de Teologia (os que têm diploma, obviamente). Por uma semana despissem seus ternos caros e vestissem uma calça jeans, um tênis “Mike” e uma camisa de malha. Por sete dias deixassem seus carrões importados (“resposta de oração”, viu, seu invejoso?) e pegassem um busão ou um metrô daqueles bem confortáveis, às 6 da tarde, para ir à “concentração de fé”. Mas tinham que ir só com o vale-transporte, um extra para voltar de taxi não pode. Se a reunião terminar muito tarde e o noturno não passar, teria que voltar a pé ou de carona se conseguir.
Durante uma semana, eles deixariam de dar a seus glúteos adiposos o conforto da almofada macia daquela cadeira bonita e vistosa, de espaldar alto e braços na altura certa, para ficar empenado durante duas horas ou mais num banco duro e com cabeças de prego à mostra. 
Por sete dias, deixariam a modorra de acompanhar o “período de louvor” sentados, fingindo que estão meditando, para aturar os insuportáves apelos dos “levitas”: “levanta, irmão”, “erguei as mãos”, “diga para a pessoa do seu lado: blablabla”. E agora para a pessoa do outro lado, “glugluglu”.
Veríamos por quanto tempo agüentariam o interminável “senta-levanta” dos animadores de auditório que se auto-intitulam adoradores. Será que teriam alguns segundos de paz para pensar nas letras vazias que estariam cantando? Será que esse pseudo-louvor despertaria neles o desejo de adorar a Deus, ou apenas a vontade de acabar logo e poder sentar de novo no banco lascado e duro? Melhor do que ficar em pé batendo palma...
Quanto tempo nossos queridos sacerdotes suportariam bailarinas desencontradas, com suas coreografias toscas e sem nenhuma relação com o que está sendo cantado? Quanto seria gasto de sua paciência somente para ouvir os intermináveis e repetitivos avisos paroquiais? O aniversário do fulano, a mudança do cicrano, o batizado do Dudu, o carro novo da dondoca, o casamento da dona baratinha, a morte da bezerra... tudo resposta de oração, claro. Ah, e na semana que vem acaba a campanha dos sete chinelos e começa a campanha dos treze caroços de feijão. Os jovens vão apresentar uma peça, ou jogral, ou coreografia, sei lá, mas mesmo assim tragam visitantes; afinal, precisamos prestigiar a juventude e coisa e tal.
Apenas durante esses poucos dias, nossos amados gurus deixariam a hipocrisia de ir solenemente ao gazofilácio depositar seu dízimo farisaico, para depois do fim da reunião ir lá na tesouraria e pegar seu salário de volta, dez vezes maior que a “oferta depositada”, numa demonstração de “fé no princípio da semeadura”. Eles ofertariam o dinheiro da condução, do remédio, do aluguel, da prestação das Casas Bahia, do dia seguinte? Veríamos se a tão propalada “oferta da viúva, que deu tudo que tinha”, valeria para eles também. Veríamos se fariam esse “desafio”. Veríamos o que sentiriam quando, ao relutar na entrega das moedinhas, fossem chamados de ladrões com base em Malaquias capítulo 3. 
E finalmente, o que diriam nossas sábias, eruditas e iluminadas autoridades eclesiásticas sobre o teor da mensagem pregada? Lembremo-nos de que o diploma teológico - se existir - deve ser esquecido. Vamos nos ater ao conteúdo bíblico da mensagem - se existir. Esqueçam a retórica, a homilética, as palavras cuidadosamente rascunhadas no notebook de última geração sobre o púlpito de acrílico de Israel. Valeria só a correta exegese! Refletiriam eles se a pregação tem aderência à Palavra Viva? Se tem consistência com o que diria o Cordeiro que foi morto, mas ressuscitou? Se tem aplicação prática para o Corpo de Cristo, ou se tem mais a ver com as práticas e costumes da velha aliança?
Será que esses líderes sairiam da reunião com a vida transformada para sempre, ou teriam apenas ganho motivação para mais uns dias, sem se lembrar de nada do que fora falado? Levariam para casa um fogo que não se apagaria nunca, Cristo reinando no coração, ou só a sensação do dever cumprido, como manda a boa religião? Sairiam dali cheios de ardor missionário, fervor evangelizador, mais sede e fome da Palavra, desejo por santificação, vontade de ler mais a Bíblia, de orar mais... ou apenas canseira e enfado, desejando chegar rápido em casa e dormir logo, e amanhã acordar cedo para pegar o metrô lotado, colocar a marmita na bolsa, não esquecer o carnê das Casas Bahia...

Uma semana só, vivendo como uma ovelha comum.
Mais nada.

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