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terça-feira, 18 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (6)

Símbolos, tipos e figuras de linguagem

Para se compreender devidamente a linguagem bíblica, certas particularidades precisam ser examinadas com cuidado. Os tipos, por exemplo, devem ser interpretados com base nas características similares, isto é, devemos confrontar o tipo e o seu antítipo para entendê-los corretamente. Um tipo sempre tem um antítipo, e são semelhantes em pelo menos um aspecto. Adão era um tipo do qual Cristo era o antítipo; mas não seríamos capazes de julgar em quais aspectos enquanto o próprio Cristo não viesse. Da mesma forma Eva é um tipo da Igreja, mas isso só pôde ser entendido quando surgiu a Igreja. As sete igrejas de Apocalipse também são tipos das congregações cristãs que surgiram no mundo desde a era apostólica. Mas só recentemente esse entendimento se tornou claro.
Os símbolos, por outro lado, podem ser entendidos antes de seu cumprimento, desde que seu sentido seja indicado de algum modo. Em Apocalipse, por exemplo, temos os candeeiros e as estrelas (1:20), as bestas que saem da terra e do mar (cap. 13), a mulher vestida de escarlate (cap. 17). Cada um desses elementos tem sua explicação própria e podem ser decodificados.
Às vezes a linguagem literal é mais difícil de entender do que a linguagem figurada, pois os profetas precisaram usar palavras de seu próprio tempo para descrever coisas que só existiriam no futuro, e com o tempo, as palavras mudaram de sentido, mas os símbolos não. Há termos que parecem símbolos (como em Apocalipse), em que muitos estudiosos se enrolam ao desconsiderar que João foi a um lugar onde nunca havia estado antes, e viu coisas que nunca havia visto na Terra. Essas coisas precisavam ser explicadas com palavras: coisas reais, mas não terrenas. Os cavaleiros, por exemplo, não são símbolos, mas algo que correspondia aos meios de locomoção de um exército da época. Trombetas, taças, vestes, coroas, tronos, são todos reais;
mas quando os virmos talvez não os achemos parecidos com objetos feitos na Terra. Não conhecemos nem uma palavra celestial sequer. O melhor que João pôde fazer, em Apocalipse, foi encontrar algo que correspondesse o mais próximo possível ao que ele via, expressando realidades celestes com palavras terrenas. Mar de vidro, por exemplo (4:6 e 15:2).
Mas algumas dicas nos ajudam a elucidar a linguagem simbólica. Uma delas é que a ação é sempre literal. Somente o sujeito da ação é simbólico. Basta você descobrir o significado do símbolo e aplicar a ação. Por exemplo, em Mateus 13, a pessoa ou o que a mulher representa, pegou o que o fermento representa e colocou no que a farinha representa. Em Apocalipse 12, a pessoa ou aquilo que a mulher representa, deu à luz ao que o filho representa, e o que esse filho representa foi arrebatado ao céu. Para interpretar corretamente passagens simbólicas, é preciso entender um pouco sobre a natureza dos símbolos como um todo.
Os alegoristas acusam os literalistas de serem preguiçosos e preferirem a interpretação literal para poupar esforço. Mas desde o século II, com a escola de Antioquia, e durante a Idade Média, com os valdenses e anabatistas, o alegorismo tem sido rejeitado. Mesmo entre os “pais da igreja”, Teodoro de Mopsuéstia (350-428), Crisóstomo (354-407), Teodoreto (386-458), e Diodoro de Tarso: “Os livros de Diodoro de Tarso foram dedicados a uma exposição das Escrituras em seu sentido literal, e ele escreveu um tratado, agora lamentavelmente perdido, sobre a diferença entre alegoria e o modo espiritualizado de se ver [a Bíblia]” (F.W. Farrar, History of Interpretation, pp. 213 -15). 
William Tyndale, o tradutor da primeira Bíblia em inglês, a partir do grego e do hebraico, no século XVI, disse: “A Escritura tem apenas um sentido, que é o sentido literal. E este sentido literal é a raiz e o fundamento de tudo, e a âncora que nunca falha; se te ligares a ela, nunca poderás errar ou ir para fora do caminho. E se tu deixas o sentido literal, tu não podes ir senão para fora do caminho. Sim, as Escrituras usam provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias, como todos os outros discursos usam; mas o que os provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias significam, é algo em adição ao sentido literal, que deves procurar diligentemente” (citado por Charles Briggs em Introduction to the Study of Holy Scripture, pp. 456-57).
As Escrituras, como toda literatura, usam figuras de linguagem, que devem ser entendidas como tais. Uma metáfora é uma comparação de similaridades entre duas coisas diferentes, como nas palavras de Cristo durante a última ceia: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice: “Bebam dele todos. Isto é o meu sangue da aliança” (Mateus 26:26-28). Jesus quis dizer que o pão era literalmente Seu corpo e o vinho era literalmente Seu sangue? O senso comum nos diz: não. As Escrituras nos dizem claramente que era pão e vinho que Jesus distribuiu, e não diz nada sobre eles terem se transformado literalmente em carne e sangue em algum ponto. Nem Pedro nem João, presentes na última ceia, reportaram tal coisa em suas epístolas, o que seria algo realmente digno de nota! Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo”. Para o próprio Agostinho, que como vimos aqui, era um dos mestres da interpretação alegórica, na Ceia Jesus nos deu “apenas o sinal de seu corpo”. Confissão da Guanabara diz: “não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai”.
Alguns argumentam: “Mas Jesus disse que o pão e o vinho eram Seu corpo e sangue, então eu vou acreditar no que Jesus disse”! Mas Jesus também disse que Ele era a porta (João 10:9). Ele literalmente se transformou em uma porta com dobradiças e uma maçaneta? Jesus disse que era uma videira e que nós éramos os ramos (João 15:5). Ele literalmente se transformou em uma videira? Nós nos tornamos literalmente em ramos de videira? Jesus disse que era a luz do mundo e o pão que veio do céu (João 9:5; 6:41). Jesus também é a luz do sol e um pedaço de pão? Claramente, são figuras de linguagem – metáforas – uma comparação de coisas diferentes que guardam algumas similaridades. De algum modo, Jesus era como uma porta e uma videira; o vinho era como Seu sangue (em alguns pontos), e o pão era como Seu corpo (de certa forma). 
As parábolas são símiles, e sempre trazem a palavra como. Elas ensinam lições espirituais pela semelhança entre duas idéias. Precisamos nos lembrar disso; senão vamos cometer o erro de procurar significado em cada detalhe (como Orígenes na parábola do samaritano!). Há um ponto onde as similaridades acabam. Por exemplo, se eu disser à minha esposa: “Seus olhos são como lagos”, eu quero dizer que seus olhos são azuis, profundos e convidativos, e não que peixes nadam neles!
Outro exemplo de símile: “O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:47-50).
O céu e uma rede não são a mesma coisa. Mas assim como os peixes são separados em bons e ruins, assim será no reino de Deus. Um dia o perverso e o justo, que agora estão juntos, serão separados. Mas não podemos ir além da intenção do orador, assumindo que as diferenças são semelhanças. Peixes são selecionados se são comestíveis ou não. Pessoas são julgadas por sua obediência ou desobediência a Deus.  Por outro lado, os “peixes bons” acabam fritos ou assados, e os “ruins” voltam para a água... mas Jesus não mencionou isso! Teria ido contra Seu propósito. Os discípulos entenderam a lição (v. 51): os justos herdarão o reino de Deus e os perversos serão lançados no inferno, assim como os peixes bons são separados e os peixes ruins são jogados fora.
Essa parábola não ensina uma “estratégia de evangelismo”, onde tentamos arrastar todos para dentro da igreja, bons ou ruins, queiram eles vir ou não, ou estratégias para atrair o povo à igreja! Ela não ensina que é melhor ir evangelizar na praia. Não diz que o arrebatamento será no fim da tribulação. Não ensina que a salvação é uma escolha puramente divina de Deus porque os peixes não fizeram nada para serem escolhidos e nem decidiram por si. Via de regra as parábolas sempre vêm junto com seu significado (por exemplo, o joio e o trigo, o semeador etc.). Não force significados às parábolas!
A hipérbole (um “exagero” intencional) é outra figura de linguagem. Quando uma mãe diz ao filho: “Eu te chamei mil vezes”, é uma hipérbole. Na Bíblia: “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora” (Mateus 5:30). Se Jesus quis dizer literalmente que todos que pecassem devessem cortar a mão, então todos seríamos manetas! Mas não, Jesus está nos ensinando que o pecado pode nos mandar para o inferno, e evitamos isso removendo tentações e coisas que nos façam tropeçar, mesmo que nos pareçam importantes. Como vimos, Orígenes não soube interpretar corretamente esta passagem.
Outra figura é o antropomorfismo, onde características humanas são atribuídas a Deus para nos ajudar a entendê-Lo. Por exemplo, Gênesis 11:5: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre” [de Babel]. Isso é um antropocentrismo, porque não parece provável que Deus, onisciente, viajaria do céu a Babel para investigar o que as pessoas estavam construindo! Muitos acadêmicos consideram antropocentrismo todas as menções sobre “partes de Deus”, como mãos, pés, olhos e cabelo. Com certeza, eles dizem, o Deus todo-poderoso não teria tais partes como os humanos. Nem asas... Mas vemos que  Moisés, Arão, Nadabe e Abiú “viram o Deus de Israel, e debaixo de Seus pés havia como que uma calçada de pedra de safira, que parecia com o próprio céu na sua pureza. Deus, porém, não estendeu a Sua mão contra os nobres dos filhos de Israel” (Êxodo 24:9-11). Se você perguntasse a Moisés se Deus tinha pés e mãos, o que ele diria?
O profeta Daniel também teve uma visão de Deus: “Enquanto eu olhava, tronos foram colocados, e um ancião [Deus] se assentou. Sua veste era branca como a neve; o cabelo era branco como a lã. Seu trono era envolto em fogo” etc. (Daniel 7:9-10). Se você perguntasse a Daniel se Deus tinha cabelo e uma forma pela qual Ele pode sentar em um trono, o que ele diria? Deus Pai tem uma forma gloriosa que é de certa forma similar a forma de um ser humano, mesmo Ele não sendo carne e sangue, e sim espírito (João 4:24).
Então devemos rejeitar o alegorismo? Em parte sim, porque Deus deu as Escrituras para revelar a verdade ao homem, não para ocultá-la. A Bíblia foi dada para trazer luz, não confusão. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). Assim, nas Escrituras, Deus usa as regras normais da linguagem humana. O homem é feito à imagem de Deus, e assim foi dotado de habilidades comunicativas. O primeiro objetivo da linguagem humana é que o homem possa conhecer e se comunicar com Deus. Logo depois que Adão foi criado, não havia outros seres humanos com quem ele pudesse falar. Adão falava apenas com Deus, e é razoável supor que Deus desse ao homem a habilidade lingüística para que este pudesse comunicar-se com seu Criador de forma eficiente [completamente precisa].
Além do mais, as profecias sempre foram cumpridas literalmente (também neste link). Existem apenas duas situações, em todo o Novo Testamento, onde o método alegórico foi aplicado (I Coríntios 10 e Gálatas 4). São os únicos casos que mostram eventos do Velho Testamento como alegorias, sob a ótica do Novo Testamento.  No entanto, é totalmente diferente do que pregam os alegoristas, porque Paulo assume a existência literal de Hagar, Sara, a nuvem, o Sinai etc. Ele os cita como alegorias apenas para fins de ilustração, e nunca interpretou a profecia alegoricamente: tribulação literal (I Tessalonicenses 5:1-3), anticristo literal (II Tessalonicenses 2:8-12), ressurreição literal (I Coríntios 15), literal retorno de Cristo (I Tessalonicenses 3:13, 4:14), reino literal (II Timóteo 4:1), literal cumprimento de promessas de Israel (Romanos 11:25-27). 
Por tudo isso o método literal de interpretação da Bíblia é preferível e normal, pois é o modo pelo qual a linguagem humana é comumente interpretada. Deus tem revelado a Sua verdade através dos meios normais da linguagem humana. O sentido literal normal da Escritura deve prevalecer, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. Veremos isso quando falarmos sobre os animais puros e impuros, mais adiante, onde muito mais que informações biológicas e de zoologia, há uma lição espiritual para nós, hoje.

(fonte) (fonte)
Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987; Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000

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terça-feira, 11 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (5)

A interpretação alegórica

Mas há trechos na Bíblia que só podem ser devidamente entendidos se pudermos decodificar os símbolos, principalmente os de caráter profético; e este é um caminho complicado, pois muitos acabam presas fáceis de alegorias e simbolismos que mais confundem do que explicam.
O método de interpretação alegórica preconiza a máxima espiritualização da Escritura. A maioria dos textos teria uma espécie de sub-texto, entrelinhas misteriosas, cheias de simbolismos ocultos e passíveis de interpretações diversas. Assim, as profecias do Velho Testamento sobre um reino terrestre glorioso para Israel são consideradas alegorias da Igreja. “Sião” passa a significar a Igreja ao invés de Jerusalém. Vê-se “o deserto florescerá como a rosa” (Isaías 35) como uma imagem da expansão do Evangelho, ao invés de uma futura condição literal sobre a terra. Ezequiel 40-48 vira uma representação simbólica da Igreja, e não um futuro templo literal. Os acontecimentos em Apocalipse – os julgamentos sobre a terra, as guerras, as duas testemunhas, prisão de Satanás, são vistos simbolicamente, e não como futuros eventos literais. Os alegoristas dizem que os 144.000 não são realmente 144.000, e que o milênio não tem realmente mil anos. Veremos mais adiante que a maioria dos teólogos católicos adota esse método sem pestanejar - o que explica muita coisa, como você verá.
O método alegórico tem suas origens tanto no pensamento grego (que evitava a interpretação literal dos antigos mitos) quanto na literatura rabínica. Os estóicos elaboraram uma interpretação alegórica dos deuses, em que buscavam, além do texto, um significado mais profundo. Eles não usavam a palavra alegoria, mas, sim, υπόνοια (uponoia, cf. suspeita), uma forma de “comunicação indireta”, que diz algo para dar a entender outra coisa.
Entre os judeus, o nome mais proeminente nesse assunto é o de Fílon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.), um filósofo que tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz da filosofia grega e da alegoria, onde expôs a sua visão platônica do judaísmo. Foi como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à filosófica. Como, aliás, os gregos e depois os romanos haviam feito antes, tentando concatenar seus próprios mitos com os antigos mistérios egípcios.
Mas entre os cristãos, não se interpretava as Escrituras alegoricamente, pelo menos até o fim do século II.  A escola fundada em Alexandria se tornou o quartel-general desse método, sob a liderança de Panteno e depois Clemente e Orígenes. Alexandria era então o maior centro de estudos do mundo, local de reunião e estudo dos intelectuais mais proeminentes, com sua biblioteca de meio milhão de volumes; foi nesse ambiente de debate filosófico-teológico que Clemente achou em Panteno o mestre que tanto procurou. Converteu-se ao cristianismo e sucedeu ao mestre em 190, e misturou a filosofia de Platão com o Cristianismo. Como se sabe, o platonismo (e depois o neo-platonismo) enfatizava o conhecimento, como os gnósticos, e assim até mesmo a salvação pessoal dependia mais do conhecimento do que de Cristo. Clemente simpatizava com esses aspectos místicos e com o método alegórico, e a Escritura foi submetida a todo tipo de exercício metafísico, da mesma forma que Fílon fez com o Pentateuco – o que abriu espaço a doutrinas estranhas, como veremos adiante.
Clemente sentia-se mais à vontade com a filosofia do que qualquer outro mestre cristão, considerando-a o modo de Deus preparar os gregos para a vinda de Cristo. Por isso ele procurou integrá-la à fé cristã. Como os estóicos, ele cria que o verdadeiro cristão deve cultivar a sabedoria e ficar acima das paixões para se tornar semelhante a Deus. O verdadeiro conhecimento não está restrito a um único livro; pelo contrário, a Verdade divina está espalhada pelo mundo: “Há um rio da Verdade, mas muitos afluentes se encontram com ele, desse ou daquele lado”, escreveu.  Vemos aí uma semente de heresia, uma espécie de proto-panteísmo ecumênico ou coisa que o valha. E assim ele procurava interpretar as Escrituras: “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”.  Isso só pode ser obtido através do esforço e da fé do buscador, mas a essência da mensagem de Jesus estaria oculta, só compreendida pela interpretação alegórica ou simbológica. Segundo Eusébio de Cesaréia, Clemente fazia uso com freqüente de livros apócrifos, e dizia: “Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Por aí já se vê no que vai dar essa mistureba.
A partir de 202, a escola esteve sob Orígenes, que como Clemente e Panteno, acreditava na reencarnação e no karma. Entre suas idéias, derivadas do método alegórico, estão:  o celibato como estado santo e superior ao casamento; a vida ascética, contrária ao exemplo dos apóstolos; tentativa de conciliação da filosofia pagã com o Cristianismo; regeneração batismal; purgatório; todos os homens e até mesmo Satanás e demônios, eventualmente, seriam salvos (Cristo, na sua expiação, fez um resgate de Satanás); o Espírito Santo foi a primeira criatura feita por Deus; Jesus Cristo não é plenamente Deus. Eusébio atesta na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”.
Para Orígenes, assim como para muitos pseudo-intelectuais “modernos”, a Bíblia contém erros. Entendia ele que “intercalados com histórias reais estão acontecimentos que não aconteceram, que algumas vezes não poderiam acontecer e que algumas vezes poderiam acontecer, mas não aconteceram” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 138). Quando ele não conseguia entender uma passagem, ou tinha dificuldade para crer em algo, tentava uma interpretação simbólica. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Veja, por exemplo, a confusão que ele arranja com o bom samaritano. O homem assaltado é Adão; Jerusalém é o Paraíso e Jericó, o mundo. Os ladrões são os demônios, o sacerdote é a Lei e o levita simboliza os profetas. O samaritano é Cristo, as feridas a desobediência, a hospedaria é a Igreja, a promessa de retorno do samaritano é a volta de Cristo. Até aí tudo bem, mas então começa a confusão: ele continua dizendo que o burrinho é o corpo do Senhor, os dois denários são o Pai e o Filho (que vão cuidar do ferido), e o hospedeiro é o cabeça da igreja (“o papa”?). Como Jesus pode ser ao mesmo tempo um dos dois denários, o samaritano e o jumento? É muito mais lógico e coerente que o hospedeiro seja o Espírito Santo, que vai cuidar do homem até o samaritano retornar, e nem sei se precisamos procurar significado no jegue. Além do mais, podemos inferir que os dois denários são o Antigo e o Novo Testamentos, ou os mandamentos principais (amar a Deus e ao próximo), ou a fé e as obras... ou então que o levita e o sacerdote são as religiões institucionalizadas que não fazem caridade... etc... Não é preciso buscar sentido oculto em tudo. Tudo isso é legal e bacana como exercício investigativo, mas obviamente, o principal é o sentido literal – fazer o bem sem distinção de pessoas e não passar ao largo, como o levita e o sacerdote. Hall (op.cit.) opina que “embora o sermão de Orígenes seja muito interessante e homileticamente rico, a dúvida é se essa interpretação é correta e afinal, satisfatória. Como saber se Jesus pretendeu que a parábola do samaritano fosse interpretada alegoricamente?... os filósofos gregos haviam feito assim ao estudar as obras de Homero... Orígenes fez o mesmo com a Bíblia” (pg. 140/141).
Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Apesar de o método alegórico enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos, na prática Orígenes fez o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou Mateus 5:28-30 ao pé da letra e castrou-se. Orígenes foi descrito por Mosheim como “um composto de contradições: sábio e insensato, perspicaz e estúpido, criterioso e não criterioso; o inimigo da superstição, e seu protetor; um fervoroso defensor do Cristianismo, e seu adulterador; enérgico e irresoluto; um a quem a Bíblia deve muito, e de quem ela tem sofrido muito”.
Um outro grande disseminador do alegorismo foi  Agostinho (354-430), também um dos “pais da igreja”. Alguns ensinos danosos ao Cristianismo original, com base em suas interpretações alegóricas, foram: os sacramentos como meio de salvação; o batismo infantil, alegando que as crianças não batizadas estavam perdidas, e chamando todos que rejeitavam o batismo infantil de “infiéis e malditos”; que Maria não cometeu nenhum pecado. Como Orígenes, acreditava em purgatório; a autoridade da Igreja estava acima da Bíblia; e o amilenismo (ou amilenarismo), ensinando que a igreja católica é que era o reino de Deus. Nota – igrejas evangélicas que hoje pregam “domínio da nação”, “conquista de cidades”, “atos proféticos para conquistar territórios”, estão repercutindo a teoria amilenista católica/agostiniana, pois não crêem na Vinda de Cristo para implantar o Seu reino milenar na Terra. Acreditam que a Igreja substituiu Israel (“teologia da substituição”) e deve governar o mundo, aqui e agora. Por isso “determinam”, “decretam”, “reivindicam”, “estabelecem” coisas como a prosperidade, o governo etc. Cuidado. Tudo isso é derivação de interpretações alegóricas.
Para Agostinho, ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido oculto se pode aproximar da Verdade divina, sem nunca alcançá-la totalmente. Mais tarde, Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção entre a alegoria teológica (que não seria um artifício retórico mas sim uma visão particular do Universo) e a alegoria secular ou literária. O uso de alegorias se espalhou por outros campos: tornou-se comum na arte medieval o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, obedecendo a complicados esquemas alegóricos, pois acreditava-se que tudo deve significar algo mais do que o simplesmente observável. A literatura desse período também é muito influenciada por esses conceitos, como “A Divina Comédia”e outros textos da época.
Conceitos que ecoam até na Bíblia de Genebra, onde há uma nota em Apocalipse 9:11 identificando o “anjo do poço sem fundo” como “anticristo, o Papa, rei de hipócritas e embaixador de Satanás”. Porém não há razão para se ver esse anjo senão como um anjo caído literal em um buraco literal, e não um símbolo ou alegoria. 
Também o
 Lion Handbook of the Bible (1983), em sua interpretação de Apocalipse 13, diz que as duas bestas são “o Império Romano e a adoração ao seu imperador”.
E o
 Illustrated Bible Handbook assume uma abordagem não-comprometida de Apocalipse, apresentando tanto o ponto de vista literal-futurista como o alegórico, mas sem expor as falhas deste último. Dizem seus autores que os 144.000 remidos são “um número perfeito (12 x 12 x 1.000), representando toda a Igreja de todas as épocas”. A morte das duas testemunhas “simboliza toda a Igreja silenciada pela perseguição”. Os 1260 dias (três anos e meio) são “simbólicos” e representam “períodos de aflição” passados por todos os crentes. Os 42 meses em Apocalipse 13:5 “representam a época do evangelho”. A prisão de Satanás (cap. 20) “aconteceu no nascimento de Jesus”! Essas interpretações esdrúxulas são as preferidas por quem quer complicar e não explicar, e assim mostrar que cada cabeça uma sentença. Por isso essas interpretações são as que costumam aparecer em programas sobre catástrofes apocalípticas do Discovery Channell e similares.
O falso profeta Harold Camping, recentemente falecido, depois de agendar o arrebatamento para várias datas – e não acertar nem uma – apareceu certa vez com uma interpretação bizarra: as duas testemunhas representam a Igreja; a Igreja tem estado na grande tribulação, mas agora foi morta. Por isso, Deus chegou ao limite da paciência com igrejas e pastores e eles não têm mais autoridade. Obviamente, uma premissa equivocada que leva a conclusões no mínimo questionáveis.
Todos esses arrazoados místicos estão no núcleo da teologia católica, e deles bebem muitos evangélicos que adotam o dominionismo, a teologia da prosperidade e outras aberrações. Portanto devemos ficar alertas com esse método, tendo muito cuidado com a forma de interpretar a Bíblia, como veremos a seguir.

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Curiosidades
Os estóicos se reuniam sob os pórticos (“stoa”, em grego) dos templos, mercados e ginásios, e ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento; e que um sábio, ou pessoa com “perfeição moral e intelectual”, não sofreria dessas emoções; daí associarmos a palavra “estóico” a uma pessoa paciente, que não se abala. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino; a alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos harmônico.
Fílon de Alexandria também defendia a doutrina estóica do logos, a qual mais tarde infiltrou-se no Cristianismo. Para Fílon, o logos é a própria Lei (Torah), a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Por isso muitos identificam no início do Evangelho de João algumas semelhanças com o pensamento de Fílon.

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terça-feira, 4 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (4)

Princípios de interpretação
Eu falei antes sobre os princípios básicos de interpretação bíblica: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sua situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. Eles estão detalhados no livro “Princípios de Interpretação Bíblica”, de Walter A. Henrichsen (Ed. Mundo Cristão).
Não vou transcrever o livro todo, só mais alguns trechos, como este:
Nas questões de religião o cristão se submete, consciente ou inconscientemente, a suma das seguintes autoridades – a tradição, a razão, ou as Escrituras. A posição oficial e histórica da igreja católica tem sido a de fazer da tradição o supremo tribunal de recursos. A doutrina da virgem Maria é um exemplo. O que a Bíblia ensina sobre Maria é interpretado de acordo com o modo como a igreja católica a vê tradicionalmente.
Em boa parte do protestantismo, o racionalismo (cf. liberalismo, modernismo) ocupa o centro do palco. A conclusão extraída da mente é o supremo tribunal. Deixa-se que a razão decida o que é fundamental para a fé. Por exemplo, uma pessoa que abraça essa abordagem pode concluir que a fé na concepção virginal de Cristo não é nem racional nem essencial, e daí esse ensino bíblico é rejeitado.
O cristão fiel considera a Bíblia como o seu supremo tribunal. A crença na concepção virginal é abraçada porque a Bíblia a ensina. O que a Igreja crê acerca de Maria deve ser interpretado pelas Escrituras, e não vice-versa.
Isto não quer dizer que não há validade em cada uma das três formas de autoridade. Os adeptos de cada um dos sistemas de pensamento referidos concordam sobre a importância dos outros dois. Mas em caso de conflito, que voto conta? Se a tradição, a razão e a Escritura diferem quanto ao modo de ver Maria e a concepção virginal, qual autoridade será o árbitro final? Temos aqui a primeira lei da interpretação a Bíblia deve ser o supremo tribunal. Ela deve ser a autoridade final.
Um exemplo. Suponha que você vá viajar para o Japão, de avião. É preciso presumir pelo menos quatro coisas:
1 – o piloto sabe dirigir o avião.
2 – o avião chegará com segurança.
3 – o pessoal da imigração respeitará o seu passaporte.
4 – você concretizará o propósito de sua viagem.
Digamos que no aeroporto, antes de embarcar, você pergunte ao piloto:
- Será que esse avião me leva mesmo a Tóquio?
- Certamente – ele lhe responde.
- Mas – você pergunta – e aquele outro avião que caiu no mar? O senhor garante mesmo que chegaremos a salvo no Japão?
- Não – responde o comandante – não posso garantir. Mas suba a bordo e quando chegarmos lá o senhor saberá.
Isto é um compromisso antes do conhecimento. Você se dispõe a comprometer-se, a arriscar a vida [atravessando o oceano a quilômetros de altitude, a uma velocidade absurda], porque é melhor ir de avião do que a nado. Quando você decidiu ir para o Japão, assumiu um compromisso antes de saber o que ia acontecer. Não sabia se as autoridades permitiriam sua entrada no país. Supôs que o fariam, e se comprometeu com essa suposição antes de o saber.
No estudo da Bíblia, começamos com a questão da autoridade, e isto porque a autoridade das Escrituras é superior à da mente humana e da tradição. A questão da autoridade e da inspiração divina é respondida naturalmente quando você se submete à Palavra. Você até pode estudar a questão da inspiração em separado, mas somente saberá que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada quando se colocar sob a autoridade dela.
Estes são os princípios gerais da interpretação:
- trabalhe partindo da pressuposição de que Bíblia tem autoridade (exemplificado no caso da viagem ao Japão);
- a Bíblia é seu próprio intérprete: ou seja, a Escritura explica melhor a Escritura;
- a fé salvadora e o Espírito Santo são necessários para compreendermos e interpretarmos bem a Escritura
- interprete a experiência pessoal à luz da Escritura, e não o contrário;
- os exemplos bíblicos têm autoridade, mas só quando amparados por uma ordem de Deus (se você for fazer tudo o que Jesus fazia, teria que andar a pé, usar sandálias, não se casar etc.);
- o propósito principal da Bíblia é mudar nossas vidas, não aumentar nosso conhecimento;
- cada cristão tem o direito e a responsabilidade de investigar e interpretar pessoalmente a Palavra de Deus (Atos 17:11, o exemplo de Beréia);
- a História da Igreja é importante, mas não decisiva na interpretação da Escritura (a Igreja não deve determinar o que a Bíblia ensina; mas a Bíblia é que determina o que a Igreja ensina).
Princípios gramaticais
- a Escritura deve ser tomada literalmente sempre que possível; a linguagem metafórica ou simbólica pode dar margem a fantasias. Vou tratar desse tópico com mais detalhes mais adiante;
- interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor;
- interprete a palavra em relação à sua sentença e ao seu contexto;
- interprete a passagem em harmonia com o seu contexto;
- quando um objeto inanimado é usado para descrever um ser vivo, a proposição pode ser considerada figurada;
- quando uma expressão não caracteriza coisa descrita, a proposição pode ser considerada figurada (Filipenses 2:3-5, onde os cães referidos não são os melhores amigos do homem);
- as principais partes e figuras de uma parábola representam realidades. Considere somente essas partes principais quando tirar suas conclusões;
- interprete os profetas no sentido comum, literal e histórico, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. O cumprimento das profecias pode ser por etapas, cada uma sendo a garantia de que a próxima também irá se cumprir.
Alguns alegam que existem erros gramaticais na Bíblia. Isto é verdade até certo ponto. Quando consideramos Apocalipse, por exemplo, que muitos dizem não poder ter sido escrito pelo apóstolo João, é fácil verificar que ele escrevia num idioma que não era o seu “nativo”, e sob grande urgência e pressão. Não teve tempo de considerar as finuras da gramática, o que sem dúvida teria feito em outras condições. Daí a diferença “de estilo”. Além disso, temos que levar em conta que Deus parece se utilizar do fato de que a gramática foi feita para o homem, e não o homem para a gramática: quando Moisés indaga a Deus que nome deveria mencionar a Faraó, Deus lhe diz: “Eu Sou O Que Sou. Dirás ‘Eu Sou’ me enviou”.
Ezequiel 39:2 é outro exemplo de “erro gramatical”. Algumas versões dizem “Far-te-ei que voltes atrás e deixes a sexta parte”. Outras dizem “porei seis ganchos em tuas queixadas”, e também “perseguir-te-ei com seis pragas”. Nenhuma dessas traduções, contudo, é literal, pois isso fugiria completamente às leis da gramática: Ezequiel usou um substantivo no lugar de um verbo. A tradução literal seria “Eu te seis”, o que evidentemente significa “eu farei a ti algo com o número seis”, ou “aplicarei a ti [de alguma maneira] o número seis”. Isto se repete em Apocalipse 1:4 – “o que é, que era e que há de vir”. A língua original diz: “o ser, o era, e o vinha”, e não pode de modo algum ser considerado um “erro”. É intencional.
Princípios históricos
- desde que a Escritura originou-se num contexto histórico, também deve ser compreendida à luz da história bíblica;
- embora a revelação de Deus nas Escrituras seja progressiva, tanto o Velho como o Novo Testamento são essenciais à revelação, e formam uma unidade;
- os fatos e acontecimentos históricos se tornam símbolos de verdades espirituais somente se as Escrituras assim os designarem.
Princípios teológicos
- você precisa entender a Bíblia gramaticalmente antes de compreendê-la teologicamente;
- uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela;
- quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias, tenha em mente que mais cedo ou mais tarde elas se explicam escrituristicamente, dentro de uma unidade mais elevada e mais ampla;
- um ensinamento simplesmente implícito na Escritura pode ser considerado bíblico quando apoiado por passagens correlatas (isto é, outros trechos que tratam do mesmo assunto). Por exemplo, paralelos de palavras (todas as vezes em que aparece “dizimo” na Bíblia), paralelos de idéias (menções a ganância, avareza) e paralelos doutrinários (salvação, santificação etc.). Você precisa reunir todas as peças sobre o assunto e extrair delas o ensinamento. Dicionários e enciclopédias bíblicas podem ajudar, desde que você consiga filtrar o viés denominacional encontrado, por exemplo, nas chamadas “Bíblias de Estudo”, já que existe a “da mulher”, a “pentecostal”, a de “batalha espiritual”, de “vitória financeira” e outras (até “Bíblia mangá já inventaram);
- é importante consultar diferentes versões, por exemplo: Almeida (revista, corrigida etc.); King James; linguagem “de hoje”; a “hebraica” ou “de Jerusalém” etc. Às vezes o que está complicado numa versão se esclarece em outra, simplesmente com o uso de palavras diferentes.
Tenho certeza que, se formos honestos e dermos à Bíblia a chance de se auto-explicar, e se observarmos essas regras básicas de interpretação e estudo, chegaremos facilmente à conclusão final de que Deus um dia quis se expressar ao Homem que Dele havia se separado, e para isto providenciou a Sua Palavra, escrita por homens que Ele mesmo escolheu, através de uma longa série de séculos, até que a tivéssemos na forma atual, porque assim Ele o quis. A Bíblia esteve para desaparecer por completo da face da terra, tendo havido épocas em que os exemplares completos se contavam com os dedos de uma mão. Mas a imprensa e os meios tecnológicos modernos hoje a divulgam como nunca, e as ferramentas de estudo também estão disponíveis a todos. Descobertas arqueológicas, como os manuscritos do Mar Morto, nos permitem comparar os textos escritos há 2000 anos ou mais, desfazendo toda e qualquer dúvida quanto à fidedignidade das Escrituras, já que o texto é idêntico – não houve as alegadas adulterações e modificações que desvirtuariam o sentido original.
A mensagem da Bíblia é clara para aqueles que buscam descobrir o seu significado. O problema surge quando se leva preconceitos para a Bíblia, procurando adequá-la a idéias pré-concebidas. Isto não é falha da Bíblia, e sim das pessoas que querem que a Bíblia diga o que elas querem! Quem usa esses argumentos como desculpa para não crer na Bíblia ou em Jesus, na verdade não diz “Não posso crer porque as provas não me convenceram”, mas sim “Não importam as provas, eu não quero crer”.
Assim, ao leitor sincero e honesto, que deseja ver desfeitas as suas dúvidas, digo que seja bem vindo, e conte com a minha boa vontade e esforço de tentar esclarecer.
Aos que querem apenas criar polêmicas e ridicularizar a Bíblia com argumentos furados, nada tenho a dizer, a não ser que estudem direito antes de tentar criar celeumas inúteis. Vejam se realmente querem aprender algo ou apenas criar caso à toa, aparecer, bater boca. E fiquem à vontade para procurar o que fazer em outro lugar.

(com informações de Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987, e Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão).

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