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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Contradições da Bíblia? 8

Uma lição em Levítico 11

Dúvida ou questionamento:
- Em Levítico 11, a lebre é tida como ruminante, o morcego como uma ave e menciona-se insetos alados com 4 pés.
Quando meu filho era bem pequeno, inventei uma brincadeira: eu dizia um nome de bicho bem estranho e ele tinha que adivinhar o que era. Assim, ele disse que gavial era um falcão, mutuca era uma vaca, mutum um tipo de pernilongo; geco seria uma espécie de pato, de burro ou um “jacarezinho”. Alguns animais tinham até detalhes: equidna era uma “galinha com espinhos”, manjuba um “macaco amarelo” e o carcará, um “cachorro magrelo do cerrado”. Outros ele nunca nem arriscou: taruíra, catita, társio, guariba... tinha mais, mas esqueci agora.
A questão em Levítico 11, sobre a proibição de se comer certos animais classificados como impuros, me lembra essa brincadeira de adivinhação. Já começo dizendo que a Bíblia não é um compêndio de Biologia, e talvez por isso o morcego, como “criatura alada”, pudesse ser facilmente incluído no “grupo das aves”. Eu faço caminhadas no fim da tarde, e costumo passar perto de parques bastante arborizados, bem na hora em que os morcegos saem. Quando passa um deles num vôo rasante perto de mim, quase não dá para saber se é um morcego ou uma coruja, que também tem muita por aqui. Não é difícil para ninguém dizer que o morcego é uma “criatura alada”.
O que classifica um animal como ave? Uma definição rápida de “aves” diz: “uma classe de animais vertebrados, bípedes, endotérmicos, ovíparos, caracterizados principalmente por possuírem penas, apêndices locomotores anteriores modificados [sic] em asas, bico córneo e ossos pneumáticos... Enquanto a maioria das aves se caracteriza pelo vôo... outras espécies perderam essa habilidade” (fonte). Ter asas, voar? O pinguim também tem “asas”, mas não voa; já o morcego, tem asas e voa. Botar ovo? O ornitorrinco bota ovo, tem bico e até pé de pato, mas não é ave. Ter penas... hummm... avestruz tem penas, bico, bota ovo, mas não voa. Já o kiwi tem bico e bota ovo, mas não tem penas (tem pelos), nem asas, nem voa... Ou seja, algumas características valem, outras não. Umas voam, outras não. Penas e asas, uns têm, outros não. Ter bico e botar ovo OK, mas outros animais também botam ovos, têm bicos e até asas; voam, mas não são aves. Alguns têm mais características de aves do que certas aves, mas não são aves. Problemão, hein? Olha só o rolo.
Se o texto de Levítico fosse escrito hoje, e o povo de Israel conhecesse um número maior de espécies animais do que naquela época, provavelmente o panda seria contado junto com os ursos, embora a ciência “moderna” diga que são completamente (?) diferentes, assim como a raposa é diferente do lobo, e esses dois do cão doméstico. Para mim são bastante similares, e para dizer a verdade, consigo ver nesses animais mais semelhanças entre si do que aquelas que alguns enxergam entre o Homem e o chimpanzé, que dizem ser 99% parecidos... Eu acho que não chega nem a 50%. Semelhança de 99% é entre a raposa e o lobo; ou o urso e o panda. E aliás, cá pra nós... Se o pingüim, que pouco tem a ver com uma “ave normal”, é assim classificado, o que é que tem incluir o morcego, “criatura alada”, junto com outros “animais voadores”?
A propósito, a palavra “ave” em hebraico é עוֹף (“owph” ou “ôph”) e se refere a: (a) animal que tem asas – no sentido de “alado”, “voador”; ou (b) que tem penas. No sentido exato do termo hebraico, o kiwi, cabeludo, sem pena e sem asa, seria “alado” ou “voador”? Por esse critério o morcego é mais “alado” e “voador” do que pinguim, kiwi e avestruz juntos. Isso é motivo para dizer que a Bíblia é uma fraude? Se tivesse pingüim em Israel, entraria no grupo das aves ou das criaturas marinhas? 3.500 anos atrás alguém diria que aquelas “barbatanas”, que só servem para nadar e são inúteis para o vôo, seriam “asas”? Duvido, mas se Moisés escrevesse que o pinguim era ave, os ateus estariam descendo a lenha nele há séculos, do mesmo jeito (pelo menos até alguém decidir que pinguim é mesmo “ave”). Eu tenho vontade de rir quando alguém diz que pinguim é ave, mas... fazer o que? E o golfinho, entraria como mamífero ou “criatura marinha”? Isso não importa, porque não interessava fazer uma enciclopédia. Interessava  dizer que alguns animais eram puros (e podiam ser comidos), e outros impuros (e não podiam ser comidos). Esse é o ensinamento que a Lei quer nos passar, e não que essa espécie possui exoesqueleto queratinoso, que essa outra é artrópode e aquela outra é tunicada, se tal bicho é eucariota ou procariota. Não é um compêndio de Zoologia. Apesar de Adão ter sido o primeiro taxonomista conhecido (Gênesis 2:20).
A lebre é a mesma coisa. Em hebraico, a palavra arnebeth ou shaphan serve para “lebre” e “coelho” (caso semelhante a Beemote e Leviatã, às vezes traduzidos como hipopótamo e crocodilo). Mesmo no século XVIII, o poeta inglês William Cowper, que observara longamente seus coelhos, comentou que eles “ruminavam o dia todo até a noitinha”. Linnaeus (Lineu, pai da moderna taxonomia), na mesma época, também cria que coelhos ruminavam. Ficavam mexendo a boca igual a um camelo! Mas depois descobriram que a lebre faz um processo chamado “reflexão”, em que certos vegetais indigestos são engolidos e depois “re-mastigados” (termos leigos), para que o animal possa digeri-los com maior facilidade, sendo muito semelhante à ruminação (ah, e também descobriram - depois - que o coelho, a lebre, o tapiti etc., eram monogástricos e não poligástricos como o camelo, o boi etc. Brilhante essa!). Assim, a frase hebraica “porque rumina” tanto pode ser a ruminação como a reflexão. O povo não conhecia os aspectos técnicos da ruminação, e poderia então considerar o arganaz e a lebre como puros. Como o judeu ia saber se o coelho era monogástrico ou poligástrico, se ele nem tocava no coelho? Por isso, foi necessário explicar que, mesmo parecendo ruminar, esses animais eram imundos por não terem as unhas fendidas. O importante era não confundir: é lebre ou coelho, então não coma. Me ajuda aí, né?
Moisés nunca trabalhou em zoológico (nem Noé), e não pretendeu informar a anatomia ou o DNA de cada bicho que havia. Ver Gênesis 7:2 – animais limpos e impuros, répteis, aves – e só. Mesmo hoje, com todo o avanço científico, fósseis de muitos dinossauros e “homens das cavernas”, tidos como autênticos, se mostraram fraudes burlescas; portanto, é justo criticar Moisés, que não era biólogo? O ornitorrinco, quando foi descoberto e levado à Inglaterra há 200 anos, muitos acharam que era uma fraude, um animal que não existia de verdade. Demoraram a achar um lugar para ele, e acabaram criando uma gaveta à parte, pois aquilo não combinava com nada.
O que diria Moisés sobre o ornitorrinco ou o kiwi? Muito provavelmente nós, criaturas modernas e científicas, acharíamos defeito na classificação mosaica, seja lá qual fosse... E nem falamos nesses bichos aqui...
Eu descobri recentemente que Aristóteles também classificava os animais segundo o seu habitat (aquáticos, terrestres e voadores). Sempre pensei que ele era um cara genial, mas parece que me enganei. Ele disse que a baleia era um “animal aquático” e o morcego uma ave. Então, se usarmos os mesmos critérios que se aplicam à Bíblia, concluiremos que: a) Aristóteles era um ignorante; b) não foi quem dizia ser; c) seus escritos foram alterados/editados por seus discípulos ao longo dos séculos; d) ou então ele não existiu, é uma invenção de filósofos carentes de sentido para suas vidas insignificantes e mesquinhas...
A taxonomia moderna não existia no tempo de Moisés. E desde Lineu e Buffon a coisa já mudou muito. Se daqui a 200 anos resolverem alterar os atuais critérios, e cismarem que o gafanhoto não é mais inseto, vão dizer que Bíblia está errada? Ou a Zoologia é que errou? A classificação científica é baseada em critérios humanos, e por isso, a cada nova descoberta, muda tudo (ou quase). Por exemplo, você sabia que o morcego e o cavalo agora são mais semelhantes entre si do que o cavalo e a vaca? Mais do que um gato e um cachorro. Pensava-se que os morcegos eram primatas, mas não, eles agora estão no mesmo grupo dos cavalos, baleias e toupeiras (link). Segundo este outro site, o kiwi era mamífero até recentemente... e não posso deixar de perguntar se o equidna é mais próximo do tamanduá ou do porco-espinho (dica: equidna é prototério, monotrema, mamífero... mas bota ovo!).
Como sempre tem evolucionistas de olho, poderiam até acrescentar algo ao debate. Desde que não seja um comentário enciclopédico... Os caras parece que não sabem resumir. Aliás, teve um aqui que não gostou de saber que a teoria da evolução perverte as leis da ciência, e escreveu dois artigos quilométricos em seu blog tosco. Achei estranho, pois expus minha opinião em quatro ou cinco parágrafos, e fui bem claro... já o cara gastou uns 50 parágrafos, e no final você percebe a verborragia técnica que não leva a nenhuma conclusão. É, amigo, haja coração... eu fui lá e li tudinho! Obs.: não é o Léo, que explicou muito bem o seu ponto de vista. É um outro cara.
Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Deus criou “cardumes de seres viventes... monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam... e toda ave que voa, segundo a sua espécie” (Gênesis 1:20-21). Será que então o pinguim, a avestruz e o kiwi - aves que não voam - não foram criados por Deus? Ele esqueceu de listar essas ou ave que não voa foi trazida de outro planeta por alienígenas?
Tenha santa paciência. O que seriam “monstros marinhos”? Godzilla? Mothra? O Kraken? Ou apenas baleias, lulas gigantes, cachalotes? Imaginar outro significado para “monstros marinhos” é viajar na maionese (só para ilustrar como a terminologia pode mudar com o tempo).
Aliás, por falar em monstros, ainda não entendi como o ovo do tiranossauro não quebrava, caindo de um metro de altura ou mais... ninguém ainda me mostrou uma “tiranossaura” agachada. Aliás, nem consigo imaginar como os tiranossauros acasalavam, aquela cauda grossona devia atrapalhar pra caramba... o triceratops idem... pense... mas nisso as pessoas acreditam sem pestanejar. E a bem da verdade, o triceratops parece mais com o mamífero rinoceronte do que com o réptil jacaré. Seria o mesmo caso do morcego e do cavalo? São parentes mas ninguém descobriu isso... ainda? E o canguru, tirando a pochete, não parece um tiranossauro? Será que vão descobrir isso um dia? Mas sobre dinossauros falaremos mais em outra ocasião.
Insetos alados? Eu já vi muitos e matei um monte a chinelada. Também já vi programas na TV dizendo que aranhas e escorpiões são insetos, e ninguém reclamou. Mas interessante é que o texto de Levítico diz claramente: “de todos os insetos alados que andam sobre quatro pés: os que têm pernas sobre os seus pés, para saltar com elas sobre a terra; isto é, deles podereis comer os seguintes: o gafanhoto segundo a sua espécie...” (etc.). Ora, se observar um gafanhoto, verá que ele tem quatro patinhas, como “pezinhos” com que se apóia e “anda”, e duas outras grandonas, com as quais salta! E o louva-a-deus: quatro “pés” apoiados e duas “mãos” com que agarra a presa... a descrição é correta, do ponto de vista de um “não-biólogo”.
Agora, confesso que nunca vi “solhão”, “hargol” e “hagabe”, outros bichos descritos no Levítico. Nem tenho a menor idéia do que seja “quebrantosso”, “xofrango”, “querogrilo” e “porfirião”, todos citados no capítulo 11 (imagino que “xofrango” seja algo parecido com um frango, sei lá). Se alguém souber, pode me informar que eu agradeço e dou o crédito. Mas não vale olhar na Wikipedia. E como não sou judeu, talvez eu peça um desses assado em algum restaurante por aí, já que o leitão e a lebre eu já experimentei (gafanhoto ainda não, obrigado). Não consigo parar de pensar no equidna, na tiranossaura e na brincadeira de anos atrás...
Isso tudo, para mim, é procurar um conjunto de papilas dérmicas cimentadas que formam um filamento queratinizado em forma de protuberância, na caixa craniana dos mamíferos hipomorfos, cordados, da ordem dos ungulados perissodáctilos, da família Equidae, gênero Equus e espécie ferus, subespécie caballus.
Mas sabe qual é a lição que tiramos aqui? O que tudo isso tem de relevante para nós, hoje, nós que não somos judeus ortodoxos, cristãos do século XXI que não estão debaixo da Lei Mosaica? Já que o sentido direto do texto não se aplica a nós, aí sim buscamos outro significado, aplicando um pouco da interpretação alegórica ou simbólica, como vimos aqui. E é este: os animais puros e impuros são exemplos para nós! Devemos ser como os animais puros, os que ruminam e possuem casco fendido. O ruminar significa que o nosso alimento (espiritual), a Palavra de Deus (cf. Deuteronômio 8:3, Lucas 4:4 e Mateus 4:4) deve ser não apenas engolido rapidamente, mas ruminadodigerido” lentamente. Isto é, precisamos meditar na Palavra para poder extrair dela tudo que ela tem para nós, até a última fibra. E o casco fendido significa que precisamos deixar nossas pegadas bem claras e discerníveis por onde andarmos. Onde passamos deve ficar uma marca para os vêm depois, uma trilha, um caminho, um testemunho de vida.
De nada adianta uma coisa sem a outra: não vale nada o nosso testemunho se não estamos ruminando a Palavra - casco fendido, mas não rumina, é abominação, impureza. E também, se ruminamos, meditamos, absorvemos a Palavra, mas não damos testemunho de Cristo, somos como um animal impuro: ruminamos, mas não deixamos nossa marca no mundo.  Não valemos nada.
Esta é a lição de Levítico capítulo 11 para cada um de nós.  
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terça-feira, 18 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (6)

Símbolos, tipos e figuras de linguagem

Para se compreender devidamente a linguagem bíblica, certas particularidades precisam ser examinadas com cuidado. Os tipos, por exemplo, devem ser interpretados com base nas características similares, isto é, devemos confrontar o tipo e o seu antítipo para entendê-los corretamente. Um tipo sempre tem um antítipo, e são semelhantes em pelo menos um aspecto. Adão era um tipo do qual Cristo era o antítipo; mas não seríamos capazes de julgar em quais aspectos enquanto o próprio Cristo não viesse. Da mesma forma Eva é um tipo da Igreja, mas isso só pôde ser entendido quando surgiu a Igreja. As sete igrejas de Apocalipse também são tipos das congregações cristãs que surgiram no mundo desde a era apostólica. Mas só recentemente esse entendimento se tornou claro.
Os símbolos, por outro lado, podem ser entendidos antes de seu cumprimento, desde que seu sentido seja indicado de algum modo. Em Apocalipse, por exemplo, temos os candeeiros e as estrelas (1:20), as bestas que saem da terra e do mar (cap. 13), a mulher vestida de escarlate (cap. 17). Cada um desses elementos tem sua explicação própria e podem ser decodificados.
Às vezes a linguagem literal é mais difícil de entender do que a linguagem figurada, pois os profetas precisaram usar palavras de seu próprio tempo para descrever coisas que só existiriam no futuro, e com o tempo, as palavras mudaram de sentido, mas os símbolos não. Há termos que parecem símbolos (como em Apocalipse), em que muitos estudiosos se enrolam ao desconsiderar que João foi a um lugar onde nunca havia estado antes, e viu coisas que nunca havia visto na Terra. Essas coisas precisavam ser explicadas com palavras: coisas reais, mas não terrenas. Os cavaleiros, por exemplo, não são símbolos, mas algo que correspondia aos meios de locomoção de um exército da época. Trombetas, taças, vestes, coroas, tronos, são todos reais;
mas quando os virmos talvez não os achemos parecidos com objetos feitos na Terra. Não conhecemos nem uma palavra celestial sequer. O melhor que João pôde fazer, em Apocalipse, foi encontrar algo que correspondesse o mais próximo possível ao que ele via, expressando realidades celestes com palavras terrenas. Mar de vidro, por exemplo (4:6 e 15:2).
Mas algumas dicas nos ajudam a elucidar a linguagem simbólica. Uma delas é que a ação é sempre literal. Somente o sujeito da ação é simbólico. Basta você descobrir o significado do símbolo e aplicar a ação. Por exemplo, em Mateus 13, a pessoa ou o que a mulher representa, pegou o que o fermento representa e colocou no que a farinha representa. Em Apocalipse 12, a pessoa ou aquilo que a mulher representa, deu à luz ao que o filho representa, e o que esse filho representa foi arrebatado ao céu. Para interpretar corretamente passagens simbólicas, é preciso entender um pouco sobre a natureza dos símbolos como um todo.
Os alegoristas acusam os literalistas de serem preguiçosos e preferirem a interpretação literal para poupar esforço. Mas desde o século II, com a escola de Antioquia, e durante a Idade Média, com os valdenses e anabatistas, o alegorismo tem sido rejeitado. Mesmo entre os “pais da igreja”, Teodoro de Mopsuéstia (350-428), Crisóstomo (354-407), Teodoreto (386-458), e Diodoro de Tarso: “Os livros de Diodoro de Tarso foram dedicados a uma exposição das Escrituras em seu sentido literal, e ele escreveu um tratado, agora lamentavelmente perdido, sobre a diferença entre alegoria e o modo espiritualizado de se ver [a Bíblia]” (F.W. Farrar, History of Interpretation, pp. 213 -15). 
William Tyndale, o tradutor da primeira Bíblia em inglês, a partir do grego e do hebraico, no século XVI, disse: “A Escritura tem apenas um sentido, que é o sentido literal. E este sentido literal é a raiz e o fundamento de tudo, e a âncora que nunca falha; se te ligares a ela, nunca poderás errar ou ir para fora do caminho. E se tu deixas o sentido literal, tu não podes ir senão para fora do caminho. Sim, as Escrituras usam provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias, como todos os outros discursos usam; mas o que os provérbios, similitudes, enigmas, ou alegorias significam, é algo em adição ao sentido literal, que deves procurar diligentemente” (citado por Charles Briggs em Introduction to the Study of Holy Scripture, pp. 456-57).
As Escrituras, como toda literatura, usam figuras de linguagem, que devem ser entendidas como tais. Uma metáfora é uma comparação de similaridades entre duas coisas diferentes, como nas palavras de Cristo durante a última ceia: “Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice: “Bebam dele todos. Isto é o meu sangue da aliança” (Mateus 26:26-28). Jesus quis dizer que o pão era literalmente Seu corpo e o vinho era literalmente Seu sangue? O senso comum nos diz: não. As Escrituras nos dizem claramente que era pão e vinho que Jesus distribuiu, e não diz nada sobre eles terem se transformado literalmente em carne e sangue em algum ponto. Nem Pedro nem João, presentes na última ceia, reportaram tal coisa em suas epístolas, o que seria algo realmente digno de nota! Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “este é o sinal e a figura do meu corpo”. Para o próprio Agostinho, que como vimos aqui, era um dos mestres da interpretação alegórica, na Ceia Jesus nos deu “apenas o sinal de seu corpo”. Confissão da Guanabara diz: “não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai”.
Alguns argumentam: “Mas Jesus disse que o pão e o vinho eram Seu corpo e sangue, então eu vou acreditar no que Jesus disse”! Mas Jesus também disse que Ele era a porta (João 10:9). Ele literalmente se transformou em uma porta com dobradiças e uma maçaneta? Jesus disse que era uma videira e que nós éramos os ramos (João 15:5). Ele literalmente se transformou em uma videira? Nós nos tornamos literalmente em ramos de videira? Jesus disse que era a luz do mundo e o pão que veio do céu (João 9:5; 6:41). Jesus também é a luz do sol e um pedaço de pão? Claramente, são figuras de linguagem – metáforas – uma comparação de coisas diferentes que guardam algumas similaridades. De algum modo, Jesus era como uma porta e uma videira; o vinho era como Seu sangue (em alguns pontos), e o pão era como Seu corpo (de certa forma). 
As parábolas são símiles, e sempre trazem a palavra como. Elas ensinam lições espirituais pela semelhança entre duas idéias. Precisamos nos lembrar disso; senão vamos cometer o erro de procurar significado em cada detalhe (como Orígenes na parábola do samaritano!). Há um ponto onde as similaridades acabam. Por exemplo, se eu disser à minha esposa: “Seus olhos são como lagos”, eu quero dizer que seus olhos são azuis, profundos e convidativos, e não que peixes nadam neles!
Outro exemplo de símile: “O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:47-50).
O céu e uma rede não são a mesma coisa. Mas assim como os peixes são separados em bons e ruins, assim será no reino de Deus. Um dia o perverso e o justo, que agora estão juntos, serão separados. Mas não podemos ir além da intenção do orador, assumindo que as diferenças são semelhanças. Peixes são selecionados se são comestíveis ou não. Pessoas são julgadas por sua obediência ou desobediência a Deus.  Por outro lado, os “peixes bons” acabam fritos ou assados, e os “ruins” voltam para a água... mas Jesus não mencionou isso! Teria ido contra Seu propósito. Os discípulos entenderam a lição (v. 51): os justos herdarão o reino de Deus e os perversos serão lançados no inferno, assim como os peixes bons são separados e os peixes ruins são jogados fora.
Essa parábola não ensina uma “estratégia de evangelismo”, onde tentamos arrastar todos para dentro da igreja, bons ou ruins, queiram eles vir ou não, ou estratégias para atrair o povo à igreja! Ela não ensina que é melhor ir evangelizar na praia. Não diz que o arrebatamento será no fim da tribulação. Não ensina que a salvação é uma escolha puramente divina de Deus porque os peixes não fizeram nada para serem escolhidos e nem decidiram por si. Via de regra as parábolas sempre vêm junto com seu significado (por exemplo, o joio e o trigo, o semeador etc.). Não force significados às parábolas!
A hipérbole (um “exagero” intencional) é outra figura de linguagem. Quando uma mãe diz ao filho: “Eu te chamei mil vezes”, é uma hipérbole. Na Bíblia: “E se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora” (Mateus 5:30). Se Jesus quis dizer literalmente que todos que pecassem devessem cortar a mão, então todos seríamos manetas! Mas não, Jesus está nos ensinando que o pecado pode nos mandar para o inferno, e evitamos isso removendo tentações e coisas que nos façam tropeçar, mesmo que nos pareçam importantes. Como vimos, Orígenes não soube interpretar corretamente esta passagem.
Outra figura é o antropomorfismo, onde características humanas são atribuídas a Deus para nos ajudar a entendê-Lo. Por exemplo, Gênesis 11:5: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre” [de Babel]. Isso é um antropocentrismo, porque não parece provável que Deus, onisciente, viajaria do céu a Babel para investigar o que as pessoas estavam construindo! Muitos acadêmicos consideram antropocentrismo todas as menções sobre “partes de Deus”, como mãos, pés, olhos e cabelo. Com certeza, eles dizem, o Deus todo-poderoso não teria tais partes como os humanos. Nem asas... Mas vemos que  Moisés, Arão, Nadabe e Abiú “viram o Deus de Israel, e debaixo de Seus pés havia como que uma calçada de pedra de safira, que parecia com o próprio céu na sua pureza. Deus, porém, não estendeu a Sua mão contra os nobres dos filhos de Israel” (Êxodo 24:9-11). Se você perguntasse a Moisés se Deus tinha pés e mãos, o que ele diria?
O profeta Daniel também teve uma visão de Deus: “Enquanto eu olhava, tronos foram colocados, e um ancião [Deus] se assentou. Sua veste era branca como a neve; o cabelo era branco como a lã. Seu trono era envolto em fogo” etc. (Daniel 7:9-10). Se você perguntasse a Daniel se Deus tinha cabelo e uma forma pela qual Ele pode sentar em um trono, o que ele diria? Deus Pai tem uma forma gloriosa que é de certa forma similar a forma de um ser humano, mesmo Ele não sendo carne e sangue, e sim espírito (João 4:24).
Então devemos rejeitar o alegorismo? Em parte sim, porque Deus deu as Escrituras para revelar a verdade ao homem, não para ocultá-la. A Bíblia foi dada para trazer luz, não confusão. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). Assim, nas Escrituras, Deus usa as regras normais da linguagem humana. O homem é feito à imagem de Deus, e assim foi dotado de habilidades comunicativas. O primeiro objetivo da linguagem humana é que o homem possa conhecer e se comunicar com Deus. Logo depois que Adão foi criado, não havia outros seres humanos com quem ele pudesse falar. Adão falava apenas com Deus, e é razoável supor que Deus desse ao homem a habilidade lingüística para que este pudesse comunicar-se com seu Criador de forma eficiente [completamente precisa].
Além do mais, as profecias sempre foram cumpridas literalmente (também neste link). Existem apenas duas situações, em todo o Novo Testamento, onde o método alegórico foi aplicado (I Coríntios 10 e Gálatas 4). São os únicos casos que mostram eventos do Velho Testamento como alegorias, sob a ótica do Novo Testamento.  No entanto, é totalmente diferente do que pregam os alegoristas, porque Paulo assume a existência literal de Hagar, Sara, a nuvem, o Sinai etc. Ele os cita como alegorias apenas para fins de ilustração, e nunca interpretou a profecia alegoricamente: tribulação literal (I Tessalonicenses 5:1-3), anticristo literal (II Tessalonicenses 2:8-12), ressurreição literal (I Coríntios 15), literal retorno de Cristo (I Tessalonicenses 3:13, 4:14), reino literal (II Timóteo 4:1), literal cumprimento de promessas de Israel (Romanos 11:25-27). 
Por tudo isso o método literal de interpretação da Bíblia é preferível e normal, pois é o modo pelo qual a linguagem humana é comumente interpretada. Deus tem revelado a Sua verdade através dos meios normais da linguagem humana. O sentido literal normal da Escritura deve prevalecer, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. Veremos isso quando falarmos sobre os animais puros e impuros, mais adiante, onde muito mais que informações biológicas e de zoologia, há uma lição espiritual para nós, hoje.

(fonte) (fonte)
Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987; Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000

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terça-feira, 11 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (5)

A interpretação alegórica

Mas há trechos na Bíblia que só podem ser devidamente entendidos se pudermos decodificar os símbolos, principalmente os de caráter profético; e este é um caminho complicado, pois muitos acabam presas fáceis de alegorias e simbolismos que mais confundem do que explicam.
O método de interpretação alegórica preconiza a máxima espiritualização da Escritura. A maioria dos textos teria uma espécie de sub-texto, entrelinhas misteriosas, cheias de simbolismos ocultos e passíveis de interpretações diversas. Assim, as profecias do Velho Testamento sobre um reino terrestre glorioso para Israel são consideradas alegorias da Igreja. “Sião” passa a significar a Igreja ao invés de Jerusalém. Vê-se “o deserto florescerá como a rosa” (Isaías 35) como uma imagem da expansão do Evangelho, ao invés de uma futura condição literal sobre a terra. Ezequiel 40-48 vira uma representação simbólica da Igreja, e não um futuro templo literal. Os acontecimentos em Apocalipse – os julgamentos sobre a terra, as guerras, as duas testemunhas, prisão de Satanás, são vistos simbolicamente, e não como futuros eventos literais. Os alegoristas dizem que os 144.000 não são realmente 144.000, e que o milênio não tem realmente mil anos. Veremos mais adiante que a maioria dos teólogos católicos adota esse método sem pestanejar - o que explica muita coisa, como você verá.
O método alegórico tem suas origens tanto no pensamento grego (que evitava a interpretação literal dos antigos mitos) quanto na literatura rabínica. Os estóicos elaboraram uma interpretação alegórica dos deuses, em que buscavam, além do texto, um significado mais profundo. Eles não usavam a palavra alegoria, mas, sim, υπόνοια (uponoia, cf. suspeita), uma forma de “comunicação indireta”, que diz algo para dar a entender outra coisa.
Entre os judeus, o nome mais proeminente nesse assunto é o de Fílon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.), um filósofo que tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz da filosofia grega e da alegoria, onde expôs a sua visão platônica do judaísmo. Foi como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à filosófica. Como, aliás, os gregos e depois os romanos haviam feito antes, tentando concatenar seus próprios mitos com os antigos mistérios egípcios.
Mas entre os cristãos, não se interpretava as Escrituras alegoricamente, pelo menos até o fim do século II.  A escola fundada em Alexandria se tornou o quartel-general desse método, sob a liderança de Panteno e depois Clemente e Orígenes. Alexandria era então o maior centro de estudos do mundo, local de reunião e estudo dos intelectuais mais proeminentes, com sua biblioteca de meio milhão de volumes; foi nesse ambiente de debate filosófico-teológico que Clemente achou em Panteno o mestre que tanto procurou. Converteu-se ao cristianismo e sucedeu ao mestre em 190, e misturou a filosofia de Platão com o Cristianismo. Como se sabe, o platonismo (e depois o neo-platonismo) enfatizava o conhecimento, como os gnósticos, e assim até mesmo a salvação pessoal dependia mais do conhecimento do que de Cristo. Clemente simpatizava com esses aspectos místicos e com o método alegórico, e a Escritura foi submetida a todo tipo de exercício metafísico, da mesma forma que Fílon fez com o Pentateuco – o que abriu espaço a doutrinas estranhas, como veremos adiante.
Clemente sentia-se mais à vontade com a filosofia do que qualquer outro mestre cristão, considerando-a o modo de Deus preparar os gregos para a vinda de Cristo. Por isso ele procurou integrá-la à fé cristã. Como os estóicos, ele cria que o verdadeiro cristão deve cultivar a sabedoria e ficar acima das paixões para se tornar semelhante a Deus. O verdadeiro conhecimento não está restrito a um único livro; pelo contrário, a Verdade divina está espalhada pelo mundo: “Há um rio da Verdade, mas muitos afluentes se encontram com ele, desse ou daquele lado”, escreveu.  Vemos aí uma semente de heresia, uma espécie de proto-panteísmo ecumênico ou coisa que o valha. E assim ele procurava interpretar as Escrituras: “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”.  Isso só pode ser obtido através do esforço e da fé do buscador, mas a essência da mensagem de Jesus estaria oculta, só compreendida pela interpretação alegórica ou simbológica. Segundo Eusébio de Cesaréia, Clemente fazia uso com freqüente de livros apócrifos, e dizia: “Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Por aí já se vê no que vai dar essa mistureba.
A partir de 202, a escola esteve sob Orígenes, que como Clemente e Panteno, acreditava na reencarnação e no karma. Entre suas idéias, derivadas do método alegórico, estão:  o celibato como estado santo e superior ao casamento; a vida ascética, contrária ao exemplo dos apóstolos; tentativa de conciliação da filosofia pagã com o Cristianismo; regeneração batismal; purgatório; todos os homens e até mesmo Satanás e demônios, eventualmente, seriam salvos (Cristo, na sua expiação, fez um resgate de Satanás); o Espírito Santo foi a primeira criatura feita por Deus; Jesus Cristo não é plenamente Deus. Eusébio atesta na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”.
Para Orígenes, assim como para muitos pseudo-intelectuais “modernos”, a Bíblia contém erros. Entendia ele que “intercalados com histórias reais estão acontecimentos que não aconteceram, que algumas vezes não poderiam acontecer e que algumas vezes poderiam acontecer, mas não aconteceram” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 138). Quando ele não conseguia entender uma passagem, ou tinha dificuldade para crer em algo, tentava uma interpretação simbólica. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Veja, por exemplo, a confusão que ele arranja com o bom samaritano. O homem assaltado é Adão; Jerusalém é o Paraíso e Jericó, o mundo. Os ladrões são os demônios, o sacerdote é a Lei e o levita simboliza os profetas. O samaritano é Cristo, as feridas a desobediência, a hospedaria é a Igreja, a promessa de retorno do samaritano é a volta de Cristo. Até aí tudo bem, mas então começa a confusão: ele continua dizendo que o burrinho é o corpo do Senhor, os dois denários são o Pai e o Filho (que vão cuidar do ferido), e o hospedeiro é o cabeça da igreja (“o papa”?). Como Jesus pode ser ao mesmo tempo um dos dois denários, o samaritano e o jumento? É muito mais lógico e coerente que o hospedeiro seja o Espírito Santo, que vai cuidar do homem até o samaritano retornar, e nem sei se precisamos procurar significado no jegue. Além do mais, podemos inferir que os dois denários são o Antigo e o Novo Testamentos, ou os mandamentos principais (amar a Deus e ao próximo), ou a fé e as obras... ou então que o levita e o sacerdote são as religiões institucionalizadas que não fazem caridade... etc... Não é preciso buscar sentido oculto em tudo. Tudo isso é legal e bacana como exercício investigativo, mas obviamente, o principal é o sentido literal – fazer o bem sem distinção de pessoas e não passar ao largo, como o levita e o sacerdote. Hall (op.cit.) opina que “embora o sermão de Orígenes seja muito interessante e homileticamente rico, a dúvida é se essa interpretação é correta e afinal, satisfatória. Como saber se Jesus pretendeu que a parábola do samaritano fosse interpretada alegoricamente?... os filósofos gregos haviam feito assim ao estudar as obras de Homero... Orígenes fez o mesmo com a Bíblia” (pg. 140/141).
Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Apesar de o método alegórico enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos, na prática Orígenes fez o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou Mateus 5:28-30 ao pé da letra e castrou-se. Orígenes foi descrito por Mosheim como “um composto de contradições: sábio e insensato, perspicaz e estúpido, criterioso e não criterioso; o inimigo da superstição, e seu protetor; um fervoroso defensor do Cristianismo, e seu adulterador; enérgico e irresoluto; um a quem a Bíblia deve muito, e de quem ela tem sofrido muito”.
Um outro grande disseminador do alegorismo foi  Agostinho (354-430), também um dos “pais da igreja”. Alguns ensinos danosos ao Cristianismo original, com base em suas interpretações alegóricas, foram: os sacramentos como meio de salvação; o batismo infantil, alegando que as crianças não batizadas estavam perdidas, e chamando todos que rejeitavam o batismo infantil de “infiéis e malditos”; que Maria não cometeu nenhum pecado. Como Orígenes, acreditava em purgatório; a autoridade da Igreja estava acima da Bíblia; e o amilenismo (ou amilenarismo), ensinando que a igreja católica é que era o reino de Deus. Nota – igrejas evangélicas que hoje pregam “domínio da nação”, “conquista de cidades”, “atos proféticos para conquistar territórios”, estão repercutindo a teoria amilenista católica/agostiniana, pois não crêem na Vinda de Cristo para implantar o Seu reino milenar na Terra. Acreditam que a Igreja substituiu Israel (“teologia da substituição”) e deve governar o mundo, aqui e agora. Por isso “determinam”, “decretam”, “reivindicam”, “estabelecem” coisas como a prosperidade, o governo etc. Cuidado. Tudo isso é derivação de interpretações alegóricas.
Para Agostinho, ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido oculto se pode aproximar da Verdade divina, sem nunca alcançá-la totalmente. Mais tarde, Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção entre a alegoria teológica (que não seria um artifício retórico mas sim uma visão particular do Universo) e a alegoria secular ou literária. O uso de alegorias se espalhou por outros campos: tornou-se comum na arte medieval o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, obedecendo a complicados esquemas alegóricos, pois acreditava-se que tudo deve significar algo mais do que o simplesmente observável. A literatura desse período também é muito influenciada por esses conceitos, como “A Divina Comédia”e outros textos da época.
Conceitos que ecoam até na Bíblia de Genebra, onde há uma nota em Apocalipse 9:11 identificando o “anjo do poço sem fundo” como “anticristo, o Papa, rei de hipócritas e embaixador de Satanás”. Porém não há razão para se ver esse anjo senão como um anjo caído literal em um buraco literal, e não um símbolo ou alegoria. 
Também o
 Lion Handbook of the Bible (1983), em sua interpretação de Apocalipse 13, diz que as duas bestas são “o Império Romano e a adoração ao seu imperador”.
E o
 Illustrated Bible Handbook assume uma abordagem não-comprometida de Apocalipse, apresentando tanto o ponto de vista literal-futurista como o alegórico, mas sem expor as falhas deste último. Dizem seus autores que os 144.000 remidos são “um número perfeito (12 x 12 x 1.000), representando toda a Igreja de todas as épocas”. A morte das duas testemunhas “simboliza toda a Igreja silenciada pela perseguição”. Os 1260 dias (três anos e meio) são “simbólicos” e representam “períodos de aflição” passados por todos os crentes. Os 42 meses em Apocalipse 13:5 “representam a época do evangelho”. A prisão de Satanás (cap. 20) “aconteceu no nascimento de Jesus”! Essas interpretações esdrúxulas são as preferidas por quem quer complicar e não explicar, e assim mostrar que cada cabeça uma sentença. Por isso essas interpretações são as que costumam aparecer em programas sobre catástrofes apocalípticas do Discovery Channell e similares.
O falso profeta Harold Camping, recentemente falecido, depois de agendar o arrebatamento para várias datas – e não acertar nem uma – apareceu certa vez com uma interpretação bizarra: as duas testemunhas representam a Igreja; a Igreja tem estado na grande tribulação, mas agora foi morta. Por isso, Deus chegou ao limite da paciência com igrejas e pastores e eles não têm mais autoridade. Obviamente, uma premissa equivocada que leva a conclusões no mínimo questionáveis.
Todos esses arrazoados místicos estão no núcleo da teologia católica, e deles bebem muitos evangélicos que adotam o dominionismo, a teologia da prosperidade e outras aberrações. Portanto devemos ficar alertas com esse método, tendo muito cuidado com a forma de interpretar a Bíblia, como veremos a seguir.

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Curiosidades
Os estóicos se reuniam sob os pórticos (“stoa”, em grego) dos templos, mercados e ginásios, e ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento; e que um sábio, ou pessoa com “perfeição moral e intelectual”, não sofreria dessas emoções; daí associarmos a palavra “estóico” a uma pessoa paciente, que não se abala. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino; a alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos harmônico.
Fílon de Alexandria também defendia a doutrina estóica do logos, a qual mais tarde infiltrou-se no Cristianismo. Para Fílon, o logos é a própria Lei (Torah), a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Por isso muitos identificam no início do Evangelho de João algumas semelhanças com o pensamento de Fílon.

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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Contradições da Biblia (1):

Esta é uma das perguntas que mais se ouve por parte daqueles que querem questionar ou desqualificar as Escrituras. Na verdade, trata-se de uma pergunta que já tem uma resposta pronta. Quem a faz já tem na cabeça o que entende ser uma resposta arrasadora, demolidora, definitiva: Não, não merece crédito, porque há nos relatos do Evangelho muitas discrepâncias, muitas narrativas do mesmo fato, que não batem.
Gostam de citar, por exemplo, a cura do(s) cego(s) de Jericó (Mateus 20:29, 30 e seguintes): “Saindo eles de Jericó, seguiu-o uma grande multidão; e eis que dois cegos, sentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de nós”, etc.
Este relato é paralelo ao de Marcos 10: 46 e seguintes: “Depois chegaram a Jericó. E, ao sair ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, estava sentado junto do caminho um mendigo cego, Bartimeu filho de Timeu”, etc. Mas os críticos gostam de comparar também com Lucas 18:35 (“Ora, quando ele ia chegando a Jericó, estava um cego sentado junto do caminho, mendigando”).
O argumento que ateus e incrédulos em geral gostam de usar é o seguinte: como pode ser verdade esse relato contraditório? Era um cego ou dois? Jesus e os discípulos estavam chegando ou saindo da cidade?
Para mim isto é procurar chifre em cabeça de cavalo.
Mateus, Marcos, Lucas e João escreveram relatos confiáveis e complementares da vida de Jesus Cristo. Como naturalmente acontece em relatos paralelos mas independentes, há diferenças nos relatos. Mateus foi testemunha ocular do evento. Como um dos discípulos, ele estava no local e relatou o que presenciou. Ele cita dois cegos, mas não menciona seus nomes. Lucas escreveu o evangelho que leva o seu nome cerca de 20 anos após o ocorrido, com base no testemunho dos que haviam visto essas coisas in loco. Como bom jornalista (e melhor do que muitos blogueiros de hoje) ele cita a fonte: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também a mim, depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem, para que conheças plenamente a verdade das coisas em que foste instruído” (Lucas 1:1-4, grifo meu).
Assim, Lucas fala de um cego apenas, e como Mateus, também não cita seu nome. Já Marcos, que também escreveu anos depois do fato, menciona apenas um, e especificamente identifica o cego pelo nome Bartimeu. Nota: segundo a tradição e de acordo com Eusébio de Cesaréia, Marcos escreveu conforme Pedro lhe relatou. E Pedro foi, como Mateus, testemunha ocular do episódio.
Esta diferença é uma contradição? É claro que não. Por exemplo, se eu viajar para outra cidade com minha esposa, três pessoas poderiam falar a verdade sobre essa viagem com relatos diferentes, mas não contraditórios. Uma pessoa poderia dizer que “um casal veio aqui”, enquanto outra diria que “uma mulher nos visitou”. Uma outra pessoa poderia até dizer que eu estive lá e citar meu nome. Todas estariam falando a verdade, mas relatando fatos de uma maneira diferente. Assim temos que Jesus curou dois cegos, sendo um deles conhecido pelo nome Bartimeu. E se Pedro, enrolado lá no meio da multidão, viu apenas um cego, o Bartimeu, e contou o fato para Marcos escrever dessa forma, e Mateus, quem sabe em outro ponto, viu dois cegos, mas não achou interessante citar o nome de um deles apenas? Lucas pode ter ouvido outra testemunha que também se lembrava de ter visto apenas um cego.
Passou na TV o documentário sobre João Saldanha, o polêmico e folclórico treinador da seleção de 1970. João Saldanha era um cri-cri, chato de galocha, e de personalidade forte. O programa deu destaque ao fato bastante pitoresco que foi quando o Botafogo venceu o Bangu na final do campeonato carioca de 1967. Surgiram rumores de que o bicheiro Castor de Andrade, dono do Bangu, havia subornado o goleiro botafoguense, Manga, para que “entregasse o jogo”. Saldanha ficou desconfiado quando percebeu que bolas fáceis eram rebatidas pelo goleiro, que parecia nervoso na partida. Eventualmente, o Botafogo, que tinha grandes craques como Gérson, Jairzinho, Roberto e Paulo César “Caju”, que mais tarde seriam tricampeões mundiais no México, ganhou o jogo e ficou com a taça.
Logo após o jogo, num programa de TV, Saldanha disse que Castor de Andrade havia subornado Manga e houve tumulto ao vivo. A imprensa sensacionalista provocou então o goleiro botafoguense, perguntando a ele se ia fazer alguma coisa, ou se ia aceitar calado as acusações.
Estava marcado um jantar na quarta-feira seguinte. Criou-se um clima de animosidade, e espalhou-se que o jogador iria dar uma lição no treinador/comentarista. Saldanha, que não era bobo, foi armado e chegou ao local do jantar mais cedo. Ficou de tocaia e verificou que havia seguranças à espreita. Quando Manga apareceu, Saldanha o surpreendeu, entrando por outra porta, e apontou a arma para ele. Agora é que a coisa fica interessante.
Jairzinho conta que João Saldanha sacou um revólver enorme, a maior arma que ele já tinha visto na vida. Um jornalista presente diz que era um revólver calibre 32, cano curto. Outro jornalista diz que Saldanha atirou para o alto. Saldanha diz que atirou para o lado, para não acertar em ninguém, e para que quando Manga corresse ele acertasse o seu traseiro, para humilhá-lo. Diz ainda que o tiro saiu na direção de seu sobrinho Bebeto de Freitas, hoje também um conhecido personagem do mundo esportivo, mas na época apenas um garoto. Gérson diz que ele atirou para o chão. Um jornalista diz que Manga pulou um muro duas vezes mais alto que ele, mas Saldanha diz que Manga correu para dentro do recinto. O editor de imagens do filme foi muito feliz ao colocar todas essas versões na mesma seqüência, propositalmente.
Pergunto a vocês: alguém duvida que esse episódio de fato aconteceu? Seria invenção de alguém - ou de todos? Há contradições? Há. Quem está certo? Todos estão certos. Jairzinho diz que o revólver era o maior que ele já havia visto, mas outros dizem que a arma era pequena. Depende do ponto de vista. Um diz que o tiro foi para o alto, outro que foi para baixo, outro que foi para o lado. E se foi um tiro para cima, um para baixo e um para o lado? Percebe como o ângulo determina o relato? Em todo caso, o resumo é o seguinte: houve uma confusão envolvendo João Saldanha e o goleiro Manga, tiros foram disparados, mas ninguém morreu. O resto é detalhe, que não desqualifica nem o episódio nem as testemunhas.
Mas tem mais.
Voltemos ao Evangelho.
A segunda explicação para o caso do(s) cego(s é um pouco mais difícil, mas também ajuda a elucidar a propalada "contradição". Onde aconteceu a cura - na chegada ou na saída de Jericó? Mateus e Marcos dizem que Jesus estava saindo de Jericó quando encontrou o(s) cego(s), mas Lucas diz: “Aconteceu que, ao aproximar-se ele de  Jericó...”  (18:35). Para explicar essa aparente contradição, precisamos apenas achar uma explicação plausível dos fatos relatados. Neste caso, há, pelo menos, duas:
(1) Alguns sugerem que o problema vem na tradução aqui da palavra grega usada por Lucas (eggizo). Dizem que esta palavra pode significar o ato de chegar perto de um local, ou pode significar simplesmente estar próximo. Neste caso, se ele acabou de sair de Jericó, estaria próximo.
(2) Uma outra sugestão envolve um fato histórico de existirem na época de Jesus a antiga cidade de Jericó, aquela mesma cujo muros caíram no tempo de Josué, e ao mesmo tempo, uma nova Jericó construída por Herodes, o Grande. Assim, Jesus teria saído da cidade antiga (conforme Mateus e Marcos) enquanto aproximava-se da nova cidade (conforme Lucas).
De modo que o relato dos evangelhos, em especial no caso do(s) cego(s) de Jericó, nada tem de contraditório: os relatos são apenas complementares.
Como na hoje antológica briga de João Saldanha e Manga, naquele dezembro de 1967.

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