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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Evangélicos e as eleições (de novo)

É sempre assim. A cada quatro anos, eles saem das tocas e aparecem com seus discursos ensaiados, cheios de emoção, raramente tendo algum fundamento lógico ou racional. As multidões que presenciam seus eventos saem animadas, acreditando em tudo que disseram, e prometendo seguir fielmente o que foi dito. Tudo isso para depois das eleições desaparecerem, ou pelo menos ficarem mais discretos, voltando, digamos assim, à normalidade. Sabe de quem estou falando?
Não, não é dos políticos. É de uma outra categoria de pessoas, que também depende da credulidade e da falta de espírito crítico das massas para poder sobreviver. Trata-se dos modernos “apóstolos”, que não perdem oportunidade para tentar uma boquinha no governo. De preferência uma que lhes agrade ideológica e politicamente (se é que têm noção dessas coisas); mas se não der, não tem problema. O importante é entrar na festa; depois, se for o caso, bandeia-se para a “oposição”, cospe-se no prato em que se comeu e busca-se outra sombra melhor.
Aqui vai um exemplo claro. Recentemente apareceu na mídia uma notícia dando conta de que começou uma “campanha de jejum e oração pelas eleições”. Essa campanha foi inventada por “líderes evangélicos” e “levitas” famosos. O objetivo? “proclamar que o Senhor Jesus Cristo é o único Senhor e Rei soberano da República Federativa do Brasil, por direito de criação e por direito de redenção”. E também escolher “12.000 sentinelas [intercessores] para levantar cobertura espiritual sobre o Brasil que vai eleger novos gestores públicos em âmbito estadual e federal”, e assim “acelerar, ocupar e influenciar pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”.
Uma espécie de manifesto explica que “a igreja deve experimentar um avivamento [com] poder de gerar a verdadeira mudança política e cultural na sociedade”.
Ora, sabemos da importância da intercessão – é uma prática que a Bíblia incentiva. Abraão suplicou por Ló e este escapou da destruição; Moisés intercedeu por Israel e foi ouvido; Samuel orou constantemente pela nação; Daniel orou pela libertação do seu povo; Davi suplicou pelo povo; Cristo rogou por Seus discípulos e fez especial intercessão por Pedro; Paulo é exemplo de constante intercessão. Mas aqui já vemos a diferença entre o Velho e o Novo Testamentos: antes, muitas vezes a nação era objeto da intercessão; agora, não. Deus presentemente trata com indivíduos, e não com nações. Esse tratamento com as nações será retomado na Tribulação: tanto é verdade que esse período consiste exatamente no julgamento das nações. Não há intercessão “pelas nações” na Era da Igreja. Começa aí a confusão.
E de onde será que tiraram essa idéia de “12.000 sentinelas”? Porque não 40 milhões, que é o número (estimado) de cristãos evangélicos do Brasil? Será que o apelo á intercessão não se aplica a todos os cristãos? Por que só a uma casta privilegiada e “sacerdotal”? E por que o número “12.000”? Isso parece mais um apelo à crendice popular e cabalística, um certo “misticismo” pseudo-cristão que eu chamo de “numerologia evangélica”.
E mais: onde na Bíblia se encontra uma ordem de Jesus Cristo, o Cabeça da Igreja, dizendo “Ide, acelerai, ocupai e influenciai pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”? Onde Ele ensina que precisamos “transformar nações [...] e gerar mudança política e cultural na sociedade”? Qual é a passagem bíblica que traz esses ensinamentos?
É sabido que esse pessoal pertence àquela facção da Cristandade que atende pela pretensiosa denominação de “Nova Reforma Apostólica” – o que já denota a sua arrogância. Querem se comparar, e até mesmo superar, a Reforma do século XVI com Lutero, Calvino e outros heróis da fé. Eles mesmos assumem isto, como você pode constatar aqui neste link. O que eles pretendem? O que pensam? O que pregam?
Seus principais mentores são C. Peter Wagner e Chuck Pierce; e outros como Rony Chavez; Ana Mendez; Neuza Itioka; Valnice Milhomens; Renê Terranova; Cindy Jacobs; John Eckhardt; etc. Você pode procurar depois na Internet. E talvez fique espantado com a quantidade de seguidores que eles já têm em nosso país. Geralmente são apoiados por “levitas” como David Quinlan e outros, muitos outros, que divulgam excrescências como “louvor profético”, “adoração extravagante”, “dança profética”, “transferência de gerações” e outras aberrações. Seus ensinos baseiam-se, muitas vezes, em teorias de administração e marketing, como as de George Barna, Alvin Toffler, Peter Drucker, Peter Senge e Ken Blanchard (como expus aqui neste link).
Peter Wagner mesmo defende o crescimento exponencial do número de membros, usando técnicas de network-marketing, a popular “pirâmide”, como G12, M12 etc. E diz que o “apóstolo moderno” é “espontaneamente reconhecido pelas igrejas”. E aí sou obrigado a perguntar: quem, dessa lista de “apóstolos modernos”, foi “espontaneamente reconhecido” pelas igrejas? Na maioria dos casos, eles foram impostos como tais, devendo a obediência a eles ser adotada por decreto, sob risco de excomunhão. Interessante  é que se trata de uma “ação entre amigos”: eles mesmos dizem que para ser apóstolo, precisa ser “ungido” por outro “apóstolo”. Ou seja, fica tudo no mesmo clube. Você duvida? Diga a algum membro dessas igrejas que você não crê no apostolado de um desses fulanos, para ver o que acontece. Eu mesmo levantei essa questão antes, neste link: “será que existem apóstolos hoje em dia”?
Pode-se então notar claramente que o objetivo não é, como parece, “interceder pela transformação da nação” - o que em si é altamente questionável, pois a Bíblia não nos manda “transformar nações” e sim pregar o Evangelho a pessoas, indivíduos, uma vez que salvação na presente dispensação é de caráter pessoal e não nacional, o que eu explico melhor aqui neste link e neste outro . O objetivo, na verdade, é participar do governo terreno “em nome de Deus”, exatamente como defendia Agostinho em sua obra “A Cidade de Deus”. Agostinho defendia a ideia de que o reino de Deus é exercido pela igreja na terra. Um equívoco total, fruto de uma visão de mundo muito pessoal. Ele escreveu isso por volta do ano 400 da era cristã, quando a igreja, então se transformando de cristã em católica, crescia com o apoio do governo temporal. Agostinho imaginou então que a igreja poderia governar o mundo por sua influência no poder político, aliando-se aos reis e magistrados. Daí o costume medieval de sempre o rei ser coroado pelo bispo ou até mesmo pelo “papa”. Mas nada disso se aplica à verdadeira Igreja de Cristo.
Os ensinos desses novos “apóstolos” estão levando muitos evangélicos a pensar que estão preparando a Terra para o reinado de Cristo. Sua doutrina se traduz, basicamente, nesses pontos:
I) Satanás usurpou o domínio da Terra através da tentação de Adão e Eva;
II) A Igreja é o instrumento de Deus para recuperar esse domínio;
III) Jesus não pode voltar, nem voltará, até que a Igreja tenha recuperado o domínio, pelo controle das instituições governamentais e sociais da Terra
(leia mais aqui).
Assim, vende-se a idéia de que, entrando (e dominando) a esfera política, aceleramos a vinda de Cristo para que, quando Ele chegar, o poder já esteja consolidado nas mãos da igreja, por meio de seus “apóstolos” e – incrível isso – seus “generais”!
O próprio Chuck Pierce, em suas mensagens repletas de esoterismo e numerologia, diz que “os cristãos irão realizar sinais e maravilhas, e controlar sete montanhas de influência cultural – governo, educação, religião, família, artes e entretenimento, negócios e mídia – para fazer um reino cristão para Jesus retornar e governar”.
Isso é uma das maiores mentiras do Diabo. A verdade é que, como a Igreja será arrebatada a qualquer momento, jamais terá destaque na Terra sem a companhia do Noivo. Enquanto a Igreja de Jesus estiver na Terra, habitando corpos de carne, jamais alcançará, como Cristo não alcançou, qualquer destaque entre os homens. Aqui está o engano. Não há nas Escrituras margem para se crer que a Igreja reinará ou governará na presente era (antes do Arrebatamento). Pelo contrário! Entretanto, os que não se guiam pelas Escrituras são levados a crer que estão aperfeiçoando o que Deus projetou. Por isso “nova reforma”, o “novo de Deus”, um “novo mover”, “novas revelações”, “estabelecer um novo tempo”! Preste atenção!
Eles pregam a “teologia da substituição”, como os católicos. Deus teria deixado Israel de lado, por sua incredulidade, e estabelecido “um novo Israel”, e agora a igreja é a beneficiária das bênçãos antes prometidas a Israel. Duas consequências graves dessa teoria: o anti-semitismo (pregado por muitos pastores), já que Israel negou Jesus e merece sofrer (baseado em Mateus 27:25, “o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”), e a teologia da prosperidade, que assume para si as promessas de bens terrenos – que eram para Israel (baseados em Deuteronômio 30:9; Josué 1:3; Isaías 61:6, etc.).
Os líderes evangélicos, como os “papas” medievais, estão totalmente seduzidos pelo poder temporal. Fazem de tudo para conquistar a atenção dos políticos, tentando “influenciar e acelerar” processos de cunho meramente eleitoreiro. Para se justificar, apelam para Provérbios 29:2 (“Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), querendo com isso se auto-proclamar “justos”. Ou seja, só seremos abençoados se os escolhermos para dirigentes da nação! Esquecem-se de que o Brasil já teve presidentes evangélicos, e nem por isso o povo se alegrou...
Vejam esse Silas Malafaia. Primeiro, em 2010 disse que apoiava Marina, porque ela seria “evangélica”. Depois, quando ela passou a andar de beijos e abraços com o notório ex-terrorista Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis, no então Partido Verde, com o “pai-de-santo” Luiz Bassuma e recebeu apoio total e irrestrito do padre “new-age” Leonardo Boff, voltou atrás e vislumbrou em José Serra a sua chave para a prosperidade. Não deu certo.
Agora, em 2014, hipotecou seu apoio (e de sua boiada cativa) à candidatura natimorta do pastor Everaldo. Mas como ele sabe que não há a mais remota possibilidade de vitória, declarou que apoiaria Marina no segundo turno  - e a boiada deveria ir junto. E explicou que o apoio a Everaldo é apenas para lhe ajudar a ter visibilidade. A menos, é claro (em se tratando de Malafaia, sempre tem um “senão”) que Marina obedeça a cartilha de seu partido e permaneça a favor do aborto, da união (casamento) gay e da liberação das drogas. Aí Malafaia apoiará Dilma e vai detonar Marina, pois Aécio já afundou. É a famosa “maria-vai-com-as-outras”. Nesse meio-tempo, ele cansou de malhar o PT, mas levou o candidato do partido ao governo Rio à sua igreja e até “o apresentou” lá na frente. O que mudou?
É por essa e por outras que eu repudio todo e qualquer pastor que queira influenciar seu rebanho, sua congregação, a mídia, seguidores do Facebook e assemelhados, a votar nesse ou naquele candidato. Por mais querido e amigo que seja, me desculpe. Já falei mais de uma vez: isto não é “dar uma opinião” ou “revelar sua opção”, é tráfico de influência! Isso mesmo, repito, tráfico de influência. Cada um pode e deve ter sua opção, mas a partir do momento em que você tem uma audiência cativa, se coloca numa posição de liderança espiritual e autoridade (ainda que questionável) e coloca essa opção para a galera, está criando um curral eleitoral, doa a quem doer. Está vendendo a fazenda, como se dizia antigamente, “de porteira fechada”, isto é, com tudo que está lá dentro. O pastor é candidato? OK, mas então que faça como os radialistas, saia de licença três meses antes do pleito, pare de pregar no púlpito, vá fazer campanha da porta do templo para fora, lá na rua. O pastor gosta desse ou daquele partido? OK, mas nada de levar seus candidatos preferidos para fazer farol na igreja. O pastor quer arranjar uma boquinha no governo com a desculpa esfarrapada de “governar em nome de Deus”? Que vá puxar saco lisonjear o candidato lá no gabinete dele; fazer isso escancaradamente na Internet e na TV só rebaixa o “líder espiritual” ao nível de aventureiro e interesseiro.
Ainda mais quando esse “líder espiritual” manifesta sua opção política a cada quatro anos; e pior ainda, quando muda de opinião com as estações do ano. Quando cisma de “levantar intercessores para mudar a nação”, para que a nação e o governo sejam de acordo com o que ele acha.  Sinto muito, mas estou fora desses caras.

Fontes externas:

terça-feira, 11 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (5)

A interpretação alegórica

Mas há trechos na Bíblia que só podem ser devidamente entendidos se pudermos decodificar os símbolos, principalmente os de caráter profético; e este é um caminho complicado, pois muitos acabam presas fáceis de alegorias e simbolismos que mais confundem do que explicam.
O método de interpretação alegórica preconiza a máxima espiritualização da Escritura. A maioria dos textos teria uma espécie de “sub-texto”, entrelinhas misteriosas, cheias de simbolismos ocultos e passíveis de interpretações diversas. Assim, as profecias do Velho Testamento sobre um reino terrestre glorioso para Israel são consideradas alegorias da Igreja. “Sião” passa a significar a Igreja ao invés de Jerusalém. Vê-se “o deserto florescerá como a rosa” (Isaías 35) como uma imagem da expansão do Evangelho, ao invés de uma futura condição literal sobre a terra. Ezequiel 40-48 vira uma representação simbólica da Igreja, e não um futuro templo literal. Os acontecimentos em Apocalipse – os julgamentos sobre a terra, as guerras, as duas testemunhas, prisão de Satanás, são vistos simbolicamente, e não como futuros eventos literais. Os alegoristas dizem que os 144.000 não são realmente 144.000, e que o milênio não tem realmente mil anos. Veremos mais adiante que a maioria dos teólogos católicos adota esse método sem pestanejar - o que explica muita coisa, como você verá.
O método alegórico tem suas origens tanto no pensamento grego (que evitava a interpretação literal dos antigos mitos) quanto na literatura rabínica. Os estóicos elaboraram uma interpretação alegórica dos deuses, em que buscavam, além do texto, um significado mais profundo. Eles não usavam a palavra alegoria, mas, sim, υπόνοια (uponoia, cf. “suspeita”), uma forma de “comunicação indireta”, que diz algo para dar a entender outra coisa.
Entre os judeus, o nome mais proeminente nesse assunto é o de Fílon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.), um filósofo que tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz da filosofia grega e da alegoria, onde expôs a sua visão platônica do judaísmo. Foi como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à filosófica. Como, aliás, os gregos e depois os romanos haviam feito antes, tentando concatenar seus próprios mitos com os antigos mistérios egípcios.
Mas entre os cristãos, não se interpretava as Escrituras alegoricamente, pelo menos até o fim do século II.  A escola fundada em Alexandria se tornou o quartel-general desse método, sob a liderança de Panteno e depois Clemente e Orígenes. Alexandria era então o maior centro de estudos do mundo, local de reunião e estudo dos intelectuais mais proeminentes, com sua biblioteca de meio milhão de volumes; foi nesse ambiente de debate filosófico-teológico que Clemente achou em Panteno o mestre que tanto procurou. Converteu-se ao cristianismo e sucedeu ao mestre em 190, e misturou a filosofia de Platão com o Cristianismo. Como se sabe, o platonismo (e depois o neo-platonismo) enfatizava o conhecimento, como os gnósticos, e assim até mesmo a salvação pessoal dependia mais do conhecimento do que de Cristo. Clemente simpatizava com esses aspectos místicos e com o método alegórico, e a Escritura foi submetida a todo tipo de exercício metafísico, da mesma forma que Fílon fez com o Pentateuco – o que abriu espaço a doutrinas estranhas, como veremos adiante.
Clemente sentia-se mais à vontade com a filosofia do que qualquer outro mestre cristão, considerando-a o modo de Deus preparar os gregos para a vinda de Cristo. Por isso ele procurou integrá-la à fé cristã. Como os estóicos, ele cria que o verdadeiro cristão deve cultivar a sabedoria e ficar acima das paixões para se tornar semelhante a Deus. O verdadeiro conhecimento não está restrito a um único livro; pelo contrário, a Verdade divina está espalhada pelo mundo: “Há um rio da Verdade, mas muitos afluentes se encontram com ele, desse ou daquele lado”, escreveu.  Vemos aí uma semente de heresia, uma espécie de proto-panteísmo ecumênico ou coisa que o valha. E assim ele procurava interpretar as Escrituras: “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”.  Isso só pode ser obtido através do esforço e da fé do buscador, mas a essência da mensagem de Jesus estaria oculta, só compreendida pela interpretação alegórica ou simbológica. Segundo Eusébio de Cesaréia, Clemente fazia uso com freqüente de livros apócrifos, e dizia: “Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Por aí já se vê no que vai dar essa mistureba.
A partir de 202, a escola esteve sob Orígenes, que como Clemente e Panteno, acreditava na reencarnação e no karma. Entre suas idéias, derivadas do método alegórico, estão:  o celibato como estado santo e superior ao casamento; a vida ascética, contrária ao exemplo dos apóstolos; tentativa de conciliação da filosofia pagã com o Cristianismo; regeneração batismal; purgatório; todos os homens e até mesmo Satanás e demônios, eventualmente, seriam salvos (Cristo, na sua expiação, fez um resgate de Satanás); o Espírito Santo foi a primeira criatura feita por Deus; Jesus Cristo não é plenamente Deus. Eusébio atesta na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”.
Para Orígenes, assim como para muitos pseudo-intelectuais “modernos”, a Bíblia contém erros. Entendia ele que “intercalados com histórias reais estão acontecimentos que não aconteceram, que algumas vezes não poderiam acontecer e que algumas vezes poderiam acontecer, mas não aconteceram” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 138). Quando ele não conseguia entender uma passagem, ou tinha dificuldade para crer em algo, tentava uma interpretação simbólica. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Veja, por exemplo, a confusão que ele arranja com o bom samaritano. O homem assaltado é Adão; Jerusalém é o Paraíso e Jericó, o mundo. Os ladrões são os demônios, o sacerdote é a Lei e o levita simboliza os profetas. O samaritano é Cristo, as feridas a desobediência, a hospedaria é a Igreja, a promessa de retorno do samaritano é a volta de Cristo. Até aí tudo bem, mas então começa a confusão: ele continua dizendo que o burrinho é o corpo do Senhor, os dois denários são o Pai e o Filho (que vão cuidar do ferido), e o hospedeiro é o cabeça da igreja (“o papa”?). Como Jesus pode ser ao mesmo tempo um dos dois denários, o samaritano e o jumento? É muito mais lógico e coerente que o hospedeiro seja o Espírito Santo, que vai cuidar do homem até o samaritano retornar, e nem sei se precisamos procurar significado no jegue. Além do mais, podemos inferir que os dois denários são o Antigo e o Novo Testamentos, ou os mandamentos principais (amar a Deus e ao próximo), ou a fé e as obras... ou então que o levita e o sacerdote são as religiões institucionalizadas que não fazem caridade... etc... Não é preciso buscar sentido oculto em tudo. Tudo isso é legal e bacana como exercício investigativo, mas obviamente, o principal é o sentido literal – fazer o bem sem distinção de pessoas e não passar ao largo, como o levita e o sacerdote. Hall (op.cit.) opina que “embora o sermão de Orígenes seja muito interessante e homileticamente rico, a dúvida é se essa interpretação é correta e afinal, satisfatória. Como saber se Jesus pretendeu que a parábola do samaritano fosse interpretada alegoricamente?... os filósofos gregos haviam feito assim ao estudar as obras de Homero... Orígenes fez o mesmo com a Bíblia” (pg. 140/141).
Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Apesar de o método alegórico enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos, na prática Orígenes fez o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou Mateus 5:28-30 ao pé da letra e castrou-se. Orígenes foi descrito por Mosheim como “um composto de contradições: sábio e insensato, perspicaz e estúpido, criterioso e não criterioso; o inimigo da superstição, e seu protetor; um fervoroso defensor do Cristianismo, e seu adulterador; enérgico e irresoluto; um a quem a Bíblia deve muito, e de quem ela tem sofrido muito”.
Um outro grande disseminador do alegorismo foi  Agostinho (354-430), também um dos “pais da igreja”. Alguns ensinos danosos ao Cristianismo original, com base em suas interpretações alegóricas, foram: os sacramentos como meio de salvação; o batismo infantil, alegando que as crianças não batizadas estavam perdidas, e chamando todos que rejeitavam o batismo infantil de “infiéis e malditos”; que Maria não cometeu nenhum pecado. Como Orígenes, acreditava em purgatório; a autoridade da Igreja estava acima da Bíblia; e o amilenismo (ou amilenarismo), ensinando que a igreja católica é que era o reino de Deus. Nota – igrejas evangélicas que hoje pregam “domínio da nação”, “conquista de cidades”, “atos proféticos para conquistar territórios”, estão repercutindo a teoria amilenista católica/agostiniana, pois não crêem na Vinda de Cristo para implantar o Seu reino milenar na Terra. Acreditam que a Igreja substituiu Israel (“teologia da substituição”) e deve governar o mundo, aqui e agora. Por isso “determinam”, “decretam”, “reivindicam”, “estabelecem” coisas como a prosperidade, o governo etc. Cuidado. Tudo isso é derivação de interpretações alegóricas.
Para Agostinho, ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido oculto se pode aproximar da Verdade divina, sem nunca alcançá-la totalmente. Mais tarde, Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção entre a alegoria teológica (que não seria um artifício retórico mas sim uma visão particular do Universo) e a alegoria secular ou literária. O uso de alegorias se espalhou por outros campos: tornou-se comum na arte medieval o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, obedecendo a complicados esquemas alegóricos, pois acreditava-se que tudo deve significar algo mais do que o simplesmente observável. A literatura desse período também é muito influenciada por esses conceitos, como “A Divina Comédia”e outros textos da época.
Conceitos que ecoam até na Bíblia de Genebra, onde há uma nota em Apocalipse 9:11 identificando o “anjo do poço sem fundo” como “anticristo, o Papa, rei de hipócritas e embaixador de Satanás”. Porém não há razão para se ver esse anjo senão como um anjo caído literal em um buraco literal, e não um símbolo ou alegoria. 
Também o
 Lion Handbook of the Bible (1983), em sua interpretação de Apocalipse 13, diz que as duas bestas são “o Império Romano e a adoração ao seu imperador”.
E o
 Illustrated Bible Handbook assume uma abordagem não-comprometida de Apocalipse, apresentando tanto o ponto de vista literal-futurista como o alegórico, mas sem expor as falhas deste último. Dizem seus autores que os 144.000 remidos são “um número perfeito (12 x 12 x 1.000), representando toda a Igreja de todas as épocas”. A morte das duas testemunhas “simboliza toda a Igreja silenciada pela perseguição”. Os 1260 dias (três anos e meio) são “simbólicos” e representam “períodos de aflição” passados por todos os crentes. Os 42 meses em Apocalipse 13:5 “representam a época do evangelho”. A prisão de Satanás (cap. 20) “aconteceu no nascimento de Jesus”! Essas interpretações esdrúxulas são as preferidas por quem quer complicar e não explicar, e assim mostrar que “cada cabeça uma sentença”. Por isso essas interpretações são as que costumam aparecer em programas sobre catástrofes apocalípticas do Discovery Channell e similares.
O falso profeta Harold Camping, recentemente falecido, depois de agendar o arrebatamento para várias datas – e não acertar nem uma – apareceu certa vez com uma interpretação bizarra: as duas testemunhas representam a Igreja; a Igreja tem estado na grande tribulação, mas agora foi morta. Por isso, Deus chegou ao limite da paciência com igrejas e pastores e eles não têm mais autoridade. Obviamente, uma premissa equivocada que leva a conclusões no mínimo questionáveis.
Todos esses arrazoados místicos estão no núcleo da teologia católica, e deles bebem muitos evangélicos que adotam o dominionismo, a teologia da prosperidade e outras aberrações. Portanto devemos ficar alertas com esse método, tendo muito cuidado com a forma de interpretar a Bíblia, como veremos a seguir.

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Curiosidades
Os estóicos se reuniam sob os pórticos (“stoa”, em grego) dos templos, mercados e ginásios, e ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento; e que um sábio, ou pessoa com “perfeição moral e intelectual”, não sofreria dessas emoções; daí associarmos a palavra “estóico” a uma pessoa paciente, que não se abala. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um logos divino; a alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele; graças a ele o mundo é um kosmos harmônico.
Fílon de Alexandria também defendia a doutrina estóica do logos, a qual mais tarde infiltrou-se no Cristianismo. Para Fílon, o logos é a própria Lei (Torah), a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Por isso muitos identificam no início do Evangelho de João algumas semelhanças com o pensamento de Fílon.

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