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sábado, 27 de janeiro de 2018

Duas caras, dois pesos, duas medidas

Na semana em que o Tribunal Federal Regional da 4ª Região, conhecido pela sigla TRF4, julgou o recurso do ex-presidente Lula e lhe impôs uma dura derrota, a comunidade dita cristã se dividiu em três lados. A imensa maioria, capitaneada pelos seus líderes sabidamente espertos em conduzir o rebanho sempre para a margem dos “vencedores”, comemorou. Uma pífia minoria se manteve mais independente da manada (porque não se pode mais chamar isso de “rebanho”) e preferiu se manifestar contra o que entendeu ser arbitrariedades do poder judiciário (falta de provas consistentes, pré-julgamento pela mídia, irregularidades no processo etc.). E uma outra parte, não pequena, preferiu manter a habitual pose de avestruz, enterrando a cabeça na areia e fingindo que não tem nada com isso. “Vamos orar”, é o mantra dessa parcela de crente chuchu, sem nenhuma personalidade. A popular “Maria-vai-com-as-outras”.
Sejamos honestos. O ex-presidente Lula não é nenhum santo. Em seu duplo mandato de presidente, fez muitas coisas boas e também errou – o que aliás, aconteceu com sua sucessora. Talvez o maior erro tenha sido em nome da governabilidade, se associar a velhas raposas que mais tarde lhe passaram a perna. Enfim, humano, com todas as virtudes e defeitos comuns à maioria de nós. Talvez alguns de nós, cristãos honrados, que frequentamos igrejas todo fim de semana, dizimistas, defensores da família e dos bons costumes, tivéssemos caído nos mesmos erros e pecados que ele. Bom, alguns com certeza, inclusive já cumprindo pena (supostamente, porque ninguém viu de uniforme laranja, cabeça raspada e muito menos com algemas nos pulsos e tornozelos).
E se realmente formos honestos, precisamos dizer com todas as letras que aquela imensa maioria acima citada, que comemorou com aleluias e glórias a sentença do petista, caminha por uma estrada que representa tudo, menos o Cristianismo ensinado por Aquele que dizem seguir.
Os cristãos que antagonizam Lula (resisto a dizer a palavra “inimigos”) se agruparam como moscas no esgoto ao redor do pretenso candidato Jair Bolsonaro. Essa pessoa representa o que há de mais abominável no ser humano, independente de posição sócio-econômica, credo religioso ou ideologia política. É grande a lista de suas qualidades negativas, amplamente conhecidas por todos:
- quase foi expulso do exército por insubordinação e por planejar atos terroristas, logo ele que diz ser adepto da disciplina e opositor ferrenho de “terroristas”;
- opinou que a mulher deve ganhar menos que o homem, “porque engravida, sai de licença por vários meses e dá prejuízo ao patrão”;
- afirmou em público que os negros de uma determinada comunidade são como animais de corte, gordos, vagabundos, que nada fazem;
- disse a uma colega parlamentar que só não a estuprava porque ela não merecia, era “muito feia”;
- declarou ser favorável à tortura;
- demonstrou ter nenhum conhecimento da função presidencial a que almeja, jogando a responsabilidade para seus futuros e eventuais ministros, ao dizer que não precisa saber nada de economia, nem de saúde, por exemplo (quem tem que saber isso é o ministro da pasta correspondente);
- está já por quase trinta anos como parlamentar, sem nunca ter produzido nem uma lei ou projeto relevante sequer, no máximo a nomeação de ruas e praças;
- arranjou uma forma de capitalizar para sua família vários cargos no governo, alguns eleitos na sua sombra, outros funcionários-fantasmas;
- acumulou patrimônio incompatível com sua renda declarada, da ordem de cerca de R$15 milhões, e se negou a explicar;
- disse com todas as letras que recebeu auxílio-moradia indevidamente durante vários anos, e que gastou o dinheiro para “comer gente” (sic).
Ora, aí eu pergunto: como pode um cristão apoiar esse tipo de candidato? Que personagem bíblico poderia ser associado a esse cidadão? Com certeza, nenhum dos apóstolos ou discípulos dos tempos bíblicos. No máximo, biblicamente falando, podemos compará-lo ao joio que foi semeado no campo junto com o trigo, se parece com trigo, mas é apenas mato, erva daninha. Note que não julgamos a pessoa (que cabe a Deus somente), mas as suas obras, seus atos (que cabe à Igreja, como já demonstrei antes aqui neste link).
Boa parte desse grupo de cristãos conservadores (sim, existem cristãos progressistas) costuma apoiar incondicionalmente aquele que é talvez o maior boquirroto da atualidade, a nível mundial – Donald Trump, um milionário que chegou a presidente dos Estados Unidos. Isso em função de dois ou três fatos:
- ele foi eleito com o apoio maciço da direita evangélica, a mesma que considerava o antecessor, Barack Obama, um comunista (por suas ideias relativamente inovadoras no campo da saúde, por exemplo) e até mesmo muçulmano (sinal de extrema desinformação, como ocorre aqui) por conta seu nome exótico para os padrões ianques;
- como retribuição a esse apoio eleitoreiro, abriu os cofres do tesouro para agradar aos pastores e missionários, dando continuidade à política de enviar missões que não apenas “evangelizam” outros povos com Bíblias, panfletos e hinos, mas também com toda uma cultura própria do interior americano, nas roupas, comportamento e o pior de tudo, na defesa do “modo de vida americano” que abomina tudo que não venha de lá;
- o agrado aos crentes inclui declarar Jerusalém como capital de Israel, sem se importar com as consequências desse ato para os diretamente envolvidos na linha de frente do conflito árabe-israelense;
- isso cria para os evangélicos brasileiros, que geralmente não examinam nada com profundidade, uma aura de messias que está abrindo as portas para a evangelização mundial e assim “apressando a volta de Jesus” (outro conceito que carece de base bíblica, que examinaremos em outra oportunidade);
- a posição claramente direitista, quase fascista, fascina os anti-Lula (quase escrevi “inimigos”).
Ora, aí eu pergunto mais uma vez: como pode um cristão simpatizar com esse tipo de pessoa? 
- um homem que desde muitos anos expõe sem o menor pudor o seu machismo, ao considerar as mulheres meros objetos;
- sabidamente racista, ao dizer que os países pobres são “buracos de m****”);
- divisionista e sectário, ao insistir na construção de um muro que impeça a entrada de imigrantes, esquecendo-se de que a América (a dele e a nossa) seriam muito diferentes não fosse a vinda de milhões e milhões de imigrantes de todas as partes do mundo. Veja a própria origem do nome de sua família, imigrantes do leste europeu cujos primeiros representantes tiveram até que mudar de nome para se “americanizar” (fonte).
De novo: como pode uma pessoa que se diz cristã, em nome da família, dos bons costumes e da moral, em nome “de Deus”, defender esse tipo de gente? Nem que seja como oposição ao ex-presidente Lula (que como disse acima, não é nenhum santo, que fique claro)? Qual é o ponto que norteia essa posição? Porque não gosto desta figura política, passo a apoiar qualquer coisa que se lhe oponha? Porque não gosto dessa pessoa, pouco me importam os critérios (ou falta deles) que influenciaram a sua condenação?
Bem, não vou insistir nessas perguntas porque você já sabe o que eu quero dizer. Já entendeu. Logo vão me chamar de comunista...
Na verdade, preciso dizer algo a você. A você que se considera “capitalista”, eu pergunto?
- você é dono de empresa? Tem funcionários que trabalham para você? É dono de algum banco? Possui fazendas? Se sim, ótimo. Se não...
- aplica dinheiro na Bolsa de Valores e em fundos de investimentos? Não? 
Então eu sou mais capitalista do que você... 
Mas... defendo posições que entendo serem progressistas. 
Defendo algumas bandeiras, desde muitos anos, que me custaram algumas “amizades” e várias pedradas vindas de dentro dos templos e denominações.
Defendo a soberania nacional (ao contrário do sr. Bolsonaro, que bateu continência para a bandeira americana) e a não-entrega do patrimônio da nação a potências estrangeiras, ainda mais a preço de banana como têm sido as propaladas privatizações (que nada resolvem e só servem para gerar caixa para o governo entreguista e comissão aos apadrinhados), enviando todo o lucro ao exterior (proveniente de gás, petróleo, minério de ferro e outros minerais, energia eólica e solar, indústrias de transformação);
Defendo direitos básicos para todos e para todas: trabalho, pão, terra, liberdade de ir e vir e de opinião.
Defendo oportunidades iguais para todos, na educação, na saúde, na segurança, nos transportes, na renda mínima digna.
Defendo o fim dos privilégios de classe, como por exemplo a taxação das grandes fortunas.
Se isso é ser socialista, o que eu posso dizer mais? Defender o contrário disto é que é o certo, como o sr. Bolsonaro e o sr. Trump, e sua corja de lacaios hoje encastelados na mídia, nas escolas, no legislativo e no judiciário, nos quartéis e nas igrejas? Este sim é o aparelhamento de que nos falam Antonio Gramsci e Louis Althusser. E que muitos se recusam a conhecer.
Caso se preocupassem em ter apenas uma cara, um peso e uma medida, como nos ensina a Bíblia, procurariam entender um pouco mais os mecanismos que os controlam, invisivelmente.
Ou então, permaneçam com suas duas caras, seus dois pesos, suas duas medidas, que absolvem uns e condenam outros, relativizando os motivos e as evidências.
Exatamente como fez uma certa seita judaica há dois mil anos. Desses, Jesus disse que eram “sepulcros caiados”.

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domingo, 5 de novembro de 2017

Protestantes x evangélicos

Há algum tempo tive o desejo de escrever algo sobre o aniversário de 500 anos da Reforma Protestante. Meio milênio atrás, Martinho Lutero pregou suas famosas “95 teses” na porta de uma igreja no interior da Alemanha e mudou a História da civilização ocidental. Mas acabei desistindo da empreitada por absoluta falta de tempo e porque inúmeros outros autores também se dedicaram a esse tema. 
A maioria deles, devo dizer, foi superficial. Limitaram-se a fatos já conhecidos e a dizer “que bom que hoje podemos ter a liberdade de estudar a Biblia” e por aí vai. Ficou nisso.
Também há algum tempo eu vinha pensando sobre a razão de o protestantismo evangélico estar hoje tão distante dos ideais dos reformadores – não apenas Lutero, mas seus precursores como Wycliffe, Huss, talvez Savonarola, seus contemporâneos como Calvino e Zwinglio, e seus sucessores, como Knox. Onde se perdeu a chama renovadora? Em que momento abandonamos os “cinco Solas” e adotamos doutrinas questionáveis, muitas até heréticas, como a teologia da prosperidade, o dominionismo, a batalha espiritual? Por que um evangélico brasileiro ou americano é tão diferente de um presbiteriano escocês, um luterano alemão ou um metodista inglês? Por que as igrejas evangélicas parecem prosperar na América Latina e na África enquanto na Europa templos estão sendo vendidos para empresas criarem cinemas e teatros?
A resposta não é fácil, nem simples, nem é uma só.
Começo fazendo uma pequena reflexão.
Há evangélicos.
E há protestantes. Peraí... há mesmo? Ainda existe protestante? Pelo menos aqui no Brasil, ainda existe? Houve algum dia?
Há uma enorme diferença entre esses dois termos. Veja esta breve explicação, que pode ser encontrada na Internet após poucos “clicks”:

O termo "protestante" é geralmente usado para se referir às Igrejas oriundas direta e contemporaneamente da Reforma Protestante, como a Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana, a Metodista, e a Congregacional; o termo "evangélico" é usado para se referir tanto a essas, com exceção da Anglicana, quanto àquelas indiretamente e/ou posteriormente oriundas da reforma, como as pentecostais e as neopentecostais. Existem também igrejas que já existiam antes da reforma protestante, por isso seria incorreto chamá-las de protestantes. Um exemplo são as Igrejas Batistas (...)  Adeptos dessas também são chamados de protestantes, embora, no Brasil, por preferência de nomenclatura, não costumem se denominar assim, preferindo a nomenclatura evangélicos. Todo protestante é evangélico, mas nem todos os evangélicos são protestantes. (grifos nossos)

Isto deve ser o suficiente para acender uma lâmpada na nossa cabeça.
Ora, a denominação “protestante” surgiu com Lutero, quando ele se opôs às práticas vigentes do catolicismo, que foram consideradas extra-bíblicas, e portanto, se fazia necessário um retorno às práticas primitivas, dos tempos apostólicos. Lutero e seus apoiadores foram perseguidos pela máquina católica, e por isso fizeram protestos em nome da liberdade religiosa e contra a tirania papal.
Dentre as práticas que deveriam ser abandonadas estavam – todos já sabem – a venda de indulgências (uma espécie de perdão pelos pecados a troco de dinheiro), as superstições e o misticismo misturados ao culto, a rígida hierarquia eclesiástica e outras coisas. Lutero e seus apoiadores lutaram contra isso.
Agora corta para o século XXI. Você entra numa igreja evangélica e nada de protestante existe ali dentro. Não há imagens de santos nem velas, mas você tem:
- uma rígida estrutura eclesiástica que além do pastor agora já tem bispo, apóstolo e até patriarca;
- se você ainda não pode comprar o perdão dos pecados por uma soma de dinheiro, pelo menos pode alcançar (dizem) a prosperidade financeira, a saúde física e emocional, o matrimônio, o emprego dos sonhos, se depositar fielmente e religiosamente uma certa quantia no gazofilácio ou outra coisa para isso destinada;
- pode também depositar sua fé em objetos mágicos como rosas ungidas, sabonetes abençoados, vassoura orada e travesseiro consagrado, para não falar de outros tipos de benzeduras mais inusitadas, como na carteira, no talão de cheques, na chave do carro ou no aparelho genital.
- se preferir, participe de rituais cabalísticos como dar sete voltas ao redor do seu bairro, ou atirar pedras em gigantes imaginários, derramar água, sal, vinho ou o que a sua criatividade declarar como profético, nas encruzilhadas, morros, praias e rios que achar melhor. Benzer a casa com azeite de oliva também é bem comum hoje em dia.
- a mistura com o mundo é tão clara que, por exemplo, se sua vida sexual estiver meio fraca, além de abençoar a cueca e a calcinha você pode adquirir produtos “cristãos” no sex-shop “cristão” para “apimentar a relação”, assim que sair do “baile funk gospel” ou da festa junina gospel, ou do Halloween gospel bem ali ao lado.
Nada mais distante da Reforma Protestante pela qual inúmeros deram suas vidas.
Isso é o evangélico. Não o protestante.
O protestante tem suas raízes fincadas em Wittenberg, naquele protesto explícito contra heresias; mas sobretudo, está embasado pela Bíblia Sagrada. Não se deixa enganar por falsas interpretações que contradizem os Evangelhos. Não embarca em novas revelações, nem em novidades teológicas e modernizações doutrinárias que extrapolam o ensino apostólico.
O protestante sabe quais são as 95 Teses de Lutero, e embora algumas delas possam até parecer datadas – pois Lutero não pensava em “cisma” e sim em reforma – elas são o cerne de uma vida cristã livre e dependente apenas das Escrituras.
O protestante tem cinco premissas – as “Cinco Solas”:
- Sola scriptura (Somente a Escritura) - a Bíblia tem primazia em relação à tradição legada pelo magistério da Igreja, quando os princípios doutrinários entre esta e aquela forem conflitantes. O historiador William Sweet sugeriu que isso posteriormente originou o direito fundamental de liberdade religiosa, bem como a própria ideia de democracia. 
- Sola gratia (Somente a Graça ou Salvação Somente pela Graça) - a salvação é pela graça de Deus apenas, e que nós somos resgatados de Sua ira apenas por Sua graça. A graça de Deus em Cristo não é meramente necessária, mas é a única causa eficiente da salvação. Esta graça é a obra sobrenatural do Espírito Santo que nos traz a Cristo por nos soltar da servidão do pecado e nos levantar da morte espiritual para a vida espiritual.
- Sola fide (Somente a Fé ou Salvação Somente pela Fé) - a justificação é através da fé somente, pois pela fé em Cristo que Sua justiça é imputada a nós como a única satisfação possível da perfeita justiça de Deus.
- Solus Christus (Somente Cristo) - a salvação é encontrada somente em Cristo e que unicamente Sua vida sem pecado e expiação substitutiva são suficientes para nossa justificação e reconciliação com Deus o Pai.
- Soli Deo gloria (Glória somente a Deus) - a salvação é de Deus, e foi alcançada por Deus apenas para Sua glória. Acredito que mui poucos evangélicos conheçam essas declarações.
Muitos pastores evangélicos dizem ser inútil e desnecessário estudar para exercer o ministério. Bastaria um “dom” ou um “chamado”.  Mas os reformadores, ao contrário, foram pessoas de vasta cultura teológica e humanista: Calvino estudou em Sorbonne e seu pai era bispo; Lutero foi professor universitário de teologia; Zwinglio era sacerdote e humanista. Muitos eram professores universitários, respeitados em sua época, e se correspondiam com os grandes filósofos seus  contemporâneos. Como Erasmo de Roterdam, eles buscaram nas fontes da antiguidade cristã as bases para uma renovação religiosa. Lendo a Bíblia e retornando aos Pais da Igreja, descobriram uma visão da fé e uma doutrina bíblica cristocêntrica há muitos séculos esquecidas. Desafio a qualquer um enumerar uma lista de grandes pensadores evangélicos brasileiros, respeitados fora do redil, que não sejam ridicularizados como retrógrados, pedantes ou tacanhos. Existem, felizmente, mas são poucos.
Neste 31 de outubro de 2017, alguns de nós comemoraram 500 da Reforma Protestante.
Mas muitos nem sabiam do que se tratava. Estavam mais preocupados com o Halloween, gospel ou não.
Os reformadores, se porventura tivessem uma visão da situação atual, talvez teriam ganas de voltar à Terra e refazer todo o trabalho, porque vai se esfarelando a sua preciosa herança.
Nesta estranha classificação entre protestantes e evangélicos, prefiro ser protestante. Até porque há quem diga que a certidão de nascimento dos “evangélicos” de hoje está datada em algum ponto dos anos 1950 – e você pode especular um pouco mais neste link. Mas isto é assunto para outro dia.
Como disse Lutero, “A menos que vocês provem para mim pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é correto nem seguro. Aqui permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Que Deus me ajude. Amém”.

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terça-feira, 17 de março de 2015

Como o cristão deve reagir frente a um governo corrupto?

Virou moda, não apenas na mídia e nas redes sociais como também dentro da Igreja Cristã reclamar e bradar aos quatro ventos contra a corrupção, real ou imaginária, propagada nos grupos de Whatsapp em fake news  intermináveis. Que ficam pululando já por mais de dez anos: de vez em quando elas voltam.. Sermões e
homilias se repetem, ecoando pelos blogs e posts no Facebook, no Twitter, principalmente no Whatsapp, e onde mais for possível “botar a boca no trombone”. Líderes religiosos e leigos de repente se tornaram guardiões da ética, da probidade e da transparência, querendo colocar corruptos na cadeia, fuzilar traficantes, fechar o Congresso e espancar os ministros do Supremo. Transformaram-se todos, de uma hora para outra, em profetas que, à moda de Elias e João Batista, vociferam contra o poder político, numa verdadeira cruzada moralizadora.
Mas até que ponto essa motivação pela ética é de fato real? Isto é, qual seria a razão por trás do surto moralizador que faz a todos quererem incorporar o espírito de Elias ou de João Batista?
Antes de tudo, é preciso esclarecer qual era o papel dos profetas nos tempos bíblicos, e também dentro da Igreja e sua relevância para o mundo.
Houve um tempo em que o governo de Deus se manifestava em duas esferas, a civil e a religiosa, em um reino monárquico – mas de cunho teocrático, onde as leis divinas também serviam como lei civil. É por isso que algumas vezes as admoestações dos profetas do Velho Testamento extrapolavam a esfera religiosa e faziam menções a situações de crise social ou econômica (ver Amós 2:6-8; 3:10; 4:1 etc.).
No Antigo Testamento alguns profetas sofreram perseguições por trazer a mensagem divina. O ofício do profeta era de âmbito nacional. Quando Deus levantava um profeta, conferia-lhe a missão de falar em Seu Nome para toda a nação e até para povos estranhos (como Jonas). 
Deus permitiu, naquele momento histórico peculiar, que os profetas abordassem, de vez em quando, assuntos alheios à religião, até mesmo para que as profecias de cunho não-religioso, que se cumpririam em curto prazo, pudessem servir de prova para as profecias de cunho religioso (que são mais importantes por envolver a salvação do gênero humano) – as quais deviam se cumprir muito depois, especialmente no que diz respeito ao Messias. Desta forma, a destruição do Templo, a dispersão dos judeus, a conversão dos pagãos e outras profecias que se cumpriram relativamente em curto prazo serviram como uma prova certa de que também as profecias ainda não-cumpridas também se cumpririam – e se cumprirão a seu tempo (como a vinda do Messias, Sua crucifcação, o Anticristo, a ressurreição dos mortos etc.). Esse tipo de profecia de “curto alcance” pode ser visto em Isaías caps. 36 e 37.
Mas essas situações eram específicas do reino de Israel, do governo teocrático. Ou seja, muito distante do Estado Laico característico dos governos modernos, pós-Revolução Francesa. Uma grande diferença se nota entre o exercício do poder político naqueles tempos e hoje. Os profetas no antigo Israel lidavam com os reis de forma dura e às vezes rude. Apontavam claramente os delitos cometidos pelos reis e povos, lançando-lhes na face, sem temor, as verdades mais humilhantes, procurando apenas obedecer a Deus e amando somente a verdade (cf. I Samuel 15,17; II Samuel 12,7; 24,13; II Crônicas 21,11; I Reis 14,7; 18,18; 21,19; II Reis 1; II Crônicas 16,7; I Reis 22; II Crônicas 19,1; II Reis 3,13; 20; Jeremias 21; 22; 24; Daniel 4; 5; etc.).
Depois do exílio babilônico, quando do restabelecimento de Israel, a difícil situação socio-econômica gerou um ambiente de crise social, cujas injustiças foram denunciadas inicialmente por Amós, indo até a época de Malaquias, cronologicamente, cerca de 400 a.C. Esse período, diferentemente do anterior, foi caracterizado pelo sofrimento e marginalização dos profetas. De homens dignos de reverência passaram a ser vistos com hostilidade, porque sua mensagem ia de encontro aos interesses escusos das lideranças religiosas e políticas (Hebreus 11:36-38).
O plano de Deus era que houvesse cooperação entre profetas e sacerdotes, mas estes últimos tendiam a aderir ao liberalismo e deixavam de protestar contra a decadência. O livro de Malaquias é uma dura advertência dos profetas contra os sacerdotes, os verdadeiros ladrões do dízimo (e não o povo, como se tenta fazer crer hoje em dia). Leia mais sobre isto aqui. Os sacerdotes muitas vezes concordavam com a situação reinante, e sua adoração a Deus resumia-se a cerimônias e liturgias. O profeta, por outro lado, ressaltava o modo de vida, a conduta e as questões morais. Repreendia constantemente os que apenas cumpriam com os deveres litúrgicos. Irritava, importunava, denunciava, e sem apoio humano defendia justas exigências e insistia em aplicar à vida os eternos princípios de Deus. Era ensinador da ética, reformador moral e inquietador da consciência humana. Desmascarava o pecado e a apostasia, procurando despertar a um viver realmente santo.
Quando chegamos no Novo Testamento,  há uma transição no ministério do profeta. Vemos João Batista, tido por muitos como o último profeta do Antigo Testamento, pelo caráter de sua pregação – denunciou as mazelas dos líderes religiosos e políticos da nação, como antes dele Ageu, Malaquias e principalmente Elias, mas também anunciou o Messias, como Isaías. E quando a Igreja é instituída, o ministério dos profetas se revela um dom de Deus para a edificação do Corpo de Cristo. No Novo Testamento os profetas não perderam a preeminência. Mas, diferentemente de antes, não mais atuam ungindo reis. Não mais participam do governo, mas juntamente com os apóstolos e outros ministérios, são as colunas da Igreja. Seu ministério é muito mais em âmbito interno, porque tudo que se precisa saber acerca das nações e do governo humano já está revelado. Leia, por favor, o Salmo 2 e Apocalipse 11:10, 17-18; também o cap. 17:12-16. O governo humano, as nações, suas instituições, sua política, sua economia, suas leis, tudo jaz (i.e., descansa, se apóia) no Maligno (I João 5:19), e por isso não há outro caminho senão a destruição.
I Coríntios 12: 27 -29 e Efésios 4.11-13 atestam o caráter de edificação da Igreja que acompanha o ministério dos profetas nesta era. O Senhor continua a levantar e a usar seus porta-vozes para revelar a sua mensagem ao seu povo. Podem eventualmente aconselhar governos, pessoas influentes, admoestar e até mesmo criticar, tendo como padrão a Palavra de Deus, mas não podem se deixar levar por suas próprias preferências pessoais. E este, penso, é um dos maiores erros da Igreja de nossos dias.
O que ocorre é um grave problema no entendimento do papel da Igreja no mundo. Jesus disse que o papel dos salvos era propagar a Sua Palavra, pregar o Evangelho (i.e., as boas-novas da salvação). Evidentemente, isso haveria de impactar e transformar o mundo, como de fato ocooreu nos primeiros séculos. Mas depois de algum tempo surgiu a noção errônea de que a Igreja deveria governar o mundo em nome de Cristo, uma doutrina comumente chamada de dominionismo, e nós já discutimos aqui, aqui e aqui, para ficarmos só nesses exemplos.  
Essa doutrina, embora eminentemente católica na sua origem, tem desdobramentos na igreja evangélica, uma vez que muitos pastores crêem nela com todas as suas forças. Daí essa idéia se desdobrar pelas igrejas, e a partir de certo momento, muitos passaram a se arvorar em arautos de Deus e tentar influenciar - em suas próprias palavras - governos e governantes, e conquistar cidades e nações “para Deus”.
Quando não conseguem, põem-se a criticar o governo e os governantes que não lhes agradam, dizendo-se “profetas de Deus”, quando no fundo são apenas profetas de si mesmos.
Muitos pastores e líderes são sinceros, e imbuídos de um forte senso de mora, ética e honestidade, querem de fato que a nação seja um exemplo para todo o resto do mundo. Como qualquer cidadão de bem, ficam triste quando vê notícias sobre corrupção e dilapidação do patrimônio nacional. Mas, como qualquer cidadão, estão sujeitos ao momento histórico e ao contexto social, político e cultural em que foram formados, o que, na maioria das vezes, significa serem conservadores, ideologicamente à direita no espectro político, avessos ao socialismo – mesmo que às vezes nem saibam direito o que é. Veja bem, não estou dizendo que é certo ou errado estar à direita, ao centro ou à esquerda, ou em qualquer outra divisão que se queira adota – o que quero dizer é que os cristãos – líderes, leigos, com cargo ou sem cargo – devem primeiro se questionar se estão contra ou a favor do governo atual por questões ligadas à ética, honestidade, transparência, querer o melhor para a nação etc., ou se são contra ou a favor apenas porque gostam ou não gostam de quem está no poder, no momento.
Senão, vejamos. Já até discuti isso antes, aqui, por ocasião dos protestos de 2013. Um monte de pastores se assumiu protestante de fato e saiu em defesa das manifestações de então, dizendo que tinha que ir pra rua mesmo. OK, até aí tudo bem. Se achamos que algo está errado, graças a Deus que vivemos numa democracia e podemos reclamar. Graças a Deus e a quem veio antes de nós e lutou por restabelecer um estado democrático, porque antes de 1985 vivíamos numa ditadura militar onde quem discordava do governo, o presidente mandava “prender e arrebentar” – palavras do general Figueiredo, o último ditador. Nessa época, não sei de nenhum líder evangélico que saísse em defesa de protestos e manifestações contra o regime de exceção. Pelo contrário, naquela época, era comum os líderes evangélicos (que ainda não ostentavam esse título pomposo e se contentavam em ser chamados apenas de “pastor”) costumavam pregar que deveríamos obedecer às autoridades, porque elas foram estabelecidas por Deus (cf. Romanos 13:1,2).
Sim, mas quando questionávamos “e se o governo for injusto”, um governo que tortura e mata seus opositores, além de transparência zero nas contas, recebíamos como resposta que não, não deveríamos ser rebeldes. Deus, a Seu tempo, resolveria isso e tiraria do governo as pessoas injustas.
Mas às vezes a coisa se inverte totalmente de lado. Dependendo do governo do momento, não só podemos, mas devemos nos revoltar contra a injustiça e a corrupção, como se fosse coisa nova. Se o governo é do agrado do conservador, então relativiza-se Romanos 13:1 e 2, e entra em cena Provérbios 29:2 (“Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme”), que aliás, foi usado para pedir votos para Marina Silva. Como a dizer que, se o governo for exercido por cristãos, tudo será só maravilhas, oh glória. Esquecendo-se de que o país já foi governado por pelo menos dois evangélicos, Café Filho (1954) e Ernesto Geisel (1974-79), e não se tem registro de que a situação tenha sido de alívio para todo mundo. Aliás, o período de Geisel foi onde mais recrudesceram as prisões, torturas e mortes do regime verde-oliva. Então, confesso que não sei até que ponto o estímulo a “ir pra rua”, partindo dos púlpitos modernos, realmente tem a ver com o desejo de justiça, ética, transparência, fim da corrupção, ou até onde é meramente um discurso de classe, político-partidário, ideológico, de um segmento que simplesmente apoia determinado político.
Mais uma vez – isto é um direito do cidadão, o de se posicionar contra, a favor ou com neutralidade ou até mesmo indiferença diante de situações específicas. Agora, querer assumir o papel de profeta, de Elias e de João Batista, como se fosse um paladino da justiça, apenas para esconder preferências pessoais, partidárias, classistas e de caráter ideológico e político, e pedir intervenção militar, volta da ditadura, fechamento do Congresso e da Suprema Corte, não posso aceitar de jeito nenhum. É dominionismo, em maior ou menor grau – simplesmente desejo de poder, de querer “governar em nome de Deus”, o que já discuti antes em vários posts anteriores, doa a quem doer. Vá aqui mesmo em “pesquisar neste blog” que você acha.
Se isso fosse um desejo genuíno de justiça social, probidade, ética, tudo de bom... esses líderes teriam se manifestado antes.
Bem antes.
No tempo dos generais, por exemplo.
Ou no tempo dos anões do orçamento.
Não teriam defendido Collor ou um genocida, misógino, racista, admirador de torturadores.
E por aí vai.

Com informações adicionais de:
http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/licao7-dem-2tr14-o-ministerio-de-profeta.htm

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Não seria melhor existir uma só religião?

Enquanto muitos se digladiam na Internet e especialmente nas redes sociais por conta de eleições, outros fatos vão passando despercebidos pela maioria dos cristãos. Por exemplo, temos visto quase toda semana, senão quase todo dia, notícias sobre a intensificação dos esforços do Vaticano, na pessoa do “papa” Francisco, para integrar as diversas religiões no que ele chama de “diálogo”. Primeiro ele recebeu Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla. Em seguida, esteve com o bispo metropolitano russo, Hilarion, “ministro dos negócios estrangeiros” do Patriarcado de Moscou. Na Sala Clementina do Vaticano, ocorreu outra reunião com os líderes e representantes de outras religiões. E a última audiência foi com o diretor executivo do Congresso Judaico Latino-americano, Claudio Epelman (fonte). Também se encontrou com o líder da Igreja Copta (cristãos egípcios) Tawandros II.
Já houve reuniões com protestantes e mórmons, incluindo os badalados Joel Osteen e Kenneth Copeland; com rabinos em Roma, com os muçulmanos na Itália. Aliás, os muçulmanos parecem ter aceitado Francisco muito bem. E agora, esteve na Coréia para não apenas marcar o território com a presença católica, mas também lançar mais uma vez o seu já batido discurso em prol da união.
Há pouco tempo, o ex-primeiro-ministro espanhol saiu-se com esta: “a criação de uma autoridade religiosa global para zelar pela paz mundial”.
Um pouco antes, em 2010, o “ex-papa” B16 já pedia “a união das religiões”. Aliás, o Vaticano já prega abertamente uma “união monetária mundial”, para resolver o problema das crises econômicas globais. E curiosamente, desde 2010 uma comissão da ONU esteve empenhada no que chama de esforços para a unificação das religiões.
Já sei, há quem diga que isto é normal e até desejável: líderes religiosos se encontrarem em busca de objetivos comuns, que seriam a paz mundial, o fim dos conflitos de cunho religioso, a convivência pacífica das diversas comunidades etc. Poderia até ser, se tudo isso não tivesse uma motivação mais política do que religiosa, entendendo-se por “política”, latu sensu:
- o poder ideológico, com base na influência que as idéias da pessoa investida de autoridade exerce sobre a conduta dos demais: deste tipo de condicionamento nasce a importância social daqueles que sabem, quer os sacerdotes das sociedades arcaicas, quer os intelectuais ou cientistas das sociedades evoluídas. É por eles, pelos valores que difundem ou pelos conhecimentos que comunicam, que ocorre a socialização necessária à coesão e integração do grupo;
- e o poder político propriamente dito, onde se pretende alcançar (pela ação dos políticos, em cada situação) as prioridades do grupo (ou classe, ou segmento nele dominante): nas convulsões sociais, a unidade do Estado; em tempos de estabilidade interna e externa, o bem-estar, a prosperidade; em tempos de opressão, a liberdade, direitos civis e políticos; em tempos de dependência, a independência nacional (Fonte dessas definições).
Esses vieses político-ideológicos podem ser facilmente identificados. A jornalista e escritora Berit Kjos relata ter participado em 1996 de uma conferência da ONU na Turquia (Habitat II), sobre assentamentos humanos, que definia políticas muito suspeitas em relação às diversas práticas religiosas. A lista dos 21 membros do painel incluía personalidades globais: Federico Mayor, diretor-geral da UNESCO; Maurice Strong, líder da ONU; Ismail Serageldin, vice-presidente do Banco Mundial; Millard Fuller, fundador de Habitat pela Humanidade. Junto com outros dignatários globalistas, eles falaram sobre uma “base espiritual para uma ética global evolutiva” para uma futura comunidade planejada. A jornalista relatou que a Conferência usou enormes galpões nas proximidades das docas de Istambul para expor modelos de cidades planejadas. Não havia igrejas: mas cada modelo tinha um grande local central de reuniões para comunhão e iluminação coletiva.
“O que é necessário é um centro interfé em cada cidade do globo”, disse James Morton, ex-deão da Catedral Episcopal de São João Divino, em Nova York. “Os novos centros interfé honrarão os rituais de todas as tradições: Islã, Hinduísmo, Jainismo, Cristianismo... e fornecerão oportunidades para a expressão sagrada necessária para vincular os povos do planeta em uma solidariedade viável, significativa e sustentável”.
Parece estranho? Só que esse “novo modo de pensar” – na prática, uma nova ideologia – já permeou todos os segmentos da sociedade: educação, empresas, governo, a mídia, as artes e a cultura. John Lennon já cantava há mais de 30 anos na sua célebre “Imagine” como seria bom se não existissem religiões (obviamente ele também queria que não existisse céu nem - principalmente - inferno...). Hoje em dia o maior defensor da união das religiões é Bono, do grupo U2.
Mas o Movimento de Crescimento de Igrejas, incluindo as que seguem o modelo Propósitos, também aderiu ao esquema. O ex-pastor Caio Fábio é um que usa a música do ex-beatle em suas pregações. E promovendo a transformação em todos esses setores estão os programas de treinamento de líderes que seguem a visão dos gurus da Administração, como Peter Drucker, Peter Senge e Ken Blanchard. A parte central de seu ensino é a “Teoria Geral dos Sistemas”, ou “Pensamento Sistêmico”. Em resumo, tudo está interconectado, portanto, tudo é Um e todas as divisões e fronteiras precisam ser eliminadas, de modo a estabelecer a “Vizinhança Global” – isto é, a Nova Ordem Mundial. Líderes emergentes, como Brian McLaren, chamam isto de “o Reino de Deus”.
Na edição de 18 de fevereiro de 2012, o Wall Street Journal publicou um artigo – “Religião Para Todos” – que se encaixa perfeitamente bem com a visão de mundo da ONU. O autor, Alain de Botton, apresenta um plano para uma unidade social que atenda às exigências da agenda global. Misturando tradições religiosas de todo o mundo, o plano moldaria nossas mentes, transformaria as comunidades e estabeleceria novas regras e rituais para todos (menos para o Cristianismo bíblico). Diz o artigo (ênfases acrescentadas):
“Uma das mais sentidas perdas da sociedade moderna é a de um sentido de comunidade. Tendemos a imaginar que existia antigamente um nível de proximidade que foi substituído pelo cruel anonimato... Ao tentar compreender o que erodiu nosso senso de comunidade, os historiadores atribuem um importante papel à privatização da crença religiosa que ocorreu na Europa e nos EUA no século 19. Eles sugeriram que começamos a desconsiderar os vizinhos ao nosso redor, ao mesmo tempo que deixamos de honrar nossos deuses como uma comunidade  [...] acredito que seja possível recuperar nosso senso de comunidade... sem ter de construir sobre um alicerce religioso  [...] Em um mundo sitiado por fundamentalistas, tanto da variedade secular quanto religiosa, precisa ser possível balancear uma rejeição da fé religiosa com uma reverência seletiva para rituais e conceitos religiosos  [...] as comunidades religiosas [...] usam tipos específicos de alimento e bebida para representar conceitos abstratos, dizendo aos cristãos, por exemplo, que o pão representa o corpo sagrado de Cristo.... e ensinando aos zen-budistas que suas xícaras com chá em lenta infusão são símbolos da natureza transitória da felicidade em um mundo flutuante  [...] tomando seus assentos em um Restaurante Ágape, os convidados encontrariam diante de si livros de orientações [...] Ninguém seria deixado sozinho para encontrar seu caminho para uma conversa interessante com outra pessoa... O Livro do Ágape instruiria os convidados a conversarem uns com os outros por períodos pré-determinados de tempo e a respeito de tópicos também pré-determinados” [...]
Ora, se isso não é uso de religião – mesmo uma coisa estranha como essa religião “ecumênica” – com fins políticos, então não sei mais do que se trata. E ninguém melhor para exercer o papel aglutinador desse movimento global do que o maior líder religioso do planeta, o Sr. Jorge Bergoglio, que chefia nada menos do que 1 bilhão ou mais de pessoas. Ele tem todas as ferramentas para acertar onde outros falharam.
A Maçonaria tentou juntar todos os gatos num balaio só, mas esbarra no fato de ser demasiadamente misteriosa e elitista, e sua aura de mistério chega a causar repulsa aos que a olham de fora. Símbolos, gestos e rituais estranhos não são exatamente apropriados a uma estratégia de globalização, e acho que nem eles querem isso. A exclusividade é uma característica de que os membros mais abastados não abririam mão.
Já o catolicismo, embora também tenha seus rituais e “mistérios”, atua na direção oposta, isto é, quanto mais gente, melhor. Por isso, desde o seu início, lá pelo século III ou IV, começou seu caminho rumo ao sincretismo, ou seja, a aceitação de elementos originalmente estranhos, com o objetivo de se tornar mais atraente aos diversos povos e civilizações com quem entrava em contato. Vêm daí os mitos e lendas de santos, as cerimônias elaboradas, o sacerdócio altamente organizado em hierarquias, etc.
17 séculos depois, ao experimentar um lento mas consistente declínio, ao lado da diluição das doutrinas e costumes protestantes (outrora radicalmente opostos) e do aumento das tensões entre cristãos e muçulmanos (principalmente nos países islâmicos), uma boa estratégia é vender a imagem de conciliador, de “bom pastor”, e da alegada necessidade de união e cooperação.
É evidente que isso interessa a quem já defende, de longa data, um governo global unificado. E nesse objetivo de controle total, a ONU e a igreja católica parecem caminhar de mãos dadas.
Não podemos esperar disso nada mais nada menos do que o renascimento da política medieval de união do poder civil e do poder religioso, uma estrutura miscigenada da qual não se pode fugir. Um poder tão forte que não dará a nenhum ser humano a opção de o rejeitar – só morrendo.
O citado Ismail Serageldin, ex vice-presidente do Banco Mundial, disse: “Vamos garantir que a mudança social e a transformação ocorram na direção certa... A mídia precisa atuar como parte do processo educativo que combata o individualismo”.
Incrível é que isso que hoje se desenha estava previsto há quase 2.000 anos, pois podemos ler nas páginas da Bíblia que [...] vi subir do mar uma besta [...] e deu-se-lhe autoridade sobre toda tribo, e povo, e língua e nação. E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra...” (Apocalipse 13:1, 7, 8);
e que [...] vi subir da terra outra besta [...] Também exercia toda a autoridade da primeira besta na sua presença; e fazia que a terra e os que nela habitavam adorassem a primeira besta [...] E operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens; [...] e enganava os que habitavam sobre a terra e lhes dizia que fizessem uma imagem à besta [...] E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes fosse posto um sinal na mão direita, ou na fronte, para que ninguém pudesse comprar ou vender, senão aquele que tivesse o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome”(idem, vs. 11-17). 
O que mais isso poderia significar? Para mim é simples: a primeira “besta” (no sentido de uma coisa terrível, inominável) exerce poder político de forma global (autoridade sobre toda tribo, e povo, e língua e nação) e a segunda “besta” é o braço religioso que apóia a primeira “besta” (exercia toda a autoridade da primeira besta; fazia com que todos a adorassem; operava grandes sinais; patrocinou a imagem para adoração) que por fim se funde à primeira com o poder econômico (fez com que a todos fosse posto um sinal, sem o qual a pessoa se torna um pária).
Não caminhamos a passos largos para essas coisas? Ou você se rende a esse sistema político-religioso-econômico que está em curso, ou será posto à margem.
Será que você está preparado(a) para o que poderá ser realidade em muito pouco tempo?


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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

As 7 igrejas do Apocalipse (II)

Anteriormente, falamos da doutrina dos nicolaítas, a qual vem se infiltrando na Igreja desde o primeiro século, como podemos ver a partir do alerta de Jesus às igrejas de Éfeso e Pérgamo. Em Apocalipse 2:6, 15, somos informados de que Jesus odeia os “nicolaítas” de Éfeso; o Senhor elogia aquela igreja, que também os odiava. E na igreja de Pérgamo vemos que esse pessoal também já estava alojado,  e que Jesus os odiava igualmente.
Também vimos que, numa igreja aqui bem pertinho de você, estão fazendo cerimônias estranhas, que mais se assemelham a eventos maçônicos e católicos, tal a papagaiada que arranjam com vestimentas especiais para os líderes, diáconos e outros, numa clara demonstração de diferenciação entre o “clero” (“sacerdócio”) e o povo em geral – os leigos.
Vimos que cada igreja de Apocalipse representa uma fase do Cristianismo. E que, enquanto as três primeiras não mais existem, elementos característicos das quatro últimas ainda convivem conosco: Tiatira (igreja católica, medieval, que estudaremos agora); Sardes (igreja reformada, mas formal, fria, intelectualizada); Filadélfia (igreja missionária) e Laodicéia.
Pois bem, como falamos antes, Éfeso e Pérgamo enfrentaram o problema do governo, ou controle, de uma classe sacerdotal, sobre os chamados “leigos”. Mas em Tiatira há um outro governo, e embora também identificamos ali os nicolaítas, não é como Laodicéia (a igreja onde o povo manda). Em Tiatira, quem dá as ordens é uma mulher, identificada como Jezabel.
Quem é essa Jezabel? Seria a mesma Jezabel do tempo do profeta Elias? Ou é outra com o mesmo nome? Precisamos primeiro saber quem foi a Jezabel original, pois Jesus está se referindo a alguém com as mesmas características da rainha má do tempo do profeta Elias.
Alguns cristãos, quando ouvem o nome “Jezabel”, pensam numa mulher cheia de jóias, pintada, maquiada, sedutora, atraente. Esta visão minimalista de Jezabel baseia-se em II Reis 9:30, mas a Bíblia não relata se ela vivia se embelezando. Alguns estudiosos crêem que Jezabel tenha se pintado e adornado para tentar seduzir Jeú e assim escapar ao seu destino. A Bíblia também não diz nada sobre sua beleza, mas possivelmente ela era bonita e atraente, pois o Rei Acabe, um homem poderoso e que poderia ter muitas mulheres aos seus pés, se apaixonou por ela e a tornou sua rainha. Outros chegam a afirmar que Jezabel teria sido a inventora da maquiagem, um absurdo pois a maquiagem já existia milhares de anos antes.
Uma outra corrente associa Jezabel a um “espírito” ou “demônio autoritário, que tenta exercer domínio e poder; como quando a esposa manda no marido ou no caso de “pastoras” que assumem o governo de igrejas.
Mas para destrinchar o mistério de Jezabel e por que ela é mencionada em Apocalipse precisamos buscar a personagem real, para entender a simbologia. Diz a advertência à igreja de Tiatira que “tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos; e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição” (Apocalipse 2:20 e seguintes).
Quem foi Jezabel? Era filha de um rei chamado de Etbaal (“com Baal”), conf. I Reis 16:31. Segundo Flávio Josefo, Etbaal tomou o trono assassinando o antecessor, e era sacerdote de Astarte (deusa fenícia da fertilidade, também conhecida sob os nomes de Aserate ou Astaroth). Registros históricos mencionam Etbaal como rei de Tiro e Sidom (que formavam a nação dos fenícios, na região que hoje é o Líbano). O fato de Etbaal ser sacerdote de Baal e Astarte pode ter influenciado no zelo religioso da filha Jezabel, segundo alguns, tia-avó de Dido, fundadora de Cartago (citada por Virgílio na “Eneida”). Há quem diga que o nome “Jezabel” significa “montão de lixo”, mas eu discordo frontalmente dessa idéia, mesmo não entendendo de línguas antigas.
É simples. Muitos nomes fenícios terminavam com “bel” ou “bal”, referência ao deus Baal (como os heróis cartagineses Aníbal – “dádiva de Baal” – e Asdrúbal – “auxílio de Baal”, ou “Baal é meu ajudador”). Então, “Jezabel”, como nome de princesa, nunca poderia significar “lixo”, obviamente uma tentativa tosca de associá-la à impureza. Ou então, como descobri em um site de “batalha espiritual”, “o nome Jezabel significa ‘sem coabitação’... um espírito que se move de um lugar para outro, de uma geração para outra”. É óbvio que isso é forçar a barra.
Na verdade, “Jezabel” se assemelha muito a “Isabel” (no hebraico, “Izebel”, casta, pura), a forma reduzida de “Elizabeth” (no hebraico Elishebba, “dedicada a Deus” ou, segundos alguns, “Deus é meu juramento”). Portanto é bem possível que “Jezabel” seja “dedicada a Baal”, o que explicaria o seu zelo. Mas a tradução mais coerente que encontrei foi esta: “Yez-Baal, Baal é exaltado”.
A união de Acabe e Jezabel ratificou uma aliança entre Tiro e Israel, pela qual Onri (pai de Acabe) se fortaleceu (I Reis 16:16-28). Determinada e independente, Jezabel não tinha escrúpulos para conquistar os seus objetivos, como no episódio da vinha de Nabote (I Reis cap. 21). Quando o profeta Elias soube do acontecido, profetizou uma morte terrível para a rainha.
Mas até esse dia chegar, Jezabel seguiu causando danos, tanto para o reino de Israel, como para Judá (21:1-29), pois sob sua influência, o rei e o povo foram atraídos para Baal (16:31-33). A rainha não apenas adorava os seus deuses, mas combatia Jeová. Para isso, recorreu ao tesouro público para sustentar 450 profetas (ou sacerdotes) de Baal e mais 400 da deusa Aserate (a mesma Astarote dos filisteus, e Ishtar para os babilônios), que cultuavam nos bosques e comiam à sua mesa (18:19). Jezabel também construiu um templo a Baal, anexo ao palácio real. Como se sabe, as religiões semíticas envolviam não apenas práticas sexuais (ritos de fertilidade), mas também sacrifício de crianças (Jeremias 19:5), uma abominação para os israelitas fiéis a Jeová.
É possível que a imoralidade que caracterizava esses cultos (II Reis 9:22) seja um dos motivos da referência a Jezabel em Apocalipse. A vida impudica de Jezabel, que se deduz desse versículo, associou o seu nome, para sempre, à imoralidade e à prostituição, tolerância ao pecado, etc. É com esse sentido e também pelo ocultismo e falsos ensinos que Jezabel é citada em Apocalipse. Por ter sido sedutora e sem escrúpulos, todos aqueles que são maliciosos, astuciosos, vingativos e cruéis se espelham nela. Como Faraó, foi perseguidora dos santos de Deus: os sacerdotes e profetas israelitas que não foram eliminados por ela, fugiram (I Reis 18:4 e 19:2).
Sua morte está em II Reis 9:30-37. Acabe reinou 22 anos, de 874 a 853 a.C., e morreu em batalha. Seu filho (e de Jezabel) Jorão, sucedeu Ocozias, filho mais velho que reinou apenas dois anos (853-852) e morreu de um acidente banal, uma queda da sacada (II Reis 1:2, 16, 17). Jorão reinou 12 anos e foi morto por Jeú em 841 a.C., provável data da morte de Jezabel e no mesmo dia em que morreu seu neto Ocozias II, então rei de Judá (filho de Atalia). Quando a rainha soube que Jeú se aproximava do palácio, pintou os olhos e adornou a cabeça, desafiando Jeú da janela, mas por ordem dele foi atirada lá de cima e morreu na queda. Seu corpo ficou abandonado por algum tempo, sendo devorado por cães, cumprindo a profecia de Elias. Jeú ordenou que ela fosse sepultada, pois se tratava da filha de um rei. Mas os servos do palácio apenas encontraram o seu crânio, os pés e as mãos. Não há consenso se ela queria seduzir Jeú ou apenas morrer de maneira “digna”. O que é real e concreto é que, sete anos após sua morte, sua linhagem estava praticamente extinta; apenas Joás sobreviveu, graças a uma tia que o havia escondido.
Jezabel causou inúmeros prejuízos a Israel como nação, à sua família e por fim, a si mesma. Sua filha Atalia a imitou em crueldade. Dada em casamento a Jorão, rei de Judá, com a intenção de promover união entre Israel e Judá, seu filho Ocozias II foi morto no mesmo dia em que morreu sua mãe Jezabel. Quando soube da morte do filho, e vendo que Jezabel era morta, Atalia mandou matar todos os descendentes da família real, inclusive seus netos, e governou Judá sozinha durante seis anos (842-837 a.C.). Não se perca no meio dessa mortandade toda numa só família, até mesmo porque os nomes são parecidos. A Bíblia diz que Judá somente teve paz depois que Atalia morreu à espada, no seu próprio palácio. Só então, com o fim de Jezabel e a extinção de sua linhagem, o povo começou a retornar ao culto de Jeová (o único sobrevivente, Joás, filho de Ocozias II que fora escondido pela tia, mais tarde se tornou um bom rei).
Entretanto, a separação dos reinos do Sul e do Norte se aprofundou nessa época. O isolamento de Samaria levou a profundas divisões e antipatias que vararam séculos. No tempo de Jesus, os judeus (como passaram a se chamar os do reino do Sul, Judá) e os samaritanos do Norte não se bicavam.
Agora que já sabemos quem foi a Jezabel histórica, teremos condições de analisar melhor a Jezabel profética, que aparece em Apocalipse como sendo “profetisa” na igreja de Tiatira.
Mas só na próxima semana.
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Curiosidade: encontrado anel pertencente a Jezabel
A análise que confirmou a associação da rainha com o sinete, feito de opala e repleto de desenhos e inscrições, foi feita por Marjo Korpel, especialista da Universidade de Utrecht. O objeto é muito maior que os outros da mesma época e possui símbolos associados à realeza e ao sexo feminino: uma esfinge com coroa, serpentes e falcões. A tradução das inscrições revela claramente as letras [l’] yzbl. Jezabel e seu marido Acabe reinaram numa época em que o antigo reino israelita estava dividido em duas partes rivais: Judá, no sul, cuja capital era Jerusalém e cujo povo deu origem aos atuais judeus; e Israel, no norte, onde o casal governava e a capital era Samaria. O sinete parece mostrar que a rainha de fato era muito influente: ele era usado para ratificar documentos, o que significa que ela podia "despachar" por conta própria em seu palácio. (Fonte)

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