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sábado, 27 de janeiro de 2018

Duas caras, dois pesos, duas medidas

Na semana em que o Tribunal Federal Regional da 4ª Região, conhecido pela sigla TRF4, julgou o recurso do ex-presidente Lula e lhe impôs uma dura derrota, a comunidade dita cristã se dividiu em três lados. A imensa maioria, capitaneada pelos seus líderes sabidamente espertos em conduzir o rebanho sempre para a margem dos “vencedores”, comemorou. Uma pífia minoria se manteve mais independente da manada (porque não se pode mais chamar isso de “rebanho”) e preferiu se manifestar contra o que entendeu ser arbitrariedades do poder judiciário (falta de provas consistentes, pré-julgamento pela mídia, irregularidades no processo etc.). E uma outra parte, não pequena, preferiu manter a habitual pose de avestruz, enterrando a cabeça na areia e fingindo que não tem nada com isso. “Vamos orar”, é o mantra dessa parcela de crente chuchu, sem nenhuma personalidade. A popular “Maria-vai-com-as-outras”.
Sejamos honestos. O ex-presidente Lula não é nenhum santo. Em seu duplo mandato de presidente, fez muitas coisas boas e também errou – o que aliás, aconteceu com sua sucessora. Talvez o maior erro tenha sido em nome da governabilidade, se associar a velhas raposas que mais tarde lhe passaram a perna. Enfim, humano, com todas as virtudes e defeitos comuns à maioria de nós. Talvez alguns de nós, cristãos honrados, que frequentamos igrejas todo fim de semana, dizimistas, defensores da família e dos bons costumes, tivéssemos caído nos mesmos erros e pecados que ele. Bom, alguns com certeza, inclusive já cumprindo pena (supostamente, porque ninguém viu de uniforme laranja, cabeça raspada e muito menos com algemas nos pulsos e tornozelos).
E se realmente formos honestos, precisamos dizer com todas as letras que aquela imensa maioria acima citada, que comemorou com aleluias e glórias a sentença do petista, caminha por uma estrada que representa tudo, menos o Cristianismo ensinado por Aquele que dizem seguir.
Os cristãos que antagonizam Lula (resisto a dizer a palavra “inimigos”) se agruparam como moscas no esgoto ao redor do pretenso candidato Jair Bolsonaro. Essa pessoa representa o que há de mais abominável no ser humano, independente de posição sócio-econômica, credo religioso ou ideologia política. É grande a lista de suas qualidades negativas, amplamente conhecidas por todos:
- quase foi expulso do exército por insubordinação e por planejar atos terroristas, logo ele que diz ser adepto da disciplina e opositor ferrenho de “terroristas”;
- opinou que a mulher deve ganhar menos que o homem, “porque engravida, sai de licença por vários meses e dá prejuízo ao patrão”;
- afirmou em público que os negros de uma determinada comunidade são como animais de corte, gordos, vagabundos, que nada fazem;
- disse a uma colega parlamentar que só não a estuprava porque ela não merecia, era “muito feia”;
- declarou ser favorável à tortura;
- demonstrou ter nenhum conhecimento da função presidencial a que almeja, jogando a responsabilidade para seus futuros e eventuais ministros, ao dizer que não precisa saber nada de economia, nem de saúde, por exemplo (quem tem que saber isso é o ministro da pasta correspondente);
- está já por quase trinta anos como parlamentar, sem nunca ter produzido nem uma lei ou projeto relevante sequer, no máximo a nomeação de ruas e praças;
- arranjou uma forma de capitalizar para sua família vários cargos no governo, alguns eleitos na sua sombra, outros funcionários-fantasmas;
- acumulou patrimônio incompatível com sua renda declarada, da ordem de cerca de R$15 milhões, e se negou a explicar;
- disse com todas as letras que recebeu auxílio-moradia indevidamente durante vários anos, e que gastou o dinheiro para “comer gente” (sic).
Ora, aí eu pergunto: como pode um cristão apoiar esse tipo de candidato? Que personagem bíblico poderia ser associado a esse cidadão? Com certeza, nenhum dos apóstolos ou discípulos dos tempos bíblicos. No máximo, biblicamente falando, podemos compará-lo ao joio que foi semeado no campo junto com o trigo, se parece com trigo, mas é apenas mato, erva daninha. Note que não julgamos a pessoa (que cabe a Deus somente), mas as suas obras, seus atos (que cabe à Igreja, como já demonstrei antes aqui neste link).
Boa parte desse grupo de cristãos conservadores (sim, existem cristãos progressistas) costuma apoiar incondicionalmente aquele que é talvez o maior boquirroto da atualidade, a nível mundial – Donald Trump, um milionário que chegou a presidente dos Estados Unidos. Isso em função de dois ou três fatos:
- ele foi eleito com o apoio maciço da direita evangélica, a mesma que considerava o antecessor, Barack Obama, um comunista (por suas ideias relativamente inovadoras no campo da saúde, por exemplo) e até mesmo muçulmano (sinal de extrema desinformação, como ocorre aqui) por conta seu nome exótico para os padrões ianques;
- como retribuição a esse apoio eleitoreiro, abriu os cofres do tesouro para agradar aos pastores e missionários, dando continuidade à política de enviar missões que não apenas “evangelizam” outros povos com Bíblias, panfletos e hinos, mas também com toda uma cultura própria do interior americano, nas roupas, comportamento e o pior de tudo, na defesa do “modo de vida americano” que abomina tudo que não venha de lá;
- o agrado aos crentes inclui declarar Jerusalém como capital de Israel, sem se importar com as consequências desse ato para os diretamente envolvidos na linha de frente do conflito árabe-israelense;
- isso cria para os evangélicos brasileiros, que geralmente não examinam nada com profundidade, uma aura de messias que está abrindo as portas para a evangelização mundial e assim “apressando a volta de Jesus” (outro conceito que carece de base bíblica, que examinaremos em outra oportunidade);
- a posição claramente direitista, quase fascista, fascina os anti-Lula (quase escrevi “inimigos”).
Ora, aí eu pergunto mais uma vez: como pode um cristão simpatizar com esse tipo de pessoa? 
- um homem que desde muitos anos expõe sem o menor pudor o seu machismo, ao considerar as mulheres meros objetos;
- sabidamente racista, ao dizer que os países pobres são “buracos de m****”);
- divisionista e sectário, ao insistir na construção de um muro que impeça a entrada de imigrantes, esquecendo-se de que a América (a dele e a nossa) seriam muito diferentes não fosse a vinda de milhões e milhões de imigrantes de todas as partes do mundo. Veja a própria origem do nome de sua família, imigrantes do leste europeu cujos primeiros representantes tiveram até que mudar de nome para se “americanizar” (fonte).
De novo: como pode uma pessoa que se diz cristã, em nome da família, dos bons costumes e da moral, em nome “de Deus”, defender esse tipo de gente? Nem que seja como oposição ao ex-presidente Lula (que como disse acima, não é nenhum santo, que fique claro)? Qual é o ponto que norteia essa posição? Porque não gosto desta figura política, passo a apoiar qualquer coisa que se lhe oponha? Porque não gosto dessa pessoa, pouco me importam os critérios (ou falta deles) que influenciaram a sua condenação?
Bem, não vou insistir nessas perguntas porque você já sabe o que eu quero dizer. Já entendeu. Logo vão me chamar de comunista...
Na verdade, preciso dizer algo a você. A você que se considera “capitalista”, eu pergunto?
- você é dono de empresa? Tem funcionários que trabalham para você? É dono de algum banco? Possui fazendas? Se sim, ótimo. Se não...
- aplica dinheiro na Bolsa de Valores e em fundos de investimentos? Não? 
Então eu sou mais capitalista do que você... 
Mas... defendo posições que entendo serem progressistas. 
Defendo algumas bandeiras, desde muitos anos, que me custaram algumas “amizades” e várias pedradas vindas de dentro dos templos e denominações.
Defendo a soberania nacional (ao contrário do sr. Bolsonaro, que bateu continência para a bandeira americana) e a não-entrega do patrimônio da nação a potências estrangeiras, ainda mais a preço de banana como têm sido as propaladas privatizações (que nada resolvem e só servem para gerar caixa para o governo entreguista e comissão aos apadrinhados), enviando todo o lucro ao exterior (proveniente de gás, petróleo, minério de ferro e outros minerais, energia eólica e solar, indústrias de transformação);
Defendo direitos básicos para todos e para todas: trabalho, pão, terra, liberdade de ir e vir e de opinião.
Defendo oportunidades iguais para todos, na educação, na saúde, na segurança, nos transportes, na renda mínima digna.
Defendo o fim dos privilégios de classe, como por exemplo a taxação das grandes fortunas.
Se isso é ser socialista, o que eu posso dizer mais? Defender o contrário disto é que é o certo, como o sr. Bolsonaro e o sr. Trump, e sua corja de lacaios hoje encastelados na mídia, nas escolas, no legislativo e no judiciário, nos quartéis e nas igrejas? Este sim é o aparelhamento de que nos falam Antonio Gramsci e Louis Althusser. E que muitos se recusam a conhecer.
Caso se preocupassem em ter apenas uma cara, um peso e uma medida, como nos ensina a Bíblia, procurariam entender um pouco mais os mecanismos que os controlam, invisivelmente.
Ou então, permaneçam com suas duas caras, seus dois pesos, suas duas medidas, que absolvem uns e condenam outros, relativizando os motivos e as evidências.
Exatamente como fez uma certa seita judaica há dois mil anos. Desses, Jesus disse que eram “sepulcros caiados”.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Minhas previsões para 2018!

Nem bem foram abertos os presentinhos de “amigo oculto”, as atenções se voltam para o “Ano Novo”. E como não dá para requentar aquele pernil que sobrou da ceia de Natal, é preciso inventar alguma outra coisa para manter a atenção das pessoas. Todo fim de ano é a mesma coisa. Tudo quando é canal de TV tem a sua “retrospectiva” e a sua “perspectiva”, ou seja, tentam adivinhar o que vai acontecer no ano vindouro. Ano de Copa do Mundo e de eleição então, como 2018, é o mais engraçado. Os profetas de ocasião se amontoam e se digladiam para ver quem tem a bola de cristal mais bem polido, mas no final todos se estrepam. O negócio então é fazer a previsão mais genérica possível.
E assim seguem as minhas infalíveis previsões para 2018. Daqui a um ano, volte aqui e veja se não acertei!

Previsão 1: Mais um político de renome nacional será envolvido em mais um escândalo, e um novo nome surgirá como oposição à candidatura de Lula à presidência


Previsão 2: Marina Silva disputará a presidência pela terceira vez consecutiva, pelo terceiro partido diferente, receberá várias palavras proféticas de que Deus está restaurando a nação brasileira por meio dela, e será ungida em várias igrejas evangélicas, mas entrará pelo cano novamente


Previsão 3: Há fortes chances de o campeão brasileiro de futebol ser um time de fora do eixo Rio-São Paulo

Previsão 4: As seleções européias dominarão a Copa do Mundo de Futebol. Será muito difícil para as sul-americanas voltarem a ser campeãs do mundial (que não ocorre desde 2002)

Previsão 5: Um famoso jogador da seleção terá uma lesão, desfalcando o Brasil na Copa

Previsão 6: Uma grande personalidade da televisão sofrerá um grave acidente e irá trazer preocupação para os fãs 

Previsão 7: O mundo perderá uma importante figura do cinema, causando imensa tristeza para os amantes da sétima arte

Previsão 8: No início do ano, haverá muitas inundações no Sul e Sudeste do Brasil, e a seca no Nordeste será muito forte; depois, no meio do ano, a seca se deslocará para o Centro-Oeste e atingirá níveis preocupantes

Previsão 9: Apesar dos esforços internacionais, israelenses e palestinos continuarão em conflito durante todo o ano, com a situação se agravando por conta da situação na fronteira Síria-Turquia e a escalada da violência nos países vizinhos devido à atuação do Estado Islâmico


Previsão 10: Infelizmente chegará ao fim a união de um dos casais mais famosos da TV brasileira


Previsão 11: Um grave atentado terrorista irá abalar uma das mais importantes cidades do mundo

Previsão 12: Aumentará a tensão entre Estados Unidos e Coréia do Norte, com o envolvimento cada vez maior da China e da Rússia, sem no entanto nenhum enfrentamento militar direto

Previsão 13: Permanecerá sem solução a grave crise imigratória na Europa, com um número cada vez maior de pessoas tentando entrar clandestinamente no continente

Previsão 14: Uma grande surpresa acontecerá no Prêmio Nobel, que será dado a uma pessoa completamente desconhecida

Previsão 15: O mundo perderá um de seus mais renomados líderes, causando comoção geral

Previsão 16: A crise financeira dos países centrais começará a dar sinais de recuperação, sem entretanto resolver a questão do desemprego

Previsão 17: Várias greves vão estourar por todo o país, principalmente no segundo semestre, paralisando importantes setores da economia nacional

Previsão 18: Uma famosa banda de rock anunciará sua turnê de despedida

Previsão 19: Uma famosa banda de rock anunciará sua volta após a sua turnê de despedida

Previsão 20: A banda de rock KISS anunciará uma turnê comemorativa de 20 anos da sua turnê de despedida


Previsão 21:  Mick Jagger irá à Copa do Mundo e deixará torcedores de todas as nações apreensivos em relação à sua torcida

Previsão 22: Não será este ano que um filme brasileiro ganhará o Oscar de filme estrangeiro

Previsão 23: A nova novela das oito, que começa às nove, terá os mais baixos índices de audiência da história, e para chamar atenção, terá cenas de zoofilia, sexo com alienígenas e estripação de pastores, iniciando uma nova onda de revolta entre os evangélicos, que continuarão assistindo religiosamente o Jornal Hoje, o Nacional, o das Dez, o Faustão, o Vale a Pena Ver de Novo, a Ana Maria Braga, a Fátima Bernardes e, depois do culto, o Fantástico.

Então, que tal?
Faça você também esse teste!
Exercite sua mente com o que você acha que acontecerá em 2018 - quem vencerá a Copa da Rússia, por exemplo - e no fim do ano veja quem acertou mais.
Veja como é fácil fazer “previsões” genéricas! Como as de Nostradamus... E verá que bem diferentes são as profecias bíblicas, proferidas séculos antes, que se cumprem nos mínimos detalhes, revelando os propósitos de Deus para o homem, mostrando que não são fruto da mente humana!

Agora, o que mais causa espanto é a mídia sustentar essa renca de picaretas que ganha a vida iludindo otários mundo afora. Engraçado é que eles nunca prevêem as dezenas da Mega-Sena, quem será o campeão na Fórmula 1 ou no futebol. 

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domingo, 13 de novembro de 2016

Ser evangélico no Brasil e suas implicações políticas

Ser evangélico se insere numa longa tradição. Mas hoje em dia “ser evangélico” é o mesmo que ser submetido a uma série de estereótipos que pareciam sepultados, mas que desde a ascensão do chamado “fundamentalismo” ressurgiram com força máxima. Esse fundamentalismo representa uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames desses “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. A única opção válida de atuação política é a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Por isso surgem excrescências como a “bancada evangélica”, e discursos como “temos que ter gente nossa no governo”. Em alguns outros casos, levanta-se a bandeira da defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma, sem o qual, afirma-se, não existe cristianismo.
Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o fundamentalismo moderno se arvorou em única forma legítima de fé cristã.
Qualquer estudo da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.
Depois que a religião assumiu uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada. 
Assim que classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológico-doutrinárias baseadas na Reforma Protestante do século XVI. De fato, desde o século X já se dizia que era preciso se reaproximar do Cristo dos evangelhos, com a Igreja cada vez mais afetada pela promiscuidade política do clero – então uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas como compra de cargos, guerras e assassinatos. O papado tornou-se um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos entre o povo pobre e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na Reforma: de um lado os fiéis a Roma, de outro as várias igrejas que surgiram: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas na Suíça, Alemanha e França, Escócia e Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; e anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.
Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando o serviço militar e cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua, recusando-se a pagar tributos a Roma. Anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.
Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Na Holanda lutaram para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinham garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.
No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.
Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.
Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?
Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.
As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram ter uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados - o caso mais emblemático é o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.
Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho: a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Ninguém
mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.
Não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico significa – ou pelo menos deveria significar – lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, e na assistência desinteressada aos pobres fora dela; na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.
Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra quem pensa diferente. Como que fazem “pastores” de idéias tão díspares entre si como Silas Malafaia e Paschoal Piragine, que incitam os fiéis a não votarem no PT ou no PSOL, por serem “contra a fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho, já que ninguém lê a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na igreja e o pastor em questão seria destituído na próxima assembleia.
É claro que isso não vai acontecer. Assembléias nas igrejas viraram instâncias de homologação de show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Os crentes não se dão ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de seus pastores. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico.
Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza. Deveria significar não permitir que carreiristas se assumissem como porta-vozes da igreja e da fé. Deveria significar maturidade. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Adaptado de um artigo publicado originalmente por André Egg em Revista Amálgama (09/09/2010) Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro “Arte e política no Brasil: modernidades” (Ed. Perspectiva, 2014). http://www.revistaamalgama.com.br/09/2010/caso-piragine/


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domingo, 2 de outubro de 2016

Gel erótico, música gospel e política

Indústria põe “pomba cristã” em tubo de gel erótico e fatura com evangélico
Sexta, 29/09/2016 - A fabricante brasileira de produtos eróticos Intt aposta em uma linha gospel para vender mais. As únicas diferenças em relação aos produtos convencionais são as embalagens, mais discretas e com uso de uma pomba (símbolo cristão), e os aromas, mais suaves. Com essas pequenas adaptações, diz ter aumentado as vendas em 30%. A empresa apresenta novidades em produtos para casais evangélicos na Íntimi Expo, feira do mercado erótico realizada em São Paulo a partir desta quinta (29) até 1º de outubro, no Centro de Exposições Anhembi.
São seis lançamentos: géis comestíveis nos sabores menta, menta extraforte, morango com champanhe, tutti-fruti e canetas com calda comestível nos sabores brigadeiro e chocolate branco para escrever no corpo do parceiro. As novidades vêm se juntar a outros quatro produtos da mesma linha lançados no começo do ano passado: um gel excitante para aumentar a sensibilidade feminina; um gel que promete aumentar o período de excitação do homem; um que diz reduzir o canal vaginal, dando sensação de “primeira vez”; e um gel vibrador que causa pequenas contrações na pele e nas mucosas. Os preços variam entre R$ 15 e R$ 19,90 e são vendidos em sex-shops e por meio de consultoras de vendas porta a porta. 
Consultoria de casal evangélico - A linha gospel foi batizada de “In Heaven” (em inglês, “no paraíso”). Com os lançamentos, a expectativa é vender 15% mais, segundo Alessandra Seitz, diretora da Intt. A empresa não divulga dados financeiros, como faturamento e investimento nos produtos. Ela diz ter identificado a oportunidade de negócio no segmento gospel com a ajuda de um casal evangélico dono de sex shop que dá consultoria a casais em igrejas. “Eles vieram até nós e falaram deste segmento, que era desacreditado pelo mercado erótico, mas em que eles viam potencial. Falaram que os clientes pediam embalagens mais discretas e essências mais suaves. Resolvemos testar e, em um ano, já tivemos o aumento de 30% nas vendas”, declara. As embalagens são na cor branca e trazem uma pomba dourada, símbolo cristão. A empresa existe há oito anos e fabrica mais de 400 produtos. Vende para todo o Brasil e exporta para toda a América Latina, EUA e Alemanha. Em outubro, vai participar da feira eroFame, na Alemanha, quando levará pela primeira vez a linha gospel ao exterior.
Atenção especial - Para Paula Aguiar, presidente da Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual), os evangélicos precisam de atenção especial, pois, muitas vezes, casam-se sem experiência sexual e podem se frustrar na relação. “Os produtos eróticos vêm para ajudar a aumentar a intimidade entre os casais”, diz. Segundo Edson Ichikava, analista do Sebrae-SP, a empresa inovou ao quebrar o paradigma em relação ao público religioso. “Eles se aprofundaram no segmento, ouviram o público desse nicho e desenvolveram um produto capaz de atender às suas necessidades. Foram pioneiros e por isso estão tendo resultados”. Ele diz que a principal dificuldade do mercado erótico é se desvincular da ideia de pornografia. “Orientamos os empresários a trabalhar mais a sensualidade, a saúde e o bem-estar dos casais, a deixar itens como próteses menos explícitos”, declara. (Fonte)
Antes de mais nada: não tenho nada contra “apimentar a relação” e coisas do tipo. Só queria comentar essa notícia do ponto de vista do Marketing e da Propaganda aplicado aos cristãos e evangélicos. O chamado “público gospel” é de fato um nicho de mercado interessante para quem quer que seja. Já falei antes sobre isso aqui . O que chama a atenção é a facilidade com esse “público” é engendrado nas mais diversas e simples esparrelas. Nesse caso do mercado “erótico/sensual”, note as expressões:
evangélicos precisam de atenção especial”; 
eles viam potencial”; 
ouviram o público”; 
desenvolveram um produto capaz de atender às suas necessidades”; 
clientes pediam embalagens mais discretas”; 
as únicas diferenças são as embalagens”; 
pequenas adaptações”; 
resolvemos testar e, em um ano, já tivemos o aumento de 30% nas vendas”; 
estão tendo resultados”.
Técnicas de Marketing e Propaganda, nada mais. Dinheiro. Mercado. 
Não deveria causar nenhum espanto o fato de que quem deu a dica para a empresa que produz o agora “cristão” gel sensual tenha sido o casal proprietário de uma sex-shop “evangélica”, que dá palestras para casais, e que escreveu um “romance” picante que conta, até mesmo encontros sexuais gays... Isso só confirma minha teoria. 
E isso vai bem mais longe. Veja o caso da música “gospel” (também já falei disso antes, aqui). É a mesma técnica do gel erótico. Existe um produto que não era consumido pelos “evangélicos”. Não havia demanda. Os fabricantes queriam expandir seus lucros. Solução: adaptar o produto ao gosto do público. Colocam uma etiqueta e uma nova embalagem em cima do mesmo velho produto: agora é “gospel”. Pronto. Agora o público passa a aceitar e consumir o que antes não aceitava. Além do rock, também existe o funk gospel, a balada gospel, o hip-hop gospel e não sei o que mais. Coisas impensáveis há relativamente pouco tempo atrás. Mudam-se hábitos, uma nova geração já nasce e cresce sob a influência desse produto e a certa altura já não consegue mais viver sem ele. E ai de quem disser que esse público está sendo manipulado. 
Na política ocorre o mesmo. Candidatos sempre espiavam as igrejas com olho gordo. Participavam timidamente de cultos evangélicos, davam uma palavrinha e pronto. Depois, começaram a “dar a paz do senhor” (assim com minúsculas mesmo, porque não sabem nem o que significa; para eles é um “saravá”, um “axé”, uma gíria localizada). Depois, começaram a “se converter” – da mesma forma como certos cantores, que mudaram de religião na decadência artística, mas continuaram a faturar no “novo mercado”. 
Assim, figuras como Jair Bolsonaro agora se dizem evangélicos e arrastam multidões atrás de suas opiniões ridículas. Tudo porque o sujeito vestiu um avental branco e foi mergulhado n’água. Mas nada indica transformação de vida: continua pedindo pena de morte aos seus desafetos, elogiando torturadores e conspirando em golpes de Estado. Esse cidadão foi considerado “o político mais abominável do mundo” (veja a notícia aqui), superando concorrentes de peso como Donald Trump. Mas como ele tem um monte, espalhando boatos e mentiras todo dia, atrás de um punhado de votos e uma montanha de dinheiro. 
Não preciso citar aqui o hediondo Eduardo Cunha, que fez carreira e fortuna com base em propinas e comícios em eventos evangélicos, sob a bênção não menos repulsiva de Silas Malafaia e “pastor” Everaldo. Tudo farinha do mesmo saco. Os objetivos são os mesmos. Mas a embalagem mudou. Ele é evangélico, membro destacado, quem sabe diácono, provavelmente um dizimista fiel. 
O produto não mudou, como o gel erótico: apenas recebeu um rótulo de “evangélico”. Mas por dentro da “nova embalagem”, o produto, o conteúdo, a fórmula, é tudo igual a antes. Nada mudou. 
Cuidado com os “novos produtos” que aparecem nesse mercado atraente que pulula dentro das igrejas e templos todo domingo.

O gel ainda é o mesmo de antes



sábado, 24 de setembro de 2016

A igreja a serviço da política

O teto dourado de uma igreja ortodoxa russa que está sendo construída às margens do rio Sena, em Paris, França, se destaca na paisagem. Dominada por prédios governamentais e embaixadas, a área foi escolhida pelo presidente russo, Vladimir Putin, para a construção de um “centro cultural e espiritual russo”. Putin conseguiu do governo parisiense a concessão para a construção, mas não sem despertar dúvidas do serviço de segurança francês, que desconfiava que a Rússia estaria criando um centro de espionagem no coração de Paris.
No entanto, a inteligência francesa deixou passar despercebido um pequeno detalhe. Embora tanques e artilharia sejam as armas preferidas de Putin para projetar seu poder, ele vem usando a religião para expandir a influência do país. Inimiga fervorosa da homossexualidade e de qualquer tentativa de colocar direitos humanos acima dos valores familiares tradicionais, a igreja ortodoxa russa ajuda Putin a retratar seu país como um aliado natural daqueles que pregam por um mundo mais seguro, menos liberal e livre da quebra de tradições da globalização, dos direitos das mulheres e dos homossexuais.
Graças à estreita aliança entre a igreja ortodoxa russa e o Kremlin, a religião teve um papel central para manter antigos países da união soviética sob a influência russa. Em Moldova, por exemplo, sacerdotes ortodoxos leais a Moscou têm trabalhado de forma incansável para impedir que seu país se integre ao Ocidente.
“A voz da igreja e a voz de políticos russos, não todos, mas a grande maioria, são a mesma. Para mim, a Rússia é a guardiã dos valores cristãos”, disse Marchel Mihaescu, um bispo ultraconservador de Moldávia. Aos seus fiéis, Mihaescu disse que o novo passaporte biométrico criado pela União Europeia é “satânico” porque contém 13 dígitos. Ele também tentou sabotar a lei do país que proíbe a discriminação de gays no ambiente de trabalho afirmando que ela iria despertar a ira de Deus e romper as relações do país com a “mãe Rússia”. “A igreja se tornou um instrumento do estado russo. Ela é usada para estender e legitimar os interesses do Kremlin”, disse Sergei Chapnin, e ex-editor do jornal Moscow Patriarchate, controlado pela igreja ortodoxa russa e suas afiliadas fora do país.
O papel da igreja ortodoxa russa em Paris somente ficará claro, de fato, quando ela for inaugurada. Porém, os que estudam os métodos de Putin preveem que ela servirá de “megafone” para a busca de Putin por influência global.
Ela será um contraponto aos ideais laicos e de liberdade da França e aqueles que se identificam com seu viés ultraconservador e antimoderno verão na Rússia um bastião de seus valores. (FONTE)
Achei muito interessante esta noticia porque a situação se repete do lado de cá do Atlântico e do Equador. Não, não foi a construção de igrejas ortodoxas em locais bacanas. Se bem que aqui andam construindo igrejas em locais bem caros também. A semelhança se dá por conta da influência do governo na igreja, e o seu uso como instrumento na perpetuação no poder. No caso aqui, primeiro foi na tomada do poder.
Nem precisa, mas vou explicar.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou sistematicamente na oposição à presidente eleita, a partir do dia seguinte à apuração dos votos, em estreita colaboração com os candidatos derrotados na eleição.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou em peso na formatação do golpe parlamentar que depôs a presidente eleita.
Essa coisa, que antes escondia de suas congregações passagens bíblicas como Romanos 13:1-7, preferia outras como Provérbios 29:2 (“quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), insinuando que a situação do país ia mal por culpa de um governo demoníaco, e que com a sua saída o país seria um paraíso na Terra. Eu mesmo recebi essas passagens bíblicas, digamos, selecionadas a dedo, de muitos evangélicos, alguns bem intencionados, outros nem tanto.
Essa bancada “evangélica” mudou radicalmente de posição. Antes, malhava o governo, diariamente. Em sessões no Congresso, em entrevistas combinadas com jornais, rádios, revistas e emissoras de TV simpáticas ao golpe. Em programas de televisão, em postagens do Twitter e do Facebook, em vídeos do Youtube, e evidentemente, em sermões eclesiásticos. Mas agora, da noite para o dia, incentiva seus tentáculos espalhados pelo país a 
fazer campanhas de oração em favor “do Brasil e do governo”, para que “tenhamos paz”. Leia aqui um exemplo. Sim, precisamos de paz, mas eles não se lembram (ou melhor, se esquecem) de quem começou a confusão, em 5 de outubro de 2014.
Assim como Vladimir Putin usa a igreja ortodoxa russa – com ou sem conivência ou conhecimento dos sacerdotes, talvez nunca saibamos – certas correntes políticas do lado de cá também usam (principalmente) a igreja evangélica para seus propósitos. Aqui eu aposto todas as fichas que os “sacerdotes” sabem de tudo. Faz parte de um projeto de poder que eu venho expondo há anos, em todos os artigos que postei sobre o “dominionismo”.
Bem, aí está.
A bem da verdade, o clero sempre foi ávido pelo poder temporal. Desde que o cristianismo virou religião oficial do império romano, e sentiu o gostinho de mandar em todo mundo (inclusive na política), o poder mundano se tornou sua ruína. Durante toda a Idade Média, papas coroavam imperadores e reis, e governavam o reino do espírito e o da carne, o mundo. Na revolução francesa, o clero foi banido, junto com a sua amiga a nobreza, mas logo se alinhou com os novos senhores do mundo, a burguesia. E com ela segue junto até hoje. Inclusive na Rússia e na China, pós-comunistas, onde existe uma igreja venal, vendida, como a brasileira, mais interessada nos negócios terrenos do que nos celestiais. Em todas as denominações ditas cristãs, diga-se. 
O projeto de poder está chegando aos “finalmente”. Basta você ver, no noticiário, todos os dias, o desmonte progressivo da democracia. Você vê todos os dias as investigações seletivas endereçadas a algumas personagens, enquanto outros, sabidamente criminosos, continuam tão livres como sempre. Com apoio da “bancada evangélica” e de figuras abomináveis travestidos de pastores.
Como o pastor de uma igreja em Curitiba, que apoia abertamente um candidato acusado de roubas obras de arte do patrimônio público para instalá-las em sua propriedade particular. O candidato que diz que vomitou ao sentir cheiro de pobre (veja aqui). Não por acaso, o procurador que apresentou denúncias contra o ex-presidente Lula numa apresentação de Power Point tão tosca que virou “meme” e recebeu recordes de gozações, não por acaso, esse procurador é membro consagrado dessa igreja e tido como herói.
É por isso que está a cada dia mais difícil ser chamado de evangélico hoje em dia.
Mas eu falo disso outro dia, quem sabe.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Minha última postagem...

... acabou sendo uma surpresa para mim, pelos comentários que surgiram depois. Para quem não se lembra, era sobre o posicionamento do cristão frente a um governo corrupto. Levantei a questão de que devemos nos posicionar contra TODO governo corrupto, e não apenas contra aqueles de quem não gostamos. Daqueles de que gostamos, não falamos nada, e até invocamos Romanos 13:1-2.
Tudo bem que alguns não concordem com minhas posições. OK. Isso faz parte da democracia. Agora, as insinuações e acusações é que são algo a ser considerado.
Me chamaram de comunista, porque acham que eu defendo um governo supostamente “de esquerda”. Primeiramente, eu não me lembro de nenhuma inverdade. Naquele post, falei sobre a repentina ousadia de certos líderes religiosos, travestidos de profetas e de paladinos da ética, da justiça e da transparência, que em outros tempos de roubalheira, caixas-pretas e arbitrariedades governamentais, entravam mudos e saíam calados. É mentira?
Alguém disse, num comentário que veio todo truncado (problemas do provedor do serviço, não tenho nada com isso), que a Igreja se posicionou sim contra “coisas erradas”. Não me lembro. A não ser muito recentemente, de fato há pronunciamentos e manifestações contra a união civil de homossexuais, contra o aborto, e (acho) contra a liberação de drogas. Isso é recente. Não me recordo de, algumas décadas atrás, nenhuma mobilização digna de nota contra a adoção do divórcio no Brasil. Sim, meus jovens amigos, a lei do divórcio não existe desde sempre neste país. Foi criada em 1977, quando os evangélicos já representavam 
cerca de 7% da população nacional - cerca de 8 milhões de ovelhas. Mas, a grita foi muito pequena, em comparação ao berreiro atual contra “a corrupção”. Inclusive, muitos líderes religiosos depois “se beneficiaram” dessa lei, estando hoje já no terceiro ou quarto casamento.
Em segundo lugar, me chamam de comunista, mas esse pessoal nem sabe o que é comunismo. Muito menos socialismo. A principal prova disso é que, na última eleição presidencial, os evangélicos em massa apoiaram, fizeram campanha, cederam o púlpito, à candidata Marina Silva, que herdou a vaga depois da morte de Eduardo Campos, pelo partido... socialista brasileiro. Creio que muito pouca gente se deu ao trabalho de ir lá no site do partido e pelo menos conhecer o programa e estatuto, isto é, a diretriz do que eles fariam, caso fossem eleitos. Se o fizessem, talvez muitos ficassem espantados de ver ali os principais pontos de governo, aliás, comum a todos os partidos socialistas:
- aparelhamento da máquina estatal, com a colocação, nos postos-chave do governo, de membros do partido ou a ele ligados, como forma de implantar um programa socialista;
- criação de comitês consultivos, à moda dos “sovietes” da antiga URSS, espalhados por todo o país;
- reforma agrária radical, com a tomada de terras da União e aquelas consideradas improdutivas, para repasse de sua propriedade aos chamados “sem-terra”;
- liberação das drogas (descriminalizaçã0), começando pela maconha, como forma de acabar com o tráfico;
- liberação e legalização do aborto, como forma de “libertar” a mulher;
- apoio às minorias, em especial ao movimento LGBT, e a legalização da união civil homossexual;
- e muitos outros temas polêmicos.
Evangélicos em peso votaram na representante desse programa de governo socialista. E me acusam de comunista...
Cada um vote em quem quiser, apoie quem quiser, dê o púlpito a quem quiser. Só não venha depois, como alguns, dizer que “não tenho nada com isso, eu votei no outro candidato”. Que palhaçada. Quando alguém me diz uma asneira dessas, eu retruco: “a culpa é sua sim, se você me apresentasse um candidato melhor, quem sabe a atual presidente fosse derrotada”.  Não vou me alongar muito nesse assunto.
Talvez por isso alguns tenham se sentido ofendidos quando eu disse que muitos líderes religiosos fazem o papel de arautos da classe dominante, e por isso tenham se calado quando estavam encastelados no poder os seus representantes diretos: empresários, militares, banqueiros. Uma classe que muitos invejavam, e da qual gostariam de fazer parte. Por isso foram, se não coniventes, pelo menos omissos, quanto aos seus desmandos, Por isso não se ouviu nenhum pio - ou melhor, para sermos justos, se ouviram pouquíssimos e baixíssimos pios, em relação ao tamanho do rebanho - contra a corrupção, os “maus costumes”, a falta de ética e transparência, durante décadas. O caso do divórcio que citei acima.
A única explicação para a grita geral destes últimos dias é essa. Os líderes têm as suas preferências políticas, ideológicas, e partidárias. Não existe esse negócio de “não tenho preferência”, “não gosto de política”, “não sou influenciado”. Balela.
Agora, é óbvio que a corrupção deve ser combatida sim. Roubalheira, falta de ética, desvios para contas na Suíça, tudo isso deve ser averiguado e os responsáveis, punidos com rigor. No governo e na oposição, os ratos de agora e os de ontem também, porque a corrupção não foi inventada semana passada, mês passado, ano passado. Independe de partido ou posição no espectro político. Punição a todos, não apenas para aqueles de quem eu não gosto.
E para encerrar esse assunto, de direita, esquerda, capitalismo, socialismo, comunismo, neoliberalismo, social-democracia, parlamentarismo, bi-cameral ou unicameral, quero dizer que nenhum sistema de governo funcionará de modo que agrade a todos. Sempre haverá descontentes. Porque os governos sempre serão falhos, sempre apresentarão pontos fracos, simplesmente porque são produtos da mente humana, caída, pecaminosa. Desde que Adão optou por agradar a si mesmo, à sua mulher e à sugestão da serpente satânica, manifestou seu voto contra o governo de Deus. Por isso Deus disse que não contenderia com o Homem para sempre (Gênesis 6:3). Este pronunciamento marca o início do governo humano, e com ele, a necessidade de julgamentos periódicos, posto que a humanidade, de tempo em tempos, alcança um nível tal de corrupção que é necessária a intervenção divina.
Foi o que aconteceu no dilúvio, e é o que acontecerá muito em breve, não com um novo dilúvio (porque Deus prometeu que não destruiria a Terra com outra inundação, Gênesis 9:11) mas pelo fogo. Desde Adão, os homens são rebeldes, e assim todas as suas realizações. Todas as suas obras são más (Isaías 59:6; João 3:19), e entre elas estão também as artes (sobre as quais falaremos um dia desses, quem sabe), as ciências (de que temos falado e a que voltaremos em breve), e as leis, sistemas jurídicos, sistemas econômicos, formas de governo. O reflexo desses governos mundanos é a rebeldia das nações, que são nada mais do que ajuntamentos humanos (veja mais aqui). O Salmo nº 2 é a declaração de independência das nações, da qual Deus zomba. A partir do verso 6, Deus anuncia qual é o único e verdadeiro governo justo e perfeito - aquele onde o Seu Filho é o cabeça.
Como os homens não querem, serão julgados por essa desobediência e insubmissão. Nem assim eles se arrependem: leia Apocalipse 16:11; 13:2 (o poder terreno); 17:12-14 (os homens caídos entregam todo o poder a Satanás). Não é por acaso que o número de besta é um “número de homem”!
Veja que isto não é um mero acaso. A Bíblia fala do governo de Deus em contraste com o dos homens, no começo (Gênesis), no meio (Salmos) e no fim (Apocalipse)!
É por isso que é inútil discutir que sistema é o melhor, qual modelo é o mais justo. Todos são injustos, todos são igualmente ruins, porque nenhum deles tem o Filho de Deus como chefe.
E como Deus é claro ao dizer que o tempo desse governo de Cristo sobre a Terra ainda não chegou, tudo o que temos que fazer, como Igreja, é pregar o Evangelho para salvar pessoas, para levar pessoas a ingressar no Reino de Deus, e parar de tentar influenciar governos mundanos, já condenados, fadados à destruição total!
É parar de ficar defendendo este ou aquele modelo humano, porque gostamos mais deste ou daquele candidato, porque este ou aquele defende nossos interesses. Porque queremos “governar em nome de Deus”... Volto a dizer: combatamos a corrupção, em todos os níveis, em todos os governos. Dos que detestamos e dos que gostamos! Mas isto deve ser feito em nível de cidadão, não de Igreja. Não é este o papel da Igreja. O papel do cidadão é votar, fiscalizar, exigir o cumprimento das leis e a prestação de contas. De todos os governos, não só dos que detesta. Dos que admira também, isto é ser justo. Quer ser ético? Seja então, mas denuncie todas as injustiças. Como cidadão.
Se bem que nossos irmãos que viviam em Roma no primeiro século tinham como chefe de governo os Césares. Apesar disto, ainda não se descobriu nenhum documento arqueológico que informe sobre uma passeata ou manifestação pedindo inpeachment de Nero ou de Calígula. Eles estavam preocupados com outras coisas.
O papel da Igreja é pregar o Evangelho, dar testemunho de Cristo. O cidadão pode transformar a sociedade com seu voto e sua atuação política (para melhor ou para pior); a Igreja transforma a sociedade pelo Evangelho. O cristão tem direito de entrar para a política e contribuir com o País com seu trabalho, sua dedicação, sua lisura. Não sei se é bem isso que a “bancada evangélica” tem feito ao longo dos anos... É para ser “sal”, e não para se beneficiar, para se promover, para aparecer. Mudar o país pelo exemplo, isso é para o cidadão. Governar este mundo - agora - não é papel da Igreja. Para a Igreja, pregar, pregar, pregar - e viver - o Evangelho. As nações não serão transformadas a esse nível pela Igreja. As nações, com seus sistemas e políticas, estão destinadas ao Armagedom - querer mudar isto é ir contra a Palavra de Deus.

Não confunda a vontade de Deus com seus gostos pessoais. Não confunda sua opinião pessoal, política ou ideológica, com o Reino de Deus.

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