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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Eu avisei


É chato ter que dizer isto, mas eu avisei.
O Brasil afunda na corrupção, e em breve, na miséria econômica que havíamos deixado para trás.
Um ano e meio atrás, pouco mais, eu alertei para o buraco para o qual se encaminhava o país, e alertei para o perigo em que certos líderes evangélicos incorriam ao incitar seus rebanhos particulares a “bater panelas” contra o governo de então.
Alertei que estavam fazendo o jogo de poderosas elites econômico-financeiro-midiáticas, e que não apenas politicamente estavam errados, como também biblicamente.
Mostrei que a Bíblia nos manda interceder pelas autoridades constituídas, não importando a cor da sua camisa (como diz o repórter Thiago Reis da Rádio Itatiaia de Belo Horizonte). Que temos que dar graças pelas autoridades quer gostemos delas ou não. Que muitos desses que então se arvoravam em defensores da ética e da justiça haviam permanecidos nas sombras, calados, durante os anos de ditadura militar, e durante os tempos bicudos de carestia galopante, miséria urbana e rural, desemprego crescente, inflação de dois dígitos ao mês, e arquivamento generalizado de denúncias de corrupção nos palácios republicanos.
Pois bem, esses tempos voltaram.
Ressurge o desemprego. Patrimônio nacional vendido a preço de banana para multinacionais. A corrupção, cujo fim foi anunciado aos quatro ventos há um ano, segue com mais força do que nunca. Destituíram uma presidenta por “pedaladas”, um termo tão vago e impreciso que precisou de juristas contratados a peso de ouro para tentar explicar, e agora absolvem um presidente interino, sobre o qual pesam provas incontestáveis de corrupção ativa e passiva – malas de dinheiro, conversas escusas de madrugada com empresários de índole duvidosa, compra de votos no congresso. E tudo com apoio das mesmas lideranças evangélicas que de alguns anos para cá se preocupam mais em aparecer na mídia do que ensinar as verdades bíblicas. Veja aqui que vergonha...
Procure a lista dos que votaram a favor do arquivamento das denúncias contra o presidente interino e veja que a bancada evangélica em peso ficou ao lado da quadrilha que agora comanda o país.
Veja bem: não se trata de absolver ou não o presidente e sua política, comprovadamente fracassada: trata-se primeiramente de ignorar a corrupção. Ela existe, disso não há dúvida. O que se discutiu foi se elas deviam ser investigadas ou não. Ganhou o NÃO, elas não devem ser investigadas. Com o apoio maciço da bancada dita evangélica. E com o apoio maciço da ppopulação dita evangélica, porque qualquer coisa é melhor que o PT. Então, aí está aqualquer coisa.
Esses porcos e bodes que hoje pastoreiam o povo de Deus não são homens, muito menos homens “de Deus”.
São moleques, mentirosos, venais, hipócritas, falsos profetas.
Disseram durante anos que Deus iria revelar os pecados da nação, e agora que os pecados estão escancarados, apoiam os que cometem tais pecados, em troca de algumas moedas, ou de alguns ministérios, algumas concessões de rádio e canais de TV.
Esses pilantras, que continuam com seus ternos de griffe, relógios de ouro, anéis, pick-ups de luxo e até mesmo jatinhos, diziam que a corrupção iria acabar e que Deus iria restaurar a nação. Acabou a corrupção? O Brasil foi restaurado?
Existe um pseudo-pop-star travestido de pastor (ou seria um pseudo-pastor travestido de por-star?) que chegou ao cúmulo de levar à sua congregação um membro do ministério público, engajado numa investigação de cunho totalmente político e direcionado a perseguir uma pessoa; e quando a plateia lhe virou as costas passou um “sabão” dizendo que aquele convidado era a pessoa mais importante que já havia ido àquele templo. Mal sabia ele que esse convidado chegou ao cargo atual por meio de falcatruas jurídicas, sem ter nem mesmo a formação necessária para tal investidura.
É apenas um exemplo dos descalabros, sobre os quais eu havia avisado. Mais de ano antes.
E segue a boiada atrás desses tipinhos. Que a cada dia chafurdam mais e mais na lama, como você pode ver aqui e aqui.
Ah, mas temos que interceder pelas autoridades, não temos?
Sim, temos. É mandamento bíblico. É o que nos cabe. E também pedirmos perdão a Deus por termos colocado a nós mesmos, e aos nossos irmãos, nessa situação.
Porque Deus pode estar no controle de tudo, como se diz, mas Ele entregou ao Homem o governo do mundo – e o Homem entregou a Satanás, lembra? Então a culpa é do Homem sim...
Que você interceda pelo governo e agradeça pelo aumento da gasolina, do gás de cozinha, das passagens de ônibus. Do arroz, do feijão e do leite das crianças.
Que você encare bem a perda de direitos trabalhistas, das férias, do adicional de insalubridade. 
Que você seja simpático(a) ao sucateamento dos bancos públicos, com fechamento de agências, fim do seguro-desemprego, dos benefícios sociais.
Que você veja com bons olhos o fechamento das universidades públicas, o fim do financiamento estudantil.
Que você tenha sucesso quando for negociar com seu patrão o seu reajuste salarial, e daqui a muitos anos, que seja feliz na hora da sua aposentadoria, se conseguir viver até lá.
Que você se rejubile e cante aleluia ao ver a cada dia notícias sobre políticos corruptos na TV e nos jornais, e não se revolte nas redes sociais. Afinal, você obedeceu ao seu ungido, quando votou nesses políticos que aí estão, “para acabar com o comunismo” e “pôr fim à corrupção”. E se você achar que não melhorou nada, pelo contrário, piorou, não vá mais a manifestações de domingo à tarde, nem bata panelas ou faça buzinaços. Peça explicações ao seu ungido.
Esta situação foi você que construiu. E agora seja feliz com ela.
“Em tudo dai graças...” (I Tessalonicenses 5:18)
“Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas” (Filipenses 2:14)
E, de novo, Romanos 13:
“ Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.
Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação (...) Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos... Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto...”

Sem revolta.

“O importante é que tiramos os comunistas do poder”.


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domingo, 13 de novembro de 2016

Ser evangélico no Brasil e suas implicações políticas

Ser evangélico se insere numa longa tradição. Mas hoje em dia “ser evangélico” é o mesmo que ser submetido a uma série de estereótipos que pareciam sepultados, mas que desde a ascensão do chamado “fundamentalismo” ressurgiram com força máxima. Esse fundamentalismo representa uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames desses “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. A única opção válida de atuação política é a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Por isso surgem excrescências como a “bancada evangélica”, e discursos como “temos que ter gente nossa no governo”. Em alguns outros casos, levanta-se a bandeira da defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma, sem o qual, afirma-se, não existe cristianismo.
Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o fundamentalismo moderno se arvorou em única forma legítima de fé cristã.
Qualquer estudo da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.
Depois que a religião assumiu uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada. 
Assim que classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológico-doutrinárias baseadas na Reforma Protestante do século XVI. De fato, desde o século X já se dizia que era preciso se reaproximar do Cristo dos evangelhos, com a Igreja cada vez mais afetada pela promiscuidade política do clero – então uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas como compra de cargos, guerras e assassinatos. O papado tornou-se um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos entre o povo pobre e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na Reforma: de um lado os fiéis a Roma, de outro as várias igrejas que surgiram: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas na Suíça, Alemanha e França, Escócia e Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; e anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.
Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando o serviço militar e cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua, recusando-se a pagar tributos a Roma. Anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.
Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Na Holanda lutaram para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinham garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.
No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.
Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.
Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?
Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.
As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram ter uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados - o caso mais emblemático é o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.
Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho: a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Ninguém
mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.
Não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico significa – ou pelo menos deveria significar – lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, e na assistência desinteressada aos pobres fora dela; na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.
Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra quem pensa diferente. Como que fazem “pastores” de idéias tão díspares entre si como Silas Malafaia e Paschoal Piragine, que incitam os fiéis a não votarem no PT ou no PSOL, por serem “contra a fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho, já que ninguém lê a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na igreja e o pastor em questão seria destituído na próxima assembleia.
É claro que isso não vai acontecer. Assembléias nas igrejas viraram instâncias de homologação de show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Os crentes não se dão ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de seus pastores. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico.
Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza. Deveria significar não permitir que carreiristas se assumissem como porta-vozes da igreja e da fé. Deveria significar maturidade. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Adaptado de um artigo publicado originalmente por André Egg em Revista Amálgama (09/09/2010) Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro “Arte e política no Brasil: modernidades” (Ed. Perspectiva, 2014). http://www.revistaamalgama.com.br/09/2010/caso-piragine/


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sábado, 24 de setembro de 2016

A igreja a serviço da política

O teto dourado de uma igreja ortodoxa russa que está sendo construída às margens do rio Sena, em Paris, França, se destaca na paisagem. Dominada por prédios governamentais e embaixadas, a área foi escolhida pelo presidente russo, Vladimir Putin, para a construção de um “centro cultural e espiritual russo”. Putin conseguiu do governo parisiense a concessão para a construção, mas não sem despertar dúvidas do serviço de segurança francês, que desconfiava que a Rússia estaria criando um centro de espionagem no coração de Paris.
No entanto, a inteligência francesa deixou passar despercebido um pequeno detalhe. Embora tanques e artilharia sejam as armas preferidas de Putin para projetar seu poder, ele vem usando a religião para expandir a influência do país. Inimiga fervorosa da homossexualidade e de qualquer tentativa de colocar direitos humanos acima dos valores familiares tradicionais, a igreja ortodoxa russa ajuda Putin a retratar seu país como um aliado natural daqueles que pregam por um mundo mais seguro, menos liberal e livre da quebra de tradições da globalização, dos direitos das mulheres e dos homossexuais.
Graças à estreita aliança entre a igreja ortodoxa russa e o Kremlin, a religião teve um papel central para manter antigos países da união soviética sob a influência russa. Em Moldova, por exemplo, sacerdotes ortodoxos leais a Moscou têm trabalhado de forma incansável para impedir que seu país se integre ao Ocidente.
“A voz da igreja e a voz de políticos russos, não todos, mas a grande maioria, são a mesma. Para mim, a Rússia é a guardiã dos valores cristãos”, disse Marchel Mihaescu, um bispo ultraconservador de Moldávia. Aos seus fiéis, Mihaescu disse que o novo passaporte biométrico criado pela União Europeia é “satânico” porque contém 13 dígitos. Ele também tentou sabotar a lei do país que proíbe a discriminação de gays no ambiente de trabalho afirmando que ela iria despertar a ira de Deus e romper as relações do país com a “mãe Rússia”. “A igreja se tornou um instrumento do estado russo. Ela é usada para estender e legitimar os interesses do Kremlin”, disse Sergei Chapnin, e ex-editor do jornal Moscow Patriarchate, controlado pela igreja ortodoxa russa e suas afiliadas fora do país.
O papel da igreja ortodoxa russa em Paris somente ficará claro, de fato, quando ela for inaugurada. Porém, os que estudam os métodos de Putin preveem que ela servirá de “megafone” para a busca de Putin por influência global.
Ela será um contraponto aos ideais laicos e de liberdade da França e aqueles que se identificam com seu viés ultraconservador e antimoderno verão na Rússia um bastião de seus valores. (FONTE)
Achei muito interessante esta noticia porque a situação se repete do lado de cá do Atlântico e do Equador. Não, não foi a construção de igrejas ortodoxas em locais bacanas. Se bem que aqui andam construindo igrejas em locais bem caros também. A semelhança se dá por conta da influência do governo na igreja, e o seu uso como instrumento na perpetuação no poder. No caso aqui, primeiro foi na tomada do poder.
Nem precisa, mas vou explicar.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou sistematicamente na oposição à presidente eleita, a partir do dia seguinte à apuração dos votos, em estreita colaboração com os candidatos derrotados na eleição.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou em peso na formatação do golpe parlamentar que depôs a presidente eleita.
Essa coisa, que antes escondia de suas congregações passagens bíblicas como Romanos 13:1-7, preferia outras como Provérbios 29:2 (“quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), insinuando que a situação do país ia mal por culpa de um governo demoníaco, e que com a sua saída o país seria um paraíso na Terra. Eu mesmo recebi essas passagens bíblicas, digamos, selecionadas a dedo, de muitos evangélicos, alguns bem intencionados, outros nem tanto.
Essa bancada “evangélica” mudou radicalmente de posição. Antes, malhava o governo, diariamente. Em sessões no Congresso, em entrevistas combinadas com jornais, rádios, revistas e emissoras de TV simpáticas ao golpe. Em programas de televisão, em postagens do Twitter e do Facebook, em vídeos do Youtube, e evidentemente, em sermões eclesiásticos. Mas agora, da noite para o dia, incentiva seus tentáculos espalhados pelo país a 
fazer campanhas de oração em favor “do Brasil e do governo”, para que “tenhamos paz”. Leia aqui um exemplo. Sim, precisamos de paz, mas eles não se lembram (ou melhor, se esquecem) de quem começou a confusão, em 5 de outubro de 2014.
Assim como Vladimir Putin usa a igreja ortodoxa russa – com ou sem conivência ou conhecimento dos sacerdotes, talvez nunca saibamos – certas correntes políticas do lado de cá também usam (principalmente) a igreja evangélica para seus propósitos. Aqui eu aposto todas as fichas que os “sacerdotes” sabem de tudo. Faz parte de um projeto de poder que eu venho expondo há anos, em todos os artigos que postei sobre o “dominionismo”.
Bem, aí está.
A bem da verdade, o clero sempre foi ávido pelo poder temporal. Desde que o cristianismo virou religião oficial do império romano, e sentiu o gostinho de mandar em todo mundo (inclusive na política), o poder mundano se tornou sua ruína. Durante toda a Idade Média, papas coroavam imperadores e reis, e governavam o reino do espírito e o da carne, o mundo. Na revolução francesa, o clero foi banido, junto com a sua amiga a nobreza, mas logo se alinhou com os novos senhores do mundo, a burguesia. E com ela segue junto até hoje. Inclusive na Rússia e na China, pós-comunistas, onde existe uma igreja venal, vendida, como a brasileira, mais interessada nos negócios terrenos do que nos celestiais. Em todas as denominações ditas cristãs, diga-se. 
O projeto de poder está chegando aos “finalmente”. Basta você ver, no noticiário, todos os dias, o desmonte progressivo da democracia. Você vê todos os dias as investigações seletivas endereçadas a algumas personagens, enquanto outros, sabidamente criminosos, continuam tão livres como sempre. Com apoio da “bancada evangélica” e de figuras abomináveis travestidos de pastores.
Como o pastor de uma igreja em Curitiba, que apoia abertamente um candidato acusado de roubas obras de arte do patrimônio público para instalá-las em sua propriedade particular. O candidato que diz que vomitou ao sentir cheiro de pobre (veja aqui). Não por acaso, o procurador que apresentou denúncias contra o ex-presidente Lula numa apresentação de Power Point tão tosca que virou “meme” e recebeu recordes de gozações, não por acaso, esse procurador é membro consagrado dessa igreja e tido como herói.
É por isso que está a cada dia mais difícil ser chamado de evangélico hoje em dia.
Mas eu falo disso outro dia, quem sabe.

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terça-feira, 17 de março de 2015

Como o cristão deve reagir frente a um governo corrupto?

Virou moda, não apenas na mídia e nas redes sociais como também dentro da Igreja Cristã reclamar e bradar aos quatro ventos contra a corrupção, real ou imaginária, propagada nos grupos de Whatsapp em fake news  intermináveis. Que ficam pululando já por mais de dez anos: de vez em quando elas voltam.. Sermões e
homilias se repetem, ecoando pelos blogs e posts no Facebook, no Twitter, principalmente no Whatsapp, e onde mais for possível “botar a boca no trombone”. Líderes religiosos e leigos de repente se tornaram guardiões da ética, da probidade e da transparência, querendo colocar corruptos na cadeia, fuzilar traficantes, fechar o Congresso e espancar os ministros do Supremo. Transformaram-se todos, de uma hora para outra, em profetas que, à moda de Elias e João Batista, vociferam contra o poder político, numa verdadeira cruzada moralizadora.
Mas até que ponto essa motivação pela ética é de fato real? Isto é, qual seria a razão por trás do surto moralizador que faz a todos quererem incorporar o espírito de Elias ou de João Batista?
Antes de tudo, é preciso esclarecer qual era o papel dos profetas nos tempos bíblicos, e também dentro da Igreja e sua relevância para o mundo.
Houve um tempo em que o governo de Deus se manifestava em duas esferas, a civil e a religiosa, em um reino monárquico – mas de cunho teocrático, onde as leis divinas também serviam como lei civil. É por isso que algumas vezes as admoestações dos profetas do Velho Testamento extrapolavam a esfera religiosa e faziam menções a situações de crise social ou econômica (ver Amós 2:6-8; 3:10; 4:1 etc.).
No Antigo Testamento alguns profetas sofreram perseguições por trazer a mensagem divina. O ofício do profeta era de âmbito nacional. Quando Deus levantava um profeta, conferia-lhe a missão de falar em Seu Nome para toda a nação e até para povos estranhos (como Jonas). 
Deus permitiu, naquele momento histórico peculiar, que os profetas abordassem, de vez em quando, assuntos alheios à religião, até mesmo para que as profecias de cunho não-religioso, que se cumpririam em curto prazo, pudessem servir de prova para as profecias de cunho religioso (que são mais importantes por envolver a salvação do gênero humano) – as quais deviam se cumprir muito depois, especialmente no que diz respeito ao Messias. Desta forma, a destruição do Templo, a dispersão dos judeus, a conversão dos pagãos e outras profecias que se cumpriram relativamente em curto prazo serviram como uma prova certa de que também as profecias ainda não-cumpridas também se cumpririam – e se cumprirão a seu tempo (como a vinda do Messias, Sua crucifcação, o Anticristo, a ressurreição dos mortos etc.). Esse tipo de profecia de “curto alcance” pode ser visto em Isaías caps. 36 e 37.
Mas essas situações eram específicas do reino de Israel, do governo teocrático. Ou seja, muito distante do Estado Laico característico dos governos modernos, pós-Revolução Francesa. Uma grande diferença se nota entre o exercício do poder político naqueles tempos e hoje. Os profetas no antigo Israel lidavam com os reis de forma dura e às vezes rude. Apontavam claramente os delitos cometidos pelos reis e povos, lançando-lhes na face, sem temor, as verdades mais humilhantes, procurando apenas obedecer a Deus e amando somente a verdade (cf. I Samuel 15,17; II Samuel 12,7; 24,13; II Crônicas 21,11; I Reis 14,7; 18,18; 21,19; II Reis 1; II Crônicas 16,7; I Reis 22; II Crônicas 19,1; II Reis 3,13; 20; Jeremias 21; 22; 24; Daniel 4; 5; etc.).
Depois do exílio babilônico, quando do restabelecimento de Israel, a difícil situação socio-econômica gerou um ambiente de crise social, cujas injustiças foram denunciadas inicialmente por Amós, indo até a época de Malaquias, cronologicamente, cerca de 400 a.C. Esse período, diferentemente do anterior, foi caracterizado pelo sofrimento e marginalização dos profetas. De homens dignos de reverência passaram a ser vistos com hostilidade, porque sua mensagem ia de encontro aos interesses escusos das lideranças religiosas e políticas (Hebreus 11:36-38).
O plano de Deus era que houvesse cooperação entre profetas e sacerdotes, mas estes últimos tendiam a aderir ao liberalismo e deixavam de protestar contra a decadência. O livro de Malaquias é uma dura advertência dos profetas contra os sacerdotes, os verdadeiros ladrões do dízimo (e não o povo, como se tenta fazer crer hoje em dia). Leia mais sobre isto aqui. Os sacerdotes muitas vezes concordavam com a situação reinante, e sua adoração a Deus resumia-se a cerimônias e liturgias. O profeta, por outro lado, ressaltava o modo de vida, a conduta e as questões morais. Repreendia constantemente os que apenas cumpriam com os deveres litúrgicos. Irritava, importunava, denunciava, e sem apoio humano defendia justas exigências e insistia em aplicar à vida os eternos princípios de Deus. Era ensinador da ética, reformador moral e inquietador da consciência humana. Desmascarava o pecado e a apostasia, procurando despertar a um viver realmente santo.
Quando chegamos no Novo Testamento,  há uma transição no ministério do profeta. Vemos João Batista, tido por muitos como o último profeta do Antigo Testamento, pelo caráter de sua pregação – denunciou as mazelas dos líderes religiosos e políticos da nação, como antes dele Ageu, Malaquias e principalmente Elias, mas também anunciou o Messias, como Isaías. E quando a Igreja é instituída, o ministério dos profetas se revela um dom de Deus para a edificação do Corpo de Cristo. No Novo Testamento os profetas não perderam a preeminência. Mas, diferentemente de antes, não mais atuam ungindo reis. Não mais participam do governo, mas juntamente com os apóstolos e outros ministérios, são as colunas da Igreja. Seu ministério é muito mais em âmbito interno, porque tudo que se precisa saber acerca das nações e do governo humano já está revelado. Leia, por favor, o Salmo 2 e Apocalipse 11:10, 17-18; também o cap. 17:12-16. O governo humano, as nações, suas instituições, sua política, sua economia, suas leis, tudo jaz (i.e., descansa, se apóia) no Maligno (I João 5:19), e por isso não há outro caminho senão a destruição.
I Coríntios 12: 27 -29 e Efésios 4.11-13 atestam o caráter de edificação da Igreja que acompanha o ministério dos profetas nesta era. O Senhor continua a levantar e a usar seus porta-vozes para revelar a sua mensagem ao seu povo. Podem eventualmente aconselhar governos, pessoas influentes, admoestar e até mesmo criticar, tendo como padrão a Palavra de Deus, mas não podem se deixar levar por suas próprias preferências pessoais. E este, penso, é um dos maiores erros da Igreja de nossos dias.
O que ocorre é um grave problema no entendimento do papel da Igreja no mundo. Jesus disse que o papel dos salvos era propagar a Sua Palavra, pregar o Evangelho (i.e., as boas-novas da salvação). Evidentemente, isso haveria de impactar e transformar o mundo, como de fato ocooreu nos primeiros séculos. Mas depois de algum tempo surgiu a noção errônea de que a Igreja deveria governar o mundo em nome de Cristo, uma doutrina comumente chamada de dominionismo, e nós já discutimos aqui, aqui e aqui, para ficarmos só nesses exemplos.  
Essa doutrina, embora eminentemente católica na sua origem, tem desdobramentos na igreja evangélica, uma vez que muitos pastores crêem nela com todas as suas forças. Daí essa idéia se desdobrar pelas igrejas, e a partir de certo momento, muitos passaram a se arvorar em arautos de Deus e tentar influenciar - em suas próprias palavras - governos e governantes, e conquistar cidades e nações “para Deus”.
Quando não conseguem, põem-se a criticar o governo e os governantes que não lhes agradam, dizendo-se “profetas de Deus”, quando no fundo são apenas profetas de si mesmos.
Muitos pastores e líderes são sinceros, e imbuídos de um forte senso de mora, ética e honestidade, querem de fato que a nação seja um exemplo para todo o resto do mundo. Como qualquer cidadão de bem, ficam triste quando vê notícias sobre corrupção e dilapidação do patrimônio nacional. Mas, como qualquer cidadão, estão sujeitos ao momento histórico e ao contexto social, político e cultural em que foram formados, o que, na maioria das vezes, significa serem conservadores, ideologicamente à direita no espectro político, avessos ao socialismo – mesmo que às vezes nem saibam direito o que é. Veja bem, não estou dizendo que é certo ou errado estar à direita, ao centro ou à esquerda, ou em qualquer outra divisão que se queira adota – o que quero dizer é que os cristãos – líderes, leigos, com cargo ou sem cargo – devem primeiro se questionar se estão contra ou a favor do governo atual por questões ligadas à ética, honestidade, transparência, querer o melhor para a nação etc., ou se são contra ou a favor apenas porque gostam ou não gostam de quem está no poder, no momento.
Senão, vejamos. Já até discuti isso antes, aqui, por ocasião dos protestos de 2013. Um monte de pastores se assumiu protestante de fato e saiu em defesa das manifestações de então, dizendo que tinha que ir pra rua mesmo. OK, até aí tudo bem. Se achamos que algo está errado, graças a Deus que vivemos numa democracia e podemos reclamar. Graças a Deus e a quem veio antes de nós e lutou por restabelecer um estado democrático, porque antes de 1985 vivíamos numa ditadura militar onde quem discordava do governo, o presidente mandava “prender e arrebentar” – palavras do general Figueiredo, o último ditador. Nessa época, não sei de nenhum líder evangélico que saísse em defesa de protestos e manifestações contra o regime de exceção. Pelo contrário, naquela época, era comum os líderes evangélicos (que ainda não ostentavam esse título pomposo e se contentavam em ser chamados apenas de “pastor”) costumavam pregar que deveríamos obedecer às autoridades, porque elas foram estabelecidas por Deus (cf. Romanos 13:1,2).
Sim, mas quando questionávamos “e se o governo for injusto”, um governo que tortura e mata seus opositores, além de transparência zero nas contas, recebíamos como resposta que não, não deveríamos ser rebeldes. Deus, a Seu tempo, resolveria isso e tiraria do governo as pessoas injustas.
Mas às vezes a coisa se inverte totalmente de lado. Dependendo do governo do momento, não só podemos, mas devemos nos revoltar contra a injustiça e a corrupção, como se fosse coisa nova. Se o governo é do agrado do conservador, então relativiza-se Romanos 13:1 e 2, e entra em cena Provérbios 29:2 (“Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme”), que aliás, foi usado para pedir votos para Marina Silva. Como a dizer que, se o governo for exercido por cristãos, tudo será só maravilhas, oh glória. Esquecendo-se de que o país já foi governado por pelo menos dois evangélicos, Café Filho (1954) e Ernesto Geisel (1974-79), e não se tem registro de que a situação tenha sido de alívio para todo mundo. Aliás, o período de Geisel foi onde mais recrudesceram as prisões, torturas e mortes do regime verde-oliva. Então, confesso que não sei até que ponto o estímulo a “ir pra rua”, partindo dos púlpitos modernos, realmente tem a ver com o desejo de justiça, ética, transparência, fim da corrupção, ou até onde é meramente um discurso de classe, político-partidário, ideológico, de um segmento que simplesmente apoia determinado político.
Mais uma vez – isto é um direito do cidadão, o de se posicionar contra, a favor ou com neutralidade ou até mesmo indiferença diante de situações específicas. Agora, querer assumir o papel de profeta, de Elias e de João Batista, como se fosse um paladino da justiça, apenas para esconder preferências pessoais, partidárias, classistas e de caráter ideológico e político, e pedir intervenção militar, volta da ditadura, fechamento do Congresso e da Suprema Corte, não posso aceitar de jeito nenhum. É dominionismo, em maior ou menor grau – simplesmente desejo de poder, de querer “governar em nome de Deus”, o que já discuti antes em vários posts anteriores, doa a quem doer. Vá aqui mesmo em “pesquisar neste blog” que você acha.
Se isso fosse um desejo genuíno de justiça social, probidade, ética, tudo de bom... esses líderes teriam se manifestado antes.
Bem antes.
No tempo dos generais, por exemplo.
Ou no tempo dos anões do orçamento.
Não teriam defendido Collor ou um genocida, misógino, racista, admirador de torturadores.
E por aí vai.

Com informações adicionais de:
http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/licao7-dem-2tr14-o-ministerio-de-profeta.htm

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