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domingo, 5 de novembro de 2017

Protestantes x evangélicos

Há algum tempo tive o desejo de escrever algo sobre o aniversário de 500 anos da Reforma Protestante. Meio milênio atrás, Martinho Lutero pregou suas famosas “95 teses” na porta de uma igreja no interior da Alemanha e mudou a História da civilização ocidental. Mas acabei desistindo da empreitada por absoluta falta de tempo e porque inúmeros outros autores também se dedicaram a esse tema. 
A maioria deles, devo dizer, foi superficial. Limitaram-se a fatos já conhecidos e a dizer “que bom que hoje podemos ter a liberdade de estudar a Biblia” e por aí vai. Ficou nisso.
Também há algum tempo eu vinha pensando sobre a razão de o protestantismo evangélico estar hoje tão distante dos ideais dos reformadores – não apenas Lutero, mas seus precursores como Wycliffe, Huss, talvez Savonarola, seus contemporâneos como Calvino e Zwinglio, e seus sucessores, como Knox. Onde se perdeu a chama renovadora? Em que momento abandonamos os “cinco Solas” e adotamos doutrinas questionáveis, muitas até heréticas, como a teologia da prosperidade, o dominionismo, a batalha espiritual? Por que um evangélico brasileiro ou americano é tão diferente de um presbiteriano escocês, um luterano alemão ou um metodista inglês? Por que as igrejas evangélicas parecem prosperar na América Latina e na África enquanto na Europa templos estão sendo vendidos para empresas criarem cinemas e teatros?
A resposta não é fácil, nem simples, nem é uma só.
Começo fazendo uma pequena reflexão.
Há evangélicos.
E há protestantes. Peraí... há mesmo? Ainda existe protestante? Pelo menos aqui no Brasil, ainda existe? Houve algum dia?
Há uma enorme diferença entre esses dois termos. Veja esta breve explicação, que pode ser encontrada na Internet após poucos “clicks”:

O termo "protestante" é geralmente usado para se referir às Igrejas oriundas direta e contemporaneamente da Reforma Protestante, como a Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana, a Metodista, e a Congregacional; o termo "evangélico" é usado para se referir tanto a essas, com exceção da Anglicana, quanto àquelas indiretamente e/ou posteriormente oriundas da reforma, como as pentecostais e as neopentecostais. Existem também igrejas que já existiam antes da reforma protestante, por isso seria incorreto chamá-las de protestantes. Um exemplo são as Igrejas Batistas (...)  Adeptos dessas também são chamados de protestantes, embora, no Brasil, por preferência de nomenclatura, não costumem se denominar assim, preferindo a nomenclatura evangélicos. Todo protestante é evangélico, mas nem todos os evangélicos são protestantes. (grifos nossos)

Isto deve ser o suficiente para acender uma lâmpada na nossa cabeça.
Ora, a denominação “protestante” surgiu com Lutero, quando ele se opôs às práticas vigentes do catolicismo, que foram consideradas extra-bíblicas, e portanto, se fazia necessário um retorno às práticas primitivas, dos tempos apostólicos. Lutero e seus apoiadores foram perseguidos pela máquina católica, e por isso fizeram protestos em nome da liberdade religiosa e contra a tirania papal.
Dentre as práticas que deveriam ser abandonadas estavam – todos já sabem – a venda de indulgências (uma espécie de perdão pelos pecados a troco de dinheiro), as superstições e o misticismo misturados ao culto, a rígida hierarquia eclesiástica e outras coisas. Lutero e seus apoiadores lutaram contra isso.
Agora corta para o século XXI. Você entra numa igreja evangélica e nada de protestante existe ali dentro. Não há imagens de santos nem velas, mas você tem:
- uma rígida estrutura eclesiástica que além do pastor agora já tem bispo, apóstolo e até patriarca;
- se você ainda não pode comprar o perdão dos pecados por uma soma de dinheiro, pelo menos pode alcançar (dizem) a prosperidade financeira, a saúde física e emocional, o matrimônio, o emprego dos sonhos, se depositar fielmente e religiosamente uma certa quantia no gazofilácio ou outra coisa para isso destinada;
- pode também depositar sua fé em objetos mágicos como rosas ungidas, sabonetes abençoados, vassoura orada e travesseiro consagrado, para não falar de outros tipos de benzeduras mais inusitadas, como na carteira, no talão de cheques, na chave do carro ou no aparelho genital.
- se preferir, participe de rituais cabalísticos como dar sete voltas ao redor do seu bairro, ou atirar pedras em gigantes imaginários, derramar água, sal, vinho ou o que a sua criatividade declarar como profético, nas encruzilhadas, morros, praias e rios que achar melhor. Benzer a casa com azeite de oliva também é bem comum hoje em dia.
- a mistura com o mundo é tão clara que, por exemplo, se sua vida sexual estiver meio fraca, além de abençoar a cueca e a calcinha você pode adquirir produtos “cristãos” no sex-shop “cristão” para “apimentar a relação”, assim que sair do “baile funk gospel” ou da festa junina gospel, ou do Halloween gospel bem ali ao lado.
Nada mais distante da Reforma Protestante pela qual inúmeros deram suas vidas.
Isso é o evangélico. Não o protestante.
O protestante tem suas raízes fincadas em Wittenberg, naquele protesto explícito contra heresias; mas sobretudo, está embasado pela Bíblia Sagrada. Não se deixa enganar por falsas interpretações que contradizem os Evangelhos. Não embarca em novas revelações, nem em novidades teológicas e modernizações doutrinárias que extrapolam o ensino apostólico.
O protestante sabe quais são as 95 Teses de Lutero, e embora algumas delas possam até parecer datadas – pois Lutero não pensava em “cisma” e sim em reforma – elas são o cerne de uma vida cristã livre e dependente apenas das Escrituras.
O protestante tem cinco premissas – as “Cinco Solas”:
- Sola scriptura (Somente a Escritura) - a Bíblia tem primazia em relação à tradição legada pelo magistério da Igreja, quando os princípios doutrinários entre esta e aquela forem conflitantes. O historiador William Sweet sugeriu que isso posteriormente originou o direito fundamental de liberdade religiosa, bem como a própria ideia de democracia. 
- Sola gratia (Somente a Graça ou Salvação Somente pela Graça) - a salvação é pela graça de Deus apenas, e que nós somos resgatados de Sua ira apenas por Sua graça. A graça de Deus em Cristo não é meramente necessária, mas é a única causa eficiente da salvação. Esta graça é a obra sobrenatural do Espírito Santo que nos traz a Cristo por nos soltar da servidão do pecado e nos levantar da morte espiritual para a vida espiritual.
- Sola fide (Somente a Fé ou Salvação Somente pela Fé) - a justificação é através da fé somente, pois pela fé em Cristo que Sua justiça é imputada a nós como a única satisfação possível da perfeita justiça de Deus.
- Solus Christus (Somente Cristo) - a salvação é encontrada somente em Cristo e que unicamente Sua vida sem pecado e expiação substitutiva são suficientes para nossa justificação e reconciliação com Deus o Pai.
- Soli Deo gloria (Glória somente a Deus) - a salvação é de Deus, e foi alcançada por Deus apenas para Sua glória. Acredito que mui poucos evangélicos conheçam essas declarações.
Muitos pastores evangélicos dizem ser inútil e desnecessário estudar para exercer o ministério. Bastaria um “dom” ou um “chamado”.  Mas os reformadores, ao contrário, foram pessoas de vasta cultura teológica e humanista: Calvino estudou em Sorbonne e seu pai era bispo; Lutero foi professor universitário de teologia; Zwinglio era sacerdote e humanista. Muitos eram professores universitários, respeitados em sua época, e se correspondiam com os grandes filósofos seus  contemporâneos. Como Erasmo de Roterdam, eles buscaram nas fontes da antiguidade cristã as bases para uma renovação religiosa. Lendo a Bíblia e retornando aos Pais da Igreja, descobriram uma visão da fé e uma doutrina bíblica cristocêntrica há muitos séculos esquecidas. Desafio a qualquer um enumerar uma lista de grandes pensadores evangélicos brasileiros, respeitados fora do redil, que não sejam ridicularizados como retrógrados, pedantes ou tacanhos. Existem, felizmente, mas são poucos.
Neste 31 de outubro de 2017, alguns de nós comemoraram 500 da Reforma Protestante.
Mas muitos nem sabiam do que se tratava. Estavam mais preocupados com o Halloween, gospel ou não.
Os reformadores, se porventura tivessem uma visão da situação atual, talvez teriam ganas de voltar à Terra e refazer todo o trabalho, porque vai se esfarelando a sua preciosa herança.
Nesta estranha classificação entre protestantes e evangélicos, prefiro ser protestante. Até porque há quem diga que a certidão de nascimento dos “evangélicos” de hoje está datada em algum ponto dos anos 1950 – e você pode especular um pouco mais neste link. Mas isto é assunto para outro dia.
Como disse Lutero, “A menos que vocês provem para mim pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é correto nem seguro. Aqui permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Que Deus me ajude. Amém”.

833.200

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Onde é que nós estamos?


Jesus tinha um temperamento tão agradável que na primeira vez que encontrou seus discípulos os convidou para ir à balada.
Isto é o que diz uma tal de “pastora” Priscila Mastrorosa, da “igreja” Bola de Neve (foto ao lado). O link para outras idiotices semelhantes que ela fala é este: http://migre.me/d5Smk .
A pergunta é inevitável: onde é que nós, como igreja, estamos?
E essa pergunta tem diversas derivações:
Como igreja, o que estamos fazendo? Como é que esse tipo de comportamento, essas práticas estranhas, essa falta de visão para entender e comunicar o evangelho, como é que vamos impactar a sociedade decadente em que estamos inseridos? Onde queremos chegar? O que pretendemos?
Vemos claramente uma diluição da mensagem do evangelho nessas pseudo-igrejas.
Há igrejas que têm ministérios de resgate de jovens das drogas, da homossexualidade; travestis e prostitutas que se renderam aos pés de Jesus tiveram suas vidas transformadas sem precisar ouvir que “Jesus era da balada”. O que transforma vidas é o evangelho genuíno, é a mensagem que diz que se a pessoa não receber Jesus vai para o inferno, que Satanás é real, que o pecado separa o homem de Deus. E o que é pecado, principalmente, que não é relativo, como acreditam alguns. Que a Bíblia ensina a evitar a aparência do mal. Tanto que nessas igrejas que citei, o pessoal entrava cabeludo, barbudo, cheio de parafuso nos beiços, mas não permanecia assim.
A Bíblia diz: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). Transformai-vos!
Não dá para acreditar que alguém, que antes vivia segundo um certo “estilo” mundano, depois de ter uma experiência com Cristo continue a falar do mesmo jeito, a se vestir do mesmo jeito, a ter os mesmos hábitos e comportamentos, a “curtir” o mesmo estilo de música, de lazer. II Coríntios 5:17 diz que “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. Não fui eu quem inventou essa frase. Mas agora, até “música gospel para balada” já tem! Que testemunho é esse? Que exemplo é esse?
Desde quando cristão freqüenta balada? Desde quando Jesus ia na balada com os discípulos?
Há não muito tempo atrás, cristão não ia à danceteria. Agora já tem até balada gospel. O que mudou? A Bíblia mudou? A interpretação mudou? A mensagem mudou? Jesus mudou? Sim, Jesus mudou... ele até vai à balada agora. Daqui a pouco vão dizer que Ele tomava umas e outras como certos cantores gospel. Afinal, ele transformou água em vinho, não foi? Será que Ele nem experimentou? Gente, esse raciocínio raso é mundano, carnal e perigoso. “Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica” (Tiago 3:15).
Não estamos falando de costumes humanos: “ah, antes eu usava minissaia e agora só uso vestidão, agora não depilo mais nem as axilas, não uso mais calça comprida; agora só uso terno xadrez e não assisto mais futebol”; não, não se trata disso. Trata-se de fazer tudo “decentemente e com ordem” (I Coríntios 14:40), não só no culto, mas na vida. Este mandamento não se restringe ao domingo, mas à semana toda.
Trata-se de viver como ensina a Bíblia: sendo exemplo tanto para os “de dentro” como para os “de fora”; e isso significa se esforçar para não escandalizar ninguém. “Pelo que, se a comida fizer tropeçar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para não servir de tropeço a meu irmão” (I Coríntios 8:13).
Mas não, parece que fazem questão de mostrar que são assim mesmo e desse jeito permanecerão. “Se Deus me aceita assim todos têm que aceitar também”, dizem. Mas o engraçado é que, ao procurar emprego (quando vão), procuram se arrumar, colocam um terno, tiram os pregos da cara e as dúzias de anéis, escondem as tatuagens. Dois pesos, duas medidas.
O pior é que pseudo-pastores usam uma expressão atribuída a Paulo – “fiz-me grego para ganhar os gregos” – para justificar seus costumes e ensinos bizarros. Que tristeza.
Em primeiro lugar, Paulo nunca disse que “se fez de grego”. O texto bíblico (I Coríntios 9) diz:
19 Pois, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos para ganhar o maior número possível:
20 Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei;
21 para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei.
22 Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.

Com isso o apóstolo não está dizendo que se fantasiou de fariseu para ganhar os fariseus. Ele entendeu a mente farisaica, e lhes mostrou que o evangelho ia muito além das leis e ordenanças. Não extrapolou a mensagem de Jesus! Aliás, como discípulos, não devemos viajar na maionese e reinterpretar o que Jesus pregou. Mateus 10:24 “Não é o discípulo mais do que o seu mestre, nem o servo mais do que o seu senhor”. Se Jesus não fez concessões, por que devemos nós fazê-las? Se Jesus não adaptava sua mensagem ao gosto do freguês, por que deveríamos fazer isso?
E quando Paulo diz que “para ganhar os que estão sem lei” foi “como se estivesse sem lei”, não está dizendo que entrou a beber com os coríntios, conhecidos por sua devassidão homérica. Porque o próprio Paulo diz, claramente, que não se portou “para os que estão sem lei” da mesma forma que eles, pois estava “mas debaixo da lei de Cristo” (v. 21). E qual é a lei de Cristo sob a qual devemos estar?
E em segundo lugar, quando esteve na Grécia, Paulo não entrou na deles, mas expôs o evangelho com sabedoria. Começou falando da mitologia grega, mas logo mostrou que Deus estava muito acima desses conceitos. Leia Atos 17:16-34, notando os dois últimos versos:
“Assim Paulo saiu do meio deles. Todavia, alguns homens aderiram a ele, e creram, entre os quais Dionísio, o areopagita, e uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros”.
Esses, que querem ser “como gregos”, se encaixam naquele tipo de pessoa descrita por Pedro em sua segunda carta, cap. 3:15-16: “e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como faz também em todas as suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, mas quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição”. Indoutos e inconstantes, torcendo ensinos que não compreendem, para sua própria perdição.
E com isso, acabam criando um evangelho da porta larga, onde cabe tudo. Gálatas 1:
6 Estou admirado de que tão depressa estejais desertando daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho,
7 o qual não é outro; senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo.
8 Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.
9 Como antes temos dito, assim agora novamente o digo: Se alguém vos pregar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.


O que pretendemos fazer da nossa breve estada neste mundo?
Ainda há sabor nesse sal?
Ainda brilha essa luz?
Porque “Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (Mateus 5:13).
E “sois a luz do mundo” (Mateus 5:14). Mas “se a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas!” (Mateus 6:23).
Uma vez, quando ainda se pregava o evangelho genuíno neste país, ouvi um homem de Deus dizer que a igreja é como um barco no mar. O barco precisa entrar no mar, mas o mar não pode entrar no barco.
A igreja é o barco, e o mar é o mundo.
Faça a analogia.
A igreja precisa de uma reflexão. Onde é que nós estamos? Não estaríamos como um barquinho no meio do mar, sem saber que rumo tomar?
E o pior... a água está entrando.

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