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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Eu avisei


É chato ter que dizer isto, mas eu avisei.
O Brasil afunda na corrupção, e em breve, na miséria econômica que havíamos deixado para trás.
Um ano e meio atrás, pouco mais, eu alertei para o buraco para o qual se encaminhava o país, e alertei para o perigo em que certos líderes evangélicos incorriam ao incitar seus rebanhos particulares a “bater panelas” contra o governo de então.
Alertei que estavam fazendo o jogo de poderosas elites econômico-financeiro-midiáticas, e que não apenas politicamente estavam errados, como também biblicamente.
Mostrei que a Bíblia nos manda interceder pelas autoridades constituídas, não importando a cor da sua camisa (como diz o repórter Thiago Reis da Rádio Itatiaia de Belo Horizonte). Que temos que dar graças pelas autoridades quer gostemos delas ou não. Que muitos desses que então se arvoravam em defensores da ética e da justiça haviam permanecidos nas sombras, calados, durante os anos de ditadura militar, e durante os tempos bicudos de carestia galopante, miséria urbana e rural, desemprego crescente, inflação de dois dígitos ao mês, e arquivamento generalizado de denúncias de corrupção nos palácios republicanos.
Pois bem, esses tempos voltaram.
Ressurge o desemprego. Patrimônio nacional vendido a preço de banana para multinacionais. A corrupção, cujo fim foi anunciado aos quatro ventos há um ano, segue com mais força do que nunca. Destituíram uma presidenta por “pedaladas”, um termo tão vago e impreciso que precisou de juristas contratados a peso de ouro para tentar explicar, e agora absolvem um presidente interino, sobre o qual pesam provas incontestáveis de corrupção ativa e passiva – malas de dinheiro, conversas escusas de madrugada com empresários de índole duvidosa, compra de votos no congresso. E tudo com apoio das mesmas lideranças evangélicas que de alguns anos para cá se preocupam mais em aparecer na mídia do que ensinar as verdades bíblicas. Veja aqui que vergonha...
Procure a lista dos que votaram a favor do arquivamento das denúncias contra o presidente interino e veja que a bancada evangélica em peso ficou ao lado da quadrilha que agora comanda o país.
Veja bem: não se trata de absolver ou não o presidente e sua política, comprovadamente fracassada: trata-se primeiramente de ignorar a corrupção. Ela existe, disso não há dúvida. O que se discutiu foi se elas deviam ser investigadas ou não. Ganhou o NÃO, elas não devem ser investigadas. Com o apoio maciço da bancada dita evangélica. E com o apoio maciço da ppopulação dita evangélica, porque qualquer coisa é melhor que o PT. Então, aí está aqualquer coisa.
Esses porcos e bodes que hoje pastoreiam o povo de Deus não são homens, muito menos homens “de Deus”.
São moleques, mentirosos, venais, hipócritas, falsos profetas.
Disseram durante anos que Deus iria revelar os pecados da nação, e agora que os pecados estão escancarados, apoiam os que cometem tais pecados, em troca de algumas moedas, ou de alguns ministérios, algumas concessões de rádio e canais de TV.
Esses pilantras, que continuam com seus ternos de griffe, relógios de ouro, anéis, pick-ups de luxo e até mesmo jatinhos, diziam que a corrupção iria acabar e que Deus iria restaurar a nação. Acabou a corrupção? O Brasil foi restaurado?
Existe um pseudo-pop-star travestido de pastor (ou seria um pseudo-pastor travestido de por-star?) que chegou ao cúmulo de levar à sua congregação um membro do ministério público, engajado numa investigação de cunho totalmente político e direcionado a perseguir uma pessoa; e quando a plateia lhe virou as costas passou um “sabão” dizendo que aquele convidado era a pessoa mais importante que já havia ido àquele templo. Mal sabia ele que esse convidado chegou ao cargo atual por meio de falcatruas jurídicas, sem ter nem mesmo a formação necessária para tal investidura.
É apenas um exemplo dos descalabros, sobre os quais eu havia avisado. Mais de ano antes.
E segue a boiada atrás desses tipinhos. Que a cada dia chafurdam mais e mais na lama, como você pode ver aqui e aqui.
Ah, mas temos que interceder pelas autoridades, não temos?
Sim, temos. É mandamento bíblico. É o que nos cabe. E também pedirmos perdão a Deus por termos colocado a nós mesmos, e aos nossos irmãos, nessa situação.
Porque Deus pode estar no controle de tudo, como se diz, mas Ele entregou ao Homem o governo do mundo – e o Homem entregou a Satanás, lembra? Então a culpa é do Homem sim...
Que você interceda pelo governo e agradeça pelo aumento da gasolina, do gás de cozinha, das passagens de ônibus. Do arroz, do feijão e do leite das crianças.
Que você encare bem a perda de direitos trabalhistas, das férias, do adicional de insalubridade. 
Que você seja simpático(a) ao sucateamento dos bancos públicos, com fechamento de agências, fim do seguro-desemprego, dos benefícios sociais.
Que você veja com bons olhos o fechamento das universidades públicas, o fim do financiamento estudantil.
Que você tenha sucesso quando for negociar com seu patrão o seu reajuste salarial, e daqui a muitos anos, que seja feliz na hora da sua aposentadoria, se conseguir viver até lá.
Que você se rejubile e cante aleluia ao ver a cada dia notícias sobre políticos corruptos na TV e nos jornais, e não se revolte nas redes sociais. Afinal, você obedeceu ao seu ungido, quando votou nesses políticos que aí estão, “para acabar com o comunismo” e “pôr fim à corrupção”. E se você achar que não melhorou nada, pelo contrário, piorou, não vá mais a manifestações de domingo à tarde, nem bata panelas ou faça buzinaços. Peça explicações ao seu ungido.
Esta situação foi você que construiu. E agora seja feliz com ela.
“Em tudo dai graças...” (I Tessalonicenses 5:18)
“Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas” (Filipenses 2:14)
E, de novo, Romanos 13:
“ Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.
Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação (...) Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos... Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto...”

Sem revolta.

“O importante é que tiramos os comunistas do poder”.


814930

segunda-feira, 28 de março de 2016

Eu sou contra a corrupção!

É isso mesmo.
Eu sou contra a corrupção.
Abomino esses governantes que dizem uma coisa e depois fazem outra.
Detesto políticos que se aproveitam do cargo para se dar bem, que usam a estrutura pública em benefício próprio. Não posso concordar com essas pessoas que só pensam em levar vantagem. De jeito nenhum.  
Infelizmente, não tenho todo o tempo que eu gostaria para poder manifestar minha indignação. O único tempinho que arranjei para escrever esse meu manifesto foi agora, aqui no meu trabalho, aproveitando que o meu chefe tinha uma reunião em outro andar. Aí ficou um pouco calmo por aqui e resolvi protelar um pouco – só um pouco – o trabalho que eu tinha prometido entregar ainda hoje. Infelizmente, vai ficar para amanhã, porque fazer este protesto é mais importante. Meu chefe pode esperar até amanhã. Além do mais, eles me pagam muito pouco. Não tem nada de mais usar um pouco do tempo que seria dedicado à empresa e ao trabalho para expressar a minha opinião. Ah, sim, e também o equipamento onde estou digitando, salvando e a impressora onde vou imprimir o texto para ver se ficou bom.
Um colega aqui do lado também tem a mesma opinião. Ele, como diácono de sua igreja, é contra a corrupção do atual governo. Eu sei que ele é diácono porque ele escreve toda semana o boletim da igreja no seu computador. Ou melhor, no computador da empresa. Depois, toda sexta-feira no final do expediente, ele imprime aqui as 500 cópias que serão distribuídas aos irmãos no domingo de manhã. Esse meu colega é uma bênção.
Somos muito unidos. Quando teve a prova de seleção interna, combinamos de nos ajudar mutuamente – afinal, irmão ajuda irmão. Na hora da prova, trocamos algumas informações discretamente, algumas respostas, e assim ambos passamos e fomos promovidos.
Nós somos muito unidos. Mas eu sou mais radical. Por exemplo, eu sou contra o projeto de cobrar imposto de igreja. Acho que as igrejas devem permanecer isentas. Ainda mais as evangélicas, pois as outras igrejas sempre receberam benefícios do governo. Basta você ver qualquer cidade do interior. O templo católico fica sempre no melhor lugar da cidade, sempre na praça central. Até em Brasília é assim! A principal igreja católica da cidade fica bem ao lado dos ministérios! Porque então cobrar imposto das igrejas evangélicas? Deviam cobrar só da igreja católica. Eles já tiveram isenção de impostos e muita mordomia por muito tempo. É hora de levantar um clamor contra isso. E esse governo corrupto só quer ganhar dinheiro fácil!
E por falar em ganhar dinheiro fácil, o meu é muito difícil de ganhar. Por isso sempre dou um jeito de economizar. Quando saio de carro, procuro fugir dos estacionamentos pagos. Paro em qualquer lugar que posso. Mesmo que haja placa de estacionamento proibido, como eu não posso gastar tanto, eu deixo ali mesmo e peço a Deus para que nenhum guarda me multe. Afinal, meu carro foi Deus que me deu, porque sou dizimista fiel. Tem até um adesivo pregado, que diz “propriedade de Jesus”. Deus não vai deixar um guarda ateu me multar.
Outro dia apareceu até um flanelinha, um garoto esfarrapado perguntando se podia olhar o carro. Eu disse que sim, não é proibido olhar para o meu carro! Quando voltei um tempo depois, o garoto estava do outro lado da rua, parecendo cochilar. Aproveitei e saí rápido, e assim economizei mais algum dinheirinho! Deus me deu essa esperteza!
É por causa disso que quando vou a restaurantes não pago os 10% do garçom. Afinal, é serviço opcional. Ele está ali para fazer o seu trabalho, e ainda quer mais 10%? Absurdo! Se eu tiver que dar 10%, prefiro dar para o pastor da minha igreja, porque ele me ensina muitas coisas boas. Ele me ensina a odiar a corrupção. Ele me ensina a protestar contra o governo corrupto. Tudo bem que este é o primeiro governo contra o qual ele ensina a protestar, mas tudo bem. Eu não me lembro de tê-lo visto protestar contra o governo na época dos militares, apesar de correr as notícias de que eles prendiam pessoas quando quisessem, torturavam e até matavam. Tudo bem que naquele tempo não havia democracia, não tinha nem eleição, mas se meu pastor não ensinava protestar contra essas coisas, ele devia estar certo. Ele é um ungido, e não devemos tocar no ungido.
Também não me lembro de tê-lo ouvido dizer para pedirmos o impeachment do Collor, por causa da corrupção. Isso é coisa de agora, deve ser alguma revelação nova que ele recebeu de Deus agora, a de pedir impeachment, desde que seja contra o nosso candidato. Afinal, antes não tinha essa corrupção toda, meu pastor falou, e o nosso candidato foi Deus que indicou. Meu pastor sabe das coisas, ele é ungido! Ele deve ter tido da parte de Deus uma nova interpretação para Romanos 13.
Por isso dou a ele 10%, e não para o garçom. Meu pastor é um homem próspero. Um exemplo. Ele tem uma casa muito boa, tem sempre carro do ano, e todo ano viaja de férias para Miami. Ele é um exemplo para mim. Ele é contra a corrupção, e eu também sou.
Sou contra o sistema, e por isso não gosto de dar dinheiro para ele. Sempre que posso, compro coisas sem nota fiscal, porque tem muito imposto embutido no preço das coisas, e quando compro sem nota sempre tem um descontinho. É melhor que esse dinheiro fique comigo do que com esses corruptos! Ladrões! Fora corruptos!
Na minha igreja todo mundo é assim. Somos muito unidos! Tem um outro pastor lá, que apesar de não ser formado em Teologia, a gente chama de pastor. O que que tem isso de mais, Pedro também não estudou Teologia...  Esse irmão é vendedor e  sempre nos vende roupas por preços bem camaradas  (opa, essa palavra é comunista) mais em conta. Ele também prefere vender assim informalmente, e assim não declara no Imposto de Renda. Pra que dar mais dinheiro a esses bandidos que não fazem nada com nossos impostos?  
Vou parar por aqui porque meu chefe vem chegando ali. Talvez amanhã, se ele sair de novo por algum tempo, eu tenha tempo de terminar este meu protesto. Afinal, eu sou contra a corrupção.

BASEADO EM FATOS REAIS.

698.000

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Qual é a sua motivação?

Há algum tempo participei de uma reunião de oração. As pessoas presentes, todas cristãs sinceras, na hora de colocar seus pedidos, me surpreenderam. Uma ou outra pedia para interceder pela conversão de um parente e pela cura de um conhecido, mas a maioria pedia por bens materiais. Alguém pediu oração para poder “vender logo a casa”, pois tencionava comprar outra maior e melhor. Outra pessoa disse que era para orarmos para que conseguisse uma boa empregada doméstica. Um outro anunciou que pretendia morar no Exterior, pois “não aguentava mais este país”. Por fim, alguém pedia para que Deus abençoasse esta nação e tirasse as pessoas más do poder, colocando outras “tementes a Deus, segundo o coração de Deus”.
Aparentemente, tudo muito bacana, tudo muito certo. Fiquei pensando naquilo tudo, e só depois percebi que aquelas pessoas, sinceramente, estavam pedindo a Deus que os abençoasse segundo os seus próprios desejos. Suas orações eram centradas neles mesmos, na satisfação do que entendiam como sendo as suas necessidades pessoais. Totalmente fora daquilo que a Bíblia ensina aos cristãos como devem agir. Vejamos alguns pontos.
No Sermão do Monte – e em outras partes – Jesus ensina que devemos viver não para satisfazer a nós mesmos, mas a Deus (fazendo a Sua vontade) e ao próximo. O centro deve ser não a gente mesmo, mas tudo deve ser para “o outro”. O próximo. É o que significa “quando alguém te pedir a túnica, dá também a capa; se alguém te pedir para caminhar com ele uma milha, vai com ele duas”. E também “se alguém te bater numa face, oferece a outra”.
Mas essas pessoas estão seguindo outra lógica. Elas seguem uma lógica apropriada (do ponto de vista humano e carnal) ao seu segmento social, mais do que à sua situação de cristãos, de cidadãos de outro reino que não o deste mundo. Seguem uma ideologia (no sentido original da palavra, no sentido crítico, “ferramentas simbólicas voltadas à criação e/ou à manutenção de relações de dominação”, link aqui) de uma classe média pequeno-burguesa, aquele tipo que pensa que o capitalismo é o melhor dos sistemas econômicos, esquecendo-se de que, na maioria, eles mesmos são empregados, funcionários que trabalham para um patrão e, por mais que tenham bons salários e ocupem boas posições na escala social, ainda assim são assalariados. Eles ainda não perceberam que o lucro gerado pelo seu trabalho vai todo para o bolso do patrão, por que seus salários sejam bons salários, ainda assim, são assalariados. O que recebem nunca os fará ricos como aos patrões. E essas pessoas, dominadas mentalmente que são pela ideologia burguesa de seus patrões,  seguem o mesmo ideário, próprio dos banqueiros, industriais e grandes empresários, crendo que isso é normal. Vejam só.
Os banqueiros, industriais e grandes empresários visam o lucro. Em última instância, visam o seu próprio bem. Tudo o que fazem e investem é para seu próprio prazer, para seu lazer, para seu próprio desfrute. Até certo ponto isto é lógico e legítimo. O que não é lógico é os seus empregados e funcionários acharem que devem seguir a mesma cartilha, por mais bem situados que sejam (ou estejam, no momento). 
Em que consiste esse conjunto de idéias e pensamentos? Consiste nos valores burgueses, expressos no seu modo de vida, seus gostos, seus hábitos e suas escolhas, como veremos.
As pessoas da reunião que mencionei no primeiro parágrafo seguem essa ideologia. Ao pediram intercessão para que conseguissem “uma boa empregada”, o que querem dizer com isso? Você vai se espantar com a minha conclusão, mas eu o desafio a me mostrar outra interpretação para essa “oração”: o que mais elas querem senão alguém que trabalhe mais e ganhe menos? Alguém que lhes dê menos aporrinhações, que reivindique menos direitos (como dias de folga, aumentos de salário, licença-maternidade, férias, décimo-terceiro salário e Fundo de Garantia, dentre outras coisas). Alguém que falte menos ao trabalho, ainda que um filho adoeça ou aconteça uma greve dos ônibus ou do metrô. Alguém que obedeça a todas as suas (patrões) vontades. Alguém que esteja sempre à disposição; repetindo, por um salário não maior do que o da empregada anterior. Mais lucro. Ou, como se convencionou dizer, melhor custo/benefício.
Se essas pessoas fossem realmente cristãs, elas agiriam de outra forma, eu penso. Seu pedido de oração seria diferente.
Por exemplo, poderiam pedir a Deus que lhes desse condições de contratar uma empregada doméstica, de que de fato necessitam, mas para lhe pagar um salário maior do que o que pagavam à empregada anterior. Poderiam seguir o mandamento de Jesus, o da segunda milha, no sentido de que, quando a empregada saísse de férias, concedessem a ela, graciosamente, mais uma semana de descanso remunerado. Quando a empregada ligasse dizendo que se atrasaria por causa da greve dos ônibus ou do metrô, dissessem a ela que tirasse o dia de folga. Quando viajassem para Miami, como sempre fazem a ponto de querer morar lá, que levassem junto a empregada, não para lhes carregar as malas ou lhes passar as roupas, mas para se divertir, conhecer outro país, adquirir mais cultura (se é que em Miami tem cultura).
História da vida real, verídica, que ouvi de uma cristã que trabalhava como doméstica em casa de outros cristãos, segundo ela, “ricos”: como ela trabalhava de segunda a sexta o dia todo, e sábado só até meio-dia, nesse dia ela tinha trabalho dobrado. Tinha que, por exemplo, fazer o dobro de comida para que os patrões não precisassem ir para a cozinha no domingo “depois do culto”. Eles não poderiam, pães-duros que eram, gastar um pouquinho num restaurante (talvez por isso fossem ricos). Ah, e um detalhe: na segunda-feira, o trabalho também era dobrado, pois a pia da cozinha tinha tanta louça suja que ia até o teto, pois ninguém se dignava a lavar sequer um copo que tivesse usado durante o fim de semana. Essa empregada cristã, quando saiu desse “emprego”, quase teve que ir à justiça para receber o que lhe era devido. Eu pergunto: esse tipo de gente pode se considerar cristã? Estabelecendo uma relação de quase-escravidão com uma empregada, e mais, uma irmã em Cristo? É isso que é fazer a vontade de Deus? É assim que Jesus ensina que devemos tratar o próximo?
Quer outro exemplo, que talvez explique este primeiro?
Quando pessoas assim, de forma farisaica, oram a Deus para que “tire as pessoas más do governo e coloque outras de acordo com o coração de Deus”, parecem preocupadas com os destinos da nação, mas na verdade querem dizer: “Deus, tira esse governo do poder porque nós não gostamos dele; coloca no poder uma pessoa de acordo com o nosso coração, conforme a nossa ideologia política e econômica, de acordo com o que pensa a nossa classe social”. Essa ideologia político-econômico-social é a mesma por trás da alegada crise institucional atual. Esses que foram às ruas protestar contra o governo, com a desculpa de não tolerar mais corrupção, são o mesmo tipo de gente que
elegeu e apoiou uma pessoa do naipe de Eduardo Cunha, dito evangélico que usou uma igreja para receber propinas milionárias. Esses cristãos, que dizem que o governo mentiu, apoiam gente como Silas Malafaia, que comemorou nas redes sociais a eleição de Cunha como presidente da Câmara, dizendo aos quatro ventos “agora vão ter que nos engolir”. Mas agora cinicamente diz que nunca o apoiou, agora que o deputado “evangélico”, que (diziam) “vai transformar a nação”, cai em desgraça e em descrédito. Pessoas assim não desejam que se cumpra a vontade de Deus sobre a nação. Eles querem que se cumpra a sua própria vontade. 
No fundo, aqueles cristãos, como se fossem banqueiros, industriais e grandes empresários, não suportam ver no governo um operário, um metalúrgico, ou uma mulher. Lembra da definição crítica de “ideologia”? Ela fala de “relações de dominação”. Essas relações de dominação não são só de uma classe (a burguesia, a que essas pessoas pensam pertencer) sobre outra (os operários, empregados, funcionários e assalariados em geral, classe a que, na verdade, elas pertencem)! E que é a razão de não aceitarem um operário, mas em massa irem na onda de um Collor ou de um FHC, bem-nascidos, com pedigree, estudados, falam vários idiomas. Mesmo que seus governos tenham sido desastrosos, com inflação de dois dígitos, desemprego idem, e pasmem, preço da passagem aérea literalmente nas nuvens. Na época desses ilustres governantes, nossos irmãos mais abastados também viajavam de avião. É verdade que gastavam relativamente mais. Mas, em contrapartida, não dividiam as aeronaves com pessoas de classes “mais baixas”. Eles, no fundo, querem a volta desses tempos gloriosos. Mesmo que com inflação alta e desemprego idem. Presidente operário, operário dividindo aeroporto? Nem pensar.
A relação de dominação também acontece no plano racial. Darei apenas um exemplo para você pensar. Por que nas novelas as empregadas domésticas são sempre negras? Sabemos que as emissoras de TV são propriedade de grandes grupos burgueses, e como tal, veiculam a sua visão de mundo, que inclui, dentre outras pragas, o racismo. E também o preconceito contra evangélicos, que mesmo assim continuam fiéis à sua programação... se é menos nas novelas, é muito em relação ao jornalismo”. Tem irmão aí que acredita mais no Jornal Nacional do que nas epístolas paulinas.
A dominação social repercute nas igrejas. Via de regra, pobres não ocupam cargos de liderança. Geralmente, diáconos e chefes de departamentos são pessoas que depositam os envelopes mais gordos no gazofilácio. É importante manter os bacanas na igreja. Você é inteligente e já percebeu o por quê disso. É raro ver um pobre liderando um rico, mesmo no rebanho do Senhor. Estou mentindo?
Essa dominação também se verifica na relação homem/mulher. Por isso muitos detestam uma mulher-presidente! Dizem acerca da presidente da nação todo tipo de piada maliciosa e de mau gosto, daquelas que não se ouvia nem na extinta geral dos estádios de futebol. Deletam da sua Bíblia as ordenanças que determinam a intercessão pelas autoridades investidas de poder. Para essas pessoas, a ideologia - enquanto forma peculiar de ver o mundo e perceber a realidade objetiva - tem mais força do que a sã doutrina dos evangelhos!
A motivação daqueles irmãos não é Cristo, não é a vontade de Deus. A motivação deles é a sua própria vontade, o seu próprio desejo, o seu próprio ventre. A ideologia é a única coisa que não é deles: é da classe que os domina e da qual eles pensam fazer parte. E suas orações refletem suas motivações.
Depois daquele dia citado no primeiro parágrafo, tenho procurado gastar as horas correspondentes na leitura de um bom livro e, melhor ainda, da Bíblia Sagrada. Quero ter outro tipo de motivação para minhas orações. A vontade de Deus, já que a minha própria vontade não vale um tostão furado.

Qual é a sua motivação?

Quem pode discernir os próprios erros? Absolve-me dos que me são ocultos. Guarda também o teu servo da arrogância, para que não me domine; então, serei íntegro e ficarei limpo de grande transgressão. Que as palavras da minha boca e a meditação do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, minha rocha e meu redentor! (Salmo 19:12-14).


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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Minha última postagem...

... acabou sendo uma surpresa para mim, pelos comentários que surgiram depois. Para quem não se lembra, era sobre o posicionamento do cristão frente a um governo corrupto. Levantei a questão de que devemos nos posicionar contra TODO governo corrupto, e não apenas contra aqueles de quem não gostamos. Daqueles de que gostamos, não falamos nada, e até invocamos Romanos 13:1-2.
Tudo bem que alguns não concordem com minhas posições. OK. Isso faz parte da democracia. Agora, as insinuações e acusações é que são algo a ser considerado.
Me chamaram de comunista, porque acham que eu defendo um governo supostamente “de esquerda”. Primeiramente, eu não me lembro de nenhuma inverdade. Naquele post, falei sobre a repentina ousadia de certos líderes religiosos, travestidos de profetas e de paladinos da ética, da justiça e da transparência, que em outros tempos de roubalheira, caixas-pretas e arbitrariedades governamentais, entravam mudos e saíam calados. É mentira?
Alguém disse, num comentário que veio todo truncado (problemas do provedor do serviço, não tenho nada com isso), que a Igreja se posicionou sim contra “coisas erradas”. Não me lembro. A não ser muito recentemente, de fato há pronunciamentos e manifestações contra a união civil de homossexuais, contra o aborto, e (acho) contra a liberação de drogas. Isso é recente. Não me recordo de, algumas décadas atrás, nenhuma mobilização digna de nota contra a adoção do divórcio no Brasil. Sim, meus jovens amigos, a lei do divórcio não existe desde sempre neste país. Foi criada em 1977, quando os evangélicos já representavam 
cerca de 7% da população nacional - cerca de 8 milhões de ovelhas. Mas, a grita foi muito pequena, em comparação ao berreiro atual contra “a corrupção”. Inclusive, muitos líderes religiosos depois “se beneficiaram” dessa lei, estando hoje já no terceiro ou quarto casamento.
Em segundo lugar, me chamam de comunista, mas esse pessoal nem sabe o que é comunismo. Muito menos socialismo. A principal prova disso é que, na última eleição presidencial, os evangélicos em massa apoiaram, fizeram campanha, cederam o púlpito, à candidata Marina Silva, que herdou a vaga depois da morte de Eduardo Campos, pelo partido... socialista brasileiro. Creio que muito pouca gente se deu ao trabalho de ir lá no site do partido e pelo menos conhecer o programa e estatuto, isto é, a diretriz do que eles fariam, caso fossem eleitos. Se o fizessem, talvez muitos ficassem espantados de ver ali os principais pontos de governo, aliás, comum a todos os partidos socialistas:
- aparelhamento da máquina estatal, com a colocação, nos postos-chave do governo, de membros do partido ou a ele ligados, como forma de implantar um programa socialista;
- criação de comitês consultivos, à moda dos “sovietes” da antiga URSS, espalhados por todo o país;
- reforma agrária radical, com a tomada de terras da União e aquelas consideradas improdutivas, para repasse de sua propriedade aos chamados “sem-terra”;
- liberação das drogas (descriminalizaçã0), começando pela maconha, como forma de acabar com o tráfico;
- liberação e legalização do aborto, como forma de “libertar” a mulher;
- apoio às minorias, em especial ao movimento LGBT, e a legalização da união civil homossexual;
- e muitos outros temas polêmicos.
Evangélicos em peso votaram na representante desse programa de governo socialista. E me acusam de comunista...
Cada um vote em quem quiser, apoie quem quiser, dê o púlpito a quem quiser. Só não venha depois, como alguns, dizer que “não tenho nada com isso, eu votei no outro candidato”. Que palhaçada. Quando alguém me diz uma asneira dessas, eu retruco: “a culpa é sua sim, se você me apresentasse um candidato melhor, quem sabe a atual presidente fosse derrotada”.  Não vou me alongar muito nesse assunto.
Talvez por isso alguns tenham se sentido ofendidos quando eu disse que muitos líderes religiosos fazem o papel de arautos da classe dominante, e por isso tenham se calado quando estavam encastelados no poder os seus representantes diretos: empresários, militares, banqueiros. Uma classe que muitos invejavam, e da qual gostariam de fazer parte. Por isso foram, se não coniventes, pelo menos omissos, quanto aos seus desmandos, Por isso não se ouviu nenhum pio - ou melhor, para sermos justos, se ouviram pouquíssimos e baixíssimos pios, em relação ao tamanho do rebanho - contra a corrupção, os “maus costumes”, a falta de ética e transparência, durante décadas. O caso do divórcio que citei acima.
A única explicação para a grita geral destes últimos dias é essa. Os líderes têm as suas preferências políticas, ideológicas, e partidárias. Não existe esse negócio de “não tenho preferência”, “não gosto de política”, “não sou influenciado”. Balela.
Agora, é óbvio que a corrupção deve ser combatida sim. Roubalheira, falta de ética, desvios para contas na Suíça, tudo isso deve ser averiguado e os responsáveis, punidos com rigor. No governo e na oposição, os ratos de agora e os de ontem também, porque a corrupção não foi inventada semana passada, mês passado, ano passado. Independe de partido ou posição no espectro político. Punição a todos, não apenas para aqueles de quem eu não gosto.
E para encerrar esse assunto, de direita, esquerda, capitalismo, socialismo, comunismo, neoliberalismo, social-democracia, parlamentarismo, bi-cameral ou unicameral, quero dizer que nenhum sistema de governo funcionará de modo que agrade a todos. Sempre haverá descontentes. Porque os governos sempre serão falhos, sempre apresentarão pontos fracos, simplesmente porque são produtos da mente humana, caída, pecaminosa. Desde que Adão optou por agradar a si mesmo, à sua mulher e à sugestão da serpente satânica, manifestou seu voto contra o governo de Deus. Por isso Deus disse que não contenderia com o Homem para sempre (Gênesis 6:3). Este pronunciamento marca o início do governo humano, e com ele, a necessidade de julgamentos periódicos, posto que a humanidade, de tempo em tempos, alcança um nível tal de corrupção que é necessária a intervenção divina.
Foi o que aconteceu no dilúvio, e é o que acontecerá muito em breve, não com um novo dilúvio (porque Deus prometeu que não destruiria a Terra com outra inundação, Gênesis 9:11) mas pelo fogo. Desde Adão, os homens são rebeldes, e assim todas as suas realizações. Todas as suas obras são más (Isaías 59:6; João 3:19), e entre elas estão também as artes (sobre as quais falaremos um dia desses, quem sabe), as ciências (de que temos falado e a que voltaremos em breve), e as leis, sistemas jurídicos, sistemas econômicos, formas de governo. O reflexo desses governos mundanos é a rebeldia das nações, que são nada mais do que ajuntamentos humanos (veja mais aqui). O Salmo nº 2 é a declaração de independência das nações, da qual Deus zomba. A partir do verso 6, Deus anuncia qual é o único e verdadeiro governo justo e perfeito - aquele onde o Seu Filho é o cabeça.
Como os homens não querem, serão julgados por essa desobediência e insubmissão. Nem assim eles se arrependem: leia Apocalipse 16:11; 13:2 (o poder terreno); 17:12-14 (os homens caídos entregam todo o poder a Satanás). Não é por acaso que o número de besta é um “número de homem”!
Veja que isto não é um mero acaso. A Bíblia fala do governo de Deus em contraste com o dos homens, no começo (Gênesis), no meio (Salmos) e no fim (Apocalipse)!
É por isso que é inútil discutir que sistema é o melhor, qual modelo é o mais justo. Todos são injustos, todos são igualmente ruins, porque nenhum deles tem o Filho de Deus como chefe.
E como Deus é claro ao dizer que o tempo desse governo de Cristo sobre a Terra ainda não chegou, tudo o que temos que fazer, como Igreja, é pregar o Evangelho para salvar pessoas, para levar pessoas a ingressar no Reino de Deus, e parar de tentar influenciar governos mundanos, já condenados, fadados à destruição total!
É parar de ficar defendendo este ou aquele modelo humano, porque gostamos mais deste ou daquele candidato, porque este ou aquele defende nossos interesses. Porque queremos “governar em nome de Deus”... Volto a dizer: combatamos a corrupção, em todos os níveis, em todos os governos. Dos que detestamos e dos que gostamos! Mas isto deve ser feito em nível de cidadão, não de Igreja. Não é este o papel da Igreja. O papel do cidadão é votar, fiscalizar, exigir o cumprimento das leis e a prestação de contas. De todos os governos, não só dos que detesta. Dos que admira também, isto é ser justo. Quer ser ético? Seja então, mas denuncie todas as injustiças. Como cidadão.
Se bem que nossos irmãos que viviam em Roma no primeiro século tinham como chefe de governo os Césares. Apesar disto, ainda não se descobriu nenhum documento arqueológico que informe sobre uma passeata ou manifestação pedindo inpeachment de Nero ou de Calígula. Eles estavam preocupados com outras coisas.
O papel da Igreja é pregar o Evangelho, dar testemunho de Cristo. O cidadão pode transformar a sociedade com seu voto e sua atuação política (para melhor ou para pior); a Igreja transforma a sociedade pelo Evangelho. O cristão tem direito de entrar para a política e contribuir com o País com seu trabalho, sua dedicação, sua lisura. Não sei se é bem isso que a “bancada evangélica” tem feito ao longo dos anos... É para ser “sal”, e não para se beneficiar, para se promover, para aparecer. Mudar o país pelo exemplo, isso é para o cidadão. Governar este mundo - agora - não é papel da Igreja. Para a Igreja, pregar, pregar, pregar - e viver - o Evangelho. As nações não serão transformadas a esse nível pela Igreja. As nações, com seus sistemas e políticas, estão destinadas ao Armagedom - querer mudar isto é ir contra a Palavra de Deus.

Não confunda a vontade de Deus com seus gostos pessoais. Não confunda sua opinião pessoal, política ou ideológica, com o Reino de Deus.

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