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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Roupa nova para velhas heresias (2)

Os ebionitas
Nós já vimos antes que desconhecer a História é correr o risco de repetir os mesmos velhos erros. Vimos rapidamente como Hitler deu um grande passo rumo à derrota na Segunda Guerra Mundial, ao tentar conquistar a Rússia e ser pego pela vastidão do território e pelas agruras do inverno russo, assim como Napoleão mais de um século antes.
Vimos também como velhas heresias e “moveres” se recobrem de roupas novas, a fim de enganar os incautos e os que insistem em permanecer na limitação de conhecimento e de discernimento. Assim que vimos como o montanismo começou com boas intenções, mas errou ao considerar a inspiração interior e as manifestações sobrenaturais mais importantes que a própria Palavra, caindo no fanatismo e por isso, no descrédito. O que acaba contribuindo, infalivelmente, por desacreditar a Bíblia e suas promessas perante o mundo incrédulo.
E da mesma forma, isto é, olhando para trás, podemos ver outros ensinos que um dia cresceram dentro da Igreja e acabaram por criar vários problemas, ao misturar a Palavra de Deus com interpretações tendenciosas de homens equivocados.
O movimento chamado “ebionismo” foi um desses, cujos ecos ainda podemos ouvir depois de 20 séculos. O ebionismo (do hebraico, evyonim, “pobres”) pregava que Jesus de Nazaré não teria vindo abolir a Torah como prega a doutrina paulina. Ensinavam que tanto judeus como gentios convertidos deveriam obedecer a todos os mandamentos da Lei de Moisés, incluindo a guarda do Sabbath e a circuncisão (os gentios que se convertessem a Deus deveriam ser circuncidados).
Conforme relatam Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica, 3:27) e Epifânio de Salamina (Panarion 30:3:7 e 30:13:1-2) os ebionitas usavam um único evangelho incompleto e truncado (chamado de “Evangelho dos Ebionitas”). Considerado como sendo o Evangelho de Mateus escrito em hebraico, era de fato significativamente menor do que o Evangelho canônico de Mateus, originalmente escrito em grego. Este evangelho era também chamado de “Evangelho segundo os Hebreus”, e também é citado por Jerônimo.
As origens do ebionismo parecem ser antigas. O choque entre os cristãos “judaizantes” e os cristãos gentios já é aparente no livro de Atos, onde a discussão entre os dois grupos obriga à convocação da assembléia dos apóstolos (Atos 15 ). Em Atos 21:20-21 onde consta que havia em Israel milhares de judeus que criam em Jesus Cristo e eram “zelosos observadores da Lei”. Houve confronto, pois os judaizantes entendiam que Paulo mandava desobedecer a Lei. Eu entendo que foi esta a razão de Paulo haver feito o famoso “voto em Cencréia” (que muitos cristãos ainda hoje usam para justificar o “fazer votos”). Penso que Paulo, como judeu, até podia fazê-lo, e somente o fez para mostrar aos judeus que ainda era judeu. Nós não, não somos judeus e não precisamos “fazer votos”.
Voltando à História, os judeus cristãos de Atos 15:1 e Atos 21:20 não eram ainda chamados ebionitas (esta denominação somente começou a ser usada mais tarde), mas na prática já eram ebionitas. A briga entre judaizantes e os anti-iudaizantes aparece também em Gálatas 2:11-21, onde Paulo relata que Cefas (Pedro), temendo a rejeição dos judeus, ainda seguia seus costumes, talvez por influência de Tiago e por sua vez influenciando a Barnabé. Paulo não concordava com isso e repreendeu a Pedro duramente. Talvez em razão desse episódio, há indícios de que os ebionitas reverenciavam Tiago como exemplo a ser seguido.
No fundo, os ebionitas criam que Cristo nada mais era do que um “novo Moisés”. Negavam sua preexistência, sua encarnação e seu nascimento virginal. No conceito ebionita, embora Jesus fosse o Messias, era puramente humano. Somente no batismo Jesus foi ungido como Messias, ou seja, adotado como Filho de Deus, e sendo descendente de Davi, tornar-se-ia o rei do povo de Israel e seu último grande profeta. Em sua opinião, Jesus era um judeu fiel, piedoso, profeta e mestre inigualável. Já Paulo de Tarso teria sido um apóstata da Lei e não foi um verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo; as Escrituras Sagradas para eles eram o somente o Antigo Testamento e o seu já citado Evangelho, que contém o núcleo da doutrina ebionita. Com base em Mateus 5:17-19, onde consta que Jesus Cristo disse que não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas sim cumpri-la, deduziam que a Lei nunca será abolida, e que por isso devemos obedecer a todos os mandamentos da Lei. Em Mateus 7:21-23 Jesus Cristo diz que nem todos os que crêem Nele entrarão no Reino de Deus, mas sim somente aqueles que fazem a vontade de Deus, e que muitos que pregam o evangelho e fazem milagres em nome Dele ficarão de fora, porque praticam a iniqüidade. Isto explica por que este evangelho era o único aceito pelos ebionitas.
Há quem diga que os primitivos cristãos eram todos “ebionitas” (“pobres”), como Epifânio (LC, xxx, 17), Orígenes (LC, ii, 1), e outros. Muitos cristãos primitivos achavam bom serem pobres, pensando em Lucas 6:20, 24: “Felizes os pobres, pois a eles pertence o reino de Deus.... Ai de vós, ricos! Pois já tendes recebido vossa consolação”. Mas alguns estudiosos modernos distinguem os ebionitas de outros grupos como, por exemplo, os nazarenos. Jeffrey Butz, em The Secret Legacy of Jesus, diz que ebionitas e nazarenos se confundiam. “Depois da devastação da Guerra Judaica... não há qualquer demarcação clara ou transição formal de nazarenos para ebionitas; não houve mudança repentina de Teologia e Cristologia” (pg. 137); “Os escritos de pais apostólicos tardios falam dos nazarenos e ebionitas com se eles fossem grupos judaicos diferentes, mas estão errados. Os nazarenos e os ebionitas eram o mesmíssimo grupo...” (op.cit., pg 137).
Os “pais da igreja” diziam que eles eram literalmente pobres, porque tinham pensamentos “pobres” a respeito de Cristo. Por fim, desprezado por cristãos e judeus, o ebionismo constituiu uma ramificação separada e organizou sua própria literatura religiosa.
Onde queremos chegar com tudo isto?
Que por não conhecermos a história da Igreja, corremos o risco de repetir os mesmo erros. Hoje mesmo podemos ver vários indícios de que o ebionismo está vivo e muito bem de saúde. Até comprou uma roupa nova, com a qual costuma comparecer aos cultos toda semana. Duvida? Então veja se estou exagerando.
Quantas denominações hoje em dia já não desenvolveram sua teologia particular, através de “seminários”, editoras, gravadoras de músicas, e até mesmo canais de rádio e TV? Auto-suficientes, numa espécie de feudalismo evangélico, produzem tudo de que necessitam, alimentando pequenos erros que quando são apenas figueiras sem frutos, cheias de folhas, ainda vai... O pior é quando os frutos nocivos começam a cair em outras searas e espalhar o veneno. Comunidades fechadas em si mesmas são um indício de sectarismo; no caso, ebionismo. Olhe bem o terreno onde está pisando.
Elementos judaicos no culto – hoje, em algumas congregações e templos evangélicos, você pensa que está numa sinagoga. Bandeiras de Israel, “sacerdotes” usando tallit e kippah, “levitas” tocando shofar. Não raro, um grande destaque é dado a um menorah de plástico dourado. E alguns vão além, blasfemando de Deus ao fazer uma réplica ordinária da Arca da Aliança, tão vagabunda e sem valor que qualquer um pode tocar sem o perigo de ser fulminado, como aconteceu com Uzá e a Arca verdadeira (I Samuel cap. 6). Já falei sobre isto também aqui.
Outros templos são mais bizarros. Você não precisa nem entrar para pensar que está num ambiente judaico: eles pretendem ser a cópia do templo “de Salomão”. Uma cópia inexata, para ser honesto, pois não somente a fachada e os principais elementos arquitetônicos são copiados do templo “de Herodes” (e não do “de Salomão”, como pensam). E mesmo que fosse esse o templo construído por Salomão, as dimensões estão totalmente fora das especificações... é ou não é uma tentativa tosca de reviver o Judaísmo? Não contentes em vender miniaturas de objetos de Israel, azeite de oliva e água do Rio Jordão, querem reconstruir um templo que o próprio Senhor declarou que não ficaria pedra sobre pedra (Mateus 24:1,2). Indo na contra-mão de Deus, será que esse pessoal nunca ouviu falar do que aconteceu a quem reconstruiu o que Deus destruiu? Por favor, leia Josué 6:26 e I Reis 16:34.
Atos proféticos - outra tentativa de reviver “os dias gloriosos” dos profetas do Velho Testamento, quando a Igreja ainda era um mistério. Era uma época em que os profetas eram instruídos por Deus a fazer certas coisas para ilustrar uma realidade espiritual. Como jogar sal (II Reis 2:21, Ezequiel 43:24), enterrar um vaso de barro (Jeremias 32:14), derramar líquidos (Josué 6:20, I Samuel 7:6; 10:1; I Reis 18:33 etc.). Isso não nos autoriza a tentar provocar acontecimentos com esses “atos”! Tudo aquilo servia para mostrar o que Deus iria fazer - e agora já fez. Um judeu que visse a “sombra” das coisas futuras naqueles objetos e gestos era consolado. Mas nós já temos a realidade que a sombra representava: não precisamos mais da sombra, e sim da Realidade que já chegou. Os antigos profetas anunciavam Jesus para que o mundo o reconhecesse quando Ele viesse, mas os “atos proféticos” das igrejas atuais não traduzem a imagem de Cristo. Quando achamos que devemos obedecer às vozes que ouvimos e às visões que temos, nos mandando fazer coisas que Jesus não mandou, diminuímos o Filho de Deus. Quando as “revelações” e o “novo de Deus” se sobrepõem às palavras do próprio Cristo, estamos fazendo Dele só mais um profeta a quem podemos escolher seguir ou não, como os ebionitas. De novo: os profetas bíblicos falavam o que Deus mandava dizer; os “profetas” de hoje dizem para Deus fazer o que eles querem. Não obedecem a Jesus. E por isso adotam práticas judaicas: ungir objetos, lugares e pessoas é apenas mais um desses erros grotescos, sobre os quais já falamos aqui.
Essa coisa da unção, por sua vez, dá margem à ressurreição de um sistema já revogado, que é a hierarquia sacerdotal: levitas, sacerdotes, sumo-sacerdote. Para os judeus era comum ter uma pessoa que entrava no Santo dos Santos uma vez por ano e falava diretamente com Deus. Mas quando os discípulos, ainda tendo isto em mente, perguntaram a Jesus quem deveria ocupar os cargos próximos a Ele no Reino vindouro, Ele cortou pela raiz: “Não será assim entre vós” (Mateus 20:26). A carta aos Hebreus – ou seja, aos judeus – mostra exaustivamente que esse esquema acabou; mas os ebionitas dizem que não, que o velho sistema ainda está vigente com sua hierarquia, e ainda acrescentam outros cargos: agora não temos só bispos, temos também bispa, apóstola, bispo-primaz, e até patriarca. Veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e mais um monte. Digite no Google e confira.
Outro costume já extinto há pelo menos dois mil anos, mas que insistem em reviver – pelo lucro que dá a uns poucos espertos – é a prática do dízimo e seus correlatos, as ofertas alçadas e de primícias. Mas como isso está ficando muito comprido, prefiro abrir um novo tópico mais à frente para tratar especificamente desse assunto.
Por ora, ilustro dizendo que tenho amigos que defendem o dízimo com base em Mateus 5:17... ebionitas!
Para mim isto é judaísmo infiltrado na Igreja, revivendo coisas que já foram abolidas. O que cabe à Igreja dos gentios está escrito duas vezes na Bíblia: em Atos dos Apóstolos cap. 15:20, 29 e cap. 21:25.

Acatelai-vos do fermento dos fariseus!

Fonte 1; fonte 2; fonte 3; fonte 4; fonte 5; fonte 6

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sábado, 3 de setembro de 2011

Mais vacas sagradas evangélicas

Ciro Zibordi conta sobre um pastor que percebeu uma nuvem negra sobre certa cidade, e “resolveu, num ‘ato profético’, percorrer a cidade inteira de carro, rua por rua, derramando azeite por onde passasse! Já pensou se a moda pega, e alguém queira ungir Nova York, Londres, Rio de Janeiro e São Paulo?! Haja azeite!”, completa Zibordi.
Em certa igreja
- continua - era dia de eleição, e “o pastor resolveu fazer um ‘ato profético’. Enrolou-se na bandeira do Brasil, ‘profetizou’ vitória sobre a nação, ungiu a bandeira e depois pediu que os presentes ‘profetizassem’ bênçãos para o Brasil, representado pela bandeira”. Resultado: isso durou mais de uma hora e não houve tempo para a exposição da Palavra. Não é isso que o Diabo quer? Roubar tempo e energia dos homens para que não dêem ouvidos à Palavra?
O “ato profético” consiste em fazer um ritual com certos elementos simbólicos, de forma que Deus fica obrigado a repetir e realizar, para atender aos adeptos dessa prática. Só que os indígenas fazem a mesma coisa desde a idade da pedra: tentam controlar os deuses com simbologias e representações acompanhadas de orações e sacrifícios. Satanistas e adeptos da Wicca fazem o mesmo. As pessoas que se vestem de branco no ano novo, vão à praia e dão três pulinhos nas ondas estão fazendo um “ato profético”.  Hoje tem tanta coisa chamada de “ato profético” que em nada diferem das simpatias, macumbas e afins. Simpatias gospel que vêm acompanhadas do famoso “se você não tiver fé, não irá acontecer”, uma ótima desculpa para o caso de o “ato profético não funcionar”.
Então talvez o pessoal de Toronto não tenha fé suficiente. Lá a Parada Gay é a segunda maior do mundo, só perdendo para a de São Francisco. O pessoal de Toronto precisa rir menos, fazer menos “atos proféticos” e evangelizar mais.
“Ato profético”, no fundo, não passa de feitiçaria gospel para que Deus faça o que as pessoas querem. Acham estarão “movendo as mãos de Deus”, se esquecendo de que, independente da profecia ou do ato, o que foi revelado por Deus acontece. Profecia é informação dada por Deus sobre o futuro. O Senhor revela os seus desígnios aos seus. Isso é fato. Mas nunca a Bíblia diz que Deus age de acordo com a vontade do homem. O que Deus mandava os profetas fazerem servia de ilustração a respeito do que havia de ocorrer, e não o contrário. Os profetas quebraram a botija, se deitaram de lado, se casaram com prostitutas, e muitas outras coisas, mas não para que Deus “mudasse a história” e fizesse de acordo com o determinado no “ato profético”, e sim para revelar ao povo daquela época a sombra das coisas que viriam!
Mário Persona diz que “todas aquelas coisas serviam para mostrar o que Deus iria fazer e agora já fez. Um judeu que visse a ‘sombra’ das coisas futuras naqueles objetos e gestos da antiga adoração judaica podia ser consolado. Mas hoje que temos a realidade que aquela sombra representava, não precisamos nos ocupar com a sombra, mas com a Pessoa que já chegou. Um exemplo: quando você vê a sombra de uma pessoa querida aparecendo no portal de sua casa, você se levanta da poltrona e se alegra. Mas assim que aquela pessoa passa pela porta você corre para o abraço. Mas o que você abraça, a sombra?! Só se estiver louco! Você deixa a sombra pra lá e abraça a pessoa. O cristão não precisa de ‘recursos audiovisuais’ para adorar em espírito e em verdade. Os judeus precisavam desses adereços e aditivos, como um templo visível, vestes, instrumentos musicais etc”.
Jesus curou doentes, ressuscitou mortos, acalmou o mar, proporcionou a pesca milagrosa, transformou água em vinho e muitas outras coisas não como “ato profético”, mas para manifestar o poder de Deus. “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30,31), não para que saíssemos aplicando lodo nos olhos dos cegos!
Mas eles acham que não. O que se fazia na idade da pedra sim, era feitiçaria, fruto de mentes ignorantes e supersticiosas. A macumba e as simpatias também ficaram para trás. Hoje, a “igreja” alcançou um nível espiritual muito profundo e elevado (é de propósito mesmo, para ilustrar a confusão em que vive o “povo de Deus”), de modo que o que se faz nas igrejas dos tempos atuais “movem as mãos de Deus por meio de atos proféticos” e representações acompanhadas de muita oração e jejum.
Os profetas do Antigo Testamento realizavam atos simbólicos, para ilustrar os atos que Deus iria realizar, pois eram coisas que Ele determinara na Sua presciência. Mas os “atos proféticos” das “igrejas” projetam os desejos e vontades de seus “líderes”, “apóstolos”, “patriarcas” e outros títulos de nobreza. Enquanto os profetas bíblicos falavam o que Deus mandava dizer, os profetas de hoje dizem para Deus o que Ele deve fazer. Fazem de Deus seu escravo. Mas como Deus não é escravo, não é em Deus que eles crêem.
A iniciativa em Newark – de que falamos aqui – foi liderada pelos pastores Bernard Wilks e Ed Silvoso, e pretende encontrar pelo menos uma pessoa para andar em cada uma das milhares de ruas das cidades fazendo orações. Ambos são membros da Coalizão Internacional de Apóstolos (ICA – International Coalition of Apostles), que teve início em 2001 com a “Nova Reforma Apostólica”. Os chefes dessa “reforma” são C. Peter Wagner e Cindy Jacobs, que defendem a chamada teologia dominionista, a qual diz que até 2032 os evangélicos irão dominar o mundo.
No Brasil também existe “Conselho de Apóstolos”, formado por Neuza Itioka (Ministério Ágape Reconciliação), Valnice Milhomens (Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo), Jesher Cardoso (Missão Shekinah), Arles Marques (Comunhão Cristã Igr. Apostólica), Francisco Nicolau (I. Bat. das Nações), Sinomar Fernandes (Minist. Luz para os Povos), Paulo Tércio (Igr. Apost. Novidade de Vida), Alexandre Nunes (Igr. Apost. Ágape de Ubatuba), Márcio Valadão (Lagoinha), Paulo de Tarso (Igr. Apost. Betlehem), Ebenézer Nunes (Igr. Apost. Batista Viva), Mike Shea (Minist. Casa de Davi), Dawidh Alves (Minist. Tabernáculos – que nome artístico, hein? Dawidh... legal!), Luiz Scultori (Minist. Apost. Terra Santa), e Hudson Medeiros (Rede Bras. de Intercessão, Oração e Jejum); (Fonte: Pavablog). Mas toda a turma conhecida como “neo-evangélicos” faz essas estrepulias: Terra Nova, Rodovalho, Marco Feliciano, a IURD com seus despachos gospel, etc. Depois procure sobre esse povo na Internet e comprove o que andam fazendo.
Esse pessoal todo, ligado ao dominionismo, sobre quem já vimos alertando há tempos, fincou pé em várias denominações, não só as “neopentecostais”, mas também na Assembléia de Deus e nas históricas como a batista, como vimos na lista acima. O “ministério” Diante do Trono, por exemplo, da “batista” da Lagoinha: em suas raízes vemos o Instituto Christ For The Nations (“Cristo para as Nações”, do Texas). A líder do DT estudou lá e foi treinada nas técnicas e doutrinas de crescimento de igrejas, de C. Peter Wagner – que é praticamente o cérebro mundial do neopentecostalismo. Já André Valadão passou pela escola Rhema, de Kenneth Hagin.
Quando estavam estudando por lá (década de 1990) as forças mundiais do cristianismo radical – que se propunha converter o mundo todo até o ano 2000 – estavam se agrupando em torno dos Bush na chamada “direita evangélica” – leia mais aqui, aqui, aqui e aqui. Nesse movimento estão Vineyards, a igreja de Toronto, os pregadores da prosperidade e da “unção do riso”, Paul Cain e os veteranos do movimento “chuva serôdia”, os dominionistas e certas alas ecumênicas e carismáticas do catolicismo romano. Alinhados ao ecumenismo católico estão Benny Hinn e Marcos Witt, respectivamente, “líder e profeta”, e “líder de louvor”, que vêm moldando as mentes e corações de toda uma geração de crentes.
Essa turma ajudou a construir milhares de templos no mundo todo, inclusive o primeiro templo de Paul/David Yonggi Cho na Coreia. O poder econômico foi usado para levantar templos e ministérios cristãos no mundo e, em particular, na Coréia, como parte da estratégia ocidental na guerra-fria, isto é, aumentar o numero de crentes criaria um muro para combater o comunismo - pensavam os especialistas. Daí houve pesado investimento tanto para Cho quanto para o reverendo Moon (que diz ser Jesus e salvador da humanidade). Se todo esse esforço fosse para evangelização pura e sem mistura, tudo bem, mas o que vemos é o uso da máquina religiosa para gerar poder e domínio político e econômico/financeiro.
É daí que saem as “instruções dos apóstolos” para aumentar estratosfericamente o número de clientes nas igrejas; colocar milhares no estádio, rodear cidades, jogar óleo de helicóptero, até urinar nos cantos da cidade. Colocar bandeiras (costume pagão medieval, visto que muitas têm símbolos satânicos e ocultistas, que ficam lá cercando os pobres crentes, totalmente abertos à visitação de espíritos disfarçados de Espírito Santo)... tudo isto vem de seminários como Cristo Para as Nações, onde Ana Paula estudou, e do moderno dominionismo, que quer dominar toda a terra a qualquer custo. Foi com apoio técnico e aparelhagem de última geração dos amigos americanos que eles dominaram o mercado gospel; e agora também com o apoio da Rede Globo. Basta ler os créditos finais nos DVDs deles, para verificar que a parte técnica é toda “made in USA”.
Há livros publicados por esse “ministério”, onde se ensina a fazer “atos proféticos” como o que fizeram na beira do rio Arkansas. Colocaram água do rio num jarro de barro, acrescentaram sal, e depois jogaram de novo a água no rio, “declarando palavras de bênção”, como “o rio Arkansas vai alegrar a cidade de Deus, haja benção sobre este rio”, blá, blá, blá. Não satisfeitos, se deitaram no chão, dois a dois, para que o espírito (que certamente não o Espirito Santo, porque este habita nos crentes...) passasse por entre cada dupla para chegar até o rio e purificar as suas águas. Ou seja, pura macumbaria. Outro livro ensina como fazer “música profética”, pular e gritar no palco, fazer hu, hu, hu e levar a multidão a pular e fazer gestos extravagantes. Em breve falaremos da música e da adoração, se é assim ou não.
Só não sei de onde  tiraram a idéia maluca de, depois de lavar os pés, jogar a água do chulé na platéia (veja aqui se estou fofocando). Revelação instantânea? Mistério não revelado? Vai saber...
A “editora” desse “ministério” publicou um livro da “profeta e apóstola” Barbara Wentroble, que faz parte do “Conselho” presidido por C. Peter Wagner. Esses e outros “líderes” se reúnem todo ano para “definir os rumos do mover de Deus”. Eles chamam isto de “távola-redonda” e em alguns sites associados a eles há figuras de cavaleiros medievais. Há “revelações” de que veio anjo com taça de ouro, palavra profética revelando qual a melhor data para as tropas entrarem no Iraque, profecia dizendo que a rota da seda seria dada aos crentes e outros absurdos. Na Antiguidade, a “rota da seda” era o caminho por onde vinha a valiosa seda chinesa para os mercados europeus passando pelo Afeganistão, Irã, Iraque e Síria, ou seja, o tal espírito disse que daria “as riquezas das nações” contanto que fizessem na data certa a guerra no Iraque...
Eu termino dizendo que não há na Bíblia nada que autorize a Igreja do Novo Testamento a rodear cidades, ungir bandeiras, quebrar botijas, jogar sal em rios, dar tiro no diabo (aqui tem o vídeo), derramar vinho em encruzilhadas, tocar shofar... nada disso adianta nada, não muda nada, não altera a vida das pessoas, não muda os rumos da nação, doa a quem doer.
O que muda a vida das pessoas e os rumos da nação é o que Jesus ordenou à Igreja: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:19,20).
E isto para mim basta.
Mas se você quiser ver mais sandices, clique aqui, aqui, aqui e aqui. 
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sábado, 27 de agosto de 2011

As vacas sagradas evangélicas 3

Na cidade americana de Newark, em 2008, um grupo de voluntários se dedicou a pedir a Deus que cuidasse da cidade. Segundo a Harvest Evangelism, ministério que organizou a campanha, 100% da cidade foi visitada pelo grupo, que se intitula “Pray For Newark” (“Oração Por Newark”). Em março de 2010, as mais de mil ruas tiveram seu primeiro mês sem homicídios desde 1966: resultado da intervenção divina?
Mas no final do ano um corte de despesas levou à demissão de 167 guardas municipais. O resultado: até o meio deste ano,  segundo a rede de TV CBS os homicídios cresceram 71%, os tiroteios 29% e o roubo de carros quase 40%. Os resultados alegados pelo “Pray For Newark”, de repente, parecem ter evaporado.
Certo pastor deu um depoimento curioso em seu site. Afirma que o Espírito Santo lhe disse, segundo Jeremias 19, para ir à câmara de vereadores da sua cidade, fazer uma convocação de arrependimento. Segundo diz, Deus queria um profundo arrependimento na vida dos vereadores e na cidade, e caso não fosse atendido, Deus iria quebrá-los como o profeta quebrou uma botija em Jeremias 19:11. Fizeram uma oração e quebraram a botija, como Jeremias.
Passado algum tempo, um grupo de pastores foi ao presidente da Câmara e “entregou a mesma palavra que o profeta Jonas entregou ao Rei de Nínive”, chamando-o e à cidade ao arrependimento, para que o juízo não viesse e sim a bênção. Entregaram a chave da cidade para Jesus e confessaram os pecados da cidade; mas, “como não houve arrependimento nem do Presidente da Câmara, nem dos vereadores, nem da cidade, o juízo entrou em operação”: promotores começaram a investigar vereadores e alguns foram presos, uns afastados e outros perderam o mandato. Chuvas e tempestades causaram rachaduras no prédio da Câmara, a ponto de ser interditado. A Câmara foi “quebrada”, diz relato do pastor; a chuva arrancou, fez cair ou torceu muitas árvores da cidade, mostrando as suas raízes - Deus disse que estava agindo com juízo para trazer a luz as raízes de iniquidade.
O pastor conclui que “o ato profético realizado trouxe a vontade de Deus à existência. Seria bênção com a prática de arrependimento ou juízo com a prática de negligência ao arrependimento. Como não houve arrependimento, veio o juízo”.
Ciro Zibordi relata que “uma famosa intérprete do chamado mundo gospel, num ‘ato profético’, andou como um animal quadrúpede em cima de um palco (foto ao lado), como se fosse uma leoa. A mesma cantora e seu grupo, em um mega-show, no Rio de Janeiro, apresentou um deprimente espetáculo em que um rapaz representou o Diabo, enquanto ela o pisava ‘profeticamente’ ... acompanhada de dançarinos que poderiam, sem exagero, fazer parte dos shows da Madonna, da Britney Spears ou da Beyoncé. Há alguns anos, seguidores de um grupo ‘evangélico’ resolveram, também num ‘ato profético’ ao extremo, escalar e ungir o Dedo de Deus, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Segundo eles, esse pico é um chamariz da presença de Deus. Além disso, bem próximo dele há outro que, de tão parecido, chega a se confundir com ele — a Agulha do Diabo, que também precisaria ser ungida. Com isso, declararam ‘profeticamente’ que o Rio pertence ao Senhor e que toda ação diabólica foi quebrada!”.
Pergunta Zibordi: “Melhorou alguma coisa no Rio de Janeiro depois desses ousados ‘atos proféticos’? Do jeito que o Diabo foi supostamente pisoteado e humilhado, diante de milhares de pessoas, no mínimo ele estaria fora de combate, mas o Inimigo continua bastante atuante, não só em territórios fluminenses, como em todo o mundo. E quanto às unções do Dedo de Deus e da Garganta do Diabo, que resultado trouxeram?”
Há vários outros relatos semelhantes, cujas conseqüências são, no mínimo, inconclusivas. Não há como ter certeza de que o que aconteceu, aconteceu por causa do “ato profético”. Por exemplo, no ano 2000, houve grandes mobilizações para declarar que “o Brasil é de Jesus”, que haveria arrependimento pelos 500 anos anteriores de escravidão, corrupção e outros males, e que dali para a frente o País seria outro. Bem... de lá pra cá não sei se houve melhora. Continua a corrupção (não sei quantos mensalões de lá pra cá), a exploração econômica, a decadência moral, os crimes sexuais, o roubo... e até entre os cristãos isso tudo tem aumentado.
O que deu errado?
Segundo seus adeptos, “o ato profético é feito mediante uma profecia, ou seja, diz que algo vai acontecer e um ato demonstra tal acontecimento, vindo da parte de Deus irá acontecer. Tudo aquilo que fazemos nesse plano físico (atos ou palavras) resulta no plano espiritual. Atos proféticos são sinais que apontam para o reino espiritual que resulta no reino físico. Atos proféticos são orações representadas por atitudes e palavras. Palavras proféticas são aquelas de afirmação, de certeza do que ainda não aconteceu e conclusivas, o que difere das orações de petição, agradecimento, intercessão, batalha, etc”.  
Afirmam ainda que “Adão e Eva se cobriam com folhas de figueiras, que simbolizam a Israel que não consegue cobrir sua nudez e depois Deus os cobre com pele de cordeiro, o que simbolizava Jesus, o Cordeiro que cobre a nossa nudez, ou seja, o nosso pecado (transgressões)” - (Nota: já começou errado: se a nudez de Adão e Eva simboliza Israel, os gentios estariam isentos da condenação?...), e que “Jacó teve o seu nome mudado por Deus em uma atitude profética, como sinal, de que seria a sua descendência o povo escolhido por Deus, pois Jacó quer dizer ‘usurpador’ ou ‘enganador’ e o novo nome dele passou a ser Israel que quer dizer “Povo de Deus”. Deus mudou a identidade de Jacó e conseqüentemente mudou toda a sua história”. (Nota: Israel significa “o que luta com Deus”... continuam os erros).
Prosseguem relatando o que entendem por “atos proféticos”:
Deuteronômio 11:24-25 e Josué 1:3 e Juízes 3:13, plantas dos pés conquista os territórios. Isaías 62:10 e Números 1:52, bandeiras que demarcam os territórios como conquistados. Josué 6:4, Toque do shofar e marcha rodeando o local a ser conquistado. Êxodo 15:23-25, Moisés lança uma árvore nas águas amargas e as torna doce. II Reis 2:21, Eliseu derramou sal na cabeceira do rio, que transbordou. II Reis 4, Eliseu ordenou que a viúva pedisse vasilhas para o azeite e Deus operou um grande milagre. Malaquias 3:10-12, dízimos para se proteger do demônio Devorador e oferta para prosperar. Marcos 10:39, batizar em águas. Marcos 10:44, servir, ser submisso, ser liderado, para
liderar e governar.  Marcos 13:14, designar 12 para estar com o líder. Marcos 13:10, pregar o Evangelho em todos os lugares. Atos 6:6 e 19:6 e Hebreus 6:2, imposição de mãos. Tiago 5:14-16 e Isaías 10:27, unção com óleo (já explicamos aqui que a unção é coisa séria e a de Tiago não tem nada a ver).
Mais exemplos bizarros, quase todos tirados do Velho Testamento:
Profetizar contra os montes (Ezequiel 6:1-3), bater com as mãos e os pés (6:11), gritar e uivar (21:12); gravar marcos nas entradas da cidade (21:19), enterrar e desenterrar cintos (Jeremias 13:1-11), golpear a água com manto (II Reis 2:8,13-14), marchar gritando em círculos (Josué 6:1-20), dar voltas nos quatro cantos da cidade, contar suas torres (lugares fortes) e observar bem suas defesas (Salmo 48:11-12), deitar na terra confessando pecados e profetizando 
(Ezequiel 4:4-6); bandeiras como símbolos de uma nação ou região (Isaías 13:2, 18:3), proclamar a Palavra aos montes, vales, pedras, árvores ou animais (Ezequiel 36:1-15), lançar ou espalhar sal em pontos estratégicos para firmar pactos (Levítico 2:13; II Reis 2:21-22; II Crônicas 13:5), derramar azeite e vinho sobre lugares específicos (Levítico 8; Gênesis 35:12-14), arco e flechas, facas, espadas (II Reis 13:14-19), danças proféticas (Êxodo 16:20-21; II Samuel 6:14-16), toques de shofar (Josué 6:2-16)... e outras coisas que tornam a Bíblia um verdadeiro manual de feitiçaria! Misericórdia!!! Se quiser ver mais, clique aqui e prepare-se para sentir o estômago embrulhar. Eu senti vontade de vomitar (sobre dança profética, falarei em breve, em outro post).
Tem mais: Pedro pescou 'profeticamente' um peixe com o dinheiro na boca (Mateus 17:27), Jesus tocou os olhos dos cegos (Mateus 9:29), cuspiu diretamente nos olhos do cego e o curou (Marcos 8:23-25), ordenou que os pescadores lançassem a rede do barco para pegarem os peixes, mesmo que não haviam pego nada (Lucas 5:4-6), parou o enterro, tocou no esquife e ordenou que se levantasse o jovem morto (Lucas 7:12-15), colocou as mãos sobre a mulher encurvada que passa a ser curada (Lucas 13:13),  ordenou que os dez leprosos fossem mostrar aos sacerdotes, e nessa ida profética, foram curados na caminhada (Lucas 17:14), mandou encher de água os vasos e os transformou em vinho no casamento (João 2:7-9)... e por aí vai.
Praticamente todo e qualquer milagre é relacionado a um “ato profético”, e depois de citarem inúmeros exemplos forçados, terminam dizendo que “a Santa Ceia do Senhor é o maior ato profético da história, que representa a morte e ressurreição de Jesus”!
O espaço está acabando e vamos ter que continuar depois, mas creio que já deu para notar os exageros desse pessoal, para quem praticamente tudo era “ato profético”, e por isso é lícito fazermos o mesmo.  Só que hoje tem tanta coisa chamada de “ato profético” que não há diferença nenhuma das simpatias, macumbas e derivados. Penso que está configurada a falácia: dizer que o batismo nas águas é um ato profético e “designar 12 para estar com o líder” é profético, só pode ser brincadeira ou ignorância. Isto de ser tudo profético é a base do movimento G12, nada mais que um método para crescimento de igrejas. Citar Malaquias como amuleto anti-falência... bem, eu só peço que clique aqui,  aqui e aqui para saber o que eu penso disto. “Ser submisso para liderar e governar” é dominionismo da pior espécie.
Esses erros grosseiros não explicam o porquê do não-cumprimento, por exemplo, do que foi feito no “aniversário” do Brasil, nem por que a criminalidade voltou a aumentar em Newark. Brasília, por exemplo, deve ser a campeã em ato profético. Tem melhorado a atmosfera na capital? E no caso relatado da Câmara dos Vereadores, se eles tivessem aceito a proposta dos pastores a corrupção não teria sido revelada? O que tem a ver as árvores derrubadas na tempestade com Deus revelar as “raízes da iniqüidade”? É preciso cair uma árvore para se saber qual é a raiz da iniqüidade?
Eu penso que a Bíblia tem as respostas. A Palavra aconselha em Deuteronômio 18:22, que “Quando o profeta falar em nome do SENHOR, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o SENHOR não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele”. 
Posso até estar pegando pesado, mas precisamos destruir logo essa falácia que vai, aos poucos, se enraizando na Igreja e se transformando em mais uma “vaca sagrada evangélica”. Se demorarmos a agir nesse sentido, pode ser tarde demais, pois o que está por trás desses “atos proféticos” é grande e poderoso, como mostrarei na semana que vem.
95730

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A bolha evangélica

Há alguns anos ficou famosa a expressão “bolha econômica”, ou “bolha financeira”, e por analogia a “bolha imobiliária”. Pelo que me lembro, isto começou com a “bolha tecnológica”, em 2001, quando as empresas de tecnologia (as chamadas “ponto-com”) alcançaram grande valorização nas bolsas, particularmente na Nasdaq. Em dado momento, essas empresas foram reavaliadas e descobriu-se que não valiam tanto assim, iniciando uma quebradeira geral, quando os investidores tentaram se livrar das ações. Diz-se que a bolha então estourou.
Depois, o mercado de imóveis dos EUA originou a “bolha imobiliária”. Os americanos investiram muito em imóveis, seja para vender e assim obter alto retorno financeiro ou para uso próprio. O negócio parecia bom: com a procura por imóveis, o mercado se aqueceu e pela lei de oferta e procura, aumentando a demanda, os preços também subiram. Com o preço lá no alto, multidões faziam hipotecas, isto é, pegavam dinheiro emprestado em bancos e outras instituições, por um valor superestimado, sendo a garantia do empréstimo o próprio imóvel. Para levantar o dinheiro para emprestar às pessoas, as empresas pegavam outro empréstimo junto a bancos e investidores.
Quando em 2006 os juros começaram a subir, a classe média buscou outras aplicações e, pela mesma lei de oferta e procura, a menor demanda gerou queda nos preços dos imóveis. E assim começou um movimento inverso. Com a queda nos preços, as empresas de crédito passaram a enfrentar a inadimplência. E com a maior parte dos empréstimos concedidos ao segmento de baixa renda, o chamado mercado “subprime”, de maior risco, o calote se espalhou: as pessoas já tinham pego o dinheiro e preferiam entregar os imóveis, agora sub-valorizados, como garantia de um empréstimo que não iam pagar nunca. As empresas ficaram com milhares de imóveis encalhados, que ninguém mais queria nem podia comprar, o que, como se sabe, resultou na famosa crise do “subprime” de 2008. Se muitos investidores perdem dinheiro, logo todos estão vendendo suas ações, que inundam o mercado e se desvalorizam, e assim as bolsas despencam em massa.
Onde eu quero chegar com isso?  Esse não é um blog de Economia... calma que eu já chego lá. Pausa para respirar, e corta para outra notícia.
Pesquisas recentes mostram que o número de evangélicos sem vínculos com igrejas institucionalizadas vem crescendo a cada ano. Especialistas dizem que esses evangélicos que não seguem mais nenhuma denominação são muito parecidos com os “católicos não praticantes”, e cada vez mais evangélicos “fora da igreja” mostram seu descontentamento crescente com as instituições religiosas.
De fato, não dá mais para agüentar a mesma ladainha, as mesmas palavras vazias, as mesmas filosofias, a mesma falta de entendimento... a não-transformação, a religiosidade morna. E some-se a isso - na minha percepção, o fator maior para o esvaziamento dos templos - a eterna pedição de dinheiro, cada vez mais ostensiva e menos produtiva para o Reino, a não ser o reinozinho particular de meia dúzia de iluminados. Talvez essa seja a razão de cada vez mais pessoas optarem por seguir a Cristo e não uma denominação.
Só pode ser  porque o chamado evangelicalismo (termo que eu não gosto muito, mas pelo menos serve para diferenciar do protestantismo histórico, bíblico e evangélico) deve ter chegado ao seu limite. O surgimento de inúmeras “denominações” – se é que podemos dar esse nome a igrejolas de esquina, lojas ao rés do chão e velhos cinemas alugados, onde não raro se coloca a placa “ministério do pastor fulano” ou “comunidade disso ou daquilo” na porta do galpão – principalmente de cores neo-pentecostais, frutos de revelações particulares e visões personalistas, sustentadas com muita corrente e campanha, muita semeadura e ofertas de sacrifício, tudo isso aponta claramente para a exaustão do modelo.
A bolha evangélica estourou: as pessoas avaliaram o que está sendo oferecido na praça e perceberam que tantas igrejas, congregações, ministérios, visões e comunidades, de baixa densidade teológica, rarefeitas biblicamente, e ao mesmo tempo impregnadas de misticismo, superstições, simpatias e religiosidade barata, saturaram o mercado. Mesmo segmentos com baixa escolaridade e limitação cognitiva percebem, com o tempo, que aquilo não leva a nada, e que não há mais espaço para esse tipo de fé pequena, de rodapé, de catarse coletiva, baseada em lavagem cerebral, em “siga seu líder sem questionar”. Fato é que a própria IURD, a referência do mercado em termos de fetichismo evangélico, está perdendo audiência a rodo. É como os imóveis dos americanos: não têm valor, ninguém mais dá um tostão furado por eles. Nem por essas doutrinas de demônios com que muitas “igrejas” vêm salpicando seus féis.
As pessoas estão vendo que atos proféticos, “reteté”, novenas evangélicas sob o nome de “campanhas de oração”, retiros, encontros, pré-encontros, pós-encontros, re-encontros, desencontros, clínicas espirituais, conferência profética com a participação do “apóstolo fulano”, do “patriarca beltrano” e do “bispo cicrano”, mediante um “pequeno valor de inscrição”, com direito a cd do cantor “mequetrefe de jesus”, lambuzamento com óleo de soja dizendo que é unção disso e daquilo outro, tudo regado a toque de shofar na sua orelha... estão todos vendo que tudo isso é uma tremenda enrolação: é apenas marketing. Não adianta mais dourar a pílula, fazendo congresso de adoração com a banda “debaixo do altar”, “vizinhos do noivo”, “casa de levi” ou “leão da montanha”; nem ainda cruzeiro em alto mar para ungir as praias, rodeio gospel para destronar o bicho-carpinteiro, ou viagem profética a Israel. Aliás, tudo agora é “profético”: dança profética, adoração profética, ato profético, palavra profética... “Profético” é igual bacon, se a coisa tá sem graça, coloque bacon profético na parada, fica uma beleza. Semana que vem vocês vão ver mais um churrasco de vaca sagrada com bacon profético em cima. Enquanto isso, tome campanha para espantar o devorador, o migrador, o picador, o moedor, o ralador e o espremedor.
Até na área de Missões a coisa desgringolou: tá cheio de espertinho pedindo dinheiro para fazer missões em Londres, Roma e Nova York; mas ninguém foi chamado para o Afeganistão, o Vale do Jequitinhonha ou para a Coréia do Norte. Quero ver esses folgados evangelizando em Aparecida ou Juazeiro do Norte, dizendo em alto e bom som o que é a idolatria. Que missa de sétimo dia não leva ninguém para o céu, que Maria não salva ninguém, que o purgatório é uma balela. Vai lá, “missionário”. Eu pago sua passagem (de ônibus, lógico). Quero ver.
A fórmula se esgotou.Já falei sobre isso também aqui e aqui. Chega de picaretagem! Aí está a pesquisa para confirmar essa constatação – ninguém, em sã consciência, agüenta mais. E não adianta alguns idiotas questionarem a enquete, como sempre fazem, por exemplo, perto das eleições. Desconhecem a metodologia, a estatística, e vêm com argumentos do tipo: “nunca me entrevistaram”, “não conheço ninguém que foi pesquisado” e por aí vai. Ignoram o que seja projeção da amostra e margem de erro. Então nem discuto com esses “intelejumentos”.
Churchill disse certa vez que é possível enganar a todos durante todo o tempo, e a alguns durante todo o tempo, mas não é possível enganar a todos durante todo o tempo.
As pessoas estão redescobrindo o que é se reunir em casas, com liberdade para adorar, para estudar a Palavra, para se manifestar e, se for o caso, discordar e debater até chegar ao pleno entendimento da Palavra. E isto não tem nada a ver com rebeldia, insubmissão ou dificuldade de relacionamento, problema com autoridade, nada disso. Trata-se de descobrir a completa inutilidade de templos, sacerdotes profissionais, levitas para conduzir a música, dízimos, estruturas dispendiosas e toda uma classe de aproveitadores que fazem da religião um meio de vida.
Li esta frase há alguns anos: “No início, a Igreja era um grupo centrado no Cristo vivo. Então, a Igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia. Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, a toda a Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América, onde tornou-se um negócio...” (pastor americano Richard C. Halverson, 1916-1995). Eu gostaria de estender mais um pouco esse pensamento e perguntar no quê a Igreja se tornou ao chegar ao Brasil.
Que Deus continue a dar entendimento e direção a todos aqueles que perceberem o quanto têm sido enganados, explorados e usados por lobos em pele de cordeiro. Que aos poucos estão perdendo seus lucrativos empregos, antes tarde do que nunca.
E, para não perder o costume... doa a quem doer!
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