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sábado, 31 de janeiro de 2015

Qual é o pior, Noé ou Moisés?

Calma.
Não é que o maior profeta do judaísmo seja ou tenha sido uma pessoa pior do que o patriarca que construiu a arca. Nem vice-versa. É que o filme que retrata a história do Êxodo sob a ótica do diretor Ridley Scott consegue superar, em heresias e invenções bizarras, o outro de Darren Aronofsky, que o precedeu em alguns meses. Já muito se discutiu sobre o cinema ser uma visão artística e, portanto, poder comportar certas licenças poéticas. Eu discordo um pouco, pois o cinema, pelo menos o americano, diferentemente do europeu (que é visto por seus realizadores como obra de arte) é eminentemente um produto industrial. E como tal, segue as regras do mercado. Busca atingir certos objetivos de venda (bilheteria superar o custo de produção já é um bom sinal, e o que passa disso – merchandising, licenciamentos, vendas para TV, DVD, blu-ray etc. é mais que bem vindo). Procura atingir um duvidoso “gosto médio”, aquela parcela da audiência que podemos classificar como “medíocre” no sentido exato da palavra – a que está “na média”. E por estar nessa “média”, não tem muito senso de valor estético ou artístico, está interessada apenas na diversão, no “fast food”.
Vamos combinar uma coisa: ambos extrapolam, e muito, o texto original, ou seja, o texto bíblico foi em grande parte desrespeitado, tido como apenas uma “leve inspiração”, que serve mais para dar às pessoas dúvidas sobre o caráter e a vontade de Deus do que criar pelo menos um interesse pela Bíblia. Trata-se a Palavra de Deus como um conto de fadas, uma coleção de mitos antigos.
Vejamos. O Noé do filme, ao contrário do Noé bíblico, não entendeu direito a mensagem que Deus mandou dar ao povo de sua época. Não pregou a possibilidade de salvação a ninguém, e ainda por cima quis matar membros de sua família!
O filme procura fazer uma média com evolucionistas e com os criacionistas, ao apresentar uma versão mezzo-pepperone/mezzo-calabresa da origem da vida: Deus criou o mundo, deu corda e foi pescar, deixando que as criaturas “evoluíssem” por si próprias. 
O uso de uma pele de cobra enrolada no braço sugere que o tephilim judeu tem uma origem no mínimo estranha. Por que alguém haveria de usar uma coisa tão sinistra como os restos da criatura que semeou a destruição e o pecado na Humanidade?
Nem vou discutir muito, por ora, a questão dos “gigantes de pedra”, cuja aparição deixa a entender que os anjos caídos serão redimidos, e ainda por cima, por suas próprias boas intenções e boas obras. Veremos isso depois quando discutirmos os nefilins e os “gigantes da antiguidade”.
Em nenhuma parte da Bíblia há a menor sugestão de que Noé tenha recebido ajuda de “gigantes de pedra”, ou nephilins, ou qualquer outra coisa, para construir a arca. É apenas uma explicação para o fato de que a arca deveria ser feita rapidamente, quando, ao contrário, a Bíblia diz que ela demorou um tempão para ser concluída (obviamente para dar tempo aos contemporâneos de Noé para se converterem). Isso é, na verdade, a dificuldade para se crer que os patriarcas viviam muito mais tempo do que os homens modernos (veja mais aqui, aqui e aqui).
Tubalcaim entrando na arca por uma passagem lateral é outro absurdo, pois sabemos pela Bíblia que ninguém se salvou, fora a família de Noé. Tudo bem que Tubalcaim morre no filme, mas não há espaço para se acreditar que alguém poderia “pegar carona” na arca (como no telefilme tosco com Jon Voight no papel do patriarca, foto logo mais abaixo).
Além do mais, a família de Noé no filme tem apenas 6 pessoas. Além de faltarem as esposas de dois de seus filhos, um deles ainda foge para longe (talvez o diretor tenha misturado a história com a de Caim, ver Gênesis 4:16: Então saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden). Isto deixa no ar um monte de dúvidas, como: com quem os filhos mais jovens de Noé se casaram? Para que tenham se casado e tido descendentes, de acordo com o filme o dilúvio não poderia ter sido universal. E se não foi universal, qual a necessidade de se juntar aquela bicharada toda na arca? Em algum lugar devem ter sobrado animais, assim como devem sobrado algumas pessoas, dentre as quais as futuras esposas dos outros filhos de Noé... quanto mais se mexe, pior fica. Veja que ao se questionar a veracidade e autenticidade do texto de Gênesis você coloca em cheque TODA a Bíblia e seus ensinos centrais, como o pecado, o juízo e a redenção! A coisa é séria!
Mas “Êxodo – Deuses e Reis” consegue ser ainda pior... Moisés agindo como guerrilheiro e revolucionário, provocando atentados e guerrilhas (um afago aos judeus ortodoxos e sionistas em geral?) é totalmente contrário à Bíblia, porque ela diz que ele era “varão mui manso” (Números 12:3). Tudo bem que ele matou um sujeito, mas Bíblia também é clara ao relatar que não era um soldado, e sim um feitor de escravos que açoitava um hebreu (Êxodo 2:11-12).
A sua fúria cessou quando ele viu a presença de Deus na sarça ardente.  Mas esse episódio no filme dá a entender que foi uma alucinação decorrente de uma pancada na cabeça... Nada sobre “tirar as sandálias dos pés”, porque o lugar era santo (Êxodo 3:5).
O “deus” que aparece para Moisés como um “amiguinho imaginário” é uma piada. Tudo bem que se procurou fugir da imagem de um velho barbudo ou de efeitos especiais (como no filme “Os Dez Mandamentos”, de 1956, com Charlton Heston e Yul Brinner nos papéis principais), mas o menino deste filme de agora, além de confuso nas suas “ordens”, é muito chato.
E é risível a discussão de Moisés com “Deus” acerca de quais artigos deveriam constar da “lei”. Moisés chega a dizer que se não concordasse com elas nem se daria ao trabalho de escrevê-las na pedra!
Aliás, homens discutindo com Deus de “tu para tu” são bastante comuns em filmes – é impossível para o Homem natural aceitar ser submisso. Vimos isso no telefilme sobre Abraão, onde o patriarca, ao receber de Deus a ordem para sacrificar Isaque, grita: “Não! Isaque não!”, o que, se fosse verdade, desqualificaria Abraão como “o pai da fé”. Isso eles não conseguem entender, que Abraão obedeceu incondicionalmente a ordem de Deus, por mais “absurda” que pudesse parecer. Esse Moisés é a mesma coisa. Tenho para mim que isso de “humanizar” os personagens bíblicos começou com “A Última Tentação de Cristo”, filme de 1988, dirigido por Martin Scorsese e com roteiro de Paul Schrader (ambos mestres em filmes violentos com “heróis sem caráter”). Baseado no romance homônimo de Níkos Kazantzákis, publicado em 1951, retrata um Cristo que não sabe bem a que veio, e que fica surpreso quando, instigado pelos apóstolos, manda Lázaro sair da tumba. Ele mesmo não havia pensado nisso, e quando Lázaro ressurge envolto em panos, “Cristo” fica surpreso, como se pensasse “funciona mesmo”! A partir daí virou moda “humanizar” heróis da Bíblia, como se eles não fossem humanos... deu no que deu.
Neste Exodus”, Jetro já usava as roupas de sacerdote muito antes de aparecer a Lei, dando a entender que Moisés as copiou para os hebreus depois (ao contrário, Deus é que instituiu todos os paramentos, e antes não havia nada parecido); ver Êxodo 28:14-43.
É bem verdade que a história da sua adoção foi respeitada. É verdade que a Bíblia nada diz sobre a infância e juventude de Moisés, e a sua carreira militar é até plausível. Como eram, aliás, os pendores arquitetônicos do Moisés de Charlton Heston. Naquele filme há histórias paralelas que poderiam ter acontecido, sem nenhum prejuízo ao relato bíblico, por exemplo, Josué salvando a mãe verdadeira de Moisés, e sendo o pivô do crime cometido por este. Ou os futuros rebeldes israelitas já criando caso desde o início, mostrando seu “mau-caratismo”, instigando o povo ao pecado. Isso, na verdade, pouco importa, porque não está em contradição com a Bíblia. Mas se Moisés tivesse treinado revolucionários, com certeza a Bíblia relataria, até porque, no filme, eles falham miseravelmente. Seria uma lição e tanto o próprio Moisés (que escreveu o relato do Êxodo) mostrar que a tentativa humana fracassa, mas quando Deus entra no negócio a coisa funciona.
Seria... se as pragas não fosse tratadas como fenômenos naturais fortuitos, meros acidentes ambientais (à exceção da morte dos primogênitos, que ninguém até hoje consegue explicar com base na “ciência”). Já discutimos antes que a excepcionalidade e a coincidência das pragas não poderiam, em hipótese alguma, ser uma seqüência natural – veja sobre isto aqui. O filme até mostra um conselheiro “ambientalista” do Faraó explicando como “a natureza produziu as pragas”!
Ainda que o “deus-menino” emburrado pareça controlar tudo à sua maneira, de que serviria fazer um monte de prodígios se os egípcios não reconhecessem a sua mão por trás dos eventos? Muitos deixam escapar um importante significado das pragas, cujo propósito foi, além de forçar a libertação dos hebreus, justamente mostrar que o poder de Deus é superior ao dos homens, dos magos, e das entidades que eles adoravam como deuses.  As 10 pragas tiveram grande importância sobre os habitantes do Egito. Deus estava desafiando os “deuses egípcios”. É simples. 
Por que rãs, gafanhotos, sangue, chuva de pedras? O Deus de Israel estava se revelando ao Seu povo e ao império egípcio. Cada praga era direcionada a uma divindade, conforme a credibilidade do povo egípcio em confiar nesses “falsos senhores”, como veremos a seguir.
Água transformada em sangue (Êxodo 7:14-24) – A primeira praga causou desonra ao deus Hápi. A morte dos peixes no Nilo foi também um golpe contra a religião local, pois certas espécies de peixes eram realmente veneradas e até mesmo mumificadas.
Rãs (Êxodo 8:1-15) – A rã, tida como símbolo da fertilidade e do conceito egípcio da ressurreição, era sagrada para a deusa Heqt. Assim, a praga das rãs trouxe desonra a esta deusa.
Piolhos (Êxodo 8:16-19) – A terceira praga resultou em os sacerdotes-magos reconhecerem a derrota, quando se viram incapazes de transformar o pó em insetos. Atribuía-se ao deus Tot a invenção da magia ou das artes secretas, mas nem mesmo essa entidade pôde ajudar os sacerdotes-magos.
Moscas (Êxodo 8:20-32) – A linha de demarcação ficou nitidamente traçada daqui em diante. Enquanto enxames de moscas invadiam os lares dos egípcios, os israelitas na terra de Gósen não foram atingidos. Nenhum “deus” pôde impedí-la, nem mesmo Ptah, “criador do universo”, ou Tot, senhor da magia.
Peste sobre bois e vacas (Êxodo 9:1-7) – Humilhou deidades tais como Seráfis (Ápis), deus sagrado de Mênfis do gado, a deusa-vaca Hator e a deusa-céu Nut, imaginada como uma vaca com as estrelas afixadas na barriga. Todo o gado do Egito morreu, mas o de Israel sobreviveu.
Feridas sobre os egípcios (Êxodo 9:8-12) – Deus nesta praga zombou da deusa e rainha do céu do Egito, Neite. Moisés jogou o pó para o alto, e surgiu um tumor ulceroso na pele do povo. Os magos também pegaram a doença e não puderam adorar a sua deusa e padroeira. Israel novamente foi poupado.
Chuva de pedras (Êxodo 9:13-35) – A forte saraivada envergonhou os deuses que supostamente controlavam os elementos naturais, como Ísis (deusa da água) e Osiris (do fogo).
Gafanhotos (Êxodo 10:1-20) – Uma derrota dos deuses que, segundo se pensava, garantiam abundante colheita. Shu, deus do ar, e Sebeque, deus-inseto, não puderam fazer nada.
Escuridão total (Êxodo 10:21-23) – Com esta praga Deus derrubou o deus principal do Egito, Rá, o deus-sol. A palavra Faraó significa sol; ele era tido como um deus. O Egito ficou nas trevas durante três dias, mas Israel tinha luz.
Morte dos primogênitos (Êxodo 11-12) – inclusive entre os animais dos egípcios, que resultou na humilhação suprema. Os governantes do Egito chamavam a si mesmos de deuses, filhos de Rá ou Amom-Rá, mas depois disto todos souberam que o Deus de Israel era o Senhor. Deus destruiu todo deus falso do Egito. Na morte do primogênito Deus mostrou que Ele tem na Sua mão o poder da morte e da vida. Enquanto o Faraó tinha pretensão de ser adorado, de ser uma divindade, e o primogênito era em potencial um faraó (pois era o herdeiro do trono), Deus desmascarou a falsa deidade tanto do Faraó como de seu filho.
Mas nada disso se vê em produções hollywoodianas modernas. Claro. Não admitiriam isso nem debaixo de pragas... que aliás, é o que vai acontecer durante a tribulação que se aproxima (ver Apocalipse 9:20-21 e 16:9-11).
Dito tudo isso, por mais que se queira dizer que filmes são “licenças poéticas”, sou de opinião de que Bíblia não admite tais devaneios. Prefiro ficar com a “versão original”, pois deduzi que, ao ver essas “obras de arte”, joguei fora umas quatro horas de meu tempo e um bom punhado de dinheiro.

Nota: esta parte final, das 10 pragas e os deuses do Egito, veio de um estudo na Internet cujo autor não me lembro. Se o próprio autor ou alguém me avisar eu adiciono o devido crédito.

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Contradições da Bíblia? 8

Uma lição em Levítico 11

Dúvida ou questionamento:
- Em Levítico 11, a lebre é tida como ruminante, o morcego como uma ave e menciona-se insetos alados com 4 pés.
Quando meu filho era bem pequeno, inventei uma brincadeira: eu dizia um nome de bicho bem estranho e ele tinha que adivinhar o que era. Assim, ele disse que gavial era um falcão, mutuca era uma vaca, mutum um tipo de pernilongo; geco seria uma espécie de pato, de burro ou um “jacarezinho”. Alguns animais tinham até detalhes: equidna era uma “galinha com espinhos”, manjuba um “macaco amarelo” e o carcará, um “cachorro magrelo do cerrado”. Outros ele nunca nem arriscou: taruíra, catita, társio, guariba... tinha mais, mas esqueci agora.
A questão em Levítico 11, sobre a proibição de se comer certos animais classificados como impuros, me lembra essa brincadeira de adivinhação. Já começo dizendo que a Bíblia não é um compêndio de Biologia, e talvez por isso o morcego, como “criatura alada”, pudesse ser facilmente incluído no “grupo das aves”. Eu faço caminhadas no fim da tarde, e costumo passar perto de parques bastante arborizados, bem na hora em que os morcegos saem. Quando passa um deles num vôo rasante perto de mim, quase não dá para saber se é um morcego ou uma coruja, que também tem muita por aqui. Não é difícil para ninguém dizer que o morcego é uma “criatura alada”.
O que classifica um animal como ave? Uma definição rápida de “aves” diz: “uma classe de animais vertebrados, bípedes, endotérmicos, ovíparos, caracterizados principalmente por possuírem penas, apêndices locomotores anteriores modificados [sic] em asas, bico córneo e ossos pneumáticos... Enquanto a maioria das aves se caracteriza pelo vôo... outras espécies perderam essa habilidade” (fonte). Ter asas, voar? O pinguim também tem “asas”, mas não voa; já o morcego, tem asas e voa. Botar ovo? O ornitorrinco bota ovo, tem bico e até pé de pato, mas não é ave. Ter penas... hummm... avestruz tem penas, bico, bota ovo, mas não voa. Já o kiwi tem bico e bota ovo, mas não tem penas (tem pelos), nem asas, nem voa... Ou seja, algumas características valem, outras não. Umas voam, outras não. Penas e asas, uns têm, outros não. Ter bico e botar ovo OK, mas outros animais também botam ovos, têm bicos e até asas; voam, mas não são aves. Alguns têm mais características de aves do que certas aves, mas não são aves. Problemão, hein? Olha só o rolo.
Se o texto de Levítico fosse escrito hoje, e o povo de Israel conhecesse um número maior de espécies animais do que naquela época, provavelmente o panda seria contado junto com os ursos, embora a ciência “moderna” diga que são completamente (?) diferentes, assim como a raposa é diferente do lobo, e esses dois do cão doméstico. Para mim são bastante similares, e para dizer a verdade, consigo ver nesses animais mais semelhanças entre si do que aquelas que alguns enxergam entre o Homem e o chimpanzé, que dizem ser 99% parecidos... Eu acho que não chega nem a 50%. Semelhança de 99% é entre a raposa e o lobo; ou o urso e o panda. E aliás, cá pra nós... Se o pingüim, que pouco tem a ver com uma “ave normal”, é assim classificado, o que é que tem incluir o morcego, “criatura alada”, junto com outros “animais voadores”?
A propósito, a palavra “ave” em hebraico é עוֹף (“owph” ou “ôph”) e se refere a: (a) animal que tem asas – no sentido de “alado”, “voador”; ou (b) que tem penas. No sentido exato do termo hebraico, o kiwi, cabeludo, sem pena e sem asa, seria “alado” ou “voador”? Por esse critério o morcego é mais “alado” e “voador” do que pinguim, kiwi e avestruz juntos. Isso é motivo para dizer que a Bíblia é uma fraude? Se tivesse pingüim em Israel, entraria no grupo das aves ou das criaturas marinhas? 3.500 anos atrás alguém diria que aquelas “barbatanas”, que só servem para nadar e são inúteis para o vôo, seriam “asas”? Duvido, mas se Moisés escrevesse que o pinguim era ave, os ateus estariam descendo a lenha nele há séculos, do mesmo jeito (pelo menos até alguém decidir que pinguim é mesmo “ave”). Eu tenho vontade de rir quando alguém diz que pinguim é ave, mas... fazer o que? E o golfinho, entraria como mamífero ou “criatura marinha”? Isso não importa, porque não interessava fazer uma enciclopédia. Interessava  dizer que alguns animais eram puros (e podiam ser comidos), e outros impuros (e não podiam ser comidos). Esse é o ensinamento que a Lei quer nos passar, e não que essa espécie possui exoesqueleto queratinoso, que essa outra é artrópode e aquela outra é tunicada, se tal bicho é eucariota ou procariota. Não é um compêndio de Zoologia. Apesar de Adão ter sido o primeiro taxonomista conhecido (Gênesis 2:20).
A lebre é a mesma coisa. Em hebraico, a palavra arnebeth ou shaphan serve para “lebre” e “coelho” (caso semelhante a Beemote e Leviatã, às vezes traduzidos como hipopótamo e crocodilo). Mesmo no século XVIII, o poeta inglês William Cowper, que observara longamente seus coelhos, comentou que eles “ruminavam o dia todo até a noitinha”. Linnaeus (Lineu, pai da moderna taxonomia), na mesma época, também cria que coelhos ruminavam. Ficavam mexendo a boca igual a um camelo! Mas depois descobriram que a lebre faz um processo chamado “reflexão”, em que certos vegetais indigestos são engolidos e depois “re-mastigados” (termos leigos), para que o animal possa digeri-los com maior facilidade, sendo muito semelhante à ruminação (ah, e também descobriram - depois - que o coelho, a lebre, o tapiti etc., eram monogástricos e não poligástricos como o camelo, o boi etc. Brilhante essa!). Assim, a frase hebraica “porque rumina” tanto pode ser a ruminação como a reflexão. O povo não conhecia os aspectos técnicos da ruminação, e poderia então considerar o arganaz e a lebre como puros. Como o judeu ia saber se o coelho era monogástrico ou poligástrico, se ele nem tocava no coelho? Por isso, foi necessário explicar que, mesmo parecendo ruminar, esses animais eram imundos por não terem as unhas fendidas. O importante era não confundir: é lebre ou coelho, então não coma. Me ajuda aí, né?
Moisés nunca trabalhou em zoológico (nem Noé), e não pretendeu informar a anatomia ou o DNA de cada bicho que havia. Ver Gênesis 7:2 – animais limpos e impuros, répteis, aves – e só. Mesmo hoje, com todo o avanço científico, fósseis de muitos dinossauros e “homens das cavernas”, tidos como autênticos, se mostraram fraudes burlescas; portanto, é justo criticar Moisés, que não era biólogo? O ornitorrinco, quando foi descoberto e levado à Inglaterra há 200 anos, muitos acharam que era uma fraude, um animal que não existia de verdade. Demoraram a achar um lugar para ele, e acabaram criando uma gaveta à parte, pois aquilo não combinava com nada.
O que diria Moisés sobre o ornitorrinco ou o kiwi? Muito provavelmente nós, criaturas modernas e científicas, acharíamos defeito na classificação mosaica, seja lá qual fosse... E nem falamos nesses bichos aqui...
Eu descobri recentemente que Aristóteles também classificava os animais segundo o seu habitat (aquáticos, terrestres e voadores). Sempre pensei que ele era um cara genial, mas parece que me enganei. Ele disse que a baleia era um “animal aquático” e o morcego uma ave. Então, se usarmos os mesmos critérios que se aplicam à Bíblia, concluiremos que: a) Aristóteles era um ignorante; b) não foi quem dizia ser; c) seus escritos foram alterados/editados por seus discípulos ao longo dos séculos; d) ou então ele não existiu, é uma invenção de filósofos carentes de sentido para suas vidas insignificantes e mesquinhas...
A taxonomia moderna não existia no tempo de Moisés. E desde Lineu e Buffon a coisa já mudou muito. Se daqui a 200 anos resolverem alterar os atuais critérios, e cismarem que o gafanhoto não é mais inseto, vão dizer que Bíblia está errada? Ou a Zoologia é que errou? A classificação científica é baseada em critérios humanos, e por isso, a cada nova descoberta, muda tudo (ou quase). Por exemplo, você sabia que o morcego e o cavalo agora são mais semelhantes entre si do que o cavalo e a vaca? Mais do que um gato e um cachorro. Pensava-se que os morcegos eram primatas, mas não, eles agora estão no mesmo grupo dos cavalos, baleias e toupeiras (link). Segundo este outro site, o kiwi era mamífero até recentemente... e não posso deixar de perguntar se o equidna é mais próximo do tamanduá ou do porco-espinho (dica: equidna é prototério, monotrema, mamífero... mas bota ovo!).
Como sempre tem evolucionistas de olho, poderiam até acrescentar algo ao debate. Desde que não seja um comentário enciclopédico... Os caras parece que não sabem resumir. Aliás, teve um aqui que não gostou de saber que a teoria da evolução perverte as leis da ciência, e escreveu dois artigos quilométricos em seu blog tosco. Achei estranho, pois expus minha opinião em quatro ou cinco parágrafos, e fui bem claro... já o cara gastou uns 50 parágrafos, e no final você percebe a verborragia técnica que não leva a nenhuma conclusão. É, amigo, haja coração... eu fui lá e li tudinho! Obs.: não é o Léo, que explicou muito bem o seu ponto de vista. É um outro cara.
Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Deus criou “cardumes de seres viventes... monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam... e toda ave que voa, segundo a sua espécie” (Gênesis 1:20-21). Será que então o pinguim, a avestruz e o kiwi - aves que não voam - não foram criados por Deus? Ele esqueceu de listar essas ou ave que não voa foi trazida de outro planeta por alienígenas?
Tenha santa paciência. O que seriam “monstros marinhos”? Godzilla? Mothra? O Kraken? Ou apenas baleias, lulas gigantes, cachalotes? Imaginar outro significado para “monstros marinhos” é viajar na maionese (só para ilustrar como a terminologia pode mudar com o tempo).
Aliás, por falar em monstros, ainda não entendi como o ovo do tiranossauro não quebrava, caindo de um metro de altura ou mais... ninguém ainda me mostrou uma “tiranossaura” agachada. Aliás, nem consigo imaginar como os tiranossauros acasalavam, aquela cauda grossona devia atrapalhar pra caramba... o triceratops idem... pense... mas nisso as pessoas acreditam sem pestanejar. E a bem da verdade, o triceratops parece mais com o mamífero rinoceronte do que com o réptil jacaré. Seria o mesmo caso do morcego e do cavalo? São parentes mas ninguém descobriu isso... ainda? E o canguru, tirando a pochete, não parece um tiranossauro? Será que vão descobrir isso um dia? Mas sobre dinossauros falaremos mais em outra ocasião.
Insetos alados? Eu já vi muitos e matei um monte a chinelada. Também já vi programas na TV dizendo que aranhas e escorpiões são insetos, e ninguém reclamou. Mas interessante é que o texto de Levítico diz claramente: “de todos os insetos alados que andam sobre quatro pés: os que têm pernas sobre os seus pés, para saltar com elas sobre a terra; isto é, deles podereis comer os seguintes: o gafanhoto segundo a sua espécie...” (etc.). Ora, se observar um gafanhoto, verá que ele tem quatro patinhas, como “pezinhos” com que se apóia e “anda”, e duas outras grandonas, com as quais salta! E o louva-a-deus: quatro “pés” apoiados e duas “mãos” com que agarra a presa... a descrição é correta, do ponto de vista de um “não-biólogo”.
Agora, confesso que nunca vi “solhão”, “hargol” e “hagabe”, outros bichos descritos no Levítico. Nem tenho a menor idéia do que seja “quebrantosso”, “xofrango”, “querogrilo” e “porfirião”, todos citados no capítulo 11 (imagino que “xofrango” seja algo parecido com um frango, sei lá). Se alguém souber, pode me informar que eu agradeço e dou o crédito. Mas não vale olhar na Wikipedia. E como não sou judeu, talvez eu peça um desses assado em algum restaurante por aí, já que o leitão e a lebre eu já experimentei (gafanhoto ainda não, obrigado). Não consigo parar de pensar no equidna, na tiranossaura e na brincadeira de anos atrás...
Isso tudo, para mim, é procurar um conjunto de papilas dérmicas cimentadas que formam um filamento queratinizado em forma de protuberância, na caixa craniana dos mamíferos hipomorfos, cordados, da ordem dos ungulados perissodáctilos, da família Equidae, gênero Equus e espécie ferus, subespécie caballus.
Mas sabe qual é a lição que tiramos aqui? O que tudo isso tem de relevante para nós, hoje, nós que não somos judeus ortodoxos, cristãos do século XXI que não estão debaixo da Lei Mosaica? Já que o sentido direto do texto não se aplica a nós, aí sim buscamos outro significado, aplicando um pouco da interpretação alegórica ou simbólica, como vimos aqui. E é este: os animais puros e impuros são exemplos para nós! Devemos ser como os animais puros, os que ruminam e possuem casco fendido. O ruminar significa que o nosso alimento (espiritual), a Palavra de Deus (cf. Deuteronômio 8:3, Lucas 4:4 e Mateus 4:4) deve ser não apenas engolido rapidamente, mas ruminadodigerido” lentamente. Isto é, precisamos meditar na Palavra para poder extrair dela tudo que ela tem para nós, até a última fibra. E o casco fendido significa que precisamos deixar nossas pegadas bem claras e discerníveis por onde andarmos. Onde passamos deve ficar uma marca para os vêm depois, uma trilha, um caminho, um testemunho de vida.
De nada adianta uma coisa sem a outra: não vale nada o nosso testemunho se não estamos ruminando a Palavra - casco fendido, mas não rumina, é abominação, impureza. E também, se ruminamos, meditamos, absorvemos a Palavra, mas não damos testemunho de Cristo, somos como um animal impuro: ruminamos, mas não deixamos nossa marca no mundo.  Não valemos nada.
Esta é a lição de Levítico capítulo 11 para cada um de nós.  
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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mitos e fábulas SOBRE a Bíblia

Falamos outro dia sobre a crença de que a Bíblia, em especial o livro de Gênesis, seria um mito ou uma compilação de lendas e fábulas de diversos povos e culturas. Mostramos que esse entendimento é errado, e porque. Esclarecemos a tática ateísta para desacreditar a Bíblia enquanto Palavra de Deus, pois desqualificando o primeiro livro da Escritura todo o resto perde o seu valor: torna-se apenas literatura.
Um outro ponto interessante é que abundam na Internet citações atribuídas aos mais diversos filósofos, pensadores e intelectuais, que nunca disseram tais frases. Em anos eleitorais então a coisa ferve: o que aparece de pensamentos de Sêneca, Arnaldo Jabor, Luiz Fernando Veríssimo, até de Marx, vaticinando sobre a corrupção no governo, é brincadeira. Eu costumo dizer que nem se Einstein tivesse vivido mais uns 30 anos seria capaz de produzir tantas frases a ele atribuídas na Internet. 
A respeito da Bíblia, é a mesma coisa. As pessoas dizem coisas sobre a Bíblia sem nunca tê-la lido, ou no máximo conhecerem ao menos alguns trechos. O seu ralo conhecimento das Escrituras vem da revista Veja, da Superinteressante e do Discovery Channel. 
Sabemos que, embora muitos não aceitem, assim como Deus é real o Diabo também é, e como antagonista e inimigo, procura de todas as formas ganhar adeptos para o seu exército. Uma dessas formas é justamente espalhar lendas e mitos SOBRE a Bíblia. Assim fica fácil para o tentador lançar sementes de dúvidas travestidas de filosofia, de humanismo e de lógica. Como essas:
Alguns luminares das trevas, sem argumentos que sustentem suas teses ridículas, dizem que “um Deus que pune toda humanidade por causa de uma maçã não merece nosso respeito nem consideração, muito menos adoração e submissão”. Mas, contrariando essa teoria tosca, Adão e Eva não comeram uma maçã no livro de Gênesis. Na realidade a fruta não é nomeada - ela é referida somente como “o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. A razão para este equívoco provavelmente se deve ao fato de que na língua inglesa a palavra apple (traduzida em português como “maçã”) era usada para se referir a todas as frutas (como no Português “fruto”, palavra masculina). Com o passar do tempo, a palavra “maçã” acabou associada ao “fruto do pecado”, e assim tem aparecido em inúmeras propagandas, desde roupa íntima a motéis. Até mesmo uma famosa marca de computadores baseia-se na interpretação de que “a maçã” simboliza conhecimento e inteligência. O fato concreto nisso tudo é que nessa canoa furada embarcam muitos auto-intitulados intelectuais.
Outro erro cabeludo em que quase todo mundo cai é “os Três Reis Magos”. Mas na verdade, esses personagens nunca foram referidos como reis pela Bíblia e nada indica que eles eram três. A única referência ao número três é o número de presentes que eles carregavam. Leia sobre isso aqui.
E assim caminha a humanidade, atribuindo à Bíblia todo tipo de erro e mistérios que de fato nem estão lá. Antes de mais nada, é preciso anotar que a Bíblia não é um livro científico, por isso há que se ter sabedoria para discernir o que é literal e o que é alegórico. Por exemplo, dizer que “o sol parou” - parou do ponto de vista do escritor. Mas e se foi a Terra que parou? Que alguma coisa parou, não há dúvida. Aqui o nós temos que aprender é que Deus é poderoso o bastante para interferir nas leis da física - que foram criadas por Ele mesmo, afinal. Mas dizer que “a Bíblia contém erros porque o sol não gira em torno da Terra”, é procurar chifre em cabeça de cavalo... Que, aliás, é o que esse pessoalzinho intelectualóide gosta de fazer.
Só para esclarecer, quem crê que a Bíblia diz que o Sol gira ao redor da Terra é uma besta quadrada, porque em nenhum lugar do texto sagrado se afirma isso. Todo mundo diz que “o sol nasce a tal hora”, e “se põe em tal lugar”, e nem por isso é ridicularizado. Por outro lado, muito antes de Galileu, Newton, Tycho-Brahe, Kepler, Copérnico, Huble e muitos, muitos outros, a Bíblia já dizia que Deus “estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada” (Jó 26:7); e que Ele “está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos” (Isaías 40:22).
Se isto não significa que o planeta paira no vácuo do espaço, e que não é redondo, então não sei mais o que é. Alguns dirão, fazendo caras e bocas de sábios, que a palavra “redondeza” não quer dizer “globo”, mas sim “círculo”, e para isto fazem extensos arrazoados onde misturam conceitos de religiões antigas, textos poéticos da própria Bíblia e afirmações pseudo-científicas, para dizer que a Bíblia não diz o que diz e que diz o que não diz. Ou seja, criam mitos SOBRE a Bíblia.
Dizem outros que a Bíblia adverte: “a mil chegarás mas de dois mil não passarás”. Isto não consta das Escrituras. Pelo menos eu nunca vi essa passagem. E além do mais, nunca consegui descobrir o que significa exatamente essa bobagem, mas vi muita gente – antes do ano 2000 – dizer que era a dica para avisar que o fim do mundo seria nesse ano em particular. Mas depois que mudamos de milênio alguns gênios passaram a ter certeza do erro da Bíblia, porque “já passamos de 2000 e nada aconteceu”. Depois adiaram esta data fatídica para que coincidisse com o calendário maia, um povo, como disse Samuel Fernandes, “aterrorizado por demônios, povo pagão, ensopado no caldeirão das trevas”, que previu o fim do mundo para 21 de dezembro de 2012. Mas a Bíblia não diz nada sobre datas, a não ser que “daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai” (Mateus 24:36).
Chamam de erros da Bíblia coisas que nem mesmo estão na Bíblia.
Como o “código da Bíblia”. Esse “código”, também conhecido como o código da Torá, seria um grupo de mensagens supostamente existentes no texto bíblico, que se devidamente decodificadas dariam informações proféticas e previsões das mais diversas. O estudo e os resultados desta mensagem cifrada tem sido popularizada por livros como “O Código da Bíblia” e “O Código Da Vinci”. O principal método pelo qual se acredita encontrar estas profecias é o “Equidistant Letter Sequence” (ELS). Para se obter uma ELS em um texto, é necessário escolher um ponto de partida (em princípio, qualquer letra) e então é dado um salto numérico entre elas, também livremente e possivelmente negativo. Assim é possível separar essas letras que, depois de agrupadas (apenas as selecionadas) formariam as tais previsões. Defensores dos códigos da Bíblia geralmente usam textos da Bíblia hebraica. O uso e a publicação de “previsões”, baseado em códigos da Bíblia, principalmente com base no trabalho do jornalista Michael Drosnin, teria revelado o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. Interessante é que geralmente os “profetas” deste método anunciam suas previsões depois que elas aconteceram. Como é que esse código hoje é tido como anunciando o assassinato de Kennedy, mas nada diz sobre Barack Obama ou Bin Laden, por exemplo?
A origem de toda essa mixórdia está num sistema inventado pelos escribas judeus para evitar erros nas cópias manuscritas (aliás, “erro na Bíblia” é outra falácia que agora vamos desmontar).
Com o método massorético (de “massorat” = transmissão fiel) eles verificavam atentamente cada letra, sílaba, palavra e parágrafo. Dentro de sua cultura, eles dispunham de grupos de homens com funções específicas, cuja única responsabilidade era preservar e transmitir esses documentos com uma fidelidade praticamente perfeita – eram os escribas, copistas e massoretas. Os massoretas contaram os versículos, as palavras e as letras de cada livro. Calcularam a letra e a palavra que ficava no meio de cada livro. Fizeram uma lista dos versículos que continham todas as letras do alfabeto, ou um certo número delas; e assim por diante. No entanto, o que consideramos hoje uma trivialidade, teve o efeito de garantir uma atenção minuciosa à transmissão fiel do texto. Na verdade, os massoretas tinham um preocupação profunda de que não se omitisse nem se perdesse um só i ou til, nem uma só das menores letras ou uma pequena parte de uma letra da Lei.
Dentre as exigências que os escribas deviam seguir em relação às Escrituras, algumas são:
- o rolo de pele (pergaminho) onde a cópia seria feita deveria conter um certo número de colunas, o qual deve se manter igual por todo o manuscrito
- o comprimento de cada coluna não poderia ser inferior a 48 nem superior a 60 linhas, e a largura deveria ser de 30 letras
- devia-se primeiramente traçar as linhas de toda a cópia, e se 3 palavras fossem escritas sem linha, a cópia era inutilizada
- devia-se fazer a cópia a partir de uma cópia autêntica, da qual o transcritor não podia se desviar de modo algum, sendo proibido escrever qualquer palavra ou letra de memória, isto é, sem o escriba tê-la visto no códice diante de si
- entre cada consoante devia haver o espaço de um fio de cabelo ou de uma linha
- entre cada capítulo devia haver a largura de 9 consoantes, e entre um livro e outro o espaço de 3 linhas
- o quinto livro de Moisés (que fecha o Pentateuco) devia terminar exatamente no final de uma linha
- era contado o número de vezes que cada letra aparecia em cada livro, assinalada a letra que ficava exatamente no meio do Pentateuco, e a que ficava exatamente no meio da Bíblia toda; e várias outras regras que tornavam o trabalho de copiar as Escrituras virtualmente à prova de erros, já que depois disso tudo ainda havia a revisão feita por três especialistas. Os rolos de pergaminhos fora das especificações eram condenados a ser enterrados ou queimados, assim como os que ficavam gastos pelo tempo e a tinta começava a desaparecer. É por isso que não existem cópias muito antigas, o que também evitava a má interpretação originada de uma leitura mal feita, equivocada, ou mal-intencionada.

Assim, dizer que “a Bíblia tem erros” é mais um mito SOBRE a Bíblia. 

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terça-feira, 25 de março de 2014

O Livro de Gênesis:


Já discutimos bastante as regras e métodos de interpretação das Escrituras, as quais nos habilitam a entender melhor o texto sagrado. Vimos que a tendência a alegorizar demais certas passagens podem enganar até mesmo os teólogos mais experientes. E agora, vamos nos debruçar sobre uma das passagens mais cruciais da Bíblia, e sua interpretação, a partir da qual toda a nossa fé pode ser edificada, ou destruída. Trata-se do livro do Gênesis, o primeiro da revelação de Deus ao Homem.
Hoje em dia especula-se muito sobre quais porções da Bíblia, em especial Gênesis, seriam fatos históricos e quais seriam apenas parábolas, alegorizações, contos e fábulas de outros povos, alguns contemporâneos, outros mais antigos que os judeus. Não raro, ouvimos coisas como “a criação bíblica é um mito”, ou “Gênesis é uma representação lendária da mente primitiva”.
O que é mito? É uma história que explica um aspecto da vida humana, sem nunca ter acontecido de fato. Mitos são  eventos envolvendo deuses e suas relações com os homens; mas são eventos atemporais, “a-históricos”. Com o objetivo de entretenimento, o mito é fictício. Se ensinado como a explicação factual de um determinado aspecto da vida, é uma mentira. C.F. Nosgen explica: “Qualquer conto não histórico, independente de como possa ter surgido, no qual uma sociedade religiosa encontra uma parte constitutiva de seus fundamentos sagrados, por causa da expressão absoluta de suas instituições, experiências e idéias, é um mito”.
Religiões pagãs abundam em mitos: o de Pandora explica o mal no mundo como resultado de uma caixa que foi aberta contra a instrução dos deuses. O mito babilônico Enuma Elish explica a criação pela morte e divisão de um grande monstro, Tiamat.
A Bíblia fala de mitos. No Novo Testamento, a palavra grega é μθος [“mythos”], “mito”, às vezes traduzida como  “fábulas”. Mas a mensagem bíblica não é baseada ou derivada de mitos: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas (“mythos”) artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade  - II Pedro 1:16. Ela nos adverte contra os mitos: “Nem se dêem a fábulas” (“mythos”) - I Timóteo  1:4. E também alerta que nos últimos dias, sob a influência de falsos mestres - podemos chamá-­los de “mitologistas” - as pessoas “desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (“mythos”) - II Timóteo 4:4. Esta profecia hoje se cumpre naqueles que antes consideravam Gênesis verdade, mas agora dizem que é um mito.
Assim, nesta questão, há muita coisa em jogo. Se dissermos que Gênesis (especialmente os primeiros capítulos, de 1 a 11) é um mito, a divindade das Escrituras ­ a sua qualidade de “soprada por Deus”, conforme II Timóteo 3:16 - é negada, e assim se perde a sua autoridade, confiabilidade, clareza, suficiência e unidade. Se Gênesis é um mito, a mensagem da Bíblia é descartada, pois Gênesis é o fundamento da doutrina da justificação pela fé e do evangelho da graça. Martinho Lutero disse que os dois primeiros capítulos de Gênesis são “certamente o fundamento de toda a Escritura”. Então a questão que somos forçados a resolver é: como devemos encarar a Escritura: História ou Mito?
Se admitimos Gênesis como um mito, então os eventos ali registrados nunca aconteceram de fato:
Este mundo nunca veio à existência pela Palavra de Deus (Gênesis 1).
A raça humana nunca se originou a partir de um homem, Adão, que foi criado pela mão de Deus a partir do pó, e de uma mulher, Eva, feita pela mão de Deus a partir de uma costela do homem (cap.2).
O pecado e a morte nunca entraram no mundo pelo homem ter  comido o fruto proibido, instigado por  Eva e pela serpente (cap.3). Se o relato não é histórico, a queda também não é.
Nunca houve o desenvolvimento da agricultura, pastoreio, música e metalurgia (Cap.4).  
Nunca houve um dilúvio universal (caps.6-­8).
Nunca houve uma torre de Babel ocasionando a divisão das nações pela confusão da língua (cap.11).
Referindo­se à tentação de Eva pela serpente, Lutero escreveu: “Através de Moisés [o Espírito Santo] não nos dá alegorias tolas, mas Ele nos ensina sobre os eventos mais importantes, os quais envolvem Deus, o homem pecador e Satanás ­ o originador do pecado. Vamos, portanto, estabelecer em primeiro lugar que a serpente é uma serpente de verdade, mas que foi possuída e tomada por Satanás, que está falando por meio da serpente” . Um pouco mais tarde, refletindo sobre os três primeiros capítulos, Lutero comentou: “Nós tratamos todos esses fatos em seu significado histórico, que é o seu único e real significado”. E acrescentou: “Ninguém pode falhar em ver que Moisés não tinha a intenção de apresentar alegorias, mas simplesmente de escrever a história do mundo primitivo”.
Ou existe alguém que se atreve a negar que Cristo e Seus apóstolos viam as pessoas e os eventos de Gênesis como históricos? E que ensinavam a igreja do Novo Testamento a considerá-­los como tais, em Mateus 19:3­9; João 8:44; Mateus 24:37-­41; Romanos 5:12­-21; I Coríntios 11:7­-12; I Timóteo 2:12-­15; II Pedro 3:5­6; Atos 17:26 etc.? Ninguém deriva a concepção de Gênesis 1-­11 como mito por uma exegese sólida dessas passagens do Novo Testamento.  
A origem disto é fácil de identificar: é o desejo de acomodar o pensamento da Igreja ao mundo, para moldar o cristianismo à cultura mundana. Abandonou-se a separação entre os ímpios e o povo de Deus, entre a mente dos inimigos de Deus e a mente de Cristo. Para ser respeitável e atraente para o homem moderno e educado, as igrejas devem adaptar seu pensamento, sua confissão - e sua Escritura - à teoria científica mais recente. E uma vez que a teoria dominante é a evolução darwiniana, Gênesis - e por conseguinte, toda a revelação bíblica - deve dançar conforme a música ateísta (e no meu modo de ver, pelo iluminismo do século XVIII). O teólogo católico Zachary Hayes dá uma justa advertência: “Não se pode abrir a possibilidade de defender alguma forma de evolução sem abrir uma caixa de Pandora. Aqueles que abrem essa caixa devem estar dispostos a assumir a responsabilidade de lidar com os tipos de problemas que surgem em muitas áreas da Teologia”.
A história da criação traz a dependência de Israel em Deus, e a confissão de que seu Deus é o único Deus. A história da queda é o reconhecimento de que o homem é inerentemente pecador e precisa de redenção.
Mas essa aplicação boa, espiritual e útil não vale nada, porque tudo passa a ser mito. E se é mito, eu devo dar ao Gênesis tanta atenção quanto eu dou à caixa de Pandora, a Marduk ou a Chapeuzinho Vermelho (como alega Richard Dawkins e seu “monstro do espaguete voador”)!
Gênesis é um fato histórico, doa a quem doer, e apresenta a origem de todas as coisas: o universo, incluindo o tempo e o espaço; o Homem; o matrimônio e a família; a ordem básica de seis dias de trabalho e um de descanso, o pecado, a maldição e morte, não só para a raça humana, mas também para a criação, o evangelho e o Salvador prometido, a antítese entre piedoso e ímpio, as nações, etc.
Quando dizemos que Gênesis 2 (um homem e uma mulher como uma só carne) é um mito, estamos afirmando que como isto não é um relato factual da instituição histórica do casamento pelo próprio Criador, então não sou obrigado por qualquer lei de fidelidade no casamento. Eu posso viver como e com quem desejar, no casamento ou fora dele!
Quando o pregador que lê Gênesis 3 como mito me diz que eu preciso de um redentor, eu preciso perguntar: “Será que o Homem realmente caiu?”; pois se ele não caiu de fato, eu não preciso de um redentor, mas sim evoluir.
Se Gênesis é mítico, então Cristo também o é. Pois o pensamento que coloca Gênesis como uma palavra humana também deve colocar os evangelhos como palavra humana. Se nunca houve uma queda histórica de um Adão histórico, não há necessidade de um Jesus histórico. Sem Adão, sem Cristo! Jesus Cristo vem ao mundo pela promessa de Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Mas a quem Deus dirigiu essa palavra, essa “promessa-­mãe”? Para a serpente! Negue Gênesis 3, negue a serpente, e você aniquilará a promessa de Jesus Cristo: sem serpente, sem Salvador! Um Cristo mítico não morreu por nossos pecados. Um Cristo mítico não pode perdoar nossos pecados reais. Um Cristo mítico não irá conosco através do vale da sombra da morte. Um Cristo mítico não vai ressuscitar nosso corpo do túmulo. Somente o Cristo histórico fez e vai fazer essas coisas. O Cristo histórico faz com que o Gênesis seja histórico, e a fundação de Si mesmo e a Sua obra.
A doutrina do juízo de Deus também depende de Gênesis. Mas se Gênesis é um mito, o juízo também o é. Se Gênesis não é história, todas essas doutrinas estão perdidas.
Os ateus sabem disso, e tentam fazer como Dawkins: convencer o mundo de que Gênesis é um mito, porque assim fazendo, desacreditam toda a Palavra de Deus. E o pior é que muitos cristãos já embarcaram nessa canoa furada.
Entretanto, a ciência não pode analisar, julgar e confirmar os eventos registrados em Gênesis. A própria criação foi um milagre. Como um milagre ela é pouco acessível às ferramentas de investigação do cientista, assim como é a ressurreição de Jesus.
Ademais, entre a obra da criação de Deus, como descrito em Gênesis 1 e 2, e a ciência atual, há duas barreiras que o esforço científico não pode superar: a queda com a maldição que está presente em toda a criação, e o dilúvio que destruiu todo aquele mundo, dando uma forma inteiramente nova a esta Terra ­- Gênesis 3:17, 18; II Pedro 3:6. Nenhum instrumento científico pode voltar atrás antes do dilúvio. O mundo de antes do dilúvio não pode sequer ser conhecido por qualquer teoria científica. Apesar de evidências que têm sido encontradas ao redor do planeta, as pessoas ainda duvidam do dilúvio universal e dizem que “tudo continua como desde o princípio da criação” (II Pedro 3:1-7). No dilúvio (Gênesis 6­-8), histórico, real e maior do que apenas uma inundação local na região do Tigre e do Eufrates, o “mundo de então pereceu”! Acabou, foi extinto! O único conhecimento que alguém tem, ou pode ter, do mundo antes do dilúvio é aquele dado pelo próprio Deus em Gênesis.
Para nós, a questão se a Bíblia, e em especial Gênesis, é história ou mito, não é intelectual nem acadêmica.
Nas igrejas sadias, as crianças pequenas aprendem a responder algumas perguntas como:
“Quem é o seu Criador?” - R: “Deus”.
“Quem criou todas as coisas?” - R: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”.
“Como é que nós sabemos sobre essa criação?” - R: “Deus nos diz sobre isso em Sua Palavra, a Bíblia”.
“Quem são os nossos primeiros pais?” - R: “Adão e Eva”.
“Como é que Satanás veio a Eva?” - R: “Ele usou a serpente para falar com Eva”.
“O que Deus prometeu?” - R: “Um Salvador, para nos salvar dos nossos pecados”.
Queremos que estas crianças vão para o céu. Se elas vierem a duvidar de todas essas respostas como se fossem mito, irão para o inferno como incrédulos. Seja quem for o responsável - pais, pregadores, professores, teólogos - seria melhor que uma pedra de moinho lhes fosse amarrada ao pescoço e jogados nas profundezas do mar. Esses pequeninos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, acreditam na historicidade de Gênesis.
“Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3).

Resumo do livro Gênesis 1-11 – História ou Mito? de David Engelsma
(http://livros.gospelmais.com.br/files/livro-ebook-genesis-1-11-historia-ou-mito.pdf)

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