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sábado, 24 de janeiro de 2015

Cristão deve apoiar a pena de morte?

Reproduzo parte de um texto do prof. César Zanim, que retrata exatamente o meu sentimento.
Abro aspas:
Dois brasileiros foram condenados à pena de morte por fuzilamento na Indonésia, por tráfico de drogas. Um deles, Marco Archer Cardoso Moreira, foi executado em 17/01/2015. O governo brasileiro fez dois pedidos de clemência ao governo indonésio, tentando alterar a punição para evitar e pena capital, por questões humanitárias, mas não foi atendido. O outro condenado, Rodrigo Muxfeldt Gularte, também deverá ser fuzilado, em fevereiro de 2015.
A Indonésia tem uma das leis antidrogas mais rígidas do mundo, incluindo a pena de morte para o crime de tráfico. Quem for pego com mais de cinco gramas de droga pode ser condenado à morte, inclusive estrangeiros. E na Indonésia a maioria apoia a pena de morte, mas é pertinente salientar que com o passado recente desse país, sangrento e corrupto, era mesmo de se esperar. Para quem quiser saber mais sobre como o povo indonésio lida com a morte, indico os filmes de Joshua Oppenheimer (como por exemplo, este e este).
A pena de morte para crimes civis foi aplicada pela última vez no Brasil em 1876 e não é utilizada oficialmente desde a proclamação da república. Até então, o júri continuou a condenar pessoas à morte, ainda que Dom Pedro II comutasse todas as sentenças. O jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu“, sobre a pena de morte por enforcamento aplicada ao fazendeiro carioca Manoel da Motta Coqueiro (que era inocente), observa que a finalidade principal era reprimir e amedrontar os escravos – não à toa a punição foi retirada do Código Penal um ano depois da abolição da escravidão.
O inciso 47 do art. 5º da Constituição diz que “não haverá penas de morte, salvo em caso de guerra declarada”. Ou seja, a pena de morte no Brasil foi abolida para todos os crimes não-militares. O artigo 60 faz dessa abolição da pena de morte uma cláusula pétrea, ou seja, qualquer mudança no texto dependeria de uma Assembleia Constituinte que elaborasse uma nova Carta, algo bastante improvável.
Segundo uma pesquisa do Datafolha de 2002 a maioria da população brasileira queria a pena de morte no Brasil (45% contra e 51% a favor). Em 2008 essa pesquisa do Datafolha indicava empate técnico (46% – 47%), mas em 2013, 50% dos brasileiros acham que não cabe à Justiça determinar a morte de uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave. Outros 46% se disseram favoráveis à punição.  Essa tendência de declínio do apoio à pena de morte vinha sendo sentida também em outros países. Segundo um levantamento do Pew Research Center, o número de americanos que reprovam a pena de morte para condenados por homicídio passou de 31% em 2011 para 37%, em 2013, e segundo o Centro de Informações da Pena de Morte dos Estados Unidos, 2014 teve o menor número de execuções dos últimos 20 anos.
Mas aqui, desde junho de 2013, com a descrença nos políticos e decorrente queda nas pesquisas de aprovação da presidente Dilma, passando por todo o período conturbado da Copa do Mundo e culminando na campanha eleitoral de 2014, que escancarou de vez uma situação de conflito de ideias e confronto político numa sociedade cada vez mais dividida e agressiva, tudo pode virar motivo para mais lenha nas fogueiras. O fuzilamento do brasileiro na Indonésia conseguiu unificar esses dois temas: a pena de morte e a chamada guerra às drogas. Prato cheio para uma série de debates nada construtivos.
Na grande mídia o apoio à pena de morte e à guerra às drogas vem tomando espaço nos telejornais e na programação em geral. Nas redes sociais também tem muita gente se manifestando a favor da pena de morte e da guerra às drogas. Figuras públicas publicam coisas como “viva a polícia que mandou mais 4 bandidos para o saco”, e milhares – evangélicos inclusive talvez, principalmente – defendem, incentivam e/ou comemoram “a morte dos bandidos”. “Bandido bom é bandido morto”, repetem.
Quem nunca ouviu algo assim? Tenho visto esse tipo de coisa todos os dias nas redes sociais. Pois então, eu pergunto, o que é um bandido? E o dicionário me responde o que eu já suspeitava: Bandido é alguém mau caráter e de pouca honestidade que vive de atividades ilícitas.
Diversos canais religiosos, como por exemplo Gospel Prime, site do Pr. Marco Feliciano, Gospel Mais, comunhao.com.br, vcsabiacatolico.com.br, portalconservador.com, livreseradicais.com, levitasnews.com.br, entre outros, divulgaram matérias dizendo que a Arábia Saudita decretou a pena de morte para quem for pego com a Bíblia (um boato, como você pode ver aqui).
De fato, no Irã a “apostasia” e o adultério são punidos com a pena de morte. Em 2011 um homem chamado Abdolreza Gharabat foi condenado e executado por enforcamento porque estaria evangelizando jovens no sudoeste do país. Eu não consigo lembrar de qualquer mobilização a respeito aqui no Brasil (a favor ou contra). (Por estes dias se levantou um clamor em favor de cristãos no Níger, mas eles foram atacados em represália às palhaçadas do Charlie Hebdo e suas trágicas consequências – isto é outro assunto.)
Mas em todo caso, se você for um cristão brasileiro e for pego com a Bíblia em algum país islâmico, você também será um bandido e poderá ser condenado à pena de morte. Poderá ser dito que nesse caso é a lei desses lugares que é estúpida, pois usa a pena de morte de forma equivocada. Acontece que para a maioria dos indonésios, sauditas e iranianos, a lei deles é justa. Será que se fosse um brasileiro condenado à pena de morte por carregar a Bíblia na Arábia Saudita ou por adultério no Irã, haveria todo esse apoio à pena de morte e essa comemoração à morte do “bandido” em questão?  O crime é outro, não se trata de algo “grave” como tráfico de drogas, mas sob a ótica da legislação local, é um crime; afinal a lei do país é aquela.
Quem defende a pena de morte costuma argumentar usando o medo que se sente de um dia passar por uma situação nas mãos de um bandido, de um dia perder alguém querido assassinado, e que acha que todo mundo compartilha. Por isso tantas frases do tipo “eu queria ver você ser contra a pena de morte e defender bandido na mira de uma arma sendo assaltado”.
Quem defende a pena de morte afirma que se trata de uma medida para impedir crimes. Não impede, isso está comprovado. E nem me refiro ao assassinato do bandido perpetrado pelo Estado, como se vê nas tristemente comuns chacinas e massacres em rebeliões em prisões, ao que muitos cristãos comemoram, dizendo “bem feito”.  Nos países onde há a pena de morte os crimes continuam a ocorrer e em muitos deles inclusive aumenta, basta ver as estatísticas.
Um estudo publicado pelo Jornal de Lei Criminal e Criminologia da Universidade de Northwestern, em Chicago, mapeou as opiniões de 67 pesquisadores americanos que se especializaram nesse tema. Para 88,2% deles, executar detentos não tem qualquer impacto nos níveis de criminalidade. Segundo Joe Domanick, diretor do Centro de Mídia, Crime e Justiça da Universidade da Cidade de Nova York, “as pessoas que cometem os crimes mais violentos, que em geral são crimes de paixão ou acertos entre gangues, claramente não se preocupam com a pena de morte ao cometê-los”. Nos 36 estados americanos que adotam a pena, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes é maior que o registrado nos outros 14 estados que não a aplicam. Na França, especialistas em segurança pública garantem que a violência não explodiu depois que a guilhotina foi aposentada em 1977. No Irã, o exemplo inverso: a pena de morte foi reintroduzida em 1979 com a revolução islâmica, mas não significou redução das taxas de criminalidade.
Fecho aspas e escrevo eu agora:
Diante de tudo isso, e em especialmente depois de ver a reação de setores e indivíduos ditos “cristãos”, de regozijo pela execução do traficante brasileiro em um país islâmico, de história conturbada por corrupções de todo tipo, onde se aplica uma lei que é prejudicial aos cristãos que um dia forem chamados por Deus para evangelizar lá (ainda existe isso na Igreja brasileira, chamado missionário para países fora da Europa ou América do Norte?), fiquei muito triste.
Eu gosto sempre de pegar o exemplo dos primeiros cristãos, que foram considerados, grosso modo, criminosos. A partir de certa época, passaram a ser tidos como párias na sociedade a passaram a se reunir às escondidas. Não pensem os senhores que Roma era um paraíso e só os cristãos eram “caçados pela polícia”; não. Eram apenas “mais um tipo de bandido”. E eram condenados à morte, porque seu crime era dos mais abomináveis, traição à pátria, à religião (aos deuses antigos) e ao imperador.
Para se ter uma idéia, o historiador Tácito escreveu que os cristãos eram, para os romanos, “o que há de abominável e infame no mundo... uns foram revestidos de peles de animais ferozes e jogados aos cães pra serem devorados; outros eram pregados em cruzes; muitos foram queimados vivos, embebidos de matéria inflamável, acesos para servirem de tochas à noite” (Anais da Historia Romana, XV:44). Será que esses cristãos eram favoráveis à pena de morte, à sua própria morte? Aceitavam a pena, porque sabiam que algo muito melhor os esperava do outro lado, mas será que apoiariam a morte de “outros criminosos”?
Por exemplo, imaginemos um ladrão que tentasse assaltar o palácio do imperador e fosse pego. Imaginemos que fosse anunciado  a toda a população que aquele sujeito seria condenado à morte. Os cristãos apoiariam? Talvez não se manifestassem porque seriam pegos e por seu próprio “crime de traição” possivelmente teriam o mesmo destino, mas no íntimo, qual seria o sentimento dos nossos primeiros irmãos na fé? Seriam a favor do “olho por olho”, “aqui se faz aqui se paga”, ou seriam misericordiosos como Seu Senhor também fora, quando caminhava sobre a Terra?
Vibrariam intimamente de alegria ao ver o nosso ladrão nas chamas de uma fogueira, pendurado numa estaca e com as pernas arrancadas pelos leões no Coliseu? Ou chorariam arrependidos por não terem um dia compartilhado as boas novas da salvação com aquela alma irremediavelmente perdida?
Jesus foi condenado à morte. Mas “não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). Não criticou a lei, não fez campanha para mudar o legislativo ou a constituição, nem tampouco condenou o ladrão pendurado ao seu lado, sabidamente culpado de todos os crimes, diferentemente de Si. O próprio bandido admitiu sua culpa e a justiça de sua condenação: “nós, na verdade, [fomos condenados]com justiça; porque recebemos o que os nossos feitos merecem; mas este nenhum mal fez” (Lucas 23:41). Jesus o perdoou e nada disse a respeito da justiça ou injustiça das leis dos homens. Na verdade, Ele já havia dito antes que “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), com isso dizendo também que não devemos misturar as coisas terrenas com as celestiais, as leis terrenas com lá do alto. Ele disse que se deveria praticar “a justiça, a misericórdia e a fé” (Mateus 23:23), no mesmo versículo que alguns usam para justificar o dízimo. Muitos desses “dizimistas” pularam de alegria ao saber do fuzilamento lá do outro lado do mundo. Praticam o dízimo, mas omitem a misericórdia! Fariseus! Raça de víboras!
O mundo jaz no maligno (I João 5:19), e com isso, todas as realizações humanas – as artes, as ciências, os sistemas políticos, econômicos, judiciários – estão apodrecidas. As leis humanas nunca serão justas. Sempre veremos injustiças, e sempre haveremos de discordar disso ou daquilo. A lei brasileira é falha, e também a da Indonésia, dos Estados Unidos e da França, por mais que se tente vender o contrário – que lá fora é que é bom, mesmo na Indonésia e no Gabão, só aqui é que é tudo uma porcaria. A verdade é que TUDO é uma porcaria!
Mas a lei do Senhor é perfeita (Salmo 19:7). E ela nos ensina a ser misericordiosos, e não rancorosos. A desejar o bem, e não o mal. Isto é coisa do velho homem: “éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Efésios 2:3). Não temos que nos alegrar com a morte de um pecador, por mais mal que ele possa nos causar, ter causado ou vier a causar; mas sim lembrar que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (I Timóteo 2:4).


César Zanin é tradutor, professor, escritor e produtor. Seu texto original, que reproduzi em parte aqui, pode ser lido na íntegra neste endereço: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/pena-de-morte-e-guerra-drogas.html

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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Roupa nova para velhas heresias (3)

Um trecho bastante curioso da Bíblia, que suscita uma discussão bem interessante, é Apocalipse 2:6, 15. Aqui temos notícia de que Jesus odeia os “nicolaítas” que havia em Éfeso; mas o Senhor elogia aquela igreja, que também odiava esses tais “nicolaítas”. E na Igreja de Pérgamo somos informados de que ali estava alojado esse mesmo pessoal, e Jesus os odiava igualmente, um dos motivos pelos quais Ele repreende aquela igreja.
Assim, também deveríamos nos precaver desses “nicolaítas”. Mas afinal de contas, quem são? Será que é uma advertência para aqueles dias somente, quando Deus instruiu João a escrever para aquelas igrejas, ou o fenômeno se perpetuou e ainda podemos identificá-lo em nosso meio?
Para começo de conversa precisamos acabar com bobagens. Já ouvi gente séria dizer que nicolaíta é aquele tipo de crente que comemora o Natal com Papai Noel, pois essa figura era, originariamente, um “santo” católico chamado “Nicolau”, ou “são Nicolau”, tanto é que nos países de língua inglesa é conhecido como “Santa Klaus”... dificilmente haverá besteira maior do que essa. Até concordo que “Papai Noel” não tem nada a ver com o nascimento de Jesus, mas daí a chamar o pessoal de nicolaíta por causa disso já é demais.
Outros associam a palavra “nicolaíta” aos seguidores de “um certo Nicolau”, um misterioso herege dos primeiros tempos da Igreja. Tomam como ponto de partida o Nicolau citado em Atos 6:5 como sendo escolhido para servir como diácono. Uma vez que a Bíblia não nos dá mais detalhes, entra em cena a imaginação e criam-se as lendas.
Diz uma delas, divulgada por Epifânio de Salamis, que Nicolau começou a pregar heresias, fundou uma seita, e gradualmente afundou na mais grotesca impureza, com idéias gnósticas e libertinas. A lenda diz que ele tinha uma bela esposa, mas se absteve de relações sexuais acreditando ser a vontade de Deus. Mas depois, não controlando o desejo, envergonhado da sua derrota e suspeitando ter sido descoberto, dizia que “não terá a vida eterna aquele que não copular todos os dias” - Epifânio, Panarion (Haer., 25:1). Tenho para mim que essa bobajada toda foi inventada para justificar o celibato dos sacerdotes, idéia que persiste no catolicismo atual.
Tanto é que Jerônimo e outros escritores do século IV acreditam piamente nesse relato, pelo menos em parte. Mas ele é irreconciliável com a visão tradicional dada a Nicolau por Clemente de Alexandria (150-215), autor mais antigo e criterioso que Epifânio. Ele diz que Nicolau levou vida casta e criou seus filhos na pureza. Mas numa certa ocasião, repreendido pelos apóstolos por ser um marido ciumento, respondeu oferecendo sua mulher como candidata a esposa de qualquer outro; e repetia um ditado atribuído ao evangelista Mateus: “É o nosso dever lutar contra a carne e abusar dela”. Suas palavras foram perversamente interpretadas pelos “nicolaítas” como apoio às suas práticas imorais.  Teodoreto repete o argumento de Clemente e acusa os “nicolaítas” de falsidade ao usar o nome do diácono. Louis-Sébastien Le Nain de Tillemont (teólogo francês do século XVII) conclui que, se o diácono Nicolau não foi o verdadeiro fundador dessa suposta seita, faltou-lhe sorte, pois deu motivo para fundação de uma heresia. Já August Neander (teólogo alemão do século XIX) argumenta que o fundador foi outro Nicolau. (fonte)
Tem mais: Vitorino de Pettau diz que eles comiam oferendas dos ídolos. O “venerável” Beda, notório inventor de moda e mal informado sobre o que disse Clemente de Alexandria (acima), afirmou que Nicolau permitia que muitos homens possuíssem sua esposa.  Tomás de Aquino era da opinião que Nicolau incentivava a poligamia ou o hábito de ter esposas em comum, e por fim, a interpretação católica virou tudo ao contrário e agora diz que “nicolaíta” é aquele que defende o casamento do clero. Não falei que isso tudo pretendia justificar o celibato?

Voltando ao início, a origem da palavra “nicolaíta” é a língua grega. A partícula nike significa “conquistar”, “vencer” (daí vem a famosa marca de artigos esportivos, cujo logotipo evoca a “asa da deusa da vitória”). Já a partícula laos (λαος) identifica “pessoas” ou “povo”, de onde vem também a palavra “leigo” (laikos -  a plebe, aquele que não tem conhecimento em determinada área); daí, o nome grego Nikolaos (de onde deriva “nicolaíta”) pode significar “conquistador das pessoas” ou “dominador sobre o povo”, sobre os “leigos”.
Eu tendo a concordar com Cyrus Scofield. Em seu livro “Notas sobre a Bíblia”, seguindo o pensamento dispensacionalista, sugere que as cartas de Apocalipse prenunciam as várias eras da história Cristã e que o termo “nicolaíta” “refere-se à primeira forma da noção de ordem clerical, ou 'clero', que depois dividiu igualmente a irmandade entre 'padres' e 'leigos'”.
De fato, é difícil discordar do fato histórico de que na época de Constantino já havia uma visível hierarquia que desvirtuou os ofícios – bíblicos – de bispos, diáconos, presbíteros e apóstolos, que passaram da categoria de dons ou capacitações para exercer determinadas funções na Igreja para títulos nobiliárquicos, em muitos casos. Foi isso que proporcionou, logo, a criação de um cargo que ficasse acima de todos, uma espécie de “gerente-geral” da organização, ou seja, o “papa”.
O poder crescente despertou nos líderes das igrejas o desejo carnal de domínio, soberba e torpe ganância de posição e riquezas. Especialmente entre os pastores das grandes igrejas, nos grandes centros, com congregações numerosas, tornou-se uma tentação ostentar o poder sobre o rebanho e outros pastores de rebanhos menores – exatamente como no protestantismo de hoje! Foi assim que se criou o “centro da igreja” e o “trono do papa” em Roma. Como capital e maior centro urbano de sua época, seus pastores criaram uma imagem de mais poderosos e importantes que os demais. É claro que, com o apoio de Constantino (no começo do séc. IV), o bispo de Roma conquistou a supremacia. Não fosse o “nicolaísmo”, não existiria o erro de uma igreja universal, com sede em algum lugar! Nem mesmo a primeira Igreja, formada por Jesus pessoalmente, em Jerusalém, tinha autoridade sobre as demais! Veja em Atos 15 os apóstolos Pedro e Tiago (que estavam em Jerusalém e não em Roma): não pretenderam dominar a Igreja, mas serviram como conselheiros junto a ela sob a orientação do Espírito Santo.
Portanto, temos que já no fim da era apostólica (início do século II) surgem os falsos mestres sobre os quais Jesus, Paulo, Pedro e João já haviam alertado. Começa uma deturpação das doutrinas originais, e se podemos chamá-la assim, a “doutrina nicolaíta” está na origem de uma casta especial e superior na Igreja, o chamado “clero”. Indo além, formou-se uma hierarquia eclesiástica dentro deste mesmo clero. Há uma grande probabilidade, lógica e historicamente, de que esses nicolaítas, dos quais (afinal) muito pouco se sabe, sejam os formadores do pensamento católico romano e, portanto, seus antecessores. Eles já estavam, no final do século I, infiltrados nas igrejas de Cristo, como podemos ver no texto de Apocalipse. Voltando à interpretação de Scofield, os elogios e reprimendas do Senhor em Apocalipse 2 e 3 servem para todos os cristãos de maneira direta, e simbolicamente formam o quadro geral da História da Igreja, a saber:
(1) Éfeso (Apocalipse 2:1-7), havia abandonado o seu primeiro amor (anos 70 a 170 d.C.); representa a Igreja primitiva pós-apostólica, começando a esquecer as doutrinas dos apóstolos.
(2) Esmirna (Ap. 2:8-11), perseguida pelos imperadores romanos (anos 170 a 312 d.C.).
(3) Pérgamo (Apocalipse 2:12-17), precisava se arrepender (anos 312 e início da Idade Média); é a igreja clerical ou estatal, apoiada pelo poder político.
(4) Tiatira (Ap. 2:18-29), tinha uma falsa profetisa (igreja medieval), uma mulher é quem dá as cartas...
(5) Sardes (Ap. 3:1-6), representa a era da Reforma, onde “alguns não se contaminaram”. Esta fase, como a de Tiatira, coexiste com a Igreja que será arrebatada (3:3).
(6) Filadélfia (Ap. 3:7-13), a igreja perseverante (v. 8 e 10).
(7) Laodicéia (Ap. 3:14-22), a igreja morna. É a decadência do fim dos tempos, que vemos hoje: liberal aos costumes mundanos, mais preocupada com bens materiais do que espirituais (fonte). (Prometo que em outra ocasião entrarei em mais detalhes sobre cada uma delas)
Nicolaitas, não são portanto, como muitos pensam, “seguidores de Nicolau”, nem do “Papai Noel”, mas quem defende hierarquia dentro da Igreja. O termo vem da junção de duas palavras gregas que significam dominar o povo, e está na origem do sistema hierárquico católico. E para nossa tristeza, o fermento dessa doutrina herética está também nas igrejas evangélicas, principalmente depois que, de uns anos para cá, virou moda usar títulos pomposos. Começou com “bispos”, depois surgiram “apóstolos”, depois “patriarcas” e agora até “bispo-primaz” já apareceu no meio evangélico (aqui, aqui, aqui, etc.).
Há os que defendem, inclusive, o uso de vestimentas diferenciadas, para distinguir o “clero” dos “leigos”, o “nike” do “laos”. Diga-me se isto é ou não é um desejo de ser especial, ser diferente, se distinguir “do povão”. Veja aqui alguns links que defendem essa papagaiada, usando basicamente os mesmos argumentos (parece que usaram o velho “copiar/colar”): link 1, link 2, link 3 (existem muitos outros, clones uns dos outros).
Como disse George Orwell, “todos são iguais; mas uns são mais iguais do que os outros”. Só essa frase do livro “A revolução dos bichos” já seria suficiente para condenarmos toda e qualquer tentativa de dominação, de impor hierarquia e diferenciação no meio do povo de Deus. Mas existe a máxima do próprio Senhor da Igreja:
“Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus... Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens... gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi [Mestre]. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo. Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo. Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mateus 23:2-12).
“Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20:25-28).
Com o que Paulo concordou: “Que em tudo tenha Cristo a primazia” (Colossenses 1:18), “e nós tenhamos nossos irmãos em consideração como superiores a nós mesmos” (Filipenses 2:3).
Era necessário que houvesse apóstolos, pastores, mestres, pregadores e evangelistas, mas não como uma cadeia hierárquica onde um manda no outro. Cada um deles tem autoridade, mas só aquela concedida, não pelo título que ostenta, mas pela Igreja, de acordo com o que o Espírito Santo lhe concede pela Palavra. Todo ministro de Deus deve ser respeitado como líder e condutor espiritual da Igreja e como um irmão que seja um bom exemplo ao rebanho (Hebreus 13.7 e 17). Mas isto não faz de ninguém o “senhor do castelo”.


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domingo, 1 de julho de 2012

Pescadores de homens

Tenho visto com freqüência cada vez maior a realização de eventos supostamente evangélicos, tendo como tema “caipiras” (festas “juninas” ou, “pentecostalizando” o termo, festas “jesuínas”). Também já vi convites para festas “dos anos 60”: uma espécie de “festa à fantasia”, onde se comparece a caráter, usando roupas e adereços espalhafatosos, valendo até perucas. E para não perder tempo descrevendo essas bizarrices, vou logo para o supra-sumo do absurdo, que é a realização de lutas violentas dentro de templos ditos evangélicos. 
Isso que se convencionou chamar de esporte, o qual é identificado por uma sopa de letrinhas – MMA (mixed martial arts), UFC (ultimate fighting championship) e outras siglas – já é altamente duvidoso enquanto esporte, pois seus benefícios, se é que existem, são questionáveis, e seus prejuízos são notórios. E agora vêm pretensos evangélicos defender a sua prática, dentro das igrejas, ainda por cima.
Eu poderia aqui traçar um paralelo com a Igreja Primitiva, aquela que ainda não havia ainda se contaminado com os costumes pagãos, e perguntar se alguma vez Pedro, Paulo ou qualquer outro apóstolo teria a cara de pau de promover uma luta de gladiadores, “para evangelizar”.
Imaginemos uma epístola dizendo que, para atrair a atenção dos jovens, deveriam ser apoiadas e estimuladas sessões de pancadaria, findas as quais os gladiadores – sem dentes, braços quebrados, contusões generalizadas – se confraternizariam, dando glória a Deus. Então haveria uma pregação, enquanto os diáconos limpariam o sangue da arena. Afinal, é isso que estão propondo, e repetindo à exaustão, para tentar criar uma aura de “normalidade”. Apenas quero dizer que Paulo, quando teve oportunidade de escrever a um jovem, no caso Timóteo, deu-lhe um conselho um tanto diferente do que se prega hoje. Paulo, depois de enumerar uma série de práticas e costumes que observara, escreveu: Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão (I Timóteo 6:11).
Ou os cristãos, ignorando esse mandamento - fugir dessas coisas - imitariam os pagãos? Será que na época da colheita das uvas, quando os romanos celebravam suas festas em honra ao deus do vinho, os cristãos também fariam uma festa como as bacanais romanas? O que você diria se aqueles cristãos fizessem um festival na mesma data das bacanais”, regada a vinho, mas em honra de Jesus? Poderiam até dar um nome quase” cristão, quem sabe “jesuscristália”?  Se fosse hoje, a turma provavelmente se sairia com diversas teorias para justificar tal prática: afinal de contas, Jesus dissera que o vinho era parte da Santa Ceia. Os cristãos deveriam então aproveitar e fazer encenações teatrais, versando sobre temas evangélicos, obviamente para atrair os pagãos. Assim, esses não estranhariam a ocasião, afinal, teria tudo a ver com o que eles já estavam acostumados. A bem da verdade, foi mais ou menos o que fizeram, adotando a ocasião da “saturnália” para comemorar a suposta data do nascimento de Cristo. Que nem mesmo nasceu em dezembro!
Por aqui, fazem mais ou menos a mesma coisa das bacantes de outrora. Aproveitam a época da colheita do milho e celebram festas “juninas”, com danças, quadrilhas, e obviamente, consumindo comidas à base de milho (pipoca, pamonha etc.). Tudo para a “glória de Deus”. Para “evangelizar”.
Métodos humanos. Não é o que fazem hoje? Pegam passagens fora de contexto (por exemplo, “fiz-me grego para assim ganhar os gregos”, I Coríntios 9) e tentam aplicar às suas extravagâncias.
Com essa passagem isolada e fora de contexto, abrem a porta para atrações variadas como shows de hip-hop, desfile de moda gospel, luta de vale-tudo, balada gospel, blocos carnavalescos, bailes de máscaras, e o que mais aparecer. Lembremos que já existem várias “igrejas” para gays; é para se assustar só de imaginar o que ainda pode ser “criado” por essas mentes doentias.
Na verdade, é um método muito antigo, esse de criar eventos para atrair multidões. Rômulo, um dos fundadores de Roma, “para conseguir ocasião e local favoráveis [para raptar mulheres e assim povoar a cidade recém-fundada], ocultou seu ressentimento [por causa do desprezo dos outros povos pelo seu convite] e preparou jogos solenes em honra a Netuno Equestre [o deus Conso], os quais denominou Consualia. Mandou então anunciar o espetáculo aos povos vizinhos e revestiu-o de todo o aparato possível na época, a fim de torná-lo atraente e despertar curiosidade” (de acordo com o historiador romano Tito Lívio, em “Ab Urbe Condita”, cit. em História de Roma. Tradução de Paulo Matos Peixoto, SP:Ed. Paumape, 1989, p. 32). O que seguiu depois foi o “rapto das sabinas”. Vejam como a arte de criar pirotecnias para distrair os tolos é antiga.
Já critiquei antes as tais “festas juninas evangélicas” e outras invenções “gospel”. Alguns querem justificar essas esquisitices dizendo que “para pescar é preciso usar a minhoca certa no anzol”, talvez tentando fazer uma alusão ao que Jesus disse aos seus primeiros discípulos: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mateus 4:19).
Acontece que:
1 – a pesca com anzol, usando minhoca ou qualquer outra isca, é, para dizer a verdade, um engodo, um engano. Engana-se o peixe com uma “comida falsa”, ou uma comida que significa a sua ruína. O peixe morde a isca  pensando que vai se alimentar, mas no fim acaba se dando mal. Será que é isso que queremos quando “evangelizamos”? Oferecemos um engodo aos incrédulos, uma “comida falsa”, uma mentira? Bem, eu acho que é isso o que muitas “igrejas” estão fazendo. Oferecem promessas vãs, prosperidade financeira, vitória em todas as áreas, até casamento e “sorte no amor”... isso até o cara cair na real e, desiludido, abandonar a fé, se é que um dia chegou a ter fé. Se é que um dia chegou a ser instruído nos caminhos de Deus. Se é que um dia conheceu a Deus e Seu plano de salvação.
2 – Ao contrário dos pescadores de anzol, os discípulos entenderam perfeitamente o que Jesus queria dizer com ser “pescadores de homens”, “porque eram pescadores” (Mateus 4:18). Até por que Jesus contou depois a parábola do Reino, o qual é “semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanhou toda espécie de peixes. E, quando cheia, puxaram-na para a praia; e, sentando-se, puseram os bons em cestos; os ruins, porém, lançaram fora. Assim será no fim do mundo: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13:47-50).
E no final, Jesus perguntou: “Entendestes todas estas coisas? Disseram-lhe eles: Entendemos” (v. 51). Mas parece que os “apóstolos” modernos e seus seguidores não entenderam ainda.
Nós somos os pescadores. Cabe-nos lançar a rede, não anzóis com minhocas e iscas. Vem todo tipo de peixe, e não nos é dada ordem para fazer mais nada. Os anjos separarão os peixes que prestam dos que não prestam, “os bons e os maus” (da mesma forma que separarão o joio do trigo). Não precisamos enganar, jogar iscas, engabelar ninguém. Não precisamos armar presepadas, shows, festa junina, escola de samba, luta livre, mágica, equilibrista, mulher barbada, atrações variadas, “para atrair os peixes”. Não precisamos fazer da igreja um circo. A Palavra de Deus deveria ser suficiente para que as pessoas desejassem ir à igreja!
Mas muitos preferem os métodos humanos, cheios de criatividade, e vazios da Palavra de Deus. Se pudermos ir ainda mais longe, para buscar a origem da “teoria da minhoca”, chegaremos ao Éden, onde a serpente apresentou a Eva uma espécie de “minhoca”, ou um engodo, uma isca, sem esclarecer o que viria depois.  O que nos permite concluir que usar de engano nem é mais um método humano, mas satânico. Por que haveríamos de fazer a mesma coisa?
A única coisa que transforma o Homem e o traz para o Reino de Deus é a pregação do Evangelho, da “boa nova”, da “boa noticia”.
Qual é essa “boa noticia”? Diante de tanta coisa ruim que vemos todo dia nos jornais, a crise, o desemprego, seqüestros, assassinatos, motorista bêbado atropelando inocentes, banco quebrando, protestos, roubalheiras, CPI, corrupção, a bolsa caindo e o dólar subindo... deveria ser uma ótima noticia saber que nossas dívidas podem ser canceladas, perdoadas, totalmente zeradas. Saber que devíamos uma quantia que nunca poderia ser paga, mas que Alguém veio e disse: “Pode deixar, Eu pago tudo. Você não deve mais nada. Está resolvido... está consumado. Quem não gostaria de receber uma noticia dessas?
Isso não dizemos aos incrédulos. Preferimos dizer: “olha, vai lá na minha igreja hoje, vai ter uma apresentação de grupo de jovens, uma coreografia; vai ter a cantata do coral, é muito bonita; o cantor fulano vai cantar, a banda tal vai tocar; depois vai ter uma canjicada, uma feijoada, uma batatada”. Outros vão além: “vamos lá ver a luta de MMA, vamos na balada gospel, na ‘arena jovem’, no funk gospel, o barato vai ser doido, mano, véio. Mas nunca dizemos “vamos lá hoje, vai ter uma pregação sobre a Palavra de Deus, e você vai aprender que precisa entregar sua vida a Jesus, senão você vai para o inferno; o pastor vai explicar por que precisamos largar o pecado e seguir a Jesus como os discípulos fizeram, largaram tudo e O seguiram. Vamos orar para que Deus liberte as pessoas e mude seus corações”. Não; preferimos a minhoca.
É isso – só isso – que devemos fazer para que as pessoas venham para o Reino de Deus: mostrar a Palavra, sem rodeios, sem chantilly em cima, para adoçar ou enfeitar. É isso que precisamos anunciar para que os peixes saltem para dentro da rede, sem precisar ser enganados por minhocas pegajosas, moscas de borracha e peixinhos de plástico colorido.

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