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sábado, 31 de janeiro de 2015

Qual é o pior, Noé ou Moisés?

Calma.
Não é que o maior profeta do judaísmo seja ou tenha sido uma pessoa pior do que o patriarca que construiu a arca. Nem vice-versa. É que o filme que retrata a história do Êxodo sob a ótica do diretor Ridley Scott consegue superar, em heresias e invenções bizarras, o outro de Darren Aronofsky, que o precedeu em alguns meses. Já muito se discutiu sobre o cinema ser uma visão artística e, portanto, poder comportar certas licenças poéticas. Eu discordo um pouco, pois o cinema, pelo menos o americano, diferentemente do europeu (que é visto por seus realizadores como obra de arte) é eminentemente um produto industrial. E como tal, segue as regras do mercado. Busca atingir certos objetivos de venda (bilheteria superar o custo de produção já é um bom sinal, e o que passa disso – merchandising, licenciamentos, vendas para TV, DVD, blu-ray etc. é mais que bem vindo). Procura atingir um duvidoso “gosto médio”, aquela parcela da audiência que podemos classificar como “medíocre” no sentido exato da palavra – a que está “na média”. E por estar nessa “média”, não tem muito senso de valor estético ou artístico, está interessada apenas na diversão, no “fast food”.
Vamos combinar uma coisa: ambos extrapolam, e muito, o texto original, ou seja, o texto bíblico foi em grande parte desrespeitado, tido como apenas uma “leve inspiração”, que serve mais para dar às pessoas dúvidas sobre o caráter e a vontade de Deus do que criar pelo menos um interesse pela Bíblia. Trata-se a Palavra de Deus como um conto de fadas, uma coleção de mitos antigos.
Vejamos. O Noé do filme, ao contrário do Noé bíblico, não entendeu direito a mensagem que Deus mandou dar ao povo de sua época. Não pregou a possibilidade de salvação a ninguém, e ainda por cima quis matar membros de sua família!
O filme procura fazer uma média com evolucionistas e com os criacionistas, ao apresentar uma versão mezzo-pepperone/mezzo-calabresa da origem da vida: Deus criou o mundo, deu corda e foi pescar, deixando que as criaturas “evoluíssem” por si próprias. 
O uso de uma pele de cobra enrolada no braço sugere que o tephilim judeu tem uma origem no mínimo estranha. Por que alguém haveria de usar uma coisa tão sinistra como os restos da criatura que semeou a destruição e o pecado na Humanidade?
Nem vou discutir muito, por ora, a questão dos “gigantes de pedra”, cuja aparição deixa a entender que os anjos caídos serão redimidos, e ainda por cima, por suas próprias boas intenções e boas obras. Veremos isso depois quando discutirmos os nefilins e os “gigantes da antiguidade”.
Em nenhuma parte da Bíblia há a menor sugestão de que Noé tenha recebido ajuda de “gigantes de pedra”, ou nephilins, ou qualquer outra coisa, para construir a arca. É apenas uma explicação para o fato de que a arca deveria ser feita rapidamente, quando, ao contrário, a Bíblia diz que ela demorou um tempão para ser concluída (obviamente para dar tempo aos contemporâneos de Noé para se converterem). Isso é, na verdade, a dificuldade para se crer que os patriarcas viviam muito mais tempo do que os homens modernos (veja mais aqui, aqui e aqui).
Tubalcaim entrando na arca por uma passagem lateral é outro absurdo, pois sabemos pela Bíblia que ninguém se salvou, fora a família de Noé. Tudo bem que Tubalcaim morre no filme, mas não há espaço para se acreditar que alguém poderia “pegar carona” na arca (como no telefilme tosco com Jon Voight no papel do patriarca, foto logo mais abaixo).
Além do mais, a família de Noé no filme tem apenas 6 pessoas. Além de faltarem as esposas de dois de seus filhos, um deles ainda foge para longe (talvez o diretor tenha misturado a história com a de Caim, ver Gênesis 4:16: “Então saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden”). Isto deixa no ar um monte de dúvidas, como: com quem os filhos mais jovens de Noé se casaram? Para que tenham se casado e tido descendentes, de acordo com o filme o dilúvio não poderia ter sido universal. E se não foi universal, qual a necessidade de se juntar aquela bicharada toda na arca? Em algum lugar devem ter sobrado animais, assim como devem sobrado algumas pessoas, dentre as quais as futuras esposas dos outros filhos de Noé... quanto mais se mexe, pior fica. Veja que ao se questionar a veracidade e autenticidade do texto de Gênesis você coloca em cheque TODA a Bíblia e seus ensinos centrais, como o pecado, o juízo e a redenção! A coisa é séria!
Mas “Êxodo – Deuses e Reis” consegue ser ainda pior... Moisés agindo como guerrilheiro e revolucionário, provocando atentados e guerrilhas (um afago aos judeus ortodoxos e sionistas em geral?) é totalmente contrário à Bíblia, porque ela diz que ele era “varão mui manso” (Números 12:3). Tudo bem que ele matou um sujeito, mas Bíblia também é clara ao relatar que não era um soldado, e sim um feitor de escravos que açoitava um hebreu (Êxodo 2:11-12).
A sua fúria cessou quando ele viu a presença de Deus na sarça ardente.  Mas esse episódio no filme dá a entender que foi uma alucinação decorrente de uma pancada na cabeça... Nada sobre “tirar as sandálias dos pés”, porque o lugar era santo (Êxodo 3:5).
O “deus” que aparece para Moisés como um “amiguinho imaginário” é uma piada. Tudo bem que se procurou fugir da imagem de um velho barbudo ou de efeitos especiais (como no filme “Os Dez Mandamentos”, de 1956, com Charlton Heston e Yul Brinner nos papéis principais), mas o menino deste filme de agora, além de confuso nas suas “ordens”, é muito chato.
E é risível a discussão de Moisés com “Deus” acerca de quais artigos deveriam constar da “lei”. Moisés chega a dizer que se não concordasse com elas nem se daria ao trabalho de escrevê-las na pedra!
Aliás, homens discutindo com Deus de “tu para tu” são bastante comuns em filmes – é impossível para o Homem natural aceitar ser submisso. Vimos isso no telefilme sobre Abraão, onde o patriarca, ao receber de Deus a ordem para sacrificar Isaque, grita: “Não! Isaque não!”, o que, se fosse verdade, desqualificaria Abraão como “o pai da fé”. Isso eles não conseguem entender, que Abraão obedeceu incondicionalmente a ordem de Deus, por mais “absurda” que pudesse parecer. Esse Moisés é a mesma coisa. Tenho para mim que isso de “humanizar” os personagens bíblicos começou com “A Última Tentação de Cristo”, filme de 1988, dirigido por Martin Scorsese e com roteiro de Paul Schrader (ambos mestres em filmes violentos com “heróis sem caráter”). Baseado no romance homônimo de Níkos Kazantzákis, publicado em 1951, retrata um Cristo que não sabe bem a que veio, e que fica surpreso quando, instigado pelos apóstolos, manda Lázaro sair da tumba. Ele mesmo não havia pensado nisso, e quando Lázaro ressurge envolto em panos, “Cristo” fica surpreso, como se pensasse “funciona mesmo”! A partir daí virou moda “humanizar” heróis da Bíblia, como se eles não fossem humanos... deu no que deu.
Neste “Exodus”, Jetro já usava as roupas de sacerdote muito antes de aparecer a Lei, dando a entender que Moisés as copiou para os hebreus depois (ao contrário, Deus é que instituiu todos os paramentos, e antes não havia nada parecido); ver Êxodo 28:14-43.
É bem verdade que a história da sua adoção foi respeitada. É verdade que a Bíblia nada diz sobre a infância e juventude de Moisés, e a sua carreira militar é até plausível. Como eram, aliás, os pendores arquitetônicos do Moisés de Charlton Heston. Naquele filme há histórias paralelas que poderiam ter acontecido, sem nenhum prejuízo ao relato bíblico, por exemplo, Josué salvando a mãe verdadeira de Moisés, e sendo o pivô do crime cometido por este. Ou os futuros rebeldes israelitas já criando caso desde o início, mostrando seu “mau-caratismo”, instigando o povo ao pecado. Isso, na verdade, pouco importa, porque não está em contradição com a Bíblia. Mas se Moisés tivesse treinado revolucionários, com certeza a Bíblia relataria, até porque, no filme, eles falham miseravelmente. Seria uma lição e tanto o próprio Moisés (que escreveu o relato do Êxodo) mostrar que a tentativa humana fracassa, mas quando Deus entra no negócio a coisa funciona.
Seria... se as pragas não fosse tratadas como fenômenos naturais fortuitos, meros acidentes ambientais (à exceção da morte dos primogênitos, que ninguém até hoje consegue explicar com base na “ciência”). Já discutimos antes que a excepcionalidade e a coincidência das pragas não poderiam, em hipótese alguma, ser uma seqüência natural – veja sobre isto aqui. O filme até mostra um conselheiro “ambientalista” do Faraó explicando como “a natureza produziu as pragas”!
Ainda que o “deus-menino” emburrado pareça controlar tudo à sua maneira, de que serviria fazer um monte de prodígios se os egípcios não reconhecessem a sua mão por trás dos eventos? Muitos deixam escapar um importante significado das pragas, cujo propósito foi, além de forçar a libertação dos hebreus, justamente mostrar que o poder de Deus é superior ao dos homens, dos magos, e das entidades que eles adoravam como deuses.  As 10 pragas tiveram grande importância sobre os habitantes do Egito. Deus estava desafiando os “deuses egípcios”. É simples. 
Por que rãs, gafanhotos, sangue, chuva de pedras? O Deus de Israel estava se revelando ao Seu povo e ao império egípcio. Cada praga era direcionada a uma divindade, conforme a credibilidade do povo egípcio em confiar nesses “falsos senhores”, como veremos a seguir.
Água transformada em sangue (Êxodo 7:14-24) – A primeira praga causou desonra ao deus Hápi. A morte dos peixes no Nilo foi também um golpe contra a religião local, pois certas espécies de peixes eram realmente veneradas e até mesmo mumificadas.
Rãs (Êxodo 8:1-15) – A rã, tida como símbolo da fertilidade e do conceito egípcio da ressurreição, era sagrada para a deusa Heqt. Assim, a praga das rãs trouxe desonra a esta deusa.
Piolhos (Êxodo 8:16-19) – A terceira praga resultou em os sacerdotes-magos reconhecerem a derrota, quando se viram incapazes de transformar o pó em insetos. Atribuía-se ao deus Tot a invenção da magia ou das artes secretas, mas nem mesmo essa entidade pôde ajudar os sacerdotes-magos.
Moscas (Êxodo 8:20-32) – A linha de demarcação ficou nitidamente traçada daqui em diante. Enquanto enxames de moscas invadiam os lares dos egípcios, os israelitas na terra de Gósen não foram atingidos. Nenhum “deus” pôde impedí-la, nem mesmo Ptah, “criador do universo”, ou Tot, senhor da magia.
Peste sobre bois e vacas (Êxodo 9:1-7) – Humilhou deidades tais como Seráfis (Ápis), deus sagrado de Mênfis do gado, a deusa-vaca Hator e a deusa-céu Nut, imaginada como uma vaca com as estrelas afixadas na barriga. Todo o gado do Egito morreu, mas o de Israel sobreviveu.
Feridas sobre os egípcios (Êxodo 9:8-12) – Deus nesta praga zombou da deusa e rainha do céu do Egito, Neite. Moisés jogou o pó para o alto, e surgiu um tumor ulceroso na pele do povo. Os magos também pegaram a doença e não puderam adorar a sua deusa e padroeira. Israel novamente foi poupado.
Chuva de pedras (Êxodo 9:13-35) – A forte saraivada envergonhou os deuses que supostamente controlavam os elementos naturais, como Ísis (deusa da água) e Osiris (do fogo).
Gafanhotos (Êxodo 10:1-20) – Uma derrota dos deuses que, segundo se pensava, garantiam abundante colheita. Shu, deus do ar, e Sebeque, deus-inseto, não puderam fazer nada.
Escuridão total (Êxodo 10:21-23) – Com esta praga Deus derrubou o deus principal do Egito, Rá, o deus-sol. A palavra Faraó significa sol; ele era tido como um deus. O Egito ficou nas trevas durante três dias, mas Israel tinha luz.
Morte dos primogênitos (Êxodo 11-12) – inclusive entre os animais dos egípcios, que resultou na humilhação suprema. Os governantes do Egito chamavam a si mesmos de deuses, filhos de Rá ou Amom-Rá, mas depois disto todos souberam que o Deus de Israel era o Senhor. Deus destruiu todo deus falso do Egito. Na morte do primogênito Deus mostrou que Ele tem na Sua mão o poder da morte e da vida. Enquanto o Faraó tinha pretensão de ser adorado, de ser uma divindade, e o primogênito era em potencial um faraó (pois era o herdeiro do trono), Deus desmascarou a falsa deidade tanto do Faraó como de seu filho.
Mas nada disso se vê em produções hollywoodianas modernas. Claro. Não admitiriam isso nem debaixo de pragas... que aliás, é o que vai acontecer durante a tribulação que se aproxima (ver Apocalipse 9:20-21 e 16:9-11).
Dito tudo isso, por mais que se queira dizer que filmes são “licenças poéticas”, sou de opinião de que Bíblia não admite tais devaneios. Prefiro ficar com a “versão original”, pois deduzi que, ao ver essas “obras de arte”, joguei fora umas quatro horas de meu tempo e um bom punhado de dinheiro.

Nota: esta parte final, das 10 pragas e os deuses do Egito, veio de um estudo na Internet cujo autor não me lembro. Se o próprio autor ou alguém me avisar eu adiciono o devido crédito.

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Contradições (?) bíblicas - 11: questão de aritmética


Prossegue a crítica: a Bíblia estaria “de capa a capa, recheada de erros, barbaridades científicas, contradições e incongruências, os quais os ‘harmonistas’, sem nunca quererem admití-los, tentam contornar a qualquer custo para sustentar seus dogmas e crenças, com manobras e explicações mirabolantes e desonestas”. E dá como exemplo:
I Coríntios 15:5, com relação à ressurreição de Jesus, Paulo diz: “que apareceu a Cefas, e depois aos doze”. Os céticos afirmam que, com a morte de Judas e antes da eleição de Matias, restaram apenas onze, o que seria um erro humano de Paulo, fato que tira da Bíblia a qualidade de ser a Palavra infalível de Deus. Ora, essa é de uma infantilidade tal que nem deveria ser levada a sério. Mas eu levo a sério e digo que nos relatos não apenas se fala em onze, como também em 13 discípulos e pelo menos uma vez em dez discípulos – e nem por isso há contradição.
Veja só: Jesus “apareceu a Cefas, e depois aos doze”. Sim, depois de quê, cara pálida? Depois de algum tempo. É óbvio que, como Jesus apareceu “a mais de quinhentos irmãos duma [só] vez” – a maioria deles ainda estava viva quando Paulo escreveu essas palavras, e poderiam atestar a sua veracidade (v.6). Além do mais, “depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos”. Então é óbvio que Matias também testemunhou uma ou mais dessas aparições. Não há discordância ou erro. E além disso, a ênfase desse trecho de Coríntios é a autoridade apostólica, não o cartão de ponto dos apóstolos. O que interessa aqui é o ensino sobre a constituição dos fundamentos da Igreja, não explicar quem estava onde. O pessoal de Corinto já sabia que havia 12 apóstolos, não estavam preocupados com quem veio antes de quem, quem foi eleito depois etc.
Em outra parte a Bíblia diz que Jesus apareceu a dez discípulos, que foi quando Tomé estava ausente (devia estar procurando divergências na Torá e por isso perdeu a chance de se encontrar com o Cristo ressurreto). Judas havia se suicidado e Matias ainda não fora escolhido. E uma vez Jesus apareceu a pelo menos treze discípulos: os onze originais, sem Judas e com Tomé presente, mais os dois do caminho de Emaús, e ainda “outras pessoas” (provavelmente “não-apóstolos”): “E na mesma hora levantaram-se (os dois discípulos que vinham de Emaús) e voltaram para Jerusalém, e encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles” (Lucas 24:33). E se Matias estivesse presente (“os que estavam com eles”), Jesus teria aparecido “aos doze” (onze mais um), mais os dois de Emaús, e então seriam 14 discípulos... Em todo caso, o intuito de Paulo, na carta aos Coríntios, não é fazer acareação ou contabilidade do número de testemunhas.
A resolução desta aparente contradição passa pela seguinte regra de interpretação, já elencada anteriormente (princípios gramaticais): interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor; e interprete a passagem em harmonia com o seu contexto. O que ele está dizendo nesta carta se refere ao ministério apostólico, e que todos os apóstolos testemunharam a aparição do Cristo ressurreto. Por Cristo ter aparecido por último a ele, Paulo, ele mesmo se considerava um “abortivo”, um apóstolo “temporão”. É isso que ele está ensinando, não que os apóstolos eram 11, 12 ou 13.
Outro “erro bíblico” estaria em Atos 7:14, quando Estevão diz que “a parentela de José que desceu ao Egito era de 75 almas”. Mas Gênesis 46:27 nos informa o número de setenta. Vejamos: Estevão diz “a parentela”. O final da frase de Gênesis de fato diz “todas as almas da casa de Jacó, que vieram para o Egito eram setenta”. Agora por favor leia o versículo 26: “Todas as almas que vieram com Jacó para o Egito e que saíram da sua coxa, fora as mulheres dos filhos de Jacó, eram todas sessenta e seis almas”; e agora o 27: “e os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas almas. Todas as almas da casa de Jacó, que vieram para o Egito eram setenta”. Vamos ver isso direitinho. Guarde essas expressões: “da casa de Jacó” e “que saíram da sua coxa”.
Todos os que foram de Canaã para o Egito, “que saíram da sua coxa”, isto é, seus descendentes diretos, foram sessenta e seis. Fora as mulheres dos filhos de Jacó, como está claro no texto. Quantas e quais eram essas mulheres?
Se lermos a partir do verso 1, veremos que “Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha”. Os versos 5 e 7 dizem: “Então Jacó se levantou de Beer-Seba; e os filhos de Israel levaram seu pai Jacó, e seus meninos, e as suas mulheres... Os seus filhos e os filhos de seus filhos com ele, as suas filhas e as filhas de seus filhos”.
Vai somando aí: os filhos de Jacó (que é Israel), fora José (que obviamente não estava na caravana que “desceu ao Egito”), eram 11.
Os “seus filhos” (isto é, os filhos dos filhos de Jacó, os netos) somam 48; com os 11 filhos de Jacó, temos 59.
Mais quatro bisnetos (dois filhos de Perez e dois de Beria), 63.
Mais as três mulheres sobreviventes de Jacó: Lia, Bila e Zilpa (pois Raquel já tinha morrido), e temos 66.
Não estão nessa lista a filha de Aser (Será, v. 17, contada à parte), Diná (também contada em separado) e o próprio Jacó, o que dá 69. Falta um.
O verso 7 diz que foram com Jacó “os seus filhos e os filhos de seus filhos com ele, as suas filhas e as filhas de seus filhos”, mas só uma “filha de seus filhos” é chamada pelo nome: Será, filha de Aser (v. 17). Evidentemente havia outra neta de Jacó, cujo nome não está na lista; outra possibilidade surge quando olhamos de novo o verso 15, e vemos que “todas as almas de seus filhos e de suas filhas” (isto é, de Lia), e podemos entender que além de Diná, Lia teve uma outra filha, cujo nome desconhecemos.
Essa conta bate: “Todas as almas da casa de Jacó, que vieram para o Egito eram setenta” (Gênesis 46:27). Todas as almas que saíram da coxa de Jacó, isto é, seus descendentes diretos, eram 66; mais as três esposas sobreviventes e o próprio Jacó, são 70. Os cinco restantes – que constituem a diferença entre a informação de Gênesis e o testemunho de Estevão – poderiam ser o marido de Diná e outros “parentes”, como esposas dos netos de Jacó (pois se relata que um filho de Judá, Perez, tinha dois filhos, assim como um filho de Aser, Beria, que também já tinha dois filhos), ou noras de Jacó, isto é, mulheres dos filhos de Jacó; ou a outra neta não nomeada, ou ainda outra filha de Lia... Lembre-se que da conta em Gênesis 46:26 estão fora as mulheres dos filhos de Jacó. Sugiro que você faça a soma, posso ter errado... já a Bíblia... não erra.
Essa alegada “discrepância” é facilmente entendida, pois Estevão diz: “a parentela era 75”, e Gênesis diz que “os que saíram da sua coxa eram 66”, ou seja, descendentes diretos. Entre a “parentela” existiam alguns que não eram descendentes diretos, isto é, que “não saíram da sua coxa” (genros, noras etc.).
Um pouco de aritmética do ensino fundamental resolve fácil essa “dúvida”.

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segunda-feira, 31 de março de 2014

O Noé bíblico

Nós vimos que o relato de Gênesis contém verdades muito importantes para o que entendemos ser a vida cristã. Uma delas é que, se pensarmos que Gênesis é apenas uma fábula, anulamos por completo o juízo de Deus sobre uma humanidade corrupta, pois é em Gênesis que esse ensinamento aparece pela primeira vez, e depois é repetido pelo próprio Jesus Cristo. Ora, será que Gênesis é uma fábula, um mito? E será que Jesus acreditava em mitos? De modo que por isso temos que crer que quando Deus diz que o dilúvio aconteceu para punir a maldade do Homem, é porque um dilúvio aconteceu para punir a maldade do Homem!
E depois que humanidade tornou a se multiplicar, novamente o mal foi crescendo e as pessoas se esqueceram do Deus que havia preservado milagrosamente a espécie humana da destruição total. Se esqueceram de que Deus é quem dá a vida, e quem a pode tomar de volta. Passaram a confiar em si mesmas, e concentrando-se nos seus importantes afazeres diários, deram as costas para as advertências divinas.
Na época de Noé, já havia se passado bastante tempo desde que Adão desobedecera a Deus, e o pecado, o mal e a morte contaminaram toda a raça humana. As pessoas haviam se multiplicado sobre a face da Terra. Cálculos simples revelam que em poucos milhares de anos a população facilmente atingira uma cifra espantosa. Muita gente, mas todos tinham em comum o fato de serem, sem exceção, pecadores. Romanos 3:23 nos diz que “todos pecaram”. Por isso, a humanidade se tornou má, e Deus iria purificar a Terra: “Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente... Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor... Era homem justo e perfeito em suas gerações, e andava com Deus... Então disse Deus a Noé: O fim de toda carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a terra” (Gênesis 6:5; 8, 9, 13). Deus disse ainda como Noé deveria se salvar: fazendo uma arca de madeira, com instruções específicas de tamanho, revestimento à prova de água etc.
Ora, podemos imaginar que essa “arca” deve ter levado um tempão para ser concluída. Provavelmente, Noé e seus três filhos tiveram que ralar sozinhos, pois seus vizinhos, ao que parece, não os levaram a sério (tanto é que só Noé e sua família escaparam). Será que alguém trabalharia na construção do navio só para passar o tempo, ficando de fora na hora da catástrofe? Seja como for, parece que realmente poucos trabalharam no barco.
O que faria Noé se alguém perguntasse o que era aquilo? Eu acredito que Noé teria dito o que Deus lhe falara, que uma hecatombe viria e destruiria tudo, por causa da maldade dos homens, e que a única forma de se salvar era reconhecer a soberania de Deus e entrar na arca quando chegasse a hora. Não poderia ser de outra forma!
Penso também que Noé e seus filhos tinham outras atividades além da recém-adotada profissão de armadores. Eles tinham que prover o sustento de suas famílias. Talvez criassem animais e cultivassem uma horta. Como veremos adiante, nessa época o pastoreio de animais era uma atividade já desenvolvida (e provavelmente a agricultura também). Noé e os seus filhos com certeza tinham vizinhos que olhavam com estranheza aquela estrutura sendo montada. Assim, podemos ter certeza de que o Espírito Santo pregou através de Noé durante o tempo de construção da arca, aos homens que estavam “prisioneiros em seus espíritos”, que se convertessem de seus pecados, pois o fim viria logo. E temos certeza também que o Espírito Santo de Deus foi longânimo, pois a arca demorou até ser concluída.
Recentemente arqueólogos descobriram o que acreditam ser uma “outra arca”, uma “arca” redonda! (link aqui). A história é parecida: seus ocupantes deveriam levar animais, “dois a dois”, para sobreviver ao dilúvio que viria, etc. Mas agora isto se junta ao velho e falacioso argumento de que “muitos povos têm narrativas de dilúvio”, e por isso o texto bíblico seria uma “compilação de lendas de outros povos”. Ora, há aqui dois contra-argumentos que deveriam ser seriamente considerados.
O primeiro é que se há outros “relatos de dilúvio”, é obviamente por terem todos esses povos os mesmos ancestrais. A Bíblia nos relata que depois de algum tempo, quando os descendentes de Noé e seus filhos ainda habitavam uma região relativamente restrita (pois todos os outros morreram no dilúvio universal), ocorreu a dispersão das nações pela confusão das línguas, em Babel. É claro e evidente que, com o tempo, a narrativa possa ter sofrido modificações em relação à original, ou seja, a que foi preservada pelos hebreus, descendentes diretos de Sem, com a sua notória habilidade em manter registros detalhados das genealogias. Nações que se tornaram pagãs acrescentaram elementos místicos e assim surgiram narrativas com pontos distintos, mas com o mesmo roteiro.
O segundo é que se houve mesmo essa outra “arca redonda”, ela não funcionou! Veja bem, é plausível que tenha mesmo havido “outra arca”, quem sabe até mais de uma! Os contemporâneos de Noé, ao saberem da pregação do patriarca, trataram logo de fazer as suas próprias arcas. Mas evidentemente só a de Noé funcionou adequadamente. E aqui tiramos uma lição importante: Deus nos dá uma solução, Ele nos mostra um caminho, mas quando nós cismamos de inventar uma outra fórmula, ainda que parecida com a original, nos damos mal. Quebramos a cara. Estão aí as diversas religiões, todas se propondo a “levar até Deus”, “atingir a paz”, “o nirvana”, “a beatitude”; criamos rituais, “pontífices”, lugares sagrados. Mas nada disto dá resultado. Só Jesus é o caminho para o Homem se encontrar com Deus, só Ele é o Mediador! Não há outro caminho, doa a quem doer!
E enquanto os homens riam dele e tocavam suas vidas, e talvez alguns até se preocupassem em fazer “outra arca”, Noé dava testemunho da sua fé através das suas obras e sua obediência. Hoje, o Espírito Santo está falando através da Sua Igreja, a mesma mensagem de Noé: o tempo está se esgotando. Assim como nos dias de Noé. Mateus 24:37-39 - “Pois como foi dito nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do homem” (também Lucas 17:26-27).
Há até alguma discussão sobre se a analogia da arca se refere à Igreja que será arrebatada ou a Israel sendo preservado da Tribulação que há de vir sobre o mundo. Mas uma coisa é certa: assim como foi nos dias de Noé, assim também será no fim dos tempos.
Hoje, como naquele tempo, o mundo em geral segue um caminho descendente. Embora, como nos dias de Noé, possam haver avanços tecnológicos e descobertas, no campo moral a coisa vai de mal a pior. Podemos imaginar , com base no relato bíblico, que os contemporâneos de Noé fizeram progressos tecnológicos. Lemos em Gênesis que alguns dos descendentes de Caim desenvolveram atividades complexas como a metalurgia, o pastoreio de gado e a música. Pela descrição bíblica, é bem provável que essas pessoas tenham sido contemporâneas de Noé, pois o número de gerações a partir de Caim e de Sete (o outro filho de Adão e Eva, da qual descende Noé) é parecido. A Bíblia relata que Tubal-Caim (que era ferreiro), Jubal (pastor nômade) e Jabal (músico) compõem a sexta geração a partir de Caim. Pelo lado de Sete, a sexta geração nos mostra Matusalém, o histórico patriarca conhecido como o homem mais longevo de que se tem notícia, e que foi o avô de Noé. Quando fazemos as contas, vemos que o último ano de vida de Matusalém coincide com o dilúvio. Será que Matusalém morreu afogado no dilúvio ou Deus o teria preservado, levando-o antes da catástrofe? Seja como for, o que é bem provável é que o mundo ao redor de Noé estivesse experimentando avanços tecnológicos (para a época). A própria construção do barco gigante deve ter sido uma coisa fenomenal, nunca vista antes.
Mas a despeito da inteligência, a moral decaía. Jesus disse aos seus discípulos que nos dias imediatamente anteriores ao dilúvio universal as pessoas só queriam saber de prazeres carnais: comiam, bebiam, casavam-se davam-se em casamento. Não que essas coisas sejam erradas em si, mas diante de uma catástrofe iminente, não deram ouvidos ao alerta e continuaram nos seus afazeres, sem a menor alteração de suas rotinas. “Até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos”.
Jesus acrescenta ainda mais detalhes. Ele diz também que no tempo de Ló, o pessoal de Sodoma não queria saber de preocupação: “Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam”. Tudo na mais perfeita ordem, diriam. “Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os destruiu a todos”.
Hoje, como naquele tempo, não se quer dar ouvidos à Palavra de Deus. Ela diz que a maldade se espalhou, mas as pessoas dizem que não, o Homem está progredindo.
A Palavra de Deus diz que as guerras se multiplicariam, como sinal de que estamos vivendo os últimos dias; mas as mesmas pessoas que dizem que o Homem está progredindo, dizem que sempre houve guerras.
A Bíblia diz que haveria terremotos em vários lugares, mas as pessoas dizem que sempre houve terremotos, é que havia lugares desabitados e ninguém soube o que havia por lá.
A Bíblia adverte contra a decadência moral, mas o pessoal de Sodoma diz que qualquer um pode fazer o que quiser, com quem quiser, pois é tudo apenas uma “opção”. E quem disser que não, que isso é uma conduta pecaminosa, é processado, perde o mandato, é ridicularizado e enxovalhado nas redes sociais (habitat preferido dos “moderninhos”), é preso sem direito a fiança.
A Bíblia nos adverte para nos preocuparmos com o futuro, mas a mídia diz que não, é preciso aproveitar o momento, “carpe diem”, e seguir seu próprio coração.
A Palavra de Deus nos ensina sobre o futuro com lições do passado, mas dizem que “o mundo é assim desde o início”, uma falácia pois ele já foi transformado pelo dilúvio universal, um juízo de Deus sobre toda a carne. As pessoas é que são assim desde o início. O apóstolo Pedro também já tinha ouvido essa conversa fiada, como relata em sua segunda carta. Ele citou os argumentos dos “escarnecedores com zombaria”: “todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”... “Pois eles de propósito ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste; pelas quais coisas pereceu o mundo de então, afogado em água; mas os céus e a terra de agora, pela mesma palavra, têm sido guardados para o fogo, sendo reservados para o dia do juízo e da perdição dos homens ímpios”.
Mas Deus é paciente, e “é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se”.
Só que um dia esse tempo de graça chegará ao fim, como no dia em que Noé entrou na arca: “Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas”. Assim como nos dias de Noé, quando um juízo de Deus veio sobre toda a carne, em breve novo julgamento se derramará sobre a Humanidade, desta vez em fogo, pois tudo o que não tem condição de ser restaurado, será destruído. E esse alerta, “indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição” (II Pedro cap. 3).

Deus já providenciou uma arca, que é Jesus.
Ele é longânimo, como nos dias de Noé.
Mas a arca vai se fechar e levar poucas pessoas.
Onde você estará naquele dia?

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domingo, 14 de agosto de 2011

As vacas sagradas evangélicas - parte 2

Outro dia, passeando pela blogosfera dita evangélica, vi outra “vaca sagrada”: um blog defendendo com unhas e dentes que Abraão e Jacó eram dizimistas, com base em Gênesis 14:20 e 28:22. Com isso, o rapaz dizia que, como a Bíblia conta a vida desses patriarcas resumidamente, não se pode dizer que eles deram o dízimo apenas uma vez e assim, presume-se que eles “dizimavam” regularmente – portanto, nós também.
Primeiramente, quero dizer que não tenho nada com isso: faça com o seu dinheiro o que quiser. Dê para quem quiser, o quanto quiser. Se quer dar 10% dos seus rendimentos para essa ou aquela instituição, esse ou aquele sacerdote, vá em frente e seja feliz, pois o dinheiro não traz felicidade mesmo. Agora, querer justificar isso na Bíblia, aí me dá licença que eu vou dizer umas coisas.
Faço isto aqui porque o tal blog não aceita comentários “longos”, mas não há como esclarecer o assunto em duas ou três linhas. Aqui temos espaço, graças a Deus, e paciência para ler e debater as “vacas sagradas evangélicas”, doa a quem doer. Em outros blogs não, mas aqui sim. É o seguinte.
Abraão de fato deu o dízimo. Mas supor que ele era “dizimista fiel” porque viveu muitos anos e deu o dízimo outras vezes, em outras ocasiões não relatadas nas Escrituras, é presunção, e nada mais. A Bíblia diz que, após uma ação militar, em que Abraão e seus associados venceram um inimigo, o patriarca encontrou-se com Melquisedeque e lhe deu uma parte do saque. E Jacó, ao acordar de um sonho, disse que se Deus o abençoasse daria “o dízimo de tudo”. Nada mais se sabe, a não ser que:
- foram atos voluntários. Não havia mandamento ou ordenança que obrigasse Abraão ou Jacó a dar 10% do que quer que fosse a quem quer que fosse, ainda mais por não se ter noticia de sacerdotes do Deus Altíssimo nessa época, a não ser Melquisedeque.
- Abraão não residia em Salém (a atual Jerusalém), onde Melquisedeque, além de sacerdote, era rei (um símbolo de Jesus, conf. epístola aos Hebreus); assim, onde será que Abraão entregava seu dízimo “regularmente”? E Jacó?
- Gênesis 14:20 diz que Abraão deu o dízimo de tudo. Claro que foi o dízimo do saque, e mesmo que forcemos a barra e digamos que ele deu o dízimo de tudo o que possuía (“rebanhos e gado, prata e ouro, escravos e escravas, camelos e jumentos”, Gênesis 13:2 e 24:35) – não restaria mais nada para “dizimar”. Ou ele daria o dízimo de tudo várias vezes? É óbvio que, se ele deu o dízimo de tudo que possuía, foi só uma vez. Mas o texto deixa claro que era o dízimo do saque. Abraão não recebia salários ou outros rendimentos regularmente, portanto, não havia razão para “dizimar” mais de uma vez. Jacó, idem.
- Como Abraão teria feito para dar o dízimo de escravos? Lembre-se, é o dízimo “de tudo”, e escravos estão relacionados entre seus bens.
- O dízimo de Abraão foi produto de uma ação isolada, em data e local determinados. Jacó... não sabemos onde, nem quando, nem como nem a quem “entregou o dízimo”, nem se foi mais de uma vez.
- Dízimo não era em dinheiro, era em bens. O que os defensores do dízimo se esquecem convenientemente é que a única passagem que fala em oferta financeira, Levítico 27, é claramente uma exceção à regra: se alguém, por diversas razões, não ofertasse em bens, preferindo fazer em dinheiro, resgatava o valor da oferta (boi, carneiro, farinha, etc.), com uma taxa de 20% a mais sobre o valor da avaliação. Alguém aí na igreja faz isso hoje em dia? Paga o dízimo em dinheiro com mais 20% de taxa???
- Hoje, a maioria de nós recebe salários, proventos, pensões, ou outro rendimento regularmente, e portanto, se fôssemos fazer como os patriarcas, “dar o dízimo de tudo”, o normal seria fazermos isso a cada vez que recebêssemos o salário. OK. Só que não estamos mais obrigados a isso, pois o dízimo – e outras realidades do Velho Testamento, como a circuncisão, o sábado, o sacrifício de animais – era apenas sombra do que ainda seria revelado à Igreja.
O que as pessoas precisam entender é o seguinte:
Nas diversas dispensações, que são pactos que Deus fez com o Homem, há uma série de ordenanças, cujo cumprimento resulta em bênçãos e cuja desobediência gera punições. Em cada dispensação, algumas ordenanças e promessas anteriores são mantidas, outras são substituídas, e outras simplesmente extintas, ao passo que novas ordenanças podem ser adicionadas ao pacto.
Por exemplo, na primeira dispensação, Deus disse a Adão e Eva basicamente que O obedecessem; a bênção prometida era que os seus descendentes (cf. Gênesis 1:28-30) dominassem (isto é, governassem) a terra; a desobediência traria a morte. Quando o primeiro casal desobedeceu a Deus, a morte e o pecado entraram na história da humanidade trazendo toda sorte de males (para os quais alguns como Ricardo Gondim ousam culpar a Deus, como você pode ver aqui); e Satanás usurpou o domínio, como deixou transparecer a Jesus na tentação milênios depois (cf. Mateus 4).
Na era dos patriarcas, Deus disse a Abraão, Isaque e Jacó que cressem nas promessas. Quando essa promessa se cumpriu, e a descendência dos patriarcas se materializou numa multidão tão grande como a areia do mar – como Deus dissera – uma nova aliança (ou dispensação) se inaugurou, e a Lei foi dada a Israel por meio de Moisés. Algumas práticas antigas foram mantidas – a guarda do sábado (estabelecida desde Gênesis 2:2,3); a circuncisão (desde Gênesis 17:14); animais puros e impuros (Gênesis 7:2, 8); sacrifício propiciatório (Gênesis 8:20; 22:13; 31:54; 46:1; Êxodo 3:18). Outras novas foram introduzidas – o sacerdócio levítico, por exemplo; e outras foram atualizadas, como o dízimo, que agora serviria para sustentar a tribo sacerdotal e os desvalidos, cf. Deuteronômio 14:28; 16:11; 26:12 etc. E outras determinações foram abolidas, por já serem desnecessárias: por exemplo, o “encher a terra” de Gênesis 1:28 e “não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal” de Gênesis 2:17. Isto já não fazia mais sentido.
É importante esclarecer que o que chamamos de “a Lei de Moisés” possui três núcleos:
- Lei Moral: são preceitos comuns a toda a Humanidade, como honrar os pais, fazer caridade, não cobiçar os bens alheios, evitar a usura. Quase todas as culturas possuem esse tipo de ordenanças; princípios éticos e morais que ainda perduram e são válidas para todos; Êxodo 20:1-17 e Romanos 2:14-15.
- Lei Civil/Penal: abrange a definição de crimes, como assassinato (mesmo acidental), estupro, divórcio, etc., e suas punições (multas, ressarcimentos, restituições, pena capital por apedrejamento, banimento, cidades de refúgio); leis sobre escravos, transferência de terras, heranças etc.; foram aplicadas a um determinado contexto, mas hoje não se praticam mais nem no moderno Estado de Israel (Êxodo 21:1-23:33).
- Lei Cerimonial: é a que mais nos interessa, pois trata da religião e do relacionamento dos homens com Deus, e que vigorou até João Batista, o último profeta do VT, cf. Mateus 11:13 e Lucas 16:16. Aqui se enquadram os holocaustos, sacrifícios de sangue, as ofertas pacíficas, o sacerdócio levítico, o tabernáculo (e depois o templo), os dízimos, as ofertas alçadas, a circuncisão, a primogenitura, o nazireado, a purificação ritual, os alimentos puros e os impuros, o sábado, etc. (Êxodo 24:12-31:18). Para entender o dízimo é importante ter isso em mente.
O descumprimento do pacto leva sempre ao juízo. Assim, se você insiste em cumprir partes da Lei, deve cumpri-la toda, cf. Tiago 2:10 (“Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado culpado de todos”) e Gálatas 3:10 (“Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las”). Se você insiste em dar dízimo, deve antes se purificar, e também guardar o sábado, não tocar em coisa impura, inclusive mulher menstruada, não comer carne de animal impuro, circuncidar-se etc. Caso contrário, estará incorrendo em juízo. Porventura não foi o que sucedeu com os fariseus no tempo de Jesus? Davam “o dízimo de tudo”, mas odiavam o semelhante, adulteravam com os olhos, negavam a caridade aos necessitados. E muitos hoje “dizimam” servindo a Mamom, pois sua oferta é um investimento para ter prosperidade.
Os “sacerdotes” que aceitam isso são os verdadeiros ladrões de Malaquias 3:8 (“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas”). E ainda há alguns lobos que avançam até sobre o 13º  salário das pessoas, dizendo que Paulo em I  Coríntios 16:2 “no primeiro dia da semana”, quer dizer “dizimar periodicamente”! Malandramente omitem a outra parte do verso, “cada um de vós ponha de parte o que puder”! Ladrões! Escondem II Coríntios 9:7 – “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento”! Mercadores da religião!
Hoje, o véu do templo se rasgou de alto a baixo, isto é, na sua totalidade, completamente, sem retorno; foi cancelado, extinto, substituído todo aquele pacto!
Por isso Hebreus 8:13 diz: “[o] novo pacto tornou antiquado o primeiro. E o que se torna antiquado e envelhece, perto está de desaparecer”; e por isso Jesus disse, ao anunciar a sua morte e ressurreição, “Este cálice é o novo pacto em meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20). Qual é o novo mandamento desse novo pacto? “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mateus 22:37-40).
À Igreja não foi imposta a Lei, conforme lemos em Atos 15, especialmente os versos 19 e 20! Nada mais é necessário neste novo pacto sob o qual vivemos! Não mais sangue de bodes e carneiros (cf. Hebreus 9:11-15), não mais sacerdotes profissionais (I Pedro 2:9), levitas (Hebreus 6:20; 7:11); templos de pedra e tijolo (Atos 7:48; I Pedro 2:5); tudo isso foi abolido com o sacrifício totalmente suficiente de Jesus Cristo. 
Para a Igreja não há mais dízimos (não há mais templo, sacerdotes, levitas ou estruturas religiosas que mereçam ser sustentadas); circuncisão (que agora é espiritual); primogenitura, pois todos somos herdeiros com Cristo. Se não há mais nada disso, a contribuição neo-testamentária deve ser voluntária e destinada ao sustento dos desvalidos, conf. Atos 4:34-37; 6:1; 11:29,30; II Coríntios 9.
Negar isto é querer tapar o sol com a peneira de coar mosquito, só que nessa peneira tem um buraco onde passa um camelo! (Mateus 23:24). Insistir em práticas já abolidas é o mesmo que tentar recosturar o véu que Jesus rasgou na Sua morte! Se bem que tem “igrejas” que até “arca da aliança” usam em seus “cultos”: as mesmas que estão reconstruindo o “templo de Salomão”... o que mais vocês queriam?
Eu sei que é difícil, para muitos, abandonar as velhas idéias e sofismas, resultado de anos de doutrinação. Não é fácil aceitar que fomos enganados por muito tempo, crendo que Deus se agrada de dinheiro. John Maynard Keynes disse que a maior dificuldade não é aceitar novas idéias, mas escapar das velhas. É difícil mesmo abandonar velhas idéias. 
Mas uma vez que desce o entendimento, percebemos que somos livres para ofertar voluntariamente o quanto Deus colocar no nosso coração, sem obrigação de quantia ou periodicidade religiosa, sem o peso de ordenanças mortas.
A você, que ao contrário do nosso amigo blogueiro evangélico, teve paciência e disposição para ler mais de dois parágrafos, agradeço. E mais uma vez, não tenho nada com o seu dinheiro. Mas se você quer andar para trás, entrar debaixo da Lei e viver como os judeus de séculos passados, boa sorte. Eu não, pois não sou judeu e vivo em outra dispensação, a da Igreja, e por isso termino com a pergunta de Paulo a Pedro: “por que queres obrigar os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas 2:14).
E vem mais vaca pela frente...
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domingo, 4 de janeiro de 2009

A contagem do tempo nos tempos bíblicos

Neste link, mostramos que Jesus não nasceu de fato em 25 de dezembro, mas sim em setembro/outubro, com base no calendário anual usado em Israel desde o tempo de Moisés, vamos discutir mais um pouco sobre contagem do tempo.
Há uma corrente tosca que afirma ser a contagem do tempo nos tempos bíblicos diferente da atual. Isto porque certas mentes que se acham lógicas e racionais têm dificuldade em concordar com a idade avançada atingida por certos patriarcas, que segundo o relato bíblico chegaram a viver centenas de anos. Alegam tais intelectualóides que o ano bíblico, naqueles tempos, durava seis meses, ou até mesmo um único mês. Mas isto é um absurdo, como veremos.
A melhor forma de se comprovar que o ano bíblico era igual ao nosso é a narrativa do dilúvio. Nela encontramos registros precisos de datas, dias, meses e anos que resistem a qualquer calculadora. Antes, porém, algumas considerações são necessárias. 
A idade dos patriarcas - A Bíblia relata que, quando Deus anunciou a Noé que haveria um dilúvio, este contava com 500 anos de idade. A maioria das pessoas torce o nariz para essa cifra, assim como para a idade de outros patriarcas. Matusalém ou Metuselá, segundo a Bíblia teria morrido com 969 anos de idade (Gênesis 5:27 diz: “E foram todos os dias de Metuselá 969 anos; e morreu”); foi o mais longevo ser humano que já houve, e por isso é um dos mais conhecidos personagens bíblicos. É provável que as narrativas das vidas dos patriarcas do Gênesis tenham originado a suposição de que “naquela época” contava-se o ano como seis meses, ou um mês, quem sabe.
Esse argumento é falho. Vejamos: se cada ano fosse de seis meses, Matusalém teria morrido com 484 anos e meio.
Assim daria para acreditar? Ainda não? Então suponhamos que cada ano fosse igual a um mês dos nossos. A idade de Matusalém ao morrer seria, então, de quase 81 anos. Mais plausível. Mas dessa forma, José, filho de Jacó, ao ser vendido como escravo ao Egito, ao invés de 17 anos conforme o relato bíblico (Gênesis 37:2 diz: “Sendo José de dezessete anos, apascentava as ovelhas com seus irmãos...”), teria a idade de 17 meses, ou seja, menos de um ano e meio. E seria ministro do Faraó aos trinta meses de idade, ou dois anos e meio (Gênesis 41:46 diz: “E José era da idade de trinta anos quando esteve diante de Faraó, rei do Egito.”). Ou seja, para se resolver um problema, criamos inúmeros outros, o que foge completamente a toda e qualquer regra de interpretação, não apenas bíblica, mas de qualquer texto.
É óbvio que os povos antigos seguiam um calendário muito semelhante ao nosso. Sabe-se que desde o Paleolítico havia medições de tempo mediante observações atentas do Sol, da Lua e das estrelas. Em um primeiro momento, o ciclo do Sol – as variações entre a claridade e a escuridão – foi empregado na contagem dos dias e noites. Depois, as variações da Lua – com suas respectivas fases – determinaram a concepção de períodos maiores.
Assim foi possível estipular os meses e, com base na variação das estações, a consolidação dos anos. No início, a contagem do ano apresentava um problema, pois o ciclo da Lua dura apenas 28 dias. De tal modo, diversos povos realizavam o acréscimo intencional de alguns dias para equalizar com o ciclo solar.
Desde a mais remota Antiguidade, o aprimoramento dos calendários esteve ligado ao desenvolvimento das atividades agrícolas. Afinal era necessária uma medição de tempo precisa e adequada para o planejamento do plantio, colheita e armazenamento dos grãos, e também para a programação da caça, dos ciclos de migração e nas festividades religiosas.
Os egípcios organizavam seu calendário a partir de um ano dividido em três diferentes estações, a partir da variação das águas do Nilo. Eram as estações da inundação, a da semeadura e a da colheita. Como era preciso antecipar a ocorrência de cada uma dessas épocas, a constante observação das estrelas também servia como referencial. Já no século V a.C., os egípcios adotavam um calendário com 365 dias, subdividido em 12 meses com 30 dias e os dias “adicionais”.
A sofisticação desse sistema era tanta que em determinados períodos havia um acerto que compensava as diferenças mínimas que eram verificadas, da mesma forma que hoje acrescentamos um dia a cada quatro anos, 0 29 de fevereiro dos anos bissextos.
Mas e a longevidade dos patriarcas, como se explica? Isso é comprovado pela ciência e pela ecologia modernas. Sabe-se que a poluição atmosférica, o uso de agrotóxicos, e fenômenos como o aquecimento global e o buraco na camada de ozônio têm efeitos devastadores sobre a vida humana. Sabe-se também que as condições gerais do planeta vêm se deteriorando através dos séculos. Se recuarmos no tempo, a conclusão lógica é que, quanto mais jovem era a humanidade, mais saudável deveria ser, pois embora hoje existam vacinas e medicamentos para várias enfermidades, na antiguidade não se tem notícia de muitas doenças que hoje nos afligem como AIDS e câncer. Alimentação mais natural, mais exercício físico, ar puro e muitas recomendações que os médicos fazem hoje em dia então não existiam, pois as práticas habituais das populações não exigiam muitas visitas aos especialistas...
E a Bíblia ainda complementa, dizendo que antes da época de Noé não havia chuva (o que foi motivo da incredulidade daquele povo. Não creram em Noé e sua advertência sobre o dilúvio vindouro porque nunca haviam visto “cair água do céu”). Ao contrário, “Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra... um vapor, porém, subia da terra e regava toda a face da terra” (Gênesis 2:5,6). Um efeito similar ao de uma estufa era a base do primeiro eco-sistema relatado.
Que efeitos essa estufa teria sobre o homem? Não sabemos ao certo, mas é lícito supor que provavelmente filtraria muitos tipos de radiação que hoje atingem diretamente a superfície do planeta, prolongando em muito a duração da vida humana. Com o dilúvio, essa estufa deixou de existir, pois o vapor condensou-se e desceu sob a forma de chuva torrencial, iniciando o ciclo de chuva e evaporação conforme o conhecemos. Em outra ocasião comentaremos sobre se o volume de água na forma de vapor subitamente precipitado como chuva torrencial seria suficiente ou não para inundar toda a terra. Mas por ora é interessante notar que, após o episódio de Noé, a duração da vida humana vai diminuindo progressivamente, até que na época de Moisés – cerca de 800 anos após Noé – a média é de 100 a 120 anos.
O que isso prova? Isso apenas confere com os dados sobre outros povos contemporâneos dos patriarcas bíblicos. Sabe-se perfeitamente e sem sombra de dúvida que os egípcios, fenícios e babilônios possuíam os mais perfeitos calendários que já houve. No caso dos primeiros, é notória a precisão astronômica da construção das pirâmides, por exemplo, e a exatidão do calendário proporcionada pela observação das cheias anuais do Nilo. No caso dos últimos, acontecia o mesmo, em relação ao Tigre e ao Eufrates. Assim, acusar os contemporâneos hebreus de usarem um método completamente inexato de contagem do tempo é, no mínimo, usar dois pesos e duas medidas. Nessa hora, esquecem-se de que Moisés, que compilou e escreveu o relato do Gênesis, viveu a infância e boa parte da vida adulta no Egito, e certamente não cometeria esse erro grotesco.

A seguir: A CONTAGEM DO TEMPO NOS TEMPOS BÍBLICOS, PARTE 2: NO NOVO TESTAMENTO E NO DILÚVIO