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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mitos e fábulas SOBRE a Bíblia

Falamos outro dia sobre a crença de que a Bíblia, em especial o livro de Gênesis, seria um mito ou uma compilação de lendas e fábulas de diversos povos e culturas. Mostramos que esse entendimento é errado, e porque. Esclarecemos a tática ateísta para desacreditar a Bíblia enquanto Palavra de Deus, pois desqualificando o primeiro livro da Escritura todo o resto perde o seu valor: torna-se apenas literatura.
Um outro ponto interessante é que abundam na Internet citações atribuídas aos mais diversos filósofos, pensadores e intelectuais, que nunca disseram tais frases. Em anos eleitorais então a coisa ferve: o que aparece de pensamentos de Sêneca, Arnaldo Jabor, Luiz Fernando Veríssimo, até de Marx, vaticinando sobre a corrupção no governo, é brincadeira. Eu costumo dizer que nem se Einstein tivesse vivido mais uns 30 anos seria capaz de produzir tantas frases a ele atribuídas na Internet. 
A respeito da Bíblia, é a mesma coisa. As pessoas dizem coisas sobre a Bíblia sem nunca tê-la lido, ou no máximo conhecerem ao menos alguns trechos. O seu ralo conhecimento das Escrituras vem da revista Veja, da Superinteressante e do Discovery Channel. 
Sabemos que, embora muitos não aceitem, assim como Deus é real o Diabo também é, e como antagonista e inimigo, procura de todas as formas ganhar adeptos para o seu exército. Uma dessas formas é justamente espalhar lendas e mitos SOBRE a Bíblia. Assim fica fácil para o tentador lançar sementes de dúvidas travestidas de filosofia, de humanismo e de lógica. Como essas:
Alguns luminares das trevas, sem argumentos que sustentem suas teses ridículas, dizem que “um Deus que pune toda humanidade por causa de uma maçã não merece nosso respeito nem consideração, muito menos adoração e submissão”. Mas, contrariando essa teoria tosca, Adão e Eva não comeram uma maçã no livro de Gênesis. Na realidade a fruta não é nomeada - ela é referida somente como “o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. A razão para este equívoco provavelmente se deve ao fato de que na língua inglesa a palavra apple (traduzida em português como “maçã”) era usada para se referir a todas as frutas (como no Português “fruto”, palavra masculina). Com o passar do tempo, a palavra “maçã” acabou associada ao “fruto do pecado”, e assim tem aparecido em inúmeras propagandas, desde roupa íntima a motéis. Até mesmo uma famosa marca de computadores baseia-se na interpretação de que “a maçã” simboliza conhecimento e inteligência. O fato concreto nisso tudo é que nessa canoa furada embarcam muitos auto-intitulados intelectuais.
Outro erro cabeludo em que quase todo mundo cai é “os Três Reis Magos”. Mas na verdade, esses personagens nunca foram referidos como reis pela Bíblia e nada indica que eles eram três. A única referência ao número três é o número de presentes que eles carregavam. Leia sobre isso aqui.
E assim caminha a humanidade, atribuindo à Bíblia todo tipo de erro e mistérios que de fato nem estão lá. Antes de mais nada, é preciso anotar que a Bíblia não é um livro científico, por isso há que se ter sabedoria para discernir o que é literal e o que é alegórico. Por exemplo, dizer que “o sol parou” - parou do ponto de vista do escritor. Mas e se foi a Terra que parou? Que alguma coisa parou, não há dúvida. Aqui o nós temos que aprender é que Deus é poderoso o bastante para interferir nas leis da física - que foram criadas por Ele mesmo, afinal. Mas dizer que “a Bíblia contém erros porque o sol não gira em torno da Terra”, é procurar chifre em cabeça de cavalo... Que, aliás, é o que esse pessoalzinho intelectualóide gosta de fazer.
Só para esclarecer, quem crê que a Bíblia diz que o Sol gira ao redor da Terra é uma besta quadrada, porque em nenhum lugar do texto sagrado se afirma isso. Todo mundo diz que “o sol nasce a tal hora”, e “se põe em tal lugar”, e nem por isso é ridicularizado. Por outro lado, muito antes de Galileu, Newton, Tycho-Brahe, Kepler, Copérnico, Huble e muitos, muitos outros, a Bíblia já dizia que Deus “estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada” (Jó 26:7); e que Ele “está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos” (Isaías 40:22).
Se isto não significa que o planeta paira no vácuo do espaço, e que não é redondo, então não sei mais o que é. Alguns dirão, fazendo caras e bocas de sábios, que a palavra “redondeza” não quer dizer “globo”, mas sim “círculo”, e para isto fazem extensos arrazoados onde misturam conceitos de religiões antigas, textos poéticos da própria Bíblia e afirmações pseudo-científicas, para dizer que a Bíblia não diz o que diz e que diz o que não diz. Ou seja, criam mitos SOBRE a Bíblia.
Dizem outros que a Bíblia adverte: “a mil chegarás mas de dois mil não passarás”. Isto não consta das Escrituras. Pelo menos eu nunca vi essa passagem. E além do mais, nunca consegui descobrir o que significa exatamente essa bobagem, mas vi muita gente – antes do ano 2000 – dizer que era a dica para avisar que o fim do mundo seria nesse ano em particular. Mas depois que mudamos de milênio alguns gênios passaram a ter certeza do erro da Bíblia, porque “já passamos de 2000 e nada aconteceu”. Depois adiaram esta data fatídica para que coincidisse com o calendário maia, um povo, como disse Samuel Fernandes, “aterrorizado por demônios, povo pagão, ensopado no caldeirão das trevas”, que previu o fim do mundo para 21 de dezembro de 2012. Mas a Bíblia não diz nada sobre datas, a não ser que “daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai” (Mateus 24:36).
Chamam de erros da Bíblia coisas que nem mesmo estão na Bíblia.
Como o “código da Bíblia”. Esse “código”, também conhecido como o código da Torá, seria um grupo de mensagens supostamente existentes no texto bíblico, que se devidamente decodificadas dariam informações proféticas e previsões das mais diversas. O estudo e os resultados desta mensagem cifrada tem sido popularizada por livros como “O Código da Bíblia” e “O Código Da Vinci”. O principal método pelo qual se acredita encontrar estas profecias é o “Equidistant Letter Sequence” (ELS). Para se obter uma ELS em um texto, é necessário escolher um ponto de partida (em princípio, qualquer letra) e então é dado um salto numérico entre elas, também livremente e possivelmente negativo. Assim é possível separar essas letras que, depois de agrupadas (apenas as selecionadas) formariam as tais previsões. Defensores dos códigos da Bíblia geralmente usam textos da Bíblia hebraica. O uso e a publicação de “previsões”, baseado em códigos da Bíblia, principalmente com base no trabalho do jornalista Michael Drosnin, teria revelado o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. Interessante é que geralmente os “profetas” deste método anunciam suas previsões depois que elas aconteceram. Como é que esse código hoje é tido como anunciando o assassinato de Kennedy, mas nada diz sobre Barack Obama ou Bin Laden, por exemplo?
A origem de toda essa mixórdia está num sistema inventado pelos escribas judeus para evitar erros nas cópias manuscritas (aliás, “erro na Bíblia” é outra falácia que agora vamos desmontar).
Com o método massorético (de “massorat” = transmissão fiel) eles verificavam atentamente cada letra, sílaba, palavra e parágrafo. Dentro de sua cultura, eles dispunham de grupos de homens com funções específicas, cuja única responsabilidade era preservar e transmitir esses documentos com uma fidelidade praticamente perfeita – eram os escribas, copistas e massoretas. Os massoretas contaram os versículos, as palavras e as letras de cada livro. Calcularam a letra e a palavra que ficava no meio de cada livro. Fizeram uma lista dos versículos que continham todas as letras do alfabeto, ou um certo número delas; e assim por diante. No entanto, o que consideramos hoje uma trivialidade, teve o efeito de garantir uma atenção minuciosa à transmissão fiel do texto. Na verdade, os massoretas tinham um preocupação profunda de que não se omitisse nem se perdesse um só i ou til, nem uma só das menores letras ou uma pequena parte de uma letra da Lei.
Dentre as exigências que os escribas deviam seguir em relação às Escrituras, algumas são:
- o rolo de pele (pergaminho) onde a cópia seria feita deveria conter um certo número de colunas, o qual deve se manter igual por todo o manuscrito
- o comprimento de cada coluna não poderia ser inferior a 48 nem superior a 60 linhas, e a largura deveria ser de 30 letras
- devia-se primeiramente traçar as linhas de toda a cópia, e se 3 palavras fossem escritas sem linha, a cópia era inutilizada
- devia-se fazer a cópia a partir de uma cópia autêntica, da qual o transcritor não podia se desviar de modo algum, sendo proibido escrever qualquer palavra ou letra de memória, isto é, sem o escriba tê-la visto no códice diante de si
- entre cada consoante devia haver o espaço de um fio de cabelo ou de uma linha
- entre cada capítulo devia haver a largura de 9 consoantes, e entre um livro e outro o espaço de 3 linhas
- o quinto livro de Moisés (que fecha o Pentateuco) devia terminar exatamente no final de uma linha
- era contado o número de vezes que cada letra aparecia em cada livro, assinalada a letra que ficava exatamente no meio do Pentateuco, e a que ficava exatamente no meio da Bíblia toda; e várias outras regras que tornavam o trabalho de copiar as Escrituras virtualmente à prova de erros, já que depois disso tudo ainda havia a revisão feita por três especialistas. Os rolos de pergaminhos fora das especificações eram condenados a ser enterrados ou queimados, assim como os que ficavam gastos pelo tempo e a tinta começava a desaparecer. É por isso que não existem cópias muito antigas, o que também evitava a má interpretação originada de uma leitura mal feita, equivocada, ou mal-intencionada.

Assim, dizer que “a Bíblia tem erros” é mais um mito SOBRE a Bíblia. 

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Contradições da Bíblia? (2)

Sempre que vejo certos argumentos usados para desacreditar a fé cristã, o cristianismo bíblico e a própria Bíblia em si, enquanto Palavra inspirada de Deus, me dá vontade de rir. Os mesmos que dizem ser a Bíblia uma coleção de mitos de povos semi-civilizados, ou que afirmam ser ela fruto da mente de homens maliciosos, tentando dominar os demais alegando serem profetas, esses mesmos demonstram tanto desconhecimento acerca do objeto de seu ódio, que dá até pena.
Um idiota chamado José Francisco Botelho escreveu as seguintes asneiras na revista “Superinteressante”:
Em algum lugar do Oriente Médio, por volta do século 10 a.C., uma pessoa decidiu escrever um livro. Pegou uma pena, nanquim e folhas de papiro (uma planta importada do Egito) e começou a contar uma história mágica, diferente de tudo o que já havia sido escrito. Era tão forte, mas tão forte, que virou uma obsessão. Durante os 1000 anos seguintes, outras pessoas continuariam reescrevendo, rasurando e compilando aquele texto, que viria a se tornar o maior best-seller de todos os tempos: a Bíblia.
Com esse texto extremamente preconceituoso (sim, é pré-conceito, um conceito emitido antes de conhecer o objeto), ele tenta, obviamente, desqualificar a Bíblia enquanto Palavra inspirada, reduzindo-a a um amontoado de escritos aleatórios e manipulados, alterados a cada reedição. Nada mais distante da verdade, como veremos.
Esse pessoal bate na manjada tecla da manipulação. Como aquela turma que lê um livro de sucesso momentâneo, tipo “O Código da Vinci” (ou pior, só vêem o filme), e saem soltando pérolas como “é tudo manipulado”, “Constantino escreveu a Bíblia”, “a igreja escondeu livros que divulgavam ensinos contrários” (como o quê? Que Maria Madalena casou com Jesus?), e que “muitos outros evangelhos que mostram Jesus diferente foram destruídos”.
Aliás, por falar em Maria Madalena, sempre se referem a ela como prostituta. Mas de fato em nenhuma parte da Bíblia é dito que Maria Madalena era prostituta. Na verdade, ela quase não é mencionada na Bíblia. Com exceção de sua presença na ressurreição, a única outra coisa que a Bíblia diz sobre ela é que foi possuída por sete demônios e que, junto com outras mulheres, seguia Jesus. “Evangelho de Madalena”? Conta outra, essa é fraca.
Quanto a destruir “evangelhos”, que a igreja católica combateu as heresias de forma às vezes até excessivamente violenta eu não escondo, pelo contrário. Tenho mostrado direto aqui esse e outros erros do catolicismo. Mas quem afirma as bobagens acima parece não saber que a influência dos imperadores nos assuntos religiosos era ínfima. 
Lembrando – no inicio do quarto século, havia dois imperadores, Constantino e Licinio; e a corrente cristã apoiada por eles (ariana) foi considerada herética pelo Concílio de Nicéia. Entretanto Constantino não retirou o seu apoio aos “hereges”, o que lhe valeu a oposição de muitos bispos, entre eles Atanásio de Alexandria, cujo papel no combate à política pró-ariana de Constâncio II (filho e sucessor de Constantino) foi notória na história eclesiástica do século IV.
Também dizer que o imperador é que decidiu que livros deveriam entrar na Bíblia e quais não, como forma de dominar os cristãos, é outra idiotice. Sabemos que Constantino foi imperador romano e que ostentou, mesmo após a conversão ao Cristianismo, o título de “Pontifex Maximus” pagão, visto que não aboliu os cultos pagãos. Mas disto concluir que ele presidiu concílios e até foi “papa” já é demais! Eu sempre afirmo que, por mais que se discuta se o Edito de Milão (que aboliu as perseguições aos cristãos) marca o inicio da união entre Igreja e Estado, é fato que a partir dali a Igreja Cristã se transforma em igreja católica, com todas as suas mazelas que já são notórias. Fato é que o líder católico adotou o título de “Pontifex Maximus”. Mas desqualificar a Bíblia por causa da suposta influência de Constantino na formação do cânone é um despropósito fenomenal. Constantino não só não definiu o cânone do Novo Testamento no primeiro Concílio de Nicéia (no ano 325) como esse Concílio nem ao menos mencionou a constituição da Bíblia. Isto já estava resolvido há muito tempo, conforme atesta Eusébio de Cesaréia na sua “História Eclesiástica”, IV:25 (aliás, a lista dos livros sagrados relacionada por Eusébio não tem os apócrifos). E além do mais, Constantino não tinha nem poder de voto no Concílio - ele compareceu apenas como observador.
“Ah, mas a igreja destruiu livros que poderiam mudar a história do cristianismo”. Dizem que durante o Concílio de Nicéia “foram destruídos centenas [sic] de evangelhos e outras centenas sumiram, incluindo os ‘Manuscritos do Mar Morto’ e os evangelhos de Judas, Maria Madalena e Tomé, [dentre outros]; durante esse Concílio foi criado o mito da divindade de Jesus... foram selecionados quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) entre cerca de 400... esses evangelhos mostram um Jesus mais divino, já os que foram queimados e sumiram mostravam um Jesus mais humano ou sequer citavam o nome dele. Constantino e sua fingida conversão ao cristianismo criaram uma das maiores farsas da história, a divindade de Jesus”...
Santa ignorância, Batman! A discussão que houve sobre “a divindade” foi, na verdade, sobre a “essência” divina, quando os pais da Igreja teorizaram sobre se Jesus possuía a mesma essência (homoousious) do Pai ou se era semelhante (homoiousious). Não se questionou, em nenhum momento, se Jesus era divino ou não.  Uma polêmica, de resto, bastante metafísica, que não dá para explanar aqui – como também foram as discussões sobre se Maria era mãe de Deus ou apenas do Homem Jesus (isto é, o de Seu corpo carnal), e se o Espírito Santo fazia parte da Divindade. Isso foi necessário para formar o corpo doutrinário do cristianismo, pois não era possível deixar tudo “ao Deus dará”. Desse concílio emergiu o “Credo Apostólico”, uma confissão de fé que resume a crença cristã. Outras coisas foram discutidas, como a data da Páscoa, e nada disso ocorreu de forma leviana como sugere o pseudo-jornalista acima. Os debates duravam meses, teses eram apresentadas, esmiuçadas e por fim, dependendo da sua densidade  e consistência teológicas, eram aceitas ou não; mas o assunto da formação da Bíblia não foi mencionado pelo menos até o ano 397. A inclusão dos apócrifos foi assunto que continuou em discussão por séculos.
Mas para isso não foi preciso “destruir” os “outros evangelhos”. Foi verificado que esses “outros evangelhos” não eram realmente inspirados como os quatro “escolhidos”; basta ver as bobagens que eles contêm, e que já vinham sido combatidos desde o tempo dos primeiros apóstolos. Veja II Coríntios 11:4 e Gálatas 1:6, ambos escritas no ano 58 d.C., onde já se adverte acerca do “outro Cristo” que andava sendo pregado na época. Provavelmente era um “gezuz” genérico, quase igual, mas diferente do original, talvez mais místico, gnóstico. Talvez cheio de “sabedoria oculta”, ou até mesmo com influências orientais, estóicas ou platônicas, quem sabe? Ou até “mais humano”, como o de Saramago e o de Kazantzakis. Em todo caso, era um “falso cristo”. E isso continuou, tanto que décadas mais tarde, outro apóstolo fazia o mesmo alerta. I João 2:18 e II João 7, para ficarmos só nesses exemplos.
Mas nem mesmo os chamados livros apócrifos foram destruídos! Tanto não foram que sempre foram conhecidos, e até foram incorporados oficialmente à Bíblia católica no concílio de Trento, de pirraça, diga-se, porque a Reforma Protestante seguia o cânone já consagrado e não os manteve nas diversas edições baseadas nos textos originais. Então, os apócrifos não foram “destruídos”, apenas não entraram na lista canônica. Convenhamos, um “evangelho” que mostra Jesus criando passarinhos de barro, não tem nada a ver, tinha que ser excluído mesmo... já basta Deus criar  o homem a partir do barro. Jesus fazendo passarinho já é demais. Podiam até escrever livros e mais livros sobre a infância de Jesus, etc., mas daí a terem o mesmo grau de inspiração divina que os evangelhos originais, é outra conversa. Leia João 21:25, e depois, João 20:31 e 31 – aqui está a razão pela qual alguns livros estão na Bíblia e outros não!
E os Manuscritos do Mar Morto não foram destruídos por Constantino; afinal, acabaram descobertos 1700 anos DEPOIS de Constantino, nas cavernas de Qumram.
É tanta bobagem, é tanto argumento sem fundamento, é tanto palpite preconceituoso, como a péssima matéria do seu Zé Botelho na tal revista desinteressante, que eu vou parar por aqui, por absoluta falta de espaço.
Eu vi uma vez a exposição “Pergaminhos do Mar Morto”.
Foi montada uma sala com objetos e utensílios da época, que é “a sala do escriba”: tem a escrivaninha, e em cima dela, um tinteiro de pedra com a pena dentro. É emocionante imaginar que João e os outros apóstolos provavelmente estiveram em lugares como esse, e usaram instrumentos bem semelhantes, para nos transmitir a Palavra de Deus. Não se trata de, como escreveu o infeliz articulista, de alguém que cismou de escrever coisas como se fosse Deus. Não. Nenhum homem, por mais esperto que fosse, seria capaz de escrever sobre coisas que só aconteceriam milhares de anos depois. Ninguém poderia acertar tantos fatos, como por exemplo, a primeira vinda de Cristo, que se cumpriu nos mínimos detalhes. Clique e veja.
Ainda mais emocionante é você ler a tradução dos documentos e ver que os Salmos e os Profetas têm exatamente a mesma redação que a nossa Bíblia. Não há diferença! É fascinante você ver aqueles documentos, alguns com mais de 2000 anos, ali na sua frente, com o mesmo texto que você encontra em qualquer Bíblia! Onde está a manipulação, onde estão as “alterações”?
“Erros” ou “alterações”? Não acredito. É o método massorético usado nos manuscritos originais que preservava o texto, letra por letra. Leia aqui sobre isso. De mais a mais, aqueles que ainda ousam duvidar da autoria dos escritos bíblicos, poderiam pelo menos se dar ao trabalho de procurar trechos em o próprio apóstolo ressalta: “Eu mesmo escrevi, de próprio punho; fui eu mesmo”. Veja como exemplo João 21:24I Coríntios 16:21; Colossenses 4:18; II Tessalonicenses 3:17; Filemom 19.
Então, não acredito na teoria do acréscimo ou da manipulação... pode haver algumas diferenças mais de cunho lingüístico - não sei porque não é a minha área principal - mas o sentido é exatamente o mesmo. Por exemplo, a Bíblia católica, baseada na Vulgata, traz "geena" e a protestante, baseada na Septuaginta, traz “inferno” mesmo, embora "hades" (termo grego) também servisse, em lugar do hebraico "sheol". Mas se formos olhar bem o significado do termo, o lugar "geena" era uma espécie de lixão, um vale em Jerusalém onde queimavam entulho, carcaças de animais etc, e ali o fogo era constantemente alimentado. A ilustração de Jesus, “onde o fogo não apaga” (Marcos 9:43-48), é perfeita. Há "geena" numa tradução e “inferno’ na outra. Mas o sentido é o mesmo. O que falta a certos críticos é uma coisa chamada hermenêutica.
E não. A Bíblia não é a palavra do homem, doa a quem doer.

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quinta-feira, 5 de abril de 2012

As relíquias do romanismo parte II

A semana chamada santa é pródiga em manifestações emocionais. Procissões, templos cheios de gente e de velas, muita pompa e circunstância, tudo regado com lágrimas incontidas de pessoas com pena de Jesus, que, coitado, era tão bom e sofreu tanto na mão dos malvados romanos e judeus. A procissão do “Senhor Morto”, então”, costuma ser o ápice da tristeza, como se Jesus não tivesse ressurgido da tumba em três dias. Muitos templos exibem suas relíquias, sejam autênticas ou não, e aumentam em muito o clima de emoção, como é o caso da peça de tecido conhecida como “Sudário de Turim” (a suposta mortalha de Jesus), sobre a qual você pode ler aqui.
Mas ao lado do “Sudário” há outro artefato que acabou se transformando numa das mais controversas relíquias que existem – ou não. Trata-se do “Santo Cálice”, também denominado “Santo Graal”, a taça que teria sido utilizada por Jesus na Santa Ceia. Embora esse objeto não tenha sua autenticidade confirmada, especialistas se reuniram na cidade de Valência, no leste da Espanha, em um “Congresso Internacional” pelo 1750º aniversário de sua suposta chegada à Espanha.
Tema de inúmeras lendas, livros de estudiosos, misticismos de todas as tendências e até de filmes como Excalibur e Indiana Jones, a taça na qual Jesus teria tomado vinho com seus discípulos, pouco antes de ser crucificado, tem sua posse reivindicada também por outras cidades ao redor do mundo, passando por Santiago de Compostela e a badalada capela de Rosslyn, na Escócia. No entanto, a pesquisadora americana Janice Benett e o historiador alemão Michael Hessemann afirmam que ela está de fato na catedral de Valência desde 1424. A igreja católica por enquanto não reconhece oficialmente esta relíquia, mas Bento XVI celebrou uma missa com o “Santo Cálice” quando visitou Valência em 2006. (http://noticias.gospelmais.com.br/valencia-quer-provar-que-tem-o-santo-graal.html)
Veja aqui quanta baboseira as pessoas levam a sério! Esta lenda já virou uma espécie de ímã para todo tipo de lixo cultural e teorias estapafúrdias. Por isso, é bom colocar tudo em pratos limpos: o famoso cálice não tem nada a ver com Maria Madalena, Cavaleiros Templários ou sociedades secretas. E, aliás, o Graal também não tem nada a ver com Jesus Cristo.
A existência de um suposto cálice milagroso onde o sangue do Messias teria sido recolhido não passa de uma invenção da Idade Média – uma história bolada pelo poeta mais famoso da época e, desde então, aumentada por autores posteriores. A lenda fez muito sucesso simplesmente por juntar duas grandes paixões do público medieval: cavalaria e fé. E foi sendo repaginada pelos séculos dos séculos – inclusive as teorias da conspiração tão populares no fim do XX e começo do XXI.
Poucos historiadores hoje duvidam de que Jesus e seus apóstolos realmente celebraram uma última ceia. Os Evangelhos narram a cerimônia. Sabemos até como era a bebida servida nessa época. Quanto às condições materiais do suposto Graal, podemos dizer que Indiana Jones estava certo – ao menos num quesito. No filme o arqueólogo escolhe como o verdadeiro Graal “o cálice de um carpinteiro”, feito de madeira e de aparência humilde. De fato, judeus das camadas populares provavelmente bebiam em recipientes de cerâmica ou madeira.
Pareciam simples cuias, como os da região de Qumran, no mar Morto, como este da foto. No entanto, é muito pouco provável que os utensílios de mesa utilizados por Jesus em sua refeição final tenham sido preservados. Para começar, como afirma o Novo Testamento, a sala onde a ceia aconteceu era alugada.
Além disso, o hábito de guardar relíquias começou cerca de um século após a morte de Jesus. Para os primeiros seguidores de Cristo, o importante não era preservar seus objetos pessoais, mas sim espalhar sua palavra. Mas aí, diante da narrativa um tanto lacônica e resumida dos Evangelhos, surgiram histórias de caráter popular e gnóstico, como o Evangelho de Nicodemos, do fim do século IV, que  narra como José de Arimatéia e Nicodemos deram um enterro digno ao corpo de Jesus, e como o soldado romano Longino feriu Cristo com uma lança. Logo começaram a circular lendas sobre as relíquias do Sangue Santo – que José de Arimatéia e Nicodemos teriam recolhido do corpo de Jesus – e sobre a lança sagrada, dois elementos que voltariam depois na história do Santo Graal.
A lenda estava mais ou menos nesse pé quando surgiu o escritor francês Chrétien de Troyes. Ninguém sabe exatamente de onde Chrétien de Troyes tirou a inspiração para seus romances, por volta do ano 1180. Ele já fazia sucesso com histórias sobre os cavaleiros da Távola Redonda, especialmente Lancelote, o mais valoroso deles. É então que ele decide escrever uma nova saga sobre Percival, um jovem nobre que perde o pai e é criado pela mãe.
“Percival é uma espécie de bom selvagem, não sabe se comportar em sociedade por ter sido criado no meio da mata”, afirma José Rivair Macedo, especialista em história medieval da UFRGS. Numa outra versão Percival era um brucutu que, ao encontrar um grupo de cavaleiros na floresta fica tão fascinado que parte para a corte do rei Arthur, torna-se cavaleiro e sai em busca de aventuras. E é aí que o Graal finalmente entra em cena. Percival chega ao castelo do Rei Pescador, onde presencia uma tal procissão do Graal, e vê uma lança que sangra (a lança de Longino?) e “um graal” - a palavra é usada de modo genérico por Chrétien.
Uma passagem do filme “Excalibur” (dirigido por John Boorman em 1981) mostra de forma emblemática e cheia de imagens sub-liminares que a descoberta do significado do Graal (uma sabedoria gnóstica?) liberta o homem dos seus medos e lhe dá liberdade. Noutra passagem o mago Merlin diz ao Rei Arthur: “A era dos deuses acabou... agora é o tempo dos homens e seus feitos”. O segredo do Graal tornaria os homens superpoderosos.
“A tradução para o português seria escudela”, diz Macedo - uma travessa, do tipo usada hoje para servir peixes ou carnes. Ironia das ironias: o Graal original não é um cálice, mas um prato! Chrétien dá a entender que o Graal carregava uma única hóstia, que servia de alimento para o pai do Rei Pescador, gravemente ferido. Depois que Percival deixa o castelo, encontra um eremita, que lhe diz que o Graal é “uma coisa muito santa”, e a história termina aí, sem final. Há quem ache que Chrétien tenha morrido antes de concluí-la.
Os autores que vieram depois de Chrétien juntaram o mistério do Graal com o Evangelho de Nicodemos e as imagens religiosas da época para sugerir que, na verdade, a “coisa muito santa” era o prato (ou o cálice) onde José de Arimatéia e Nicodemos teriam recolhido o sangue de Jesus.
Embora as histórias incorporem elementos da mitologia celta, seu pano de fundo é basicamente católico.
O Graal funciona como um símbolo da Eucaristia, o sacramento da transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo. Beber (ou comer) do objeto restaura a saúde do rei e, de quebra, leva o cavaleiro direto para o Paraíso – exatamente os atributos da doutrina da Eucaristia.
Com a popularidade do mito, várias igrejas passaram a reivindicar a posse do cálice, como Valência, na Espanha, e Gênova, na Itália (o mais provável é que sejam objetos de origem árabe, do começo da Idade Média). Um outro, descoberto na Síria no começo do século 20 (o “cálice de Antioquia”) chegou a ser tido como o Graal original até se descobrir que não passava de uma lâmpada a óleo.
Código da bobagem - A lenda do Graal atingiu popularidade recente graças ao livro “O Código Da Vinci”, que afirma que o Santo Graal na verdade seria o sang real – o “sangue real” dos filhos de Jesus com Maria Madalena, que teriam migrado para a França, protegidos ao longo dos séculos pelo chamado Priorado de Sião.
Tudo isso é bobagem, usada pelo escritor americano Dan Brown (e outros antes dele) para aumentar a popularidade de seus livros. Primeiro, as evidências de que Jesus e Maria Madalena tenham casado e tido filhos são nulas (assim como as de uma suposta viagem dela para a França). O Priorado de Sião é uma fraude criada por um vigarista francês no princípio do século XX (assim como o livro falso chamado “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, usado como pretexto para perseguir judeus por todo o mundo). E a expressão sang real é só uma leitura equivocada da expressão san greal, “Santo Graal”, por alguns escritores do século XV. E portanto, uma igreja reivindicar a posse de um artefato lendário é a maior bobagem que se pode conceber. Até agora.
O pior de tudo é que o catolicismo, em sua sanha de misturar toda e qualquer besteira lendária com suas histórias de santos e milagres, a fim de arrecadar novos adeptos, manter os antigos sempre alienados e resgatar os que escaparam de suas garras, acoberta tais fraudes sob o manto da piedade e do zelo religioso, em nome da tradição. Leia mais sobre este tema clicando aqui. Melhor fariam se seguissem o que os apóstolos, que eles dizem obedecer, escreveram séculos atrás:
“Porque não seguimos fábulas engenhosas quando vos fizemos conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, pois nós fôramos testemunhas oculares da sua majestade” (I Pedro 1:16).
Contra todas essas lendas, homens corajosos e que amavam a Palavra de Deus acima de tudo, mais até do que suas próprias vidas, disseram “não” a esse estado de coisas e abandonaram o cipoal de maracutaias em que se tornou a igreja. Queriam eles apenas reformar o que estava errado, e por isso ficaram conhecidos como reformadores. E em razão de seu protesto contra a ditadura espiritual, o movimento ganhou o nome de Reforma Protestante, em um 31 de outubro, quase quinhentos anos atrás.

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