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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Ciro ou Nabucodonosor?

Nada como um dia depois do outro, ou uns anos. Vinha eu pesquisando sobre o rei persa Ciro, quando eis que me deparo com um determinado blog de um cidadão falando sobre ele. E lá fui ler.

Mas que coisa. Escrito em outubro de 2018, poucos dias após a eleição presidencial, o artigo tentava fazer um paralelo entre o ex-capitão e Ciro – como relata a Bíblia em II Crônicas 36:22-23 e Esdras 1:1-2 – também mencionado em Isaías como “ungido” e em Daniel. 

Poucas vezes vi uma barra tão forçada. E essa balela foi comprada por muitos no meio evangélico, como se esse presidente fosse “libertar o Brasil” – do comunismo, ou sei lá do que.

Mas se formos prestar atenção a essa época da história de Israel, o paralelo mais óbvio que salta aos olhos não é o do rei Ciro, “o grande”, o rei “libertador”, mas sim outro também chamado “o grande” – Nabucodonosor meio século antes. E agora veja como faz muito mais sentido...

Assim como Ciro, Nabucodonosor conquistara Jerusalém. Mas acabam aí as semelhanças. Ciro: inteligente e fazia alianças com rivais (apesar de também ser capaz de grandes mortandades que ocorriam nas guerras daqueles tempos sombrios). Nabucodonosor: de índole violenta, pilhava, saqueava, matava e destruía todos que se lhe opusessem.

Atrocidades bem detalhadas na “História dos Judeus” de Flávio Josefo, como o general Nebuzaradã que, após a rendição, massacrou brutalmente os sobreviventes, saqueou tudo que encontrou, em especial o Templo construído por Salomão quase 500 anos antes. Nada restou, só a terra arrasada, morte, desalento e o povo sem direção.

E o que vimos três anos depois da postagem do nosso amigo acima? O país destruído pela miséria, doença e insensatez de governantes – militares, diga-se – que deixaram o povo à míngua, comendo ossos de boi, pé de galinha, arroz “quebradinho”, carcaças de frango e de peixes, restos que muitos não dariam a seus cães.

A rapina impera. Falsos profetas, como alertou Jeremias (que viveu naquela época) soltam falsas promessas de riqueza, prosperidade e tranquilidade, quando a morte se aproxima a galope.

Para terminar, digo que nestes dias do Nabucodonosor tupiniquim – não de Ciro, o “libertador” – estão sobrando Nebuzaradãs e faltando Daniéis, Misaéis, Ananias e Azarias, que foram levados ao palácio real, mas não participaram dos banquetes blasfemos de homens vis, maledicentes. Imaginem os quatro mancebos de Judá numa reunião ministerial como essa...

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domingo, 13 de novembro de 2016

Ser evangélico no Brasil e suas implicações políticas

Ser evangélico se insere numa longa tradição. Mas hoje em dia “ser evangélico” é o mesmo que ser submetido a uma série de estereótipos que pareciam sepultados, mas que desde a ascensão do chamado “fundamentalismo” ressurgiram com força máxima. Esse fundamentalismo representa uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames desses “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. A única opção válida de atuação política é a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Por isso surgem excrescências como a “bancada evangélica”, e discursos como “temos que ter gente nossa no governo”. Em alguns outros casos, levanta-se a bandeira da defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma, sem o qual, afirma-se, não existe cristianismo.
Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o fundamentalismo moderno se arvorou em única forma legítima de fé cristã.
Qualquer estudo da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.
Depois que a religião assumiu uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada. 
Assim que classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológico-doutrinárias baseadas na Reforma Protestante do século XVI. De fato, desde o século X já se dizia que era preciso se reaproximar do Cristo dos evangelhos, com a Igreja cada vez mais afetada pela promiscuidade política do clero – então uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas como compra de cargos, guerras e assassinatos. O papado tornou-se um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos entre o povo pobre e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na Reforma: de um lado os fiéis a Roma, de outro as várias igrejas que surgiram: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas na Suíça, Alemanha e França, Escócia e Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; e anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.
Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando o serviço militar e cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua, recusando-se a pagar tributos a Roma. Anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.
Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Na Holanda lutaram para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinham garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.
No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.
Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.
Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?
Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.
As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram ter uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados - o caso mais emblemático é o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.
Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho: a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Ninguém
mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.
Não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico significa – ou pelo menos deveria significar – lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, e na assistência desinteressada aos pobres fora dela; na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.
Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra quem pensa diferente. Como que fazem “pastores” de idéias tão díspares entre si como Silas Malafaia e Paschoal Piragine, que incitam os fiéis a não votarem no PT ou no PSOL, por serem “contra a fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho, já que ninguém lê a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na igreja e o pastor em questão seria destituído na próxima assembleia.
É claro que isso não vai acontecer. Assembléias nas igrejas viraram instâncias de homologação de show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Os crentes não se dão ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de seus pastores. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico.
Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza. Deveria significar não permitir que carreiristas se assumissem como porta-vozes da igreja e da fé. Deveria significar maturidade. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Adaptado de um artigo publicado originalmente por André Egg em Revista Amálgama (09/09/2010) Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro “Arte e política no Brasil: modernidades” (Ed. Perspectiva, 2014). http://www.revistaamalgama.com.br/09/2010/caso-piragine/


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sábado, 24 de setembro de 2016

A igreja a serviço da política

O teto dourado de uma igreja ortodoxa russa que está sendo construída às margens do rio Sena, em Paris, França, se destaca na paisagem. Dominada por prédios governamentais e embaixadas, a área foi escolhida pelo presidente russo, Vladimir Putin, para a construção de um “centro cultural e espiritual russo”. Putin conseguiu do governo parisiense a concessão para a construção, mas não sem despertar dúvidas do serviço de segurança francês, que desconfiava que a Rússia estaria criando um centro de espionagem no coração de Paris.
No entanto, a inteligência francesa deixou passar despercebido um pequeno detalhe. Embora tanques e artilharia sejam as armas preferidas de Putin para projetar seu poder, ele vem usando a religião para expandir a influência do país. Inimiga fervorosa da homossexualidade e de qualquer tentativa de colocar direitos humanos acima dos valores familiares tradicionais, a igreja ortodoxa russa ajuda Putin a retratar seu país como um aliado natural daqueles que pregam por um mundo mais seguro, menos liberal e livre da quebra de tradições da globalização, dos direitos das mulheres e dos homossexuais.
Graças à estreita aliança entre a igreja ortodoxa russa e o Kremlin, a religião teve um papel central para manter antigos países da união soviética sob a influência russa. Em Moldova, por exemplo, sacerdotes ortodoxos leais a Moscou têm trabalhado de forma incansável para impedir que seu país se integre ao Ocidente.
“A voz da igreja e a voz de políticos russos, não todos, mas a grande maioria, são a mesma. Para mim, a Rússia é a guardiã dos valores cristãos”, disse Marchel Mihaescu, um bispo ultraconservador de Moldávia. Aos seus fiéis, Mihaescu disse que o novo passaporte biométrico criado pela União Europeia é “satânico” porque contém 13 dígitos. Ele também tentou sabotar a lei do país que proíbe a discriminação de gays no ambiente de trabalho afirmando que ela iria despertar a ira de Deus e romper as relações do país com a “mãe Rússia”. “A igreja se tornou um instrumento do estado russo. Ela é usada para estender e legitimar os interesses do Kremlin”, disse Sergei Chapnin, e ex-editor do jornal Moscow Patriarchate, controlado pela igreja ortodoxa russa e suas afiliadas fora do país.
O papel da igreja ortodoxa russa em Paris somente ficará claro, de fato, quando ela for inaugurada. Porém, os que estudam os métodos de Putin preveem que ela servirá de “megafone” para a busca de Putin por influência global.
Ela será um contraponto aos ideais laicos e de liberdade da França e aqueles que se identificam com seu viés ultraconservador e antimoderno verão na Rússia um bastião de seus valores. (FONTE)
Achei muito interessante esta noticia porque a situação se repete do lado de cá do Atlântico e do Equador. Não, não foi a construção de igrejas ortodoxas em locais bacanas. Se bem que aqui andam construindo igrejas em locais bem caros também. A semelhança se dá por conta da influência do governo na igreja, e o seu uso como instrumento na perpetuação no poder. No caso aqui, primeiro foi na tomada do poder.
Nem precisa, mas vou explicar.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou sistematicamente na oposição à presidente eleita, a partir do dia seguinte à apuração dos votos, em estreita colaboração com os candidatos derrotados na eleição.
Uma coisa chamada bancada evangélica trabalhou em peso na formatação do golpe parlamentar que depôs a presidente eleita.
Essa coisa, que antes escondia de suas congregações passagens bíblicas como Romanos 13:1-7, preferia outras como Provérbios 29:2 (“quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), insinuando que a situação do país ia mal por culpa de um governo demoníaco, e que com a sua saída o país seria um paraíso na Terra. Eu mesmo recebi essas passagens bíblicas, digamos, selecionadas a dedo, de muitos evangélicos, alguns bem intencionados, outros nem tanto.
Essa bancada “evangélica” mudou radicalmente de posição. Antes, malhava o governo, diariamente. Em sessões no Congresso, em entrevistas combinadas com jornais, rádios, revistas e emissoras de TV simpáticas ao golpe. Em programas de televisão, em postagens do Twitter e do Facebook, em vídeos do Youtube, e evidentemente, em sermões eclesiásticos. Mas agora, da noite para o dia, incentiva seus tentáculos espalhados pelo país a 
fazer campanhas de oração em favor “do Brasil e do governo”, para que “tenhamos paz”. Leia aqui um exemplo. Sim, precisamos de paz, mas eles não se lembram (ou melhor, se esquecem) de quem começou a confusão, em 5 de outubro de 2014.
Assim como Vladimir Putin usa a igreja ortodoxa russa – com ou sem conivência ou conhecimento dos sacerdotes, talvez nunca saibamos – certas correntes políticas do lado de cá também usam (principalmente) a igreja evangélica para seus propósitos. Aqui eu aposto todas as fichas que os “sacerdotes” sabem de tudo. Faz parte de um projeto de poder que eu venho expondo há anos, em todos os artigos que postei sobre o “dominionismo”.
Bem, aí está.
A bem da verdade, o clero sempre foi ávido pelo poder temporal. Desde que o cristianismo virou religião oficial do império romano, e sentiu o gostinho de mandar em todo mundo (inclusive na política), o poder mundano se tornou sua ruína. Durante toda a Idade Média, papas coroavam imperadores e reis, e governavam o reino do espírito e o da carne, o mundo. Na revolução francesa, o clero foi banido, junto com a sua amiga a nobreza, mas logo se alinhou com os novos senhores do mundo, a burguesia. E com ela segue junto até hoje. Inclusive na Rússia e na China, pós-comunistas, onde existe uma igreja venal, vendida, como a brasileira, mais interessada nos negócios terrenos do que nos celestiais. Em todas as denominações ditas cristãs, diga-se. 
O projeto de poder está chegando aos “finalmente”. Basta você ver, no noticiário, todos os dias, o desmonte progressivo da democracia. Você vê todos os dias as investigações seletivas endereçadas a algumas personagens, enquanto outros, sabidamente criminosos, continuam tão livres como sempre. Com apoio da “bancada evangélica” e de figuras abomináveis travestidos de pastores.
Como o pastor de uma igreja em Curitiba, que apoia abertamente um candidato acusado de roubas obras de arte do patrimônio público para instalá-las em sua propriedade particular. O candidato que diz que vomitou ao sentir cheiro de pobre (veja aqui). Não por acaso, o procurador que apresentou denúncias contra o ex-presidente Lula numa apresentação de Power Point tão tosca que virou “meme” e recebeu recordes de gozações, não por acaso, esse procurador é membro consagrado dessa igreja e tido como herói.
É por isso que está a cada dia mais difícil ser chamado de evangélico hoje em dia.
Mas eu falo disso outro dia, quem sabe.

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sábado, 3 de setembro de 2016

Em nome de Deus (?)

Voltei, quatro meses depois. 
O tempo passou.
Dilma Rousseff está destituída do cargo de Presidente da República. Sem que Deus fosse usado como “fiador” de uma mudança necessária por exigência da ética, da moral, dos bons costumes e da ordem, muito provavelmente, todo o embate ético-político que se arrastou desde o auge do poder de Eduardo Cunha na presidência da Câmara até agora, com a queda definitiva de Dilma, não aconteceria – ou poderia ter outro fim.
Não esqueçamos que a advogada Janaína Paschoal, que junto com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Realle Jr. protocolou o pedido de impeachment aceito contra a então presidente, disse, absolutamente segura de sua crença, que foi Deus quem iniciou o processo de impeachment. Na verdade, ela disse: “Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com nosso país e conferisse a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”. Mas, por que é tão importante garantir que “Deus” esteja presente nas ações políticas tomadas numa disputa?
A esquerda política brasileira nunca fez questão de justificar suas escolhas, objetivos, programas e projetos a partir de “Deus”. A “presença de Deus” na esquerda no Brasil (assim como em toda a América Latina) sempre se deu via movimentos como a chamada Teologia da Libertação católica ou via teólogos protestantes progressistas. Para a direita e o campo conservador, Deus é central. Ele é o legitimador de todas as disputas que eles empreendem.
Quando Eduardo Cunha dizia que aborto era uma pauta que só passaria por cima do seu cadáver, ele não tinha preocupação em defender isso com ideias. Ele pressupunha que, ao barrar o aborto, ele estaria defendendo a vida, e quem dá a vida é Deus. E ele sabe que, para o senso comum, este argumento basta. Aqui, o “argumento Deus” é capaz de neutralizar, ou deixar em segundo plano, qualquer desvio de conduta, atitude desonesta ou, quiçá, criminosa, de qualquer parlamentar.
É preciso ter nítida a ideia de que se está “do lado de Deus” para, mesmo sabendo que se está tão comprometido na Lava Jato quanto qualquer parlamentar petista, condenar as ações de parlamentares do PT ou mesmo vociferar sobre ética e moral contra Dilma Rousseff – ainda que ela não esteja envolvida.
Se o parlamentar fala em nome de Deus (leia-se da sua relação com a igreja), é irrelevante que a sua trajetória política o desqualifique nitidamente para reivindicar a ética, a justiça e a moral. Quando você diz defender os valores “instituídos por Deus”, você pode dizer, por exemplo, que luta para que o Brasil não se torne uma Venezuela ou não seja tomado pelo “bolivarianismo” sem precisar explicar absolutamente nada sobre o que isso significa. É certo que o debate do julgamento para o impeachment está quase restrito ao campo da gestão e da economia, mas parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”.
Complexo é pensar que, hoje, podemos usar o adjetivo “evangélico” (ou protestante, aqui tanto faz) tanto para parlamentares como Pastor Everaldo, Magno Malta e (também agora) Jair Bolsonaro, e também para figuras como Martin Luther King Jr. E isso não é simples, porque é tão destoante que se torna quase um erro gramatical colocar o último na mesma frase que os outros três.
Uma igreja negra nos Estados Unidos foi determinante para forçar o fim da segregação racial, enfrentar o Estado e abrir caminho para a conquista dos direitos civis dos negros, e, consequentemente, ampliar o caminho em direção para a garantia dos direitos de outros grupos sociais. Uma igreja negra na África do Sul, com Desmond Tutu e Allan Boesak à frente, foi determinante para forçar o fim do apartheid e fortalecer a luta que tinha Nelson Mandela como a figura principal. Em ambos os países, a igreja se tornou o refúgio de negros perseguidos, sem direitos, local de sua formação, autonomia e empoderamento.
A escolha dos cristãos negros e negras do sul estadunidense era transitar entre a não violência, proposta e defendida pelo Dr. King, e o apoio integral às ações enérgicas do movimento Black Power, às ações dos Panteras Negras, libertação da ativista Ângela Davis. A igreja negra na África do Sul e seus teólogos apontavam para a violência de Estado em Soweto. Tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, o “Deus” reconhecido pela Teologia Negra (bem como pelas igrejas alinhadas com a Teologia da Libertação na América Latina) era aquele do êxodo do povo vindo da escravidão no Egito, liberto na travessia do Mar Vermelho, que se identificava com os homens e mulheres negros escravizados pela Europa e nos Estados Unidos e com os todos os pobres na era pós-escravocrata.
A igreja protestante que veio com a missão evangelizadora para o Brasil durante o período chamado de “protestantismo de missão” e não fomentou a formação de cristãos com histórias de luta semelhante. A força da moral das igrejas herdeiras da Reforma, sobretudo de inspiração calvinista, moldou o American way of life e, aqui no Brasil, foi, desde o início do século XX, assimilada pelas denominações que se distanciam de parte da teologia reformada e reivindicam o termo “evangélico” como sendo mais apropriado que “protestante”, mas mantém a exigência e o rigor moral. Evidentemente, tivemos evangélicos (e católicos) que se insurgiram contra a ditadura, se posicionaram contra a desigualdade econômica e a pobreza. Mas, via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios. E quando da virada dos anos oitenta para os noventa, as igrejas, em particular as evangélicas, descobriram os privilégios do Executivo e, principalmente, do Legislativo, o lago conservador tornou-se um mar.
O que se faz “em nome de Deus”, se faz e pronto. Dilma jamais iria sobreviver; iria sucumbir mais cedo ou mais tarde. Não surpreende que o julgamento e o ataque a ela tenha sido tão mais severo que o proferido ao próprio Eduardo Cunha. Até porque, em termos de poder, Cunha segue sendo uma sombra que ronda o círculo do Palácio. Dilma não terá a mesma sorte. Dilma foi destituída “em nome de Deus, da família e da democracia” (além de em nome de alguns parentes, cidades, bichos de estimação, etc). Um bom aprendizado de hoje pode ser que, na política brasileira, quem não “está do lado de Deus”, ou quem não sabe utilizá-lo a seu favor, está mais suscetível a golpes fatais.

Artigo publicado originalmente em The Intercept Brasil, 2 de setembro de 2016


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