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domingo, 13 de novembro de 2016

Ser evangélico no Brasil e suas implicações políticas

Ser evangélico se insere numa longa tradição. Mas hoje em dia “ser evangélico” é o mesmo que ser submetido a uma série de estereótipos que pareciam sepultados, mas que desde a ascensão do chamado “fundamentalismo” ressurgiram com força máxima. Esse fundamentalismo representa uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames desses “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. A única opção válida de atuação política é a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Por isso surgem excrescências como a “bancada evangélica”, e discursos como “temos que ter gente nossa no governo”. Em alguns outros casos, levanta-se a bandeira da defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma, sem o qual, afirma-se, não existe cristianismo.
Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o fundamentalismo moderno se arvorou em única forma legítima de fé cristã.
Qualquer estudo da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.
Depois que a religião assumiu uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada. 
Assim que classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológico-doutrinárias baseadas na Reforma Protestante do século XVI. De fato, desde o século X já se dizia que era preciso se reaproximar do Cristo dos evangelhos, com a Igreja cada vez mais afetada pela promiscuidade política do clero – então uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas como compra de cargos, guerras e assassinatos. O papado tornou-se um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos entre o povo pobre e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na Reforma: de um lado os fiéis a Roma, de outro as várias igrejas que surgiram: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas na Suíça, Alemanha e França, Escócia e Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; e anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.
Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando o serviço militar e cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua, recusando-se a pagar tributos a Roma. Anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.
Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Na Holanda lutaram para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinham garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.
No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.
Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.
Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?
Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.
As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram ter uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados - o caso mais emblemático é o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.
Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho: a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Ninguém
mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.
Não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico significa – ou pelo menos deveria significar – lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, e na assistência desinteressada aos pobres fora dela; na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.
Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra quem pensa diferente. Como que fazem “pastores” de idéias tão díspares entre si como Silas Malafaia e Paschoal Piragine, que incitam os fiéis a não votarem no PT ou no PSOL, por serem “contra a fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho, já que ninguém lê a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na igreja e o pastor em questão seria destituído na próxima assembleia.
É claro que isso não vai acontecer. Assembléias nas igrejas viraram instâncias de homologação de show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Os crentes não se dão ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de seus pastores. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico.
Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza. Deveria significar não permitir que carreiristas se assumissem como porta-vozes da igreja e da fé. Deveria significar maturidade. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Adaptado de um artigo publicado originalmente por André Egg em Revista Amálgama (09/09/2010) Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro “Arte e política no Brasil: modernidades” (Ed. Perspectiva, 2014). http://www.revistaamalgama.com.br/09/2010/caso-piragine/


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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Qual é a sua motivação?

Há algum tempo participei de uma reunião de oração. As pessoas presentes, todas cristãs sinceras, na hora de colocar seus pedidos, me surpreenderam. Uma ou outra pedia para interceder pela conversão de um parente e pela cura de um conhecido, mas a maioria pedia por bens materiais. Alguém pediu oração para poder “vender logo a casa”, pois tencionava comprar outra maior e melhor. Outra pessoa disse que era para orarmos para que conseguisse uma boa empregada doméstica. Um outro anunciou que pretendia morar no Exterior, pois “não aguentava mais este país”. Por fim, alguém pedia para que Deus abençoasse esta nação e tirasse as pessoas más do poder, colocando outras “tementes a Deus, segundo o coração de Deus”.
Aparentemente, tudo muito bacana, tudo muito certo. Fiquei pensando naquilo tudo, e só depois percebi que aquelas pessoas, sinceramente, estavam pedindo a Deus que os abençoasse segundo os seus próprios desejos. Suas orações eram centradas neles mesmos, na satisfação do que entendiam como sendo as suas necessidades pessoais. Totalmente fora daquilo que a Bíblia ensina aos cristãos como devem agir. Vejamos alguns pontos.
No Sermão do Monte – e em outras partes – Jesus ensina que devemos viver não para satisfazer a nós mesmos, mas a Deus (fazendo a Sua vontade) e ao próximo. O centro deve ser não a gente mesmo, mas tudo deve ser para “o outro”. O próximo. É o que significa “quando alguém te pedir a túnica, dá também a capa; se alguém te pedir para caminhar com ele uma milha, vai com ele duas”. E também “se alguém te bater numa face, oferece a outra”.
Mas essas pessoas estão seguindo outra lógica. Elas seguem uma lógica apropriada (do ponto de vista humano e carnal) ao seu segmento social, mais do que à sua situação de cristãos, de cidadãos de outro reino que não o deste mundo. Seguem uma ideologia (no sentido original da palavra, no sentido crítico, “ferramentas simbólicas voltadas à criação e/ou à manutenção de relações de dominação”, link aqui) de uma classe média pequeno-burguesa, aquele tipo que pensa que o capitalismo é o melhor dos sistemas econômicos, esquecendo-se de que, na maioria, eles mesmos são empregados, funcionários que trabalham para um patrão e, por mais que tenham bons salários e ocupem boas posições na escala social, ainda assim são assalariados. Eles ainda não perceberam que o lucro gerado pelo seu trabalho vai todo para o bolso do patrão, por que seus salários sejam bons salários, ainda assim, são assalariados. O que recebem nunca os fará ricos como aos patrões. E essas pessoas, dominadas mentalmente que são pela ideologia burguesa de seus patrões,  seguem o mesmo ideário, próprio dos banqueiros, industriais e grandes empresários, crendo que isso é normal. Vejam só.
Os banqueiros, industriais e grandes empresários visam o lucro. Em última instância, visam o seu próprio bem. Tudo o que fazem e investem é para seu próprio prazer, para seu lazer, para seu próprio desfrute. Até certo ponto isto é lógico e legítimo. O que não é lógico é os seus empregados e funcionários acharem que devem seguir a mesma cartilha, por mais bem situados que sejam (ou estejam, no momento). 
Em que consiste esse conjunto de idéias e pensamentos? Consiste nos valores burgueses, expressos no seu modo de vida, seus gostos, seus hábitos e suas escolhas, como veremos.
As pessoas da reunião que mencionei no primeiro parágrafo seguem essa ideologia. Ao pediram intercessão para que conseguissem “uma boa empregada”, o que querem dizer com isso? Você vai se espantar com a minha conclusão, mas eu o desafio a me mostrar outra interpretação para essa “oração”: o que mais elas querem senão alguém que trabalhe mais e ganhe menos? Alguém que lhes dê menos aporrinhações, que reivindique menos direitos (como dias de folga, aumentos de salário, licença-maternidade, férias, décimo-terceiro salário e Fundo de Garantia, dentre outras coisas). Alguém que falte menos ao trabalho, ainda que um filho adoeça ou aconteça uma greve dos ônibus ou do metrô. Alguém que obedeça a todas as suas (patrões) vontades. Alguém que esteja sempre à disposição; repetindo, por um salário não maior do que o da empregada anterior. Mais lucro. Ou, como se convencionou dizer, melhor custo/benefício.
Se essas pessoas fossem realmente cristãs, elas agiriam de outra forma, eu penso. Seu pedido de oração seria diferente.
Por exemplo, poderiam pedir a Deus que lhes desse condições de contratar uma empregada doméstica, de que de fato necessitam, mas para lhe pagar um salário maior do que o que pagavam à empregada anterior. Poderiam seguir o mandamento de Jesus, o da segunda milha, no sentido de que, quando a empregada saísse de férias, concedessem a ela, graciosamente, mais uma semana de descanso remunerado. Quando a empregada ligasse dizendo que se atrasaria por causa da greve dos ônibus ou do metrô, dissessem a ela que tirasse o dia de folga. Quando viajassem para Miami, como sempre fazem a ponto de querer morar lá, que levassem junto a empregada, não para lhes carregar as malas ou lhes passar as roupas, mas para se divertir, conhecer outro país, adquirir mais cultura (se é que em Miami tem cultura).
História da vida real, verídica, que ouvi de uma cristã que trabalhava como doméstica em casa de outros cristãos, segundo ela, “ricos”: como ela trabalhava de segunda a sexta o dia todo, e sábado só até meio-dia, nesse dia ela tinha trabalho dobrado. Tinha que, por exemplo, fazer o dobro de comida para que os patrões não precisassem ir para a cozinha no domingo “depois do culto”. Eles não poderiam, pães-duros que eram, gastar um pouquinho num restaurante (talvez por isso fossem ricos). Ah, e um detalhe: na segunda-feira, o trabalho também era dobrado, pois a pia da cozinha tinha tanta louça suja que ia até o teto, pois ninguém se dignava a lavar sequer um copo que tivesse usado durante o fim de semana. Essa empregada cristã, quando saiu desse “emprego”, quase teve que ir à justiça para receber o que lhe era devido. Eu pergunto: esse tipo de gente pode se considerar cristã? Estabelecendo uma relação de quase-escravidão com uma empregada, e mais, uma irmã em Cristo? É isso que é fazer a vontade de Deus? É assim que Jesus ensina que devemos tratar o próximo?
Quer outro exemplo, que talvez explique este primeiro?
Quando pessoas assim, de forma farisaica, oram a Deus para que “tire as pessoas más do governo e coloque outras de acordo com o coração de Deus”, parecem preocupadas com os destinos da nação, mas na verdade querem dizer: “Deus, tira esse governo do poder porque nós não gostamos dele; coloca no poder uma pessoa de acordo com o nosso coração, conforme a nossa ideologia política e econômica, de acordo com o que pensa a nossa classe social”. Essa ideologia político-econômico-social é a mesma por trás da alegada crise institucional atual. Esses que foram às ruas protestar contra o governo, com a desculpa de não tolerar mais corrupção, são o mesmo tipo de gente que
elegeu e apoiou uma pessoa do naipe de Eduardo Cunha, dito evangélico que usou uma igreja para receber propinas milionárias. Esses cristãos, que dizem que o governo mentiu, apoiam gente como Silas Malafaia, que comemorou nas redes sociais a eleição de Cunha como presidente da Câmara, dizendo aos quatro ventos “agora vão ter que nos engolir”. Mas agora cinicamente diz que nunca o apoiou, agora que o deputado “evangélico”, que (diziam) “vai transformar a nação”, cai em desgraça e em descrédito. Pessoas assim não desejam que se cumpra a vontade de Deus sobre a nação. Eles querem que se cumpra a sua própria vontade. 
No fundo, aqueles cristãos, como se fossem banqueiros, industriais e grandes empresários, não suportam ver no governo um operário, um metalúrgico, ou uma mulher. Lembra da definição crítica de “ideologia”? Ela fala de “relações de dominação”. Essas relações de dominação não são só de uma classe (a burguesia, a que essas pessoas pensam pertencer) sobre outra (os operários, empregados, funcionários e assalariados em geral, classe a que, na verdade, elas pertencem)! E que é a razão de não aceitarem um operário, mas em massa irem na onda de um Collor ou de um FHC, bem-nascidos, com pedigree, estudados, falam vários idiomas. Mesmo que seus governos tenham sido desastrosos, com inflação de dois dígitos, desemprego idem, e pasmem, preço da passagem aérea literalmente nas nuvens. Na época desses ilustres governantes, nossos irmãos mais abastados também viajavam de avião. É verdade que gastavam relativamente mais. Mas, em contrapartida, não dividiam as aeronaves com pessoas de classes “mais baixas”. Eles, no fundo, querem a volta desses tempos gloriosos. Mesmo que com inflação alta e desemprego idem. Presidente operário, operário dividindo aeroporto? Nem pensar.
A relação de dominação também acontece no plano racial. Darei apenas um exemplo para você pensar. Por que nas novelas as empregadas domésticas são sempre negras? Sabemos que as emissoras de TV são propriedade de grandes grupos burgueses, e como tal, veiculam a sua visão de mundo, que inclui, dentre outras pragas, o racismo. E também o preconceito contra evangélicos, que mesmo assim continuam fiéis à sua programação... se é menos nas novelas, é muito em relação ao jornalismo”. Tem irmão aí que acredita mais no Jornal Nacional do que nas epístolas paulinas.
A dominação social repercute nas igrejas. Via de regra, pobres não ocupam cargos de liderança. Geralmente, diáconos e chefes de departamentos são pessoas que depositam os envelopes mais gordos no gazofilácio. É importante manter os bacanas na igreja. Você é inteligente e já percebeu o por quê disso. É raro ver um pobre liderando um rico, mesmo no rebanho do Senhor. Estou mentindo?
Essa dominação também se verifica na relação homem/mulher. Por isso muitos detestam uma mulher-presidente! Dizem acerca da presidente da nação todo tipo de piada maliciosa e de mau gosto, daquelas que não se ouvia nem na extinta geral dos estádios de futebol. Deletam da sua Bíblia as ordenanças que determinam a intercessão pelas autoridades investidas de poder. Para essas pessoas, a ideologia - enquanto forma peculiar de ver o mundo e perceber a realidade objetiva - tem mais força do que a sã doutrina dos evangelhos!
A motivação daqueles irmãos não é Cristo, não é a vontade de Deus. A motivação deles é a sua própria vontade, o seu próprio desejo, o seu próprio ventre. A ideologia é a única coisa que não é deles: é da classe que os domina e da qual eles pensam fazer parte. E suas orações refletem suas motivações.
Depois daquele dia citado no primeiro parágrafo, tenho procurado gastar as horas correspondentes na leitura de um bom livro e, melhor ainda, da Bíblia Sagrada. Quero ter outro tipo de motivação para minhas orações. A vontade de Deus, já que a minha própria vontade não vale um tostão furado.

Qual é a sua motivação?

Quem pode discernir os próprios erros? Absolve-me dos que me são ocultos. Guarda também o teu servo da arrogância, para que não me domine; então, serei íntegro e ficarei limpo de grande transgressão. Que as palavras da minha boca e a meditação do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, minha rocha e meu redentor! (Salmo 19:12-14).


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terça-feira, 8 de março de 2011

A MATRIX evangélica (1)

Quando eu falei da saída do Kaká da Renascer, tentei mostrar mais ou menos como funciona o processo de ocultação da realidade que ocorre em muitas instituições religiosas. Citei o mito da caverna, no qual uma pessoa que descubra uma realidade diferente daquela que até então se pensava ser a única válida, acaba expulsa da comunidade. Num dialeto evangeliquês, está “fora da visão”, é “rebelde”, não está “sob a cobertura do líder”. É herege: agora não está mais “sob a cobertura do apóstolo”.
Muitos ainda estão presos às estruturas eclesiásticas, sem a menor necessidade. Mas desde quando é preciso haver uma estrutura eclesiástica? A Igreja possui uma ordem muito clara, um sistema de autoridade estabelecido por Jesus e pelos apóstolos (os de verdade), que é: quem quiser ser o maior, que seja o menor. Que sirva os demais. Que trabalhe para os demais, sem esperar nada em troca. São distribuídos diversos dons entre os membros da Igreja, a começar pelos diáconos (Atos 6), que são instituídos para que? Para servir. 
Há os dons – não cargos – de pastor, evangelista, mestre, apóstolo e profeta (Efésios 4), sem conotação de hierarquia, cujo objetivo é o crescimento do Corpo (4:12), não o governo de uns sobre os outros. Pelo contrário, esse tipo de domínio é condenado pela Bíblia em Apocalipse 2:6, onde os “nicolaítas” não são “seguidores de Nicolau”, como pensam alguns, mas sim, quem exerce domínio sobre o povo (“nike”= dominar, vencer, sobrepujar + “laos”= povo).
Ora, se não aceitamos a imposição humana, hierarquias cuja única função é exercer domínio e “liderança”, podemos ser considerados rebeldes? Se rejeitamos rótulos como “bispos”, “apóstolos” - e agora até “patriarca” a igreja evangélica já tem - rótulos esses que funcionam como patentes militares, estamos errados? Aliás, o pessoal da batalha espiritual tem “generais de alta patente”, que atuam em “esferas elevadas”... Duvida? Leia “Confrontando A Rainha dos Céus” de C. Peter Wagner, com tradução de, adivinhe, Mike Shea, publicado pelo “Instituto” Wagner Para Ministério Prático, 1998. Ainda vou escrever sobre o pragmatismo um dia desses. 
Tudo isto serve a um único propósito: a criação de uma cortina de fumaça que esconde a real motivação desses pseudo-líderes. O poder e o dinheiro. Doa a quem doer.
Pergunto de novo: Desde quando é preciso haver uma estrutura eclesiástica? 
Pedro afirma que não precisamos de sacerdotes: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (! Pedro 2:9). Se todos somos sacerdotes, não precisamos de um clero profissional. Logo, as contribuições devem servir ao sustento dos mais pobres e necessitados, e da obra de Deus (evangelização, literatura, missões). Não para “a casa do tesouro”, que não existe mais; não para engordar a pança de pregadores toscos e cada vez mais barrigudos, nem para comprar carros e casas de luxo. Já ouvi dezenas desses mercenários dizerem que um gerente de uma empresa não pode andar esfarrapado, nem a pé ou de ônibus; nem morar “mal”, e assim deve ser o “líder” de uma igreja, para causar boa impressão (!). Ele que arranje emprego no banco então. Não existe isso na Igreja. Meio de vida, fonte de renda.
A propalada “cobertura espiritual” se baseia na idéia de que se eu pertenço a uma denominação, sou magicamente “protegido”. A noção de que “estou coberto” porque presto contas a alguém (como a igreja católica presta contas ao “papa”) é pura ficção. A proteção está na submissão ao Espírito da verdade no Corpo de Cristo (1 João 2:20,27). O sistema de prestação de contas de cima para baixo substitui a mútua sujeição. Em outras palavras, obscurece a sujeição mútua com a neblina do clericalismo. 
Se você duvida do controle hierárquico da igreja, investigue, e verá que quem questiona a autoridade clerical faz estremecer todo o sistema religioso. Se você for uma dessas pessoas, prepare-se para ser vítima de difamação e calúnia, chamado de “herege”, “agitador”, “perturbador”, “rebelde” e “revoltado”. A retórica religiosa foi planejada para sufocar a reflexão. Seu propósito é tirar do caminho aqueles que divergem do status quo. Por conseguinte, a casa de Deus sofre por causa dos que alimentam um espírito de censura. Padece nas mãos dos que expulsam os que são preciosos a Seus olhos. É atribulada pelos que fecham a porta da casa aos membros da família (3 João 9, 10).
Os que usurpam autoridade gostam ser elogiados, porque “guardam as ovelhas”. Dizem que alguns se separam do Corpo de Cristo. Mas contrariando o princípio bíblico da mútua sujeição, que enfatiza a submissão de uns para com os outros, a “cobertura” se parece mais com a relação amo/escravo que caracteriza as seitas: os membros seguem com obediência inquestionável e sem reservas um único líder ou organização.
O ensino da “cobertura” é utilizado como um laço para capturar aqueles que não se encontram sob uma bandeira denominacional. A “cobertura” é uma arma para assegurar o terreno teológico.
O próprio sistema clerical de um “pastor” ou “ministro” sobre uma congregação é contrário aos ensinamentos do Novo Testamento. Veja por que da posição de clérigo na “igreja” não está de acordo com a Palavra de Deus:
1) O Espírito de Deus não é colocado em Seu devido lugar de dirigente em uma assembléia. Já que Ele não é o que dirige e regulamenta os procedimentos, toda a idéia de colocar um clérigo naquele lugar praticamente tira o lugar do Espírito.
2) Viola o princípio do sacerdócio de todos os crentes (1 Pedro 2:5, Apocalipse 1:6, 5:10, Hebreus 13:15-16).
3) Proíbe o livre exercício dos dons na assembléia por limitar o ministério a uma só pessoa que tem o “direito” oficial a ele (1 Coríntios 12, 14).
4) Onde existem um ou dois homens basicamente responsáveis pelo ensino na igreja local, como é o caso do assim chamado “pastor” ou “ministro”, não há como conferir o ensino. Conseqüentemente, existe o perigo de interpretações unilaterais, se não de doutrinas erradas mesmo. Por outro lado, onde o Espírito Santo tem a liberdade para falar através dos vários dons na assembléia, mais facetas da verdade são trazidas à luz. Há também uma grande imunidade de erros onde todos os santos estão assiduamente comparando Escritura com Escritura (1 Coríntios 14:26-32).
5) Promove separação. Já que o sistema não permite a liberdade das pessoas contribuírem no ministério, freqüentemente se desenvolve uma carência do exercício nas coisas divinas. Muitos não se interessam com o ministério, já que a “igreja” paga alguém (o clérigo) para fazer esse serviço por eles. Conseqüentemente, o desenvolvimento do exercício espiritual e o crescimento dos santos são impedidos (1 Coríntios 3:1-4, Hebreus 5:11-14). Surge o crente bancário, que só fica sentado no banco da igreja.
6) Favorece a reunião em torno de um orador, e por isso viola o princípio de Deus de que os cristãos se reúnem pelo Espírito somente no Nome do Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 1:12-13, 3:1-4, Mateus 18:20): surgem o “ministério do pastor fulano” e fã-clubes em vez de congregações.
7) Interfere com a responsabilidade direta do servo com o Senhor no exercício do dom. O clérigo profissional se torna responsável diante de uma organização, que paga seu salário. Ele é responsável em manter seu padrão e método de ministério, e alcançar o alvo que a organização estabelece para ele; e por isso, ele tende a ser controlado pela organização mais do que pelo Senhorio de Cristo (1 Coríntios 7:22-23, Gálatas 1:10).
O que os “pastores” e “ministros” pensam destas coisas?
Talvez alguém pergunte ao “pastor” ou “ministro” da sua denominação sobre estas coisas, e lhe será dito que não estamos certos. Ele provavelmente não irá aceitar estas verdades porque elas dizem respeito justamente à posição em que ele se encontra. Se estas coisas são verdade (e elas seguramente são), então onde elas colocam um homem que ocupa a posição de um “pastor”? Estando “no ministério”, como uma profissão, para ele, a conseqüência prática da aceitação desta verdade, significa estar desempregado!
Não estamos insinuando que todo pastor está “no ministério” somente por um emprego. Ele pode fazer seu trabalho conscienciosamente, e com o melhor da sua habilidade. Mas entregar seu lugar naquele posto lhe custará muito. Se os cristãos quisessem deixar a ordem de coisas feitas por homens nas igrejas para praticar o cristianismo bíblico verdadeiro, não teriam muito a perder demitindo um clérigo profissional.
Contudo, se um clérigo quer ser fiel à Palavra de Deus, e atuar em obediência ao Senhor, Deus o suprirá, pois Ele disse: “Honrarei aos que me honram”. (1 Samuel 2:30, 2 Crônicas 25:9).
É por isso que eles não pregam a verdade sobre o dízimo, por exemplo.
Vai ter mais.
(com trechos de "Quem é a tua cobertura?", de Frank Viola)












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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ideologia

Um vez li no Gospel +, portal de fofocas, fake news e nulidades da bolha evangélica, um artigo de um blogueiro cristão descendo o porrete em quem tentava juntar o socialismo e o cristianismo. Ele tem razão em parte: o episódio da distribuição de terras na conquista de Canaã, levantado por alguém para tentar provar o argumento socialista de “pão, terra e liberdade”, não se aplica ao caso; e nem os primeiros cristãos eram comunistas. Concordo plenamente.
Mas então ele confunde, como a maioria dos evangélicos, conceitos marxistas, comunistas, socialistas e até stalinistas. Por exemplo, que as pessoas são naturalmente diferentes e por isso a utopia socialista nunca se realizará. Talvez tenha se esquecido da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que norteia a maioria das constituições dos países democráticos e que diz que todos são iguais. Nisso até a Bíblia concorda, pois afirma que todos são iguais perante Deus – Romanos 3:23. O fato de existirem desigualdades sociais não significa que somos diferentes, mas sim que agimos de formas diferentes. Usar Marcos 14:7 (“os pobres sempre os tendes convosco”) para justificar as diferenças sociais é uma piada de mau gosto. Além do mais, o verso bíblico não termina aí, mas continua: “quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem”. Ou seja, justiça social e erradicação da pobreza são opções que Jesus nos deu: “quando quiserdes. Isto é questão de ideologia. E a melhor explicação de ideologia está, justamente, na explicação marxista, doa a quem doer.
O que vem a ser ideologia? É um sistema estruturado de pensamento cuja base é uma visão de mundo consolidada em determinado extrato da sociedade, que não admite outra explicação das coisas. Lênin explica que isso tende a criar a alienação, ou seja, por meios que não cabe discutir aqui, uma classe impõe sua visão de mundo, determinando então a dominação de uma classe sobre a outra – isso é a “ideologia da classe dominante”. A ideologia impede as pessoas de terem uma visão crítica da realidade objetiva, pois estabelece falsos valores como sendo verdadeiros e válidos.
Marx dizia que a religião é o ópio do povo e muitos, como o tal blogueiro, ficam indignados ao ouvir isto. Mas Voltaire disse quase a mesma coisa um século antes de Marx, e não estava longe da verdade. Senão, vejamos.
O que vem a ser a religião? É um sistema organizado de ritos e crenças que busca o contato do humano com o divino. Geralmente, um grupo especial faz a intermediação: o clero (“sacerdotes”). Entendemos que esse sistema já não é mais necessário, pois Jesus aboliu o sistema sacerdotal, como aprendemos na Epístola aos Hebreus. O antigo esquema não é mais válido: cada cristão, individualmente, tem acesso direto e irrestrito ao Pai, por meio do sacrifício do Filho. Evidentemente, a conclusão lógica é que o Cristianismo - o verdadeiro, com inicial maiúscula - não é uma religião, mas um relacionamento - direto - entre o humano e o Divino. Não precisamos de guias espirituais. Cada ser humano, em Cristo, é livre para ter acesso ao Pai celestial. Foi isso que significou o véu do templo se rasgando de alto a baixo na morte de Cristo.
Já outros credos se enquadram, via de regra, no esquema religioso-ideológico, inclusive ramos do próprio cristianismo (com inicial minúscula, o cristianismo nominal, ou, como diz Mário Persona, “a cristandade”). É necessária figura do mediador entre o Homem e a divindade. Um figura poderosa e hegemônica, cuja palavra é a lei suprema. E não é preciso esforço para perceber que a liderança do segmento sacerdotal/clero, em cada religião, é fortemente influenciada pela visão de mundo da classe a que geralmente pertence o sacerdote; quase sempre, a classe “superior”. Isto vem desde o Egito Antigo e a Babilônia, passando pela igreja estatal de Constantino. O clero compartilha da visão dos reis, dos príncipes, dos governantes. O clero criou o “direito divino dos reis”, o absolutismo; e mais recentemente, se pendurou nos empresários, políticos, militares, banqueiros, patrões em geral, em oposição às classes “trabalhadoras” (evidentemente, todos são trabalhadores, mas aqui identificamos os assalariados, os que não detêm os meios de produção, vendendo a sua força de trabalho, sob contrato ou não). O clero repercute e propaga os valores das classes superiores.
Isso é o poder da ideologia da classe dominante: o cidadão comum é alijado de sua capacidade de análise de sua condição, e assim não busca meios de transformar objetivamente a sua realidade, porque o poder legislativo, largamente favorável aos dominantes, não deixa, e se ele se rebelar, o poder religioso o condena ao inferno. Essa ideologia – da classe dominante – procura evitar e dificultar a organização, por exemplo, de associações, sindicatos, cooperativas e grupos de pressão que alterem política e socialmente o “status quo”. Essa ideologia mantém a população alienada, e nisso a religião organizada tem papel fundamental.
A “igreja” sempre se associou aos governos de todo tipo! Desde a Idade Média o clero compôs com a realeza um bloco de poder. A Revolução Francesa surgiu, também, como revolta a esse estado de coisas. A Inquisição dos “papas” foi apoiada pelos reis europeus porque todos dividiam os bens confiscados. Os “cardeais” espanhóis abençoaram os canhões do ditador Franco na Guerra Civil Espanhola. O “papa” Pio XII fez vista grossa ao holocausto e apoiou Mussolini e Hitler. A lista é grande, mas vamos para um exemplo caseiro.
Cansei de ver pastores “aconselhando” não votar em Lula porque ele “era comunista”, ou apoiado “pelos comunistas” (não estou defendendo nem apoiando, nem dizendo que é o melhor ou o pior). Já ouvi esses “sacerdotes” pedirem votos para candidatos “da direita” porque os “da esquerda” iriam fechar igrejas... É verdade que é preciso conhecer o programa do candidato ou do partido, pois o que não faltam são propostas anti-cristãs, indefensáveis do ponto de vista bíblico. Mas também há propostas indefensáveis do outro lado, como incentivo ao porte de armas, para não estender a lista.
Já me arrependi ao votar em um candidato cristão, membro influente e endinheirado de uma grande e famosa igreja evangélica. No Congresso, esse cidadão votou propostas contra os direitos dos trabalhadores, mudou de partido ao sabor da corrente política dominante no momento, e quando o questionei falou que era a favor de tais e tais emendas “de acordo com a sua consciência e com o que entendia ser o melhor”. Retruquei que ele deveria se manifestar no Congresso não de acordo “com a sua própria consciência”, mas de acordo com o desejo de quem o elegera. Afinal, ele estava ali para nos representar, e não a si próprio. Mas no fim das contas isso mostra que ele agia de acordo com a sua consciência de classe, e não com a de quem o elegera. Bem feito para mim.
Também já vi e ouvi de “sacerdotes evangélicos” que Deus livrou o Brasil em 1964, e o golpe militar (que instaurou a ditadura militar) foi “resposta de oração”. Isso equivale a dizer que os torturadores da repressão e os anos de chumbo tinham a bênção de Deus e dos “sacerdotes evangélicos”, o que é um absurdo. Engraçado é que durante esse período éramos incentivados a “orar pelas autoridades”; mas quando o governo passou a ser “de esquerda” esse versículo foi cuidadosamente esquecido...
É ideologia ou não é? É o ópio da religião nublando a visão do povo ou não? É alienação ou não? Qual a diferença entre esses “sacerdotes” e os do Vaticano, usando o púlpito para propagar valores políticos e sociais viciados pelas preferências pessoais?
O tal bogueiro misturou vários conceitos num só balaio. Isso é o que a mídia secular e global também faz ao dizer que pastores são ladrões, charlatães, que crentes são manipulados etc. Isso existe de fato: pastor picareta, crente besta, e coisas piores. Mas não podemos generalizar. Nem todo político é ladrão. Nem todo jogador de futebol é pagodeiro. Nem todo judeu é avarento. Todo preconceito deve ser combatido. Nem todo esquerdista é comunista. Nem todo marxista é ateu. Por que um cristão não pode ser “de esquerda” sem ser “comunista”? Por que o crente não pode fazer greve, se a lei lhe assegura esse direito? Será que todo político de esquerda apóia invasão de terra e a luta armada? O que dizer então da Marina Silva, que sempre foi do PT, da CUT, que apoiou o movimento dos “sem-terra”, chegou a ser ministra do governo Lula, depois candidata a presidente pelo PV e pelo PSB, e virou a santa padroeira dos evangélicos, “porque é cristã”? Em que momento se deu essa transformação?
Forças econômicas influenciam decisões políticas. E também tingem a visão de uma classe com as cores daquela que detêm o poder temporal, pela dominação intelectual/cultural/ideológica, aceitemos ou não. Deixar de exercer o senso crítico e fazer o julgamento da realidade objetiva atrofia a capacidade do pensamento e a inteligência. E isso leva à alienação política.
Podemos influenciar - positiva ou negativamente – os rumos da Nação por meio do voto e da fiscalização dos nossos representantes no Congresso Nacional, nas câmaras de vereadores, nas assembléias estaduais. No fim das contas, sabemos que o destino está nas mãos de um Deus Todo-poderoso e misericordioso; não numa revolução ou reviravolta política. Deus está no controle da História, não o materialismo histórico e dialético. Mas precisamos nos conscientizar de que somos cidadãos, e como tais, temos a obrigação de analisar nossa motivação na hora do voto: que tipo de sociedade desejamos? Queremos perpetuar a exploração do homem pelo homem, o desemprego, insegurança, a privatização/venda do patrimônio da nação aos amigos do poder, ou queremos mais justiça social, melhor distribuição de renda, emprego, reajuste de salário acima da inflação e trabalho para todos, serviços de saúde, segurança, transporte digno e barato, enfim, tudo aquilo que um país decente deveria ter?
Vale a pena deixar a nossa consciência de classe e de cidadão ser levada pelo cabresto? Qual seria a razão de tanta tentativa de manipulação de votos e manutenção dos currais eleitorais evangélicos? Será que o exemplo dos políticos ditos cristãos tem sido válido?