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sábado, 3 de setembro de 2016

Em nome de Deus (?)

Voltei, quatro meses depois. 
O tempo passou.
Dilma Rousseff está destituída do cargo de Presidente da República. Sem que Deus fosse usado como “fiador” de uma mudança necessária por exigência da ética, da moral, dos bons costumes e da ordem, muito provavelmente, todo o embate ético-político que se arrastou desde o auge do poder de Eduardo Cunha na presidência da Câmara até agora, com a queda definitiva de Dilma, não aconteceria – ou poderia ter outro fim.
Não esqueçamos que a advogada Janaína Paschoal, que junto com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Realle Jr. protocolou o pedido de impeachment aceito contra a então presidente, disse, absolutamente segura de sua crença, que foi Deus quem iniciou o processo de impeachment. Na verdade, ela disse: “Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com nosso país e conferisse a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”. Mas, por que é tão importante garantir que “Deus” esteja presente nas ações políticas tomadas numa disputa?
A esquerda política brasileira nunca fez questão de justificar suas escolhas, objetivos, programas e projetos a partir de “Deus”. A “presença de Deus” na esquerda no Brasil (assim como em toda a América Latina) sempre se deu via movimentos como a chamada Teologia da Libertação católica ou via teólogos protestantes progressistas. Para a direita e o campo conservador, Deus é central. Ele é o legitimador de todas as disputas que eles empreendem.
Quando Eduardo Cunha dizia que aborto era uma pauta que só passaria por cima do seu cadáver, ele não tinha preocupação em defender isso com ideias. Ele pressupunha que, ao barrar o aborto, ele estaria defendendo a vida, e quem dá a vida é Deus. E ele sabe que, para o senso comum, este argumento basta. Aqui, o “argumento Deus” é capaz de neutralizar, ou deixar em segundo plano, qualquer desvio de conduta, atitude desonesta ou, quiçá, criminosa, de qualquer parlamentar.
É preciso ter nítida a ideia de que se está “do lado de Deus” para, mesmo sabendo que se está tão comprometido na Lava Jato quanto qualquer parlamentar petista, condenar as ações de parlamentares do PT ou mesmo vociferar sobre ética e moral contra Dilma Rousseff – ainda que ela não esteja envolvida.
Se o parlamentar fala em nome de Deus (leia-se da sua relação com a igreja), é irrelevante que a sua trajetória política o desqualifique nitidamente para reivindicar a ética, a justiça e a moral. Quando você diz defender os valores “instituídos por Deus”, você pode dizer, por exemplo, que luta para que o Brasil não se torne uma Venezuela ou não seja tomado pelo “bolivarianismo” sem precisar explicar absolutamente nada sobre o que isso significa. É certo que o debate do julgamento para o impeachment está quase restrito ao campo da gestão e da economia, mas parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”.
Complexo é pensar que, hoje, podemos usar o adjetivo “evangélico” (ou protestante, aqui tanto faz) tanto para parlamentares como Pastor Everaldo, Magno Malta e (também agora) Jair Bolsonaro, e também para figuras como Martin Luther King Jr. E isso não é simples, porque é tão destoante que se torna quase um erro gramatical colocar o último na mesma frase que os outros três.
Uma igreja negra nos Estados Unidos foi determinante para forçar o fim da segregação racial, enfrentar o Estado e abrir caminho para a conquista dos direitos civis dos negros, e, consequentemente, ampliar o caminho em direção para a garantia dos direitos de outros grupos sociais. Uma igreja negra na África do Sul, com Desmond Tutu e Allan Boesak à frente, foi determinante para forçar o fim do apartheid e fortalecer a luta que tinha Nelson Mandela como a figura principal. Em ambos os países, a igreja se tornou o refúgio de negros perseguidos, sem direitos, local de sua formação, autonomia e empoderamento.
A escolha dos cristãos negros e negras do sul estadunidense era transitar entre a não violência, proposta e defendida pelo Dr. King, e o apoio integral às ações enérgicas do movimento Black Power, às ações dos Panteras Negras, libertação da ativista Ângela Davis. A igreja negra na África do Sul e seus teólogos apontavam para a violência de Estado em Soweto. Tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, o “Deus” reconhecido pela Teologia Negra (bem como pelas igrejas alinhadas com a Teologia da Libertação na América Latina) era aquele do êxodo do povo vindo da escravidão no Egito, liberto na travessia do Mar Vermelho, que se identificava com os homens e mulheres negros escravizados pela Europa e nos Estados Unidos e com os todos os pobres na era pós-escravocrata.
A igreja protestante que veio com a missão evangelizadora para o Brasil durante o período chamado de “protestantismo de missão” e não fomentou a formação de cristãos com histórias de luta semelhante. A força da moral das igrejas herdeiras da Reforma, sobretudo de inspiração calvinista, moldou o American way of life e, aqui no Brasil, foi, desde o início do século XX, assimilada pelas denominações que se distanciam de parte da teologia reformada e reivindicam o termo “evangélico” como sendo mais apropriado que “protestante”, mas mantém a exigência e o rigor moral. Evidentemente, tivemos evangélicos (e católicos) que se insurgiram contra a ditadura, se posicionaram contra a desigualdade econômica e a pobreza. Mas, via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios. E quando da virada dos anos oitenta para os noventa, as igrejas, em particular as evangélicas, descobriram os privilégios do Executivo e, principalmente, do Legislativo, o lago conservador tornou-se um mar.
O que se faz “em nome de Deus”, se faz e pronto. Dilma jamais iria sobreviver; iria sucumbir mais cedo ou mais tarde. Não surpreende que o julgamento e o ataque a ela tenha sido tão mais severo que o proferido ao próprio Eduardo Cunha. Até porque, em termos de poder, Cunha segue sendo uma sombra que ronda o círculo do Palácio. Dilma não terá a mesma sorte. Dilma foi destituída “em nome de Deus, da família e da democracia” (além de em nome de alguns parentes, cidades, bichos de estimação, etc). Um bom aprendizado de hoje pode ser que, na política brasileira, quem não “está do lado de Deus”, ou quem não sabe utilizá-lo a seu favor, está mais suscetível a golpes fatais.

Artigo publicado originalmente em The Intercept Brasil, 2 de setembro de 2016


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terça-feira, 17 de março de 2015

Como o cristão deve reagir frente a um governo corrupto?

Virou moda, não apenas na mídia e nas redes sociais como também dentro da Igreja Cristã reclamar e bradar aos quatro ventos contra a corrupção, real ou imaginária, propagada nos grupos de Whatsapp em fake news  intermináveis. Que ficam pululando já por mais de dez anos: de vez em quando elas voltam.. Sermões e
homilias se repetem, ecoando pelos blogs e posts no Facebook, no Twitter, principalmente no Whatsapp, e onde mais for possível “botar a boca no trombone”. Líderes religiosos e leigos de repente se tornaram guardiões da ética, da probidade e da transparência, querendo colocar corruptos na cadeia, fuzilar traficantes, fechar o Congresso e espancar os ministros do Supremo. Transformaram-se todos, de uma hora para outra, em profetas que, à moda de Elias e João Batista, vociferam contra o poder político, numa verdadeira cruzada moralizadora.
Mas até que ponto essa motivação pela ética é de fato real? Isto é, qual seria a razão por trás do surto moralizador que faz a todos quererem incorporar o espírito de Elias ou de João Batista?
Antes de tudo, é preciso esclarecer qual era o papel dos profetas nos tempos bíblicos, e também dentro da Igreja e sua relevância para o mundo.
Houve um tempo em que o governo de Deus se manifestava em duas esferas, a civil e a religiosa, em um reino monárquico – mas de cunho teocrático, onde as leis divinas também serviam como lei civil. É por isso que algumas vezes as admoestações dos profetas do Velho Testamento extrapolavam a esfera religiosa e faziam menções a situações de crise social ou econômica (ver Amós 2:6-8; 3:10; 4:1 etc.).
No Antigo Testamento alguns profetas sofreram perseguições por trazer a mensagem divina. O ofício do profeta era de âmbito nacional. Quando Deus levantava um profeta, conferia-lhe a missão de falar em Seu Nome para toda a nação e até para povos estranhos (como Jonas). 
Deus permitiu, naquele momento histórico peculiar, que os profetas abordassem, de vez em quando, assuntos alheios à religião, até mesmo para que as profecias de cunho não-religioso, que se cumpririam em curto prazo, pudessem servir de prova para as profecias de cunho religioso (que são mais importantes por envolver a salvação do gênero humano) – as quais deviam se cumprir muito depois, especialmente no que diz respeito ao Messias. Desta forma, a destruição do Templo, a dispersão dos judeus, a conversão dos pagãos e outras profecias que se cumpriram relativamente em curto prazo serviram como uma prova certa de que também as profecias ainda não-cumpridas também se cumpririam – e se cumprirão a seu tempo (como a vinda do Messias, Sua crucifcação, o Anticristo, a ressurreição dos mortos etc.). Esse tipo de profecia de “curto alcance” pode ser visto em Isaías caps. 36 e 37.
Mas essas situações eram específicas do reino de Israel, do governo teocrático. Ou seja, muito distante do Estado Laico característico dos governos modernos, pós-Revolução Francesa. Uma grande diferença se nota entre o exercício do poder político naqueles tempos e hoje. Os profetas no antigo Israel lidavam com os reis de forma dura e às vezes rude. Apontavam claramente os delitos cometidos pelos reis e povos, lançando-lhes na face, sem temor, as verdades mais humilhantes, procurando apenas obedecer a Deus e amando somente a verdade (cf. I Samuel 15,17; II Samuel 12,7; 24,13; II Crônicas 21,11; I Reis 14,7; 18,18; 21,19; II Reis 1; II Crônicas 16,7; I Reis 22; II Crônicas 19,1; II Reis 3,13; 20; Jeremias 21; 22; 24; Daniel 4; 5; etc.).
Depois do exílio babilônico, quando do restabelecimento de Israel, a difícil situação socio-econômica gerou um ambiente de crise social, cujas injustiças foram denunciadas inicialmente por Amós, indo até a época de Malaquias, cronologicamente, cerca de 400 a.C. Esse período, diferentemente do anterior, foi caracterizado pelo sofrimento e marginalização dos profetas. De homens dignos de reverência passaram a ser vistos com hostilidade, porque sua mensagem ia de encontro aos interesses escusos das lideranças religiosas e políticas (Hebreus 11:36-38).
O plano de Deus era que houvesse cooperação entre profetas e sacerdotes, mas estes últimos tendiam a aderir ao liberalismo e deixavam de protestar contra a decadência. O livro de Malaquias é uma dura advertência dos profetas contra os sacerdotes, os verdadeiros ladrões do dízimo (e não o povo, como se tenta fazer crer hoje em dia). Leia mais sobre isto aqui. Os sacerdotes muitas vezes concordavam com a situação reinante, e sua adoração a Deus resumia-se a cerimônias e liturgias. O profeta, por outro lado, ressaltava o modo de vida, a conduta e as questões morais. Repreendia constantemente os que apenas cumpriam com os deveres litúrgicos. Irritava, importunava, denunciava, e sem apoio humano defendia justas exigências e insistia em aplicar à vida os eternos princípios de Deus. Era ensinador da ética, reformador moral e inquietador da consciência humana. Desmascarava o pecado e a apostasia, procurando despertar a um viver realmente santo.
Quando chegamos no Novo Testamento,  há uma transição no ministério do profeta. Vemos João Batista, tido por muitos como o último profeta do Antigo Testamento, pelo caráter de sua pregação – denunciou as mazelas dos líderes religiosos e políticos da nação, como antes dele Ageu, Malaquias e principalmente Elias, mas também anunciou o Messias, como Isaías. E quando a Igreja é instituída, o ministério dos profetas se revela um dom de Deus para a edificação do Corpo de Cristo. No Novo Testamento os profetas não perderam a preeminência. Mas, diferentemente de antes, não mais atuam ungindo reis. Não mais participam do governo, mas juntamente com os apóstolos e outros ministérios, são as colunas da Igreja. Seu ministério é muito mais em âmbito interno, porque tudo que se precisa saber acerca das nações e do governo humano já está revelado. Leia, por favor, o Salmo 2 e Apocalipse 11:10, 17-18; também o cap. 17:12-16. O governo humano, as nações, suas instituições, sua política, sua economia, suas leis, tudo jaz (i.e., descansa, se apóia) no Maligno (I João 5:19), e por isso não há outro caminho senão a destruição.
I Coríntios 12: 27 -29 e Efésios 4.11-13 atestam o caráter de edificação da Igreja que acompanha o ministério dos profetas nesta era. O Senhor continua a levantar e a usar seus porta-vozes para revelar a sua mensagem ao seu povo. Podem eventualmente aconselhar governos, pessoas influentes, admoestar e até mesmo criticar, tendo como padrão a Palavra de Deus, mas não podem se deixar levar por suas próprias preferências pessoais. E este, penso, é um dos maiores erros da Igreja de nossos dias.
O que ocorre é um grave problema no entendimento do papel da Igreja no mundo. Jesus disse que o papel dos salvos era propagar a Sua Palavra, pregar o Evangelho (i.e., as boas-novas da salvação). Evidentemente, isso haveria de impactar e transformar o mundo, como de fato ocooreu nos primeiros séculos. Mas depois de algum tempo surgiu a noção errônea de que a Igreja deveria governar o mundo em nome de Cristo, uma doutrina comumente chamada de dominionismo, e nós já discutimos aqui, aqui e aqui, para ficarmos só nesses exemplos.  
Essa doutrina, embora eminentemente católica na sua origem, tem desdobramentos na igreja evangélica, uma vez que muitos pastores crêem nela com todas as suas forças. Daí essa idéia se desdobrar pelas igrejas, e a partir de certo momento, muitos passaram a se arvorar em arautos de Deus e tentar influenciar - em suas próprias palavras - governos e governantes, e conquistar cidades e nações “para Deus”.
Quando não conseguem, põem-se a criticar o governo e os governantes que não lhes agradam, dizendo-se “profetas de Deus”, quando no fundo são apenas profetas de si mesmos.
Muitos pastores e líderes são sinceros, e imbuídos de um forte senso de mora, ética e honestidade, querem de fato que a nação seja um exemplo para todo o resto do mundo. Como qualquer cidadão de bem, ficam triste quando vê notícias sobre corrupção e dilapidação do patrimônio nacional. Mas, como qualquer cidadão, estão sujeitos ao momento histórico e ao contexto social, político e cultural em que foram formados, o que, na maioria das vezes, significa serem conservadores, ideologicamente à direita no espectro político, avessos ao socialismo – mesmo que às vezes nem saibam direito o que é. Veja bem, não estou dizendo que é certo ou errado estar à direita, ao centro ou à esquerda, ou em qualquer outra divisão que se queira adota – o que quero dizer é que os cristãos – líderes, leigos, com cargo ou sem cargo – devem primeiro se questionar se estão contra ou a favor do governo atual por questões ligadas à ética, honestidade, transparência, querer o melhor para a nação etc., ou se são contra ou a favor apenas porque gostam ou não gostam de quem está no poder, no momento.
Senão, vejamos. Já até discuti isso antes, aqui, por ocasião dos protestos de 2013. Um monte de pastores se assumiu protestante de fato e saiu em defesa das manifestações de então, dizendo que tinha que ir pra rua mesmo. OK, até aí tudo bem. Se achamos que algo está errado, graças a Deus que vivemos numa democracia e podemos reclamar. Graças a Deus e a quem veio antes de nós e lutou por restabelecer um estado democrático, porque antes de 1985 vivíamos numa ditadura militar onde quem discordava do governo, o presidente mandava “prender e arrebentar” – palavras do general Figueiredo, o último ditador. Nessa época, não sei de nenhum líder evangélico que saísse em defesa de protestos e manifestações contra o regime de exceção. Pelo contrário, naquela época, era comum os líderes evangélicos (que ainda não ostentavam esse título pomposo e se contentavam em ser chamados apenas de “pastor”) costumavam pregar que deveríamos obedecer às autoridades, porque elas foram estabelecidas por Deus (cf. Romanos 13:1,2).
Sim, mas quando questionávamos “e se o governo for injusto”, um governo que tortura e mata seus opositores, além de transparência zero nas contas, recebíamos como resposta que não, não deveríamos ser rebeldes. Deus, a Seu tempo, resolveria isso e tiraria do governo as pessoas injustas.
Mas às vezes a coisa se inverte totalmente de lado. Dependendo do governo do momento, não só podemos, mas devemos nos revoltar contra a injustiça e a corrupção, como se fosse coisa nova. Se o governo é do agrado do conservador, então relativiza-se Romanos 13:1 e 2, e entra em cena Provérbios 29:2 (“Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme”), que aliás, foi usado para pedir votos para Marina Silva. Como a dizer que, se o governo for exercido por cristãos, tudo será só maravilhas, oh glória. Esquecendo-se de que o país já foi governado por pelo menos dois evangélicos, Café Filho (1954) e Ernesto Geisel (1974-79), e não se tem registro de que a situação tenha sido de alívio para todo mundo. Aliás, o período de Geisel foi onde mais recrudesceram as prisões, torturas e mortes do regime verde-oliva. Então, confesso que não sei até que ponto o estímulo a “ir pra rua”, partindo dos púlpitos modernos, realmente tem a ver com o desejo de justiça, ética, transparência, fim da corrupção, ou até onde é meramente um discurso de classe, político-partidário, ideológico, de um segmento que simplesmente apoia determinado político.
Mais uma vez – isto é um direito do cidadão, o de se posicionar contra, a favor ou com neutralidade ou até mesmo indiferença diante de situações específicas. Agora, querer assumir o papel de profeta, de Elias e de João Batista, como se fosse um paladino da justiça, apenas para esconder preferências pessoais, partidárias, classistas e de caráter ideológico e político, e pedir intervenção militar, volta da ditadura, fechamento do Congresso e da Suprema Corte, não posso aceitar de jeito nenhum. É dominionismo, em maior ou menor grau – simplesmente desejo de poder, de querer “governar em nome de Deus”, o que já discuti antes em vários posts anteriores, doa a quem doer. Vá aqui mesmo em “pesquisar neste blog” que você acha.
Se isso fosse um desejo genuíno de justiça social, probidade, ética, tudo de bom... esses líderes teriam se manifestado antes.
Bem antes.
No tempo dos generais, por exemplo.
Ou no tempo dos anões do orçamento.
Não teriam defendido Collor ou um genocida, misógino, racista, admirador de torturadores.
E por aí vai.

Com informações adicionais de:
http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/licao7-dem-2tr14-o-ministerio-de-profeta.htm

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Bispos e bispos...

A posse da presidente Dilma Rousseff foi transmitida por todos os canais de TV do Brasil e vários do exterior. O engraçado foi saber que a Globo cortou na hora a sua transmissão, colocando no ar “melhores momentos”(?) do “Caldeirão do Huck”. Mas quem mudou de canal viu por que: na fila do salamaleque estava o “empresário” Edir Macedo, dono da TV Record, segundo a qual a comitiva era a única da mídia no evento.
Duas reflexões:
A primeira é que uma das poucas coisas boas, se é que há alguma, em ver Edir Macedo ao lado da presidente Dilma é saber que a Globo se mordeu e espumou de raiva, sendo obrigada a cortar a transmissão abruptamente. Isso é muito bom! Fazer raiva na Globo não tem preço!
A segunda é mais séria.
Como diria Lula, “nunca antes na história deste país” teve tanto evangélico (ou pelo menos gente que se acha evangélica). Não por acaso, a visita a um bom número de igrejas já faz parte do roteiro de qualquer político. O PV de Marina Silva, por exemplo, apesar de defender a união civil de homossexuais, o aborto, a legalização de drogas e outros temas que quase custaram a cabeça a outros candidatos, ganhou pontos abençoados desse rebanho e forçou o segundo turno em outubro passado. Apesar da anencefalia coletiva, ou talvez por causa dela, é um contingente nada desprezível.
É preciso afagar a manada. E a forma mais fácil é lhe dando uma parcela, ainda que ínfima, desse poder e visibilidade. Isso agrada a massa.
Nos portais de notícias que aceitam comentários, a aparição do “bispo” na posse causou júbilo entre as hostes iurdianas. Um comentário dizia, eufórico, que “ninguém agüenta nós da universal” (sic). O comentarista tem razão; mas eu fico pensando na grande diferença dos “bispos” da atualidade para os verdadeiros bispos da história da Igreja.
João, por exemplo. É, aquele mesmo que escreveu um evangelho, três epístolas e o Apocalipse. Aquele que junto com Pedro foi o primeiro discípulo a chegar à tumba vazia. Aquele a quem Jesus amava.
Sabe-se que João foi bispo na cidade de Éfeso, uma das maiores cidades do Império Romano. Como em outros lugares, havia ali um templo da deusa Diana: eu vi um deles em Portugal e fiquei impressionado - e nem era dos maiores. Imagine-se o de Éfeso, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. A cidade, extremamente idólatra, vivia em torno do comércio religioso que emanava desse templo. A Bíblia relata que se faziam miniaturas dele, vendidas com muito lucro, até o dia em que os cristãos começaram a se multiplicar. Libertos da idolatria, abandonaram as bugigangas, que começaram a encalhar nas prateleiras, e aí, parece que é o noticiário de hoje: com a iminente quebra da economia local, houve um protesto na associação comercial. Foi tão grande o tumulto que a polícia chegou, desceu o cassetete a torto e a direito, e levou todo mundo para a delegacia, inclusive o apóstolo Paulo, para prestar esclarecimentos... leia mais em Atos 19.
Mas a despeito da antipatia dos comerciantes, a comunidade cristã cresceu e algum tempo depois, João se tornou bispo na cidade. A igreja em Éfeso foi mencionada em Apocalipse, e apesar de tomar uma repreensão do Senhor, foi elogiada por detonar os nicolaítas, o que significa que era uma igreja que não aceitava o domínio de uns sobre os outros. Já se vê aí uma diferença entre aqueles bispos e os de hoje.
Entre o tumulto em Atos e a carta em Apocalipse, se passaram cerca de 40 anos. Nesse meio tempo, pelo menos oito imperadores subiram ao poder: Nero em 54, Oto, Galba e Vitélio em 67/68, Vespasiano em 69, Tito em 79, Domiciano em 81 e Nerva em 96.
Não se tem notícia de que João tenha sido convidado para as solenidades de posse de nenhum deles. Nem Pedro, Lino, Anacleto ou Clemente, que a tradição diz terem sido os primeiros bispos da capital do império, foram convidados. O motivo? Simples: a igreja não compactuava com o governo, com suas diretrizes, seus métodos, sua ideologia. Não se misturavam. É  outra diferença entre aqueles bispos e os de hoje.
Para se ter uma idéia, o historiador Tácito escreveu que os cristãos eram, para os romanos, “o que há de abominável e infame no mundo... uns foram revestidos de peles de animais ferozes e jogados aos cães pra serem devorados; outros eram pregados em cruzes; muitos foram queimados vivos, embebidos de matéria inflamável, acesos para servirem de tochas à noite” (Anais da Historia Romana, XV:44).
Mas hoje... são outros tempos, dirão alguns.
Sem dúvida, são outros tempos.
Hoje o político precisa da igreja, e a igreja precisa do político. E nessa dependência mútua, abre-se espaço para o comércio, o negócio, a combinação: você não me atrapalha que eu não te atrapalho. Você me ajuda que eu te ajudo. Você fala, que eu te escuto.
E aí pergunto, mais uma vez: a Igreja precisa disto? Jesus, a quem pretendemos representar nesta terra, precisa disto? A Igreja precisa do poder terreno? Precisamos “tomar posse da nação”? Evidentemente, todo cidadão tem o direito de votar e ser votado, de acordo com suas convicções. Congressistas cristãos podem agir como sal e luz, barrar certas leis etc., mas têm o direito de exigir poder e holofotes? Podem barganhar verbas? Prometer votos em troca de concessão de emissoras de rádio e canais de TV?
O que temos visto a cada dia não é exatamente sal e luz, mas sim dólar na meia, na cueca, oração da propina, sanguessugas, passagens aéreas para parentes e apaniguados, tentativa de meter a mão no dinheiro do FGTS e outros absurdos.
Mas... são outros tempos.
O bispo agora não é mais queimado vivo não, que absurdo, ele é convidado para a posse presidencial.
Nunca antes na história deste país se viu tal coisa, dirão alguns. Nem da Igreja, digo eu. 
O bispo agora não vive distante da política; ele não é mais oposição a César. O bispo agora janta com César. César precisa do bispo, e vice-versa. E se você quiser saber o que é ser bispo, clique aqui.
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No dia da posse, o Jornal Nacional exibiu matéria sobre uma concentração da igreja Mundial, que vem crescendo mais que a IURD. O evento reuniu cerca de 100 mil pessoas no autódromo de Interlagos, em São Paulo.
Há oito meses, a IURD reuniu mais de 1 milhão de pessoas no mesmo local, e a TV Globo não noticiou o encontro. Só o jornal O Globo deu foco ao “congestionamento” e à “sujeira”, com o título pejorativo de “Caos universal e autorizado”. Valdemiro Santiago, auto-proclamado “apóstolo” e chefe da Mundial, é dissidente da IURD e nunca antes teve espaço na Globo, mas ofereceu R$15 milhões mensais por um horário no SBT. Dinheiro não falta, para isso existe o “bízimo” e o “trízimo”. Teria sido paga a matéria do JN, ou a Globo resolveu contra-atacar a Universal com a Mundial?
Será que vai ter próximos capítulos? Será que vale a pena ver de novo a guerra santa?
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