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domingo, 29 de agosto de 2021

Se Jesus fosse bolsonarista...

Talvez alguns de vocês tenham visto meus textos anteriores, “Se Jesus fosse católico” (link: https://bityli.com/Nxrjp) e “Se Jesus fosse um crente moderno” (link: https://bityli.com/CUE9n)   - se não viram, e se quiserem, ou se viram e se quiserem reler, cliquem nos links. Este é uma continuação.

Se Jesus fosse bolsonarista, ou se apoiasse politicamente, ideologicamente e concordasse com as atitudes do homem que preside o Brasil neste ano da graça de 2021, Ele provavelmente não teria multiplicado os peixes para alimentar a multidão (Mateus 15:36-38), mas diria que era preciso que o povo aprendesse a pescar.

Se Jesus fosse favorável ao bolsonarismo, quando os fariseus o questionavam com perguntas elaboradas (Mateus 15:1-2; Marcos 7:5), teria dito “pergunta pra tua mãe, acabou a conversa”, virando as costas e indo embora rapidamente.

Se Jesus fosse bolsonarista, talvez dissesse como o ministro da educação Milton Ribeiro, que “pessoas com deficiência atrapalham as outras”, e assim não teria curado a mulher encurvada (Lucas 13:11-13). E o homem paralítico estaria até hoje na fonte de Betesda esperando o anjo agitar as águas e tentando chegar primeiro (João 5:1-16). Fora incontáveis outros (Mateus 15:30-31; 21:14).

Se Jesus pensasse como bolsonarista, não iria chorar ao ver que Lázaro havia morrido (João 11:11,35), mas diria para todos ouvirem: “E daí? Não sou coveiro”.

Se Jesus concordasse com Bolsonaro, não teria conversado tanto tempo com a mulher samaritana (João 4:1-30), mas a teria insultado com termos como “quadrúpede”, e “não te estupro porque você é feia” (https://bityli.com/bEEpG).

Se Jesus fosse bolsonarista, em vez de se dirigir à multidão com as bem-aventuranças (Mateus 5:1-11) e muitos outros ensinamentos do “Sermão do Monte”, teria incitado o povo a cercar o Sinédrio e exigir a imediata deposição do tribunal supremo de Israel, ameaçando de morte a Anás e Caifás.

Se Jesus a favor desse presidente, não teria advertido a Pedro sobre o uso das armas e suas conseqüências (Mateus 26:52), mas sim defendido que todo o povo de Jerusalém procurasse comprar espadas “para se defender”.

Se Jesus fosse bolsonarista, não teria nem dado atenção ao ladrão na cruz (Lucas 23:40-43), porque “bandido bom é bandido morto”.

Se Jesus fosse fã do presidente, não iria dizer palavras de consolo a Maria Madalena (João 20:11-17) e aos discípulos entristecidos (Lucas 24:34-46), mas perguntaria “vão ficar de mimimi aí até quando?”.

Se Jesus fosse favorável ao bolsonarismo, não diria que Seu Reino não era deste mundo (João 18:36), mas teria externado Sua opinião de que Pilatos deveria ser substituído por Simão Zelote, já que era preciso ter Seus representantes no governo.

Se Jesus concordasse com esse governo, teria sacudido de Si o manto com que os soldados lhe cobriram (Mateus 27:28), e diria em alto e bom som: “minha capa jamais será vermelha”.

Se Jesus fosse bolsonarista, não chamaria seus discípulos de amigos (João 15:13-15) nem diria os seus nomes (Marcos 14:37; João 11:11, 43; 20:29), mas simplesmente os numeraria: 01, 02, 03 3tc. Ele diria “01, tu me negarás”, e também “09, coloca aqui o teu dedo”...

Finalmente, se Jesus fosse como Bolsonaro, jamais diria “entrego a minha vida pelas minhas ovelhas” (João 10:15), mas sim “e daí? vão morrer alguns, mas não posso fazer nada, vida que segue”.

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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

FAKE NEWS!

Recentemente, popularizou-se a expressão “fake news”, que significa literalmente “notícias falsas”. Uma descrição um pouco mais detalhada, que se pode conseguir em qualquer dicionário online, diz que “fake news” são
a distribuição deliberada de desinformação ou boatos via jornal impresso, televisão, rádio, ou ainda online, como nas mídias sociais. Este tipo de notícia é escrito e publicado com a intenção de enganar, a fim de se obter ganhos financeiros ou políticos, muitas vezes com manchetes sensacionalistas, exageradas ou evidentemente falsas para chamar a atenção. O conteúdo intencionalmente enganoso e falso é diferente da sátira ou paródia. Estas notícias, muitas vezes, empregam manchetes atraentes ou inteiramente fabricadas para aumentar o número de leitores, compartilhamento e taxas de clique na Internet, independentemente da veracidade das histórias publicadas. (...) o aumento da polarização política e da popularidade das mídias sociais, principalmente a linha do tempo do Facebook, têm implicado na propagação de notícias deste gênero. A quantidade de sites com notícias falsas anonimamente hospedados e a falta de editores conhecidos também vêm crescendo, porque isso torna difícil processar os autores por calúnia. A relevância dessas notícias aumentou em uma realidade política "pós-verdade" (...) Este tipo de notícia, encontrada em meios tradicionais, mídias sociais ou sites de notícias falsas, não tem nenhuma base na realidade, mas é apresentado como sendo factualmente corretas. (fonte)
Apesar de parecer recente, a prática é antiga.
- O político e general romano Marco Antônio cometeu suicídio motivado por notícias falsas (em 31 a.C.). Haviam dito a Marco Antonio que sua mulher, Cleópatra, havia cometido suicídio.
- No século VIII, a Doação de Constantino foi uma história forjada, em que supostamente Constantino havia transferido sua autoridade sobre Roma e a parte oeste do Império Romano para o Papa. Isto serviu de base para a posterior reivindicação dos reis franceses sobre grandes territórios.
- Poucos anos antes da Revolução Francesa, vários panfletos eram espalhados em Paris com notícias, muitas vezes contraditórias entre si, sobre o estado de falência do governo. Eventualmente, com vazamento de informações do governo, informações reais sobre o estado financeiro do pais foram a público.
- Benjamin Franklin escreveu notícias falsas sobre índios assassinos que supostamente trabalhavam para o Rei George III, com o intuito de influenciar a opinião pública a favor da independência americana.
- Em 1835 o jornal The New York Sun publicou notícias falsas usando o nome de um astrônomo real e um colega inventado sobre a descoberta de vida na lua. O propósito das notícias era aumentar as vendas do jornal. No mês seguinte o jornal admitiu que os artigos eram apenas boatos.
- Uma contribuição valiosa para a vitória de Eurico Gaspar Dutra na eleição presidencial de 1945 veio de Hugo Borghi, que distribuiu milhares de panfletos acusando o candidato Eduardo Gomes de ter dito: ''Não preciso dos votos dos marmiteiros''. O que Eduardo pronunciou na verdade, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 19 de novembro (menos de um mês antes do pleito, ocorrido em 2 de dezembro), foi: "Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me presidente da República". (fonte)

A Bíblia também nos fala de “fake news”. Talvez a mais famosa dessas notícias falsas, espalhadas deliberadamente, tenha sido a de que o corpo de Jesus tinha sido roubado e escondido pelos discípulos após a ressurreição: “E, quando iam, eis que alguns da guarda, chegando à cidade, anunciaram aos príncipes dos sacerdotes todas as coisas que haviam acontecido.
E, congregados eles com os anciãos, e tomando conselho entre si, deram muito dinheiro aos soldados,
Dizendo: Dizei: Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram.
E, se isto chegar a ser ouvido pelo presidente, nós o persuadiremos, e vos poremos em segurança.
E eles, recebendo o dinheiro, fizeram como estavam instruídos. E foi divulgado este dito entre os judeus, até ao dia de hoje”
(Mateus 28:11-15).
Outra história que se espalhou por um entendimento errado foi a de que o apóstolo João não morreria:
“Vendo Pedro a este (o discípulo João), disse a Jesus: Senhor, e deste que será?
Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.
Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?
(João 21:21-23).
Em Marcos 3:22, os escribas, indignados com a popularidade de Jesus, diziam que Ele operava milagres pelo poder de Satanás: “E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: Tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios.
Paulo foi preso várias vezes, vitimado por “fake news”. Em Filipos, a acusação era contra ele e Silas: E, apresentando-os aos magistrados, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade,
E nos expõem costumes que não nos é lícito receber nem praticar, visto que somos romanos.
E a multidão se levantou unida contra eles, e os magistrados, rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com varas.
(Atos 16:20-22)
Em Jerusalém, os judeus da Ásia, vendo-o (Paulo) no templo, alvoroçaram todo o povo e lançaram mão dele, clamando: Homens israelitas, acudi; este é o homem que por todas as partes ensina a todos contra o povo e contra a lei, e contra este lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este santo lugar.
Porque tinham visto com ele na cidade a Trófimo de Éfeso, o qual pensavam que Paulo introduzira no templo.E alvoroçou-se toda a cidade, e houve grande concurso de povo; e, pegando Paulo, o arrastaram para fora do templo, e logo as portas se fecharam. E, procurando eles matá-lo, chegou ao tribuno da coorte o aviso de que Jerusalém estava toda em confusão. (Atos 21:27-31)
Esta confusão só foi parcialmente desfeita quando o tribuno responsável pela segurança de Paulo escreveu uma carta ao governador esclarecendo tudo (Atos 23). Mas lemos no capítulo seguinte que os judeus continuavam a insistir na notícia falsa: “Verificamos que este homem é uma peste: suscita tumultos entre todos os judeus do mundo inteiro e é um chefe do partido dos nazareus. Tentou mesmo profanar o Templo; nós então o prendemos” .
Vemos, portanto, que as “fake news” são uma lástima. O pior disso tudo é ver cristãos praticando esta desgraça, diariamente, fazendo o serviço de Satanás, o pai da mentira. A USP (Universidade de São Paulo) fez um estudo onde apontava os principais produtores de notícias falsas no Brasil. O campeão das mentiras era o MBL, a mesma organização que teve centenas de páginas e perfis (próprios e vinculados) suspensos pelo Facebook, justamente por espalhar notícias falsas.
Já a revista Época, na sua edição 1034, fez um levantamento onde o site cristão de notícias “Gospel Prime” - cujo slogan é “o cristão bem informado” - foi denunciado como “o maior fabricante de notícias falsas”, devido à técnica de distorcer informações verdadeiras com mentiras. Um exemplo é a notícia da liberação de recursos do governo brasileiro para ajudar na reforma da Basílica da Natividade, local do nascimento de Jesus, hoje sob domínio da Autoridade Palestina (frequentemente referida no portal como “terroristas islâmicos”). Trata-se de uma medida que fere o Estado laico, porque o governo não pode subsidiar entidades religiosas, mesmo no exterior. Mas o Gospel Prime não lembrou que o Brasil é um Estado laico, como era de se esperar, mas, sem qualquer prova, divulgou que o dinheiro estava sendo “enviado a terroristas palestinos”.  O alegado fato foi reproduzido em redes sociais, principalmente por evangélicos, incluindo o pastor/deputado Hidekazu Takayama (PSC-PR), líder da Frente Parlamentar Evangélica, que gravou um vídeo comentando a “grave denúncia”. Este pastor, aliás, é o mesmo que apresentou um projeto de lei que previa descontar o dízimo na folha de pagamento dos empregados.
A jornalista Helena Borges, da “Época”, descobriu que deputados evangélicos usaram dinheiro de cota parlamentar para pagar ao Gospel Prime por “textos jornalísticos”. Pelo menos seis notas fiscais provam que os deputados Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Geovania de Sá (PSDB-SC) compraram textos elogiosos do Gospel Prime, entre 2015 e 2016, ao preço de R$ 250 cada um (fonte). Um dos textos publicado no período diz que “Sóstenes Cavalcante é o deputado mais atuante do RJ”. Obviamente os responsáveis pelo site e um grande número de seus leitores esbravejaram. As reações vão desde “imprensa comunista” (!) até “perseguição de Satanás” (fonte).
Esta reação exagerada é compreensível, mas não deve ser tolerada, principalmente em tempos de polarização política. Notícias que exaltam candidatos conservadores como Bolsonaro e Cabo Daciolo no referido site recebem comentários elogiosos, ao passo que quando se fala de Lula, Haddad, Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos, os mais à esquerda, apenas os estômagos mais fortes conseguem ler o que se comenta.
Por outro lado, uma matéria recente que dizia que Lula tinha muitos votos entre o povo evangélico foi tachada de ... “fake news”Isto não é “fake news”. Você discordar de uma matéria não a torna automaticamente “fake”. “Fake news”, ao contrário, são mentiras.
Por exemplo, algumas “fake news” que ouvimos dos púlpitos e que foram espalhadas aos quatro ventos, foram:
- Se o Lula for eleito, ele vai fechar as igrejas evangélicas (2002)
- Lula vai confiscar o dinheiro que os brasileiros têm no banco (2002)
- A Bolívia, o Equador e a Venezuela vão invadir o Brasil (2003)
- O PT vai implantar o socialismo e transformar o Brasil numa nova Cuba (2002, uma versão requentada da mesma balela de 1964)
- Jesus vai voltar num sábado de 2007 (2006)
- Se a Dilma for eleita, ela vai perseguir os pastores (2010)
- Dilma aprovou a identificação de todos os cidadãos com microchip (2011)
- Marina Silva foi escolhida por Deus para ser presidente do Brasil e transformar a nação (2010, 2014 – veja aqui e aqui -, e 2018 - aqui)
- Jair Bolsonaro foi escolhido por Deus para ser presidente do Brasil e transformar a nação (2018).
- Existe um plano para implementar a URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Você já ouviu mais coisas assim, não preciso dar mais exemplos.
Você, cristão (ã) que não quer ser instrumento do pai da mentira, deveria seguir alguns conselhos básicos para

(a)  Não acreditar em notícias falsas, e
(b)  Não divulgar mentiras. Desconfie sempre de:
1.        Sites registrados com domínio .com ou .org (sem o .br no final), o que dificulta a identificação de seus responsáveis com a mesma transparência que os domínios registrados no Brasil.
2.       Sites que não possuem qualquer página identificando seus administradores, corpo editorial ou jornalistas. Quando existe, a página ‘Quem Somos’ não diz nada que permita identificar as pessoas responsáveis pelo site e seu conteúdo.
3.       As “notícias” não são assinadas.
4.       As “notícias” são cheias de opiniões e discursos de ódio (“haters”), termos preconceituosos e depreciativos (“comunistas”, “petralhas”, “terroristas” etc.).
5.       Intensiva publicação de novas “notícias” a cada poucos minutos ou horas.
6.       Possuem nomes parecidos com os de outros sites jornalísticos ou blogs autorais já bastante difundidos.
7.       Seus layouts deliberadamente poluídos e confusos fazem-lhes parecer grandes sites de notícias, o que lhes confere credibilidade para usuários mais leigos.
8.      São repletas de propagandas, o que significa que a cada nova visualização o dono do site recebe alguns centavos (estamos falando de páginas cujos conteúdos são compartilhados dezenas ou centenas de milhares de vezes por dia no Facebook).
Agindo contra esses “robôs” do mal, você estará contribuindo para melhorar o ambiente na Internet e por extensão, na sociedade. 
Não seja como os fariseus dos tempos bíblicos. Espalhe a verdade.

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domingo, 13 de novembro de 2016

Ser evangélico no Brasil e suas implicações políticas

Ser evangélico se insere numa longa tradição. Mas hoje em dia “ser evangélico” é o mesmo que ser submetido a uma série de estereótipos que pareciam sepultados, mas que desde a ascensão do chamado “fundamentalismo” ressurgiram com força máxima. Esse fundamentalismo representa uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames desses “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. A única opção válida de atuação política é a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Por isso surgem excrescências como a “bancada evangélica”, e discursos como “temos que ter gente nossa no governo”. Em alguns outros casos, levanta-se a bandeira da defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma, sem o qual, afirma-se, não existe cristianismo.
Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o fundamentalismo moderno se arvorou em única forma legítima de fé cristã.
Qualquer estudo da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.
Depois que a religião assumiu uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada. 
Assim que classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológico-doutrinárias baseadas na Reforma Protestante do século XVI. De fato, desde o século X já se dizia que era preciso se reaproximar do Cristo dos evangelhos, com a Igreja cada vez mais afetada pela promiscuidade política do clero – então uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas como compra de cargos, guerras e assassinatos. O papado tornou-se um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos entre o povo pobre e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na Reforma: de um lado os fiéis a Roma, de outro as várias igrejas que surgiram: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas na Suíça, Alemanha e França, Escócia e Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; e anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.
Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando o serviço militar e cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua, recusando-se a pagar tributos a Roma. Anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.
Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Na Holanda lutaram para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinham garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.
No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.
Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.
Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?
Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.
Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.
As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram ter uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados - o caso mais emblemático é o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.
Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho: a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Ninguém
mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.
Não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico significa – ou pelo menos deveria significar – lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, e na assistência desinteressada aos pobres fora dela; na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.
Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra quem pensa diferente. Como que fazem “pastores” de idéias tão díspares entre si como Silas Malafaia e Paschoal Piragine, que incitam os fiéis a não votarem no PT ou no PSOL, por serem “contra a fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho, já que ninguém lê a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na igreja e o pastor em questão seria destituído na próxima assembleia.
É claro que isso não vai acontecer. Assembléias nas igrejas viraram instâncias de homologação de show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Os crentes não se dão ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de seus pastores. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico.
Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza. Deveria significar não permitir que carreiristas se assumissem como porta-vozes da igreja e da fé. Deveria significar maturidade. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Adaptado de um artigo publicado originalmente por André Egg em Revista Amálgama (09/09/2010) Professor da UNESPAR, professor colaborador no PPGHIS-UFPR, colaborador da Gazeta do Povo. Um dos organizadores do livro “Arte e política no Brasil: modernidades” (Ed. Perspectiva, 2014). http://www.revistaamalgama.com.br/09/2010/caso-piragine/


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