Mostrando postagens com marcador impeachment. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador impeachment. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de setembro de 2016

Em nome de Deus (?)

Voltei, quatro meses depois. 
O tempo passou.
Dilma Rousseff está destituída do cargo de Presidente da República. Sem que Deus fosse usado como “fiador” de uma mudança necessária por exigência da ética, da moral, dos bons costumes e da ordem, muito provavelmente, todo o embate ético-político que se arrastou desde o auge do poder de Eduardo Cunha na presidência da Câmara até agora, com a queda definitiva de Dilma, não aconteceria – ou poderia ter outro fim.
Não esqueçamos que a advogada Janaína Paschoal, que junto com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Realle Jr. protocolou o pedido de impeachment aceito contra a então presidente, disse, absolutamente segura de sua crença, que foi Deus quem iniciou o processo de impeachment. Na verdade, ela disse: “Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com nosso país e conferisse a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”. Mas, por que é tão importante garantir que “Deus” esteja presente nas ações políticas tomadas numa disputa?
A esquerda política brasileira nunca fez questão de justificar suas escolhas, objetivos, programas e projetos a partir de “Deus”. A “presença de Deus” na esquerda no Brasil (assim como em toda a América Latina) sempre se deu via movimentos como a chamada Teologia da Libertação católica ou via teólogos protestantes progressistas. Para a direita e o campo conservador, Deus é central. Ele é o legitimador de todas as disputas que eles empreendem.
Quando Eduardo Cunha dizia que aborto era uma pauta que só passaria por cima do seu cadáver, ele não tinha preocupação em defender isso com ideias. Ele pressupunha que, ao barrar o aborto, ele estaria defendendo a vida, e quem dá a vida é Deus. E ele sabe que, para o senso comum, este argumento basta. Aqui, o “argumento Deus” é capaz de neutralizar, ou deixar em segundo plano, qualquer desvio de conduta, atitude desonesta ou, quiçá, criminosa, de qualquer parlamentar.
É preciso ter nítida a ideia de que se está “do lado de Deus” para, mesmo sabendo que se está tão comprometido na Lava Jato quanto qualquer parlamentar petista, condenar as ações de parlamentares do PT ou mesmo vociferar sobre ética e moral contra Dilma Rousseff – ainda que ela não esteja envolvida.
Se o parlamentar fala em nome de Deus (leia-se da sua relação com a igreja), é irrelevante que a sua trajetória política o desqualifique nitidamente para reivindicar a ética, a justiça e a moral. Quando você diz defender os valores “instituídos por Deus”, você pode dizer, por exemplo, que luta para que o Brasil não se torne uma Venezuela ou não seja tomado pelo “bolivarianismo” sem precisar explicar absolutamente nada sobre o que isso significa. É certo que o debate do julgamento para o impeachment está quase restrito ao campo da gestão e da economia, mas parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”.
Complexo é pensar que, hoje, podemos usar o adjetivo “evangélico” (ou protestante, aqui tanto faz) tanto para parlamentares como Pastor Everaldo, Magno Malta e (também agora) Jair Bolsonaro, e também para figuras como Martin Luther King Jr. E isso não é simples, porque é tão destoante que se torna quase um erro gramatical colocar o último na mesma frase que os outros três.
Uma igreja negra nos Estados Unidos foi determinante para forçar o fim da segregação racial, enfrentar o Estado e abrir caminho para a conquista dos direitos civis dos negros, e, consequentemente, ampliar o caminho em direção para a garantia dos direitos de outros grupos sociais. Uma igreja negra na África do Sul, com Desmond Tutu e Allan Boesak à frente, foi determinante para forçar o fim do apartheid e fortalecer a luta que tinha Nelson Mandela como a figura principal. Em ambos os países, a igreja se tornou o refúgio de negros perseguidos, sem direitos, local de sua formação, autonomia e empoderamento.
A escolha dos cristãos negros e negras do sul estadunidense era transitar entre a não violência, proposta e defendida pelo Dr. King, e o apoio integral às ações enérgicas do movimento Black Power, às ações dos Panteras Negras, libertação da ativista Ângela Davis. A igreja negra na África do Sul e seus teólogos apontavam para a violência de Estado em Soweto. Tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, o “Deus” reconhecido pela Teologia Negra (bem como pelas igrejas alinhadas com a Teologia da Libertação na América Latina) era aquele do êxodo do povo vindo da escravidão no Egito, liberto na travessia do Mar Vermelho, que se identificava com os homens e mulheres negros escravizados pela Europa e nos Estados Unidos e com os todos os pobres na era pós-escravocrata.
A igreja protestante que veio com a missão evangelizadora para o Brasil durante o período chamado de “protestantismo de missão” e não fomentou a formação de cristãos com histórias de luta semelhante. A força da moral das igrejas herdeiras da Reforma, sobretudo de inspiração calvinista, moldou o American way of life e, aqui no Brasil, foi, desde o início do século XX, assimilada pelas denominações que se distanciam de parte da teologia reformada e reivindicam o termo “evangélico” como sendo mais apropriado que “protestante”, mas mantém a exigência e o rigor moral. Evidentemente, tivemos evangélicos (e católicos) que se insurgiram contra a ditadura, se posicionaram contra a desigualdade econômica e a pobreza. Mas, via de regra, a igreja no Brasil tendeu a se tornar também um lugar de privilégios. E quando da virada dos anos oitenta para os noventa, as igrejas, em particular as evangélicas, descobriram os privilégios do Executivo e, principalmente, do Legislativo, o lago conservador tornou-se um mar.
O que se faz “em nome de Deus”, se faz e pronto. Dilma jamais iria sobreviver; iria sucumbir mais cedo ou mais tarde. Não surpreende que o julgamento e o ataque a ela tenha sido tão mais severo que o proferido ao próprio Eduardo Cunha. Até porque, em termos de poder, Cunha segue sendo uma sombra que ronda o círculo do Palácio. Dilma não terá a mesma sorte. Dilma foi destituída “em nome de Deus, da família e da democracia” (além de em nome de alguns parentes, cidades, bichos de estimação, etc). Um bom aprendizado de hoje pode ser que, na política brasileira, quem não “está do lado de Deus”, ou quem não sabe utilizá-lo a seu favor, está mais suscetível a golpes fatais.

Artigo publicado originalmente em The Intercept Brasil, 2 de setembro de 2016


733.780

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Se Jesus fosse um crente moderno...


...Ele não venceria Satanás pela Palavra, mas teria perguntado a ele o que ele veio fazer ali. Teria amarrado o capeta, teria repreendido várias vezes, o mandaria ajoelhar com as mãos para trás, e dizer que é derrotado; teria feito uma sessão de descarrego, vestido de branco, durante treze sextas-feiras. Aí sim o capiroto sairia humilhado com o rabo entre as pernas. (Mateus 4:1-11)
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria curado o servo do centurião de Cafarnaum à distância, mas mandaria levar o rapaz a uma de suas reuniões de milagres e lhe daria um lencinho abençoado ou uma toalhinha ungida para colocar sobre o paralítico durante sete semanas. Aí sim, ele seria curado. (Mateus 8: 5-13)
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria multiplicado pães e peixes e distribuído de graça para o povo, de jeito nenhum! Na verdade o pão ou o peixe seriam “adquiridos” através de uma pequena oferta de no mínimo 50 dracmas e quem comesse o tal pão ou peixe milagrosos seria curado de suas enfermidades. (João 6:1-15)
Se Jesus fosse um crente moderno, ele até teria expulsado os cambistas e os que vendiam pombas no templo, mas permaneceria com o comércio, agora sob sua gerência. E então falaria a eles sobre os cinco passos para ser um líder de sucesso para aquela geração. (Mateus 21:12-13)
Se Jesus fosse um crente moderno, jamais teria dito, no caso de alguém bater em nossa face, para darmos a outra. Ele certamente teria mandado que pedíssemos fogo consumidor do céu sobre o agressor, pois “ai daquele que tocar no ungido” (Mateus 5 :38-42)
Se Jesus fosse um crente moderno, quando os fariseus o pedissem um sinal certamente ele imediatamente levantaria as mãos e delas sairiam vários arco-íris, um esplendor de fogo e glória se formaria em volta dele, que flutuaria enquanto anjos cantarolavam: “divisa de fogo, varão de guerra, ele desceu a terra, ele chegou pra guerrear”. Todos ao redor sentiriam um calor forte, seguido de arrepios e tremedeiras. Ele repetiria tal performance sempre que fosse solicitado a provar que era o Filho de Deus. (Mateus 16:1-12)
Se Jesus fosse um crente moderno, nunca teria dito para carregarmos nossa cruz, ou para perdermos nossa vida para ganhá-la, mas teria dito que nascemos para vencer e que fazemos parte da geração de conquistadores, e que todos somos predestinados para o sucesso. E no final gritaria: receeeeeeebaaaaaa! (Lucas 9:23)
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria feito simplesmente o “sermão da montanha”, mas teria realizado o Grande Congresso Galileu de Avivamento Fogo no Monte, cuja entrada seria apenas 250 dracmas divididas em 4 vezes sem juros. Claro que haveria o barranco “VIP”, mais perto do Mestre, que custaria um pouco mais. E antes que ele começasse a falar, haveria três horas de apresentação dos levitas dos grupos “Diante do Tabernáculo” e “Trazendo o Trono”, para maior enlevo espiritual e preparação do clima para a mensagem (Mateus 5:1-11)
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria curado a mulher encurvada imediatamente, mas a teria convidado para a Escola Internacional de Cura para aprender os sete passos para receber a cura divina. (Lucas 13:10-17)
Se Jesus fosse um crente moderno, de forma alguma teria entrado em Jerusalém montado num jumento, mas primeiro teria dado sete voltas na cidade, para ganhar a nação para Ele mesmo. Depois derramaria azeite, sal, suco de uva e água do rio Jordão nos portões, num grande ato profético para purificar o local de toda influência maligna.  Só então entraria numa carruagem real toda trabalhada em pedras preciosas, com o levita Tomé à frente, tocando um shofar, e a seguir a pastora Maria Madalena “liberando” a bênção sobre Jerusalém. E o povo não o receberia declarando “Hosana”, mas marcharia atrás da carruagem dançando um animado reteté, enquanto os apóstolos contariam quantos milhões de pessoas estavam na primeira marcha para Jesus. Chupa, DataFolha! (Mateus 21:1-15)
Se Jesus fosse um crente moderno, ao se deparar com o leproso (Marcos 1:40-45) este não ficaria curado imediatamente, mas durante a semana, enquanto ele continuasse crendo. Pois se parasse de crer...
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria expulsado o demônio do gadareno com tanta facilidade. Ele teria realizado um seminário de batalha espiritual para, a partir daí, se iniciar o processo de libertação daquele jovem.  O gadareno precisaria se lembrar de todos os seus pecados - mesmo os que foram cometidos no jardim de infância - e confessá-los um a um diante de toda a congregação. Então depois de três meses sob disciplina, finalmente ele seria liberto e readmitido à comunhão. (Marcos 5:1-20)
Se Jesus fosse um crente moderno, não teria transformado água em vinho, mas em suco de uva Maguary. (João 2:1-12)
Se Jesus fosse um crente moderno, jamais curaria as multidões, mas mandaria que todos orassem sobre um copo de água, colocassem uma rosa ungida atrás da porta, deitassem sobre um travesseiro previamente abençoado pelos apóstolos e varressem a casa com uma vassoura consagrada, para que o mal saísse daquelas vidas (Mateus 12:15; 15:30).
Se Jesus fosse um crente moderno, aquele texto do buraco da agulha seria assim: “Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um não-dizimista entrar no reino dos céus” .(Mateus 19:22-24)
Se Jesus fosse um crente moderno, ele teria sim onde recostar sua cabeça. Ele moraria no bairro onde estavam localizados os palácios mais chiques e teria um castelo de verão no Egito, fora que viajaria todo ano de férias para Roma. Viajaria numa caravana de primeira classe ou então em seu próprio navio. De pobreza já bastaria ter nascido numa estrebaria. (Mateus 8:20)
Se Jesus fosse um crente moderno, Zaqueu não teria devolvido o que roubou nem distribuído aos pobres, mas teria doado tudo ao seu ministério como prova de submissão à Sua cobertura espiritual. (Lucas 19:1-10)
Se Jesus fosse um crente moderno,  nunca diria aos discípulos que eles seriam perseguidos, açoitados e levados a interrogatório diante dos reis e governantes deste mundo, mas profetizaria que eles seriam honrados pelos homens, levantados como líderes mundiais, como atalaias de nações e conselheiros de reis, para governar em nome de Deus. Diria que eles seriam empresários, políticos e generais de influência, que deveriam honrar a Deus com seus bens, e que eles comeriam o melhor da terra. (Marcos 13:9; Gênesis 45:18)
Se Jesus fosse um crente moderno, não pregaria nas sinagogas, nas praias e debaixo de árvores, mas sim na recém inaugurada sede mundial da “Igreja de Jesus - Ministério Jerusalém”, construída com as ofertas, dízimos e primícias dos parceiros de Jesus fiéis, que pagariam mensalmente o carnêzinho abençoado e receberiam diplomas de dizimistas fiéis e colunas do templo”, autografadas pelo Mestre; e Judas ao traí-lo não se mataria, mas abriria a “Igreja de Jesus Renovada - Ministério Palestina Para Deus, sob a liderança do Apóstolo Iscariotes”. No mesmo esquema, só mudaria a placa...
Se Jesus fosse um crente moderno, não diria que no mundo teríamos aflições, mas sim que teríamos sucesso, honra, vitória, sucesso, riquezas, sucesso, prosperidade, honra, porção dobrada... Ele diria que temos que declarar que somos especiais, determinar que tomamos posse do bom e do melhor, e decretar a falência do olho gordo. Afinal, filhos de Deus têm que ser cabeça, e não cauda, e todo lugar que eles pisarem podem tomar posse. (João 16:33)
Se Jesus fosse um crente moderno, de forma alguma diria que não devemos nos assemelhar aos gentios (Mateus 6:8). Pelo contrário, ele apoiaria até lutas de gladiadores dentro do templo, para manter os jovens na igreja.
Se Jesus fosse um crente moderno, ele lutaria pela igualdade dos direitos trabalhistas dos carpinteiros da Galiléia e região, e defenderia a isenção de impostos para os líderes religiosos e seus templos (afinal, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus).
Mas se Jesus fosse um crente moderno, com toda certeza ele iria na manifestação contra a corrupção do governo romano, a mais grave em toda a História mundial, causa do declínio da Judéia e do caos nas finanças do império; e pediria veementemente o impeachment de César, incentivando pessoalmente passeatas contra a roubalheira de Roma. Ele reivindicaria a participação dos cristãos no Senado imperial. Ele diria no palanque, sob aplausos, que a voz do povo é a voz de Deus, e que um país só pode prosperar se for governado por pessoas justas e tementes a Deus.

Certamente, se Jesus fosse um crente moderno, não sofreria tanto.
Tampouco morreria por mim e por você.

(adaptado; reproduzido com permissão)

700.200

segunda-feira, 28 de março de 2016

Eu sou contra a corrupção!

É isso mesmo.
Eu sou contra a corrupção.
Abomino esses governantes que dizem uma coisa e depois fazem outra.
Detesto políticos que se aproveitam do cargo para se dar bem, que usam a estrutura pública em benefício próprio. Não posso concordar com essas pessoas que só pensam em levar vantagem. De jeito nenhum.  
Infelizmente, não tenho todo o tempo que eu gostaria para poder manifestar minha indignação. O único tempinho que arranjei para escrever esse meu manifesto foi agora, aqui no meu trabalho, aproveitando que o meu chefe tinha uma reunião em outro andar. Aí ficou um pouco calmo por aqui e resolvi protelar um pouco – só um pouco – o trabalho que eu tinha prometido entregar ainda hoje. Infelizmente, vai ficar para amanhã, porque fazer este protesto é mais importante. Meu chefe pode esperar até amanhã. Além do mais, eles me pagam muito pouco. Não tem nada de mais usar um pouco do tempo que seria dedicado à empresa e ao trabalho para expressar a minha opinião. Ah, sim, e também o equipamento onde estou digitando, salvando e a impressora onde vou imprimir o texto para ver se ficou bom.
Um colega aqui do lado também tem a mesma opinião. Ele, como diácono de sua igreja, é contra a corrupção do atual governo. Eu sei que ele é diácono porque ele escreve toda semana o boletim da igreja no seu computador. Ou melhor, no computador da empresa. Depois, toda sexta-feira no final do expediente, ele imprime aqui as 500 cópias que serão distribuídas aos irmãos no domingo de manhã. Esse meu colega é uma bênção.
Somos muito unidos. Quando teve a prova de seleção interna, combinamos de nos ajudar mutuamente – afinal, irmão ajuda irmão. Na hora da prova, trocamos algumas informações discretamente, algumas respostas, e assim ambos passamos e fomos promovidos.
Nós somos muito unidos. Mas eu sou mais radical. Por exemplo, eu sou contra o projeto de cobrar imposto de igreja. Acho que as igrejas devem permanecer isentas. Ainda mais as evangélicas, pois as outras igrejas sempre receberam benefícios do governo. Basta você ver qualquer cidade do interior. O templo católico fica sempre no melhor lugar da cidade, sempre na praça central. Até em Brasília é assim! A principal igreja católica da cidade fica bem ao lado dos ministérios! Porque então cobrar imposto das igrejas evangélicas? Deviam cobrar só da igreja católica. Eles já tiveram isenção de impostos e muita mordomia por muito tempo. É hora de levantar um clamor contra isso. E esse governo corrupto só quer ganhar dinheiro fácil!
E por falar em ganhar dinheiro fácil, o meu é muito difícil de ganhar. Por isso sempre dou um jeito de economizar. Quando saio de carro, procuro fugir dos estacionamentos pagos. Paro em qualquer lugar que posso. Mesmo que haja placa de estacionamento proibido, como eu não posso gastar tanto, eu deixo ali mesmo e peço a Deus para que nenhum guarda me multe. Afinal, meu carro foi Deus que me deu, porque sou dizimista fiel. Tem até um adesivo pregado, que diz “propriedade de Jesus”. Deus não vai deixar um guarda ateu me multar.
Outro dia apareceu até um flanelinha, um garoto esfarrapado perguntando se podia olhar o carro. Eu disse que sim, não é proibido olhar para o meu carro! Quando voltei um tempo depois, o garoto estava do outro lado da rua, parecendo cochilar. Aproveitei e saí rápido, e assim economizei mais algum dinheirinho! Deus me deu essa esperteza!
É por causa disso que quando vou a restaurantes não pago os 10% do garçom. Afinal, é serviço opcional. Ele está ali para fazer o seu trabalho, e ainda quer mais 10%? Absurdo! Se eu tiver que dar 10%, prefiro dar para o pastor da minha igreja, porque ele me ensina muitas coisas boas. Ele me ensina a odiar a corrupção. Ele me ensina a protestar contra o governo corrupto. Tudo bem que este é o primeiro governo contra o qual ele ensina a protestar, mas tudo bem. Eu não me lembro de tê-lo visto protestar contra o governo na época dos militares, apesar de correr as notícias de que eles prendiam pessoas quando quisessem, torturavam e até matavam. Tudo bem que naquele tempo não havia democracia, não tinha nem eleição, mas se meu pastor não ensinava protestar contra essas coisas, ele devia estar certo. Ele é um ungido, e não devemos tocar no ungido.
Também não me lembro de tê-lo ouvido dizer para pedirmos o impeachment do Collor, por causa da corrupção. Isso é coisa de agora, deve ser alguma revelação nova que ele recebeu de Deus agora, a de pedir impeachment, desde que seja contra o nosso candidato. Afinal, antes não tinha essa corrupção toda, meu pastor falou, e o nosso candidato foi Deus que indicou. Meu pastor sabe das coisas, ele é ungido! Ele deve ter tido da parte de Deus uma nova interpretação para Romanos 13.
Por isso dou a ele 10%, e não para o garçom. Meu pastor é um homem próspero. Um exemplo. Ele tem uma casa muito boa, tem sempre carro do ano, e todo ano viaja de férias para Miami. Ele é um exemplo para mim. Ele é contra a corrupção, e eu também sou.
Sou contra o sistema, e por isso não gosto de dar dinheiro para ele. Sempre que posso, compro coisas sem nota fiscal, porque tem muito imposto embutido no preço das coisas, e quando compro sem nota sempre tem um descontinho. É melhor que esse dinheiro fique comigo do que com esses corruptos! Ladrões! Fora corruptos!
Na minha igreja todo mundo é assim. Somos muito unidos! Tem um outro pastor lá, que apesar de não ser formado em Teologia, a gente chama de pastor. O que que tem isso de mais, Pedro também não estudou Teologia...  Esse irmão é vendedor e  sempre nos vende roupas por preços bem camaradas  (opa, essa palavra é comunista) mais em conta. Ele também prefere vender assim informalmente, e assim não declara no Imposto de Renda. Pra que dar mais dinheiro a esses bandidos que não fazem nada com nossos impostos?  
Vou parar por aqui porque meu chefe vem chegando ali. Talvez amanhã, se ele sair de novo por algum tempo, eu tenha tempo de terminar este meu protesto. Afinal, eu sou contra a corrupção.

BASEADO EM FATOS REAIS.

698.000