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terça-feira, 25 de março de 2014

O Livro de Gênesis:


Já discutimos bastante as regras e métodos de interpretação das Escrituras, as quais nos habilitam a entender melhor o texto sagrado. Vimos que a tendência a alegorizar demais certas passagens podem enganar até mesmo os teólogos mais experientes. E agora, vamos nos debruçar sobre uma das passagens mais cruciais da Bíblia, e sua interpretação, a partir da qual toda a nossa fé pode ser edificada, ou destruída. Trata-se do livro do Gênesis, o primeiro da revelação de Deus ao Homem.
Hoje em dia especula-se muito sobre quais porções da Bíblia, em especial Gênesis, seriam fatos históricos e quais seriam apenas parábolas, alegorizações, contos e fábulas de outros povos, alguns contemporâneos, outros mais antigos que os judeus. Não raro, ouvimos coisas como “a criação bíblica é um mito”, ou “Gênesis é uma representação lendária da mente primitiva”.
O que é mito? É uma história que explica um aspecto da vida humana, sem nunca ter acontecido de fato. Mitos são  eventos envolvendo deuses e suas relações com os homens; mas são eventos atemporais, “a-históricos”. Com o objetivo de entretenimento, o mito é fictício. Se ensinado como a explicação factual de um determinado aspecto da vida, é uma mentira. C.F. Nosgen explica: “Qualquer conto não histórico, independente de como possa ter surgido, no qual uma sociedade religiosa encontra uma parte constitutiva de seus fundamentos sagrados, por causa da expressão absoluta de suas instituições, experiências e idéias, é um mito”.
Religiões pagãs abundam em mitos: o de Pandora explica o mal no mundo como resultado de uma caixa que foi aberta contra a instrução dos deuses. O mito babilônico Enuma Elish explica a criação pela morte e divisão de um grande monstro, Tiamat.
A Bíblia fala de mitos. No Novo Testamento, a palavra grega é μθος [“mythos”], “mito”, às vezes traduzida como  “fábulas”. Mas a mensagem bíblica não é baseada ou derivada de mitos: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas (“mythos”) artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade  - II Pedro 1:16. Ela nos adverte contra os mitos: “Nem se dêem a fábulas” (“mythos”) - I Timóteo  1:4. E também alerta que nos últimos dias, sob a influência de falsos mestres - podemos chamá-­los de “mitologistas” - as pessoas “desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (“mythos”) - II Timóteo 4:4. Esta profecia hoje se cumpre naqueles que antes consideravam Gênesis verdade, mas agora dizem que é um mito.
Assim, nesta questão, há muita coisa em jogo. Se dissermos que Gênesis (especialmente os primeiros capítulos, de 1 a 11) é um mito, a divindade das Escrituras ­ a sua qualidade de “soprada por Deus”, conforme II Timóteo 3:16 - é negada, e assim se perde a sua autoridade, confiabilidade, clareza, suficiência e unidade. Se Gênesis é um mito, a mensagem da Bíblia é descartada, pois Gênesis é o fundamento da doutrina da justificação pela fé e do evangelho da graça. Martinho Lutero disse que os dois primeiros capítulos de Gênesis são “certamente o fundamento de toda a Escritura”. Então a questão que somos forçados a resolver é: como devemos encarar a Escritura: História ou Mito?
Se admitimos Gênesis como um mito, então os eventos ali registrados nunca aconteceram de fato:
Este mundo nunca veio à existência pela Palavra de Deus (Gênesis 1).
A raça humana nunca se originou a partir de um homem, Adão, que foi criado pela mão de Deus a partir do pó, e de uma mulher, Eva, feita pela mão de Deus a partir de uma costela do homem (cap.2).
O pecado e a morte nunca entraram no mundo pelo homem ter  comido o fruto proibido, instigado por  Eva e pela serpente (cap.3). Se o relato não é histórico, a queda também não é.
Nunca houve o desenvolvimento da agricultura, pastoreio, música e metalurgia (Cap.4).  
Nunca houve um dilúvio universal (caps.6-­8).
Nunca houve uma torre de Babel ocasionando a divisão das nações pela confusão da língua (cap.11).
Referindo­se à tentação de Eva pela serpente, Lutero escreveu: “Através de Moisés [o Espírito Santo] não nos dá alegorias tolas, mas Ele nos ensina sobre os eventos mais importantes, os quais envolvem Deus, o homem pecador e Satanás ­ o originador do pecado. Vamos, portanto, estabelecer em primeiro lugar que a serpente é uma serpente de verdade, mas que foi possuída e tomada por Satanás, que está falando por meio da serpente” . Um pouco mais tarde, refletindo sobre os três primeiros capítulos, Lutero comentou: “Nós tratamos todos esses fatos em seu significado histórico, que é o seu único e real significado”. E acrescentou: “Ninguém pode falhar em ver que Moisés não tinha a intenção de apresentar alegorias, mas simplesmente de escrever a história do mundo primitivo”.
Ou existe alguém que se atreve a negar que Cristo e Seus apóstolos viam as pessoas e os eventos de Gênesis como históricos? E que ensinavam a igreja do Novo Testamento a considerá-­los como tais, em Mateus 19:3­9; João 8:44; Mateus 24:37-­41; Romanos 5:12­-21; I Coríntios 11:7­-12; I Timóteo 2:12-­15; II Pedro 3:5­6; Atos 17:26 etc.? Ninguém deriva a concepção de Gênesis 1-­11 como mito por uma exegese sólida dessas passagens do Novo Testamento.  
A origem disto é fácil de identificar: é o desejo de acomodar o pensamento da Igreja ao mundo, para moldar o cristianismo à cultura mundana. Abandonou-se a separação entre os ímpios e o povo de Deus, entre a mente dos inimigos de Deus e a mente de Cristo. Para ser respeitável e atraente para o homem moderno e educado, as igrejas devem adaptar seu pensamento, sua confissão - e sua Escritura - à teoria científica mais recente. E uma vez que a teoria dominante é a evolução darwiniana, Gênesis - e por conseguinte, toda a revelação bíblica - deve dançar conforme a música ateísta (e no meu modo de ver, pelo iluminismo do século XVIII). O teólogo católico Zachary Hayes dá uma justa advertência: “Não se pode abrir a possibilidade de defender alguma forma de evolução sem abrir uma caixa de Pandora. Aqueles que abrem essa caixa devem estar dispostos a assumir a responsabilidade de lidar com os tipos de problemas que surgem em muitas áreas da Teologia”.
A história da criação traz a dependência de Israel em Deus, e a confissão de que seu Deus é o único Deus. A história da queda é o reconhecimento de que o homem é inerentemente pecador e precisa de redenção.
Mas essa aplicação boa, espiritual e útil não vale nada, porque tudo passa a ser mito. E se é mito, eu devo dar ao Gênesis tanta atenção quanto eu dou à caixa de Pandora, a Marduk ou a Chapeuzinho Vermelho (como alega Richard Dawkins e seu “monstro do espaguete voador”)!
Gênesis é um fato histórico, doa a quem doer, e apresenta a origem de todas as coisas: o universo, incluindo o tempo e o espaço; o Homem; o matrimônio e a família; a ordem básica de seis dias de trabalho e um de descanso, o pecado, a maldição e morte, não só para a raça humana, mas também para a criação, o evangelho e o Salvador prometido, a antítese entre piedoso e ímpio, as nações, etc.
Quando dizemos que Gênesis 2 (um homem e uma mulher como uma só carne) é um mito, estamos afirmando que como isto não é um relato factual da instituição histórica do casamento pelo próprio Criador, então não sou obrigado por qualquer lei de fidelidade no casamento. Eu posso viver como e com quem desejar, no casamento ou fora dele!
Quando o pregador que lê Gênesis 3 como mito me diz que eu preciso de um redentor, eu preciso perguntar: “Será que o Homem realmente caiu?”; pois se ele não caiu de fato, eu não preciso de um redentor, mas sim evoluir.
Se Gênesis é mítico, então Cristo também o é. Pois o pensamento que coloca Gênesis como uma palavra humana também deve colocar os evangelhos como palavra humana. Se nunca houve uma queda histórica de um Adão histórico, não há necessidade de um Jesus histórico. Sem Adão, sem Cristo! Jesus Cristo vem ao mundo pela promessa de Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Mas a quem Deus dirigiu essa palavra, essa “promessa-­mãe”? Para a serpente! Negue Gênesis 3, negue a serpente, e você aniquilará a promessa de Jesus Cristo: sem serpente, sem Salvador! Um Cristo mítico não morreu por nossos pecados. Um Cristo mítico não pode perdoar nossos pecados reais. Um Cristo mítico não irá conosco através do vale da sombra da morte. Um Cristo mítico não vai ressuscitar nosso corpo do túmulo. Somente o Cristo histórico fez e vai fazer essas coisas. O Cristo histórico faz com que o Gênesis seja histórico, e a fundação de Si mesmo e a Sua obra.
A doutrina do juízo de Deus também depende de Gênesis. Mas se Gênesis é um mito, o juízo também o é. Se Gênesis não é história, todas essas doutrinas estão perdidas.
Os ateus sabem disso, e tentam fazer como Dawkins: convencer o mundo de que Gênesis é um mito, porque assim fazendo, desacreditam toda a Palavra de Deus. E o pior é que muitos cristãos já embarcaram nessa canoa furada.
Entretanto, a ciência não pode analisar, julgar e confirmar os eventos registrados em Gênesis. A própria criação foi um milagre. Como um milagre ela é pouco acessível às ferramentas de investigação do cientista, assim como é a ressurreição de Jesus.
Ademais, entre a obra da criação de Deus, como descrito em Gênesis 1 e 2, e a ciência atual, há duas barreiras que o esforço científico não pode superar: a queda com a maldição que está presente em toda a criação, e o dilúvio que destruiu todo aquele mundo, dando uma forma inteiramente nova a esta Terra ­- Gênesis 3:17, 18; II Pedro 3:6. Nenhum instrumento científico pode voltar atrás antes do dilúvio. O mundo de antes do dilúvio não pode sequer ser conhecido por qualquer teoria científica. Apesar de evidências que têm sido encontradas ao redor do planeta, as pessoas ainda duvidam do dilúvio universal e dizem que “tudo continua como desde o princípio da criação” (II Pedro 3:1-7). No dilúvio (Gênesis 6­-8), histórico, real e maior do que apenas uma inundação local na região do Tigre e do Eufrates, o “mundo de então pereceu”! Acabou, foi extinto! O único conhecimento que alguém tem, ou pode ter, do mundo antes do dilúvio é aquele dado pelo próprio Deus em Gênesis.
Para nós, a questão se a Bíblia, e em especial Gênesis, é história ou mito, não é intelectual nem acadêmica.
Nas igrejas sadias, as crianças pequenas aprendem a responder algumas perguntas como:
“Quem é o seu Criador?” - R: “Deus”.
“Quem criou todas as coisas?” - R: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”.
“Como é que nós sabemos sobre essa criação?” - R: “Deus nos diz sobre isso em Sua Palavra, a Bíblia”.
“Quem são os nossos primeiros pais?” - R: “Adão e Eva”.
“Como é que Satanás veio a Eva?” - R: “Ele usou a serpente para falar com Eva”.
“O que Deus prometeu?” - R: “Um Salvador, para nos salvar dos nossos pecados”.
Queremos que estas crianças vão para o céu. Se elas vierem a duvidar de todas essas respostas como se fossem mito, irão para o inferno como incrédulos. Seja quem for o responsável - pais, pregadores, professores, teólogos - seria melhor que uma pedra de moinho lhes fosse amarrada ao pescoço e jogados nas profundezas do mar. Esses pequeninos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, acreditam na historicidade de Gênesis.
“Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3).

Resumo do livro Gênesis 1-11 – História ou Mito? de David Engelsma
(http://livros.gospelmais.com.br/files/livro-ebook-genesis-1-11-historia-ou-mito.pdf)

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terça-feira, 4 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (4)

Princípios de interpretação
Eu falei antes sobre os princípios básicos de interpretação bíblica: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sua situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. Eles estão detalhados no livro “Princípios de Interpretação Bíblica”, de Walter A. Henrichsen (Ed. Mundo Cristão).
Não vou transcrever o livro todo, só mais alguns trechos, como este:
Nas questões de religião o cristão se submete, consciente ou inconscientemente, a suma das seguintes autoridades – a tradição, a razão, ou as Escrituras. A posição oficial e histórica da igreja católica tem sido a de fazer da tradição o supremo tribunal de recursos. A doutrina da virgem Maria é um exemplo. O que a Bíblia ensina sobre Maria é interpretado de acordo com o modo como a igreja católica a vê tradicionalmente.
Em boa parte do protestantismo, o racionalismo (cf. liberalismo, modernismo) ocupa o centro do palco. A conclusão extraída da mente é o supremo tribunal. Deixa-se que a razão decida o que é fundamental para a fé. Por exemplo, uma pessoa que abraça essa abordagem pode concluir que a fé na concepção virginal de Cristo não é nem racional nem essencial, e daí esse ensino bíblico é rejeitado.
O cristão fiel considera a Bíblia como o seu supremo tribunal. A crença na concepção virginal é abraçada porque a Bíblia a ensina. O que a Igreja crê acerca de Maria deve ser interpretado pelas Escrituras, e não vice-versa.
Isto não quer dizer que não há validade em cada uma das três formas de autoridade. Os adeptos de cada um dos sistemas de pensamento referidos concordam sobre a importância dos outros dois. Mas em caso de conflito, que voto conta? Se a tradição, a razão e a Escritura diferem quanto ao modo de ver Maria e a concepção virginal, qual autoridade será o árbitro final? Temos aqui a primeira lei da interpretação a Bíblia deve ser o supremo tribunal. Ela deve ser a autoridade final.
Um exemplo. Suponha que você vá viajar para o Japão, de avião. É preciso presumir pelo menos quatro coisas:
1 – o piloto sabe dirigir o avião.
2 – o avião chegará com segurança.
3 – o pessoal da imigração respeitará o seu passaporte.
4 – você concretizará o propósito de sua viagem.
Digamos que no aeroporto, antes de embarcar, você pergunte ao piloto:
- Será que esse avião me leva mesmo a Tóquio?
- Certamente – ele lhe responde.
- Mas – você pergunta – e aquele outro avião que caiu no mar? O senhor garante mesmo que chegaremos a salvo no Japão?
- Não – responde o comandante – não posso garantir. Mas suba a bordo e quando chegarmos lá o senhor saberá.
Isto é um compromisso antes do conhecimento. Você se dispõe a comprometer-se, a arriscar a vida [atravessando o oceano a quilômetros de altitude, a uma velocidade absurda], porque é melhor ir de avião do que a nado. Quando você decidiu ir para o Japão, assumiu um compromisso antes de saber o que ia acontecer. Não sabia se as autoridades permitiriam sua entrada no país. Supôs que o fariam, e se comprometeu com essa suposição antes de o saber.
No estudo da Bíblia, começamos com a questão da autoridade, e isto porque a autoridade das Escrituras é superior à da mente humana e da tradição. A questão da autoridade e da inspiração divina é respondida naturalmente quando você se submete à Palavra. Você até pode estudar a questão da inspiração em separado, mas somente saberá que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada quando se colocar sob a autoridade dela.
Estes são os princípios gerais da interpretação:
- trabalhe partindo da pressuposição de que Bíblia tem autoridade (exemplificado no caso da viagem ao Japão);
- a Bíblia é seu próprio intérprete: ou seja, a Escritura explica melhor a Escritura;
- a fé salvadora e o Espírito Santo são necessários para compreendermos e interpretarmos bem a Escritura
- interprete a experiência pessoal à luz da Escritura, e não o contrário;
- os exemplos bíblicos têm autoridade, mas só quando amparados por uma ordem de Deus (se você for fazer tudo o que Jesus fazia, teria que andar a pé, usar sandálias, não se casar etc.);
- o propósito principal da Bíblia é mudar nossas vidas, não aumentar nosso conhecimento;
- cada cristão tem o direito e a responsabilidade de investigar e interpretar pessoalmente a Palavra de Deus (Atos 17:11, o exemplo de Beréia);
- a História da Igreja é importante, mas não decisiva na interpretação da Escritura (a Igreja não deve determinar o que a Bíblia ensina; mas a Bíblia é que determina o que a Igreja ensina).
Princípios gramaticais
- a Escritura deve ser tomada literalmente sempre que possível; a linguagem metafórica ou simbólica pode dar margem a fantasias. Vou tratar desse tópico com mais detalhes mais adiante;
- interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor;
- interprete a palavra em relação à sua sentença e ao seu contexto;
- interprete a passagem em harmonia com o seu contexto;
- quando um objeto inanimado é usado para descrever um ser vivo, a proposição pode ser considerada figurada;
- quando uma expressão não caracteriza coisa descrita, a proposição pode ser considerada figurada (Filipenses 2:3-5, onde os cães referidos não são os melhores amigos do homem);
- as principais partes e figuras de uma parábola representam realidades. Considere somente essas partes principais quando tirar suas conclusões;
- interprete os profetas no sentido comum, literal e histórico, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. O cumprimento das profecias pode ser por etapas, cada uma sendo a garantia de que a próxima também irá se cumprir.
Alguns alegam que existem erros gramaticais na Bíblia. Isto é verdade até certo ponto. Quando consideramos Apocalipse, por exemplo, que muitos dizem não poder ter sido escrito pelo apóstolo João, é fácil verificar que ele escrevia num idioma que não era o seu “nativo”, e sob grande urgência e pressão. Não teve tempo de considerar as finuras da gramática, o que sem dúvida teria feito em outras condições. Daí a diferença “de estilo”. Além disso, temos que levar em conta que Deus parece se utilizar do fato de que a gramática foi feita para o homem, e não o homem para a gramática: quando Moisés indaga a Deus que nome deveria mencionar a Faraó, Deus lhe diz: “Eu Sou O Que Sou. Dirás ‘Eu Sou’ me enviou”.
Ezequiel 39:2 é outro exemplo de “erro gramatical”. Algumas versões dizem “Far-te-ei que voltes atrás e deixes a sexta parte”. Outras dizem “porei seis ganchos em tuas queixadas”, e também “perseguir-te-ei com seis pragas”. Nenhuma dessas traduções, contudo, é literal, pois isso fugiria completamente às leis da gramática: Ezequiel usou um substantivo no lugar de um verbo. A tradução literal seria “Eu te seis”, o que evidentemente significa “eu farei a ti algo com o número seis”, ou “aplicarei a ti [de alguma maneira] o número seis”. Isto se repete em Apocalipse 1:4 – “o que é, que era e que há de vir”. A língua original diz: “o ser, o era, e o vinha”, e não pode de modo algum ser considerado um “erro”. É intencional.
Princípios históricos
- desde que a Escritura originou-se num contexto histórico, também deve ser compreendida à luz da história bíblica;
- embora a revelação de Deus nas Escrituras seja progressiva, tanto o Velho como o Novo Testamento são essenciais à revelação, e formam uma unidade;
- os fatos e acontecimentos históricos se tornam símbolos de verdades espirituais somente se as Escrituras assim os designarem.
Princípios teológicos
- você precisa entender a Bíblia gramaticalmente antes de compreendê-la teologicamente;
- uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela;
- quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias, tenha em mente que mais cedo ou mais tarde elas se explicam escrituristicamente, dentro de uma unidade mais elevada e mais ampla;
- um ensinamento simplesmente implícito na Escritura pode ser considerado bíblico quando apoiado por passagens correlatas (isto é, outros trechos que tratam do mesmo assunto). Por exemplo, paralelos de palavras (todas as vezes em que aparece “dizimo” na Bíblia), paralelos de idéias (menções a ganância, avareza) e paralelos doutrinários (salvação, santificação etc.). Você precisa reunir todas as peças sobre o assunto e extrair delas o ensinamento. Dicionários e enciclopédias bíblicas podem ajudar, desde que você consiga filtrar o viés denominacional encontrado, por exemplo, nas chamadas “Bíblias de Estudo”, já que existe a “da mulher”, a “pentecostal”, a de “batalha espiritual”, de “vitória financeira” e outras (até “Bíblia mangá já inventaram);
- é importante consultar diferentes versões, por exemplo: Almeida (revista, corrigida etc.); King James; linguagem “de hoje”; a “hebraica” ou “de Jerusalém” etc. Às vezes o que está complicado numa versão se esclarece em outra, simplesmente com o uso de palavras diferentes.
Tenho certeza que, se formos honestos e dermos à Bíblia a chance de se auto-explicar, e se observarmos essas regras básicas de interpretação e estudo, chegaremos facilmente à conclusão final de que Deus um dia quis se expressar ao Homem que Dele havia se separado, e para isto providenciou a Sua Palavra, escrita por homens que Ele mesmo escolheu, através de uma longa série de séculos, até que a tivéssemos na forma atual, porque assim Ele o quis. A Bíblia esteve para desaparecer por completo da face da terra, tendo havido épocas em que os exemplares completos se contavam com os dedos de uma mão. Mas a imprensa e os meios tecnológicos modernos hoje a divulgam como nunca, e as ferramentas de estudo também estão disponíveis a todos. Descobertas arqueológicas, como os manuscritos do Mar Morto, nos permitem comparar os textos escritos há 2000 anos ou mais, desfazendo toda e qualquer dúvida quanto à fidedignidade das Escrituras, já que o texto é idêntico – não houve as alegadas adulterações e modificações que desvirtuariam o sentido original.
A mensagem da Bíblia é clara para aqueles que buscam descobrir o seu significado. O problema surge quando se leva preconceitos para a Bíblia, procurando adequá-la a idéias pré-concebidas. Isto não é falha da Bíblia, e sim das pessoas que querem que a Bíblia diga o que elas querem! Quem usa esses argumentos como desculpa para não crer na Bíblia ou em Jesus, na verdade não diz “Não posso crer porque as provas não me convenceram”, mas sim “Não importam as provas, eu não quero crer”.
Assim, ao leitor sincero e honesto, que deseja ver desfeitas as suas dúvidas, digo que seja bem vindo, e conte com a minha boa vontade e esforço de tentar esclarecer.
Aos que querem apenas criar polêmicas e ridicularizar a Bíblia com argumentos furados, nada tenho a dizer, a não ser que estudem direito antes de tentar criar celeumas inúteis. Vejam se realmente querem aprender algo ou apenas criar caso à toa, aparecer, bater boca. E fiquem à vontade para procurar o que fazer em outro lugar.

(com informações de Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987, e Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão).

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Contradições da Bíblia? (3)


Como interpretar as Escrituras 

Muitas pessoas me mandam dúvidas sobre a Bíblia e supostas contradições no texto das Escrituras. Algumas realmente querem algum tipo de explicação sobre uma passagem, outros expõem o que acreditam ser falhas no texto, e outros dizem que a Bíblia é falsificada, cheia de erros, preconceitos e maus exemplos. Eu tento responder, por que às vezes também me aparecem certas dificuldades e algumas passagens parecem ser contraditórias, outras enigmáticas. Às vezes eu nem respondo, porque percebo que alguns não querem de fato entender a Verdade bíblica, e apenas polemizar. Não vão ser convencidos de que a Bíblia é a Palavra de Deus, porque no fundo não crêem em Deus. Como creriam na Sua Palavra? Então que fiquem com suas polêmicas. Em outros casos, eu procuro correr atrás das respostas, porque dessa forma eu também aprendo coisas novas.
Meu amigo Mário Persona criou um site onde colecionou, ao longo dos anos, as inúmeras perguntas que lhe chegaram, e procura respondê-las. Aconselho você, que tem dúvidas, a consultá-lo (www.respondi.com.br/) . Eu também vou lá de vez em quando. É sempre muito bom procurar explicações no maior número de fontes possível, até que você possa ver qual delas é a mais embasada biblicamente, e formar a sua própria opinião. É assim que procuro responder aos que me perguntam sobre esses temas. Tenho minha própria opinião, busco estudar na Palavra, em livros de autores responsáveis e de gabarito; e também em sites confiáveis, do ponto de vista da “sã doutrina”. É evidente que, se você estiver sinceramente interessado em aprender da Palavra de Deus, deve também orar a respeito, e pedir a Deus que lhe abra o entendimento e lhe revele os preciosos ensinos que foram preservados através dos séculos. Peça a Ele que desvende a Sua Palavra a você, e depois confirme na própria Escritura. A Escritura pela Escritura se explica.
Outro dia um engraçadinho – anônimo, como sempre – a propósito da longevidade dos patriarcas, disse que não se pode saber se Sara realmente estava na menopausa, “porque não havia ginecologista”. É o mesmo raciocínio tosco de quem diz que “Maria não era virgem” (aliás, outro ataque tão antigo como os pagãos de Roma, que usavam a mesma frase para tentar desacreditar os cristãos): o tempo passou, mas algumas pessoas continuam intelectualmente na idade da pedra. Existem coisas que realmente não são passíveis de comprovação documental, como aspectos ginecológicos das mulheres da Bíblia; mas o relato é tão fiel e verdadeiro em tantas outras passagens, que não há razão para não crer nele. Por exemplo, é fisicamente impossível que um homem caminhe sobre a água, ainda mais durante uma tempestade “no mar” (na verdade o lago de Tiberíades, sobre o qual falaremos depois). Mas Jesus fez isso. Também é cientificamente impossível que alguém ressuscite depois de quatro dias morto; mas Jesus reviveu Lázaro. Essa é a natureza do milagre, ou seja, o “sobrenatural” – acima, além, do natural. Eventualmente, cientistas tentam dar explicações científicas a esses fenômenos, mas freqüentemente criam armadilhas para si próprios, como neste artigo. Aqui e nos próximos textos, vou pinçar alguns desses comentários questionadores, e para os seus autores peço a licença para usá-los como ponto de partida para a discussão dos seus temas. Entretanto, optei por não citar os comentaristas um a um, porque são vários. Preciso economizar espaço. Para ficar mais claro,  usarei este tipo de letra para as citações dos leitores.
Como os antigos gnósticos, alguns não conseguem aceitar “um Deus capaz de coisas que não seriam esperadas nem do mais selvagem e injusto ser humano”, como quando se diz que Deus se arrependeu, ordenou a morte de populações, criou o mal etc. (Isaías 45:7, Amós 3;6, Miquéias 1:12 etc.). Orígenes, um antigo erudito e intérprete das Escrituras, defensor do método alegórico de interpretação, tentava conciliar essas passagens dizendo que “muitos textos bíblicos são intencionalmente obscuros, racionalmente incoerentes ou moralmente repugnantes, a fim de forçar o intérprete a descobrir o seu significado verdadeiro mais profundo” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 137/138). Uma falácia, como veremos adiante, num artigo sobre os métodos de interpretação bíblica.
Outros enveredam pelo caminho mais fácil: “a Bíblia está cheia de erros, portanto não vale a pena crer nela”. Ou então, mesmo sem saber nada sobre os símbolos e tipos que a Bíblia nos apresenta, apelam para o método alegórico, campo fértil para fantasias. E assim caem nos mesmos erros que se perpetuaram no seio da igreja católica, doa a quem doer.
Uma das coisas a que nós precisamos recorrer com relação a possíveis contradições bíblicas é a honestidade. Vemos muitas vezes que as pessoas aplicam regras diferentes quando se trata de examinar a Bíblia, o que é claramente usar dois pesos e duas medidas. Citam-se frases de Gandhi, Mandela e Carl Sagan, de Bertrand Russell e de Voltaire, como se fossem a verdade absoluta; fazem-se referências a sábios e filósofos que não deixaram nada escrito (como o próprio Sócrates, cujo pensamento conhecemos apenas através dos testemunhos de Platão e Xenofonte, que por sua vez os transmitiram a seus respectivos discípulos). Mas quando citamos Paulo, Moisés ou Isaías, dizem logo que não se tem certeza sobre a autoria da frase, que são contraditórias, que nem mesmo se sabe se esses personagens existiram de fato. Ou seja, falta honestidade no uso de critérios.
Por exemplo, quando se usa o discurso proferido por Estevão momentos antes de ser apedrejado, como sendo prova de que Bíblia errou. Citam Atos 7:2, onde se lê: “Estêvão respondeu: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, ANTES de habitar em Harã...”. Porém (contestam) o livro de Gênesis (11:31 a 12:1) relata o acontecido DEPOIS de Abraão habitar em Harã. Ora, se alguém errou aqui foi Estevão. Lembremo-nos de que ele estava prestes a ser executado. Ele fez um longo sermão e praticamente contou TODA a história de Israel desde o início até os dias de Cristo. Qual o problema em uma pessoa cometer um erro pequeno assim, em todo o seu sermão? Se você resolvesse me contar toda a História do Brasil, sabendo que assim que terminasse iria ser fuzilado, será que você diria tudo sem cometer nenhum equívoco, sem trocar nenhuma informação? Talvez você não consiga nem mesmo se souber que vai ganhar um prêmio. Vemos isso todo dia em programas da TV. Chamem os universitários! Como se adiantasse alguma coisa chamar universitários hoje em dia... desculpa aí.
O que Lucas fez, ao escrever os atos dos apóstolos, foi contar exatamente o que ocorreu, e o que ocorreu foi que Estevão disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto prova que a Bíblia não foi adulterada, como acreditam os céticos (se é que cético acredita em alguma coisa, é nisso: a Bíblia foi alterada). Ora veja bem: se deveria haver alguma adulteração, seria justamente corrigindo o erro de Estêvão. Mas não, o relato foi fiel ao que aconteceu: ele disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto basta para reafirmar que o relato histórico do livro de Atos é um fidedigno, e como tal, ele detalha o equívoco de um dos primeiros mártires, que trocou apenas uma palavra em um extenso sermão.
Uma coisa que é fundamental para se achar as respostas é ter um método de interpretação do texto bíblico. A Editora Mundo Cristão lançou um livro, há muitos anos, sobre esse assunto, do autor Walter A. Henrichsen (ao lado, a edição que eu tenho). Não sei se ainda está à venda, mas você se puder, compre e leia, várias vezes. É dele que transcrevo a seguir alguns trechos, com algumas regras básicas que tenho procurado seguir ao tentar achar o significado e a coerência de trechos da Escritura que apresentam, digamos, dificuldades.
Logo no seu prefácio, há uma citação de Frank E. Gaebelain: “O cristianismo é peculiarmente religião de um livro só. Elimine a Bíblia, e você terá destruído o meio pelo qual Deus decidiu apresentar Sua revelação ao Homem através de sucessivas eras”. Essas simples frases trazem duas verdades fundamentais: Deus existe, e fala a nós por meio da Bíblia; por isso, os ataques à Bíblia, nas suas diversas formas, são parte de uma guerra para eliminar a comunicação de Deus com os homens. Quando concluímos que a Bíblia não presta – por ter erros, dar maus conselhos, ter sido adulterada etc. – estamos abrindo mão de receber o que Deus queria nos dizer. E a segunda verdade é que essa comunicação de Deus com os homens não se deu da mesma forma ao longo da História.
Sabemos que lá no início, Deus falava com o Homem diretamente, tête-a-tête. Depois, através dos patriarcas, com as promessas; depois veio a Lei e os profetas, e por fim, o próprio Deus se encarnou em forma humana. Depois que Ele subiu aos céus, prometeu voltar e deixou toda a compilação que hoje chamamos de Bíblia como registro do que aconteceu e orientações acerca do presente e do futuro, para nossa edificação, consolação e exortação. É isso que está escrito em Hebreus 1:1 ,2 – “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”.
Assim, o livro de Henrichsen nos diz que...
Há quatro partes básicas no estudo correto da Bíblia.
1 – Observação, que responde à pergunta: “o que vejo?” Aqui o estudante aborda o texto como um detetive. Nenhum pormenor é sem importância; nenhuma pedra fica sem ser virada. Cada observação é cuidadosamente arrolada para consideração e comparação posteriores.
2 – Interpretação, que responde à pergunta: “o que isto significa?” Aqui o intérprete bombardeia o texto com perguntas como: “que significavam estes pormenores para as pessoas às quais foram dados? Por que o texto diz isto? Qual a principal idéia que ele busca comunicar?”
3 – Correlação, que responde à pergunta “como isto se relaciona com o restante daquilo que a Bíblia diz?” O estudante da Bíblia deve fazer mais do que examinar somente passagens individuais. Deve coordenar o seu estudo com tudo mais que a Bíblia diz sobre o assunto. A precisa compreensão da Bíblia sobre qualquer assunto leva em conta tudo o que a Bíblia diz sobre aquele assunto.
4 – Aplicação, que responde à pergunta “que significa isto para mim?” Esta é a meta dos outros três passos. Um especialista disse-o sucintamente: “Observação e interpretação sem aplicação é um aborto”.
A Bíblia é Deus falando. Sua Palavra exige resposta. E essa resposta tem de ser nada menos do que a obediência à vontade de Deus revelada.
Existem também quatro categorias de princípios de interpretação: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sus situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. 
Vou falar sobre eles na próxima semana.

(com informações de Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão, e Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato)

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Jesus fundou alguma igreja?

O mês de outubro abriga um contraste religioso. Enquanto os católicos celebram sua senhora e “padroeira” no dia 12, dezenove dias depois os protestantes comemoram o aniversário da Reforma, que aliás se aproxima dos seus 500 anos. Entre uma festa e outra, e em meio a apelos ecumênicos vindos principalmente do Vaticano, que prega “um só rebanho e um só pastor” desde que o chefe de todos seja o “papa”, os católicos costumam dizer que a sua igreja é a única verdadeira, uma falácia desossada facilmente aqui. Alegam que a única linha que pode ser traçada de hoje até aqueles dias gloriosos em que Jesus andava pela Terra passa por seus líderes, os “papas”, até “são Pedro, que juram de pés juntos ter sido o primeiro deles. Mas então vejamos se de fato Jesus fundou a igreja católica e se Pedro foi mesmo o primeiro “papa”.
O livro de Atos trata da história inicial da Igreja: começa com Jesus subindo aos céus e instruindo os seus seguidores para que pregassem o Evangelho; conta os primeiros atos dos discípulos, os relatos históricos, os milagres, a expansão do Evangelho, a perseguição, morte, martírio; trata da atuação da Igreja sem a presença física de Jesus. É um documento histórico, original, de grande valor, seja na Bíblia católica, seja na Bíblia protestante, porque traz a história de maneira fidedigna: ele traz a confirmação daquilo que Jesus havia prometido: “Preguem o Evangelho a cada criatura. Quem crer e for batizado, será salvo. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, pegarão em serpentes e se beberem qualquer coisa mortífera, não lhes fará dano algum. E imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão. E eis que estou com vocês todos os dias até a consumação dos séculos”.
Atos 11:26 explica: “E sucedeu que todo o ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente. Em Antioquia, foram os discípulos pela primeira vez chamados cristãos”. O objetivo de se reunir em uma igreja – do grego ekklesia (assembléia, reunião) – é louvar e adorar a Deus, ensinar e aprender a Sua Palavra. Então, durante um ano os discípulos se reuniram naquela assembléia, naquela ekklesia – que provavelmente se reunia em uma casa e não em um templo – ensinando ao povo as palavras de Jesus, que eles mesmos haviam ouvido, pessoalmente. Este relato foi escrito por volta do ano 60 da era atual, e antes disso, os seguidores de Jesus eram chamados de “discípulos” (aluno ou seguidor). Mas em Antioquia, pela primeira vez, foram apelidados de “cristãos”. Portanto, a pessoa que segue os ensinamentos de Cristo é uma pessoa cristã.
Quando se prossegue na leitura de Atos, vê-se a perseguição brutal que os primeiros cristãos sofreram, em todos os lugares. Sabe-se que durante os três primeiros séculos, os cristãos foram ridicularizados, feridos, maltratados, perseguidos, despojados, exilados, aprisionados, acorrentados, torturados, arrastados pelas ruas, crucificados, queimados vivos, jogados aos leões.
Por causa da fé, os primeiros cristãos enfrentaram tudo isso, até que no ano 313 Constantino resolveu oficializar o cristianismo. Os judeus, que se opunham aos cristãos, bem como outras religiões, foram obrigados por decreto a se tornarem cristãos. Obviamente, isto é um erro, pois a Palavra diz: “não por força e nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zacarias 4:6).
No entanto, Constantino também aboliu todos os deuses do mundo antigo e seus templos foram transferidos para a administração da agora poderosa “igreja”, com patrocínio estatal. Começava aí a tão falada prostituição religiosa, a promiscuidade político/religiosa, o ressurgimento da antiga prática babilônica de misturar religião e estado, que a igreja católica nunca abandonou. Constantino imaginava estar fazendo um grande serviço para Deus, mas na verdade criou um monstro que nunca mais pode ser contido, e avacalhou muito o projeto de Deus para a Humanidade. Especula-se muito sobre suas razões, porém uma coisa é certa: sua conversão duvidosa le proporcionu aproveitar-se politicamente da situação. Até mesmo em concílios religiosos ele dava seu pitaco. 
Em suma, Constantino fez todos se “converterem” por decreto, e chamou a essa agora enorme comunidade de “universal”, em grego katholikós - geral, universal, latinizado para catholicus. Esse era o projeto do imperador, uma religião global – algo que o futuro inimigo de Cristo também tentará fazer em breve. O poder dessa igreja foi dado aos sacerdotes mais próximos da corte, que logo buscaram ser os chefes de todos os outros.  Passando a denominar-se “o pai de todos” (em latim: “papa”), criaram uma espécie de “genealogia” que regredia trezentos anos. 
Ou seja, para legitimar que estava assumindo a cadeira (“cathedra”, de onde derivou mais tarde a palavra “catedral”) não apenas por decreto imperial, os “papas” afirmaram ser os chefes da igreja porque eram “sucessores legítimos de Pedro”.  Segundo essa teoria, Pedro teria sido o primeiro “papa”. Esta pretensão choca-se frontalmente com as palavras de Jesus em Mateus 23:9: “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus”.

Até hoje essa informação (a árvore genealógica ou “linha sucessória”) tem chegado ao mundo como se fosse não apenas a partir do ano 313, mas desde o primeiro século. Isso não é verdade. Atos 11:26 mostra que antes de 313 não havia igreja católica e, sim, Igreja Cristã. As pessoas que acreditavam em Cristo não eram católicas, mas cristãs! Se você ler todo o livro de Atos dos Apóstolos, que abarca o primeiro século, verá que em nenhum momento a igreja foi chamada de católica. Tudo isto está não só nos livros de religião, mas nos livros de História. A história do mundo nos explica como surgiu a igreja católica apostólica romana. Além do mais, o apóstolo Pedro foi um líder conhecido pelos cristãos primitivos, mas nunca foi de fato “papa”. Leia mais aqui.

A igreja católica é portanto, posterior ao cristianismo, porque os cristãos, assim chamados em Antioquia no ano 60, existiam bem antes da igreja católica, que teve a sua sede colocada em Roma. A igreja cristã nasceu em  Jerusalém. Leia Atos 2:38, que trata da pregação veemente de Pedro anunciando Jesus como o único Salvador, único Juiz dos vivos e dos mortos, único Senhor; veja o arrependimento das pessoas e o que Pedro disse ao povo: “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados. E recebereis o dom do Espírito Santo” 

Quem ouviu esta pregação foi batizado (v. 41 ao 47): “foram batizados os que receberam de bom grado a sua palavra e naquele dia agregaram-se quase 3 mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão e no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas, repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um. E perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão, em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos”

A primeira igreja surgiu assim. As pessoas se batizaram no mesmo dia em que ouviram a pregação, participaram da Ceia do Senhor, mantiveram essa comunhão e o número de pessoas aumentava a cada dia.

Ninguém precisou ser crismado, rezar missas, descer ao purgatório, rezar para santos, acender velas, participar de procissões e novenas, evitar carne na sexta-feira da paixão, se confessar ao padre, colocar cinza na testa, rezar o terço mil vezes. De fato, a igreja católica criou um verdadeiro cipoal de normas para que a pessoa alcance a salvação, como se segue (se duvida, procure ler os “catecismos oficiais”:

Mandamentos da Igreja    (católica)

1- Participar da Missa inteira nos domingos e festas de guarda. Os dias santos são:
Santa Maria, Mãe de Deus - 1º de janeiro
Epifania - 6 de janeiro (no Brasil é transferido para o domingo)
São José - 19 de março (no Brasil não é de preceito)
Ascensão do Senhor - quinta-feira da sexta semana da Páscoa (no Brasil é transferido para o domingo)
Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) - segunda quinta-feira depois de Pentecostes
São Pedro e São Paulo - 29 de junho (no Brasil é transferido para o domingo)
Todos os Santos - 1º de novembro (no Brasil é transferido para o domingo, a menos que Finados caia no domingo)
Imaculada Conceição de Maria - 8 de dezembro
Páscoa - Ocorre sempre entre 22 de março e 25 de abril.
2- Confessar-se ao menos uma vez por ano (ou no máximo até um ano após ter consciência de pecado mortal).
3- Comungar ao menos pela Páscoa da Ressurreição.
4- Jejuar e abster-se de carne quando manda a Igreja. Estão obrigados à lei da abstinência de carne ou derivados de carne aqueles que tiverem completado quatorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum (uma só refeição normal ao dia, e apenas mais dois pequenos lanches ou colações) os maiores de idade, desde os dezoito anos completos até os sessenta anos começados.A Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa, memória da Paixão e Morte de Cristo, são dias de jejum e abstinência. A abstinência pode ser substituída pelos próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade, particularmente pela participação nesses dias na Sagrada Liturgia. Abstinência de carne: Toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico. Nesse dia, os fiéis abstenham-se de carne ou outro alimento, ou pratiquem alguma forma de penitência, principalmente obra de caridade ou exercício de piedade  (Legislação Complementar da CNBB quanto aos cânones 1251 e 1253 do Código de Direito Canônico).
5- Contribuir com o Dízimo segundo está escrito na Bíblia Sagrada.
A igreja católica segue da mesma forma que Constantino - pensa estar a serviço de Deus mas de fato, espiritualmente falando, é terrivelmente danosa: não prega a Palavra de Deus, dificulta o caminho das pessoas em direção a Deus, e embora preste serviços seculares importantes na área da caridade, da educação e dos hospitais, não assegura a nenhum de seus membros o bem mais precioso, a salvação de suas almas.
A Igreja Cristã nasceu 50 dias depois da morte de Jesus Cristo, no dia de Pentecostes, e não impunha nenhum desses “dogmas” ao povo. Essa igreja não tinha nome, nem mesmo era chamada de Igreja Cristã. Começaram a se reunir nas casas e durante 300 anos, era só o que havia. Nada de catolicismo, muito menos romano. Portanto, o papo de que Jesus fundou a igreja católica e essa tal seria a única verdadeira é uma tremenda falácia, doa a quem doer. A Igreja a que Jesus se referiu é formada pelos membros do Seu Próprio Corpo, os que seguem os Seus mandamentos, e não os mandamentos de homens. Uma Igreja sem mácula e sem envolvimento com este mundo. Uma Igreja – um Corpo – onde apenas Cristo é cabeça.
Esta sim é a única e verdadeira Igreja! 

Trecho de livro:

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