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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Contradições da Bíblia? (3)


Como interpretar as Escrituras 

Muitas pessoas me mandam dúvidas sobre a Bíblia e supostas contradições no texto das Escrituras. Algumas realmente querem algum tipo de explicação sobre uma passagem, outros expõem o que acreditam ser falhas no texto, e outros dizem que a Bíblia é falsificada, cheia de erros, preconceitos e maus exemplos. Eu tento responder, por que às vezes também me aparecem certas dificuldades e algumas passagens parecem ser contraditórias, outras enigmáticas. Às vezes eu nem respondo, porque percebo que alguns não querem de fato entender a Verdade bíblica, e apenas polemizar. Não vão ser convencidos de que a Bíblia é a Palavra de Deus, porque no fundo não crêem em Deus. Como creriam na Sua Palavra? Então que fiquem com suas polêmicas. Em outros casos, eu procuro correr atrás das respostas, porque dessa forma eu também aprendo coisas novas.
Meu amigo Mário Persona criou um site onde colecionou, ao longo dos anos, as inúmeras perguntas que lhe chegaram, e procura respondê-las. Aconselho você, que tem dúvidas, a consultá-lo (www.respondi.com.br/) . Eu também vou lá de vez em quando. É sempre muito bom procurar explicações no maior número de fontes possível, até que você possa ver qual delas é a mais embasada biblicamente, e formar a sua própria opinião. É assim que procuro responder aos que me perguntam sobre esses temas. Tenho minha própria opinião, busco estudar na Palavra, em livros de autores responsáveis e de gabarito; e também em sites confiáveis, do ponto de vista da “sã doutrina”. É evidente que, se você estiver sinceramente interessado em aprender da Palavra de Deus, deve também orar a respeito, e pedir a Deus que lhe abra o entendimento e lhe revele os preciosos ensinos que foram preservados através dos séculos. Peça a Ele que desvende a Sua Palavra a você, e depois confirme na própria Escritura. A Escritura pela Escritura se explica.
Outro dia um engraçadinho – anônimo, como sempre – a propósito da longevidade dos patriarcas, disse que não se pode saber se Sara realmente estava na menopausa, “porque não havia ginecologista”. É o mesmo raciocínio tosco de quem diz que “Maria não era virgem” (aliás, outro ataque tão antigo como os pagãos de Roma, que usavam a mesma frase para tentar desacreditar os cristãos): o tempo passou, mas algumas pessoas continuam intelectualmente na idade da pedra. Existem coisas que realmente não são passíveis de comprovação documental, como aspectos ginecológicos das mulheres da Bíblia; mas o relato é tão fiel e verdadeiro em tantas outras passagens, que não há razão para não crer nele. Por exemplo, é fisicamente impossível que um homem caminhe sobre a água, ainda mais durante uma tempestade “no mar” (na verdade o lago de Tiberíades, sobre o qual falaremos depois). Mas Jesus fez isso. Também é cientificamente impossível que alguém ressuscite depois de quatro dias morto; mas Jesus reviveu Lázaro. Essa é a natureza do milagre, ou seja, o “sobrenatural” – acima, além, do natural. Eventualmente, cientistas tentam dar explicações científicas a esses fenômenos, mas freqüentemente criam armadilhas para si próprios, como neste artigo. Aqui e nos próximos textos, vou pinçar alguns desses comentários questionadores, e para os seus autores peço a licença para usá-los como ponto de partida para a discussão dos seus temas. Entretanto, optei por não citar os comentaristas um a um, porque são vários. Preciso economizar espaço. Para ficar mais claro,  usarei este tipo de letra para as citações dos leitores.
Como os antigos gnósticos, alguns não conseguem aceitar “um Deus capaz de coisas que não seriam esperadas nem do mais selvagem e injusto ser humano”, como quando se diz que Deus se arrependeu, ordenou a morte de populações, criou o mal etc. (Isaías 45:7, Amós 3;6, Miquéias 1:12 etc.). Orígenes, um antigo erudito e intérprete das Escrituras, defensor do método alegórico de interpretação, tentava conciliar essas passagens dizendo que “muitos textos bíblicos são intencionalmente obscuros, racionalmente incoerentes ou moralmente repugnantes, a fim de forçar o intérprete a descobrir o seu significado verdadeiro mais profundo” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 137/138). Uma falácia, como veremos adiante, num artigo sobre os métodos de interpretação bíblica.
Outros enveredam pelo caminho mais fácil: “a Bíblia está cheia de erros, portanto não vale a pena crer nela”. Ou então, mesmo sem saber nada sobre os símbolos e tipos que a Bíblia nos apresenta, apelam para o método alegórico, campo fértil para fantasias. E assim caem nos mesmos erros que se perpetuaram no seio da igreja católica, doa a quem doer.
Uma das coisas a que nós precisamos recorrer com relação a possíveis contradições bíblicas é a honestidade. Vemos muitas vezes que as pessoas aplicam regras diferentes quando se trata de examinar a Bíblia, o que é claramente usar dois pesos e duas medidas. Citam-se frases de Gandhi, Mandela e Carl Sagan, de Bertrand Russell e de Voltaire, como se fossem a verdade absoluta; fazem-se referências a sábios e filósofos que não deixaram nada escrito (como o próprio Sócrates, cujo pensamento conhecemos apenas através dos testemunhos de Platão e Xenofonte, que por sua vez os transmitiram a seus respectivos discípulos). Mas quando citamos Paulo, Moisés ou Isaías, dizem logo que não se tem certeza sobre a autoria da frase, que são contraditórias, que nem mesmo se sabe se esses personagens existiram de fato. Ou seja, falta honestidade no uso de critérios.
Por exemplo, quando se usa o discurso proferido por Estevão momentos antes de ser apedrejado, como sendo prova de que Bíblia errou. Citam Atos 7:2, onde se lê: “Estêvão respondeu: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, ANTES de habitar em Harã...”. Porém (contestam) o livro de Gênesis (11:31 a 12:1) relata o acontecido DEPOIS de Abraão habitar em Harã. Ora, se alguém errou aqui foi Estevão. Lembremo-nos de que ele estava prestes a ser executado. Ele fez um longo sermão e praticamente contou TODA a história de Israel desde o início até os dias de Cristo. Qual o problema em uma pessoa cometer um erro pequeno assim, em todo o seu sermão? Se você resolvesse me contar toda a História do Brasil, sabendo que assim que terminasse iria ser fuzilado, será que você diria tudo sem cometer nenhum equívoco, sem trocar nenhuma informação? Talvez você não consiga nem mesmo se souber que vai ganhar um prêmio. Vemos isso todo dia em programas da TV. Chamem os universitários! Como se adiantasse alguma coisa chamar universitários hoje em dia... desculpa aí.
O que Lucas fez, ao escrever os atos dos apóstolos, foi contar exatamente o que ocorreu, e o que ocorreu foi que Estevão disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto prova que a Bíblia não foi adulterada, como acreditam os céticos (se é que cético acredita em alguma coisa, é nisso: a Bíblia foi alterada). Ora veja bem: se deveria haver alguma adulteração, seria justamente corrigindo o erro de Estêvão. Mas não, o relato foi fiel ao que aconteceu: ele disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto basta para reafirmar que o relato histórico do livro de Atos é um fidedigno, e como tal, ele detalha o equívoco de um dos primeiros mártires, que trocou apenas uma palavra em um extenso sermão.
Uma coisa que é fundamental para se achar as respostas é ter um método de interpretação do texto bíblico. A Editora Mundo Cristão lançou um livro, há muitos anos, sobre esse assunto, do autor Walter A. Henrichsen (ao lado, a edição que eu tenho). Não sei se ainda está à venda, mas você se puder, compre e leia, várias vezes. É dele que transcrevo a seguir alguns trechos, com algumas regras básicas que tenho procurado seguir ao tentar achar o significado e a coerência de trechos da Escritura que apresentam, digamos, dificuldades.
Logo no seu prefácio, há uma citação de Frank E. Gaebelain: “O cristianismo é peculiarmente religião de um livro só. Elimine a Bíblia, e você terá destruído o meio pelo qual Deus decidiu apresentar Sua revelação ao Homem através de sucessivas eras”. Essas simples frases trazem duas verdades fundamentais: Deus existe, e fala a nós por meio da Bíblia; por isso, os ataques à Bíblia, nas suas diversas formas, são parte de uma guerra para eliminar a comunicação de Deus com os homens. Quando concluímos que a Bíblia não presta – por ter erros, dar maus conselhos, ter sido adulterada etc. – estamos abrindo mão de receber o que Deus queria nos dizer. E a segunda verdade é que essa comunicação de Deus com os homens não se deu da mesma forma ao longo da História.
Sabemos que lá no início, Deus falava com o Homem diretamente, tête-a-tête. Depois, através dos patriarcas, com as promessas; depois veio a Lei e os profetas, e por fim, o próprio Deus se encarnou em forma humana. Depois que Ele subiu aos céus, prometeu voltar e deixou toda a compilação que hoje chamamos de Bíblia como registro do que aconteceu e orientações acerca do presente e do futuro, para nossa edificação, consolação e exortação. É isso que está escrito em Hebreus 1:1 ,2 – “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”.
Assim, o livro de Henrichsen nos diz que...
Há quatro partes básicas no estudo correto da Bíblia.
1 – Observação, que responde à pergunta: “o que vejo?” Aqui o estudante aborda o texto como um detetive. Nenhum pormenor é sem importância; nenhuma pedra fica sem ser virada. Cada observação é cuidadosamente arrolada para consideração e comparação posteriores.
2 – Interpretação, que responde à pergunta: “o que isto significa?” Aqui o intérprete bombardeia o texto com perguntas como: “que significavam estes pormenores para as pessoas às quais foram dados? Por que o texto diz isto? Qual a principal idéia que ele busca comunicar?”
3 – Correlação, que responde à pergunta “como isto se relaciona com o restante daquilo que a Bíblia diz?” O estudante da Bíblia deve fazer mais do que examinar somente passagens individuais. Deve coordenar o seu estudo com tudo mais que a Bíblia diz sobre o assunto. A precisa compreensão da Bíblia sobre qualquer assunto leva em conta tudo o que a Bíblia diz sobre aquele assunto.
4 – Aplicação, que responde à pergunta “que significa isto para mim?” Esta é a meta dos outros três passos. Um especialista disse-o sucintamente: “Observação e interpretação sem aplicação é um aborto”.
A Bíblia é Deus falando. Sua Palavra exige resposta. E essa resposta tem de ser nada menos do que a obediência à vontade de Deus revelada.
Existem também quatro categorias de princípios de interpretação: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sus situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. 
Vou falar sobre eles na próxima semana.

(com informações de Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão, e Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato)

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