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terça-feira, 4 de março de 2014

Contradições da Bíblia? (4)

Princípios de interpretação
Eu falei antes sobre os princípios básicos de interpretação bíblica: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sua situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. Eles estão detalhados no livro “Princípios de Interpretação Bíblica”, de Walter A. Henrichsen (Ed. Mundo Cristão).
Não vou transcrever o livro todo, só mais alguns trechos, como este:
Nas questões de religião o cristão se submete, consciente ou inconscientemente, a suma das seguintes autoridades – a tradição, a razão, ou as Escrituras. A posição oficial e histórica da igreja católica tem sido a de fazer da tradição o supremo tribunal de recursos. A doutrina da virgem Maria é um exemplo. O que a Bíblia ensina sobre Maria é interpretado de acordo com o modo como a igreja católica a vê tradicionalmente.
Em boa parte do protestantismo, o racionalismo (cf. liberalismo, modernismo) ocupa o centro do palco. A conclusão extraída da mente é o supremo tribunal. Deixa-se que a razão decida o que é fundamental para a fé. Por exemplo, uma pessoa que abraça essa abordagem pode concluir que a fé na concepção virginal de Cristo não é nem racional nem essencial, e daí esse ensino bíblico é rejeitado.
O cristão fiel considera a Bíblia como o seu supremo tribunal. A crença na concepção virginal é abraçada porque a Bíblia a ensina. O que a Igreja crê acerca de Maria deve ser interpretado pelas Escrituras, e não vice-versa.
Isto não quer dizer que não há validade em cada uma das três formas de autoridade. Os adeptos de cada um dos sistemas de pensamento referidos concordam sobre a importância dos outros dois. Mas em caso de conflito, que voto conta? Se a tradição, a razão e a Escritura diferem quanto ao modo de ver Maria e a concepção virginal, qual autoridade será o árbitro final? Temos aqui a primeira lei da interpretação a Bíblia deve ser o supremo tribunal. Ela deve ser a autoridade final.
Um exemplo. Suponha que você vá viajar para o Japão, de avião. É preciso presumir pelo menos quatro coisas:
1 – o piloto sabe dirigir o avião.
2 – o avião chegará com segurança.
3 – o pessoal da imigração respeitará o seu passaporte.
4 – você concretizará o propósito de sua viagem.
Digamos que no aeroporto, antes de embarcar, você pergunte ao piloto:
- Será que esse avião me leva mesmo a Tóquio?
- Certamente – ele lhe responde.
- Mas – você pergunta – e aquele outro avião que caiu no mar? O senhor garante mesmo que chegaremos a salvo no Japão?
- Não – responde o comandante – não posso garantir. Mas suba a bordo e quando chegarmos lá o senhor saberá.
Isto é um compromisso antes do conhecimento. Você se dispõe a comprometer-se, a arriscar a vida [atravessando o oceano a quilômetros de altitude, a uma velocidade absurda], porque é melhor ir de avião do que a nado. Quando você decidiu ir para o Japão, assumiu um compromisso antes de saber o que ia acontecer. Não sabia se as autoridades permitiriam sua entrada no país. Supôs que o fariam, e se comprometeu com essa suposição antes de o saber.
No estudo da Bíblia, começamos com a questão da autoridade, e isto porque a autoridade das Escrituras é superior à da mente humana e da tradição. A questão da autoridade e da inspiração divina é respondida naturalmente quando você se submete à Palavra. Você até pode estudar a questão da inspiração em separado, mas somente saberá que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada quando se colocar sob a autoridade dela.
Estes são os princípios gerais da interpretação:
- trabalhe partindo da pressuposição de que Bíblia tem autoridade (exemplificado no caso da viagem ao Japão);
- a Bíblia é seu próprio intérprete: ou seja, a Escritura explica melhor a Escritura;
- a fé salvadora e o Espírito Santo são necessários para compreendermos e interpretarmos bem a Escritura
- interprete a experiência pessoal à luz da Escritura, e não o contrário;
- os exemplos bíblicos têm autoridade, mas só quando amparados por uma ordem de Deus (se você for fazer tudo o que Jesus fazia, teria que andar a pé, usar sandálias, não se casar etc.);
- o propósito principal da Bíblia é mudar nossas vidas, não aumentar nosso conhecimento;
- cada cristão tem o direito e a responsabilidade de investigar e interpretar pessoalmente a Palavra de Deus (Atos 17:11, o exemplo de Beréia);
- a História da Igreja é importante, mas não decisiva na interpretação da Escritura (a Igreja não deve determinar o que a Bíblia ensina; mas a Bíblia é que determina o que a Igreja ensina).
Princípios gramaticais
- a Escritura deve ser tomada literalmente sempre que possível; a linguagem metafórica ou simbólica pode dar margem a fantasias. Vou tratar desse tópico com mais detalhes mais adiante;
- interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor;
- interprete a palavra em relação à sua sentença e ao seu contexto;
- interprete a passagem em harmonia com o seu contexto;
- quando um objeto inanimado é usado para descrever um ser vivo, a proposição pode ser considerada figurada;
- quando uma expressão não caracteriza coisa descrita, a proposição pode ser considerada figurada (Filipenses 2:3-5, onde os cães referidos não são os melhores amigos do homem);
- as principais partes e figuras de uma parábola representam realidades. Considere somente essas partes principais quando tirar suas conclusões;
- interprete os profetas no sentido comum, literal e histórico, a não ser que o contexto indique claramente que o sentido é simbólico. O cumprimento das profecias pode ser por etapas, cada uma sendo a garantia de que a próxima também irá se cumprir.
Alguns alegam que existem erros gramaticais na Bíblia. Isto é verdade até certo ponto. Quando consideramos Apocalipse, por exemplo, que muitos dizem não poder ter sido escrito pelo apóstolo João, é fácil verificar que ele escrevia num idioma que não era o seu “nativo”, e sob grande urgência e pressão. Não teve tempo de considerar as finuras da gramática, o que sem dúvida teria feito em outras condições. Daí a diferença “de estilo”. Além disso, temos que levar em conta que Deus parece se utilizar do fato de que a gramática foi feita para o homem, e não o homem para a gramática: quando Moisés indaga a Deus que nome deveria mencionar a Faraó, Deus lhe diz: “Eu Sou O Que Sou. Dirás ‘Eu Sou’ me enviou”.
Ezequiel 39:2 é outro exemplo de “erro gramatical”. Algumas versões dizem “Far-te-ei que voltes atrás e deixes a sexta parte”. Outras dizem “porei seis ganchos em tuas queixadas”, e também “perseguir-te-ei com seis pragas”. Nenhuma dessas traduções, contudo, é literal, pois isso fugiria completamente às leis da gramática: Ezequiel usou um substantivo no lugar de um verbo. A tradução literal seria “Eu te seis”, o que evidentemente significa “eu farei a ti algo com o número seis”, ou “aplicarei a ti [de alguma maneira] o número seis”. Isto se repete em Apocalipse 1:4 – “o que é, que era e que há de vir”. A língua original diz: “o ser, o era, e o vinha”, e não pode de modo algum ser considerado um “erro”. É intencional.
Princípios históricos
- desde que a Escritura originou-se num contexto histórico, também deve ser compreendida à luz da história bíblica;
- embora a revelação de Deus nas Escrituras seja progressiva, tanto o Velho como o Novo Testamento são essenciais à revelação, e formam uma unidade;
- os fatos e acontecimentos históricos se tornam símbolos de verdades espirituais somente se as Escrituras assim os designarem.
Princípios teológicos
- você precisa entender a Bíblia gramaticalmente antes de compreendê-la teologicamente;
- uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela;
- quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias, tenha em mente que mais cedo ou mais tarde elas se explicam escrituristicamente, dentro de uma unidade mais elevada e mais ampla;
- um ensinamento simplesmente implícito na Escritura pode ser considerado bíblico quando apoiado por passagens correlatas (isto é, outros trechos que tratam do mesmo assunto). Por exemplo, paralelos de palavras (todas as vezes em que aparece “dizimo” na Bíblia), paralelos de idéias (menções a ganância, avareza) e paralelos doutrinários (salvação, santificação etc.). Você precisa reunir todas as peças sobre o assunto e extrair delas o ensinamento. Dicionários e enciclopédias bíblicas podem ajudar, desde que você consiga filtrar o viés denominacional encontrado, por exemplo, nas chamadas “Bíblias de Estudo”, já que existe a “da mulher”, a “pentecostal”, a de “batalha espiritual”, de “vitória financeira” e outras (até “Bíblia mangá já inventaram);
- é importante consultar diferentes versões, por exemplo: Almeida (revista, corrigida etc.); King James; linguagem “de hoje”; a “hebraica” ou “de Jerusalém” etc. Às vezes o que está complicado numa versão se esclarece em outra, simplesmente com o uso de palavras diferentes.
Tenho certeza que, se formos honestos e dermos à Bíblia a chance de se auto-explicar, e se observarmos essas regras básicas de interpretação e estudo, chegaremos facilmente à conclusão final de que Deus um dia quis se expressar ao Homem que Dele havia se separado, e para isto providenciou a Sua Palavra, escrita por homens que Ele mesmo escolheu, através de uma longa série de séculos, até que a tivéssemos na forma atual, porque assim Ele o quis. A Bíblia esteve para desaparecer por completo da face da terra, tendo havido épocas em que os exemplares completos se contavam com os dedos de uma mão. Mas a imprensa e os meios tecnológicos modernos hoje a divulgam como nunca, e as ferramentas de estudo também estão disponíveis a todos. Descobertas arqueológicas, como os manuscritos do Mar Morto, nos permitem comparar os textos escritos há 2000 anos ou mais, desfazendo toda e qualquer dúvida quanto à fidedignidade das Escrituras, já que o texto é idêntico – não houve as alegadas adulterações e modificações que desvirtuariam o sentido original.
A mensagem da Bíblia é clara para aqueles que buscam descobrir o seu significado. O problema surge quando se leva preconceitos para a Bíblia, procurando adequá-la a idéias pré-concebidas. Isto não é falha da Bíblia, e sim das pessoas que querem que a Bíblia diga o que elas querem! Quem usa esses argumentos como desculpa para não crer na Bíblia ou em Jesus, na verdade não diz “Não posso crer porque as provas não me convenceram”, mas sim “Não importam as provas, eu não quero crer”.
Assim, ao leitor sincero e honesto, que deseja ver desfeitas as suas dúvidas, digo que seja bem vindo, e conte com a minha boa vontade e esforço de tentar esclarecer.
Aos que querem apenas criar polêmicas e ridicularizar a Bíblia com argumentos furados, nada tenho a dizer, a não ser que estudem direito antes de tentar criar celeumas inúteis. Vejam se realmente querem aprender algo ou apenas criar caso à toa, aparecer, bater boca. E fiquem à vontade para procurar o que fazer em outro lugar.

(com informações de Arthur E. Bloomfield, “O Futuro glorioso do Planeta Terra”, Ed. Betânia, 6ª Ed., 1987, e Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão).

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