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terça-feira, 25 de março de 2014

O Livro de Gênesis:


Já discutimos bastante as regras e métodos de interpretação das Escrituras, as quais nos habilitam a entender melhor o texto sagrado. Vimos que a tendência a alegorizar demais certas passagens podem enganar até mesmo os teólogos mais experientes. E agora, vamos nos debruçar sobre uma das passagens mais cruciais da Bíblia, e sua interpretação, a partir da qual toda a nossa fé pode ser edificada, ou destruída. Trata-se do livro do Gênesis, o primeiro da revelação de Deus ao Homem.
Hoje em dia especula-se muito sobre quais porções da Bíblia, em especial Gênesis, seriam fatos históricos e quais seriam apenas parábolas, alegorizações, contos e fábulas de outros povos, alguns contemporâneos, outros mais antigos que os judeus. Não raro, ouvimos coisas como “a criação bíblica é um mito”, ou “Gênesis é uma representação lendária da mente primitiva”.
O que é mito? É uma história que explica um aspecto da vida humana, sem nunca ter acontecido de fato. Mitos são  eventos envolvendo deuses e suas relações com os homens; mas são eventos atemporais, “a-históricos”. Com o objetivo de entretenimento, o mito é fictício. Se ensinado como a explicação factual de um determinado aspecto da vida, é uma mentira. C.F. Nosgen explica: “Qualquer conto não histórico, independente de como possa ter surgido, no qual uma sociedade religiosa encontra uma parte constitutiva de seus fundamentos sagrados, por causa da expressão absoluta de suas instituições, experiências e idéias, é um mito”.
Religiões pagãs abundam em mitos: o de Pandora explica o mal no mundo como resultado de uma caixa que foi aberta contra a instrução dos deuses. O mito babilônico Enuma Elish explica a criação pela morte e divisão de um grande monstro, Tiamat.
A Bíblia fala de mitos. No Novo Testamento, a palavra grega é μθος [“mythos”], “mito”, às vezes traduzida como  “fábulas”. Mas a mensagem bíblica não é baseada ou derivada de mitos: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas (“mythos”) artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade  - II Pedro 1:16. Ela nos adverte contra os mitos: “Nem se dêem a fábulas” (“mythos”) - I Timóteo  1:4. E também alerta que nos últimos dias, sob a influência de falsos mestres - podemos chamá-­los de “mitologistas” - as pessoas “desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (“mythos”) - II Timóteo 4:4. Esta profecia hoje se cumpre naqueles que antes consideravam Gênesis verdade, mas agora dizem que é um mito.
Assim, nesta questão, há muita coisa em jogo. Se dissermos que Gênesis (especialmente os primeiros capítulos, de 1 a 11) é um mito, a divindade das Escrituras ­ a sua qualidade de “soprada por Deus”, conforme II Timóteo 3:16 - é negada, e assim se perde a sua autoridade, confiabilidade, clareza, suficiência e unidade. Se Gênesis é um mito, a mensagem da Bíblia é descartada, pois Gênesis é o fundamento da doutrina da justificação pela fé e do evangelho da graça. Martinho Lutero disse que os dois primeiros capítulos de Gênesis são “certamente o fundamento de toda a Escritura”. Então a questão que somos forçados a resolver é: como devemos encarar a Escritura: História ou Mito?
Se admitimos Gênesis como um mito, então os eventos ali registrados nunca aconteceram de fato:
Este mundo nunca veio à existência pela Palavra de Deus (Gênesis 1).
A raça humana nunca se originou a partir de um homem, Adão, que foi criado pela mão de Deus a partir do pó, e de uma mulher, Eva, feita pela mão de Deus a partir de uma costela do homem (cap.2).
O pecado e a morte nunca entraram no mundo pelo homem ter  comido o fruto proibido, instigado por  Eva e pela serpente (cap.3). Se o relato não é histórico, a queda também não é.
Nunca houve o desenvolvimento da agricultura, pastoreio, música e metalurgia (Cap.4).  
Nunca houve um dilúvio universal (caps.6-­8).
Nunca houve uma torre de Babel ocasionando a divisão das nações pela confusão da língua (cap.11).
Referindo­se à tentação de Eva pela serpente, Lutero escreveu: “Através de Moisés [o Espírito Santo] não nos dá alegorias tolas, mas Ele nos ensina sobre os eventos mais importantes, os quais envolvem Deus, o homem pecador e Satanás ­ o originador do pecado. Vamos, portanto, estabelecer em primeiro lugar que a serpente é uma serpente de verdade, mas que foi possuída e tomada por Satanás, que está falando por meio da serpente” . Um pouco mais tarde, refletindo sobre os três primeiros capítulos, Lutero comentou: “Nós tratamos todos esses fatos em seu significado histórico, que é o seu único e real significado”. E acrescentou: “Ninguém pode falhar em ver que Moisés não tinha a intenção de apresentar alegorias, mas simplesmente de escrever a história do mundo primitivo”.
Ou existe alguém que se atreve a negar que Cristo e Seus apóstolos viam as pessoas e os eventos de Gênesis como históricos? E que ensinavam a igreja do Novo Testamento a considerá-­los como tais, em Mateus 19:3­9; João 8:44; Mateus 24:37-­41; Romanos 5:12­-21; I Coríntios 11:7­-12; I Timóteo 2:12-­15; II Pedro 3:5­6; Atos 17:26 etc.? Ninguém deriva a concepção de Gênesis 1-­11 como mito por uma exegese sólida dessas passagens do Novo Testamento.  
A origem disto é fácil de identificar: é o desejo de acomodar o pensamento da Igreja ao mundo, para moldar o cristianismo à cultura mundana. Abandonou-se a separação entre os ímpios e o povo de Deus, entre a mente dos inimigos de Deus e a mente de Cristo. Para ser respeitável e atraente para o homem moderno e educado, as igrejas devem adaptar seu pensamento, sua confissão - e sua Escritura - à teoria científica mais recente. E uma vez que a teoria dominante é a evolução darwiniana, Gênesis - e por conseguinte, toda a revelação bíblica - deve dançar conforme a música ateísta (e no meu modo de ver, pelo iluminismo do século XVIII). O teólogo católico Zachary Hayes dá uma justa advertência: “Não se pode abrir a possibilidade de defender alguma forma de evolução sem abrir uma caixa de Pandora. Aqueles que abrem essa caixa devem estar dispostos a assumir a responsabilidade de lidar com os tipos de problemas que surgem em muitas áreas da Teologia”.
A história da criação traz a dependência de Israel em Deus, e a confissão de que seu Deus é o único Deus. A história da queda é o reconhecimento de que o homem é inerentemente pecador e precisa de redenção.
Mas essa aplicação boa, espiritual e útil não vale nada, porque tudo passa a ser mito. E se é mito, eu devo dar ao Gênesis tanta atenção quanto eu dou à caixa de Pandora, a Marduk ou a Chapeuzinho Vermelho (como alega Richard Dawkins e seu “monstro do espaguete voador”)!
Gênesis é um fato histórico, doa a quem doer, e apresenta a origem de todas as coisas: o universo, incluindo o tempo e o espaço; o Homem; o matrimônio e a família; a ordem básica de seis dias de trabalho e um de descanso, o pecado, a maldição e morte, não só para a raça humana, mas também para a criação, o evangelho e o Salvador prometido, a antítese entre piedoso e ímpio, as nações, etc.
Quando dizemos que Gênesis 2 (um homem e uma mulher como uma só carne) é um mito, estamos afirmando que como isto não é um relato factual da instituição histórica do casamento pelo próprio Criador, então não sou obrigado por qualquer lei de fidelidade no casamento. Eu posso viver como e com quem desejar, no casamento ou fora dele!
Quando o pregador que lê Gênesis 3 como mito me diz que eu preciso de um redentor, eu preciso perguntar: “Será que o Homem realmente caiu?”; pois se ele não caiu de fato, eu não preciso de um redentor, mas sim evoluir.
Se Gênesis é mítico, então Cristo também o é. Pois o pensamento que coloca Gênesis como uma palavra humana também deve colocar os evangelhos como palavra humana. Se nunca houve uma queda histórica de um Adão histórico, não há necessidade de um Jesus histórico. Sem Adão, sem Cristo! Jesus Cristo vem ao mundo pela promessa de Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Mas a quem Deus dirigiu essa palavra, essa “promessa-­mãe”? Para a serpente! Negue Gênesis 3, negue a serpente, e você aniquilará a promessa de Jesus Cristo: sem serpente, sem Salvador! Um Cristo mítico não morreu por nossos pecados. Um Cristo mítico não pode perdoar nossos pecados reais. Um Cristo mítico não irá conosco através do vale da sombra da morte. Um Cristo mítico não vai ressuscitar nosso corpo do túmulo. Somente o Cristo histórico fez e vai fazer essas coisas. O Cristo histórico faz com que o Gênesis seja histórico, e a fundação de Si mesmo e a Sua obra.
A doutrina do juízo de Deus também depende de Gênesis. Mas se Gênesis é um mito, o juízo também o é. Se Gênesis não é história, todas essas doutrinas estão perdidas.
Os ateus sabem disso, e tentam fazer como Dawkins: convencer o mundo de que Gênesis é um mito, porque assim fazendo, desacreditam toda a Palavra de Deus. E o pior é que muitos cristãos já embarcaram nessa canoa furada.
Entretanto, a ciência não pode analisar, julgar e confirmar os eventos registrados em Gênesis. A própria criação foi um milagre. Como um milagre ela é pouco acessível às ferramentas de investigação do cientista, assim como é a ressurreição de Jesus.
Ademais, entre a obra da criação de Deus, como descrito em Gênesis 1 e 2, e a ciência atual, há duas barreiras que o esforço científico não pode superar: a queda com a maldição que está presente em toda a criação, e o dilúvio que destruiu todo aquele mundo, dando uma forma inteiramente nova a esta Terra ­- Gênesis 3:17, 18; II Pedro 3:6. Nenhum instrumento científico pode voltar atrás antes do dilúvio. O mundo de antes do dilúvio não pode sequer ser conhecido por qualquer teoria científica. Apesar de evidências que têm sido encontradas ao redor do planeta, as pessoas ainda duvidam do dilúvio universal e dizem que “tudo continua como desde o princípio da criação” (II Pedro 3:1-7). No dilúvio (Gênesis 6­-8), histórico, real e maior do que apenas uma inundação local na região do Tigre e do Eufrates, o “mundo de então pereceu”! Acabou, foi extinto! O único conhecimento que alguém tem, ou pode ter, do mundo antes do dilúvio é aquele dado pelo próprio Deus em Gênesis.
Para nós, a questão se a Bíblia, e em especial Gênesis, é história ou mito, não é intelectual nem acadêmica.
Nas igrejas sadias, as crianças pequenas aprendem a responder algumas perguntas como:
“Quem é o seu Criador?” - R: “Deus”.
“Quem criou todas as coisas?” - R: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”.
“Como é que nós sabemos sobre essa criação?” - R: “Deus nos diz sobre isso em Sua Palavra, a Bíblia”.
“Quem são os nossos primeiros pais?” - R: “Adão e Eva”.
“Como é que Satanás veio a Eva?” - R: “Ele usou a serpente para falar com Eva”.
“O que Deus prometeu?” - R: “Um Salvador, para nos salvar dos nossos pecados”.
Queremos que estas crianças vão para o céu. Se elas vierem a duvidar de todas essas respostas como se fossem mito, irão para o inferno como incrédulos. Seja quem for o responsável - pais, pregadores, professores, teólogos - seria melhor que uma pedra de moinho lhes fosse amarrada ao pescoço e jogados nas profundezas do mar. Esses pequeninos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, acreditam na historicidade de Gênesis.
“Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3).

Resumo do livro Gênesis 1-11 – História ou Mito? de David Engelsma
(http://livros.gospelmais.com.br/files/livro-ebook-genesis-1-11-historia-ou-mito.pdf)

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