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domingo, 20 de março de 2016

Candidatos à função de pastor

Certa denominação resolveu examinar alguns candidatos a pastor, e elaborou um resumo do currículo de cada um para apreciação do colegiado e para a escolha daquele que mais se encaixava no perfil desejado. De todos os candidatos examinados pelo comitê de seleção, apenas um reunia as qualidades necessárias. Tivemos acesso à lista dos candidatos, que contém os nomes e comentários sobre cada um deles.

O primeiro candidato passou muitos anos como evangelista, mas foi um grande fracasso. Suas pregações foram completamente ignoradas pela comunidade. Não conseguiu nenhuma conversão a não ser as sete pessoas de sua própria família. Chama-se Noé.
Este outro parece ter muita fé, mas consta que fugiu para o Egito em épocas difíceis. Soubemos que ele teve problemas com as autoridades e mentiu para tentar se safar. Mesmo sendo casado, teve um filho com sua empregada doméstica, e depois a mandou embora com o garoto. Fala-se que é muito rico, mas só deu o dízimo uma vez na vida, e ainda assim de bens saqueados em uma guerrilha. Consta que até trocou de nome, de Abrão para Abraão.
O terceiro candidato gagueja demais e sua antiga congregação diz que se irrita facilmente com fatos triviais, talvez por ter sido levado para adoção quando era recém-nascido. Apesar de ter tido boa educação, chegou a ser procurado pela polícia. Em sua ficha criminal foi acusado de homicídio, ocultação de cadáver e evasão, tornando-se um foragido da justiça local. Talvez por isso tenha relutado muito ao iniciar seu ministério, e mesmo assim com a ajuda do irmão. É conhecido como Moisés.
O quarto candidato poderia até ser considerado para ministro de louvor, se não fosse ex-chefe de gangue. Sabe-se que fugiu ao ser procurado pelas autoridades, escondendo-se com uma turma de desajustados em local desconhecido. Gosta muito de tocar instrumentos e cantar, pois tem um dom para a música e poesia. Mas é mulherengo, e apesar de ter tido várias esposas, já caiu em adultério, seduzindo uma mulher casada. O pai de sua primeira esposa não quer vê-lo nem de longe. Costuma sair dançando pelas ruas descontroladamente, o que causa escândalo em algumas pessoas. Davi é o nome deste rapaz.
O quinto tem uma reputação de ser sábio, mas falha ao não praticar o que prega. É autor de três livros. Mas é outro mulherengo, já que se casou  várias vezes. Embora seja um exemplo de prosperidade e tenha patrocinado pessoalmente a construção de um belo templo na cidade, tem uma certa queda pelo ecumenismo, pois andou frequentando eventos e cerimônias de outras denominações. Chama-se Salomão.
Este aqui diz que é batista, mas se parece mais com um hippie, e seu estilo de vida alternativo tem causado espanto. Usa roupas de couro. Consome apenas alimentos orgânicos e naturais. Não tem papas na língua, e envolveu-se em problemas políticos ao criticar a vida íntima de certas autoridades que desde então querem prendê-lo. É filho de um sacerdote, mas estranhamente prefere viver isolado, longe de todo mundo. Seu nome é João.
O candidato número sete é carismático e bom pregador. Mas tem se mostrado inconstante e é sabido que não resiste quando é pressionado, pois cai em depressão e vive fugindo e se escondendo. Não é muito bom em negociações, pois é muito radical e não aceita meio termo. Alguns o classificam como rude. É um tesbita, Elias. 
A vida familiar do oitavo candidato é uma bagunça. Primeiro, casou-se com uma mulher de reputação duvidosa. Então, sem nenhum aviso, separou-se dela para logo depois casar-se novamente. Este candidato chama-se Oséias. 
O nono é muito emotivo e alarmista. Alguns o consideram um verdadeiro reclamão, pois é de um pessimismo incomparável; vive se lamentando, ao ponto de seus compatriotas tentarem livrar-se dele. Outros apostam que ele sofre de depressão crônica. Chama-se Jeremias.
O décimo candidato tem um péssimo temperamento, é inconstante e diz-se até que ele já negou a fé publicamente. Extremamente impulsivo, certa vez agrediu um rapaz e chegou a cortar-lhe a orelha durante a confusão. Já foi visto nadando nu e fazendo churrasco de peixe na praia à noite. Pedro é seu nome.
Ao décimo-primeiro falta um pouco de tato. Ele é muito severo. Sua aparência é adequada, mas suas cartas são complicadas e suas pregações muito longas. Certa vez um garoto dormiu enquanto ele pregava e caiu da janela. Quase todo lugar que visita tem um tumulto. Por sua causa os comerciantes de uma grande cidade fizeram uma manifestação que só acabou com a chegada da polícia. Chegou a brigar com um colega de pastorado e separou-se de outro missionário que sempre o acompanhava no início do ministério. Parece que seu desejo mesmo é ir para a Espanha, mesmo sofrendo de uma enfermidade crônica. Chama-se Paulo de Tarso.
O número 12 é oriundo de uma vida rural. Não tem experiência em pregação, e talvez se saia melhor como boiadeiro e colhedor de figos nas fazendas do interior. Chama-se Amós.
Este rapaz, que aparece com o número 13, é saudável e corajoso, não bebe vinho nem na ceia, mas se recusa a cortar o cabelo e não pode ver um rabo-de-saia que cai em pecado imediatamente, mesmo já tendo sido juiz. Todos sabem do seu envolvimento com as mulheres da região. Comprou briga com os parentes de sua esposa logo na festa de casamento, por causa de uma aposta, e a união fracassou. Deu prejuízo às comunidades vizinhas, ao arrancar um dos portões de uma cidade. Também foi acusado de vândalo e incendiário, pois certa noite tocou fogo na plantação de uns desafetos. Esse Sansão é, de fato, um criador de caso, um brigão.
O candidato número 14, Timóteo, foi criado no Evangelho e até que tem potencial, mas ainda é muito jovem para um cargo de tamanha responsabilidade, mesmo tendo sido aconselhado por um missionário bastante experiente.
O 15º tem uma tendência a ofender os membros da igreja em suas pregações, principalmente os eruditos das Escrituras. Ele é muito controverso. Inclusive, chegou a ofender o comitê de seleção com suas perguntas diretas e incisivas. Apesar disso, já foi visto em festas conversando com fornecedores de vinho, cobradores de impostos, e até com prostitutas. Não gosta de respeitar os feriados religiosos nem os costumes tradicionais da nossa amada convenção. 
Também pesa contra ele uma reclamação por ter causado tumulto no maior templo da cidade, ao atrapalhar os profissionais que trabalhavam no caixa: parece que chutou os balcões, espalhou as mercadorias e agrediu os funcionários com um chicote! Consta na sua ficha que morou em Nazaré, mas nem seus irmãos acreditavam nele. Costuma pegar coisas emprestadas, como o burrico em que montou ao chegar à cidade e um salão para se reunir com os seus seguidores. Não tem nem mesmo um travesseiro para se reclinar à noite, como ele mesmo confessou. Viveu um bom tempo às custas de doações de amigos ricos. Seu nome é Jesus.
Finalmente, o candidato 16 parece ser muito prático e cooperativo. Veste-se bem, é bom com finanças e planejamento, sabe negociar, preocupa-se com os pobres e com a caridade. Além disso, tem um bom relacionamento com as autoridades. Nossa federação, depois de uma série de debates e de uma bem conduzida votação, chegou à conclusão unânime de que ele é o homem que estamos procurando para este cargo de pastor da nossa denominação.

Ele se chama Judas.


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terça-feira, 17 de março de 2015

Como o cristão deve reagir frente a um governo corrupto?

Virou moda, não apenas na mídia e nas redes sociais como também dentro da Igreja Cristã reclamar e bradar aos quatro ventos contra a corrupção, real ou imaginária, propagada nos grupos de Whatsapp em fake news  intermináveis. Que ficam pululando já por mais de dez anos: de vez em quando elas voltam.. Sermões e
homilias se repetem, ecoando pelos blogs e posts no Facebook, no Twitter, principalmente no Whatsapp, e onde mais for possível “botar a boca no trombone”. Líderes religiosos e leigos de repente se tornaram guardiões da ética, da probidade e da transparência, querendo colocar corruptos na cadeia, fuzilar traficantes, fechar o Congresso e espancar os ministros do Supremo. Transformaram-se todos, de uma hora para outra, em profetas que, à moda de Elias e João Batista, vociferam contra o poder político, numa verdadeira cruzada moralizadora.
Mas até que ponto essa motivação pela ética é de fato real? Isto é, qual seria a razão por trás do surto moralizador que faz a todos quererem incorporar o espírito de Elias ou de João Batista?
Antes de tudo, é preciso esclarecer qual era o papel dos profetas nos tempos bíblicos, e também dentro da Igreja e sua relevância para o mundo.
Houve um tempo em que o governo de Deus se manifestava em duas esferas, a civil e a religiosa, em um reino monárquico – mas de cunho teocrático, onde as leis divinas também serviam como lei civil. É por isso que algumas vezes as admoestações dos profetas do Velho Testamento extrapolavam a esfera religiosa e faziam menções a situações de crise social ou econômica (ver Amós 2:6-8; 3:10; 4:1 etc.).
No Antigo Testamento alguns profetas sofreram perseguições por trazer a mensagem divina. O ofício do profeta era de âmbito nacional. Quando Deus levantava um profeta, conferia-lhe a missão de falar em Seu Nome para toda a nação e até para povos estranhos (como Jonas). 
Deus permitiu, naquele momento histórico peculiar, que os profetas abordassem, de vez em quando, assuntos alheios à religião, até mesmo para que as profecias de cunho não-religioso, que se cumpririam em curto prazo, pudessem servir de prova para as profecias de cunho religioso (que são mais importantes por envolver a salvação do gênero humano) – as quais deviam se cumprir muito depois, especialmente no que diz respeito ao Messias. Desta forma, a destruição do Templo, a dispersão dos judeus, a conversão dos pagãos e outras profecias que se cumpriram relativamente em curto prazo serviram como uma prova certa de que também as profecias ainda não-cumpridas também se cumpririam – e se cumprirão a seu tempo (como a vinda do Messias, Sua crucifcação, o Anticristo, a ressurreição dos mortos etc.). Esse tipo de profecia de “curto alcance” pode ser visto em Isaías caps. 36 e 37.
Mas essas situações eram específicas do reino de Israel, do governo teocrático. Ou seja, muito distante do Estado Laico característico dos governos modernos, pós-Revolução Francesa. Uma grande diferença se nota entre o exercício do poder político naqueles tempos e hoje. Os profetas no antigo Israel lidavam com os reis de forma dura e às vezes rude. Apontavam claramente os delitos cometidos pelos reis e povos, lançando-lhes na face, sem temor, as verdades mais humilhantes, procurando apenas obedecer a Deus e amando somente a verdade (cf. I Samuel 15,17; II Samuel 12,7; 24,13; II Crônicas 21,11; I Reis 14,7; 18,18; 21,19; II Reis 1; II Crônicas 16,7; I Reis 22; II Crônicas 19,1; II Reis 3,13; 20; Jeremias 21; 22; 24; Daniel 4; 5; etc.).
Depois do exílio babilônico, quando do restabelecimento de Israel, a difícil situação socio-econômica gerou um ambiente de crise social, cujas injustiças foram denunciadas inicialmente por Amós, indo até a época de Malaquias, cronologicamente, cerca de 400 a.C. Esse período, diferentemente do anterior, foi caracterizado pelo sofrimento e marginalização dos profetas. De homens dignos de reverência passaram a ser vistos com hostilidade, porque sua mensagem ia de encontro aos interesses escusos das lideranças religiosas e políticas (Hebreus 11:36-38).
O plano de Deus era que houvesse cooperação entre profetas e sacerdotes, mas estes últimos tendiam a aderir ao liberalismo e deixavam de protestar contra a decadência. O livro de Malaquias é uma dura advertência dos profetas contra os sacerdotes, os verdadeiros ladrões do dízimo (e não o povo, como se tenta fazer crer hoje em dia). Leia mais sobre isto aqui. Os sacerdotes muitas vezes concordavam com a situação reinante, e sua adoração a Deus resumia-se a cerimônias e liturgias. O profeta, por outro lado, ressaltava o modo de vida, a conduta e as questões morais. Repreendia constantemente os que apenas cumpriam com os deveres litúrgicos. Irritava, importunava, denunciava, e sem apoio humano defendia justas exigências e insistia em aplicar à vida os eternos princípios de Deus. Era ensinador da ética, reformador moral e inquietador da consciência humana. Desmascarava o pecado e a apostasia, procurando despertar a um viver realmente santo.
Quando chegamos no Novo Testamento,  há uma transição no ministério do profeta. Vemos João Batista, tido por muitos como o último profeta do Antigo Testamento, pelo caráter de sua pregação – denunciou as mazelas dos líderes religiosos e políticos da nação, como antes dele Ageu, Malaquias e principalmente Elias, mas também anunciou o Messias, como Isaías. E quando a Igreja é instituída, o ministério dos profetas se revela um dom de Deus para a edificação do Corpo de Cristo. No Novo Testamento os profetas não perderam a preeminência. Mas, diferentemente de antes, não mais atuam ungindo reis. Não mais participam do governo, mas juntamente com os apóstolos e outros ministérios, são as colunas da Igreja. Seu ministério é muito mais em âmbito interno, porque tudo que se precisa saber acerca das nações e do governo humano já está revelado. Leia, por favor, o Salmo 2 e Apocalipse 11:10, 17-18; também o cap. 17:12-16. O governo humano, as nações, suas instituições, sua política, sua economia, suas leis, tudo jaz (i.e., descansa, se apóia) no Maligno (I João 5:19), e por isso não há outro caminho senão a destruição.
I Coríntios 12: 27 -29 e Efésios 4.11-13 atestam o caráter de edificação da Igreja que acompanha o ministério dos profetas nesta era. O Senhor continua a levantar e a usar seus porta-vozes para revelar a sua mensagem ao seu povo. Podem eventualmente aconselhar governos, pessoas influentes, admoestar e até mesmo criticar, tendo como padrão a Palavra de Deus, mas não podem se deixar levar por suas próprias preferências pessoais. E este, penso, é um dos maiores erros da Igreja de nossos dias.
O que ocorre é um grave problema no entendimento do papel da Igreja no mundo. Jesus disse que o papel dos salvos era propagar a Sua Palavra, pregar o Evangelho (i.e., as boas-novas da salvação). Evidentemente, isso haveria de impactar e transformar o mundo, como de fato ocooreu nos primeiros séculos. Mas depois de algum tempo surgiu a noção errônea de que a Igreja deveria governar o mundo em nome de Cristo, uma doutrina comumente chamada de dominionismo, e nós já discutimos aqui, aqui e aqui, para ficarmos só nesses exemplos.  
Essa doutrina, embora eminentemente católica na sua origem, tem desdobramentos na igreja evangélica, uma vez que muitos pastores crêem nela com todas as suas forças. Daí essa idéia se desdobrar pelas igrejas, e a partir de certo momento, muitos passaram a se arvorar em arautos de Deus e tentar influenciar - em suas próprias palavras - governos e governantes, e conquistar cidades e nações “para Deus”.
Quando não conseguem, põem-se a criticar o governo e os governantes que não lhes agradam, dizendo-se “profetas de Deus”, quando no fundo são apenas profetas de si mesmos.
Muitos pastores e líderes são sinceros, e imbuídos de um forte senso de mora, ética e honestidade, querem de fato que a nação seja um exemplo para todo o resto do mundo. Como qualquer cidadão de bem, ficam triste quando vê notícias sobre corrupção e dilapidação do patrimônio nacional. Mas, como qualquer cidadão, estão sujeitos ao momento histórico e ao contexto social, político e cultural em que foram formados, o que, na maioria das vezes, significa serem conservadores, ideologicamente à direita no espectro político, avessos ao socialismo – mesmo que às vezes nem saibam direito o que é. Veja bem, não estou dizendo que é certo ou errado estar à direita, ao centro ou à esquerda, ou em qualquer outra divisão que se queira adota – o que quero dizer é que os cristãos – líderes, leigos, com cargo ou sem cargo – devem primeiro se questionar se estão contra ou a favor do governo atual por questões ligadas à ética, honestidade, transparência, querer o melhor para a nação etc., ou se são contra ou a favor apenas porque gostam ou não gostam de quem está no poder, no momento.
Senão, vejamos. Já até discuti isso antes, aqui, por ocasião dos protestos de 2013. Um monte de pastores se assumiu protestante de fato e saiu em defesa das manifestações de então, dizendo que tinha que ir pra rua mesmo. OK, até aí tudo bem. Se achamos que algo está errado, graças a Deus que vivemos numa democracia e podemos reclamar. Graças a Deus e a quem veio antes de nós e lutou por restabelecer um estado democrático, porque antes de 1985 vivíamos numa ditadura militar onde quem discordava do governo, o presidente mandava “prender e arrebentar” – palavras do general Figueiredo, o último ditador. Nessa época, não sei de nenhum líder evangélico que saísse em defesa de protestos e manifestações contra o regime de exceção. Pelo contrário, naquela época, era comum os líderes evangélicos (que ainda não ostentavam esse título pomposo e se contentavam em ser chamados apenas de “pastor”) costumavam pregar que deveríamos obedecer às autoridades, porque elas foram estabelecidas por Deus (cf. Romanos 13:1,2).
Sim, mas quando questionávamos “e se o governo for injusto”, um governo que tortura e mata seus opositores, além de transparência zero nas contas, recebíamos como resposta que não, não deveríamos ser rebeldes. Deus, a Seu tempo, resolveria isso e tiraria do governo as pessoas injustas.
Mas às vezes a coisa se inverte totalmente de lado. Dependendo do governo do momento, não só podemos, mas devemos nos revoltar contra a injustiça e a corrupção, como se fosse coisa nova. Se o governo é do agrado do conservador, então relativiza-se Romanos 13:1 e 2, e entra em cena Provérbios 29:2 (“Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme”), que aliás, foi usado para pedir votos para Marina Silva. Como a dizer que, se o governo for exercido por cristãos, tudo será só maravilhas, oh glória. Esquecendo-se de que o país já foi governado por pelo menos dois evangélicos, Café Filho (1954) e Ernesto Geisel (1974-79), e não se tem registro de que a situação tenha sido de alívio para todo mundo. Aliás, o período de Geisel foi onde mais recrudesceram as prisões, torturas e mortes do regime verde-oliva. Então, confesso que não sei até que ponto o estímulo a “ir pra rua”, partindo dos púlpitos modernos, realmente tem a ver com o desejo de justiça, ética, transparência, fim da corrupção, ou até onde é meramente um discurso de classe, político-partidário, ideológico, de um segmento que simplesmente apoia determinado político.
Mais uma vez – isto é um direito do cidadão, o de se posicionar contra, a favor ou com neutralidade ou até mesmo indiferença diante de situações específicas. Agora, querer assumir o papel de profeta, de Elias e de João Batista, como se fosse um paladino da justiça, apenas para esconder preferências pessoais, partidárias, classistas e de caráter ideológico e político, e pedir intervenção militar, volta da ditadura, fechamento do Congresso e da Suprema Corte, não posso aceitar de jeito nenhum. É dominionismo, em maior ou menor grau – simplesmente desejo de poder, de querer “governar em nome de Deus”, o que já discuti antes em vários posts anteriores, doa a quem doer. Vá aqui mesmo em “pesquisar neste blog” que você acha.
Se isso fosse um desejo genuíno de justiça social, probidade, ética, tudo de bom... esses líderes teriam se manifestado antes.
Bem antes.
No tempo dos generais, por exemplo.
Ou no tempo dos anões do orçamento.
Não teriam defendido Collor ou um genocida, misógino, racista, admirador de torturadores.
E por aí vai.

Com informações adicionais de:
http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/licao7-dem-2tr14-o-ministerio-de-profeta.htm

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

As 7 igrejas de Apocalipse (VI) final

É importante saber a quem estamos servindo, se a Deus, ou a Baal. Podemos estar sendo iludidos, pois o Diabo, personificado em falsos deuses, é um imitador muito competente. Ele não cria nada, mas imita tudo. Se Deus é uma trindade santa, o Diabo criou a sua própria trindade corrupta e corruptora: ele próprio, Satanás, é o pai; o Anticristo (a besta que emerge das águas/nações) é o seu filho; e o seu espírito do mal fala pela boca do Falso Profeta (a besta que emerge da terra). A Igreja de Cristo será arrebatada, embora alguns discordem e digam que ela passará pela tribulação; mas o certo é que a única igreja presente na Terra durante aqueles anos será a igreja de Satanás – também um remanescente, mas o remanescente das igrejas cristãs apóstatas, representadas por parte de Sardes, Tiatira e Laodicéia, como vimos antes.
Cuidado! O culto a Baal é parecido, em certos aspectos, com o culto a Jeová, e é por isso que muitos são enganados. Os profetas de Baal se parecem com os profetas do Deus Vivo. É por isso que a profetisa Jezabel enrola muita gente. É por isso que Balaão consegue doutrinar muita gente. É assim que Tiatira cresce.
Aliás, o lema dos adoradores de Baal é a quantidade. 400 profetas, 300 sacerdotes, sumos-sacerdotes e uma hierarquia infinita de pessoas e cargos, sendo que, no topo está o supra-sumo dos religiosos da entidade, seja por que nome se chame: bispo, apóstolo, patriarca, querubim, ungido... Quanto mais gente na platéia, mais cargos hierárquicos a ocupar; mais nicolaítas para mandar nos outros.
É por isso que o mundo criou a frase “pequenas igrejas, grandes negócios”. E a gente fica sem saber se uma igreja é bíblica ou é um culto a Baal, uma heresia, ou um negócio. Mas alguns indícios são claros.
Se o pastor gasta mais tempo pedindo dinheiro do que orando ou lendo as Escrituras, é um negócio.
Se o local está cheio, mas não há discipulado, o crescimento espiritual é zero, não há cuidado individual, mas apenas entretenimento... é culto a Baal.
Se o pastor não tem conhecimento bíblico, e não faz sermões expondo a Bíblia, mas é apenas um contador de “causos” ou de testemunhos, é Balaão dirigindo.
Se o enfoque for no “eu posso, decreto, determino”, idem.
Se a igreja vende bênçãos, prosperidade, unção, é pior que um negócio, é estelionato.
Se a pregação não for “tome a sua cruz e siga a Jesus”, definitivamente é um negócio, pois o pastor quer falar o que você quer ouvir, para não te incomodar e para ele ter mais seguidores – e mais dinheiro; para que ele possa se promover ainda mais, gastando milhões na televisão para ganhar ainda mais dinheiro. 
No culto de Baal, não se prega arrependimento. Isto é coisa de cristão. Essa pregação afugenta o ofertante, o dizimista. A esse tipo de adorador, não interessa o arrependimento. Além do mais, um discípulo de Baal não muda, mesmo quando se mostra que ele está no erro.
Se você entra em uma igreja como cliente, então pode comprar a bênção financeira. Você pode determinar coisas, pois investe parte do seu salário. Você está “semeando” (não sei o que, mas está). “Dê, e Deus te devolverá mui grande medida sacudida e transbordante”, mas visando colheita apenas neste mundo. Você cultiva 100 e terá 200. Você faz o sacrifício, paga sua “prestação” na “casa do tesouro”: é toma lá, dá cá. Ofertou, recebeu. Balaão e Jezabel, profetas que são, explicam que quando Deus não responde, é porque não demos a oferta correta; e quando a oferta é certa, a fé é que foi pouca. Mas lembre-se: Baal é que é surdo, não Deus.
Não é necessário entrar na questão da imoralidade, que é óbvia. “Ah, na minha igreja não tem imoralidade não, misericórdia”! Mas sobre prostituição espiritual e o “sacrificar a ídolos”, talvez a associação a Baal não fosse tão clara... até agora. Se o ensino que você recebe dificilmente se alinha com o que a Bíblia ensina, em especial com o que Jesus e as cartas nos revelam, e as suas práticas não se viram na Igreja Primitiva, é possível que sejam ensinos da profetisa Jezabel. Confira sempre com a Bíblia o que se ouve do púlpito! A pregação da profetisa Jezabel é sedutora: “Tenha fé!”- “Adore ao Senhor!” -  “Dê o seu melhor que ele te restituirá em dobro!”... versículos fora de contexto, passagens truncadas e adaptadas a um falso evangelho, um evangelho misturado, paganizado. Profetas de Baal pululam onde há pouco conhecimento das Escrituras.
Jezabel gosta de trazer “melhorias no culto”, novidades criativas e extravagantes para “dinamizar” ou “revitalizar” o culto racional: danças, toque de shofar, “levitas”, adoração profética, louvor violento. E Balaão gosta de dinheiro: pede dízimo, bízimo e trízimo, oferta especial, oferta alçada, oferta de primícia: oferta “teryman”, “oferta de príncipes”, oferta profética, sacrifício de louvor, honrar ao líder com seus bens e mais um monte de eufemismos para a palavra “estelionato”.
Todo Baal tem a sua Jezabel. “Jezabéis” podem ser homens, mulheres, ou até mesmo casais, que querem ser “líderes”. Gostam de ser o “braço direito”, ajudando em tudo! Gradativamente, passam a ditar regras, com distorções que podem variar de acordo com sua vaidade. É comum, como em Tiatira, perseguir os que discordam, e usar seu status alcançado para “pesar a mão” sobre quem queria apenas estar num culto cristão. Como fizeram com Elias.
Baal exige sacrifícios físicos. No tempo de Elias, os sacerdotes de Baal se mutilavam, se cortavam, se ralavam. Hoje, o sacrifício físico vem sob a forma do ativismo na igreja e do cansaço durante prolongadas horas de mantras e cânticos, que fazem parte da “adoração”.
Além disso, a falta de fé induz muitos a procurar a ajuda da religião falsa, esperando garantia de que tudo dará certo. Acazias, filho de Acabe e Jezabel, ferido num acidente, foi consultar Baal-Zebube (é esse  mesmo, o Belzebu), deus de Ecrom, para saber se se restabeleceria (II 2 Reis 1:2, 3). Hoje há muito crente indo atrás de profeta e de adivinho para saber se irá bem em tal e tal negócio, se é para casar com fulano ou cicrano, como se Deus fosse uma “Mãe Diná” – e sai cantando “vai dar tudo certoooooo”... “hoje o meu milagre vai chegaaaar”...
Baal-Peor é uma coisa vergonhosa (Oséias 9:10). Os que participam de seu culto perecerão: “Os vossos olhos têm visto o que o Senhor fez por causa de Baal-Peor; pois a todo homem que seguiu a Baal-Peor o Senhor, teu Deus, consumiu do meio de ti” (Deuteronômio 4:3).
No fim da carta a Tiatira, Jesus lembra a todos que deu oportunidade de arrependimento: “Dei-lhe tempo para que se arrependesse” (v. 21). Entretanto, o poder desse sistema apóstata ainda atua. Qualquer um que conheça alguma coisa que seja sobre a igreja católica romana e sua forma de adoração, e que se disponha a um olhar crítico e desapaixonado sobre a igreja evangélica de nossos dias, verá Jezabel em ação.
No verso 22 lemos que ela será lançada “em grande tribulação”, donde se infere que, ao contrário da Igreja verdadeira, a instituição católico-romana-evangélica não escapará à Tribulação que se seguirá ao arrebatamento (Apocalipse capítulo 17).
Naquele dia, Tiatira ficará para trás, juntamente com Laodicéia e Sardes. Com suas heresias, suas apostasias, seus costumes extra-bíblicos, formarão o núcleo da igreja apóstata do Anticristo, aceitando o ecumenismo global que constituirá a religião mundial liderada pelo Falso Profeta. Não admira que há alegados protestantes “se convertendo” ao catolicismo: são todos farinha do mesmo saco!
Os seguidores de Tiatira, como os filhos da Jezabel histórica, sofrerão o juízo de Deus: “ferirei de morte a seus filhos” (v. 23). É por isso que Deus diz: “Saí do meio dela”!
A morte aqui significa a segunda morte, o lago de fogo, cf. Apocalipse 20:15. É o Julgamento do Grande Trono Branco, quando aqueles que não receberam Jesus serão julgados por suas obras, de acordo com Apocalipse 20:11-15.
“EU SOU [uma referência clara à divindade de Cristo, cf. Levítico 18:2; Salmo 50:7; João 6:35, 48; 8:12; 10:10, 11, 14; 11:25; 14:6; 15:1; comp. Apocalipse 1:8, 18; 21:6; 22:13,16] aquele que sonda mentes e corações, e darei a cada um segundo as vossas obras”. Ainda que Tiatira clame que é forte e indestrutível, e que não será abalada (Isaías 47:4-15), o juízo de Deus não tardará.

Se você é parte de Tiatira, e vinha seguindo as profetadas de Jezabel e a doutrina de Balaão todo esse tempo, há uma esperança. Jesus diz que “a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha”. Apesar de fazer parte da Igreja de Tiatira, não aceite, não siga suas falsas doutrinas! Jesus promete aliviar a todos os que rejeitarem “essa Jezabel”, reconhecendo a fidelidade deles e aconselhando-os a permanecerem assim até o fim.
“Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações,e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”.
Ao vencedor, dará a Ele autoridade sobre as nações, o que significa que quem abandonar Jezabel reinará com Ele no Milênio! O que a igreja apóstata sempre desejou – governar o mundo pela política – Jesus concederá de graça a quem permanecer fiel a Ele!
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Alguns links de fontes pesquisadas para estes artigos sobre as igrejas de Apocalipse (se esqueci algum, me mande que eu incluo na lista):

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As 7 igrejas de Apocalipse (V)

Já estudamos bastante sobre a profetisa Jezabel. Agora vamos ver um outro profeta que se lhe assemelha, e tem até uma doutrina própria: Balaão. O nome significa “devorador”, segundo a Enciclopédia Bíblica de O. S. Boyer (Ed. Vida, 21ª edição, pg. 93). Era profeta, disso não resta dúvida, pois o que ele profetizou se cumpriu. Sem ter conhecido Abraão, repetiu o que Deus dissera ao patriarca: confira Números 24:9 com Gênesis 12:3. O verso 17 de Números 24 é claro, e também 0 20. Não obstante o seu o seu dom profético, Balaão era ganancioso; séculos depois, Pedro explicou que ele estava de olho no dinheiro, comparando-o aos obreiros corruptos de sua época (II Pedro 2:12-19). E olha que antes Balaão havia recusado uma fortuna para amaldiçoar a Israel! O problema é que ele profetizou em nome de Deus, mas também era adivinho e vidente idólatra. Números 22:6,7 diz que Balaque tinha fé nas pragas de Balaão, e que levou a ele o valor combinado pelos “encantamentos”. Era uma espécie de “benzedeira”. O anjo de Deus disse que o caminho dele era perverso (v. 32).
Ao que parece, Balaque deve ter aumentado a oferta, pois Pedro diz que “Balaão amou o prêmio da injustiça” (II Pedro 2: 15), apesar de ter recusado a primeira negociação. Ele teria ensinado Balaque a colocar tropeços diante dos filhos de Israel. Mário Persona diz que “foi a contragosto que Balaão profetizou bênção para Israel”, e cita Números 24:15-17: “Então proferiu a sua parábola, e disse: Fala Balaão, filho de Beor, e fala o homem de olhos abertos; Fala aquele que ouviu as palavras de Deus, e o que sabe a ciência do Altíssimo; o que viu a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos. Vê-lo-ei, mas não agora, contemplá-lo-ei, MAS NÃO DE PERTO” [grifo acrescentado]. Continua dizendo que “o versículo 17 é a sentença de condenação que Balaão foi obrigado a proferir contra si próprio. Ele ficou ciente de que veria a Deus, porém não de perto. Compare com Lucas 16:23, na qual Abraão é uma representação da presença de Deus (“e no inferno [hades], ergueu os olhos, estando em tormentos, e VIU AO LONGE Abraão, e Lázaro no seu seio’)” [grifo acrescentado].
Isso nós só podemos deduzir, pois o cap. 24 de Números termina com Balaão e Balaque indo cada um para o seu caminho, e parece que a história termina aí. Mas o cap. 25 começa com os filhos de Israel se prostituindo com as moabitas e sacrificando aos deuses delas. A razão disto só descobrimos em 25:17-18 e 31:15,16, que nos mostram que quando os homens de Israel pecaram, logo após Balaão ter profetizado bênçãos, foi pelo conselho do mesmo Balaão ao rei Balaque. Que conselho foi esse?
Balaão deu a Balaque uma estratégia para desviar Israel do caminho e assim talvez impedir que Israel guerreasse contra Moabe. Os hebreus ficariam distraídos e deixariam os moabitas em paz: era só misturar os filhos de Israel com as filhas dos moabitas. A Bíblia nos conta que os israelitas não só fizeram sexo com as moabitas, como também seguiram os seus deuses.
Quais eram esses “deuses moabitas”, a quem os hebreus adoraram, seguindo a “doutrina de Balaão”? Os moabitas eram uma nação irmã dos amonitas (Gênesis 19:37,38) e ambas tinham parentesco distante com Israel, pois Ló, pai de Moabe e Amon, era sobrinho de Abraão. Tanto moabitas, como edomitas e amonitas temeram quando Israel saiu do Egito e se aproximou de Canaã. A religião moabita era politeísta. Em Números 25:3 e noutras passagens, Baal-Peor é mencionado provavelmente como uma deidade moabita. A deusa Ashtar (“Astaroth”, “Asera”) também é mencionado na Pedra Moabita e na coluna de Balu‘a. II Reis 3:27 confirma que os moabitas ofereciam sacrifícios humanos. Havia outras divindades como Camós (Jeremias 48:13).
Vemos, portanto, que Baal provavelmente tenha sido adorado pelas moabitas que seduziram os israelitas em Peor. O conselho, ou a doutrina de Balaão, era que os israelitas fossem seduzidos pelas mulheres moabitas – tanto sexualmente como religiosamente (25:1,2), e se voltassem para Baal, como faria Jezabel séculos mais tarde. Cometeram adultério físico e espiritual, e nem ligavam mais para o que os outros dissessem (25:6). Isto é confirmado por Apocalipse 2:14. É importante notar que a idolatria e a prostituição (imoralidade) estão juntas. Ora, não foi exatamente  isso que Jezabel também fez, no tempo do profeta Elias, conforme vimos nas semanas passadas?
Uma das primeiras menções de Baal na Bíblia é esta de quando Balaque levou Balaão a Bamote-Baal (que significa “altos de Baal”) para ver o povo de Israel. O culto a Baal era marcado por uma devassidão que envergonharia Sodoma e Gomorra. Todos os anos, sua morte e a ressurreição eram repetidas simbolicamente, já que a passagem da seca para a estação das chuvas era explicada como a ressurreição do deus, e com a idéia do sêmen sagrado fecundando a terra em forma de chuva, os cultos centravam-se na atividade sexual. Para despertar Baal a se acasalar com Astarote, entregavam-se a orgias. A religião cananéia requeria o serviço de “prostituição sagrada” de homens e mulheres disponíveis como sacerdotes. Logo, a pessoa para adorar a Baal tinha que copular com um ou vários desses sacerdotes. Isso é visto no livro de Oséias, onde a esposa do profeta não era apenas uma prostituta, mas adoradora de Baal. “Naquele dia, diz o Senhor, ela me chamará: Meu marido e já não me chamará: Meu Baal. Da sua boca tirarei os nomes dos baalins, e não mais se lembrará desses nomes” (Oséias 2:16-17).
O termo “Baal” aparece em Romanos 11:4, e no texto original em grego é precedido pelo artigo feminino he. Comentando sobre isto, John Newton escreveu num ensaio sobre o tema, onde afirma: “Embora em hebraico ele seja do gênero masculino [hab·Bá·ʽal], o senhor, todavia Baal é chamado [he Bá·al], = a senhora, na Septuaginta; Oséias 2:8; Sofonias 1:4; e no Novo Testamento, Romanos 11:4. Na adoração licenciosa deste andrógino, ou deus de dois sexos, os homens, em certas ocasiões, usavam vestimenta feminina, ao passo que as mulheres se apresentavam em traje masculino, brandindo armas.” — Ancient Pagan and Modern Christian Symbolism (Simbolismos Pagãos Antigos e Cristãos Modernos), de T. Inman, 1875, p. 119 (link). Nem é preciso dizer nada sobre a homossexualidade...
Como vimos, Jezabel reintroduziu em Israel o culto a Baal, com todas as suas derivações, ou seja, a idolatria em si e a promiscuidade sexual, que era parte daquele culto. É interessante notar como as igrejas de Apocalipse, assim como o povo de Israel, vira e mexe caem nas mesmas faltas. A Éfeso, Jesus disse que ali havia “nicolaítas” (Apocalipse 2:6), que já estudamos aqui e aqui. Esses mesmos picaretas estavam em Pérgamo também (v.15). E Jesus repreende Tiatira porque ela tolera Jezabel, falsa profetisa, que “ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos” (v. 20). E se voltarmos a Pérgamo, notamos que ela abrigava os que seguiam a “doutrina de Balaão”, que também era “comerem das coisas sacrificadas a ídolos e a se prostituírem” (v. 14).
Como se vê, Jezabel e Balaão se conectam em dois pontos: ambos eram profetas (ela, de Baal, e ele até chegou a profetizar em nome de Deus, mas se corrompeu depois); e ambos induziram o povo de Deus a “comerem das coisas sacrificadas a ídolos e a se prostituírem”. Isso é chamado de “doutrina de Balaão”.
“Ah, mas na minha igreja não tem esse negócio de prostituição e ídolo não, misericórdia”... será que não? Os adoradores de Baal acreditavam que, com seus rituais religiosos, estimulavam os deuses a seguir o mesmo modelo. Era uma espécie de magia simpática, realizada na esperança de que os deuses imitassem seus adoradores, repetindo seus atos e assim garantissem prosperidade.
Hoje vemos nas igrejas ditas evangélicas os famigerados “atos proféticos”. Como se sabe, trata-se de “ações realizadas por homens, profetas de Deus com determinado sentido profético... sinais que apontam para o reino espiritual e que tem conseqüências no reino físico [sic]... minha ação profética tem alto valor no reino do espírito que se expressa no mundo físico”, os próprios adeptos declaram. Como aqui – onde o autor do texto declara ter como modelo, dentre outros, Tereza de Calcutá (lembra do que falei sobre a infiltração católica no meio evangélico, que não mais se fala “mal” do catolicismo, mas têm-no como exemplo?). E também aqui, aqui, aqui temos explicações, justificativas até dicas de “ferramentas criativas” para “atos proféticos”. Cuidado, alguns dão náusea.
Não é difícil relacionar os “atos proféticos” com a macumba. Basta compararmos as duas metodologias. Um trabalho de macumba nada mais é do que o homem valendo-se de ritos e objetos, a fim de manipular a ação da divindade.
Jostein Gaarder, na obra “O Livro das Religiões” (Cia. Das Letras), descreve o que é “magia”: “... o ser humano que se vale de ritos mágicos está tentando coagir as forças e potências a obedecer à sua ordem – que com freqüência consiste em atingir finalidades concretas. Desde que os rituais mágicos sejam realizados corretamente, o mago acredita que os resultados desejados decerto ocorrerão, por uma questão de lógica”.
Se você trocar “mago” por “pastor”, “apóstolo”, ou mesmo “levita”, obterá um retrato fiel da espiritualidade dita evangélica da atualidade. Atos proféticos e pontos de contato (como sabonetes, chaves, e rosas ungidas) possuem a mesma utilidade dos objetos dos rituais de magia. Mensagens enviadas ao “mundo do espírito”, a fim de que o “pastor” e o “crente” consigam conquistar alguma coisa desejada no “mundo físico” – mesmo que seja com objetivos elevados, como resgatar a cidade e a nação. Ato profético, portanto, é um meio de o homem [tentar] manipular o mundo espiritual, inclusive a ação dos demônios.
O pastor vira um xamã, revestindo-se da mesma mística e dos mesmos poderes que antes eram propriedade dos feiticeiros e “pais de santo”. Os crentes, assim como os que buscam os terreiros, transformaram-se em adoradores mercenários, a procura de um “cristo talismã”, que lhes desamarre os caminhos.
Veja você se não é a mesma coisa que faziam os adoradores de Baal. Praticavam certos atos achando que seu deus os imitaria e repetiria essa pantomima patética! Quando fazemos “atos proféticos” visando alterar os acontecimentos, para “provocar nos lugares celestiais o que fazemos na terra”, estamos fazendo um culto pagão, que busca “atrair a divindade”.
Os homens tentam controlar as divindades fazendo oferendas para que elas lhes atendam e lhes abençoem, quando Deus faz isso graciosamente. Em busca de prosperidade, oferecemos um sacrifício – dinheiro, por exemplo. Depositamos parte da renda na esperança de receber de volta tudo multiplicado, num “princípio da semeadura” totalmente desvirtuado da Palavra de Deus. Quando ofertamos dinheiro para ter prosperidade como recompensa, usando erradamente o “princípio da semeadura”, estamos na verdade fazendo uma oferenda a Baal.
Como os seguidores de Baal, querem que o seu deus lhes dê prosperidade, que mande “chuva” do céu mediante essa troca. O Deus de Elias deu a chuva, sem precisar de nada em troca para ser aplacado, sem ser subornado ou comprado. Baal, que exigia sacrifício para atender aos seus devotos, foi desmascarado como um ídolo vulgar, pois era incapaz de resolver o problema e responder os “atos proféticos” feitos pelos seus sacerdotes e adoradores. É importante ressaltar que Baal traz prosperidade, não o odiado Mamom (que é a riqueza). Podemos rejeitar Mamom, mas cultuamos Baal todo domingo. E quem ensina isto é a doutrina de Balaão e a falsa profetisa Jezabel, doa a quem doer.

Calma, só falta mais uma. Tá acabando. Na semana que vem.

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