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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Evangélicos e as eleições (de novo)

É sempre assim. A cada quatro anos, eles saem das tocas e aparecem com seus discursos ensaiados, cheios de emoção, raramente tendo algum fundamento lógico ou racional. As multidões que presenciam seus eventos saem animadas, acreditando em tudo que disseram, e prometendo seguir fielmente o que foi dito. Tudo isso para depois das eleições desaparecerem, ou pelo menos ficarem mais discretos, voltando, digamos assim, à normalidade. Sabe de quem estou falando?
Não, não é dos políticos. É de uma outra categoria de pessoas, que também depende da credulidade e da falta de espírito crítico das massas para poder sobreviver. Trata-se dos modernos “apóstolos”, que não perdem oportunidade para tentar uma boquinha no governo. De preferência uma que lhes agrade ideológica e politicamente (se é que têm noção dessas coisas); mas se não der, não tem problema. O importante é entrar na festa; depois, se for o caso, bandeia-se para a “oposição”, cospe-se no prato em que se comeu e busca-se outra sombra melhor.
Aqui vai um exemplo claro. Recentemente apareceu na mídia uma notícia dando conta de que começou uma “campanha de jejum e oração pelas eleições”. Essa campanha foi inventada por “líderes evangélicos” e “levitas” famosos. O objetivo? “proclamar que o Senhor Jesus Cristo é o único Senhor e Rei soberano da República Federativa do Brasil, por direito de criação e por direito de redenção”. E também escolher “12.000 sentinelas [intercessores] para levantar cobertura espiritual sobre o Brasil que vai eleger novos gestores públicos em âmbito estadual e federal”, e assim “acelerar, ocupar e influenciar pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”.
Uma espécie de manifesto explica que “a igreja deve experimentar um avivamento [com] poder de gerar a verdadeira mudança política e cultural na sociedade”.
Ora, sabemos da importância da intercessão – é uma prática que a Bíblia incentiva. Abraão suplicou por Ló e este escapou da destruição; Moisés intercedeu por Israel e foi ouvido; Samuel orou constantemente pela nação; Daniel orou pela libertação do seu povo; Davi suplicou pelo povo; Cristo rogou por Seus discípulos e fez especial intercessão por Pedro; Paulo é exemplo de constante intercessão. Mas aqui já vemos a diferença entre o Velho e o Novo Testamentos: antes, muitas vezes a nação era objeto da intercessão; agora, não. Deus presentemente trata com indivíduos, e não com nações. Esse tratamento com as nações será retomado na Tribulação: tanto é verdade que esse período consiste exatamente no julgamento das nações. Não há intercessão “pelas nações” na Era da Igreja. Começa aí a confusão.
E de onde será que tiraram essa idéia de “12.000 sentinelas”? Porque não 40 milhões, que é o número (estimado) de cristãos evangélicos do Brasil? Será que o apelo á intercessão não se aplica a todos os cristãos? Por que só a uma casta privilegiada e “sacerdotal”? E por que o número “12.000”? Isso parece mais um apelo à crendice popular e cabalística, um certo “misticismo” pseudo-cristão que eu chamo de “numerologia evangélica”.
E mais: onde na Bíblia se encontra uma ordem de Jesus Cristo, o Cabeça da Igreja, dizendo “Ide, acelerai, ocupai e influenciai pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”? Onde Ele ensina que precisamos “transformar nações [...] e gerar mudança política e cultural na sociedade”? Qual é a passagem bíblica que traz esses ensinamentos?
É sabido que esse pessoal pertence àquela facção da Cristandade que atende pela pretensiosa denominação de “Nova Reforma Apostólica” – o que já denota a sua arrogância. Querem se comparar, e até mesmo superar, a Reforma do século XVI com Lutero, Calvino e outros heróis da fé. Eles mesmos assumem isto, como você pode constatar aqui neste link. O que eles pretendem? O que pensam? O que pregam?
Seus principais mentores são C. Peter Wagner e Chuck Pierce; e outros como Rony Chavez; Ana Mendez; Neuza Itioka; Valnice Milhomens; Renê Terranova; Cindy Jacobs; John Eckhardt; etc. Você pode procurar depois na Internet. E talvez fique espantado com a quantidade de seguidores que eles já têm em nosso país. Geralmente são apoiados por “levitas” como David Quinlan e outros, muitos outros, que divulgam excrescências como “louvor profético”, “adoração extravagante”, “dança profética”, “transferência de gerações” e outras aberrações. Seus ensinos baseiam-se, muitas vezes, em teorias de administração e marketing, como as de George Barna, Alvin Toffler, Peter Drucker, Peter Senge e Ken Blanchard (como expus aqui neste link).
Peter Wagner mesmo defende o crescimento exponencial do número de membros, usando técnicas de network-marketing, a popular “pirâmide”, como G12, M12 etc. E diz que o “apóstolo moderno” é “espontaneamente reconhecido pelas igrejas”. E aí sou obrigado a perguntar: quem, dessa lista de “apóstolos modernos”, foi “espontaneamente reconhecido” pelas igrejas? Na maioria dos casos, eles foram impostos como tais, devendo a obediência a eles ser adotada por decreto, sob risco de excomunhão. Interessante  é que se trata de uma “ação entre amigos”: eles mesmos dizem que para ser apóstolo, precisa ser “ungido” por outro “apóstolo”. Ou seja, fica tudo no mesmo clube. Você duvida? Diga a algum membro dessas igrejas que você não crê no apostolado de um desses fulanos, para ver o que acontece. Eu mesmo levantei essa questão antes, neste link: “será que existem apóstolos hoje em dia”?
Pode-se então notar claramente que o objetivo não é, como parece, “interceder pela transformação da nação” - o que em si é altamente questionável, pois a Bíblia não nos manda “transformar nações” e sim pregar o Evangelho a pessoas, indivíduos, uma vez que salvação na presente dispensação é de caráter pessoal e não nacional, o que eu explico melhor aqui neste link e neste outro . O objetivo, na verdade, é participar do governo terreno “em nome de Deus”, exatamente como defendia Agostinho em sua obra “A Cidade de Deus”. Agostinho defendia a ideia de que o reino de Deus é exercido pela igreja na terra. Um equívoco total, fruto de uma visão de mundo muito pessoal. Ele escreveu isso por volta do ano 400 da era cristã, quando a igreja, então se transformando de cristã em católica, crescia com o apoio do governo temporal. Agostinho imaginou então que a igreja poderia governar o mundo por sua influência no poder político, aliando-se aos reis e magistrados. Daí o costume medieval de sempre o rei ser coroado pelo bispo ou até mesmo pelo “papa”. Mas nada disso se aplica à verdadeira Igreja de Cristo.
Os ensinos desses novos “apóstolos” estão levando muitos evangélicos a pensar que estão preparando a Terra para o reinado de Cristo. Sua doutrina se traduz, basicamente, nesses pontos:
I) Satanás usurpou o domínio da Terra através da tentação de Adão e Eva;
II) A Igreja é o instrumento de Deus para recuperar esse domínio;
III) Jesus não pode voltar, nem voltará, até que a Igreja tenha recuperado o domínio, pelo controle das instituições governamentais e sociais da Terra
(leia mais aqui).
Assim, vende-se a idéia de que, entrando (e dominando) a esfera política, aceleramos a vinda de Cristo para que, quando Ele chegar, o poder já esteja consolidado nas mãos da igreja, por meio de seus “apóstolos” e – incrível isso – seus “generais”!
O próprio Chuck Pierce, em suas mensagens repletas de esoterismo e numerologia, diz que “os cristãos irão realizar sinais e maravilhas, e controlar sete montanhas de influência cultural – governo, educação, religião, família, artes e entretenimento, negócios e mídia – para fazer um reino cristão para Jesus retornar e governar”.
Isso é uma das maiores mentiras do Diabo. A verdade é que, como a Igreja será arrebatada a qualquer momento, jamais terá destaque na Terra sem a companhia do Noivo. Enquanto a Igreja de Jesus estiver na Terra, habitando corpos de carne, jamais alcançará, como Cristo não alcançou, qualquer destaque entre os homens. Aqui está o engano. Não há nas Escrituras margem para se crer que a Igreja reinará ou governará na presente era (antes do Arrebatamento). Pelo contrário! Entretanto, os que não se guiam pelas Escrituras são levados a crer que estão aperfeiçoando o que Deus projetou. Por isso “nova reforma”, o “novo de Deus”, um “novo mover”, “novas revelações”, “estabelecer um novo tempo”! Preste atenção!
Eles pregam a “teologia da substituição”, como os católicos. Deus teria deixado Israel de lado, por sua incredulidade, e estabelecido “um novo Israel”, e agora a igreja é a beneficiária das bênçãos antes prometidas a Israel. Duas consequências graves dessa teoria: o anti-semitismo (pregado por muitos pastores), já que Israel negou Jesus e merece sofrer (baseado em Mateus 27:25, “o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”), e a teologia da prosperidade, que assume para si as promessas de bens terrenos – que eram para Israel (baseados em Deuteronômio 30:9; Josué 1:3; Isaías 61:6, etc.).
Os líderes evangélicos, como os “papas” medievais, estão totalmente seduzidos pelo poder temporal. Fazem de tudo para conquistar a atenção dos políticos, tentando “influenciar e acelerar” processos de cunho meramente eleitoreiro. Para se justificar, apelam para Provérbios 29:2 (“Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), querendo com isso se auto-proclamar “justos”. Ou seja, só seremos abençoados se os escolhermos para dirigentes da nação! Esquecem-se de que o Brasil já teve presidentes evangélicos, e nem por isso o povo se alegrou...
Vejam esse Silas Malafaia. Primeiro, em 2010 disse que apoiava Marina, porque ela seria “evangélica”. Depois, quando ela passou a andar de beijos e abraços com o notório ex-terrorista Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis, no então Partido Verde, com o “pai-de-santo” Luiz Bassuma e recebeu apoio total e irrestrito do padre “new-age” Leonardo Boff, voltou atrás e vislumbrou em José Serra a sua chave para a prosperidade. Não deu certo.
Agora, em 2014, hipotecou seu apoio (e de sua boiada cativa) à candidatura natimorta do pastor Everaldo. Mas como ele sabe que não há a mais remota possibilidade de vitória, declarou que apoiaria Marina no segundo turno  - e a boiada deveria ir junto. E explicou que o apoio a Everaldo é apenas para lhe ajudar a ter visibilidade. A menos, é claro (em se tratando de Malafaia, sempre tem um “senão”) que Marina obedeça a cartilha de seu partido e permaneça a favor do aborto, da união (casamento) gay e da liberação das drogas. Aí Malafaia apoiará Dilma e vai detonar Marina, pois Aécio já afundou. É a famosa “maria-vai-com-as-outras”. Nesse meio-tempo, ele cansou de malhar o PT, mas levou o candidato do partido ao governo Rio à sua igreja e até “o apresentou” lá na frente. O que mudou?
É por essa e por outras que eu repudio todo e qualquer pastor que queira influenciar seu rebanho, sua congregação, a mídia, seguidores do Facebook e assemelhados, a votar nesse ou naquele candidato. Por mais querido e amigo que seja, me desculpe. Já falei mais de uma vez: isto não é “dar uma opinião” ou “revelar sua opção”, é tráfico de influência! Isso mesmo, repito, tráfico de influência. Cada um pode e deve ter sua opção, mas a partir do momento em que você tem uma audiência cativa, se coloca numa posição de liderança espiritual e autoridade (ainda que questionável) e coloca essa opção para a galera, está criando um curral eleitoral, doa a quem doer. Está vendendo a fazenda, como se dizia antigamente, “de porteira fechada”, isto é, com tudo que está lá dentro. O pastor é candidato? OK, mas então que faça como os radialistas, saia de licença três meses antes do pleito, pare de pregar no púlpito, vá fazer campanha da porta do templo para fora, lá na rua. O pastor gosta desse ou daquele partido? OK, mas nada de levar seus candidatos preferidos para fazer farol na igreja. O pastor quer arranjar uma boquinha no governo com a desculpa esfarrapada de “governar em nome de Deus”? Que vá puxar saco lisonjear o candidato lá no gabinete dele; fazer isso escancaradamente na Internet e na TV só rebaixa o “líder espiritual” ao nível de aventureiro e interesseiro.
Ainda mais quando esse “líder espiritual” manifesta sua opção política a cada quatro anos; e pior ainda, quando muda de opinião com as estações do ano. Quando cisma de “levantar intercessores para mudar a nação”, para que a nação e o governo sejam de acordo com o que ele acha.  Sinto muito, mas estou fora desses caras.

Fontes externas:

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Roupa nova para velhas heresias (1)

Montanismo
Um fato intrigante do século XX foi como a Alemanha conseguiu perder a Segunda Guerra Mundial. Depois de ter dominado praticamente toda a Europa e o Norte da África em questão de meses, Adolf Hitler e seus capangas puseram tudo a perder. Pelo menos dois eventos, dentre outros, fizeram a balança pender para os “aliados”: a entrada dos Estados Unidos e a invasão da Rússia.
Considerando a campanha russa, é virtualmente unânime a opinião de que Hitler repetiu um erro histórico. Ele fez a mesma lambança de Napoleão, cento e vinte e nove anos antes.
A invasão francesa, conhecida na Rússia como Guerra Patriótica de 1812, foi o ponto de virada das Guerras Napoleônicas. Reduziu o grande exército francês a uma pequena fração e provocou uma grande mudança na política européia, já que enfraqueceu dramaticamente a hegemonia francesa no continente. A reputação de Napoleão como um gênio militar foi severamente abalada. Embora alguns historiadores afirmem que o exército russo era um dos melhores na Europa e a sua estratégia de defesa tenha sido bem executada, é inegável o papel das grandes dimensões do território russo e dos rigores do inverno na derrota napoleônica.
Meio milhão de soldados invadiu a Rússia em 1812. Inferiorizado numericamente e com unidades  separadas por grandes distâncias, o exército russo recuou. E, em sua retirada, incendiava tudo o que ficava para trás. Quando Napoleão chegou à capital russa, depois de três meses, os moscovitas haviam ateado fogo à cidade e os vencedores ficaram sem provisões. Numa corrida contra o tempo, os franceses tentaram voltar antes do inverno, mas foram dizimados pela fome e pelo frio. Menos de 50 mil conseguiram regressar. Cerca de 38 mil morreram em território lituano, a meio caminho para a França, de modo que até hoje são encontrados uniformes, armas e restos de soldados daquela época.
A história dessa guerra gerou a famosa obra literária “Guerra e Paz”, de Leon Tolstói, que eternizou as batalhas da campanha. A derrota inicial da Rússia e sua vitória final também são lembradas na Sinfonia “1812” de Tchaikhovski.
E Hitler entrou pelo cano igualzinho.
Os alemães criaram a Operação Barbarossa em 1941, para rapidamente tomar a parte européia da União Soviética. Considerada a maior campanha militar da história, cerca de 4,5 milhões de soldados, 600.000 veículos (sendo 3.600 blindados), 4.300 aeronaves e 750.000 cavalos invadiram a União Soviética numa frente de 2.900 km.  Embora não tenham alcançado a conquista total do território, as tropas alemãs tomaram as áreas econômicas mais importantes, concentradas principalmente na Ucrânia. Em novembro de 1941, os alemães já dominavam uma área quatro vezes maior que a Grã-Bretanha. Cercaram Leningrado (atual São Petersburgo) e Moscou estava a apenas algumas semanas de marcha, quando os primeiros flocos de neve começaram a cair sobre a Wehrmacht, despreparada para o rigoroso inverno. Como os russos repetiram a dose (abandonaram as cidades, as casas e os campos, destruindo tudo para que os alemães não aproveitassem nada), os invasores encontraram as despensas vazias e a terra arrasada: tiveram que comer seus próprios cavalos.
Cerca de 250 mil soldados pereceram de fome, doenças e frio abaixo de dez graus negativos. As armas e veículos paravam de funcionar em temperaturas tão baixas. O “General Inverno” outra vez se impunha, como já havia feito com Napoleão. O fracasso da Operação Barbarossa influenciou decisivamente o curso da guerra: daí para a frente, o ditador perdeu a aura de gênio e passou a ser visto como louco, até mesmo pelos colaboradores mais próximos. Foi o começo do fim, como Napoleão.
Vejam vocês como faz falta um pouco de cultura, um item hoje tão raro... Se Hitler tivesse lido “Guerra e Paz”, estudado melhor História ou ouvido Tchaikhovski, talvez hoje estivéssemos fazendo “downloaden” de “dateien” para nosso “notizbuch”, para poder “lesen diesen text”. Não que em outra língua seja melhor ou pior, mas é estranho pensar nessa possibilidade.
E é exatamente este o mal de que padecemos, como Igreja, nesse início de século XXI. Velhas heresias e movimentos se infiltram pelas milhares de portas de igrejinhas e congregações país afora, travestidas de novas roupagens, cantadas por “levitas” modernos e profetizadas por “apóstolos” contemporâneos, no Facebook, no Youtube e no Twitter (ainda bem que o Orkut está na UTI, é menos um vetor de contaminação). Um dos mais notáveis e envolventes perigos em nossos dias é também um dos mais antigos: a heresia frígia, também conhecida por montanismo.
O Montanismo começou com um monge chamado Montano, por volta do ano 155 da era cristã, e se espalhou por comunidades cristãs na Ásia Menor, em Roma e no Norte da África. Por ter se originado na região da Frígia (hoje pertencente à Turquia), Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, chamava o movimento de “heresia frígia”. Citando outro escritor, Apolinário de Hierápolis, Eusébio diz que Montano afirmava possuir o dom da profecia, enviado para inaugurar a era do Paráclito (o Espírito Santo). Duas mulheres que o acompanhavam, Priscila (ou Prisca) e Maximila, afirmavam que o Espírito Santo falava através delas. Tanto Montano quanto Priscila e Maximila (mas nenhum outro) pretendiam ser a voz de Cristo e do Espírito Santo. Eles falavam, por isto, com “a autoridade do Espírito”, exigindo fé incondicional e absoluta obediência às suas ordens. Durante seus êxtases, anunciavam o fim iminente do mundo, conclamando os cristãos a reunirem-se na cidade de Pepusa, na Frígia, onde a Nova Jerusalém de Apocalipse 21:1-10 desceria do céu.
Um adepto famoso foi Tertuliano (c. 160-220), um dos primeiros “pais da igreja”, autor de inúmeras obras em defesa da Cristandade. Por volta do ano 210, tomou conhecimento do movimento e uniu-se a ele, pois viu ali elementos esquecidos da mensagem cristã primitiva, sobretudo a esperança escatológica. O montanismo era rigoroso, em vista da proximidade do momento final: pregava a castidade mesmo durante o casamento e proibia segundas núpcias. Determinava o jejum durante duas semanas por ano e só se podia comer alimentos secos; carne era proibida. Negava o perdão a pecados graves (mesmo após o batismo com confissão e arrependimento). As mulheres eram obrigadas a usar véu. Recomendava-se aos fiéis que não fugissem às perseguições e que se oferecessem voluntariamente ao martírio. Os montanistas viviam separados, denominando-se como “pneumáticos” (inspirados pelo sopro do Espírito), em oposição aos demais cristãos, considerados racionalistas. Talvez esse tenha sido o seu principal erro, pois na sua ênfase na revelação interior, Montano se dizia a encarnação do Espírito Santo, e chegava a batizar em nome “do Pai, do Filho e de Montano”. Com a pretensão de que nele falava o Paráclito, afirmava estar acima da própria autoridade das Sagradas Escrituras.
Favoreceu ao montanismo o esfriamento espiritual da época (por medo das perseguições ou por se haver enfraquecido a esperança do prometido retorno de Jesus), entorpecendo assim o fervor espiritual, ou seja, a consciência de se terem tornado fracos em relação à vida cristã dos primeiros tempos.
Os traços mais característicos são, antes de tudo, a glossolalia (ênfase nos dons espirituais, especialmente o falar línguas estranhas e o de profetizar) e uma linguagem espiritual tendente ao êxtase e ao entusiasmo. 
O conteúdo de sua profecia era o iminente fim do mundo. As guerras no reinado de Marco Aurélio (vistas no início do filme “Gladiador”, de Ridley Scott) eram interpretadas como sinais premonitórios.
No plano dogmático, entretanto, permaneceram ortodoxos. O movimento foi de restauração, até mesmo reacionário; não se interessava em questões teológicas, e era até certo ponto ingênuo. Apesar de combatido, sobreviveu até ao século VIII, e representou um protesto da Igreja - quando se aumenta a força da instituição, se diminui a dependência do Espírito de Deus.
Conquanto se possam ver nesse episódio algumas boas intenções - a ênfase na dependência do Espírito, dons espirituais, espera da redenção, ética rigorosa – é inegável que em pouco tempo algumas de suas características principais acabam levando ao erro e ao excesso.
Ênfase nos cultos “espirituais” ou “de poder”, onde se não houver pelo menos uma manifestação sobrenatural considera-se que Deus não está presente, pode ser um início de montanismo. Pois a ocorrência de fenômenos incomuns ou sobrenaturais não é garantia de que Deus esteja operando. Lembremo-nos de Elias na caverna: Deus não estava no estrépito do terremoto, nem na barulhenta ventania, nem no fogo, mas numa voz mansa e suave (I Reis cap. 19).
Chamar os outros irmãos, mais ortodoxos, de “geladeiras”, “sorveterianos” e “tradicionais”, na minha opinião, equivale ao orgulho do fariseu: “graças a Deus que não sou como esses aí” (Lucas 18:11, com alguma licença poética). Os montanistas se achavam mais próximos de Deus do que os outros cristãos, pois só eles tinham “o Espírito” e “a revelação profética”. Os outros não eram “avivados”.
Como Montano, alguns auto-denominados “apóstolos”, “bispos” e “patriarcas” da atualidade se acham os únicos autorizados a falar em nome de Deus, e não admitem ser repreendidos. Se até Pedro foi repreendido, “porque era repreensível” (Gálatas 2:11), quem essas semi-divindades de agora pensam que são?
Hoje, muitos afirmam que vivemos um “avivamento”, que a Igreja está “avivada”, com “sapatinhos de fogo”; que experimentamos um “novo tempo”, que acessamos o “novo de Deus” e que “o Brasil é do Senhor”. Mas no fundo sabemos que a Igreja brasileira carece de um verdadeiro avivamento, de santificação, mais evangelização e conversões genuínas; ardor espiritual e anelo sincero pela volta de Jesus. Coisas que não vemos há muito tempo. Desejamos tudo isso, mas não alcançaremos nada com reteté e “caindo no Espírito”. Os incrédulos não serão convencidos do pecado por um monte de gente falando línguas estranhas sem interpretação. Aliás, Paulo já nos alertava sobre isto em I Coríntios 14, especialmente nos vv. 23 e 24.
Tampouco vamos fazer a diferença em nossa geração marcando datas para o arrebatamento e para o fim do mundo, como Priscila e Maximila, Harold Camp, Valnice Milhomens e Neuza Itioka, dentre outros. Precisamos ficar atentos aos sinais dos tempos, mas daí a ver em cada nova tecnologia uma arma do Anticristo é cair em descrédito. Basta sabermos que o cenário está sendo preparado para o advento do Homem do Mal, e que estejamos alertas para não cairmos no sono, como as virgens de Mateus 25:1-13. Todo o mal que o Anticristo causar, atingirá apenas a quem for deixado para trás. E “daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai” (Mateus 24:36; Marcos 13:32).
Em nossos dias podemos observar que muitos líderes desencorajam o estudo sistemático da Teologia. Já ouvi de pastores um conselho que ficaria bem na boca de algum “papa” medieval, de que não se deve ler tanto a Bíblia. Já ouvi de meia-dúzia de pastores que não se deve estudar Teologia, “para não esfriar na fé”. Ora, então só tem “fé quente” quem não sabe nada da Trindade, não entende Escatologia, não sabe interpretar um texto bíblico corretamente? Quem não conhece a História da Igreja? Para assim poder cometer os mesmos erros uma vez mais? Ou para poder ser mais facilmente manipulado pelo “ungido do Senhor”?
Deus tenha misericórdia de nós, e não permita que, como Hitler, repitamos mesmos os erros do passado.

sábado, 9 de julho de 2011

Falsos profetas

O pastor Ricardo Gondim disse certa vez que a volta de Jesus é uma utopia (como você pode ver
aqui). Ele está num extremo, como alguns descrentes com os rumos da Humanidade, que perdem a esperança na redenção – não só a redenção da alma humana como na redenção da própria criação, conf. Romanos 8:19-22.
Na outra ponta estão os que se aventuram a calcular a data do retorno de Jesus, do arrebatamento e de outros acontecimentos previstos na Bíblia, e é desses que passamos a falar. Aliás, me arrisco a dizer que é por causa desses últimos que muitos dos primeiros se tornaram céticos.
Por exemplo: entre 1831 e 1844, William Miller, um pregador batista e ex-capitão do exército americano, lançou “o grande despertar do segundo advento”, baseado em seus estudos sobre Daniel 8:14 (“Ele me respondeu: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; então o santuário será purificado”), e calculou que Jesus retornaria em 22 de outubro de 1844. Pelo que percebo, ele fez a seguinte conta: deve ter tomado como base o ano em que Neemias recebeu permissão para reconstruir Jerusalém, presumindo que teria sido em 455 a.C. (na verdade, foi 445 a.C.), daí somou 2300 anos (assumindo que se trata de anos proféticos, como Daniel 9:25-27), e o resultado foi 1843 ou 1844, dependendo se incluiu o ano zero (entre 1 a.C. e 1 d.C.). Mas, quando Jesus não apareceu na data esperada, os seguidores de Miller experimentaram o que veio a se chamar “O Grande Desapontamento”.
Muitos caíram em profunda desilusão. Mas uns poucos se voltaram
para suas Bíblias e concluíram que a data de 22 de outubro era correta, mas que Miller tinha predito o evento errado. A profecia previa não o retorno de Jesus, mas sim “um ministério especial no céu para Seus seguidores”. Desse pequeno grupo que se recusou a desistir depois do grande desapontamento, surgiram vários líderes como Ellen White, apenas uma adolescente na época, mas que se tornou uma dotada escritora, oradora e administradora, e veio a ser a conselheira espiritual do que viria a ser a Igreja Adventista por mais de 70 anos até sua morte em 1915.Enquanto isso, Miller ia tentando estabelecer outras datas: 1847, 1850, 1852, 1854, 1855, 1863, 1877… Como se sabe, nenhuma previsão se confirmou.
Já Charles Russell afirmou que a volta de Jesus se daria em 1914. Mais tarde, adiou-a para 1918. Depois da sua morte, em 1916, seu sucessor, Joseph Rutherford, começou a proclamar que, segundo novos cálculos, a vinda de Cristo havia sido transferida para 1925… Nenhuma das predições se cumpriu, mas seus seguidores, intitulados “as testemunhas de Jeová”, temendo passar por mentirosas, resolveram voltar à primeira predição: Cristo teria voltado “em espírito”, em 1914, como Russell havia predito a princípio. Divulgaram que a I Guerra Mundial era o Apocalipse, mas como teve depois a Segunda, muito pior, disseram então que a Primeira tinha sido só "o princípio das dores"... e seguem remendando profecias até hoje.
Willian Branham, líder do Tabernáculo da Fé — o “Mensageiro do Apocalipse” —, garantiu que a volta do Senhor se daria em 1977. Pregava que seu ministério perduraria até este ano. Mas, para a frustração de seus fiéis seguidores, ele morreu em 1965, doze anos antes da data anunciada. Pelo menos escapou da vergonha de ter que dar explicações!
E. Edgar Whisenant previu que o arrebatamento da Igreja aconteceria em 12 de setembro de 1988. Seu livreto “Tempo Emprestado: 88 Razões Por Que o Arrebatamento se Dará em 1988” era baseado em cálculos matemáticos “precisos” e vendeu mais de 4 milhões de cópias. Seu sistema de cálculo era o seguinte: como Jesus iniciou Seu ministério terreno, segundo Whisenant, em 28 d.C., e o número 7 é o número da perfeição, e 280 é o número de dias de uma gestação, multiplicamos 280 x 7 e obtemos 1988, o dia em que se completará a gestação da Igreja de Cristo (não sei como ele conseguiu essa data, pois 280 x 7 = 1960; será que depois ele somou os primeiros 28 anos de Jesus antes de iniciar o ministério? Vai saber...). Em todo caso, esse era perfeito para uma instituição psiquiátrica, e como o arrebatamento não aconteceu, Whisenant sequer pediu desculpas, mas afirmou que se esquecera de um detalhe: fizera seus cálculos até o ano de 1988, enquanto Roma deixara de lado o ano zero. Houve, portanto, no primeiro século, apenas noventa e nove anos. E Jesus voltaria, então, em 30 de setembro de 1989! Não estou entendendo mais nada.
Bang-Ik Ha, um jovem profeta da Missão Mundial Taberah, tinha razões “mais convincentes” para afirmar que Jesus viria em outubro de 1992. Não chegara a essa conclusão apenas por meio de cálculos matemáticos. Ele mesmo fora ao céu várias vezes e recebera “diretamente de Deus” mensagens específicas sobre o futuro do planeta Terra. Vários panfletos alusivos ao acontecimento foram distribuídos pela missão, e a notícia espalhou-se pelo mundo. Até um livro, intitulado “O Último Plano de Deus”, foi publicado, com o intuito de provar “biblicamente” que a vinda de Jesus se daria na data mencionada. Esse é tão tosco que nem achei fotos pra mostrar.
Valnice Milhomens, auto-proclamada “apóstola”, profetizou que Jesus voltaria em um sábado de 2007, possivelmente 07/07/2007. Até onde se sabe, nada aconteceu nesse dia. Embora os argumentos sejam interessantes, nada aconteceu e a "apóstola" retirou o vídeo do Youtube.
Neuza Itioka também entrou na onda profética e arriscou seu palpite: após assistir a um filme na internet, ficou preocupada com o que seria a “Nova Ordem Mundial”, supostamente criada pelas 13 famílias mais ricas do mundo, a ordem dos Illuminatis, que estaria trabalhando junto à ONU para acelerar a vinda do Anticristo. Segundo ela, haveria tempos difíceis para os cristãos, até a volta de Jesus em 2017 ou 2018, quando Cristo inauguraria “seu reinado do milênio”. Ela também previu a eliminação de 90% da população mundial. Essa teoria se baseia numa “profecia” de um certo Rabino Ben Samuel, morto em 1217, que teria dito que 2017 seria um ano especial para Israel. Duvida? Veja aqui.
Harold Camp, depois de quebrar a cara em 1994, quando anunciou o arrebatamento para 6 de setembro, disse que Jesus voltaria em 21 de maio de 2011. Como a data passou e não houve nada, ele disse que o juízo teria acontecido no mundo espiritual, e que o pau ia quebrar mesmo em 21 de outubro. Mas, como vimos, ou melhor, não vimos, zero acontecimentos.
Na verdade, o próprio Senhor Jesus asseverou que “daquele dia e hora ninguém sabe” (Mateus 24:36). “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder” (Atos 1:7), afirmou ainda. É evidente que Ele, que é o Todo-Poderoso (Mateus 28:18; Apocalipse 1:8), sabe o dia e a hora de sua volta! Quem não o sabe somos nós. Paulo afirmou: “acerca dos tempos e das estações, não necessitais de que se vos escreva” (1 Tessalonicenses 5:1).
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