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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A bolha evangélica

De alguns anos para cá, ficou famosa a expressão “bolha econômica”, ou “bolha financeira”, e por analogia a “bolha imobiliária”. Pelo que me lembro, isto começou com a “bolha tecnológica”, em 2001, quando as empresas de tecnologia (as chamadas “ponto-com”) alcançaram grande valorização nas bolsas, particularmente na Nasdaq. Em dado momento, essas empresas foram reavaliadas e descobriu-se que não valiam tanto assim, iniciando uma quebradeira geral quando os investidores tentaram se livrar das ações. Diz-se que a bolha então estourou.
Mais recentemente, o mercado de imóveis dos EUA originou a “bolha imobiliária”. Os americanos investiram muito em imóveis, seja para vender e assim obter alto retorno financeiro ou para uso próprio. O negócio parecia bom: com a procura por imóveis, o mercado se aqueceu e pela lei de oferta e procura, aumentando a demanda, os preços também subiram. Com o preço lá no alto, multidões faziam hipotecas, isto é, pegavam dinheiro emprestado em bancos e outras instituições, por um valor superestimado, sendo a garantia do empréstimo o próprio imóvel. Para levantar o dinheiro para emprestar às pessoas, as empresas pegavam outro empréstimo junto a bancos e investidores.
Quando em 2006 os juros começaram a subir, por conta do excesso de dinheiro circulando, a classe média buscou outras aplicações e, pela mesma lei de oferta e procura, a menor demanda gerou queda nos preços dos imóveis. E assim começou um movimento inverso. Com a queda nos preços, as empresas de crédito passaram a enfrentar a inadimplência. E com a maior parte dos empréstimos concedidos ao segmento de baixa renda, o chamado mercado “subprime”, de maior risco, o calote se espalhou: as pessoas já tinham pego o dinheiro e preferiam entregar os imóveis, agora sub-valorizados, como garantia de um empréstimo que não iam pagar nunca. As empresas ficaram com milhares de imóveis encalhados, que ninguém mais queria nem podia comprar, o que, como se sabe, resultou na famosa crise do “subprime” de 2008. O mico atingiu em cheio as empresas de hipoteca, mas também os investidores que emprestaram a elas. Sem receber as prestações, a empresa não repõe a quantia ao investidor. Assim o investidor, para reduzir suas perdas, vende ações de outros negócios na bolsa para compensar o prejuízo. Se muitos investidores perdem dinheiro, logo todos estão vendendo suas ações, que inundam o mercado e se desvalorizam, e assim as bolsas despencam em massa.
Onde eu quero chegar com isso?  Esse não é um blog de Economia... calma que eu já chego lá. Pausa para respirar, e corta para outra notícia.
Uma pesquisa feita pelo IBGE concluiu que o número de evangélicos sem vínculos com igrejas cresceu 14% em 2009. Especialistas dizem que esses evangélicos que não seguem mais nenhuma denominação são muito parecidos com os “católicos não praticantes”, e cada vez mais evangélicos “fora da igreja” mostram seu descontentamento crescente com as instituições religiosas.
O pesquisador Ricardo Mariano, da PUC-RS, recorreu a uma expressão criada pela socióloga britânica Grace Davie para explicar o fenômeno: believing without belonging (crer sem pertencer). Ele disse que o evento pode não ter sido tão intenso como a pesquisa mostra e vai esperar a divulgação dos dados definitivos do Censo de 2010, mas que há uma tendência de se buscar autonomia em relação a igrejas que defendem valores extemporâneos e pagamento de dízimo, dentre outros. Ela chama esse comportamento de “desinstitucionalização”, que tem a ver com um individualismo cada vez mais forte.
De fato, não dá mais para agüentar a mesma ladainha, as mesmas palavras vazias, as mesmas filosofias, a mesma falta de entendimento... a não-transformação, a religiosidade morna. E some-se a isso - na minha percepção, o fator maior para o esvaziamento dos templos - a eterna pedição de dinheiro, cada vez mais ostensiva e menos produtiva para o Reino, a não ser o reinozinho particular de meia dúzia de iluminados. Talvez essa seja a razão de cada vez mais pessoas optarem por seguir a Cristo e não uma denominação.
Sobre a porcentagem de seguidores, a pesquisa mostra que a “igreja” Universal apresentou uma queda de 24% em seus quadros. Segundo o jornal, isso ocorre por causa de “igrejas dissidentes”, mas ainda é preciso aguardar a atualização do Censo para confirmar a queda.
Só pode ser  porque o chamado evangelicalismo (termo que eu não gosto muito, mas pelo menos serve para diferenciar do protestantismo histórico, bíblico e evangélico) deve ter chegado ao seu limite. O surgimento de inúmeras “denominações” – se é que podemos dar esse nome a igrejolas de esquina, lojas ao rés do chão e velhos cinemas alugados, onde não raro se coloca a placa “ministério do pastor fulano” ou “comunidade disso ou daquilo” na porta do galpão – principalmente de cores neo-pentecostais, frutos de revelações particulares e visões personalistas, sustentadas com muita corrente e campanha, muita semeadura e ofertas de sacrifício, tudo isso aponta claramente para a exaustão do modelo.
A bolha evangélica estourou: as pessoas avaliaram o que está sendo oferecido na praça e perceberam que tantas igrejas, congregações, ministérios, visões e comunidades, de baixa densidade teológica, rarefeitas biblicamente, e ao mesmo tempo impregnadas de misticismo, superstições, simpatias e religiosidade barata, saturaram o mercado. Mesmo segmentos com baixa escolaridade e limitação cognitiva percebem, com o tempo, que aquilo não leva a nada, e que não há mais espaço para esse tipo de fé pequena, de rodapé, de catarse coletiva, baseada em lavagem cerebral, em “siga seu líder sem questionar”. Fato é que a própria IURD, a referência do mercado em termos de fetichismo evangélico, está perdendo audiência a rodo. É como os imóveis dos americanos: não têm valor, ninguém mais dá um tostão furado por eles. Nem por essas doutrinas de demônios com que muitas “igrejas” vêm salpicando seus féis.
As pessoas estão vendo que atos proféticos, “reteté”, novenas evangélicas sob o nome de “campanhas de oração”, retiros, encontros, pré-encontros, pós-encontros, re-encontros, desencontros, clínicas espirituais, conferência profética com a participação do “apóstolo fulano”, do “patriarca beltrano” e do “bispo cicrano”, mediante um “pequeno valor de inscrição”, com direito a cd do cantor “mequetrefe de jesus”, lambuzamento com óleo de soja dizendo que é unção disso e daquilo outro, tudo regado a toque de shofar na sua orelha... estão todos vendo que tudo isso é uma tremenda enrolação: é apenas marketing. Não adianta mais dourar a pílula, fazendo congresso de adoração com a banda “debaixo do altar”, “vizinhos do noivo”, “casa de levi” ou “leão da montanha”; nem ainda cruzeiro em alto mar para ungir as praias, rodeio gospel para destronar o bicho-carpinteiro, ou viagem profética a Israel. Aliás, tudo agora é “profético”: dança profética, adoração profética, ato profético, palavra profética... “Profético” é igual bacon, se a coisa tá sem graça, coloque bacon profético na parada, fica uma beleza. Semana que vem vocês vão ver mais um churrasco de vaca sagrada com bacon profético em cima. Enquanto isso, tome campanha para espantar o devorador, o migrador, o picador, o moedor, o ralador e o espremedor.
Até na área de Missões a coisa desgringolou: tá cheio de espertinho pedindo dinheiro para fazer missões em Londres, Barcelona, Roma e Nova York; mas ninguém foi chamado para o Sudão, o Vale do Jequitinhonha ou para a Coréia do Norte. Quero ver esses folgados evangelizando em Aparecida ou Juazeiro do Norte, dizendo em alto e bom som o que é a idolatria. Que missa de sétimo dia não leva ninguém para o céu, que Maria não salva ninguém, que o purgatório é uma balela.
Vai lá, “missionário”. Eu pago sua passagem (de ônibus, lógico). Quero ver.
A fórmula se esgotou.
Já falei sobre isso também aqui e aqui. Chega de picaretagem! Aí está a pesquisa para confirmar essa constatação – ninguém, em sã consciência, agüenta mais. E não adianta alguns idiotas questionarem a enquete, como sempre fazem, por exemplo, perto das eleições. Desconhecem a metodologia, a estatística, e vêm com argumentos do tipo: “nunca me entrevistaram”, “não conheço ninguém que foi pesquisado” e por aí vai. Ignoram o que seja projeção da amostra e margem de erro. Então nem discuto com esses “intelejumentos”.
Churchill disse certa vez que é possível enganar a todos durante todo o tempo, e a alguns durante todo o tempo, mas não é possível enganar a todos durante todo o tempo.
As pessoas estão redescobrindo o que é se reunir em casas, com liberdade para adorar, para estudar a Palavra, para se manifestar e, se for o caso, discordar e debater até chegar ao pleno entendimento da Palavra. E isto não tem nada a ver com rebeldia, insubmissão ou dificuldade de relacionamento, problema com autoridade, nada disso. Trata-se de descobrir a completa inutilidade de templos, sacerdotes profissionais, levitas para conduzir a música, dízimos, estruturas dispendiosas e toda uma classe de aproveitadores que fazem da religião um meio de vida.
Meu amigo Ciro Cormack me mandou uma frase outro dia. “No início, a Igreja era um grupo centrado no Cristo vivo. Então, a Igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia. Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, a toda a Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América, onde tornou-se um negócio...” (pastor americano Richard C. Halverson, 1916-1995). Eu gostaria de estender mais um pouco esse pensamento e perguntar no quê a Igreja se tornou ao chegar ao Brasil.
Que Deus continue a dar entendimento e direção a todos aqueles que perceberem o quanto têm sido enganados, explorados e usados por lobos em pele de cordeiro. Que aos poucos estão perdendo seus lucrativos empregos, antes tarde do que nunca.
E, para não perder o costume... doa a quem doer!
94230

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