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terça-feira, 3 de setembro de 2013

A lei da semeadura

Esta é a última da série de cinco sobre dinheiro e ofertas (espero).
Existe uma doutrina que ganha corpo no meio evangélico, chamada o “princípio da semeadura”, ou “da multiplicação”. Ela diz que quanto mais darmos em ofertas e dízimos, mais receberemos de volta. A passagem de II Coríntios 9:6 é a pedra fundamental do “princípio da semeadura”: “Mas digo isto: Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele que semeia em abundância, em abundância também ceifará”, e também Gálatas 6:7 (“pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará”). Citam Malaquias 3:10-11 (“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro ...  e depois fazei prova de mim ... se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança... reprovarei o devorador...”) sem a menor conexão com o tema, como a parábola do semeador (em que uma parte da semente frutifica a “cem por um”).
Há de fato um ensino sobre o que é semeado e o que é ceifado. O problema é quando o aplicam à “teologia da prosperidade”: quem dá mais dízimos e ofertas recebe mais bênção. É esta uma leitura válida? O que é chamado pelos pastores modernos de “lei da semeadura” é doutrina bíblica ou uma interpretação forçada, para iludir os pobres de conhecimento?
Na carta que escreveu aos crentes de Corinto, Paulo cita a semeadura e a colheita para mostrar que aquilo que é doado nunca se perde, tendo em mente uma coleta que se faria para ajudar os cristãos que passavam necessidades. No capítulo 8 ele explica: “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus que foi dada às igrejas da Macedônia; como, em muita prova de tribulação, a abundância do seu gozo e sua profunda pobreza abundaram em riquezas da sua generosidade” (II Coríntios 8:1, 2).
Qual é a graça de Deus que foi dada às igrejas da Macedônia? A generosidade. Eles eram pobres, mas mesmo assim generosos. Esta foi a graça dada por Deus a eles. Esta generosidade não era para com a igreja local ou para os desígnios particulares dos seus pastores. A generosidade é para com os santos (v. 4): “o privilégio de participarem deste serviço a favor dos santos”.
Quem são esses “santos”? Os irmãos pobres em Jerusalém, como vemos em Romanos 15:25-28 – “Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos. Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia [região da Grécia onde ficava a cidade de Corinto] levantar uma oferta fraternal para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém. Isto pois lhes pareceu bem, como devedores que são para com eles. Porque, se os gentios foram participantes das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir a estes com as materiais. Tendo, pois, concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha”.
Assim, Paulo comenta com os coríntios como eles eram generosos pela graça de Deus, e como eram ricos em tudo: (v. 7) “Ora, assim como abundais em tudo: em fé, em palavra, em ciência, em todo o zelo, no vosso amor para conosco, vede que também nesta graça abundeis”. Vemos que essa “abundância” e “riqueza” não estão ligadas a bens materiais. De fato, Paulo aqui emprega os termos “rico” e “pobre” para falar da glória e humilhação de Cristo, bem como nossa Salvação (v. 8-12).
Paulo diz para contribuírem segundo o que possuem. Ninguém é constrangido a dar mais do que puder! Isso explica o que ele diz à frente sobre “semear” e “colher” (v. 13-15): “Pois digo isto não para que haja alívio para outros e aperto para vós, mas para que haja igualdade, suprindo, neste tempo presente, na vossa abundância a falta dos outros, para que também a abundância deles venha a suprir a vossa falta, e assim haja igualdade; como está escrito: Ao que muito colheu, não sobrou; e ao que pouco colheu, não faltou”.
A oferta deve ser de modo que não haja prejuízo para ninguém. Não deve beneficiar apenas uma pessoa ou um grupo reduzido. Ninguém deve ofertar aos outros para ficar apertado. Se isto fosse praticado hoje, não significaria que a igreja também é responsável em partilhar seus bens com os membros mais pobres? O pastor que vive promovendo festas em sua luxuosa cobertura, jantares caros com políticos corruptos, compra carro do ano e até jatinhos, não deveria antes buscar a igualdade entre seus membros?
No cap. 9:7, Paulo exorta os coríntios a contribuírem sem tristeza ou constrangimento. Tristeza, por que quem contribui pode pensar que nunca mais verá o dinheiro. Quanto a isto, Calvino explica:
“Ele agora recomenda a assistência caridosa, usando uma bela comparação em que a vincula à semeadura. Pois, na semeadura, a semente é lançada pela mão, espalhada aqui e ali, sobre o solo; é sepultada e, por fim, apodrece; de tal modo que, aparentemente, quase nem existe. Dá-se o mesmo com o donativo: o que sai de nós para alguém, parece diminuir o que possuímos, mas o tempo da ceifa virá, quando os frutos aparecerão e serão recolhidos. Pois o Senhor considera o que é doado aos pobres como sendo doado a Ele mesmo, e um dia recompensará o doador com juros fartos [Provérbios 19:17]. Focalizaremos agora a comparação de Paulo. Ele diz que o homem que é frugal em sua semeadura terá uma colheita tão escassa quanto sua semeadura; mas o homem que semeia generosamente e com as mãos abertas fará, igualmente, uma colheita generosa. Que esta doutrina seja solidamente radicada em nossa mente, a saber: sempre que a prudência carnal nos impedir de fazer o bem por receio de perdermos algo, tenhamos prontamente condições de resistir a tais impulsos, movidos pela lembrança da declaração do Senhor de que, ao fazermos o bem, estamos semeando. É preciso entender esta colheita, seja em termos de recompensa espiritual de vida eterna ou como uma referência às bênçãos terrenas com as quais o Senhor agracia o benfeitor. Pois o Senhor requer esta beneficência da parte dos crentes não só no céu, mas também neste mundo. É como se Paulo quisesse dizer: “Quanto mais liberais venhais a ser para com vosso semelhante, possuireis muito mais ricamente a bênção que Deus derrama sobre vós”. Aqui, novamente, ele usa o termo bênção como oposto de frugal, assim como um pouco antes ele o contrasta com avareza. Tudo indica que a palavra é aqui usada no sentido de liberalidade ampla e abundante”.(João CalvinoComentário de II Coríntios, Ed. Fiel, pg 231-232).
Continuando, v. 10 = “Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para comer, também multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça”. Deus é o provedor de tudo; o Homem, mesmo quando faz uma oferta, não dá do que é propriamente seu, e sim daquilo que Deus lhe tem dado (veja Atos 17:25). E para que serve esta semente que Deus nos dá? Para sustentar ministérios milionários de tele-pastores que cada vez mais ficam ricos? para esbanjar “prosperidade”, em troca de uma suposta benção financeira sobrenatural? Não!
Deus promete suprir o ofertante para que ele não passe necessidade. No entanto, quando o apóstolo fala de multiplicar as sementes, estaria ele falando que o ofertante seria próspero materialmente? Afinal de contas, é isto que pastores modernos dão a entender com sua “lei da multiplicação”. O apóstolo até fala de enriquecimento: (v. 11) “enquanto em tudo enriqueceis para toda a liberalidade, a qual por nós reverte em ações de graças a Deus”.
A semente que provém de Deus é para ajudar os pobres da igreja, para que todos sejam abençoados e Deus seja glorificado! Veja o contexto direto no versículo 9: “Como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre”, uma citação que Paulo faz de Salmos 112:9, para mostrar que a generosidade a quem precisa é característica de todo cristão. Deus abençoa a nossa vida para “aumentar os frutos da nossa justiça” (9:10), para “toda a generosidade” (v. 11) e para “suprir as necessidades dos santos” (9: 12). Ou seja, Deus pode, segundo a vontade Dele, prover em nossas vidas quando ajudamos os pobres da Igreja, principalmente para aumentar a possibilidade desta ajuda continuar cada vez mais: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (I João 3.16-17).
II Coríntios mostra que, quando Deus nos dá uma provisão financeira, mesmo com sobras, não é para o proveito próprio, e sim para ser usada em generosidade aos necessitados, para a glória de Deus. O versículo 9:11 é claro quando afirma “…para toda a beneficência”, “para toda generosidade”. Veja como viviam os convertidos naquela época: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade (At 2.44-45). Este conceito de abundância financeira é, de fato, o mais claro sinal de avareza na vida de alguém: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Mateus 12:15).
Se a “lei da semeadura financeira” funcionasse como se afirma, porque existem cristãos pobres que precisam de ajuda? Falta de fé para “semear” o que não têm? Porque então Paulo organizou esta coleta para os pobres, ao invés de lhes propor um “desafio” para que eles fossem abençoados com a “lei da semeadura”? O próprio Paulo passou necessidades (Filipenses 4:10-20, II Coríntios 11:27). Estaria ele em contradição consigo próprio?
Porque Jesus se fez pobre durante seu ministério na terra (II Coríntios 8:9), não tendo sequer onde reclinar a cabeça (Mateus 8:20)? Porque Jesus disse que dificilmente entraria um rico no reino dos Céus (Mateus 19:23-24), e ainda que não ajuntássemos tesouros na terra (Mateus 6:19-24)?
A igreja está preocupada em exortar aqueles que têm em abundância a compartilhar com os irmãos mais pobres? Não sei, mas é fato que as igrejas arrecadam mais de R$20 bilhões por ano no Brasil. Se o patrimônio da igreja tem sobras maiores que os bens de alguns membros, ela se dispõe livremente e de puro amor a compartilhar o seu excesso de arrecadação para que todos tenham igualdade de condições? Será que as ofertas e desafios financeiros que os tele-pastores fazem em seus programas são destinados aos pobres da Igreja? Não, pois eles categoricamente afirmam qual é o destino do dinheiro doado em suas coletas: sustentar os programas de TV (valores milionários), viagens nacionais e internacionais, mega-cruzadas caríssimas, jatinho particular etc. Posso estar errado, mas eu nunca vi um desafio financeiro para ajudar os pobres da igreja. A Igreja não deveria manter somente aquilo que ela precisa, compartilhando o resto com os irmãos? Não deveria ela confiar que Deus lhe suprirá toda e qualquer necessidade?

(fonte 1) (fonte 2) (fonte 3

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Oferta de primícias? parem com isso!


Antes de se escandalizar com a montagem acima, pare e pense no absurdo da cena. Fiz isso para que você pense se não é o que estão fazendo com o Evangelho hoje em dia. Pense por um instante se Jesus e os apóstolos (os de verdade, não esses “ching-ling de hoje) fariam se naqueles tempos tivessem a mentalidade de alguns picaretas da atualidade. Provavelmente o que vemos na montagem acima. Não penso em outra coisa quando me deparo com quem defende ofertas alçadas e de primícias para a Igreja hoje em dia.
Além dos textos de que falei no artigo anterior, há ainda outro utilizado para afirmar que as primícias devem ser usufruídas pelo pastor, que está em Ezequiel 44:30 – “Igualmente as primícias de todos os primeiros frutos de tudo, e toda oblação de tudo, de todas as vossas oblações, serão para os sacerdotes; também as primeiras das vossas massas dareis ao sacerdote, para fazer repousar uma bênção sobre a vossa casa”. Isso não era nada novo, pois em Levítico 23:10 já existia essa ordem (“Quando houverdes entrado na terra que eu vos dou, e segardes a sua sega, então trareis ao sacerdote um molho das primícias da vossa sega”).
Ezequiel teve um importante papel nas reformas de Israel após a queda de Jerusalém, em 587 a.C. Lutou com todas as suas forças para reconstruir o judaísmo, ensinando o povo a adorar a Deus da forma correta, para que o mal não voltasse a assolá-los. Ele não criou regras para os israelitas mas sim as recuperou, pois foram “esquecidas” com o tempo. Mas daí a afirmar que os líderes religiosos atuais são esses sacerdotes é inaceitável! Se lermos I Pedro 2:9, veremos que todos nós somos sacerdotes (segundo a ordem de Melquisedeque, e não de Levi, como ocorria com os israelitas) e Cristo é o sumo sacerdote (Hebreus 6:20). De mais a mais, assumir que os pastores de hoje são sucessores dos sacerdotes judeus significa aceitar que a repreensão de Malaquias 3:8-10 (ladrões) é para esses pastores (Malaquias 1:6 e 2:1). 
Talvez você concorde que as primícias não são para os pastores ou afins, mas esteja ainda com uma dúvida: Então são ofertas destinadas ao templo? Para esclarecermos, vejamos o contexto histórico e social do povo hebreu.
Havia sete festas anuais: a Páscoa (Pesach), que compreendia a festa dos pães ázimos, a Páscoa propriamente dita e a festa das primícias; a festa de Pentecostes (Shavuot); e a festa dos Tabernáculos (Succot), que compreendia a festa das Trombetas, o dia da Expiação (Yom Kippur) e Tabernáculos propriamente dita.  Em cada uma, algo era oferecido a Deus, com um determinado objetivo (o sacrifício de um animal, para purificação; a entrega de cereais, como agradecimento pela colheita etc.). Assim, fica fácil entender que essas festas faziam parte da cultura do povo hebreu e por isso, tinham tanto destaque. 
Particularmente, como não sou judeu, não tenho que comemorar nenhuma dessas festas, embora entenda o seu significado histórico/cultural e até mesmo o sentido profético delas, que apontam para a vida e obra do Messias (estudaremos isso mais adiante, se Deus permitir). Mas muitos pseudo-cristãos insistem em pedir “oferta de primícias” em dinheiro, citando – como sempre – vários trechos do Antigo Testamento, retirados do contexto puramente hebreu.
Na sua fome por dinheiro, certos líderes inventam de citar Gênesis 4:3,4, com a seguinte justificativa:Deus não teria recebido a oferta de Caim por não ser a primeira parte  [primícias] dos frutos”. Ora, a Bíblia não relata o motivo da rejeição da oferta de Caim, o que dá margem para inúmeras interpretações. Obviamente, não faltaria a opinião de que a oferta foi rejeitada por não ser o primeiro fruto da terra. Porém não é o que o texto diz. Pelo contrário, a palavra “também” (“Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas”) sugere que ambos ofertaram as primícias do que produziram. Sendo assim, o motivo da não aceitação da oferta deve ter sido outro. Em I João 3:11,12 lemos: [Caim]...era do maligno”, e ainda: “as suas obras eram más”. Aqui temos uma “dica” importante: Caim tinha um coração corrompido, mau, e isso refletia em suas obras. Como Deus aceitaria uma oferta de alguém nessa situação? De qualquer forma, pelo fato de estarmos na Graça, essa discussão não é relevante para o nosso assunto.
Também tentam usar Êxodo 23:19, “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa o SENHOR teu Deus...” e o já citado Provérbios 3:9,10, “Honra ao SENHOR com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos; e se encherão os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares”. Mas o fato é que ambas as passagens se referem, sem a menor sombra de dúvida, ao contexto dos hebreus, dos judeus, dos filhos de Israel. Nós, cristãos, estamos debaixo da Nova Aliança, e não estamos sujeitos à Lei, portanto esses textos jamais devem ser usados para nortear nossas ações. 
Na Lei havia promessas materiais; na Graça há promessas espirituais. Por isso a referência constante às janelas do céu (chuva para a colheita), aos gafanhotos devoradores (pragas naturais) etc. Porém, quem insiste que o Velho Testamento se aplica à Igreja, por que ignora os demais versículos? Leiamos também o versículo que antecede Êxodo 23:18, o já citado “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa o SENHOR teu Deus”; leiamos o verso 18 de Êxodo 23 para verificar o contexto: “Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem ficará da noite para a manhã a gordura da minha festa”. Algum pastor faz isso? Alguma igreja pratica isso? Portanto, só podem exigir primícias se também voltarem a oferecer sacrifícios de animais, com derramamento de sangue e pão levedado, e guardar o sábado, por exemplo. por que pegar só uma parte do mandamento sobre ofertas?
No período da lei mosaica (e até mesmo antes dela, como fez Abel), a consagração da primeira parte da produção a Deus era uma forma de reconhecer que Ele era o que tinham de mais precioso na vida. Era um exercício de fé - o que fez Abel - e ao mesmo tempo, um “lembrete” a um povo de coração duro: que Deus deve estar sempre em primeiro lugar. Quando Jesus veio ao mundo, deixou esse mesmo ensino (Mateus 6:33), porém, a diferença foi que jamais instituiu uma regra ou um rito para que provássemos isso. O “amar a Deus sobre todas as coisas” está baseado não na Lei (repleta de cerimônias), mas na Graça, que ensina obediência e entrega de frutos espirituais. 
Provérbios 3:9,10 ilustra bem a crença dos hebreus: ao santificarem ao Senhor as primícias, o restante da produção também ficaria santificada. Assim, a benção de Deus seria abundante entre eles. Há inúmeros outros textos que falam das primícias, porém, todos destinados aos israelitas: Neemias 10:34,35 e 13:31; II Crônicas 31:5; Números 15:17-21 e 18:12; Deuteronômio 18:3-5 e 26:10; etc.
Mas muitos pastores afirmam: “as primícias existem também no Novo Testamento, logo, é nosso dever entregá-las”. E citam Romanos 8:23, “E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. Mas penso que só pode ser uma “pegadinha” alguém associar as primícias do Novo Testamento àquela oferta da Antiga Aliança. Só podem estar de brincadeira; o texto é muito claro. São primícias do Espírito! É como se essas primícias fossem uma “palhinha”, uma amostra de toda a Glória que nos espera, citada no versículo 18 (“Pois tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada”).
Também gostam de Romanos 11:16, “E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa, também os ramos o são”. Aqui, novamente, não tem nada a ver com ofertas. Chegam ao absurdo de dizer que a oferta de primícia serve para “santificar o dízimo” (veja aqui se estou exagerando). Pelo contrário, o ensino de Paulo (em linguagem metafórica) envolve a salvação. Paulo diz que se os judeus, de início (representados pelas primícias, a matéria-prima), eram santos, também o serão os gentios que crerem (a massa pronta). Há ainda outra comparação, feita pelo apóstolo: os judeus seriam uma oliveira cultivada, que teria ramos tirados (os incrédulos); os gentios seriam uma oliveira silvestre (“brava”), mas enxertada na oliveira boa. Com isso, Paulo passou duas mensagens principais:
1 - Aqueles que aceitassem a mensagem de Jesus posteriormente (gentios) seriam tão santos quanto os que deram ouvidos a essa mensagem muito tempo antes (judeus convertidos);
- Os gentios que aceitaram o Evangelho não deveriam vangloriar-se e acharem-se melhores do que os judeus incrédulos, pois o que determinou a salvação deles foi a fé e não méritos pessoais (o “ser judeu” versus ser justo, seguir Cristo, ser fiel etc.).  Outros textos, como I Coríntios 15:20 e Tiago 1:18, dispensam comentários, pois o significado de “primícias” é bem claro e nada tem a ver com ofertas. 
Negar-se a aceitar o dízimo e a oferta de primícias não é ser “mão de vaca”; é lutar pelo verdadeiro Evangelho, puro e simples. Alguns dizem que o motivo de alguns não concordarem com isso é o amor ao dinheiro, mas é justamente o contrário: quem cobra é que tem amor ao dinheiro! Se fossem pregados os ensinos de Jesus e dos apóstolos, as pessoas teriam convicção de sua fé, veriam que não há ganância por parte das igrejas e dariam suas ofertas com amor. Afinal, Deus jamais deixaria Sua obra perecer sem recursos. Devemos dar ofertas porque recebemos e nunca para recebermos (“princípio da semeadura”)!
Por que não entregamos as primícias dos frutos do espírito (citados em Gálatas 5:22) ao Senhor? Ou melhor, porque não dedicamos a totalidade desses frutos a Ele? Esse seria, com certeza, um ato louvável e que estaria de acordo com a Palavra de Deus. Ou somos judeus ou somos cristãos! Aceitar a Cristo e ficar preso à Lei não é o que o apóstolo Paulo nos ensinou. 
Alguns alegam que as ofertas voluntárias (essas sim têm apoio no Evangelho) são insuficientes para a manutenção do templo, para as atividades que a igreja mantém e para o sustento dos obreiros. Assim, jamais poderiam ensinar que o dízimo não é válido na atualidade (mesmo com todas as evidências) ou que não existe mais oferta de primícias. Ao contrário, insistem que devemos contribuir com a maior quantidade possível de dinheiro (e até impossível, como ocorre nos famigerados desafios), enchendo todos os envelopes que entregam (cada dia é uma oferta diferente, é primícia, é alçada, é de talento, de príncipe, “oferta teryman, de gratidão, etc.). Dessa forma, dizem, receberemos muito mais de Deus. Muitos rebaixam o Evangelho a isso, o que é lamentável, e inúmeras almas deixam de seguir a Cristo por causa desse “cristianismo às avessas”.
Apoio a idéia de que seja reduzido o tempo dos programas na TV (afinal, a maior parte deles é para pedir dinheiro ou para enrolar o povo, passando a mensagem que o indivíduo daquela igreja tem bom emprego, não tem problemas, recebe curas... e do que Jesus mandou pregar, nada!).  Vejam que as igrejas no Brasil já arrecadam mais de R$ 20 bilhões por ano, quase o que foi gasto com estádios e outras obras da Copa, tão criticados inclusive por muitos pastores! Por que não dão um exemplo à nação e usam essa grana toda para construir os tão desejados hospitais? Ou escolas, já que reclamam tanto da situação da Educação no País... ou para caridade, já que tanta gente se diz contra as bolsas e auxílios do Governo aos mais pobres... São R$ 20 bilhões! Penso que devemos parar de construir templos luxuosos, e também que não sejam pagas fortunas a cantores e para pregadores, e também que o salário dos pastores não esteja na casa de dezenas de salários mínimos. Posso garantir que, se fizermos isso, as ofertas espontâneas dos fiéis serão suficientes para a propagação do Evangelho, e melhor ainda: deixaremos de transgredir vários ensinos bíblicos.

Referências:
COLEMAN, WILLIAM L. Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos. Editora Betânia, 1ª Edição, 1991.
Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis
Doutrina da Oferta de Primícias – Debate 93 FM
http://theologizando.blogspot.com/2009/08/dizimos-ofertas-e-primicias-sao-para.html

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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ofertas alçadas e primícias

Isto é para a Igreja?
Eu achava bacana bandeiras de vários países penduradas algumas igrejas, como uma alusão a missões e o cumprimento do “Ide” (Marcos 16:15). Algumas têm só a bandeira de Israel, às vezes ao lado da do Brasil. A bandeira talvez represente amor e reverência à nação escolhida por Deus para, por meio dela, trazer a salvação à Humanidade; quem sabe até uma espécie de “troca” com Deus, pois Ele disse a Abraão: “Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar” (Gênesis 12:3); então é bom negócio estar do lado de Israel, pensam. Só depois percebi a “judaização” que vem tomando conta do cristianismo evangélico tupiniquim, e até já escrevi algo sobre isso. Há controvérsias... mas é fato que muitos acabam retrocedendo na fé, ao adotar práticas judaicas (muitas delas, não nem mesmo os judeus atuais seguem). E isto vai além do uso dos elementos judaicos no culto. Engraçado é que tem alguns que até pretendem denunciar a “judaização evangélica”, mas seguem aceitando dízimo do povo...
Já falamos muito sobre o dízimo, uma prática que – doa a quem doer – pertence à lei mosaica. Mas existem também uns caras-de-pau que pedem ofertas “de primícias”, “alçadas” e outras, todas retiradas adivinha de onde? Acertou, da lei mosaica. Alguns são tão “espertos” que procuram confundir o povo, dizendo, por exemplo, que Isaque era as primícias de Abraão e que o patriarca o ofereceu a Deus (veja ao lado)... nada mais absurdo. Para começar, o primeiro filho de Abraão era Ismael, e não Isaque, e depois que essa história nada tem aver com oferta de primícias, que só veio com a Lei séculos depois. Então vejamos se essa é apenas mais uma das doutrinas dos “comerciantes da fé” ou se é, de fato, uma prática legítima da Igreja.
“Primícias” tem um significado de “princípio” ou de “parte inicial” de algo. O que é pregado hoje é que Deus exige as primícias de nossos bens materiais. A tática para arrancar dinheiro é diferente de quando o tema é o dízimo. Aqui não se lê Malaquias 3:8-10. Não.
Uma das bases para essa doutrina é que, através das primícias, o discípulo honra o líder e ganha o respeito de Deus, uma vez que está “liberando o sacerdote” para cuidar das coisas de Deus, sem se preocupar com coisas “elementares”, como seu sustento e o de sua família. Usam Ezequiel 44:30: “E as primícias de todos os primeiros frutos de tudo, e toda a oblação de tudo, de todas as vossas oblações, serão dos sacerdotes; também as primeiras das vossas massas dareis ao sacerdote, para que faça repousar a bênção sobre a tua casa”. Ora, se verificarmos direitinho, vemos que os sacerdotes eram figuras de Cristo, mas hoje nós temos um único sacerdote no sentido original do termo, que é Jesus (Hebreus 5:6; e os caps. 7 e 8). Assim, se há alguém ainda digno de receber as primícias, este se chama Jesus Cristo.
Pedro afirma: “sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (I Pedro 2:9). Tudo em nós pertence a Ele, pois somos sua propriedade exclusiva. Também somos todos sacerdotes e não há qualquer menção que indique entrega de primícias de um sacerdote a outro.
Jesus modificou a vida religiosa do Antigo Testamento quando afirmou: “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo. Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo. Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mateus 23:8-12). E “chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:26-28).
Dessa forma, somos todos sacerdotes e irmãos, nosso Mestre, nosso Guia e nosso Senhor é um só, Jesus Cristo, e somente Ele é digno de ser honrado, não apenas com primícias, mas com tudo o que temos e somos eternamente. Nada de “honrar o líder com primícias”!
No “culto das primícias”, usam Provérbios 3:9,10 para incentivar os fiéis a “abrirem o bolso”. A idéia é que se deve entregar o equivalente a um dia de trabalho, ou seja, quem ganha R$ 1.000 por mês, leva cerca de R$ 33, dinheiro que em alguns lugares é dado para o pastor. O argumento é que devemos repartir nossos bens com aquele que nos instrui (Gálatas 6:6). 
O resultado disso? Enriquecimento dos líderes e uma busca desenfreada de se tornar líder também e ter o direito de ser “honrado com primícias”.
No dicionário, “repartir” é: “fazer em partes, dando a cada pessoa o que, por direito ou justiça, lhe pertence”. Pois bem, imagine uma igreja com 500 pessoas que recebem na média R$ 1.000 ao mês. Se cada uma der R$ 33 (o valor das “primícias”), o pastor ficará com R$ 16.500, enquanto os fiéis teriam que sobreviver com R$ 967 (sem contar os dízimos e as “N” ofertas pedidas). 
Mas o “repartir” ensinado por Paulo tinha outros objetivos: para que ninguém tivesse necessidade de nada (Atos 11:29; 24:17 e Romanos 15:26); e que os irmãos vivessem em igualdade. Na igreja hipotética do parágrafo anterior, se cada um contribuir com R$ 5 para o sustento de seu líder religioso (o que não faria falta a ninguém), haverá um pagamento digno a ele (estando de acordo com I Timóteo 5:17-18).
E a “dupla honra”, citada na carta a Timóteo, é um reconhecimento por parte dos irmãos e não uma imposição. Se foi Deus quem colocou uma pessoa para trabalhar em Sua obra, não tem por que esse indivíduo temer ou cobrar o seu sustento, pois o Senhor sempre cuida dos Seus. Porém, se está à frente de um rebanho devido à amizade ou parentesco com este ou aquele, terá que tomar cuidado para não passar fome mesmo, pois Deus não trabalha dessa forma.
E oferta alçada? Dizem por aí que além do dízimo devemos dar também “ofertas alçadas”, que seriam “mais valiosas” que o dízimo, pois “alçada” significa “mais alta”, “mais importante”, “mais significativa”.  Nada mais longe da verdade.
“Oferta alçada”, para começo de conversa, podia ser a parte de um animal sacrificado, no contexto dos rituais e cerimônias da lei. Números 29 fala que na Festa dos Tabernáculos, parte dos sacrifícios era para os sacerdotes, como “oferta alçada” (v. 27-28). Fica aqui então a idéia de, quando o pastor pedir sua “oferta alçada” ou de primícias, você pode trazer para ele o peito de uma novilha ou uma coxa de carneiro; assim estará seguindo à risca o mandamento. Mas só se você for judeu e seu pastor descendente da tribo de Levi, senão é abominação ao Senhor.
Em Números 18:26 lemos: Disse mais o Senhor a Moisés: Também falarás aos levitas, e lhes dirás: Quando dos filhos de Israel receberdes os dízimos, que deles vos tenho dado por herança, então desses dízimos fareis ao Senhor uma oferta alçada, o dízimo dos dízimos”. Nos versos 28 e 29 Deus manda Moisés dizer aos levitas: “Assim também oferecereis ao SENHOR uma oferta alçada de todos os vossos dízimos, que receberdes dos filhos de Israel, e deles dareis a oferta alçada do SENHOR a Arão, o sacerdote. De todas as vossas dádivas oferecereis toda a oferta alçada do SENHOR; de tudo o melhor deles, a sua santa parte”.
Isto é claro: a oferta alçada é um “dízimo do dízimo”, isto é, 10% do que o levita recebia (que era 10% da renda do povo). Então era ofertada apenas por quem era beneficiário do dízimo: levitas, sacerdotes, e os pobres, viúvas, necessitados em geral, para que não houvesse “entre ti pobre algum (pois o Senhor certamente te abençoará na terra que o Senhor teu Deus te dá por herança, para a possuíres)” (Levítico 25:35; Deuteronômio 15:4,7,11; 24:14,15 etc.).
Nesse caso, a “oferta da viúva” em Marcos 12:41-44 foi até mais que uma “oferta alçada” (e não dízimo, como querem alguns). Ela não deu 10% da sua renda, mas sim todo o seu sustento, que possivelmente teria recebido por ser viúva e pobre. Jesus a elogiou porque ela foi além dos fariseus: não deu 10% (o que caracterizaria como dízimo, e mesmo assim se o dízimo fosse aceito em dinheiro; nunca seria “oferta alçada” ou dízimo do dízimo), mas deu tudo que possuía. É esse o exemplo que fica para a Igreja, quando Jesus diz a seus seguidores que “Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20).
Isso não quer dizer que devemos dar o dízimo e também oferta alçada, de primícia, de amor, de sacrifício e o que mais inventarem; mas sim que devemos ter em mente que somos apenas mordomos, e que tudo que “temos” de fato pertence a Ele. Por isso não devemos lamentar o ato de ofertar, pois estamos apenas entregando a Ele o que já Lhe pertence. Não precisamos ser admoestados todo domingo a dar dízimo, oferta disso e daquilo. Não. Já temos consciência de que a “obra de Deus” não é a construção do templo, nem a colocação de cadeiras estofadas e ar condicionado, uma nova aparelhagem de som, ou roupas para o ministério de dança. Não. A obra de Deus é outra coisa, sobre a qual falaremos em outra ocasião.
Alguns chegam a criar subdivisões das “ofertas alçadas” (neste link), citando Êxodo 35-36 (quando os israelitas dão tanta oferta que Moisés teve que pedir para pararem). Você verá que, propositalmente, eles dizem que essa oferta é obrigatória. Mas o texto é claro – a oferta, mesmo “alçada”, era voluntária: “Tomai de entre vós uma oferta para o Senhor; cada um cujo coração é voluntariamente disposto a trará por oferta alçada ao Senhor: ouro, prata e bronze” (Êxodo 25:2 e 35:5), enquanto o dízimo era obrigatório e determinado exatamente de quanto deveria ser: 10%, e sobre isto não resta dúvida.
Neemias 10:37-39 relata que quando os levitas recebessem os dízimos, trariam os dízimos dos dízimos (ofertas alçadas) à casa do tesouro. Já falamos antes, aqui, sobre a Casa do Tesouro e explicamos que isto não existe mais; na Igreja cristã não há Casa do Tesouro, doa a quem doer. Já falamos também sobre o que aconteceu quando os sacerdotes receberam os dízimos do povo e não os entregaram na Casa do Tesouro, para que houvesse mantimento para os levitas; ou então, quando entregavam, não davam o melhor, mas o refugo. Você pode ler sobre isso em Malaquias 1:8,13-14: é Deus falando aos sacerdotes...
Uma pausa para meditação: No livro de Malaquias 3:8, o Senhor alerta: Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas.
Observe: segundo a lei, quem recebia dízimos e ofertas alçadas, senão os sacerdotes  e levitas? Os ladrões aqui não são os que “deixam de doar”, mas justamente os que recebem os dízimos e as ofertas alçadas. Medite e tire a sua própria conclusão.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Porque não sou dizimista

OK, este não exatamente um título inédito e muito menos original para este assunto. O número de blogueiros que têm se manifestado contra a cobrança dessa taxa cresce a cada dia, como se as escamas que lhes cegavam os olhos estivessem caindo sem parar; mas a legião dos defensores do dízimo também vem aumentando.
Vemos, por exemplo, um seminário que ensina seus alunos como serem bons publicanos, isto é, coletores de dinheiro com diploma. Ou a Lagoinha apresentando lista de 26 razões pelas quais você deve sustentar a mega-estrutura que montaram. Ou então essa tal Gestêmani, com suas 50 razões! O império contra-ataca! Já vejo pastores defendendo na Internet 8, 27, 31, 33 e até 50 razões para te tomar dinheiro. Nesse ponto, se nivelam com os adeptos da igreja romana. Vejam aqui e aqui se é ou não é a mesma coisa. Farinha do mesmo saco! Então, diante disto, achei por bem expor as razões pelas quais discordo frontalmente de quem está de olho no bolso alheio, cumprindo a promessa de desossar mais duas falácias evangélicas - a igreja deve administrar as ofertas e a Casa do tesouro agora é o templo da igreja.
Não sou dizimista pois aqueles que dizem imitar Abraão se esquecem de que Abraão dizimou somente uma única vez – mesmo assim, era o produto de uma guerra (Gênesis 14). Abraão tinha muitos bens, e entre esses “bens” se contavam escravos; como ele faria para dar o dízimo de um escravo? Daria ao sacerdote uma perna, uma orelha?
Não dou dízimo porque quem diz que Jacó prometeu dar dízimo (Gênesis 28:22) não me mostra onde nem quando Jacó cumpriu esse voto, e a Bíblia ensina que é melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir (Eclesiastes 5:4).
Não dizimo porque quem prega sobre Malaquias omite que Malaquias estava falando para Israel no tempo da Lei mosaica (Antiga Aliança) e não para os gentios (eu e todos os que não são judeus).
Não sou dizimista nem ladrão, porque Deus se dirige aos sacerdotes que não davam a parte dos levitas. Leia com atenção Malaquias 1:6-14 e todo o cap. 2. Deus repreende os sacerdotes pelo mau uso dos recursos a eles  entregues pelo povo. A expressão “a vós, sacerdotes” repete-se por todo o livro.
Não dizimo pois quem chama o povo de ladrão por “não dizimar” esconde que o dízimo era para sustento dos levitas e sacerdotes (nesta ordem), cargos que não mais existem na nova dispensação (cf. Hebreus 8:13 e I Pedro 2:9). Na sua igreja tem levita? Se tem, sinto muito, mas não foi Jesus quem os instituiu; e mais, estão sendo sustentados pelos dízimos? O dinheiro do dízimo está indo para os músicos, para os porteiros, para os vigias, faxineiros...? Números cap. 18 determina a porção dos levitas. I Crônicas 23:2-4 mostra que havia 38.000 levitas, sendo 24.000 trabalhando fora do Templo, 6.000 servindo como oficiais e juízes, 4.000 porteiros e 4.000 “músicos”. E os levitas que estavam em serviço recebiam os dízimos. Na sua igreja é assim?
Não “entrego o dízimo na Casa do Tesouro” porque igreja não é a “casa do tesouro””. A Casa do Tesouro era uma sala do Templo de Jerusalém onde era entregue apenas a primícia, não o dízimo. Neemias 10:35-37; Números 18:12-13. O dízimo não era entregue na Casa do Tesouro (Deuteronômio 12:17-18 e 14:23), mas era entregue pelo dizimista nas cidades do próprio dizimista. Cabia aos sacerdotes distribuir a porção dos levitas. Na época de Esdras, Ageu, Zacarias e Malaquias, os sacerdotes haviam se tornado corruptos, e roubavam a melhor parte do arrecadado para si próprios. Pegavam os melhores bezerros, ovelhas e a melhor oferta, e deixavam os animais doentes ou defeituosos para oferecer em sacrifício, sem o menor temor de Deus. Por isso em Malaquias 1:7-8 Deus fala sobre pão profano e animais cegos. “Diz o Senhor dos exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome” (v. 6).
Não sou dizimista pois quando Deus fala sobre o devorador (Malaquias 3:11, Joel 1:4 e 2:25) refere-se às plantações e às colheitas do povo de Israel, pois, os dízimos no Antigo Testamento (Antiga Aliança), eram em forma de alimentos, para o sustento dos levitas, viúvas, estrangeiros (Deuteronômio 14:22-29). Esse devorador não vai agir em nossas vidas, em nossos salários de trabalhadores gentios! Quem ensina que gafanhoto é demônio só quer aterrorizar o povo de Deus.
Não entrego dízimo porque quem prega que pastor é sacerdote comete heresia. O ministério pastoral refere-se ao ensino e acompanhamento das ovelhas, não à intermediação entre Deus e os homens.  E além do mais o dízimo dado aos sacerdotes nunca foi 10%! Ele só recebia o “dízimo dos dízimos”, isto é, os levitas lhe davam o dízimo do que recebiam. Veja: o dízimo era distribuído entre (a) os pobres; (b) viúvas; (c) órfãos; (d) levitas; (e) estrangeiros. Se os sacerdotes estão incluídos entre os “levitas”, a esse grupo (levitas + sacerdotes) cabia 1/5 do dízimo total, ou seja, 2% das ofertas do povo. Mas hoje o “sacerdote” fica com os 10% e os “levitas” (que hoje são apenas músicos, mas não oficiais, juízes, artesãos, guardas etc.) nada recebem. Ou tem alguma “igreja” sustentando “levitas”? Se tem, não sei. Só vejo pastores mostrando na Internet 8, 27, 31, 33 ou 50 razões para te tomar dinheiro. Se é para obedecer a Lei, ao sacerdote cabe apenas 0,2% do total arrecadado, porque isto é o dízimo dos levitas (o dízimo dos dízimos). Veja Números 31:25-31, 47.
Não dou dízimo pois Jesus ensinou que nossas dádivas devem ser para os pobres e necessitados (Mateus 19:21);
Não sou dizimista porque quando Jesus elogiou a viúva que ofertava, não disse que ela dava o dízimo, mas que dava “tudo que possuía” (Lucas 21:4); e esse deve ser o mandamento para a Igreja!
Não pago dízimo porque a Igreja de Cristo não precisa de dinheiro e muito menos ser sustentada pelo homem.  A Igreja de Cristo não é um templo, um prédio, nem uma instituição fundada por pessoas, muito menos a Casa do Tesouro citada em Malaquias - aquilo era apenas um depósito para guardar o que seria dado aos levitas e sacerdotes em serviço no Templo de Jerusalém (que não existe mais). A Igreja de Cristo é a reunião de todos aqueles que amam e professam o Nome do Cordeiro sobre a face da terra; sem rótulos, denominações, doutrinas, e dogmas; aliás, as igrejasnão são obra de Deus, são instituições religiosas  criadas por homens!
Não preciso dizimar, pois Deus suprirá todas as minhas necessidades e não preciso barganhar com dízimos e ofertas (Filipenses 4:19); não preciso pagar para depois ter o direito de “reivindicar” bênção ou “decretar” fartura.
Não “devolvo dízimo”, porque tudo vem das mãos de Deus e não preciso devolver para receber mais (I Crônicas 29:14).
Não dizimo porque igrejas aceitam dinheiro, cheque (inclusive pré-datado) e até cartão, mas na Bíblia o dízimo era apenas em bens agrícolas para sustento de levitas e sacerdotes, pobres, viúvas e necessitados, e também para ser comido pelo próprio dizimista nas festas de Israel, conf. Deuteronômio 14:28-29 e 26:12-13. Ou seja, administrado pelo próprio dizimista e não pela igreja! Ofertas em dinheiro não faziam parte nem da Lei; e olha que ao contrário do que afirmam alguns, havia dinheiro sim naqueles tempos: Êxodo 30:16 e 38:24-31; Gênesis 23:15-16; II Samuel 24:24; II Reis 23:35; Jeremias 32:9-11; II Reis 22:4-7; etc. O gazofilácio citado várias vezes no Novo Testamento (a oferta da viúva, do fariseu etc.) é para quem quisesse contribuir com a reforma do templo. No tempo de Jesus o Templo estava em reforma, e o gazofilácio permanecia. Mas não justifica a entrega de dízimos em dinheiro que hoje se verifica nas igrejas. Entretanto, ouro, prata, jóias, tecidos e outros bens valiosos eram aceitos como oferta voluntária (como em Êxodo 35:29, na construção do Tabernáculo). Possivelmente, nas comunidades cristãs do Novo Testamento, ofertas em dinheiro fossem aceitas exclusivamente para ajudar os irmãos necessitados. Nunca iam para os bolsos dos apóstolos nem para o “templo cristão”, pois este era desnecessário para a vida da Igreja. Há sim vários relatos de coletas levadas de uma a outra comunidade, em Atos e nas cartas aos Corintios.
Não dou dízimo porque nos ensinam que o modelo da Igreja Cristã está no Livro de Atos; entretanto, ali não se faz nenhuma menção dos irmãos “dizimando” ou dando 10% de sua renda.
Não tenho obrigação de dar dízimo, porque aos gentios que crêem em Cristo só se ordena “que se abstenham do que é sacrificado a os ídolos, do sangue, do sufocado e da prostituição” (Atos 15:20,29; 21:25). E aos que estão debaixo da Nova Aliança não se requer 10% do salário, mas sim que “contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7).
Não dou dízimo a nenhum pastor porque Jesus, mesmo sendo feito Sacerdote duma ordem superior à de Levi (Hebreus cap. 7), por não ser levita na carne, em obediência à Lei não recebeu dízimo. Então como podem pastores – que não são judeus e muito menos levitas – pregarem que o dízimo deve ser dado a eles? A Lei diz: “Aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel” (Números 18:21). Como pode aquele que se diz servo querer ser maior do que o seu Senhor? Os que pregam que devem receber dízimo não estão seguindo a Jesus!
Não sou dizimista porque quando Jesus falou especificamente do dízimo aos judeus, Ele disse que o fundamental da Lei era justiça, misericórdia e fé. E nessa linha deve ser lido Mateus 23:23: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Importa-vos praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas”.  Praticar quais coisas? O dízimo, mas exercendo justiça, misericórdia e fé. Porque de nada valia pagar o dízimo – palavras de Jesus – e desobedecer outras coisas da Lei. Mais uma vez, leia Tiago 2:10. Quem deveria fazer isto, pagar o dízimo + praticar as outras coisas da Lei? Os judeus, os fariseus. Você é escriba e fariseu? Então esse mandamento é para você mesmo.
No mesmo contexto, ou seja, a Lei é para os judeus, vemos em Marcos 1:44 Jesus dizer para o leproso curado procurar o sacerdote e submeter-se ao ritual de purificação da lei de Moisés. Qual o motivo dessa conduta? O homem era judeu, logo deveria seguir os ensinos judaicos! Se pegarmos as palavras de Jesus sobre o dízimo e aplicarmos atualmente, deveremos fazer o mesmo quando alguém é curado? Sacrificar um pombo e fazer depilação (conforme Levítico 14)?
Eu não sou judeu, nem escriba, nem fariseu, e por isso não sou dizimista, pois Jesus em Mateus 23:23 estava falando com esse povo sobre a Lei mosaica, que Ele mesmo cumpriu na cruz do Calvário. Doa a quem doer: o dízimo, apesar de já ser conhecido desde antes da Lei, como a circuncisão, a separação entre animais puros e impuros, o sábado e outros costumes, foi incluído entre as ordenanças para Israel; mas essa lei já caducou, como lemos em Lucas 16:16 (“A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus”); e Hebreus 8:13 (“O novo pacto tornou antiquado o primeiro. E o que se torna antiquado e envelhece, perto está de desaparecer”). Jesus não falou para os gentios (eu e todos os que não são de Israel) darem dízimos.
Você é judeu? Está sob a Lei? Dá o dízimo? Parabéns.
E os outros 612 mandamentos?