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quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Templo de Jerusalém está a caminho?

Na mesma época em que se comemora mais um aniversário da fundação do moderno Estado de Israel, uma notícia veiculada um mês antes lança mais um ponto de luz sobre o papel profético dessa nação no contexto dos últimos dias, e serve de alerta para a Igreja.
Sexta, 4 de abril de 2014 - O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, recebeu uma carta assinada por um grupo de rabinos ligados ao grupo “National Religious”, defendendo a construção de uma sinagoga no lugar mais sagrado do judaísmo: o Monte do Templo, atualmente ocupado por mesquitas islâmicas. O grupo que assinou a carta é bastante variado e representativo, pois inclui rabinos das facções religiosas conservadoras, grupos liberais e religiosos sionistas, bem como professores, educadores e profissionais. “O Monte do Templo é um lugar singular para a oração” - afirma a carta. “Como primeiro-ministro, pedimos-lhe que faça o que for necessário para estabelecer um lugar de oração para judeus no Monte do Templo, de uma forma respeitável e pacífica, que honre o lugar sagrado pelo qual todos nós ansiamos”. O documento foi preparado e enviado pela organização Amutat Yishai, que apoia a construção de uma sinagoga numa localização específica do Monte do Templo, à qual muitos rabinos concordam que os judeus possam ter acesso e ali possam orar. Os judeus que atualmente sobem à esplanada do Monte do Templo têm permissão de acesso restrito e devem aderir a certas restrições ligadas aos rituais de purificação; por isso uma grande parte do recinto é proibida aos judeus. No entanto, muitos rabinos concordam com os historiadores ao alegar que certas áreas do Monte do Templo não estavam incluídas nas delineações da área do Templo Santo, permitindo assim tais visitas - mesmo em estado de impureza ritual - desde que fossem providenciadas no local facilidades para o ritual da imersão e que outras disposições fossem também cumpridas.
Os grupos muçulmanos, incluindo o Waqf Islâmico (entidade que supervisiona os santuários muçulmanos sobre o Monte do Templo), opõem-se ferozmente a qualquer forma de presença judaica no local. e de forma a evitar conflitos, as autoridades israelitas simplesmente proibiram os judeus de orar no local.
A maioria dos estudiosos judeus partilha a crença de que é necessária a construção de um terceiro Templo no local. Várias posições têm sido adiantadas acerca da exata localização do mesmo - um dos pontos de vista é vê-lo construído ao lado do Domo da Rocha. Outras opiniões defendem a remoção do Domo da Rocha, para dar lugar ao Templo. Cada um das perspectivas parece no entanto conduzir ambos os lados a uma contagem decrescente para um confronto. Em outubro de 2013, o jornal Tehran Times relatou que um porta voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã denunciara um plano israelita para construir uma sinagoga perto da mesquita al-Aqsa, apelando à comunidade internacional para prevenir mais “conspurcação” do Monte do Templo. Durante um discurso, Ismail Haniyeh, primeiro-ministro do Hamas, condenou os esforços israelitas para “judaizar” Jerusalém, encorajando todos os palestinos para agirem contra as alegadas “medidas expansionistas” de Israel. Entretanto o jornal “The Jerusalem Post” publicu o seguinte comentário: “O estado das coisas no Monte do Templo é intolerável e insustentável. Liberdades básicas como o direito ao culto e à livre expressão estão sendo espezinhadas, e os judeus são sujeitos a discriminações desconhecidas em qualquer outra parte do mundo ocidental num lugar de tal significado profundo para a História e destino dos judeus”.
Michael Freund, autor do artigo no jornal israelita, tinha conduzido um tour pelo Monte do Templo com mais de 50 judeus oriundos da sinagoga Raanan Ohel Ari, e assinalou o seguinte. “...foi deprimente ver até que ponto o governo israelita cede às ameaças de instabilidade árabe à custa dos seus próprios cidadãos e dos seus direitos básicos”. Freund fornece exemplos de claros precedentes históricos de quando os direitos dos judeus eram respeitados, especialmente durante períodos em que o Monte do Templo se encontrava sob controle muçulmano. Um desses casos mostra uma sinagoga e um lugar de estudos judaicos funcionando no Monte do Templo onde os judeus podiam ir orar em liberdade por mais de quatrocentos anos, depois que o califa Omar conquistou a Terra de Israel em 633-4 d.C. 
Não é por falta de espaço. Isso foi confirmado pelo rabino Abraham bar Chiya HaNassi, grande líder e autoridade rabínica espanhola do século 12, que escreveu no livro “Megilat Megaleh” que, “no início, depois de os romanos terem destruído o Templo, Israel não foi impedido de subir lá e orar, e da mesma forma os reis de Ismael estabeleceram um costume beneficente e permitiram a Israel subir ao Monte do Templo e construir uma casa de oração e estudo”. O rabino ainda acrescentou que “todos os exilados de Israel que viviam perto do Monte do Templo subiam nos festivais e feriados e oravam ali”. 
Comentários - Longe dos tons alarmistas, como ameaça de guerra e aumento de tensão entre os atores envolvidos, o que precisamos extrair desses fatos é o seguinte:
- a Bíblia diz que no futuro haverá um templo judaico em Jerusalém: “o dia do Senhor [isto é, a volta de Jesus a esta Terra] [...] não sucederá sem que venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, de sorte que se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus” (II Tessalonicenses 2:2-4). Isto é, imediatamente antes da volta do Senhor se levantará um “anticristo” que desejará se assentar no local sagrado de adoração dos judeus, para receber o que é devido somente a Deus. Esse local é o Templo de Jerusalém.
- podemos ter certeza total sobre esse Templo reconstruído sobre o lugar sagrado. Embora a construção de um Templo não seja um pré-requisito para o início do período da Tribulação, as Escrituras apontam para a construção de um Templo e início da adoração no local, antes do meio desse período. Quando os discípulos de Jesus Lhe perguntaram acerca da “consumação do século”, Ele avisou as gerações futuras que vivessem em Jerusalém no Seu discurso profético para estarem conscientes da proximidade do “abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo” (Mateus 24:15).
- o Livro de Daniel (capítulos 11 e 12) avisa que os anos finais conducentes ao estabelecimento do Reino de Deus na terra produziriam um líder político (o Anticristo) que confirmará uma aliança de paz com Israel por 7 anos. A meio desse tempo, o Anticristo fará cessar os sacrifícios no Templo, voltar-se-á contra Israel, e exaltar-se-á como deus, selando aí o seu destino final - eterna e permanente separação de Deus no lago de fogo (Apocalipse 20:10).
- no entanto, poderá a construção de uma sinagoga no Monte do Templo e o restabelecimento do direito dos judeus a orar ali ser a pedra basilar para a construção de alguma tolerância e respeito mútuo entre judeus e árabes? Por mais que ambas as partes relutem diante de tal possibilidade, seria necessária uma mudança de atitude para um acordo que, em última análise, dará lugar à construção do Templo. Há quem já especule que o atual processo de paz poderá conduzir a um entendimento nesse sentido. Se não se chegar a um acordo diplomático, talvez então a guerra venha a conseguir o resultado desejado.
- o fato de Israel ter sido restabelecido como nação em 1948, de Jerusalém ter sido reconquistada em 1967 e de os judeus estarem fazendo esforços cada vez mais significativos para a construção do templo, demonstra que estamos chegando perto do fim da atual era da Igreja e do início da Tribulação. O cenário divino para o fim dos tempos está tomando forma e o centro das atenções é a reconstrução do templo em Jerusalém. A mão de Deus está agindo.
E por todas essas razões é que não se deve dar mais atenção a uma jogada de marketing que está em curso, que é um edifício que alguns desavisados têm como réplica do templo de Salomão, na cidade de São Paulo. Uma análise simples nos revela que:
- é inspirado no templo de Herodes, e não no “de Salomão”.
- não segue, como alegam, as medidas bíblicas, pois é megalomaníaco e muito maior do que o aquele que havia em Jerusalém.
- não se trata de um templo propriamente dito, mas de uma atração turística e uma fonte de renda para seus administradores.
- e mesmo que fosse um templo de verdade, seria desnecessário, pois “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas” (Atos 7:48).
O único templo que tem alguma relevância para nós, hoje, é aquele que ainda está por ser construído em Jerusalém, porque será um sinal do cumprimento das profecias.
Maranatha!

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sábado, 15 de junho de 2013

Cristo em vós

O verbo grego kaleo significa “chamar” e a preposição grega ek, “para fora de”. A composição resulta na expressão cheia de significado ek-klesia que significa “chamados para fora de” - “igreja” ou “assembléia”. Igreja é uma congregação, i.e., um grupo de pessoas regeneradas, nascidas de novo. Apesar disso, ainda é muito comum a confusão entre igreja e templo. Por isso, é preciso saber distinguir bem entre os dois conceitos.
Nos tempos de Cristo, a noção de lugar sagrado era comum tanto no judaísmo como no paganismo, e era causa de um indesejável nao-centrismo e nao-latria (do grego naos = templo). Por isso Jesus jamais tratou o templo pela expressão “santuário”. Jesus adorava e ensinava no templo, mas previu a destruição dele (Mateus 24:1-2), o que lhe rendeu uma acusação formal (Mateus 26:61), pois tocara nos alicerces da religião judaica. Mas também afirmou peremptoriamente que as portas da morte não prevaleceriam sobre a  Sua ekklesia, edificada Nele (Mateus 16:18). Curto e grosso: o templo pode ser destruído, a Igreja jamais!
O Novo Testamento ensina que “o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:48), que nós somos “o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós” (I Coríntios 3:16) e que “o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em nós, proveniente de Deus” (I Coríntios 6:19).
Por isso não deve nos surpreender que na visão de João no Apocalipse ele descreva a revelação de um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos dessa forma “Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro” (Apocalipse 21:9) e ao descrever a cidade santa diria João: “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor, Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro” (Apocalipse 21:22).
A igreja nascida aos pés de Jesus não teve o seu primeiro templo antes do IV século, curiosamente no momento em que surgiram várias heresias no seio da Igreja cristã. Até ali a imagem da Igreja era a do povo (por um lado) disperso, espalhado, e reunido de casa em casa, por outro (Atos 2:46). A imagem mais forte de uma Igreja do Novo Testamento não é a do templo, mas da reunião em casa (Romanos 16:5, I Coríntios 16: 19, Colossenses 4:15, Filemon 2).
Não é saudável a confusão do templo com a Igreja, do prédio com o povo, da reprodução da noção pagã de lugar santo, e a sugestão de que só é possível adorar genuinamente num templo. Tal visão da Igreja é que gera o estímulo de uma vida dupla, uma no templo e outra no mundo, uma no templo e outra em casa!
As portas dos templos podem e devem ser fechadas oportunamente e por razões de segurança, como ocorre normalmente fora dos “horários de cultos”. Veja que com isso procuramos não deixar qualquer brecha para ladrões e malfeitores, pelo contrário! Mas na verdade, verificamos com tristeza que, historicamente, algumas “brechas para o inimigo” foram abertas exatamente enquanto as portas do templo estavam abertas...
Enquanto houver “dois ou três reunidos” em nome de Jesus (Mateus 18:20) seja nos templos, seja nas casas ou em qualquer lugar (guardadas as devidas proporções), aí estará a Igreja reunida, santa, templos do Espírito Santo, cultuando e louvando ao Deus bendito e proclamando o Evangelho da salvação. Ele mesmo disse que estaria conosco até a consumação dos séculos. E aí podemos tentar imaginar como seria diferente se tivéssemos sempre a consciência plena de que Ele está conosco de fato, da mesma forma que esteve ao lado dos Seus discípulos durante aqueles três anos em que viveu entre nós, em carne e osso.
Você conseguiria se imaginar como um dos discípulos seguindo a Cristo durante aqueles três anos? Todas as manhãs você se levantaria imaginando que milagre incrível veria naquele dia. O que pensaria ao beber o vinho que era água alguns minutos antes, agora mais saboroso que o vinho envelhecido por décadas? Que maravilhoso vê-lo curar um homem nascido cego! O que pensaria ao vê-lo alimentar mais de cinco mil pessoas com apenas o conteúdo da lancheira de um menino? Imagine comer um peixe que nunca nadou ou um pão fresquinho e quente que nunca foi ao forno. Imagine a sensação que teria ao vê-lo andar sobre o mar mais rápido que um barco com doze homens, muitos deles  pescadores profissionais, se esforçando nos remos. Você o teria visto acalmar uma tempestade com apenas uma ordem e impor as mãos sobre um homem com lepra, apenas para vê-o curado imediatamente. Você o teria visto levantando alguém da morte, bem depois de o corpo ter-se tornado rígido e deteriorado.
Imagine, então, que um dia Ele lhe dissesse: “Estou indo embora, mas é bom para você que eu vá”. O que pensaria? Como responderia? Como Pedro, você tentaria corrigi-lo? Estar com Jesus foi de longe a melhor coisa que acontecera na vida desses homens. Como poderia ser melhor para eles que Jesus partisse? Ele então diz: “Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (João 16:7,8).
Quando consideramos essa declaração de Jesus, devemos fazer três perguntas importantes para entender o significado do Seu plano.
Primeiro: antes de Jesus nascer, onde as pessoas precisariam ir para ter acesso direto ao santo Deus de Israel? A resposta é: no Templo, no Santo dos Santos, onde apenas um homem podia entrar, uma vez por ano.
Segundo: quando Jesus andou por este planeta, onde as pessoas teriam de ir para estar na presença de Deus? Onde Jesus estivesse, fosse na costa da Galiléia, em um barco, ou em um passeio à meia-noite.
Terceiro e último: depois da morte, sepultamento, ressurreição e ascensão de Jesus ao céu, e finalmente, do Pentecoste, onde as pessoas precisariam ir para estar na presença do Deus Todo-poderoso? Onde o Seu povo estiver, ali estará a presença do Deus santo! (Mateus 28:20). Esse é o rico prêmio que veio junto com o preço incrível da cruz. Jesus morreu para que aqueles que crêem possam ir a qualquer lugar com o poder e a presença de Deus. Podemos encontrar a presença de Deus no sul da Califórnia, mas ao mesmo tempo Ele está presente com os seus filhos reunidos em Chicago, no Cairo, no Rio de Janeiro e Pequim. Agora o Reino de Deus pode entrar em todos os bairros de todas as cidades de todas as nações simultaneamente. Na mente de Jesus, essa verdade era tão preciosa que Ele estava pronto a morrer por ela. Deveríamos nos agarrar a isso com essa mesma convicção e cuidado.
O plano de Jesus era descentralizar, e Ele pagou um alto preço para tornar isso possível. Precisamos redescobrir o poder de um movimento de descentralização que tenha o poder distribuído para todas as partes, de forma que possa imediatamente gear vida nova. O plano de Jesus era genial. Não o negligencie nem opte por outro. Dê mais uma olhada no que Ele fez e no que Ele tem para nos oferecer.
A nova aliança, estabelecida com o próprio sangue de Jesus derramado com o sacrificio, era para liberar a descentralização da nação de sacerdotes que iria multiplicar e preencher a Terra com a sua presença. Ezequiel 37:26-28 diz: “Farei uma aliança de paz com eles; será uma aliança eterna. Eu os firmarei e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre, Minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo, Então, quando o meu santuário estiver entre eles para sempre, as nações saberão que eu, o Senhor, santifico Israel”.
Jesus sofreu uma morte horrível para aposentar o sistema antigo e estabelecer um novo. Ele rasgou de cima a baixo ao véu entre Deus e o homem, removendo a separação que existia entre Deus e Seu povo. Ele estabeleceu uma nova nação de sacerdotes (I Pedro 2:8, 9) para cobrir a Terra com Seu poder, Sua presença e Sua glória.
Por que então trabalhamos tão arduamente para restabelecer as velhas maneiras, com construções centralizadas, sacerdotes centralizados e constantes ofertas para saciar o sistema? Deus vive no seu povo! Nós somos o seu templo, todos nós, do menor ao maior (I Coríntios 3:16; 6:19). Nossa esperança de glória não está nos prédios que usamos, mas na presença do Mestre que está construindo sua vida em nós. Como Paulo escreveu: “Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1:27). O mundo não está impressionado com as nossas casas sagradas de adoração; na verdade, outras religiões têm construções até mais bonitas. Devemos deixar que se veja algo que não se pode reproduzir: uma nova vida em Cristo. Uma alma transformada... isso é algo que o mundo não pode realizar e está morrendo de vontade de ver!
Jesus pagou um alto preço para que Seu povo tivesse a liberdade de sua presença em todos os lugares. Precisamos resistir ao magnetismo sedutor de construções glamurosas e sistemas hierárquicos de religião que nos prendem a um lugar e a uma forma de igreja que não pode espelhar a glória dele ao redor do planeta. Reconheçamos, mais uma vez, a beleza da nova aliança: uma nação descentralizada de sacerdotes trazendo a presença de Cristo a todo o mundo. Todos nós que somos filhos de Deus fomos libertados e recebemos poder para espalhar a sua glória em todos os lugares. Somos chamados para levar a presença Dele aos cantos sombrios das pessoas perdidas em nosso mundo.
Cristo em você, é a esperança da glória.
  
Primeira parte baseada no artigo original “Igreja de portas fechadas?” (Pr. Josué Mello Salgado), publicado no boletim dominical da Igreja Memorial Batista de Brasília, em 30 de outubro de 2011
Segunda parte transcrição do cap. 3 do livro “Igreja Orgânica”, de Neil Cole

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sábado, 13 de abril de 2013

O silêncio profético (final)

Vimos antes que, por duas vezes, durante mais de quatro séculos cada uma, parecia que Deus estava ausente.  
Na primeira vez, enquanto o povo sofria nas mãos do Faraó egípcio, muitos talvez dissessem que a promessa da Terra Prometida era uma ilusão. Se fossem olhadas apenas as circunstâncias, muita gente talvez perdesse a fé. Pode ser esta a razão de tantos hebreus, ao saírem sob a liderança de Moisés, ainda sentirem saudade das cebolas do Egito. Acostumaram-se com a comida, com as músicas, com as (poucas) roupas. Estavam adaptados, integrados, e por isso tiveram saudades das cheias anuais do rio Nilo, que traziam a prosperidade passageira e a crença ilusória nas forças da natureza. Não entendiam ainda o que era depender do maná que cairia dos céus, de maneira sobrenatural. E em vez de entender que o silêncio de Deus era, de fato, o tempo em que o Senhor preparava a terra de Canaã para recebê-los, se desapontaram e logo se voltaram para o bezerro de ouro.
Na segunda vez, ao findar o livro do profeta Malaquias, cessou a revelação profética por quatrocentos e trinta anos, o mesmo tempo em que os antigos viveram no Egito. Somente com João Batista, cerca do ano 30 da era Cristã, é que o povo ouviu outra vez um profeta da parte de Deus. Por isso talvez muitos pensaram que era Elias retornando, o mesmo que não havia passado pela morte, pois fora arrebatado num carro de fogo. Alguns poucos, ainda movidos pela esperança do Messias, indagaram a João se era ele o que havia de vir. Mas a maioria dos judeus estava preocupada com outras coisas: os impostos que deviam ser pagos a César, e o medo das revoltas que aconteciam de tempos em tempos, desde a época dos Macabeus, e que invariavelmente acabavam com execuções públicas. A magnificência do Templo herodiano era um alívio, pois restaurava um pouco do orgulho nacional, ao mesmo tempo que era mais uma carga a ser sustentada com as ofertas compulsórias recolhidas por um sacerdócio cada vez mais corrupto e comprometido com as autoridades. Poucos ainda descansavam nas promessas. Esses viram a vinda do Filho de Deus. Simeão, Natanael, Ana, e mesmo os magos do Oriente, não se deixaram impressionar pela grandiosidade de Roma, pelo fausto de Herodes, pela magnificência do Templo. Não estavam nem aí para a erudição dos fariseus, para o humanismo e a modernidade dos saduceus; não se contaminaram com a cultura dominante e “chique” dos gregos; não foram seduzidos pelo poder como os herodianos. Não “esfriaram” durante os quatro séculos de “silêncio profético”.
Eram homens e mulheres espirituais que procuravam nas Escrituras a verdade. Por isso, o nascimento do Messias passou despercebido da maioria das pessoas. Naqueles dias, depois de Malaquias e antes de aparecer João Batista pregando no deserto, poucos judeus esperavam um messias sofredor. Poucos estavam atentos ao cumprimento das profecias. Como nos dias de Moisés, Deus até podia estar em silêncio, mas estava trabalhando, preparando Israel – e o mundo – para a vinda do Salvador.
Cristo veio ao mundo nos dias do Império Romano. O mundo civilizado de então – pelo menos na porção ocidental – vivia sob um governo único, uma lei universal. Era possível obter cidadania romana, ainda que a pessoa não fosse romana de nascimento. O Império Romano mostrou as tendências de unificar os povos de raças diferentes numa organização política. Na plenitude dos tempos, quando a maior parte do mundo ficou sob uma lei e um governo, e todo o mundo falou a mesma língua diariamente, Cristo veio, cumprindo as profecias. O mundo foi preparado para a vinda de Cristo. O Apóstolo Paulo escreveu: “Mas vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho” (Gálatas 4:4). Marcos afirmou o mesmo, dizendo: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Marcos 1:15). E não é o que está em curso novamente? Muitos que desdenham o dispensacionalismo e o arrebatamento pré-tribulacional fingem não enxergar os sinais do arrebatamento e da segunda vinda de Cristo. Havia paz na terra quando Cristo nasceu. Os soldados romanos asseguravam a paz nas estradas da Europa, Ásia, e norte da África. Assim também ocorrerá quando vier o Filho do Homem (I Tessalonicenses 5:3). A medida dos cananeus está quase completa! Veja Gênesis 15:16.
Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, foi usada uma versão adulterada da “Septuaginta”, com a inclusão de livros apócrifos que não faziam parte das Escrituras Hebraicas, dando a impressão que esses acréscimos também fossem divinamente inspirados. É por isso que muitos ateus e “intelectuais”, confundindo os profetas originais com os anexos lendários dos quais falamos antes, dizem, por exemplo, que o livro de Daniel foi escrito nessa época, depois das profecias já cumpridas. E que o escritor de Esdras e Neemias é o mesmo da “Sabedoria de Salomão”, um livro apócrifo claramente inspirado em idéias helenísticas. E depois, com Constantino, os líderes eclesiásticos vão se politizar cada vez mais, transformando o Cristianismo no catolicismo medieval que não aturava dissidências (veja mais aqui). Isto vai culminar nas resoluções do Concílio de Trento, pelas quais a igreja católica adota como oficiais 7 dos livros apócrifos (Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, I Macabeus e II Macabeus) e mais 4 apêndices/acréscimos a Ester (10:4-31) e Daniel (3:24-90, caps. 13 e 14), colocando-os no mesmo patamar dos livros inspirados.  “Todo aquele que não recebe, como sagrado e canônico, todos esses livros, e cada parte deles, como são comumente lidos na Igreja Católica, e que estão contidos na edição da Antiga Vulgata Latina, ou deliberada e propositalmente desprezar as tradições acima mencionadas, seja amaldiçoado” (Concílio de Trento, quarta sessão, 1545) – Fonte.
Hoje, em algumas denominações evangélicas, ocorre algo semelhante. A “palavra profética do apóstolo” [sic] é tida como divinamente inspirada, infalível, e ai de quem ousar discordar “do ungido”. Há registros aí para quem quiser ver, que líderes denominacionais dizem abertamente para o povo não ler a Bíblia!
No final do período do “silêncio profético”, Herodes resolveu agradar ao povo embelezando o Templo de Jerusalém. Diz o historiador Flávio Josefo que Herodes o dobrou de tamanho, em relação ao de Salomão. Isso não expressava sua fé – ele nem judeu era – mas foi uma tentativa de conciliar seus súditos. O Templo de Jerusalém, decorado com mármore branco, ouro e pedras preciosas, tornou-se proverbial, motivo de orgulho dos judeus. Ver Marcos 13:1. Não é o que vemos hoje? Com o crescimento das denominações, surgem os mega-templos das mega-igrejas, e seus líderes incrédulos, que não são pastores, mas homens de negócios. Dizem que estão fazendo a réplica do templo “de Salomão”; entretanto, esse de São Paulo, por ser muito maior, foge muito da especificação bíblica, e ainda por cima, segue as linhas gerais do templo de Herodes, não do de Salomão. Em todo caso, isso nem importa tanto, porque Deus não habita em templos há muito tempo... mas homens carnais insistem em construí-los para sua própria e particular glória. Como nos dias de Herodes, Deus não só não habita lá como já nem mesmo visita os locais de reuniões de certos públicos; foi-se a glória! Deus se retirou, mas o povo não percebeu ainda, como os judeus de outrora, que transformaram o templo em si no objeto de seu culto, mesmo que Deus não se manifestasse havia séculos!
Há um silêncio profético. É mais eloqüente a corrupção, não apenas no sentido político ou econômico, mas a corrupção da moral e dos costumes, com a proposição de leis contrárias à família, à liberdade de culto e de opinião, com larga repercussão na mídia partidária e tendenciosa, com vasto apoio de artistas e “intelectuais”. Como nos tempos apostólicos, o mundo odeia o Evangelho, e faz de tudo para calar os profetas. O mundo não quer que se denuncie o pecado, e protesta contra a libertação da escravidão, pois isto significa o fim de seus ganhos, de sua fama, de sua exposição sob os holofotes. Atos 17:5-9; 19:24-41.
Podemos ter certeza de uma coisa: ao fim desse período de aparente silêncio de Deus, algo grande vai acontecer. Quando ocorreu a libertação do povo de Deus, na época de Moisés, um longo tempo de provação havia forjado uma tribo semi-bárbara em um povo unido em sua fé no Deus de seus antepassados; eles tiveram que se apegar às Promessas! Quando Jesus veio, Israel já amargava um longo tempo de sequidão, onde não se tem noticias de profetas que consolassem o povo; mas havia a Palavra Escrita, que prometia o Messias.
Hoje, devemos nos ater à Palavra Escrita e às promessas de Deus. A semelhança com o tempo do silêncio profético também é vista aqui: em nossa busca por “profetas”, não nos deixemos enganar pelos picaretas que procuram preencher a suposta lacuna com “novas revelações”.
Habacuque clamou: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?” (1:2). Mas às vezes Deus se expõe através do silêncio. Embora possa parecer que durante esses períodos da história bíblica – e em nossas próprias histórias – que Deus esteja distante, a mão poderosa do Altíssimo estava operando por trás das cortinas, oculta ao sofrimento do seu povo, preparando um libertador, um resgatador. Deus não estava omisso, pelo contrário. O que Ele determinou estava sendo posto em ação e as pessoas estavam alheias, assim como acontece hoje em relação às profecias do tempo do fim e do juízo de Deus.
Muitas vezes não ouvimos a voz de Deus por causa de nossa comemoração, como naquela música que diz “festa, alegria”! Pode ocorrer de nunca nos lembramos de abaixar a música e acabar com a festa. Não criamos um ambiente necessário para ouvir a voz de Deus. Nem sempre Deus fala na ventania ou no terremoto, mas de modo manso e suave (I Reis 19:11,12).
Estava Deus em silêncio no período inter-testamentário? Não. Ele preparava o cenário para a vinda do Seu Filho. Está Ele em silêncio agora, já que a Bíblia foi selada no livro de Apocalipse? De forma alguma! Ele já revelou o que tinha a ser revelado, assim como revelou nos supostos “silêncios” anteriores; o que precisamos é atentar para as concretizações do que está escrito.

Fontes de informações:
(http://www.verdade-viva.net/quatrocentos-anos-de-silencio/, baseado no livro “O Período Interbíblico”, do pr. Enéas Tognini)

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