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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A igreja católica e os protestantes

De temos em tempos, os olhares do mundo se voltam para a praça de “são” Pedro e especificamente para o teto da Capela Sistina, onde a fumaça de uma chaminé indica o resultado de uma uma eleição indireta. Um clube que segue o velho ditado, “amicitia tibe ivnge pares”. Todos muito sérios, descendo muito respeitáveis de suas limusines, abdicando por uns dias de seus charutos caros e de seus vinhos finos, para passar a imagem de santidade que as TVs perpetuam “per omni saecvla saecvlorvm”. Sepultando sob as muralhas do Vaticano toneladas de podridão moral, ética e – sim – religiosa.
Todos aqueles desvios que, ocultos durante séculos pelos prelados, levaram à Reforma Protestante, a qual, ao contrário do que apregoam os católicos, não foi um movimento “cismático” (como se referem aos protestantes até hoje) que desejava “dividir” a Igreja. Entre em qualquer site católico e comprove.  Lutero e reformadores como Wycliff, Huss e Calvino, dentre outros, queriam que a cristandade voltasse à pureza original, à simplicidade primitiva dos apóstolos, e abandonasse todas as práticas herdadas do paganismo através dos séculos, sobre as quais falei aqui, aqui, aqui, aqui e aqui- para ficar só nessas.
Resumindo: a hierarquia católica quando viu que as pessoas em toda parte estavam abrindo os olhos, multidões se entregavam a Jesus, abandonando os ídolos e suas superstições e a Bíblia estava sedo traduzida na linguagem de cada povo – o que levaria à comparação da vida dos discípulos com a dos padres, bispos, cardeais, “papas” e outros títulos – resolveu se mexer.
Era preciso contra-atacar. No século XVI já existia a imprensa e muitos livros, inclusive e principalmente a Bíblia, eram impressos aos milhares. O homem, deixando para trás as trevas medievais, reaprendia a raciocinar. Portanto, o plano deveria ser bem elaborado, mas com ares de espiritualidade.
Por volta de 1530, o fervor religioso crescia dentro da igreja de Roma. Muitos clérigos perceberam que o ensino dos reformadores era de fato correto: eles queriam uma vida espiritual mais profunda, mas não tinham forças, coragem ou inteligência para abandonar as velhas tradições. Assim, reconheciam a necessidade de um movimento que incentivasse as pessoas a buscarem a Deus; mas tinham medo de serem queimados como hereges. Alguns desses homens foram feitos cardeais pelo “papa” Paulo III, para elaborar uma reforma religiosa e em 1537 produziram um documento afirmando que os abusos eram culpa de “papas” anteriores. Surgiram novas ordens religiosas (monges e freiras), e com suas regras de pobreza, castidade e obediência cega ao “papa”, recuperaram parte do respeito perdido durante séculos de ganância e vícios. Os abusos foram coibidos, e houve certa moralização, que não se vê hoje em dia.
Mas só isso não bastava aos propósitos satânicos, travestidos de zelo e piedade. Onde a Reforma Protestante não estava consolidada, como Espanha, Portugal e Itália, era preciso agir com mão de ferro. O povo tinha que ser mais envolvido pelas doutrinas romanistas, caso contrário a Verdade triunfaria e aí, adeus poder, privilégios, mordomias. As armas de Roma seriam usadas com força total. Forjadas no inferno, essas armas foram tão terríveis que ainda hoje trazem repulsa a pessoas civilizadas. Essas armas - um contra-ataque violento - foram chamadas de Inquisição.
O romanismo não tinha escapatória ao ser confrontado com a Palavra de Deus, agora largamente difundida graças à imprensa. As cruzadas, que em tese deveriam libertar a Terra Santa do domínio árabe, haviam falhado miseravelmente. A igreja romana canalizara a frustração da derrota atacando os chamados hereges, que na verdade apenas rejeitavam os abusos papais e, como os primitivos cristãos, só aceitavam a autoridade da Bíblia. Roma, por seu lado, interpretava ao pé da letra as passagens da Bíblia que lhe interessavam, e dizia seguir Deuteronômio 13:1-9, 17:25 e Êxodo 22:18, que mandavam punir os feiticeiros e agoureiros. Citavam até as palavras de Jesus no Evangelho de João 15:6: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora... e ali arderá”. Assim, passou a perseguir a todos os que se opunham à doutrina papal, acusando-os de servirem ao Diabo.
O sistema tinha atrativos para os delatores. Comprovada a heresia (quase sempre), o dedo-duro recebia, como recompensa, parte dos bens do condenado. O que se seguiu foi uma indústria da delação, pois os acusados quase nunca tinham a garantia de um julgamento justo (exemplos? Huss, Wycliff e inúmeros outros). Às vezes, o julgamento era por meio do “ordálio”: jogava-se o acusado, amarrado, num rio. Se boiasse, era inocente; se afundasse, era culpado. Ou então, era obrigado a caminhar descalço sobre brasas; se os pés se queimassem, era culpado; caso contrário, estava livre.
Não vamos nos alongar sobre os detalhes tétricos dessa política infernal: seus instrumentos e métodos bem denotam sua origem. Se quiser saber mais, leia o conto “O Poço e o Pêndulo”, de Edgar Allan Poe, ou clique aqui. Basta dizer que milhares pereceram. Somente Bernardo Gui (que aparece como inquisidor-chefe no filme “O Nome da Rosa”) condenou cerca de mil pessoas. Roberto, o Dominicano, queimou 180 na fogueira em um só dia. Ximenes, na Espanha, executou quase 2300 “hereges”. Tomás de Torquemada faria inveja a Stalin, Hitler e Saddam Hussein juntos: sob suas ordens, dez mil foram executados. Muitos que hoje são considerados “santos” (Ignácio de Loyola e Francisco Xavier, por exemplo) apoiavam abertamente esses expedientes. Tais foram as medidas extremas tomadas por aqueles que já não podiam dominar o povo pelas idéias. Só lhes restava reinar através do terror.
Uma instituição sádica ficou conhecida ao longo dos séculos como “Santa Inquisição”. É bom ressaltar que embora a Inquisição na Espanha seja uma instituição diferente da Romana, que mudou o nome para “Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé”, seus métodos e finalidades sempre foram os mesmos. O mais ilustre dirigente e mentor da Inquisição em tempos recentes foi um padre alemão chamado Joseph Ratzinger, a.k.a. “sua santidade Bento XVI”...
Mas além da violência física e psicológica, outro expediente foi usado para tentar ocultar o Evangelho. A imprensa prestava um serviço inestimável à Verdade. Livros, panfletos e a própria Bíblia alcançavam grandes tiragens, e a procura era intensa. Então a igreja romana elaborou uma censura: o “Index”, uma lista de livros que não se podia ler e nem mesmo possuir, sob o risco de ir para a fogueira.
A primeira edição do Index saiu em 1543, e dela constava, além de autores protestantes, filósofos humanistas como Erasmo de Rotterdam e, pasmem os senhores, a própria Bíblia. O hoje clássico “Os Lusíadas” de Camões, só veio a lume com a autorização do censor da Inquisição em Portugal. Mas ainda hoje algumas edições de livros possuem, como curiosidade tipográfica, o selo “Imprimatur” - a autorização da Inquisição para ser impresso.
Para resolver o “problema” da Bíblia, o concílio (reunião geral de bispos) que se realizou na cidade italiana de Trento entre 1545 e 1563 concluiu que deveria ser feita uma edição “católica” da Bíblia. Assim foram incluídos nas Sagradas Escrituras os livros chamados apócrifos. Conhecidos de longa data, mas desprovidos de inspiração divina, cheios de absurdos teológicos, históricos e geográficos (para não falar de heresias evidentes, apesar de terem certo valor literário), essas obras pretenderam justificar os erros do romanismo, já que agora eram oficialmente parte da Bíblia. Aos católicos só seria permitido ler essa versão, que recebeu também longos comentários de rodapé, com a interpretação oficial de Roma.
O concílio também elaborou decretos sobre o purgatório, os “sacramentos”, obediência cega ao “papa” e coisas desse tipo. Não por acaso, esse movimento todo ficou conhecido como “Contra-reforma”. Precisa dizer mais? Dessa época de negrume espiritual emergiu também outra instituição que muitos consideraram benéfica, mas cujo propósito inicial era completar o trabalho da Inquisição. Foi chamada “A Companhia de Jesus”, e seus membros, jesuítas.
Fundada pelo ex-soldado, mercenário e aventureiro basco Ignácio de Loyola, a ordem veio para combater as “heresias” e promover missões e a educação, como prevenção ao protestantismo. Ainda hoje, ela controla várias instituições educacionais católicas, inclusive no Brasil, onde chegou nas caravelas de Cabral. Nóbrega e Anchieta pertenciam a essa organização. É interessante notar que algum esforço foi feito para “catequizar” (definição católica de “evangelizar”) os indígenas, após muito discutirem se eles tinham alma ou não. Mas pouco foi feito em relação aos escravos; aliás, muitos padres eram donos de escravos, e nada fizeram até o século XIX para libertá-los.
De qualquer forma, apesar dos golpes sofridos pela Reforma Protestante, já começava a soprar o vento do Espírito, avivando os crentes e preparando a Igreja para um novo período de vitória sobre essas trevas.
Hoje, os homens de preto mudaram de tática: copiam modos e maneiras protestantes, enchendo as missas de músicas e “corinhos”, uns insossos como suas “homilias”, outros clonados de cantores evangélicos; e ensinam a falar em línguas estranhas. Até “mega-templos” estão adotando; fazem “batalha espiritual” e “cura interior”; e buscam a mistura com o que lhes parece mais popular. Se você ouve uma emissora católica pode ser facilmente confundido e pensar que é uma rádio cristã; mas logo as idolatrias aparecem e desfazem a farsa.
Mas isso é só a casca: a essência não mudará, não importa se o chefe seja nazista ou esquerdista, conservador ou “progressista”, europeu ou não-europeu. Os dogmas continuarão os mesmos: continuarão crendo que “sem Maria não há salvação”; que só “pedindo à mãe o filho atende”. Não vão acabar os “santos” mais lendários do que a “papisa” Joana. Continuarão com suas imagens, rezando pelos mortos, passando cinza na testa, acendendo velas, fazendo procissões, crismas, batizando crianças. A mulher não terá lugar de destaque; os “homens de preto” continuarão mais filósofos do que teólogos; ainda tentarão influenciar mais a política do que a vida espiritual das pessoas; seguirão sem poder casar e a assediar adolescentes imberbes. Nada mudará! Com a desculpa do “ecumenismo”, formarão a “igreja mundial” nos dias finais da humanidade.
Não se iluda: um dos principais objetivos dos “papas” foi e sempre será a destruição dos “hereges” e “cismáticos”, ou seja, todo aquele que crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática para o cristão, e por isso rejeita a tradição dos homens. Veja essa notícia: . O que eles chamam de “ecumenismo”, no fundo é isso: “um só rebanho, um só pastor”... desde que o “pastor” seja o “papa” de Roma.
E é por isso que você não deve se deixar iludir pela pompa e circunstância que cerca essa “actio inter amicos” que acontece em Roma, de tempos em tempos.
Doa a quem doer...

Fonte: Will Durant, História da Civilização, vol. IV, A Idade da Fé, Ed. Record, 2ª ed., p. 687/701; Earle Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos; Ed. Vida Nova, 2ª ed., p. 284/285.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os precursores da Reforma (2): Wycliffe

O ano é 1427. O lugar é a Inglaterra. O cenário é lúgubre. Às margens de um rio, alguns encapuzados lembram espectros saídos de um conto de Edgar Allan Poe ou membros de algum culto sinistro dos livros de H. P. Lovecraft. Ali perto, corvos empoleirados numa árvore morta dão um toque ainda mais macabro à cena: os homens acabaram de desenterrar um cadáver, colocaram-no sobre uma fogueira e agora observam, por entre a fumaça acre, as chamas consumirem o que restou de alguém morto 43 anos antes. Em seguida, realizarão algo impensável: reunirão as cinzas, e as lançarão nas águas do rio, para nunca mais serem encontrados vestígios do falecido. 

Todo esse terrível ritual ocorreu por ordem do papa. O crime do condenado, sentenciado após a própria morte, era ensinar que a Bíblia poderia ser lida pelo povo, e que não havia necessidade de intermediários entre Deus e os homens. O condenado era John Wycliffe. Wycliffe nasceu por volta de 1320 em uma família tradicional na região de Yorkshire, Inglaterra, e ainda jovem foi enviado para estudar na prestigiosa Universidade de Oxford, onde aplicou-se nos estudos de teologia, filosofia e legislação canônica. Tornou-se sacerdote e depois serviu como professor no Balliol College, ainda em Oxford. Por volta de 1365 tornou-se bacharel e, em 1372, doutor em teologia. Logo destacou-se pela firme defesa dos interesses nacionais contra o papado, ganhando reputação de patriota e reformista. Afirmava que havia um grande contraste entre o que a Igreja era e o que deveria ser, e por isso defendia reformas. Ele queria o retorno à primitiva pobreza dos apóstolos, o que era incompatível com o poder do papa e dos cardeais, e criticou duramente o sistema de venda de indulgências e a vida perdulária e luxuosa de religiosos sustentados com dinheiro do povo. Wycliffe defendia que era tarefa do Estado lutar contra tais abusos.  

Era a época da Guerra dos Cem Anos, contra a França. Na Inglaterra, tudo que era identificado como francês era visto como inimigo e aí se incluía o papado, que havia se transferido de Roma para Avignon. Os ingleses viam a idéia de enviar dinheiro aos papas como sustento do próprio inimigo. Nesse ambiente hostil à França e ao “papa”, Wyclif desfrutou de grande apoio, pois ele também entendia que o poder da Igreja devia ser limitado às questões espirituais, sendo o poder temporal exercido pelo rei. Para Wycliffe o cristão não precisava de “papa”, pois Deus está em toda parte. “Nosso papa é Cristo”, sustentava. Em sua opinião, a Igreja existiria sem um líder visível; os líderes surgiriam naturalmente, desde que vivessem os ensinamentos de Jesus. Dizia que eram suficientes os ensinos dos três primeiros séculos da Igreja. Defendia que as ordens monásticas não eram apoiadas pela Bíblia e deveriam ser abolidas, junto com suas propriedades.  

Mas, apesar de sua crescente popularidade, a Igreja apressou-se em censurá-lo. Em 1377, Wycliffe foi intimado a apresentar-se diante do Bispo de Londres para se explicar; uma multidão aglomerou-se na igreja para apoiar Wycliffe e houve animosidades com o bispo. Isto irritou ainda mais o clero e os ataques contra Wycliffe se intensificaram, acusando-o de blasfêmia, orgulho e heresia. Então o “papa” Gregorio XI expediu uma bula declarando que suas teses eram errôneas e perigosas.  Wycliffe então se retirou para sua casa em Lutterworth, onde reuniu sábios que o auxiliaram na tarefa de traduzir a Bíblia do latim para o inglês. Ele entendia que a Bíblia deveria ser a base de toda a doutrina da Igreja e a única norma da fé cristã. Sustentava que o “papa” ou os cardeais não possuíam autoridade para condenar suas teses, pois Cristo é a cabeça da Igreja e não os “papas”: a verdadeira autoridade emana da Biblia; na Bíblia se encontra a verdade, a fonte fundamental do Cristianismo e que, por isso, sem o conhecimento da Bíblia não haveria paz na Igreja e na sociedade. Com isso, contrapunha a autoridade das escrituras à autoridade papal: "Enquanto temos muitos papas e centenas de cardeais, suas palavras só podem ser consideradas se estiverem de acordo com a Bíblia". Idêntico princípio seguiria Lutero mais de 100 anos depois.  

Wycliffe acreditava que a Bíblia deveria estar disponível aos cristãos, na língua local. A ele devemos a tradução clara e uniforme do Novo Testamento, e em 1388 a população teria acesso em massa à Bíblia em idioma inglês. 

Apesar do empenho da igreja romana em destruir o trabalho de Wycliffe, ainda existem cerca de 150 manuscritos originais. Assim como a versão de Lutero teria grande influência sobre a língua alemã, também a versão de Wycliffe influenciou o idioma inglês, pela sua clareza, força e beleza.

Wycliffe faleceu de causas naturais no último dia do ano de 1384. 31 anos depois o “papa” o declarou herético, ordenou que todos os seus escritos fossem queimados e que seus restos mortais fossem exumados e queimados, o que foi cumprido em 1427 pelo "papa" Martinho V. Suas cinzas foram jogadas no rio Swift, que banha Lutterworth. Mas assim como as cinzas, levadas pelo rio, chegaram ao grande oceano e se espalharam, também suas idéias correram mundo e atingiram todo o ocidente cristão, preparando o caminho para a reforma do cristianismo, que viria poucos anos depois.

sábado, 19 de setembro de 2009

Os precursores da Reforma - parte 1

Agora já existe no calendário um tal “Dia do Evangélico”. Eu acho isso a maior besteira. Não precisamos – nem como brasileiros, nem como evangélicos – de mais um feriado. O pior de tudo é que a bancada que se diz evangélica – aqueles mesmos que aparecem de tempos em tempos prometendo mundos e fundos nas igrejas por aí afora – nem mesmo se deram ao trabalho de pesquisar qual deveria, de fato ser um dia dedicado ao cristão protestante, se tal coisa fosse importante. Se realmente fosse necessário existir esse dia, deveria ser o 31 de outubro. Não admito que me perguntem por que essa data e não 30 de fevereiro ou 31 de junho. Mas já que ninguém perguntou, vou dizer assim mesmo, pois tem gente que não sabe (os tais deputados, por exemplo): foi o dia em que Martinho Lutero pregou, na porta da catedral da cidade alemã de Wittenberg, em 1517, suas famosas 95 Teses, ou tópicos em que defendia que o papa não era assim essa sumidade toda não; pelo contrário, estavam sendo cometidos diversos erros doutrinários em relação à Bíblia, a única fonte de inspiração e regra para o cristão de todos os tempos.  

Assim, pensei em publicar uma série de artiguinhos sobre os primórdios da Reforma Protestante. Muita gente sabe, mas é sempre bom relembrar, ainda mais nesses tempos bicudos por que passamos, onde certas congregações recorrem a práticas que deviam ser abolidas (na verdade foram, mas os neo-cristãos as ressuscitaram com as mais variadas desculpas, e ainda inventaram outras novas). Rosa ungida, sabonete ungido, vassoura ungida, vale do sal, jogar pedra no gigante, orar de dentro da baleia, unção do riso, do leão, da águia e outros bichos, danças e piruetas, falar línguas esquisitas (que é diferente de línguas estranhas), toque no altar, toque do shofar, tremeliques, levitas, culto do cai-cai, reteté, costumes judaicos, e por aí vai.  

Vamos tentar fazer um esforço e imaginar como era a percepção bíblica e o viver diário desses homens e mulheres que viveram, lutaram e morreram pelo Evangelho genuíno e sem mistura, sem idolatria a esculturas e nem a líderes humanos. Pessoas que buscaram unicamente na Bíblia a orientação para o viver, desprezando "novas revelações" e buscando unicamente na Bíblia a orientação de Deus para o dia a dia. O anseio pelo retorno à simplicidade bíblica começou bem antes de Lutero. Durante a Idade Média, alguns grupos foram perseguidos por serem considerados hereges, mas na verdade, o que eles queriam era simplesmente um retorno às práticas da Igreja Primitiva, há muito abandonadas pelo catolicismo. Entre esses grupos, um dos mais expressivos foi o dos Valdenses.  

O movimento começou por volta de 1170, quando Pedro Valdo, um rico mercador de Lyon, sul da França, contratou alguns eruditos para traduzirem a Bíblia do latim para a língua local. Após estudar com afinco a tradução, Pedro Valdo chegou à conclusão de que os cristãos deveriam viver como os apóstolos, sem riqueza, sem propriedades... apóstolos de verdade, bíblicos... não como uns e outros que pululam hoje nos canais de TV, com anel de ouro, paletó ungido, caminhonete de luxo, jatinho particular, etc. Depois de distribuir seus bens entre os pobres (o que os ricos apóstolos de hoje não fariam nem sob tortura), Valdo reuniu um pequeno grupo que se vestia de maneira simples, andava descalço e levava uma vida de pureza.  

O clero não se opôs, a princípio: permitiram-lhes cantar nas igrejas. Mas quando começaram a pregar o Evangelho, foram advertidos de que só o bispo católico poderia ministrar. A essa altura (1179) a Bíblia já era de domínio público, e os valdenses haviam, inclusive, decorado grandes trechos da Palavra; com isso, passaram a desprezar o culto aos santos e imagens, o purgatório e outros ensinos estranhos ao Evangelho. Foram considerados hereges em 1184, e perseguidos juntamente com outros crentes, cujo crime era discordar da orientação papal. Desde então, milhares morreram na fogueira, trucidados por soldados e assassinados por mercenários a serviço de Roma, nas tristemente famosas “cruzadas contra os hereges”.  

Vendo que a violência era inútil para acabar com a fé genuína daquele povo, o papa decretou que ninguém mais deveria possuir a Bíblia, exceto alguns trechos de Salmos – mesmo assim, só em latim – para evitar comparações ente a Igreja de Atos e a católica. Foi espalhada a crença, que ainda permanece em alguns lugares, de que quem lê a Bíblia fica louco. E além disso, nos anos que se seguiram à perseguição, foi criada a Inquisição, instituição nefasta e de triste memória, a fim de, através de torturas físicas e psicológicas, intimidar os que não se submetessem aos dogmas da igreja oficial. Esse organismo sádico e mesquinho, ao longo dos séculos, mudou de nome e agora se chama “Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé”; seu mais ilustre dirigente e mentor recente foi um padre alemão chamado Joseph Ratzinger, a.k.a. “sua santidade ex-papa Bento XVI”.

Quanto aos valdenses, apesar de toda a brutalidade de que foram vítimas, e depois de séculos de perseguição atroz, ainda sobrevivem, no sul da França. Lá ainda existe um pequeno remanescente de cerca de 35 mil pessoas desse povo heróico que lançou as sementes da Reforma.  

Fonte: Will Durant, História da Civilização, vol. IV, A Idade da Fé, Ed. Record, 2ª ed., p. 687/688; Earle Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos; Ed. Vida Nova, 2ª ed., p. 186.