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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Oferta de primícias? parem com isso!


Antes de se escandalizar com a montagem acima, pare e pense no absurdo da cena. Fiz isso para que você pense se não é o que estão fazendo com o Evangelho hoje em dia. Pense por um instante se Jesus e os apóstolos (os de verdade, não esses “ching-ling de hoje) fariam se naqueles tempos tivessem a mentalidade de alguns picaretas da atualidade. Provavelmente o que vemos na montagem acima. Não penso em outra coisa quando me deparo com quem defende ofertas alçadas e de primícias para a Igreja hoje em dia.
Além dos textos de que falei no artigo anterior, há ainda outro utilizado para afirmar que as primícias devem ser usufruídas pelo pastor, que está em Ezequiel 44:30 – “Igualmente as primícias de todos os primeiros frutos de tudo, e toda oblação de tudo, de todas as vossas oblações, serão para os sacerdotes; também as primeiras das vossas massas dareis ao sacerdote, para fazer repousar uma bênção sobre a vossa casa”. Isso não era nada novo, pois em Levítico 23:10 já existia essa ordem (“Quando houverdes entrado na terra que eu vos dou, e segardes a sua sega, então trareis ao sacerdote um molho das primícias da vossa sega”).
Ezequiel teve um importante papel nas reformas de Israel após a queda de Jerusalém, em 587 a.C. Lutou com todas as suas forças para reconstruir o judaísmo, ensinando o povo a adorar a Deus da forma correta, para que o mal não voltasse a assolá-los. Ele não criou regras para os israelitas mas sim as recuperou, pois foram “esquecidas” com o tempo. Mas daí a afirmar que os líderes religiosos atuais são esses sacerdotes é inaceitável! Se lermos I Pedro 2:9, veremos que todos nós somos sacerdotes (segundo a ordem de Melquisedeque, e não de Levi, como ocorria com os israelitas) e Cristo é o sumo sacerdote (Hebreus 6:20). De mais a mais, assumir que os pastores de hoje são sucessores dos sacerdotes judeus significa aceitar que a repreensão de Malaquias 3:8-10 (ladrões) é para esses pastores (Malaquias 1:6 e 2:1). 
Talvez você concorde que as primícias não são para os pastores ou afins, mas esteja ainda com uma dúvida: Então são ofertas destinadas ao templo? Para esclarecermos, vejamos o contexto histórico e social do povo hebreu.
Havia sete festas anuais: a Páscoa (Pesach), que compreendia a festa dos pães ázimos, a Páscoa propriamente dita e a festa das primícias; a festa de Pentecostes (Shavuot); e a festa dos Tabernáculos (Succot), que compreendia a festa das Trombetas, o dia da Expiação (Yom Kippur) e Tabernáculos propriamente dita.  Em cada uma, algo era oferecido a Deus, com um determinado objetivo (o sacrifício de um animal, para purificação; a entrega de cereais, como agradecimento pela colheita etc.). Assim, fica fácil entender que essas festas faziam parte da cultura do povo hebreu e por isso, tinham tanto destaque. 
Particularmente, como não sou judeu, não tenho que comemorar nenhuma dessas festas, embora entenda o seu significado histórico/cultural e até mesmo o sentido profético delas, que apontam para a vida e obra do Messias (estudaremos isso mais adiante, se Deus permitir). Mas muitos pseudo-cristãos insistem em pedir “oferta de primícias” em dinheiro, citando – como sempre – vários trechos do Antigo Testamento, retirados do contexto puramente hebreu.
Na sua fome por dinheiro, certos líderes inventam de citar Gênesis 4:3,4, com a seguinte justificativa:Deus não teria recebido a oferta de Caim por não ser a primeira parte  [primícias] dos frutos”. Ora, a Bíblia não relata o motivo da rejeição da oferta de Caim, o que dá margem para inúmeras interpretações. Obviamente, não faltaria a opinião de que a oferta foi rejeitada por não ser o primeiro fruto da terra. Porém não é o que o texto diz. Pelo contrário, a palavra “também” (“Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas”) sugere que ambos ofertaram as primícias do que produziram. Sendo assim, o motivo da não aceitação da oferta deve ter sido outro. Em I João 3:11,12 lemos: [Caim]...era do maligno”, e ainda: “as suas obras eram más”. Aqui temos uma “dica” importante: Caim tinha um coração corrompido, mau, e isso refletia em suas obras. Como Deus aceitaria uma oferta de alguém nessa situação? De qualquer forma, pelo fato de estarmos na Graça, essa discussão não é relevante para o nosso assunto.
Também tentam usar Êxodo 23:19, “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa o SENHOR teu Deus...” e o já citado Provérbios 3:9,10, “Honra ao SENHOR com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos; e se encherão os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares”. Mas o fato é que ambas as passagens se referem, sem a menor sombra de dúvida, ao contexto dos hebreus, dos judeus, dos filhos de Israel. Nós, cristãos, estamos debaixo da Nova Aliança, e não estamos sujeitos à Lei, portanto esses textos jamais devem ser usados para nortear nossas ações. 
Na Lei havia promessas materiais; na Graça há promessas espirituais. Por isso a referência constante às janelas do céu (chuva para a colheita), aos gafanhotos devoradores (pragas naturais) etc. Porém, quem insiste que o Velho Testamento se aplica à Igreja, por que ignora os demais versículos? Leiamos também o versículo que antecede Êxodo 23:18, o já citado “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa o SENHOR teu Deus”; leiamos o verso 18 de Êxodo 23 para verificar o contexto: “Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem ficará da noite para a manhã a gordura da minha festa”. Algum pastor faz isso? Alguma igreja pratica isso? Portanto, só podem exigir primícias se também voltarem a oferecer sacrifícios de animais, com derramamento de sangue e pão levedado, e guardar o sábado, por exemplo. por que pegar só uma parte do mandamento sobre ofertas?
No período da lei mosaica (e até mesmo antes dela, como fez Abel), a consagração da primeira parte da produção a Deus era uma forma de reconhecer que Ele era o que tinham de mais precioso na vida. Era um exercício de fé - o que fez Abel - e ao mesmo tempo, um “lembrete” a um povo de coração duro: que Deus deve estar sempre em primeiro lugar. Quando Jesus veio ao mundo, deixou esse mesmo ensino (Mateus 6:33), porém, a diferença foi que jamais instituiu uma regra ou um rito para que provássemos isso. O “amar a Deus sobre todas as coisas” está baseado não na Lei (repleta de cerimônias), mas na Graça, que ensina obediência e entrega de frutos espirituais. 
Provérbios 3:9,10 ilustra bem a crença dos hebreus: ao santificarem ao Senhor as primícias, o restante da produção também ficaria santificada. Assim, a benção de Deus seria abundante entre eles. Há inúmeros outros textos que falam das primícias, porém, todos destinados aos israelitas: Neemias 10:34,35 e 13:31; II Crônicas 31:5; Números 15:17-21 e 18:12; Deuteronômio 18:3-5 e 26:10; etc.
Mas muitos pastores afirmam: “as primícias existem também no Novo Testamento, logo, é nosso dever entregá-las”. E citam Romanos 8:23, “E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. Mas penso que só pode ser uma “pegadinha” alguém associar as primícias do Novo Testamento àquela oferta da Antiga Aliança. Só podem estar de brincadeira; o texto é muito claro. São primícias do Espírito! É como se essas primícias fossem uma “palhinha”, uma amostra de toda a Glória que nos espera, citada no versículo 18 (“Pois tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada”).
Também gostam de Romanos 11:16, “E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa, também os ramos o são”. Aqui, novamente, não tem nada a ver com ofertas. Chegam ao absurdo de dizer que a oferta de primícia serve para “santificar o dízimo” (veja aqui se estou exagerando). Pelo contrário, o ensino de Paulo (em linguagem metafórica) envolve a salvação. Paulo diz que se os judeus, de início (representados pelas primícias, a matéria-prima), eram santos, também o serão os gentios que crerem (a massa pronta). Há ainda outra comparação, feita pelo apóstolo: os judeus seriam uma oliveira cultivada, que teria ramos tirados (os incrédulos); os gentios seriam uma oliveira silvestre (“brava”), mas enxertada na oliveira boa. Com isso, Paulo passou duas mensagens principais:
1 - Aqueles que aceitassem a mensagem de Jesus posteriormente (gentios) seriam tão santos quanto os que deram ouvidos a essa mensagem muito tempo antes (judeus convertidos);
- Os gentios que aceitaram o Evangelho não deveriam vangloriar-se e acharem-se melhores do que os judeus incrédulos, pois o que determinou a salvação deles foi a fé e não méritos pessoais (o “ser judeu” versus ser justo, seguir Cristo, ser fiel etc.).  Outros textos, como I Coríntios 15:20 e Tiago 1:18, dispensam comentários, pois o significado de “primícias” é bem claro e nada tem a ver com ofertas. 
Negar-se a aceitar o dízimo e a oferta de primícias não é ser “mão de vaca”; é lutar pelo verdadeiro Evangelho, puro e simples. Alguns dizem que o motivo de alguns não concordarem com isso é o amor ao dinheiro, mas é justamente o contrário: quem cobra é que tem amor ao dinheiro! Se fossem pregados os ensinos de Jesus e dos apóstolos, as pessoas teriam convicção de sua fé, veriam que não há ganância por parte das igrejas e dariam suas ofertas com amor. Afinal, Deus jamais deixaria Sua obra perecer sem recursos. Devemos dar ofertas porque recebemos e nunca para recebermos (“princípio da semeadura”)!
Por que não entregamos as primícias dos frutos do espírito (citados em Gálatas 5:22) ao Senhor? Ou melhor, porque não dedicamos a totalidade desses frutos a Ele? Esse seria, com certeza, um ato louvável e que estaria de acordo com a Palavra de Deus. Ou somos judeus ou somos cristãos! Aceitar a Cristo e ficar preso à Lei não é o que o apóstolo Paulo nos ensinou. 
Alguns alegam que as ofertas voluntárias (essas sim têm apoio no Evangelho) são insuficientes para a manutenção do templo, para as atividades que a igreja mantém e para o sustento dos obreiros. Assim, jamais poderiam ensinar que o dízimo não é válido na atualidade (mesmo com todas as evidências) ou que não existe mais oferta de primícias. Ao contrário, insistem que devemos contribuir com a maior quantidade possível de dinheiro (e até impossível, como ocorre nos famigerados desafios), enchendo todos os envelopes que entregam (cada dia é uma oferta diferente, é primícia, é alçada, é de talento, de príncipe, “oferta teryman, de gratidão, etc.). Dessa forma, dizem, receberemos muito mais de Deus. Muitos rebaixam o Evangelho a isso, o que é lamentável, e inúmeras almas deixam de seguir a Cristo por causa desse “cristianismo às avessas”.
Apoio a idéia de que seja reduzido o tempo dos programas na TV (afinal, a maior parte deles é para pedir dinheiro ou para enrolar o povo, passando a mensagem que o indivíduo daquela igreja tem bom emprego, não tem problemas, recebe curas... e do que Jesus mandou pregar, nada!).  Vejam que as igrejas no Brasil já arrecadam mais de R$ 20 bilhões por ano, quase o que foi gasto com estádios e outras obras da Copa, tão criticados inclusive por muitos pastores! Por que não dão um exemplo à nação e usam essa grana toda para construir os tão desejados hospitais? Ou escolas, já que reclamam tanto da situação da Educação no País... ou para caridade, já que tanta gente se diz contra as bolsas e auxílios do Governo aos mais pobres... São R$ 20 bilhões! Penso que devemos parar de construir templos luxuosos, e também que não sejam pagas fortunas a cantores e para pregadores, e também que o salário dos pastores não esteja na casa de dezenas de salários mínimos. Posso garantir que, se fizermos isso, as ofertas espontâneas dos fiéis serão suficientes para a propagação do Evangelho, e melhor ainda: deixaremos de transgredir vários ensinos bíblicos.

Referências:
COLEMAN, WILLIAM L. Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos. Editora Betânia, 1ª Edição, 1991.
Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis
Doutrina da Oferta de Primícias – Debate 93 FM
http://theologizando.blogspot.com/2009/08/dizimos-ofertas-e-primicias-sao-para.html

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