segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os precursores da Reforma (2): Wycliffe

O ano é 1427. O lugar é a Inglaterra. O cenário é lúgubre. Às margens de um rio, alguns encapuzados lembram espectros saídos de um conto de Edgar Allan Poe ou membros de algum culto sinistro dos livros de H. P. Lovecraft. Ali perto, corvos empoleirados numa árvore morta dão um toque ainda mais macabro à cena: os homens acabaram de desenterrar um cadáver, colocaram-no sobre uma fogueira e agora observam, por entre a fumaça acre, as chamas consumirem o que restou de alguém morto 43 anos antes. Em seguida, realizarão algo impensável: reunirão as cinzas, e as lançarão nas águas do rio, para nunca mais serem encontrados vestígios do falecido. 

Todo esse terrível ritual ocorreu por ordem do papa. O crime do condenado, sentenciado após a própria morte, era ensinar que a Bíblia poderia ser lida pelo povo, e que não havia necessidade de intermediários entre Deus e os homens. O condenado era John Wycliffe. Wycliffe nasceu por volta de 1320 em uma família tradicional na região de Yorkshire, Inglaterra, e ainda jovem foi enviado para estudar na prestigiosa Universidade de Oxford, onde aplicou-se nos estudos de teologia, filosofia e legislação canônica. Tornou-se sacerdote e depois serviu como professor no Balliol College, ainda em Oxford. Por volta de 1365 tornou-se bacharel e, em 1372, doutor em teologia. Logo destacou-se pela firme defesa dos interesses nacionais contra o papado, ganhando reputação de patriota e reformista. Afirmava que havia um grande contraste entre o que a Igreja era e o que deveria ser, e por isso defendia reformas. Ele queria o retorno à primitiva pobreza dos apóstolos, o que era incompatível com o poder do papa e dos cardeais, e criticou duramente o sistema de venda de indulgências e a vida perdulária e luxuosa de religiosos sustentados com dinheiro do povo. Wycliffe defendia que era tarefa do Estado lutar contra tais abusos.  

Era a época da Guerra dos Cem Anos, contra a França. Na Inglaterra, tudo que era identificado como francês era visto como inimigo e aí se incluía o papado, que havia se transferido de Roma para Avignon. Os ingleses viam a idéia de enviar dinheiro aos papas como sustento do próprio inimigo. Nesse ambiente hostil à França e ao “papa”, Wyclif desfrutou de grande apoio, pois ele também entendia que o poder da Igreja devia ser limitado às questões espirituais, sendo o poder temporal exercido pelo rei. Para Wycliffe o cristão não precisava de “papa”, pois Deus está em toda parte. “Nosso papa é Cristo”, sustentava. Em sua opinião, a Igreja existiria sem um líder visível; os líderes surgiriam naturalmente, desde que vivessem os ensinamentos de Jesus. Dizia que eram suficientes os ensinos dos três primeiros séculos da Igreja. Defendia que as ordens monásticas não eram apoiadas pela Bíblia e deveriam ser abolidas, junto com suas propriedades.  

Mas, apesar de sua crescente popularidade, a Igreja apressou-se em censurá-lo. Em 1377, Wycliffe foi intimado a apresentar-se diante do Bispo de Londres para se explicar; uma multidão aglomerou-se na igreja para apoiar Wycliffe e houve animosidades com o bispo. Isto irritou ainda mais o clero e os ataques contra Wycliffe se intensificaram, acusando-o de blasfêmia, orgulho e heresia. Então o “papa” Gregorio XI expediu uma bula declarando que suas teses eram errôneas e perigosas.  Wycliffe então se retirou para sua casa em Lutterworth, onde reuniu sábios que o auxiliaram na tarefa de traduzir a Bíblia do latim para o inglês. Ele entendia que a Bíblia deveria ser a base de toda a doutrina da Igreja e a única norma da fé cristã. Sustentava que o “papa” ou os cardeais não possuíam autoridade para condenar suas teses, pois Cristo é a cabeça da Igreja e não os “papas”: a verdadeira autoridade emana da Biblia; na Bíblia se encontra a verdade, a fonte fundamental do Cristianismo e que, por isso, sem o conhecimento da Bíblia não haveria paz na Igreja e na sociedade. Com isso, contrapunha a autoridade das escrituras à autoridade papal: "Enquanto temos muitos papas e centenas de cardeais, suas palavras só podem ser consideradas se estiverem de acordo com a Bíblia". Idêntico princípio seguiria Lutero mais de 100 anos depois.  

Wycliffe acreditava que a Bíblia deveria estar disponível aos cristãos, na língua local. A ele devemos a tradução clara e uniforme do Novo Testamento, e em 1388 a população teria acesso em massa à Bíblia em idioma inglês. 

Apesar do empenho da igreja romana em destruir o trabalho de Wycliffe, ainda existem cerca de 150 manuscritos originais. Assim como a versão de Lutero teria grande influência sobre a língua alemã, também a versão de Wycliffe influenciou o idioma inglês, pela sua clareza, força e beleza.

Wycliffe faleceu de causas naturais no último dia do ano de 1384. 31 anos depois o “papa” o declarou herético, ordenou que todos os seus escritos fossem queimados e que seus restos mortais fossem exumados e queimados, o que foi cumprido em 1427 pelo "papa" Martinho V. Suas cinzas foram jogadas no rio Swift, que banha Lutterworth. Mas assim como as cinzas, levadas pelo rio, chegaram ao grande oceano e se espalharam, também suas idéias correram mundo e atingiram todo o ocidente cristão, preparando o caminho para a reforma do cristianismo, que viria poucos anos depois.

sábado, 19 de setembro de 2009

Os precursores da Reforma - parte 1

Agora já existe no calendário um tal “Dia do Evangélico”. Eu acho isso a maior besteira. Não precisamos – nem como brasileiros, nem como evangélicos – de mais um feriado. O pior de tudo é que a bancada que se diz evangélica – aqueles mesmos que aparecem de tempos em tempos prometendo mundos e fundos nas igrejas por aí afora – nem mesmo se deram ao trabalho de pesquisar qual deveria, de fato ser um dia dedicado ao cristão protestante, se tal coisa fosse importante. Se realmente fosse necessário existir esse dia, deveria ser o 31 de outubro. Não admito que me perguntem por que essa data e não 30 de fevereiro ou 31 de junho. Mas já que ninguém perguntou, vou dizer assim mesmo, pois tem gente que não sabe (os tais deputados, por exemplo): foi o dia em que Martinho Lutero pregou, na porta da catedral da cidade alemã de Wittenberg, em 1517, suas famosas 95 Teses, ou tópicos em que defendia que o papa não era assim essa sumidade toda não; pelo contrário, estavam sendo cometidos diversos erros doutrinários em relação à Bíblia, a única fonte de inspiração e regra para o cristão de todos os tempos.  

Assim, pensei em publicar uma série de artiguinhos sobre os primórdios da Reforma Protestante. Muita gente sabe, mas é sempre bom relembrar, ainda mais nesses tempos bicudos por que passamos, onde certas congregações recorrem a práticas que deviam ser abolidas (na verdade foram, mas os neo-cristãos as ressuscitaram com as mais variadas desculpas, e ainda inventaram outras novas). Rosa ungida, sabonete ungido, vassoura ungida, vale do sal, jogar pedra no gigante, orar de dentro da baleia, unção do riso, do leão, da águia e outros bichos, danças e piruetas, falar línguas esquisitas (que é diferente de línguas estranhas), toque no altar, toque do shofar, tremeliques, levitas, culto do cai-cai, reteté, costumes judaicos, e por aí vai.  

Vamos tentar fazer um esforço e imaginar como era a percepção bíblica e o viver diário desses homens e mulheres que viveram, lutaram e morreram pelo Evangelho genuíno e sem mistura, sem idolatria a esculturas e nem a líderes humanos. Pessoas que buscaram unicamente na Bíblia a orientação para o viver, desprezando "novas revelações" e buscando unicamente na Bíblia a orientação de Deus para o dia a dia. O anseio pelo retorno à simplicidade bíblica começou bem antes de Lutero. Durante a Idade Média, alguns grupos foram perseguidos por serem considerados hereges, mas na verdade, o que eles queriam era simplesmente um retorno às práticas da Igreja Primitiva, há muito abandonadas pelo catolicismo. Entre esses grupos, um dos mais expressivos foi o dos Valdenses.  

O movimento começou por volta de 1170, quando Pedro Valdo, um rico mercador de Lyon, sul da França, contratou alguns eruditos para traduzirem a Bíblia do latim para a língua local. Após estudar com afinco a tradução, Pedro Valdo chegou à conclusão de que os cristãos deveriam viver como os apóstolos, sem riqueza, sem propriedades... apóstolos de verdade, bíblicos... não como uns e outros que pululam hoje nos canais de TV, com anel de ouro, paletó ungido, caminhonete de luxo, jatinho particular, etc. Depois de distribuir seus bens entre os pobres (o que os ricos apóstolos de hoje não fariam nem sob tortura), Valdo reuniu um pequeno grupo que se vestia de maneira simples, andava descalço e levava uma vida de pureza.  

O clero não se opôs, a princípio: permitiram-lhes cantar nas igrejas. Mas quando começaram a pregar o Evangelho, foram advertidos de que só o bispo católico poderia ministrar. A essa altura (1179) a Bíblia já era de domínio público, e os valdenses haviam, inclusive, decorado grandes trechos da Palavra; com isso, passaram a desprezar o culto aos santos e imagens, o purgatório e outros ensinos estranhos ao Evangelho. Foram considerados hereges em 1184, e perseguidos juntamente com outros crentes, cujo crime era discordar da orientação papal. Desde então, milhares morreram na fogueira, trucidados por soldados e assassinados por mercenários a serviço de Roma, nas tristemente famosas “cruzadas contra os hereges”.  

Vendo que a violência era inútil para acabar com a fé genuína daquele povo, o papa decretou que ninguém mais deveria possuir a Bíblia, exceto alguns trechos de Salmos – mesmo assim, só em latim – para evitar comparações ente a Igreja de Atos e a católica. Foi espalhada a crença, que ainda permanece em alguns lugares, de que quem lê a Bíblia fica louco. E além disso, nos anos que se seguiram à perseguição, foi criada a Inquisição, instituição nefasta e de triste memória, a fim de, através de torturas físicas e psicológicas, intimidar os que não se submetessem aos dogmas da igreja oficial. Esse organismo sádico e mesquinho, ao longo dos séculos, mudou de nome e agora se chama “Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé”; seu mais ilustre dirigente e mentor recente foi um padre alemão chamado Joseph Ratzinger, a.k.a. “sua santidade ex-papa Bento XVI”.

Quanto aos valdenses, apesar de toda a brutalidade de que foram vítimas, e depois de séculos de perseguição atroz, ainda sobrevivem, no sul da França. Lá ainda existe um pequeno remanescente de cerca de 35 mil pessoas desse povo heróico que lançou as sementes da Reforma.  

Fonte: Will Durant, História da Civilização, vol. IV, A Idade da Fé, Ed. Record, 2ª ed., p. 687/688; Earle Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos; Ed. Vida Nova, 2ª ed., p. 186. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entre a Fé e a Razão, um tanto de Filosofia e outro tanto de Teologia

Já provamos, para desgosto de alguns, que algumas teorias pseudo-científicas pervertem os métodos científicos necessários para validação de hipóteses. Por exemplo, para validar uma teoria ou conjectura, são necessárias a observação, a medição, a formulação da hipótese, a experimentação e finalmente a validação ou não da teoria.

No caso da polêmica teoria da evolução, faz 200 anos que virtualmente todo ser vivo neste planeta está sob observação. Formularam-se hipóteses sobre a origem da vida a partir de organismos menos complexos à medida que se recua no tempo, até a aparição fortuita da primeira molécula de DNA, etc. Pois bem, tudo isto está em desacordo com o método científico, como demonstramos em (http://doa-a-quem-doer.blogspot.com/2008/09/como-teoria-da-evoluo-perverte-o-mtodo.html), o que fez carótidas saltarem e a produção de saliva aumentar em alguns primatas.
A teoria da evolução, portanto, carece de comprovação, pois não há experimento que a valide. Para isso, teríamos que esperar mais alguns milhões de anos até que novos saltos evolutivos sejam detectados. Obviamente, isto é uma falácia. No afã de desautorizar qualquer outra explicação da origem do universo, das espécies e da humanidade, alguns cientistas rejeitam tudo o que não compreendem. Para quem pensa dessa forma rarefeita é difícil mudar o mecanismo mental. O apóstolo Paulo já havia notado isto: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente... Porque a sabedoria deste mundo é loucura para Deus” (I Coríntios 2:14 e 3:19).
Quando alguns cientistas advogam que apenas a “ciência” pode dar a última palavra, estão sendo tão dogmáticos quanto os religiosos que eles mesmos insistem em denegrir. Na verdade, ainda estão presos ao positivismo, corrente filosófica em declínio há décadas, que prega que tudo que não for “científico” é ingenuidade: tudo o mais é tratado como vigarice, charlatanismo e obscurantismo. Esquecem-se propositalmente que nem sempre é possível ter certeza se o conhecimento em questão é realmente científico. Daqui a cem anos o que hoje é considerado “ciência” poderá perder totalmente a sua credibilidade, quanto mais as chamadas “teorias” que não têm como ser testadas e comprovadas...
O badalado cientista-pop Carl Sagan é um exemplo acabado disto. Ele afirma, com a maior cara de pau, que “o Universo tem de 8 a 15 bilhões de anos, e não 6 ou 12 mil anos”. Como pode ter tanta certeza? Quer dizer, entre uma cifra e outra há uma diferença de 7 bilhões de anos! Ou seja, a margem de erro é quase igual à própria estimativa... Se há uma coisa em que existem controvérsias, é a idade do Universo.
Esse dogmatismo cientificista comparável a uma religião, posto que possui todos os elementos de um culto, exatamente o que os intelectualóides criticam: como a maioria das religiões, possui uma narrativa (que explica o começo do mundo); depois, visando a legitimação e a validade de seu sistema cosmogônico, o intelectualóide cita uma descoberta (a “revelação”) ou a obtenção de uma sabedoria ou conhecimento superior por parte do fundador (como sucede nas religiões em geral). Os adeptos devem então fazer uma profissão de fé, isto é, defender publicamente o ponto de vista do grupo para serem aceitos na comunidade. E finalmente, defendem sua crença até a morte. E assim caem no erro sobre o qual Jesus advertiu: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7:1-5).
Mas, caso a citação bíblica provoque nova apoplexia, vamos para o campo das ciências humanas. A Psicologia e a Sociologia demonstram o fenômeno conhecido como ideologia, que explica claramente a influência de determinados conceitos, predominantes em certos grupos sociais, no modo de pensar e ver as coisas; daí a sua força, o conceito de “Ideologia dominante”, um conjunto de valores e normas que influencia, para o bem ou para o mal, a noção de conhecimento objetivo que deveria ser a Ciência. Prova disso foram os “cientistas” de ideologia nazista, para quem diferenças raciais “explicavam” a superioridade ariana (a evolução das espécies e a sobrevivência dos mais aptos serviram como luvas).
Carl Sagan pelo menos teve a coragem de assumir que “... os cientistas alimentam inúmeras doutrinas nocivas - inclusive a suposta superioridade de um grupo étnico ou de um gênero em relação ao outro, com base em medições do tamanho do cérebro, saliências do crânio ou testes de inteligência. Com freqüência relutam em ofender os ricos e poderosos. De quando em quando, alguns trapaceiam e roubam. Alguns trabalharam sem nenhum vestígio de remorso para os nazistas... gostam de se lembrar daqueles casos em que tinham razão e esquecer as vezes em que estavam errados... Talvez fosse útil que os cientistas listassem de vez em quando alguns de seus erros... Kepler, Newton, Darwin, Mendel e Einstein cometeram erros sérios. Nós temos vieses; inalamos os preconceitos predominantes em nosso meio...” (“O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, pág. 221 e 223). Nesse livro, no capítulo “Quando os cientistas conhecem o pecado”, ele reconhece a manipulação da ciência para fins políticos e hegemônicos, e termina com a pergunta enigmática: “Que área do empreendimento humano não é moralmente ambígua?” (página 250).
Resumindo, é muito cômodo para os evolucionistas apelidarem os outros de obscurantistas, ingênuos, retrógrados e outros termos pejorativos, quando eles próprios agem assim. E pior, são incapazes de olhar criticamente para o próprio conhecimento que acreditam ter, quando suas teorias são, de acordo com os próprios métodos, impossíveis de serem comprovadas e portanto, validadas como leis. Dessa forma, voltamos ao Apóstolo dos Gentios, que há 1900 anos já havia percebido essa incapacidade, doa a quem doer.
Sagan caiu nessa armadilha. Em seu citado livro, cujo nome foi retirado de antigas escrituras hindus, pretende mostrar a validade da ciência frente às demais formas de conhecimento. E vai até bem, ao confrontar a ciência com o que o cientista argentino Carlos Lungarzo, mestre e doutor em Filosofia e Matemática, chama de “senso comum”, incluindo narrativas envolvendo óvnis, o poder das pirâmides e cristais, o fim da Atlântida, criaturas fantásticas como o yeti, etc. Mas quando se mete a falar do que não entende, fala asneiras. Ao citar a Bíblia como anti-científica, diz que “no Gênesis, lemos sobre anjos que copulam com as filhas dos homens” (pág. 113). A Bíblia não diz isto! Como Voltaire 200 anos antes, atribui à Bíblia coisas que não estão lá, e tenta culpá-la pela Inquisição e pela caça às bruxas. Como outros críticos da Bíblia, ele pensa que todos os cristãos estão na Idade Média: “As realizações máximas da teologia ... são a Summa Theologica e a Summa Contra Gentiles (contra os gentios.) de são Tomás de Aquino” (pág. 238).
E a certa altura ele questiona como um Deus amoroso ordenou que os hebreus exterminassem outros povos sem dó nem piedade. Isso se deve ao seu desconhecimento do conceito bíblico do dispensacionalismo. Aliás, mesmo alguns cristãos têm dificuldade em não discernir essa doutrina, quando confundem, por exemplo, a questão do dízimo e dos elementos judaicos no culto cristão... mas isso é outro assunto.
O que deve ficar claro, e assim encerramos este tópico, é que a crítica dos cientistas a outros sistemas de pensamento deve-se muito mais às próprias limitações no entendimento “do outro” do que propriamente às falhas dos modelos de pensamento que não sejam cientificistas e dogmáticos como, via de regra, são aqueles sob os quais se abrigam os críticos e “hereges profissionais”.

DOA A QUEM DOER!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Entre a Fé e a Razão: um tanto de Filosofia e outro tanto de Teologia

Como comentamos antes (http://doa-a-quem-doer.blogspot.com/2009/07/ateu-admite-africa-necessita-de-deus-e.html), o Cristianismo é baseado no relacionamento do Homem com o Divino, que lhe é superior e sobrenatural; mas isto o homem “racional” não admite, como o padre Quevedo, que a tudo responde: “isto non ecziste!”.
Cientistas de todos os matizes e tendências, grosso modo, refletem essa estreiteza de pensamento (há exceções, evidentemente, mas são raras). No entanto, há duas explicações para tal comportamento: uma racional, e uma espiritual.
A racional primeiro, doa a quem doer. A “intelligentsia” ocidental foi, em grande parte, moldada pelo racionalismo do século XVIII – Rousseau e Voltaire, dentre outros (por sua vez influenciados pelo pensamento grego, principalmente a lógica aristotélica). Lembremo-nos de que o Homem buscava se livrar da herança medieval, e impulsionado pelas idéias do Renascimento, ressaltar seu papel na História e fugir de toda e qualquer referência a Deus e ao sobrenatural. Só valiam as experiências objetivas, racionais, empíricas. De fato, isto fomentou a pesquisa e o desenvolvimento de técnicas e ferramentas que trouxeram progresso a algumas partes do mundo e o incremento do comércio; e consequentemente a exploração de segmentos da população por outras, o colonialismo, etc. No campo das idéias, no “século das luzes” cresceram os ideais republicanos e democráticos, a declaração dos direitos do Homem, o conceito da liberdade etc. Mas sem o fiel da balança (a Lei de Deus), a democracia virou o Terror, a liberdade virou libertinagem e a moral virou “amoralidade”. Sade escreveu: “se o Homem é, o que quer que seja, é certo”. Vale tudo. “Tudo é relativo”, dizem hoje. “O que é pecado para você, não é para mim”. Como na primitiva Canaã: cada um fazia o que queria (Juízes 17:6 e 25:21).
Kant tentou harmonizar o mundo naturalista/físico com o que ainda restava de espiritualidade: ele entendeu que o Homem não poderia ser uma criatura saudável sem seu lado espiritual; o ensino bíblico de que o Homem foi criado com corpo, alma e espírito, nitidamente distintos – coisa que os naturalistas não entendem. Freud, com sua idéia de id, ego e super-ego, chegou perto do conceito bíblico do homem tricotômico; mas confundiu as manifestações da alma com as do espírito. Kant anteviu esse erro filosófico: não há como conceber uma natureza autônoma, independente; o espírito, a graça, Deus, e por fim a própria liberdade perdem o sentido. A liberdade torna-se sua própria antítese, a não-liberdade, pois o Homem agora é escravo da natureza – eis aqui o determinismo que vai parir o Darwinismo, a Psicanálise e o Espiritismo.
Hegel então aparece propondo que, em vez de conceber o mundo como tese x antítese, devíamos raciocinar em termos de tese + antítese = síntese, antecipando a dialética marxista. Mas a síntese hegeliana também é falha enquanto campo unificado do conhecimento, porque continua apoiada na independência do Homem em relação a Deus. Falta o verdadeiro conhecimento que o Homem racional despreza. E embora Descartes houvesse teorizado sobre o “dualismo psicofísico” (a distinção e a interdependência entre corpo e mente), em Kierkegaard há o rompimento final entre o espaço natural/racional e o espiritual. É como uma casa de dois andares: no de baixo, racionalidade e lógica, no de cima, o não-racional e o não-lógico. Não há comunicação entre os andares. No andar de baixo, a matemática, a mecânica, sem significado, sem propósito, sem sentido, apenas o pessimismo e a morte. Até Deus está morto. Só é possível sair desse desespero por breves instantes, via drogas ou hipnose, como propagaram Jung, Leary e Burroughs. E aí surge o existencialismo de Sartre, Camus e Heidegger, dentre outros. Note que por falta de espaço pulamos Nietzche, a morte de Deus e a ascenção do Super-Homem (não o kriptoniano, mas os semi-deuses que vão inspirar a “supremacia ariana” de Hitler). O fato é que toda essa confusão está no andar de baixo; em cima, no nível não-racional, não-razoável, estão a fé e a esperança.
Os cientistas, de modo geral, habitam no andar de baixo. Não conseguem sequer imaginar que há um andar acima deles. Não podem. Quando se tenta abrir um túnel, ainda é com base na racionalidade: o espiritismo é uma tentativa nesse sentido, posto que é, na verdade, uma pseudo-ciência, uma adaptação tosca da teoria da evolução à teologia. A única ligação possível entre esses dois mundos é Cristo. Só Ele pode restaurar a ruptura entre o mundo natural (incluindo-se aqui a alma do Homem) e o mundo espiritual. Quando se rejeita esse Caminho, surgem as “alternativas”: misticismo, meditação, reencarnação e outros “atalhos”.  
Agora entramos na segunda explicação, a espiritual.
Esta parte vai ser difícil para os racionalistas.
Para alguém acostumado a pensar de forma rarefeita (não só do ramo das exatas, mas também das ciências sociais) é difícil mudar o mecanismo mental. O apóstolo Paulo já havia notado isto: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente... Porque a sabedoria deste mundo é loucura para Deus” (I Coríntios 2:14 e 3:19).
O mundo crê que o Cristianismo é uma entre muitas religiões e, como tal, uma quimera, uma ilusão em uma existência cheia de sofrimento. Como disseram Feuerbach, Hegel e Marx, uma forma de alienação, donde “a religião é o ópio do povo” (discutiremos isso depois). Mas o Cristianismo não é uma religião, não é dogma; é relacionamento. Como disse alguém, “conhecer a história de Cristo não é o mesmo que conhecer o Cristo da História”. E então caçoam da velha narrativa do Gênesis (que para eles é apenas um mito):
A serpente aparece a Eva, cheia de conversa: "É verdade que Deus falou assim e assado?"... e põe Deus sob suspeita. Eva cai na lábia e ainda acrescenta coisas que Deus não falou. A serpente então diz que o mundo não é bem assim não, que Deus está escondendo o jogo. Mas ela, a serpente, tem a resposta: basta desobedecer a Deus e seguir o atalho alternativo para ser como Ele, o rei do pedaço. Eva topa, e o resultado já sabemos.
Assim caminha a Humanidade desde então. Ao desprezar o relacionamento com Deus, fechou a comunicação com o andar de cima, e ainda está na mata fechada à procura do caminho perdido[1]; ainda não percebeu que precisa aceitar a ponte que Deus providenciou, por meio da morte e ressurreição do Filho. Só Ele pode restaurar a harmonia de um mundo sem Deus, reunindo novamente o corpo, a alma e o espírito do Homem renascido com um planeta restaurado e com o Criador.
Mas, presos à grossa corrente de ferro que nos liga ao andar de baixo, não dá para crer nisso. O tecnicismo nos impede de ultrapassar reino, filo, classe, ordem, família, gênero, espécie e subespécie... A cobra é chordata, reptilia, squamata, sem patas, pecilotérmica, algumas ovíparas, mas nenhuma possui laringe e cordas vocais capazes de transmitir sons inteligíveis aos mamíferos bípedes, primatas, vivíparos... É como a pregação de Noé aos antediluvianos ou a de Paulo aos atenienses: chega um ponto em que os intelectuais dizem: “O quê? Tá doido? Chega, outro dia a gente continua”. É muito para eles: “...o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura”. Ou, como disse Kierkegaard, “a fé é um escândalo para a razão”.
Se insistirmos em ficar no andar de baixo, não há esperança.
Só átomos girando desvairados à espera de que um acaso passe a lhes dar algum sentido.
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[1] Dante, “A Divina Comédia, Inferno I :1,2