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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os precursores da Reforma (2): Wycliffe

O ano é 1427. O lugar é a Inglaterra. O cenário é lúgubre. Às margens de um rio, alguns encapuzados lembram espectros saídos de um conto de Edgar Allan Poe ou membros de algum culto sinistro dos livros de H. P. Lovecraft. Ali perto, corvos empoleirados numa árvore morta dão um toque ainda mais macabro à cena: os homens acabaram de desenterrar um cadáver, colocaram-no sobre uma fogueira e agora observam, por entre a fumaça acre, as chamas consumirem o que restou de alguém morto 43 anos antes. Em seguida, realizarão algo impensável: reunirão as cinzas, e as lançarão nas águas do rio, para nunca mais serem encontrados vestígios do falecido. Todo esse terrível ritual ocorreu por ordem do papa. O crime do condenado, sentenciado após a própria morte, era ensinar que a Bíblia poderia ser lida pelo povo, e que não havia necessidade de intermediários entre Deus e os homens. O condenado era John Wycliffe.
Wycliffe nasceu por volta de 1320 em uma família tradicional na região de Yorkshire, Inglaterra, e ainda jovem foi enviado para estudar na prestigiosa Universidade de Oxford, onde aplicou-se nos estudos de teologia, filosofia e legislação canônica. Tornou-se sacerdote e depois serviu como professor no Balliol College, ainda em Oxford. Por volta de 1365 tornou-se bacharel e, em 1372, doutor em teologia. Logo destacou-se pela firme defesa dos interesses nacionais contra o papado, ganhando reputação de patriota e reformista. Afirmava que havia um grande contraste entre o que a Igreja era e o que deveria ser, e por isso defendia reformas. Ele queria o retorno à primitiva pobreza dos apóstolos, o que era incompatível com o poder do papa e dos cardeais, e criticou duramente o sistema de venda de indulgências e a vida perdulária e luxuosa de religiosos sustentados com dinheiro do povo. Wycliffe defendia que era tarefa do Estado lutar contra tais abusos.
Era a época da Guerra dos Cem Anos, contra a França. Na Inglaterra, tudo que era identificado como francês era visto como inimigo e aí se incluía o papado, que havia se transferido de Roma para Avignon. Os ingleses viam a idéia de enviar dinheiro aos papas como sustento do próprio inimigo. Nesse ambiente hostil à França e ao “papa”, Wyclif desfrutou de grande apoio, pois ele também entendia que o poder da Igreja devia ser limitado às questões espirituais, sendo o poder temporal exercido pelo rei. Para Wycliffe o cristão não precisava de “papa”, pois Deus está em toda parte. “Nosso papa é Cristo”, sustentava. Em sua opinião, a Igreja existiria sem um líder visível; os líderes surgiriam naturalmente, desde que vivessem os ensinamentos de Jesus. Dizia que eram suficientes os ensinos dos três primeiros séculos da Igreja. Defendia que as ordens monásticas não eram apoiadas pela Bíblia e deveriam ser abolidas, junto com suas propriedades.
Mas, apesar de sua crescente popularidade, a Igreja apressou-se em censurá-lo. Em 1377, Wycliffe foi intimado a apresentar-se diante do Bispo de Londres para se explicar; uma multidão aglomerou-se na igreja para apoiar Wycliffe e houve animosidades com o bispo. Isto irritou ainda mais o clero e os ataques contra Wycliffe se intensificaram, acusando-o de blasfêmia, orgulho e heresia. Então o “papa” Gregorio XI expediu uma bula declarando que suas teses eram errôneas e perigosas.
Wycliffe então se retirou para sua casa em Lutterworth, onde reuniu sábios que o auxiliaram na tarefa de traduzir a Bíblia do latim para o inglês. Ele entendia que a Bíblia deveria ser a base de toda a doutrina da Igreja e a única norma da fé cristã. Sustentava que o “papa” ou os cardeais
não possuíam autoridade para condenar suas teses, pois Cristo é a cabeça da Igreja e não os “papas”: a verdadeira autoridade emana da Biblia; na Bíblia se encontra a verdade, a fonte fundamental do Cristianismo e que, por isso, sem o conhecimento da Bíblia não haveria paz na Igreja e na sociedade. Com isso, contrapunha a autoridade das escrituras à autoridade papal: "Enquanto temos muitos papas e centenas de cardeais, suas palavras só podem ser consideradas se estiverem de acordo com a Bíblia". Idêntico princípio seguiria Lutero mais de 100 anos depois.
Wycliffe acreditava que a Bíblia deveria estar disponível aos cristãos, na língua local. A ele devemos a tradução clara e uniforme do Novo Testamento, e em 1388 a população teria acesso em massa à Bíblia em idioma inglês.
Apesar do empenho da igreja romana em destruir o trabalho de Wycliffe, ainda existem cerca de 150 manuscritos originais. Assim como a versão de Lutero teria grande influência sobre a língua alemã, também a versão de Wycliffe influenciou o idioma inglês, pela sua clareza, força e beleza.
Wycliffe faleceu de causas naturais no último dia do ano de 1384. 31 anos depois o “papa” o declarou herético, ordenou que todos os seus escritos fossem queimados e que seus restos mortais fossem exumados e queimados, o que foi cumprido em 1427 pelo "papa" Martinho V. Suas cinzas foram jogadas no rio Swift, que banha Lutterworth. Mas assim como as cinzas, levadas pelo rio, chegaram ao grande oceano e se espalharam, também suas idéias correram mundo e atingiram todo o ocidente cristão, preparando o caminho para a reforma do cristianismo, que viria poucos anos depois.

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