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sábado, 13 de setembro de 2014

Contradições da Bíblia? 9


Existem acréscimos nas Escrituras?
De novo: os trechos de comentários que recebi, contendo dúvidas e críticas ao texto da Bíblia, serão transcritos neste tipo de letra.
A Bíblia às vezes é definida por algumas pessoas como “uma verdadeira colcha de retalhos, cujos autores, em sua maioria, são desconhecidos ou incertos, que ali expressaram suas crenças pessoais, imbuídas de conceitos, preconceitos, superstições e escassos conhecimentos científicos, comuns às pessoas das atrasadas sociedades de suas épocas”.
Eu já começo dizendo que os autores não são “desconhecidos ou incertos”. Não resta a menor sombra de dúvida sobre a autoria dos livros da Bíblia. Quem, em sã consciência, negaria que Moisés escreveu os cinco primeiros livros, quando eles próprios têm na introdução esta informação? Já sei, vão dizer que “como pode Moisés ter descrito a sua própria morte”? Obviamente, depois que Moisés morreu, um dos sacerdotes, ou muito provavelmente Josué, seu sucessor, incluiu a nota fúnebre, que aliás, faz a ligação com o livro seguinte, justamente o de Josué.
O mesmo ocorre com os livros do profeta Samuel, que descrevem a sua morte. O seu sucessor foi quem anotou o epílogo. Eruditos afirmam que o profeta Natã, o mesmo que repreendeu Davi, foi o responsável pelas informações sobre a morte de Samuel. Talvez o único livro que ainda tenha a autoria discutida seja a carta aos Hebreus. E eu pergunto: isto é motivo para dizer que a Bíblia é “uma colcha de retalhos cujos autores são incertos”? Ou essa opinião é apenas uma evasiva para que o ego encontre uma desculpa para descartar a Bíblia?
Dizem também que “os livros que a compõem foram escolhidos entre muitos, de forma aleatória, e, comprovadamente, aditados, editados, adulterados e mutilados de forma desonesta no decorrer dos séculos, tudo para favorecimento e atender a interesses particulares, além das reconhecidas dificuldades e falhas em sua tradução, de forma que, o que lemos hoje, não necessariamente espelha o seu conteúdo original”. Bem, já falei antes sobre tudo isso: cópia, alterações, traduções e intepretações. Não vou repetir, clique nos links e releia, se quiser.
A justificativa para essa “falta de credibilidade” consiste nos trechos a seguir, citados como sendo acréscimos aos textos originais, aqui ressaltados [entre colchetes]:
Mateus 17:21 – [mas esta casta de demônios não se expulsa senão à força de oração e de jejum]. O mesmo ocorre em Marcos 9:29 (“Esta casta não sai de modo algum, salvo à força de oração [e jejum]). Bem, em primeiro lugar, como diz Josh McDowell em “Evidências que Merecem um Veredito”, não é pelo fato de que uma palavra ou texto não se encontra nos manuscritos gregos mais antigos que tal texto deva ser rejeitado: “Quando se faz uma tradução utilizamos todos os textos, de todas as épocas e de vários idiomas. Podemos encontrar um texto em árabe, por exemplo, mais antigo que um texto grego. Isso não significa que, embora o texto grego não contenha (nesse nosso exemplo) a tal palavra, que ele não seja parte do escopo original, pois ela se encontra no texto em árabe! Sendo assim, todos os manuscritos devem ser usados para uma análise mais ampla e fidedigna do documento em estudo. O Novo Testamento tem aproximadamente 5 mil manuscritos gregos, 10 mil manuscritos em latim e 9 mil em outros idiomas. Todo esse material é importante em uma tradução”.
Em segundo lugar, a palavra “jejum” estando ou não ali, não faria diferença. Afinal, Jesus não está dizendo que, para a expulsão de certos tipos de demônios era necessário um período de oração e jejum. O princípio no texto é outro: onde há pouca fé, há pouca oração e jejum (Mateus 17:19,20). Onde há muita oração e jejum, resultante da dedicação genuína a Deus e à sua Palavra, há abundância de fé. Se os discípulos estivessem vivendo uma fé viva de oração e jejum como Jesus ensinou e praticou, poderiam ter resolvido o caso.
Hermes Fernandes opina sobre o jejum que Jesus fez antes de confrontar Satanás. Ele jejuou “não para ficar mais forte, e sim, para ficar mais fraco. O texto não diz que depois de jejuar Jesus ficou mais forte espiritualmente. Em vez disso, diz que depois de jejuar por quarenta dias e quarenta noites, teve fome (Mateus 4:2). Fome é sinal de fraqueza, e não de força. E Ele tinha de ficar fraco e com fome para que a tentação do Diabo fosse legítima. Se Ele não estivesse com fome, de nada adiantaria Satanás Lhe sugerir que transformasse as pedras em pães”. (fonte deste comentário)
Dessa forma, o “acréscimo” ensina que, com o jejum, o demônio sairá; não porque o exorcista está de barriga vazia, mas por que a sua força está no Nome de Jesus, na oração e na dependência do poder de Deus, pois o exorcista em questão está demonstrando sua fraqueza e incompetência para, por si, expulsar o demônio. Ou seja – quer retirar o trecho da Bíblia? À vontade, a sua falta não fará diferença e a lição bíblica será ensinada da mesma forma; basta ao leitor prestar atenção e seguir uma das regras mais básicas e elementares de interpretação: a Escritura pela Escritura se explica.
Seguindo:
Mateus 18:11 – [Porque o Filho do homem veio salvar o que se havia perdido]. É um verso que tanto poderia estar nessa passagem, como em outra qualquer, ou até mesmo em nenhuma, porque mesmo que não existisse, ou fosse suprimido, como desejariam os puristas, a mensagem central do Evangelho seria a mesma. O mesmo trecho se repete em Lucas 19:10, com o “acréscimo” de apenas uma palavra: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. Será que a alegada inclusão desse trecho em Mateus desqualifica o Evangelho de Mateus? Será que essa frase em Mateus contém alguma heresia ou está em desacordo com a mensagem que a Bíblia transmite, desde o início até o final? Está esse trecho em contradição insolúvel com qualquer outro da Escritura?
Mateus 19:9 – “Eu vos digo porém, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, e casar com outra, comete adultério; [e o que casar com a repudiada também comete adultério]. Também não vejo nada de mais, pois a frase entre colchetes está aí apenas para explicar melhor o texto imediatamente anterior. A sua desejada supressão não prejudicaria em nada a mensagem.
Marcos 11:26 – [Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está no céu, não vos perdoará as vossas ofensas]. Vejamos o que vem antes: “25 Quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que também vosso Pai que está no céu, vos perdoe as vossas ofensas”. Aí sim o “acréscimo”: [Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está no céu, não vos perdoará as vossas ofensas]. Experimente ler a passagem “pulando o acréscimo”. Veja se foi perdido o sentido original, ou se o “acréscimo” ajuda a entender o que o texto original queria dizer.
Marcos 15:28 - [E cumpriu-se a escritura que diz: E com os malfeitores foi contado]. Faça o mesmo exercício que indiquei acima.
Marcos 16:9-20 – relatos da ressurreição, aparições e ascensão de Jesus. Se os suprimirmos, a Escritura fica prejudicada? Não, por que lemos o mesmo nos outros Evangelhos. Saberíamos dos fatos da mesma forma. E se os mantivermos, a credibilidade da Bíblia aumenta ou diminui? Não altera, por que sabemos que os relatos são verdadeiros, e não foi uma invenção mirabolante de ninguém. Para mais detalhes sobre a ressurreição, leia aqui.
Lucas 9:54-56-54 - “Vendo isto os discípulos Tiago e João, disseram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir [como Elias também fez]? Ele porém, voltando-se, repreendeu-os, [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-las]. E foram para outra aldeia”. Idem, idem. A supressão dos trechos entre colchetes não altera a passagem.
Lucas 17:36 - [Dois homens estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado]. Idem, idem... 
23:17 – [E era-lhe necessário soltar-lhes um pela festa]. A soltura de Barrabás, idem, idem idem... é somente uma explicação para o leitor.
Atos 8:37 – [E disse Felipe (ao eunuco etíope): é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele (o eunuco), disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus]. Pois bem, suponhamos que se retire todo esse versículo. Também não altera em nada! Veja que eu mesmo tive que incluir (entre parêntesis, com letra diferente) algumas palavras, somente para esclarecer a você, leitor(a). Se eu não incluísse essas palavras (entre parêntesis), e se você não conhecesse o texto original, até entenderia, mas teria que ir abrir a Bíblia para ver direitinho a quem Felipe disse que “é lícito”, e quem lhe teria respondido “creio”. É apenas uma explicação. Não polui nem adultera o texto!
Atos 15:34 – [Mas pareceu bem a Silas ficar ali]. Vejamos o verso anterior e o seguinte para opinar se há prejuízo, ou se é o mesmo caso acima. “33 E, tendo-se demorado ali por algum tempo, foram pelos irmãos despedidos em paz, de volta aos que os haviam mandado. [34 Mas pareceu bem a Silas ficar ali]. 35 Mas Paulo e Barnabé demoraram-se em Antioquia, ensinando e pregando com muitos outros a palavra do Senhor”.
Como se vê, uma simples explicação que não faria falta se fosse retirada, satisfazendo a vontade dos céticos de serem “revisores de estilo de Deus”, como Carl Sagan, que afirmou que Deus deveria ter escrito melhor a Bíblia. Na verdade, “a Bíblia é confusa” e “Deus devia ser mais claro” são falácias insustentáveis usadas por vários céticos. Richard Dawkins por exemplo, talvez o mais notório ateu da atualidade, tem entre os seus seguidores os que o vêem como um biólogo renomado. Outros o entendem como o líder de um movimento de ódio à religião. Então, segundo a tese da “revelação contraditória”, então Richard Dawkins não existe, por causa dessas diferentes interpretações de suas obras. Ele deveria ser mais claro para que saibamos de fato o que ele é!
Atos 28:29 – (cito o verso anterior para se ter uma idéia melhor do por quê do “acréscimo”) 28 Seja-vos pois notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles ouvirão. [29 E, havendo ele dito isto, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda]. Nada disto apresenta dificuldade para o leitor honesto, aquele que não quer apenas “procurar chifre em cabeça de cavalo”, e sim entender o que a Bíblia pode dizer para nós, hoje. É por isso que muitas traduções trazem em itálico (esse tipo de letra inclinada) os trechos que não estão presentes no original, mas foram incluídos para preencher lacunas comuns e inteligíveis no grego, mas que perdem o sentido no português. Neste caso, o trecho “acrescentado” dá uma informação a mais. Se for retirado, não há prejuízo ao contexto.
Lucas 17:36 é tido como acréscimo, mas no verso anterior, lemos: “Duas [mulheres estarão] juntas moendo; uma será tomada, e a outra será deixada”. O original é assim: “Duas juntas moendo; uma será tomada, e a outra será deixada”. “Mulheres e estarão” são palavras acrescentadas, na tradução em Português, para dar à frase a forma gramatical correta em nosso idioma. Nada de mais. A frase do versículo seguinte, o 36, apenas exemplifica ainda mais o que Jesus quer dizer, que é a iminência do arrebatamento, a sua imprevisibilidade. Arrebatamento que, aliás, também é contestado pelos céticos.
A bem da verdade, o que não é contestado pelos céticos? Esse é o papel deles, e pela sua existência dou graças a Deus. Eles nos fazem estudar mais a Bíblia. E estudando a Bíblia continuaremos a tentar elucidar esses “mistérios” e “discrepâncias”.
Isso me obriga a falar mais uma vez de Aristóteles. Eu sempre pensei que Aristóteles era um cara genial, mas parece que me enganei, pois ele disse que morcego era uma ave; e se usarmos os mesmos critérios que alguns céticos aplicam à Bíblia, concluiremos que: 
a) Aristóteles era um ignorante; 
b) não foi quem dizia ser; 
c) seus escritos foram alterados/editados por seus discípulos ao longo dos séculos; 
d) ou então ele nunca existiu, é uma invenção de filósofos carentes de sentido para suas vidas insignificantes e mesquinhas. Afinal, ele expressou “suas crenças pessoais, imbuídas de conceitos, preconceitos, superstições e escassos conhecimentos científicos, comuns às pessoas das atrasadas sociedades de sua época”.
Eu terminaria com uma questão que busca ilustrar o que é a desonestidade de usar dois pesos e duas medidas. O que você acharia de um homem, tido como sábio, que angariou muitos discípulos desde a antiguidade, mas ele mesmo não tenha escrito nada? O que se sabe sobre ele foi escrito muito depois da época em que se crê que ele tenha vivido. O que hoje se atribui a ele foi na verdade escrito por seus seguidores, anos depois. Ele nunca saiu de sua própria terra. Nem mesmo se pode afirmar com certeza que ele tenha existido de fato, tendo havido controvérsias sobre isso, por parte dos estudiosos, pois não se sabe ao certo as datas de seu nascimento e morte. 
Sabe de quem estou falando? 
De Tales de Mileto. E também de Sócrates. E também Siddartha Gautama, mais conhecido como “Buda”.
A analogia é por sua conta.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Contradições da Bíblia? (3)


Como interpretar as Escrituras 

Muitas pessoas me mandam dúvidas sobre a Bíblia e supostas contradições no texto das Escrituras. Algumas realmente querem algum tipo de explicação sobre uma passagem, outros expõem o que acreditam ser falhas no texto, e outros dizem que a Bíblia é falsificada, cheia de erros, preconceitos e maus exemplos. Eu tento responder, por que às vezes também me aparecem certas dificuldades e algumas passagens parecem ser contraditórias, outras enigmáticas. Às vezes eu nem respondo, porque percebo que alguns não querem de fato entender a Verdade bíblica, e apenas polemizar. Não vão ser convencidos de que a Bíblia é a Palavra de Deus, porque no fundo não crêem em Deus. Como creriam na Sua Palavra? Então que fiquem com suas polêmicas. Em outros casos, eu procuro correr atrás das respostas, porque dessa forma eu também aprendo coisas novas.
Meu amigo Mário Persona criou um site onde colecionou, ao longo dos anos, as inúmeras perguntas que lhe chegaram, e procura respondê-las. Aconselho você, que tem dúvidas, a consultá-lo (www.respondi.com.br/) . Eu também vou lá de vez em quando. É sempre muito bom procurar explicações no maior número de fontes possível, até que você possa ver qual delas é a mais embasada biblicamente, e formar a sua própria opinião. É assim que procuro responder aos que me perguntam sobre esses temas. Tenho minha própria opinião, busco estudar na Palavra, em livros de autores responsáveis e de gabarito; e também em sites confiáveis, do ponto de vista da “sã doutrina”. É evidente que, se você estiver sinceramente interessado em aprender da Palavra de Deus, deve também orar a respeito, e pedir a Deus que lhe abra o entendimento e lhe revele os preciosos ensinos que foram preservados através dos séculos. Peça a Ele que desvende a Sua Palavra a você, e depois confirme na própria Escritura. A Escritura pela Escritura se explica.
Outro dia um engraçadinho – anônimo, como sempre – a propósito da longevidade dos patriarcas, disse que não se pode saber se Sara realmente estava na menopausa, “porque não havia ginecologista”. É o mesmo raciocínio tosco de quem diz que “Maria não era virgem” (aliás, outro ataque tão antigo como os pagãos de Roma, que usavam a mesma frase para tentar desacreditar os cristãos): o tempo passou, mas algumas pessoas continuam intelectualmente na idade da pedra. Existem coisas que realmente não são passíveis de comprovação documental, como aspectos ginecológicos das mulheres da Bíblia; mas o relato é tão fiel e verdadeiro em tantas outras passagens, que não há razão para não crer nele. Por exemplo, é fisicamente impossível que um homem caminhe sobre a água, ainda mais durante uma tempestade “no mar” (na verdade o lago de Tiberíades, sobre o qual falaremos depois). Mas Jesus fez isso. Também é cientificamente impossível que alguém ressuscite depois de quatro dias morto; mas Jesus reviveu Lázaro. Essa é a natureza do milagre, ou seja, o “sobrenatural” – acima, além, do natural. Eventualmente, cientistas tentam dar explicações científicas a esses fenômenos, mas freqüentemente criam armadilhas para si próprios, como neste artigo. Aqui e nos próximos textos, vou pinçar alguns desses comentários questionadores, e para os seus autores peço a licença para usá-los como ponto de partida para a discussão dos seus temas. Entretanto, optei por não citar os comentaristas um a um, porque são vários. Preciso economizar espaço. Para ficar mais claro,  usarei este tipo de letra para as citações dos leitores.
Como os antigos gnósticos, alguns não conseguem aceitar “um Deus capaz de coisas que não seriam esperadas nem do mais selvagem e injusto ser humano”, como quando se diz que Deus se arrependeu, ordenou a morte de populações, criou o mal etc. (Isaías 45:7, Amós 3;6, Miquéias 1:12 etc.). Orígenes, um antigo erudito e intérprete das Escrituras, defensor do método alegórico de interpretação, tentava conciliar essas passagens dizendo que “muitos textos bíblicos são intencionalmente obscuros, racionalmente incoerentes ou moralmente repugnantes, a fim de forçar o intérprete a descobrir o seu significado verdadeiro mais profundo” (Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato, 2000, pg. 137/138). Uma falácia, como veremos adiante, num artigo sobre os métodos de interpretação bíblica.
Outros enveredam pelo caminho mais fácil: “a Bíblia está cheia de erros, portanto não vale a pena crer nela”. Ou então, mesmo sem saber nada sobre os símbolos e tipos que a Bíblia nos apresenta, apelam para o método alegórico, campo fértil para fantasias. E assim caem nos mesmos erros que se perpetuaram no seio da igreja católica, doa a quem doer.
Uma das coisas a que nós precisamos recorrer com relação a possíveis contradições bíblicas é a honestidade. Vemos muitas vezes que as pessoas aplicam regras diferentes quando se trata de examinar a Bíblia, o que é claramente usar dois pesos e duas medidas. Citam-se frases de Gandhi, Mandela e Carl Sagan, de Bertrand Russell e de Voltaire, como se fossem a verdade absoluta; fazem-se referências a sábios e filósofos que não deixaram nada escrito (como o próprio Sócrates, cujo pensamento conhecemos apenas através dos testemunhos de Platão e Xenofonte, que por sua vez os transmitiram a seus respectivos discípulos). Mas quando citamos Paulo, Moisés ou Isaías, dizem logo que não se tem certeza sobre a autoria da frase, que são contraditórias, que nem mesmo se sabe se esses personagens existiram de fato. Ou seja, falta honestidade no uso de critérios.
Por exemplo, quando se usa o discurso proferido por Estevão momentos antes de ser apedrejado, como sendo prova de que Bíblia errou. Citam Atos 7:2, onde se lê: “Estêvão respondeu: Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, ANTES de habitar em Harã...”. Porém (contestam) o livro de Gênesis (11:31 a 12:1) relata o acontecido DEPOIS de Abraão habitar em Harã. Ora, se alguém errou aqui foi Estevão. Lembremo-nos de que ele estava prestes a ser executado. Ele fez um longo sermão e praticamente contou TODA a história de Israel desde o início até os dias de Cristo. Qual o problema em uma pessoa cometer um erro pequeno assim, em todo o seu sermão? Se você resolvesse me contar toda a História do Brasil, sabendo que assim que terminasse iria ser fuzilado, será que você diria tudo sem cometer nenhum equívoco, sem trocar nenhuma informação? Talvez você não consiga nem mesmo se souber que vai ganhar um prêmio. Vemos isso todo dia em programas da TV. Chamem os universitários! Como se adiantasse alguma coisa chamar universitários hoje em dia... desculpa aí.
O que Lucas fez, ao escrever os atos dos apóstolos, foi contar exatamente o que ocorreu, e o que ocorreu foi que Estevão disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto prova que a Bíblia não foi adulterada, como acreditam os céticos (se é que cético acredita em alguma coisa, é nisso: a Bíblia foi alterada). Ora veja bem: se deveria haver alguma adulteração, seria justamente corrigindo o erro de Estêvão. Mas não, o relato foi fiel ao que aconteceu: ele disse ANTES, quando deveria ter dito DEPOIS. Isto basta para reafirmar que o relato histórico do livro de Atos é um fidedigno, e como tal, ele detalha o equívoco de um dos primeiros mártires, que trocou apenas uma palavra em um extenso sermão.
Uma coisa que é fundamental para se achar as respostas é ter um método de interpretação do texto bíblico. A Editora Mundo Cristão lançou um livro, há muitos anos, sobre esse assunto, do autor Walter A. Henrichsen (ao lado, a edição que eu tenho). Não sei se ainda está à venda, mas você se puder, compre e leia, várias vezes. É dele que transcrevo a seguir alguns trechos, com algumas regras básicas que tenho procurado seguir ao tentar achar o significado e a coerência de trechos da Escritura que apresentam, digamos, dificuldades.
Logo no seu prefácio, há uma citação de Frank E. Gaebelain: “O cristianismo é peculiarmente religião de um livro só. Elimine a Bíblia, e você terá destruído o meio pelo qual Deus decidiu apresentar Sua revelação ao Homem através de sucessivas eras”. Essas simples frases trazem duas verdades fundamentais: Deus existe, e fala a nós por meio da Bíblia; por isso, os ataques à Bíblia, nas suas diversas formas, são parte de uma guerra para eliminar a comunicação de Deus com os homens. Quando concluímos que a Bíblia não presta – por ter erros, dar maus conselhos, ter sido adulterada etc. – estamos abrindo mão de receber o que Deus queria nos dizer. E a segunda verdade é que essa comunicação de Deus com os homens não se deu da mesma forma ao longo da História.
Sabemos que lá no início, Deus falava com o Homem diretamente, tête-a-tête. Depois, através dos patriarcas, com as promessas; depois veio a Lei e os profetas, e por fim, o próprio Deus se encarnou em forma humana. Depois que Ele subiu aos céus, prometeu voltar e deixou toda a compilação que hoje chamamos de Bíblia como registro do que aconteceu e orientações acerca do presente e do futuro, para nossa edificação, consolação e exortação. É isso que está escrito em Hebreus 1:1 ,2 – “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”.
Assim, o livro de Henrichsen nos diz que...
Há quatro partes básicas no estudo correto da Bíblia.
1 – Observação, que responde à pergunta: “o que vejo?” Aqui o estudante aborda o texto como um detetive. Nenhum pormenor é sem importância; nenhuma pedra fica sem ser virada. Cada observação é cuidadosamente arrolada para consideração e comparação posteriores.
2 – Interpretação, que responde à pergunta: “o que isto significa?” Aqui o intérprete bombardeia o texto com perguntas como: “que significavam estes pormenores para as pessoas às quais foram dados? Por que o texto diz isto? Qual a principal idéia que ele busca comunicar?”
3 – Correlação, que responde à pergunta “como isto se relaciona com o restante daquilo que a Bíblia diz?” O estudante da Bíblia deve fazer mais do que examinar somente passagens individuais. Deve coordenar o seu estudo com tudo mais que a Bíblia diz sobre o assunto. A precisa compreensão da Bíblia sobre qualquer assunto leva em conta tudo o que a Bíblia diz sobre aquele assunto.
4 – Aplicação, que responde à pergunta “que significa isto para mim?” Esta é a meta dos outros três passos. Um especialista disse-o sucintamente: “Observação e interpretação sem aplicação é um aborto”.
A Bíblia é Deus falando. Sua Palavra exige resposta. E essa resposta tem de ser nada menos do que a obediência à vontade de Deus revelada.
Existem também quatro categorias de princípios de interpretação: os princípios gerais, os gramaticais (que tratam do texto propriamente dito, para o entendimento das palavras e sentenças), os históricos (que tratam do contexto em que a passagem foi escrita, sus situação política, econômica e cultural), e os princípios teológicos, isto é os que tratam da formação da doutrina, consistindo de regaras amplas, já que por doutrina entendemos tudo o que a Bíblia sobre determinado assunto; os princípios teológicos dão forma ao corpo de crenças que constituem a fé em Deus. 
Vou falar sobre eles na próxima semana.

(com informações de Walter A. Henrichsen, “Princípios de Interpretação da Bíblia”, Ed. Mundo Cristão, e Christopher A. Hall, “Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja”, Ed. Ultimato)

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