A Festa do Bonfim é
uma celebração religiosa que acontece na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, Brasil. É no segundo domingo
depois do “Dia de Reis”, no mês
de janeiro; mas na quinta-feira imediatamente anterior ocorre a “Lavagem do Bonfim”, celebração de cultura eminentemente africana, com grande participação do povo,
carroças enfeitadas puxadas por animais e as tradicionais baianas com seus
vasos com água perfumada (ou “água de cheiro”). Diz-se que em 1745 Teodósio Rodrigues de Farias, oficial
da Armada Portuguesa, trouxe de Lisboa uma imagem de Cristo, com grande pompa, para a igreja da Penha, em Itapagipe. Em 1754 a imagem foi
transferida em procissão para a sua própria igreja, na Colina Sagrada, onde a
atribuição de milagres tornou o “Senhor
do Bonfim” objeto de devoção
popular e centro de peregrinação mística e sincrética. Foram então introduzidos motivos profanos e supersticiosos no culto.
A tal lavagem é um desses
desdobramentos. Ela acontece na manhã da quinta-feira, com o tradicional
cortejo de baianas indo da igreja de “nossa
senhora” da Conceição da Praia até o alto do Bonfim, para lavar com vassouras e “água
de cheiro” as escadarias e o átrio da igreja.
Todos se vestem de branco, a cor
de “Oxalá”. O ponto alto da festa ocorre quando cerca de 200 baianas despejam a água ao som de palmas, batuques e cânticos de origem africana. Depois a festa continua com mais batucadas, danças, bebidas e comidas típicas.
O interessante disso tudo é que
não se trata de uma atividade original. Na Roma antiga, havia um festival
semelhante, em honra da deusa Vesta, cujo templo, hoje arruinado, pode ser
visto perto do Fórum. As sacerdotisas (as “Vestais”) também faziam um ritual de
lavagem do templo, chamado “Vestália”, quando o templo (aedes Vestae) era aberto para as mulheres de Roma - o acesso era proibido aos homens. Normalmente só quem entrava eram as Vestais e o pontifex maximus (o chefe supremo
da religião de Roma, que, não por acaso, ainda usa o mesmo título...). Mas ele
não podia entrar no penus
Vestae, o recinto secreto da deusa, localizado no podium do templo, em uma
cavidade onde se guardavam os objetos sagrados que asseguravam a grandeza de Roma,
e que não podiam ser vistos por ninguém além das sacerdotisas.
Nos dias da Vestália as mulheres casadas entravam no templo descalças e
com os cabelos soltos para orar e pedir pelo bem de sua casa e sua família. Em
épocas de seca, vinham a Júpiter pedir por chuva. Elas costumavam levar para o
templo pratos com várias iguarias e as Vestais lhe ofereciam a mola salsa (farinha de trigo moída,
torrada e salgada pelas virgens vestais para serem utilizadas em todos os
sacrifícios oficiais). As Vestais também realizam rituais de limpeza em conexão
com a Vestália. Ovídio conta que os eventos religiosos
começavam com a faxina. O lixo era posto fora da cidade ou na
encosta do monte Capitólio, ou jogado no rio Tibre. Este era um dia “nefasto”
(proibia todas as atividades menos as religiosas) e, depois de um ato
religioso concreto, passava a ser “fasto” (permitiam-se atividades). Esse dia se chama D.S.D.F. (em latim, “dies stercus delatum fas”), que é quando se poderia carregar a
sujeira para fora do templo.
Eu não sei como esses costumes da antiguidade romana passaram a
fazer parte do calendário afro-brasileiro. O que eu sei é que o catolicismo, em
sua ânsia de abraçar o mundo, acolheu muitas dessas “festividades” entre as suas datas
litúrgicas. Muito já se discutiu sobre essa miscigenação, e muitos são a favor
dela, enquanto outro tanto é contra.
Intelectualóides, celebridades e
globais procuram justificar tudo isso sob o prisma cultural: um dos grandes
feitos do cinema brasileiro versa justamente sobre isso, o filme “O Pagador de
Promessas”, de 1962, dirigido por Anselmo Duarte e baseado na peça
teatral homônima de Dias Gomes. Ganhador da Palma de Ouro (melhor filme) no
Festival de Cannes (França), vencedor como melhor filme do ano no Festival de
Cartagena (Colômbia) e no San Francisco International Film Festival, como melhor
filme e melhor trilha sonora (Gabriel Migliori), e indicado ao Oscar de 1963 na
categoria de melhor filme estrangeiro. Esse currículo mostra o quanto a “intelligentsia”
aprecia o sincretismo cultural e adora malhar a igreja católica... mas pelos
motivos errados. No filme, o protagonista Zé do Burro é o dono de um pequeno
pedaço de terra no Nordeste do Brasil. Quando seu animal de
carga adoece, Zé faz uma promessa a uma “mãe-de-santo”:
se o burro se recuperar, ele dividirá sua terra igualmente entre os mais pobres
e carregará uma cruz até a igreja de Santa Bárbara em Salvador, onde a oferecerá ao padre local. O
burro se recupera, e Zé dá início à sua jornada.
Ele chega à catedral de madrugada com a esposa Rosa. O padre o rejeita
após ouvir as circunstâncias em que a promessa foi feita. A noticia se espalha
e aproveitadores tentam tirar vantagem do ingênuo Zé. Umbandistas querem usá-lo
como líder contra a discriminação que sofrem da igreja católica, os jornais
transformam a promessa de terra aos pobres em slogan revolucionário. A polícia é chamada para prevenir a entrada
de Zé na Igreja, e ele acaba morto no confronto entre policiais e
manifestantes. Na última cena, populares colocam o corpo de Zé na cruz e entram
à força na catedral.
Tudo isto soa muito bonito e nobre: luta contra o preconceito,
reforma agrária, lutas populares, um “Cristo do povo” bem ao gosto dos teólogos
da libertação. Deixamos isso de lado, pois já foi debatido ad nauseam. Dias Gomes escreveu montes de coisas no mesmo tom. Como
“Roque Santeiro”, expondo a manipulação do povo pela igreja católica em conluio com o
meio político e empresarial, e o duelo entre padres progressistas e
conservadores. Ou “Mandala”, onde “atualiza” o mito de Édipo, com a profecia
sobre o infeliz monarca (agora uma figura do high society carioca) vindo não do oráculo de Delfos, mas - pasme - de uma
“mãe-de-santo” (!).
O que eu gostaria de dizer aqui é que, doa a quem doer, o padre da
história original do “Pagador” até que estava certo. Na sua ortodoxia, embora ignorante das coisas do Evangelho, raciocinou corretamente:
disse a Zé do Burro como diria Vanderley Luxemburgo, “cada qual com seu cada
qual” – a bem da verdade, não faz sentido o sujeito fazer uma promessa no
terreiro de macumba e cumpri-la no altar da igreja. De um ponto de vista
neo-pentecostal e no contexto de batalha espiritual, a diferença entre os “santos”
católicos e os do candomblé são muito tênues, se é que as há. Leia sobre isso aqui
e aqui.
Mas no ponto de vista da manifestação religiosa enquanto expressão popular, é
óbvio que são espaços diferentes, apesar de os teólogos modernos dizerem que “o
espaço do divino deve ser compartilhado com o espaço do humano” e outras
baboseiras.
Mas você sabe como é o mercado:
é preciso cada vez mais clientes, e esses têm que ser mantidos satisfeitos ou
irão atrás de outro produto. Assim funciona o catolicismo. Depois de séculos
assistindo o crescimento das religiões africanas, resolveram que o melhor a fazer
era não combatê-las, mas sim incorporá-las (eeepa!). Por isso aceitaram numa
boa a tal “lavagem do Bonfim”, e de novo fizeram como nos tempos de
Constantino: acolheram práticas estranhas ao Cristianismo puro e original. Você já sabe disto.
Agora, assustados com o crescimento das igrejas evangélicas,
e depois de pegarem elementos de todas a correntes que havia, copiam modos e hábitos, caras e bocas, músicas, estilo de pregação e até os mega-templos (também aqui).
Estão aí os “padres-pop” Marcelo Rossi e Fábio de Melo, e as músicas
evangélicas cantadas em missas – quando não são as mesmas, cantores católicos
seguem a fórmula: ritmo de música romântica, melodia pegajosa e letras
fúteis; sem conteúdo bíblico, mas com grande poder emocional. Resultado: gente
chorando, “erguei as mãos” e até mesmo transes com direito a “línguas
estranhas” e curas espirituais, ao melhor estilo pentecostal. Tomara que nessa clonagem desenfreada comecem a pregar a Palavra de Deus e abandonem as tradições humanas, aprendendo diretamente da Bíblia como deve ser a vida do cristão. Que aprendam a viver “Sola Scriptura”...
Resumindo essa história toda, eu penso que está em curso um grande
processo de globalização religiosa. Vai chegar um dia em que conceitos como
“diversidade”, “tolerância”, “respeito às diferenças”, “coexist” (como gosta o
U2) e outros serão a lei, e invadirão os templos. Talvez uma “boa
causa” unifique as religiões; ou quem sabe algum acontecimento dramático de
proporções planetárias... É evidente que ainda existem bolsões
impermeáveis, como o islamismo, o judaísmo ortodoxo e certos rincões
pentecostais; mas no grosso, percebe-se uma osmose mútua entre o catolicismo,
as religiões africanas e as chamadas “orientais”, que desde os anos 1960
apresentam crescimento exponencial no Ocidente ex-cristão. Veja mais aqui
e aqui.
A Bíblia nos dá a entender que durante o futuro governo mundial exercido
pelo Anticristo, o seu principal aliado não será um general, um hábil político
ou um grupo de banqueiros e financistas. Esses instrumentos de dominação
ideológica e econômica existirão, mas o braço direito do ditador mundial será
um religioso. Apocalipse o chama de “o falso profeta”, ou “a besta que emerge
da terra”. Da terra, porque não foi enviado por Deus. Falso, porque apesar de fascinar multidões crédulas, seus milagres, por mais maravilhosos que
sejam, não levam ninguém a glorificar a Deus; pelo contrário. É
falso, porque o próprio Jesus Cristo advertiu que surgiriam “falsos
cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se
possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:11, 24;
Marcos 13:22). Também o apóstolo Pedro avisou sobre essas pessoas: “... entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão
encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou,
trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (II Pedro 2:1). Por isso podemos e devemos considerar como falsos milagres todos os que não glorificam a Deus, no final das contas, mesmo que façam “descer fogo do céu à terra, à vista dos homens” (Apocalipse 13:11-14). Ainda que sejam eventos de valor cultural e folclórico, como “folia de reis”, “congado”, “lavagem do Bonfim” ou o “círio de Nazaré”; sejam prodigiosas curas de médiuns e umbandistas, ou intrigantes “graças” alcançadas com o acender velas e pagar promessas. Pergunte a algum desses sobre o que Pedro advertiu; pergunte a algum deles se “o Senhor os resgatou”. Eu dou um ano do meu salário se algum deles disser que sim, que Jesus Cristo o resgatou e somente a Ele deve ser dada toda a glória, “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:10, 11).
Não se deixe enganar.
196850