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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Deu no que deu

Outro dia recebi uma mensagem por e-mail intitulada “De Deus não se zomba”. Trazia falas de diversas celebridades - que reproduzo fielmente abaixo (as fotos eu peguei na Internet):

Campinas, interior de São Paulo: uma turma de amigos já embriagados, foi buscar a última pessoa ir para uma “balada”. Pararam em frente à casa dela,  chamaram, e junto com a moça veio a mãe. Temerosa, vendo todos bêbados e sua filha entrando naquele carro lotado, a mãe pegou na mão da filha e disse: “Filha vai com Deus que Ele lhe proteja”. Mas a filha, para “tirar uma onda” com a mãe, disse: “Só se ele for no porta-malas, pois aqui já está lotado”.
Algumas horas depois veio a triste noticia: morreram todos em um acidente. O carro foi destruído, mas o porta-malas estava intacto. A foto do acidente é a que está lá em cima, no título deste artigo. A polícia técnica disse que pela violência do acidente seria impossível isso acontecer, mas quando abriram o porta-malas, lá estava uma bandeja com 18 ovos sem nenhum arranhão, e todos nos lugares corretos da bandeja.

 Com Deus não se brinca.
“Não vos deixeis enganar: de Deus não se zomba; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7).

Bom, quero acrescentar duas coisas.
Essa última estória, a do acidente, eu já tinha ouvido falar e nem sei se é verídica. Quem quiser fique à vontade para verificar. Mas mesmo que não seja totalmente verdade, ou que se trate apenas de  uma lenda urbana, tem lá o seu valor moral. Ou não? Há tantas parábolas, tantos “mitos”, com tantas lições morais, que mais uma ou menos uma não será nada mal. Mesmo que não seja real esse caso, não é motivo para desacreditar toda a lição embutida nesta postagem.
A outra coisa é que talvez não exista, ipsis literis, uma forma de provar a relação direta de causa e conseqüência entre o que essas pessoas disseram e o que aconteceu depois. Mas é bem plausível. Pode-se discutir, como alguns idiotas no Yahoo Respostas – talvez o maior repositório de besteiras que a humanidade já produziu – que Deus não mataria milhares para “vingar” uma asneira dita por uma só pessoa, como no caso do Titanic. Bem... por que não? Se Deus resolver acabar com a raça humana toda, Ele acaba, e quem somos nós para questionar os Seus motivos? Aquele povo todo morreu no desastre, não como conseqüência direta da lorota do dono do navio, mas porque assim havia de ser. Precisamos ter em mente que quando dizemos que Deus é onisciente, isto é pra valer, não é apenas uma frase decorada no pré-primário ou no “catecismo”.
Deus conhece todas as coisas. Ele sabe a hora que cada um vem a este mundo e a hora que cada um dá adeus à terra dos vivos. Ele sabia o destino de cada um dos passageiros do Titanic, e também sabia, desde antes da fundação dos séculos – isto é, antes mesmo de ser estabelecida e dimensão que conhecemos como “Tempo” – que John Lennon diria aquele impropério em 1966 e que seria morto a tiros em 1980. Sabia Ele que Cazuza diria e faria as asneiras que disse e fez. As conseqüências de todos os atos impensados de homens e mulheres são alcançadas por meio de seus próprios autores – os homens e mulheres que não levam em consideração que tudo o que se semeia, se colhe.
De uma coisa, podemos ter certeza: todos esses que falaram essas coisas tiveram oportunidade de se arrepender, tiveram contato com a Palavra de Deus, e muito possivelmente a rejeitaram. A fala de John Lennon é emblemática, ao menosprezar o cristianismo e sua capacidade de resolver as questões da humanidade. O homem natural, já dizia o apóstolo Paulo há 1900 anos, não entende as coisas de Deus, e por isso cai no erro de confiar em si próprio – e o resultado é o fracasso. Isso serve também para o Cazuza e os outros. Fariam melhor se, ao invés de menosprezar e desdenhar o que Deus lhes oferece, por meio de Jesus Cristo – que veio até aqui justamente para reestabelecer o contato com o Pai – fariam melhor se tivessem ouvido o conselho do salmista:
“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus... Em ti confiam os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, não abandonas aqueles que te buscam” (Salmos 20:7; 9:10).
Que pena, John, Marylin, Cazuza, Bon, Brizola, Ismay, Tancredo.
Foram brincar com Deus, deu no que deu. 
E você, tem brincado com Deus? 

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Predestinação - os cinco pontos

Quando se fala em predestinação e livre-arbítrio, não há como não citar os famosos “cinco pontos do calvinismo” e sua alternativa, “os cinco pontos do arminianismo”. Penso que somente depois de entendermos esses tópicos seremos capazes de ter uma idéia mais completa sobre o tema, embora, repito, acho que nunca chegaremos a entendê-lo completamente.
Os Cinco Pontos do Calvinismo, (conhecidos pelo acróstico TULIP, referente às iniciais em inglês):
T otal Depravity = Total Depravação
U nconditional Election = Eleição Incondicional
L imited Atonement = Expiação Limitada
I rresistible Grace = Graça Irresistível
P erseverance of Saints = Perseverança dos Santos
São uma síntese do Sínodo de Dordrecht ou de Dort, uma querela acerca das doutrinas da Graça e da Predestinação. Seu eixo é a afirmação de que Deus é perfeitamente capaz de salvar cada pessoa que Ele queira, e que Seu trabalho não pode ser frustrado. De modo geral explicam-se assim:
Depravação total do homem - ou "depravação radical", "corrupção total" e "incapacidade total". Toda criatura humana, após a queda, é dominada pelo pecado, que a corrompe e contamina, incluindo a mente. Por isso, afirma-se que ninguém é capaz de realizar o que é bom aos olhos de Deus:  o ser humano é escravo do pecado, por natureza hostil e rebelde para com Deus, espiritualmente cego para a verdade, incapaz de salvar a si mesmo e de se preparar para a salvação. Só a intervenção direta de Deus pode mudar isto.
Eleição incondicional - é a escolha feita por Deus desde a eternidade, daqueles a quem ele concedeu a graça da salvação. Esta escolha não se baseia no simples mérito, ou na fé das pessoas que ele escolhe, mas em Sua decisão soberana e incondicional, irrevogável e insondável. Isso não significa que a mesma salvação final é incondicional, mas que a fé é concedida também pela graça de Deus, como seu presente para aqueles a quem Ele escolheu incondicionalmente.
Expiação limitada - ou "redenção particular" ou "redenção definida", significa que a obra redentora de Cristo visa a salvação apenas daqueles que são alvo da graça da salvação. A eficácia salvífica de Cristo, então, não é "universal" ou "potencialmente eficaz" para quem iria recebê-lo, mas especificamente designada para aqueles a quem Deus Pai escolheu. Os calvinistas não acreditam que a expiação é limitada em seu valor ou poder (se Deus o Pai quisesse, teria salvo todos os seres humanos sem exceção), mas sim que a expiação é limitada por ser destinada a alguns e não a todos.
Vocação eficaz (ou Graça Irresistível) - ou "graça eficaz", ensina que qualquer influência do Espírito Santo é irresistível, superando toda e qualquer resistência. Quando então, Deus soberanamente visa salvar alguém, o indivíduo não será bem sucedido se tentar resistir.
Perseverança dos santos - ou "preservação dos santos" ou "segurança eterna": aqueles a quem Deus chamou para a salvação, e depois, à comunhão eterna com Ele não podem cair em desgraça e perder sua salvação. Mesmo que o pecado os leve a renunciar à sua profissão de fé, eles (se são autênticos eleitos), mais cedo ou mais tarde, retornarão à comunhão. A salvação é obra de Deus do começo ao fim, Deus é fiel às Suas promessas, e nada nem ninguém pode impedir Seus propósitos soberanos. Isto é ligeiramente diferente do conceito de "uma vez salvos - salvos para sempre". No ensino tradicional calvinista, se uma pessoa cai em apostasia ou não mostra mais sinais de arrependimento genuíno, pode ser prova de que ele nunca foi realmente salvo, e, portanto, não fazia parte do número dos eleitos.
Isto posto, é necessário agora expor o contraponto feito pelo teólogo holandês Jacob Arminius, que estudou as doutrinas de Calvino e apresentou algumas objeções a certos pontos delas. No Sínodo de Dort, foi debatida a doutrina arminiana clássica na forma dos cinco pontos seguintes:
Eleição Condicional - Deus, por um eterno e imutável decreto em Cristo, antes da criação do mundo, determinou eleger, dentre a raça humana caída e pecadora, aqueles que pela graça crêem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência. Contrariamente, Deus resolveu rejeitar os não convertidos e descrentes, reservando-lhes o sofrimento eterno (João 3:36).
Expiação Universal - Em conseqüência do decreto divino, Cristo, o salvador do mundo, morreu por todos os homens, de modo a garantir, pela morte na cruz, reconciliação e perdão para o pecado de todos os homens. Entretanto, essa salvação só é desfrutada pelos fiéis (João 3:16; I João 2:2).
Fé Salvadora - O homem não pode obter a fé salvadora por si mesmo ou pela força do seu livre-arbítrio, mas necessita da graça de Deus por meio de Cristo para ter sua vontade e seu pensamento renovados (João 15:5).
Graça Resistível - A graça é a causa do começo, do progresso e da completude da salvação do homem. Ninguém poderia crer ou perseverar na fé sem esta graça cooperante. Conseqüentemente, todas as boas obras devem ser creditadas à graça de Deus em Cristo. Com relação à operação desta graça, contudo, não é irresistível (Atos 7:51).
Indefinição Quanto à Perseverança - Os verdadeiros crentes têm força suficiente, por meio da graça divina, para lutar contra Satanás, contra o pecado e contra sua própria carne, e para vencê-los. Mas, se eles, em razão da negligência, podem ou não apostatar da fé verdadeira e vir a perder a alegria de uma boa consciência, caindo da graça, é uma questão que precisa ser melhor examinada à luz das Sagradas Escrituras.
Interpretação dos Cinco Pontos - O terceiro ponto sepulta qualquer pretensão de associar o arminianismo ao pelagianismo ou ao semi-pelagianismo. De fato, a doutrina de Armínio é perfeitamente compatível com a depravação total calvinista: em seu estado original o homem é herdeiro da natureza pecaminosa de Adão e totalmente incapaz, até mesmo, de desejar se aproximar de Deus. Nenhum homem nasce com o "livre-arbítrio", ou seja, com a capacidade de não resistir a Deus.
O quarto ponto demonstra claramente que é a graça preveniente que restaura no homem a sua capacidade de não resistir à Deus. Portanto, para Armínio, a salvação é pela graça somente e por meio da fé somente. Nesse sentido, os arminianos concordam com os calvinistas no sentido de que a regeneração, por meio da graça, precede a fé, e que até mesmo a fé salvadora seja um dom de Deus. A diferença está na compreensão da operação dessa graça. Para os calvinistas, a graça é concedida apenas aos eleitos, que a ela não podem resistir. Para os arminianos, a expiação por meio de Jesus Cristo é universal e comunica essa graça preveniente a todos os homens; mas ela pode ser resistida. Assim como o pecado entrou no mundo pelo primeiro Adão, a graça foi concedida ao mundo por meio de Cristo, o segundo Adão (conforme Romanos 5:18, João 1:9 etc.). Nesse sentido, os arminianos entendem que I Timóteo 4:10 aponta para duas salvações em Cristo: uma universal e uma especial para os que creem. A primeira corresponde à graça preveniente, concedida a todos os homens, que lhes restaura o arbítrio, ou seja, a capacidade de não resistir a Deus. Ela é distribuída a todos os homens porque Deus é amor (I João 4:8, João 3:16) e deseja que todos os homens se salvem (I Timóteo 2:4, II Pedro 3:9 etc.), conforme defendido no segundo ponto do arminianismo. A segunda é alcançada apenas pelos que não resistem à graça salvadora e creem em Cristo. Estes são os predestinados, segundo a visão arminiana de predestinação.
Portanto, embora a expressão "livre-arbítrio" seja comumente associada ao arminianismo, ela deve ser entendida como "arbítrio liberto" ou "vontade liberta" pela graça preveniente, convencedora, iluminadora e capacitante que torna possíveis o arrependimento e a fé. Sem a atuação da graça, nenhum homem teria livre-arbítrio.
Ao contrário dos calvinistas, os arminianos creem que essa graça preveniente, concedida a todos os homens, não é uma força irresistível, que leva o homem necessariamente à salvação. Para Armínio, tal graça irresistível violaria o caráter pessoal da relação entre Deus e o homem. Assim, todos os homens continuam a ter a capacidade de resistir à Deus, que já possuíam antes da operação da graça (conforme Atos 7:51, Lucas 7:30, Mateus 23:37 etc.), e dessa forma a responsabilidade do homem em sua salvação consiste em não resistir ao Espírito Santo. Este é o coração do sinergismo arminiano, o qual difere radicalmente dos sinergismos pelagiano e semi-pelagiano.
Quanto à perseverança dos santos, os arminianos não se posicionaram, já que deixaram a questão em aberto.
Para o Rev. André do Carmo Silvério, em http://www.monergismo.com/, a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume na palavra Soberania: “enquanto os calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do ser-humano conforme a sua livre e soberana vontade, os arminianos salientam que o homem é capaz de por si só querer ou não ser salvo. Se partirmos da premissa que o homem está completamente morto diante de Deus como nos ensina Efésios 2:1, entenderemos porque a salvação depende tão somente da graça e da misericórdia do Senhor, pois ‘não depende de quem quer ou quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia’ (Romanos 9:16)”.
Eu acho que o principal problema deste tópico é a definição de livre-arbítrio. Para os calvinistas livre-arbítrio é a (in)capacidade de o Homem, em seu estado natural, isto é, não-salvo, escolher buscar a Deus; isto quer dizer que a depravação total impossibilita quem quer que seja de por sua própria iniciativa decidir servir a Deus, sendo o Homem totalmente inclinado para o Mal. Para os arminianos me parece que a melhor definição para o termo é a capacidade de o Homem decidir não-buscar a Deus, ou seja, ninguém nasce tão livre a ponto de poder resistir ou não a Deus (isto também é Depravação Total). O que capacita o Homem a fazer a escolha entre o Bem e o Mal é a Graça preveniente, oferecida a todos como uma capacitação para esta escolha. A partir daí o Homem pode aceitar ou rejeitar a salvação, sendo Deus, portanto, isento de qualquer culpabilidade pela condenação dos infiéis.
Para finalizar, gostaria de pedir que, por favor, dê uma olhada nesses dois arquivos que eu fiz: http://img502.imageshack.us/i/comparaopontos.pdf/ e http://img696.imageshack.us/i/comparaosistemas.pdf/ .
Deus te abençoe.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Predestinação e livre-arbítrio

Um leitor sugeriu a discussão sobre predestinação versus livre-arbítrio. Na minha opinião, primeiro de tudo, não há como negar a doutrina da predestinação, por mais que alguns esperneiem e queiram defender o livre-arbítrio puro e simples. Não se trata de um determinismo à moda do século XVIII, que descambou para a teoria da evolução e para o espiritismo, ou um fatalismo cego e impessoal, que diz que não importa o que fazemos ou deixamos de fazer, o resultado já está escrito.
Se entendermos que Deus é onisciente, e conhece o passado, o presente e o futuro, temos que admitir que Ele planejou tudo antes mesmo de criar o mundo. Portanto, Ele saberia, de antemão, quais as pessoas que seriam salvas e quais não, quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Mas nós não sabemos; só podemos ter certeza da nossa própria e individual salvação, embora muitos até achem que não; mas se tivermos dúvida sobre isso, não vale a pena viver a vida cristã, e aí a doutrina espúria da salvação pelas obras triunfa.
Portanto, é ponto pacífico que o que Deus decretou antes da criação do tempo será cumprido em cada detalhe. O grande problema, penso, está na definição de predestinação e no entendimento errado de que ela seria injusta: “por que Deus escolhe umas pessoas e não outras”. Mas Deus não escolhe uns para o paraíso e condena outros; não. De acordo com Romanos 3:23 e 6:23, todos pecamos - estamos todos lascados. Ninguém merece ser salvo: merecemos é punição eterna. Deus seria perfeitamente justo se todos nós passássemos a eternidade no inferno. Entretanto, se Ele escolhe salvar alguns, não é injusto com os “não-escolhidos”, porque estão recebendo o que merecem. Ninguém merece nada de Deus: por isso, ninguém pode protestar se não receber nada. Por exemplo, se eu desse dinheiro a cinco pessoas em um grupo de vinte, os outros quinze ficariam aborrecidos? Provavelmente sim, porque não ganharam nada. Mas eles têm o direito de se aborrecerem? Não, porque eu não devia nada a ninguém, simplesmente decidi ser generoso com alguns. A diferença é que:
1 – Deus oferece a salvação a todos, não a apenas alguns;
2 – nem todos a aceitam, por isso não têm por que se revoltar.
A doutrina da predestinação diz mais a respeito da misericórdia de Deus, que providenciou uma rota de fuga do inferno, do que da condenação prévia da humanidade. Deus é amor, e quem O vê como um juiz severo e incompassivo, está longe de entender a graça e a misericórdia. Predestinação tem mais a ver com a promessa de um meio pelo qual o homem poderia escapar da ira. Esse decreto soberano de Deus - a provisão para a salvação - é que não depende da resposta humana, e não sofre nenhuma interferência da escolha ou decisão do homem. Deus decretou que assim seria, e ponto final. Romanos 9:15 coloca uma pá de cal nessa querela: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão”.
A polêmica surge quando se diz que, resumidamente, Deus escolheu aqueles que serão salvos e aqueles que não serão, e ninguém pode fazer nada a respeito (predestinação incondicional). Os calvinistas acusam os não-calvinistas (ou “arminianos”) de dizer que o homem é quem decide se será salvo ou não. Mas será que os “arminianos” pensam mesmo dessa forma, e que a salvação depende totalmente do homem?
Pelo que percebo, os arminianos (segundo os calvinistas, todos os que não concordam 100% com eles) entendem que a salvação é um dom de Deus, pela graça, mediante a fé; e portanto, depende da fé, obediência e perseverança: “Deus elegeu [para a salvação] aqueles que previu que iriam crer no Evangelho e perseverariam na fé e obediência”. Calvino destoa dessa ideia, embora concordando que Ambrósio, Orígenes, Jerônimo e até Agostinho a ensinaram (Institutas, III, xxii, 8).
Os calvinistas entendem que os homens não são eleitos porque Deus previu que eles creriam, mas crêem porque Deus os elegeu, e isso depende unicamente da vontade, graça e soberania de Deus (ibid.,7), sem qualquer referência à fé, obediência e perseverança do homem. O homem nada pode fazer, pois é Deus quem escolhe quem será salvo, oferecendo a Graça a esse homem, e essa Graça é irresistível, isto é, o homem não tem como a rejeitar. E a perseverança também é obra de Deus, pois o eleito tem que perseverar na fé, mas por si só não tem condições.
Meus amigos calvinistas poderão discordar, mas não posso ser chamado de arminiano, pelo menos não no sentido pejorativo que o termo adquiriu. Vejo que:
- o homem pecou – aliás, em conseqüência do “livre-arbítrio”, o que prova que Deus não fez um autômato, um robô, mas um ser dotado de capacidade de escolha entre o Bem e o Mal (noutra ocasião discutiremos a origem do Mal);
- com isso, o homem foi condenado, pois “a alma que pecar, essa morrerá”;
- nesse contexto (pecado, julgamento e condenação), Deus proveu o livramento ou a suspensão da pena, por meio do sacrifício de Jesus, o Cordeiro de Deus (Gênesis cap. 3);
- esse livramento é oferecido ao homem única e exclusivamente pela Graça de Deus, ou seja, Deus é quem decidiu prover essa “rota de fuga”; na sua soberania, Ele poderia simplesmente ter decidido que não haveria escape, mas em seu amor pelo homem caído, providenciou a salvação;
- acho que o homem pode recusar a Graça. Senão a Bíblia não diria “não endureçais os vossos corações”, nem “se alguém abrir a porta entrarei e cearei com ele”. Se bem que Jesus não seja um coitadinho lá fora, no frio da noite, pedindo desesperadamente para o homem todo poderoso abrir a porta e deixar Ele entrar um pouquinho; não é isso. O que eu quero dizer é que Deus e o homem cooperam na salvação. Deus oferece a salvação, e o homem aceita ou não, mas isso não quer dizer que a salvação depende do homem. Depende de Deus! Sem Ele, não haveria nada, só a condenação! E sabemos que Deus não pode ser culpado pela condenação do homem, o homem vai para o inferno porque quer. Porque não deseja abandonar o pecado, mesmo que isso lhe custe a alma. A Bíblia diz claramente que o inferno não foi feito para o homem, mas “para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41).  E trechos com a partícula condicional “se” (Deuteronômio 30:19, Josué 24:15, Jeremias 18:8; II Crônicas 7:14; Hebreus 3:7, 15 e 4:12, etc.), apontam uma possibilidade de escolha;
- se Deus escolhe quem é salvo, como fica o “livre-arbítrio” para escolher e crer em Cristo? A Bíblia diz que o que temos a fazer é crer para sermos salvos (João 3:16; Romanos 10:9-10). Ela nunca descreve Deus rejeitando ou mandando de volta alguém que O busque (Deuteronômio 4:29). Assim, a predestinação trabalha de mãos dadas com a pessoa sendo atraída por Deus (João 6:44) e crendo Nele (Romanos 1:16). Deus predestina quem será salvo, mas para sermos salvos devemos escolher a Cristo. Os dois fatos são igualmente verdadeiros.
- discordo da expiação limitada (Jesus morreu para salvar unicamente os eleitos). Acho que Jesus morreu por toda a humanidade, tese adotada pela corrente arminiana e rejeitada pela calvinista.  Com base em Atos 2:39, “Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar”, e embora alguns possam dizer que “aqueles a quem Deus chamar” se refere apenas aos eleitos, eu digo que “Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam (Atos 17:30); em Romanos 8:32 (“Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós... ”); em I Timóteo 2:4 (“o qual [Deus] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”); e em João 12:32; II Coríntios 5:15 e outras passagens vemos que toda a raça humana está contemplada com a possibilidade da redenção;
- quanto ao livre-arbítrio, concordo que, “embora reste no homem caído certo vestígio de luz, sua natureza foi corrompida de tal modo que essa luz não pode ser usada corretamente” (trecho das resoluções do sínodo de Dort); isto é, o homem sozinho não tem capacidade de decidir, e por isso, carece do Espírito Santo para lhe convencer da justiça, do pecado e do juízo, cf. João 16:8 e Filipenses 2:13.
- é preciso ressaltar que conversão não é a mesma coisa que regeneração. Alguém pode decidir se converter ao catolicismo, kardecismo, budismo etc.; mas a regeneração é um ato sobrenatural de Deus.  Podemos dizer que a graça capacita o homem a iniciar sua conversão, que é o ato de aceitar (ou receber) a salvação ofertada por Cristo; conseqüentemente, o próprio Deus opera a salvação, regenerando (= gerar de novo) o homem, cf. II Coríntios 5:17, já que Jesus prometeu que “aquele que vem a mim de maneira nenhuma lançarei fora” (João 6:37).
Finalizando, eu penso que tanto o conceito bíblico de predestinação, no sentido de uma ordem pré-estabelecida, quanto a ideia de livre-arbítrio, embora corrompido e embaçado pelo pecado, são plenamente compatíveis e complementares, e por isso digo que o correto enunciado não é “predestinação versus livre-arbítrio”, mas sim “predestinação + livre-arbítrio”. Essas duas verdades não se contradizem, mas se harmonizam, com respeito à interação da vontade divina e da vontade humana.
E aqueles “crentes” que mesmo na condição de pastores, “levitas”, etc., vivem escandalizando todo mundo, como citei na semana passada, seus frutos mostram a que reino pertencem. Estão predestinados à ira? Sim, se continuarem com suas escolhas; mas se se arrependerem, é porque foram eleitos para a salvação. Isso, somente cada um deles – e Deus – sabe.
Mas aí já é assunto para a próxima semana.
Por enquanto, alguns links para você pesquisar:  http://monergismo.com/  e  http://www.arminianismo.com/

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