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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Predestinação e livre-arbítrio

Um leitor sugeriu a discussão sobre predestinação versus livre-arbítrio. Na minha opinião, primeiro de tudo, não há como negar a doutrina da predestinação, por mais que alguns esperneiem e queiram defender o livre-arbítrio puro e simples. Não se trata de um determinismo à moda do século XVIII, que descambou para a teoria da evolução e para o espiritismo, ou um fatalismo cego e impessoal, que diz que não importa o que fazemos ou deixamos de fazer, o resultado já está escrito.
Se entendermos que Deus é onisciente, e conhece o passado, o presente e o futuro, temos que admitir que Ele planejou tudo antes mesmo de criar o mundo. Portanto, Ele saberia, de antemão, quais as pessoas que seriam salvas e quais não, quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Mas nós não sabemos; só podemos ter certeza da nossa própria e individual salvação, embora muitos até achem que não; mas se tivermos dúvida sobre isso, não vale a pena viver a vida cristã, e aí a doutrina espúria da salvação pelas obras triunfa.
Portanto, é ponto pacífico que o que Deus decretou antes da criação do tempo será cumprido em cada detalhe. O grande problema, penso, está na definição de predestinação e no entendimento errado de que ela seria injusta: “por que Deus escolhe umas pessoas e não outras”. Mas Deus não escolhe uns para o paraíso e condena outros; não. De acordo com Romanos 3:23 e 6:23, todos pecamos - estamos todos lascados. Ninguém merece ser salvo: merecemos é punição eterna. Deus seria perfeitamente justo se todos nós passássemos a eternidade no inferno. Entretanto, se Ele escolhe salvar alguns, não é injusto com os “não-escolhidos”, porque estão recebendo o que merecem. Ninguém merece nada de Deus: por isso, ninguém pode protestar se não receber nada. Por exemplo, se eu desse dinheiro a cinco pessoas em um grupo de vinte, os outros quinze ficariam aborrecidos? Provavelmente sim, porque não ganharam nada. Mas eles têm o direito de se aborrecerem? Não, porque eu não devia nada a ninguém, simplesmente decidi ser generoso com alguns. A diferença é que:
1 – Deus oferece a salvação a todos, não a apenas alguns;
2 – nem todos a aceitam, por isso não têm por que se revoltar.
A doutrina da predestinação diz mais a respeito da misericórdia de Deus, que providenciou uma rota de fuga do inferno, do que da condenação prévia da humanidade. Deus é amor, e quem O vê como um juiz severo e incompassivo, está longe de entender a graça e a misericórdia. Predestinação tem mais a ver com a promessa de um meio pelo qual o homem poderia escapar da ira. Esse decreto soberano de Deus - a provisão para a salvação - é que não depende da resposta humana, e não sofre nenhuma interferência da escolha ou decisão do homem. Deus decretou que assim seria, e ponto final. Romanos 9:15 coloca uma pá de cal nessa querela: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão”.
A polêmica surge quando se diz que, resumidamente, Deus escolheu aqueles que serão salvos e aqueles que não serão, e ninguém pode fazer nada a respeito (predestinação incondicional). Os calvinistas acusam os não-calvinistas (ou “arminianos”) de dizer que o homem é quem decide se será salvo ou não. Mas será que os “arminianos” pensam mesmo dessa forma, e que a salvação depende totalmente do homem?
Pelo que percebo, os arminianos (segundo os calvinistas, todos os que não concordam 100% com eles) entendem que a salvação é um dom de Deus, pela graça, mediante a fé; e portanto, depende da fé, obediência e perseverança: “Deus elegeu [para a salvação] aqueles que previu que iriam crer no Evangelho e perseverariam na fé e obediência”. Calvino destoa dessa ideia, embora concordando que Ambrósio, Orígenes, Jerônimo e até Agostinho a ensinaram (Institutas, III, xxii, 8).
Os calvinistas entendem que os homens não são eleitos porque Deus previu que eles creriam, mas crêem porque Deus os elegeu, e isso depende unicamente da vontade, graça e soberania de Deus (ibid.,7), sem qualquer referência à fé, obediência e perseverança do homem. O homem nada pode fazer, pois é Deus quem escolhe quem será salvo, oferecendo a Graça a esse homem, e essa Graça é irresistível, isto é, o homem não tem como a rejeitar. E a perseverança também é obra de Deus, pois o eleito tem que perseverar na fé, mas por si só não tem condições.
Meus amigos calvinistas poderão discordar, mas não posso ser chamado de arminiano, pelo menos não no sentido pejorativo que o termo adquiriu. Vejo que:
- o homem pecou – aliás, em conseqüência do “livre-arbítrio”, o que prova que Deus não fez um autômato, um robô, mas um ser dotado de capacidade de escolha entre o Bem e o Mal (noutra ocasião discutiremos a origem do Mal);
- com isso, o homem foi condenado, pois “a alma que pecar, essa morrerá”;
- nesse contexto (pecado, julgamento e condenação), Deus proveu o livramento ou a suspensão da pena, por meio do sacrifício de Jesus, o Cordeiro de Deus (Gênesis cap. 3);
- esse livramento é oferecido ao homem única e exclusivamente pela Graça de Deus, ou seja, Deus é quem decidiu prover essa “rota de fuga”; na sua soberania, Ele poderia simplesmente ter decidido que não haveria escape, mas em seu amor pelo homem caído, providenciou a salvação;
- acho que o homem pode recusar a Graça. Senão a Bíblia não diria “não endureçais os vossos corações”, nem “se alguém abrir a porta entrarei e cearei com ele”. Se bem que Jesus não seja um coitadinho lá fora, no frio da noite, pedindo desesperadamente para o homem todo poderoso abrir a porta e deixar Ele entrar um pouquinho; não é isso. O que eu quero dizer é que Deus e o homem cooperam na salvação. Deus oferece a salvação, e o homem aceita ou não, mas isso não quer dizer que a salvação depende do homem. Depende de Deus! Sem Ele, não haveria nada, só a condenação! E sabemos que Deus não pode ser culpado pela condenação do homem, o homem vai para o inferno porque quer. Porque não deseja abandonar o pecado, mesmo que isso lhe custe a alma. A Bíblia diz claramente que o inferno não foi feito para o homem, mas “para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41).  E trechos com a partícula condicional “se” (Deuteronômio 30:19, Josué 24:15, Jeremias 18:8; II Crônicas 7:14; Hebreus 3:7, 15 e 4:12, etc.), apontam uma possibilidade de escolha;
- se Deus escolhe quem é salvo, como fica o “livre-arbítrio” para escolher e crer em Cristo? A Bíblia diz que o que temos a fazer é crer para sermos salvos (João 3:16; Romanos 10:9-10). Ela nunca descreve Deus rejeitando ou mandando de volta alguém que O busque (Deuteronômio 4:29). Assim, a predestinação trabalha de mãos dadas com a pessoa sendo atraída por Deus (João 6:44) e crendo Nele (Romanos 1:16). Deus predestina quem será salvo, mas para sermos salvos devemos escolher a Cristo. Os dois fatos são igualmente verdadeiros.
- discordo da expiação limitada (Jesus morreu para salvar unicamente os eleitos). Acho que Jesus morreu por toda a humanidade, tese adotada pela corrente arminiana e rejeitada pela calvinista.  Com base em Atos 2:39, “Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar”, e embora alguns possam dizer que “aqueles a quem Deus chamar” se refere apenas aos eleitos, eu digo que “Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam (Atos 17:30); em Romanos 8:32 (“Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós... ”); em I Timóteo 2:4 (“o qual [Deus] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”); e em João 12:32; II Coríntios 5:15 e outras passagens vemos que toda a raça humana está contemplada com a possibilidade da redenção;
- quanto ao livre-arbítrio, concordo que, “embora reste no homem caído certo vestígio de luz, sua natureza foi corrompida de tal modo que essa luz não pode ser usada corretamente” (trecho das resoluções do sínodo de Dort); isto é, o homem sozinho não tem capacidade de decidir, e por isso, carece do Espírito Santo para lhe convencer da justiça, do pecado e do juízo, cf. João 16:8 e Filipenses 2:13.
- é preciso ressaltar que conversão não é a mesma coisa que regeneração. Alguém pode decidir se converter ao catolicismo, kardecismo, budismo etc.; mas a regeneração é um ato sobrenatural de Deus.  Podemos dizer que a graça capacita o homem a iniciar sua conversão, que é o ato de aceitar (ou receber) a salvação ofertada por Cristo; conseqüentemente, o próprio Deus opera a salvação, regenerando (= gerar de novo) o homem, cf. II Coríntios 5:17, já que Jesus prometeu que “aquele que vem a mim de maneira nenhuma lançarei fora” (João 6:37).
Finalizando, eu penso que tanto o conceito bíblico de predestinação, no sentido de uma ordem pré-estabelecida, quanto a ideia de livre-arbítrio, embora corrompido e embaçado pelo pecado, são plenamente compatíveis e complementares, e por isso digo que o correto enunciado não é “predestinação versus livre-arbítrio”, mas sim “predestinação + livre-arbítrio”. Essas duas verdades não se contradizem, mas se harmonizam, com respeito à interação da vontade divina e da vontade humana.
E aqueles “crentes” que mesmo na condição de pastores, “levitas”, etc., vivem escandalizando todo mundo, como citei na semana passada, seus frutos mostram a que reino pertencem. Estão predestinados à ira? Sim, se continuarem com suas escolhas; mas se se arrependerem, é porque foram eleitos para a salvação. Isso, somente cada um deles – e Deus – sabe.
Mas aí já é assunto para a próxima semana.
Por enquanto, alguns links para você pesquisar:  http://monergismo.com/  e  http://www.arminianismo.com/

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