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sábado, 3 de agosto de 2013

Francisco não me representa

O “papa” F1 visitou a cidade brasileira de Aparecida do Norte, onde se presta culto a uma das versões de Maria, no caso a nossa senhora de Aparecida. Acho que depois que a poeira baixa, é momento de fazer umas reflexões. Alguns procuraram justificar a gastança de dinheiro público em benefício dos fiéis de uma religião, em detrimento de todas as outras. Alegam que “o papa é chefe de estado”. Sim, mas também esteve no Brasil o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad; nem por isso os muçulmanos fizeram requisição de dinheiro aos cofres públicos.
Circularam as mais variadas opiniões, capitaneadas por aquelas que exaltam o “pontífice”: é um homem humilde, simples, gosta de contato com o povão. Vai reformar “a igreja”, agora vai ser diferente. Etc, etc. Ora, pode até ser um “bom homem”, embora o próprio Jesus Cristo tenha dito que “ninguém é bom, senão o Pai que está nos céus”; mas daí a todas as outras assertivas, vai uma grande distância.
Por exemplo: tecem comparações com o seu antecessor, dizendo que F1 usa uma roupa branca, enquanto B16 preferia uma cheia de jóias, paramentos e outros badulaques. F1 usa uma cruz de prata, “simples”, enquanto a do outro era toda cravejada de rubis. B16 usava uns sapatos vermelhos, extravagantes, sentava num trono que parecia obra de Bernini de tantos relevos que tinha, sobre um tapete de veludo vermelho. Mas F1 usa os mesmos sapatos velhos desde quando era seminarista e ia aos jogos do seu time, o San Lorenzo, no velho estádio do Gasômetro em Buenos Aires, senta num trono simples (desde quando sentar em trono é sinnal de simplicidade, eu não sei) e sem tapete... vejam os senhores se isto é sinal de “reforma” ou apenas uma ação de marketing bem planejada, para mudar a imagem e a percepção do papado, do Vaticano e da igreja católica.
Eu fico com a segunda opção e digo que #FranciscoNãoMeRepresenta, pelo seguinte:
Continua o Banco do Vaticano servindo de lavagem de dinheiro. Dizer que vai substituir os administradores não quer dizer que mudará a política de uso dos vastos recursos escondidos nos cofres obscuros. Sinal de reforma seria publicar um balanço constando as operações contábeis, as reservas para provisionamento de prejuízos, as entradas e saídas, as despesas com salários, etc... como qualquer outro banco faria. Caso contrário, continua como sempre, servindo de cenário para filmes de mafiosos, conspirações secretas e marcando presença constante nas páginas policiais de todo o mundo.
Continua a proibição de casamento de sacerdotes (um absurdo: como o sujeito pode aconselhar casais se ele nem sabe o que é casamento; e muito menos mulher, ou pelo menos na teoria não deveria saber, já que é celibatário)...
Talvez em decorrência da proibição do casamento dos sacerdotes, continua sem solução à vista o eterno problema dos padres gays e pedófilos. Aí vem o “papa” e dá uma entrevista onde não diz nem que sim nem que não, ficando em cima do muro. Disse F1 (mais ou menos) que “se a pessoa é gay mas busca o Senhor, temos que perdoar”. Ora, vejam a incoerência. Se “a pessoa é gay e “busca o Senhor”, obviamente deixará de ser gay, como disse o apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios, cap. 6, versos 9 a 11: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis... nem os sodomitas... herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (grifo acrescentado). A pessoa “foi”, não é mais, deixou de ser. Ou seja, F1 faz o jogo dos militantes LGBT, que gostam de citar que Jesus não condenou a mulher adúltera (“nem eu te condeno”, João 8:11); mas espertamente omitem o fim do mesmo versículo, onde Jesus recomenda “vai e não peques mais”.
Continua a proibição do sacerdócio feminino. Não obstante várias religiões de orientação protestante tenham resolvido essa questão há muitos anos, até mesmo a título de uma “modernização” que pode até ser questionável, a posição de Roma é inflexível e contrasta com o suposto alinhamento com os “novos tempos”.
Francisco e a instituição que ele representa continuarão a explorar a fé dos mais humildes com essas procissões, romarias a Aparecida, a Roma, a Juazeiro do Norte, ao Círio de Nazaré, a Fátima, a Lourdes, a Medjugorje e mais outras centenas de lugares onde ocorreram “aparições”, ou se diz que ocorreram. Colocam fardos no lombo do povo, como os fariseus no tempo de Jesus. Não têm vergonha de atrair milhares, milhões até, a peregrinações que nenhum proveito têm, a não ser “para a satisfação da carne” (Colossenses 2:23) e para lucro dos comerciantes, que obviamente, depositarão o dízimo na caneca do padre como “oferta de gratidão”. Ou estou errado? Estou exagerando?
Como é que eu posso apoiar um jesuíta, membro da ordem religiosa das mais furiosas, que mais combateu aqueles que ousaram um dia pensar que a “santa madre igreja” poderia estar equivocada em suas políticas? Como posso concordar com um homem que escolhe o nome de um personagem conhecido pela humildade e simplicidade, só para esconder a ferocidade dos inquisidores debaixo de um manto branco? Não é possível entrar em acordo com o representante de uma facção cruel e sedenta de poder como os jesuítas. Leia mais neste link e neste outro também.
Esse Francisco não me representa porque a jogada de marketing não vai parar. Vai continuar a canonização de “santos populares”, principalmente naqueles países onde o catolicismo vem declinando fragorosamente. Foi assim dos anos 1990 em diante, quando o finado JP2 canonizava a granel, de batelada, enchendo tanto o panteão que hoje tem mais santo do que dias no calendário, e eles se amontoam até três ou quatro por dia. Nisso a igreja se modernizou, pois antes cada dia tinha um santo, hoje o freguês pode escolher entre vários no mesmo dia. Um verdadeiro supermercado com várias prateleiras. F1 está só repetindo a fórmula do finado JP2, que foi a receita que funcionou, a que deu certo.
Acham que modernização significa copiar o que dá certo em outras religiões, aliás, uma prática que acompanha o catolicismo desde a sua institucionalização lá no distante século IV depois de Cristo. Todo mundo sabe o que é o sincretismo, como começou e onde chegou; todo mundo sabe de onde vem tanto santo, tanta festa e tanto costume que nada tem a ver com a simplicidade do Cristianismo e do Evangelho. Se você não sabe, experimente clicar aqui, aqui, aqui, e aqui.
Nesse processo de cópia desenfreada, estão copiando os evangélicos que tanto desprezam, fazendo missas com muita cantoria, violão, batendo palmas, falando e ensinando “línguas estranhas”, imposição de mãos para curar doentes, pedindo dízimo...
F1 não me representa de jeito nenhum, porque ainda no avião que o levava do Brasil para Roma, depois da visita a Aparecida do Norte, disse em alto e bom som que “nossa senhora é mais importante que os apóstolos”. Quem quiser que procure a entrevista, que foi ao ar – lógico – na Globo. Ora, isto é um absurdo teológico monstruoso, uma vez que não existe nenhuma doutrina ou ensinamento de “nossa senhora” que regule o funcionamento da Igreja, que nos traga algum esclarecimento ou iluminação sobre a Palavra de Deus. Uma das poucas falas de Maria registrada nas Escrituras é mandando obedecer a Jesus em tudo: “Fazei tudo quanto ele vos disser” (João 2:5). Nesse aspecto, os evangélicos obedecem a Maria melhor do que os católicos, porque fazem o que Jesus disse. Já os católicos, se apóiam em lendas e mitos, com seus evangelhos apócrifos de Maria, nas lendas de santos e dogmas no mínimo extra-bíblicos como a Imaculada Conceição e a Ascenção de Maria. Se essas lendas são mais importantes do que os escritos e ensinos apostólicos, então F1 está maluco. Pois Jesus mesmo disse que “todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha... Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia” (Mateus 7:24, 26). Vejam os senhores se “o papa” está sendo prudente.
Outras pragas que ele não exterminará serão aquelas contidas nos livros apócrifos e suas lendas: anjos mentindo, ensino de bruxaria (Tobias 5:18 e 6:8), mentira e sedução (Judite 10:2-4; 11-13); intercessão de santos e reza pelos mortos (II Macabeus 15:12-16; 12:45). Aliás, vem daí o ensino espúrio sobre o purgatório e a necessidade de “purificar algum pecado remanescente”, como se o sangue de Jesus fosse insuficiente, em flagrante contraste com a escritura (I João 1:9 diz explicitamente: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça – grifo acrescentado).
Eu podia ficar aqui listando mais um monte motivos pelos quais o “papa” Francisco não me representa. Mas já foi explicado suficientemente.
E para a falar a verdade, doa a quem doer, Francisco não representa nem mesmo a Cristo, de quem ele diz ser “o vigário” (substituto).
São muito diferentes, em que pese o esforço de marketing para tentar vender a imagem de santo.
Falta muito ainda para um “papa” dizer que “renovou a igreja”... na boa... é só marketing pra recuperar o cliente perdido.

Como leitura adicional, sugiro este brilhante artigo de Michelson Borges em Criacionismo.com
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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Novas revelações

Li outro dia um artigo sobre os cristãos primitivos, como viviam e o que pregavam, e não tive como evitar uma analogia com os cristãos de hoje - eu incluso - vinte séculos depois. Muitas coisas ainda são as mesmas, felizmente. É verdade que ainda cremos que Deus é o criador de todas as coisas, e que um dia o Homem caiu em pecado e se afastou Dele. Como os cristãos originais, cremos que a ponte que Deus providenciou para que o Homem voltasse a se conectar com o Criador é Jesus Cristo, que viveu entre nós, morreu na cruz mas ressuscitou ao terceiro dia, subindo aos céus em seguida e prometendo estar conosco sempre. E ainda compartilhamos com aqueles irmãos de 2.000 anos atrás muitas coisas.
Mas algumas outras coisas, não. Acho que as diferenças entre nós e eles se explicam com as tais “novas revelações”, “nova unção, o “novo de Deus e bobagens do tipo. Algumas nem são mais tão novas assim. Quando apareceram sim, eram novidades. E que com o tempo foram se cristalizando e hoje soam como se fossem verdades definitivas. Muitos acreditam tanto nessas falácias que acabam por defender com unhas e dentes o que acreditam ser “verdadeiro”. Dizem que a sua denominação ou facção da cristandade é a responsável por guardar e manter os ensinamentos originais, mas se pensassem e estudassem um pouco mais veriam que o que acreditam ser a realidade só parece ser legítimo porque está na área há algum tempo. Parece... mas não é.
Nem sempre foi assim. Tudo ia bem, até que, em certo momento, recebemos uma nova revelação”. Por exemplo, o que Jesus disse - que não haveria entre nós uns maiores do que os outros (Marcos 10:43) - deixou de ser verdade. A assembléia dos santos crescia tanto que precisávamos adotar uma hierarquia, e transformamos os dons e ministérios - pastores, bispos, diáconos, presbíteros - em cargos honorários. Agora, quem recebe esses títulos, passa a ter autoridade sobre os demais.
Não contentes com os dons nomeados na Bíblia, e não contentes em transformá-los em cargos, ainda criamos outros: arcebispos, cardeais, patriarcas, papas. Agora sim, contornamos o problema que Jesus e os apóstolos deixaram sem resolver. Talvez eles não pensassem que a Igreja cresceria tanto!
Criamos também uma novidade desconhecida dos Doze (os Doze Apóstolos, que fique bem claro; não confundir com G12, M12, e outras invenções modernas): o conceito da “cobertura espiritual”. Já que temos agora todos esses cargos, e os outros subalternos fazendo uma escadinha debaixo de cada um, nada mais natural do que justificar essa estrutura com a “cobertura”: ou seja, você tem que se encaixar na hierarquia, e se resolver sair dela, a maldição o alcançará.  
Também resolvemos, a certa altura, que apesar de Jesus ter dito que cumpriu toda a Lei (Mateus 5:17), e de isso ter ficado claro quando o véu do Templo se rasgou (Mateus 27:51; Marcos 15: 38; Lucas 23:45) e a carta aos Hebreus ter explicado tudo tintim por tintim (8:13), a Lei não podia ser abandonada assim,
sem mais nem menos. Afinal, era servira durante tanto tempo! Seria um desrespeito. Aí voltamos a adotar os costumes abolidos pelos apóstolos. Reabilitamos o sábado. Voltamos a cobrar o dízimo, mas como não vivemos de plantação e criação de animais, cobramos em dinheiro. Ou no cartão. Aproveitamos e incluímos no cardápio as primícias, ofertas alçadas, o “princípio da semeadura”...
Revitalizamos a figura do sacerdote, mesmo que o Novo Testamento esteja cheio de afirmações de que todos somos uma raça eleita, um sacerdócio real (I Pedro 2:5,9), e que não precisamos de intermediários (I Timóteo 2:5; Hebreus 8:6; 9:15; 12:24). Mas, como nem todos têm as mesmas habilidades na oratória, instituímos um sacerdote profissional, pago por nós, para nos dizer o que gostamos de ouvir. Caso contrário, nós o demitimos e contratamos outro.
Alguns cristãos foram ainda mais criativos, criaram um tipo de sacerdote tão exclusivo que nem família pode ter: esses são proibidos de casar e de ter bens que possam administrar. Tudo bem que Paulo disse que quem governa a Igreja deveria ser casado e administrar bem a sua casa (I Timóteo 3:4, 12), mas isso foi antes de descobrirmos um jeito melhor de conduzir as coisas.
Fizemos várias reuniões e resolvemos que, embora Jesus tenha dito que quem cresse e fosse batizado seria salvo (Marcos 16:16), agora é assim: batizamos primeiro. Quem for batizado é que será salvo, independentemente de crer ou não, e até mesmo se não tiver capacidade para crer, como bebês recém-nascidos. A gente os batiza, depois eles confirmam. Por isso criamos a “confirmação”.
Um passarinho nos contou que só crer não basta, é muito fácil. A pessoa tem que passar uma temporada num lugar que não sabemos bem ao certo, mas que chamamos pelo belo nome de “Purgatório”. Já que o Sangue de Jesus não é suficiente, ao contrário do que disse o apóstolo João (I João 1:7), que andou com Ele, determinamos que a purificação tem que ser pelo fogo. Enquanto o coitado fica lá assando em banho-maria, vamos aqui rezando por ele, a partir do sétimo dia de sua morte, depois um mês, um ano e por aí vai.
Também achamos por bem dar uma força ao finado, para que ele não se perdesse. Providenciamos umas velas para iluminar o caminho do falecido. Todo mundo tem que fazer isso, senão a alma fica penando por aí. Isto não tem na Bíblia, então nós, que somos muito criativos, dizemos que quem não faz isso está fora da comunhão.
E por falar em Maria, mesmo que não haja nada disso nas Escrituras, espalhamos que ela só poderia ter concebido o Salvador se também tivesse nascido sem pecado. E já que resolvemos isso, também tivemos que criar a história de que ela não poderia ficar enterrada, deveria também ser levada aos céus. Ah, e também a sua casa.
Tivemos uma nova visão: ressuscitar os levitas, mesmo que Paulo tenha dito que entre nós, cristãos, não devia haver nem judeu nem gentio (Romanos 10:12; I Coríntios 1:24; 12:13; Gálatas 3:28; Colossenses 3:11). E junto com os levitas, trouxemos de volta o shofar, um objeto tão abençoado que não sabemos como os cristãos primitivos o deixaram de lado. De quebra, por que não usar também o tallit,
o kippah, o menorah e a arca da aliança, mesmo que seja de papelão coberto com celofane dourado? Nessa a gente pode tocar à vontade, e assim não corremos o risco de morrer como Uzá (II Samuel 6:7). Aproveitamos o embalo e agora estamos dizendo que até mezuzah é para o cristão ter em casa.
Ganhamos uma nova unção, a de ungir a tudo e a todos, embora Tiago 5:15 seja claro quanto a quem deve ungir, quem deve ser ungido e como. Mas o “novo de Deus” inclui ungir carros, sapatos, carteira de dinheiro, e até algumas partes do corpo dos varões e das varoas...
Descobrimos que Deus tinha que voltar a habitar em templos feitos por mãos humanas, nos esquecendo de Atos 7:48 e 17:24. Aproveitamos um texto fora do contexto, onde Jesus disse “a minha casa será chamada casa de oração” (Marcos 11:17), para justificar essa idéia, que no fundo é uma ótima desculpa para arrecadarmos dinheiro “para a manutenção da casa de Deus”. Também serve para dizermos que “a casa do Tesouro” é a tesouraria da igreja/templo. E até damos um bônus à platéia, comprando em longas prestações um sistema de ar-condicionado, bancos estofados e vidros coloridos para as janelas. Claro, se continuássemos a nos reunir nas casas, nas praças e em outros lugares nada disso seria necessário, mas aí seria muito sem graça. Em casa não tem palco! Não tem jogo de luzes nem som de última geração!
E já que demos um reboot no sacerdote, nos patriarcas, no shofar, no tallit, no kippah, no menorah, na mezuzah, nos levitas e na arca da aliança, porque não reerguer o próprio templo “de Salomão”, a glória de Israel? Mesmo que seja uma cópia do templo de Herodes, o assassino... mas é bacana, não é mesmo? Assim faremos um templo muito maior e mais moderno do que outros grupos de cristãos, que também compartilham da crença de que sem templo não há Deus, e por isso fizeram templos enormes, espalhados por toda a terra...
Para não cairmos na mesma armadilha que nossos irmãos do passado, que foram perseguidos, encarcerados, usados como tochas e até comidos por leões, começamos a determinar vitória, declarar que “o Brasil é de Jesus”, fazer passeatas e manifestações. Para extirpar o mal, não fazemos o que os apóstolos fizeram, que foi pregar o Evangelho, fazer discípulos e plantar igrejas. Não, isso não funciona mais. Recebemos a revelação de que devemos fazer atos proféticos: rodear as cidades, derramar vinho, azeite, água, farinha de trigo, pétalas de rosas, caroço de feijão, como os pajés, maçons e macumbeiros (sem preconceito, viu? somos politicamente corretos). Isso sim há de funcionar! Despacho gospel nas encruzilhadas e praias. A cidade assim há de se render (não sabemos bem a quem, mas que vai se render, isso vai). Assim nós declaramos!
Não aceitamos ser perseguidos como nos dias de Nero! Por isso criamos blogs, montamos comunidades no Orkut, organizamos tuitaços, espalhamos mensagens pelo Facebook, fazemos correntes por e-mail. Mandamos cartas aos deputados, criamos uma frente parlamentar. Fundamos partidos, disputamos eleições, negociamos apoio a candidatos de todo tipo; fazemos caravanas para pressionar (pelo menos pensamos que pressionamos) emissoras de TV; reivindicamos cargos no governo, fazemos jantares em nossas mansões e cultos em nossas igrejas em homenagem a políticos, pois assim cremos que vamos obter o que queremos. Fazemos acordo com a mídia. Que bobos aqueles cristãos de Roma, não usaram nenhuma dessas estratégias! É verdade que até agora o nosso esforço não deu em nada, mas temos fé que assim transformaremos a nação! Bem.. talvez não tanto como eles transformaram o mundo daquela época, mas eles tinham mais tempo do que nós. Opa, espera aí que meu celular está chamando e eu preciso atualizar meu perfil.
...
Eu vi mais um monte de diferenças entre o que aqueles cristãos primitivos e simplórios praticavam, como viviam, sobre o que pregavam - e o que hoje praticamos, vivemos e pregamos, nós, que somos pessoas cultas, modernas, sofisticadas. Tecnológicas. Integradas. Politicamente corretas. Com responsabilidade sócio-ambiental. Pós-graduadas. Ecológicas. Sustentáveis. Com empregabilidade. Dizimistas fiéis. 
E resolvi que gostaria de ter nascido há dois mil anos atrás. Mesmo com o risco de ir parar no Coliseu, acho que era melhor.
Mas como não tem jeito, quero que Deus me ajude a pelo menos imitar aqueles irmãos de séculos passados. Afinal, eles escreveram: “Sejam meus imitadores” (I Coríntios 4:16 e 11:1; Filipenses 3:17; I Tessalonicenses 1:6; II Tessalonicenses 3:7,9; Hebreus 6:12).

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