Em certa igreja - continua - era dia de eleição, e “o pastor resolveu fazer um ‘ato profético’. Enrolou-se na bandeira do Brasil, ‘profetizou’ vitória sobre a nação, ungiu a bandeira e depois pediu que os presentes ‘profetizassem’ bênçãos para o Brasil, representado pela bandeira”. Resultado: isso durou mais de uma hora e não houve tempo para a exposição da Palavra. Não é isso que o Diabo quer? Roubar tempo e energia dos homens para que não dêem ouvidos à Palavra?

Então talvez o pessoal de Toronto não tenha fé suficiente. Lá a Parada Gay é a segunda maior do mundo, só perdendo para a de São Francisco. O pessoal de Toronto precisa rir menos, fazer menos “atos proféticos” e evangelizar mais.
“Ato profético”, no fundo, não passa de feitiçaria gospel para que Deus faça o que as pessoas querem. Acham estarão “movendo as mãos de Deus”, se esquecendo de que, independente da profecia ou do ato, o que foi revelado por Deus acontece. Profecia é informação dada por Deus sobre o futuro. O Senhor revela os seus desígnios aos seus. Isso é fato. Mas nunca a Bíblia diz que Deus age de acordo com a vontade do homem. O que Deus mandava os profetas fazerem servia de ilustração a respeito do que havia de ocorrer, e não o contrário. Os profetas quebraram a botija, se deitaram de lado, se casaram com prostitutas, e muitas outras coisas, mas não para que Deus “mudasse a história” e fizesse de acordo com o determinado no “ato profético”, e sim para revelar ao povo daquela época a sombra das coisas que viriam!
Mário Persona diz que “todas aquelas coisas serviam para mostrar o que Deus iria fazer e agora já fez. Um judeu que visse a ‘sombra’ das coisas futuras naqueles objetos e gestos da antiga adoração judaica podia ser consolado. Mas hoje que temos a realidade que aquela sombra representava, não precisamos nos ocupar com a sombra, mas com a Pessoa que já chegou. Um exemplo: quando você vê a sombra de uma pessoa querida aparecendo no portal de sua casa, você se levanta da poltrona e se alegra. Mas assim que aquela pessoa passa pela porta você corre para o abraço. Mas o que você abraça, a sombra?! Só se estiver louco! Você deixa a sombra pra lá e abraça a pessoa. O cristão não precisa de ‘recursos audiovisuais’ para adorar em espírito e em verdade. Os judeus precisavam desses adereços e aditivos, como um templo visível, vestes, instrumentos musicais etc”.
Jesus curou doentes, ressuscitou mortos, acalmou o mar, proporcionou a pesca milagrosa, transformou água em vinho e muitas outras coisas não como “ato profético”, mas para manifestar o poder de Deus. “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30,31), não para que saíssemos aplicando lodo nos olhos dos cegos!

Os profetas do Antigo Testamento realizavam atos simbólicos, para ilustrar os atos que Deus iria realizar, pois eram coisas que Ele determinara na Sua presciência. Mas os “atos proféticos” das “igrejas” projetam os desejos e vontades de seus “líderes”, “apóstolos”, “patriarcas” e outros títulos de nobreza. Enquanto os profetas bíblicos falavam o que Deus mandava dizer, os profetas de hoje dizem para Deus o que Ele deve fazer. Fazem de Deus seu escravo. Mas como Deus não é escravo, não é em Deus que eles crêem.
A iniciativa em Newark – de que falamos aqui – foi liderada pelos pastores Bernard Wilks e Ed Silvoso, e pretende encontrar pelo menos uma pessoa para andar em cada uma das milhares de ruas das cidades fazendo orações. Ambos são membros da Coalizão Internacional de Apóstolos (ICA – International Coalition of Apostles), que teve início em 2001 com a “Nova Reforma Apostólica”. Os chefes dessa “reforma” são C. Peter Wagner e Cindy Jacobs, que defendem a chamada teologia dominionista, a qual diz que até 2032 os evangélicos irão dominar o mundo.

Esse pessoal todo, ligado ao dominionismo, sobre quem já vimos alertando há tempos, fincou pé em várias denominações, não só as “neopentecostais”, mas também na Assembléia de Deus e nas históricas como a batista, como vimos na lista acima. O “ministério” Diante do Trono, por exemplo, da “batista” da Lagoinha: em suas raízes vemos o Instituto Christ For The Nations (“Cristo para as Nações”, do Texas). A líder do DT estudou lá e foi treinada nas técnicas e doutrinas de crescimento de igrejas, de C. Peter Wagner – que é praticamente o cérebro mundial do neopentecostalismo. Já André Valadão passou pela escola Rhema, de Kenneth Hagin.
Quando estavam estudando por lá (década de 1990) as forças mundiais do cristianismo radical – que se propunha converter o mundo todo até o ano 2000 – estavam se agrupando em torno dos Bush na chamada “direita evangélica” – leia mais aqui, aqui, aqui e aqui. Nesse movimento estão Vineyards, a igreja de Toronto, os pregadores da prosperidade e da “unção do riso”, Paul Cain e os veteranos do movimento “chuva serôdia”, os dominionistas e certas alas ecumênicas e carismáticas do catolicismo romano. Alinhados ao ecumenismo católico estão Benny Hinn e Marcos Witt, respectivamente, “líder e profeta”, e “líder de louvor”, que vêm moldando as mentes e corações de toda uma geração de crentes.
Essa turma ajudou a construir milhares de templos no mundo todo, inclusive o primeiro templo de Paul/David Yonggi Cho na Coreia. O poder econômico foi usado para levantar templos e ministérios cristãos no mundo e, em particular, na Coréia, como parte da estratégia ocidental na guerra-fria, isto é, aumentar o numero de crentes criaria um muro para combater o comunismo - pensavam os especialistas. Daí houve pesado investimento tanto para Cho quanto para o reverendo Moon (que diz ser Jesus e salvador da humanidade). Se todo esse esforço fosse para evangelização pura e sem mistura, tudo bem, mas o que vemos é o uso da máquina religiosa para gerar poder e domínio político e econômico/financeiro.

Há livros publicados por esse “ministério”, onde se ensina a fazer “atos proféticos” como o que fizeram na beira do rio Arkansas. Colocaram água do rio num jarro de barro, acrescentaram sal, e depois jogaram de novo a água no rio, “declarando palavras de bênção”, como “o rio Arkansas vai alegrar a cidade de Deus, haja benção sobre este rio”, blá, blá, blá. Não satisfeitos, se deitaram no chão, dois a dois, para que o espírito (que certamente não o Espirito Santo, porque este habita nos crentes...) passasse por entre cada dupla para chegar até o rio e purificar as suas águas. Ou seja, pura macumbaria. Outro livro ensina como fazer “música profética”, pular e gritar no palco, fazer hu, hu, hu e levar a multidão a pular e fazer gestos extravagantes. Em breve falaremos da música e da adoração, se é assim ou não.

A “editora” desse “ministério” publicou um livro da “profeta e apóstola” Barbara Wentroble, que faz parte do “Conselho” presidido por C. Peter Wagner. Esses e outros “líderes” se reúnem todo ano para “definir os rumos do mover de Deus”. Eles chamam isto de “távola-redonda” e em alguns sites associados a eles há figuras de cavaleiros medievais. Há “revelações” de que veio anjo com taça de ouro, palavra profética revelando qual a melhor data para as tropas entrarem no Iraque, profecia dizendo que a rota da seda seria dada aos crentes e outros absurdos. Na Antiguidade, a “rota da seda” era o caminho por onde vinha a valiosa seda chinesa para os mercados europeus passando pelo Afeganistão, Irã, Iraque e Síria, ou seja, o tal espírito disse que daria “as riquezas das nações” contanto que fizessem na data certa a guerra no Iraque...

O que muda a vida das pessoas e os rumos da nação é o que Jesus ordenou à Igreja: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:19,20).
E isto para mim basta.