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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Contradições da Bíblia? (2)

Sempre que vejo certos argumentos usados para desacreditar a fé cristã, o cristianismo bíblico e a própria Bíblia em si, enquanto Palavra inspirada de Deus, me dá vontade de rir. Os mesmos que dizem ser a Bíblia uma coleção de mitos de povos semi-civilizados, ou que afirmam ser ela fruto da mente de homens maliciosos, tentando dominar os demais alegando serem profetas, esses mesmos demonstram tanto desconhecimento acerca do objeto de seu ódio, que dá até pena.
Um idiota chamado José Francisco Botelho escreveu as seguintes asneiras na revista “Superinteressante”:
Em algum lugar do Oriente Médio, por volta do século 10 a.C., uma pessoa decidiu escrever um livro. Pegou uma pena, nanquim e folhas de papiro (uma planta importada do Egito) e começou a contar uma história mágica, diferente de tudo o que já havia sido escrito. Era tão forte, mas tão forte, que virou uma obsessão. Durante os 1000 anos seguintes, outras pessoas continuariam reescrevendo, rasurando e compilando aquele texto, que viria a se tornar o maior best-seller de todos os tempos: a Bíblia.
Com esse texto extremamente preconceituoso (sim, é pré-conceito, um conceito emitido antes de conhecer o objeto), ele tenta, obviamente, desqualificar a Bíblia enquanto Palavra inspirada, reduzindo-a a um amontoado de escritos aleatórios e manipulados, alterados a cada reedição. Nada mais distante da verdade, como veremos.
Esse pessoal bate na manjada tecla da manipulação. Como aquela turma que lê um livro de sucesso momentâneo, tipo “O Código da Vinci” (ou pior, só vêem o filme), e saem soltando pérolas como “é tudo manipulado”, “Constantino escreveu a Bíblia”, “a igreja escondeu livros que divulgavam ensinos contrários” (como o quê? Que Maria Madalena casou com Jesus?), e que “muitos outros evangelhos que mostram Jesus diferente foram destruídos”.
Aliás, por falar em Maria Madalena, sempre se referem a ela como prostituta. Mas de fato em nenhuma parte da Bíblia é dito que Maria Madalena era prostituta. Na verdade, ela quase não é mencionada na Bíblia. Com exceção de sua presença na ressurreição, a única outra coisa que a Bíblia diz sobre ela é que foi possuída por sete demônios e que, junto com outras mulheres, seguia Jesus. “Evangelho de Madalena”? Conta outra, essa é fraca.
Quanto a destruir “evangelhos”, que a igreja católica combateu as heresias de forma às vezes até excessivamente violenta eu não escondo, pelo contrário. Tenho mostrado direto aqui esse e outros erros do catolicismo. Mas quem afirma as bobagens acima parece não saber que a influência dos imperadores nos assuntos religiosos era ínfima. 
Lembrando – no inicio do quarto século, havia dois imperadores, Constantino e Licinio; e a corrente cristã apoiada por eles (ariana) foi considerada herética pelo Concílio de Nicéia. Entretanto Constantino não retirou o seu apoio aos “hereges”, o que lhe valeu a oposição de muitos bispos, entre eles Atanásio de Alexandria, cujo papel no combate à política pró-ariana de Constâncio II (filho e sucessor de Constantino) foi notória na história eclesiástica do século IV.
Também dizer que o imperador é que decidiu que livros deveriam entrar na Bíblia e quais não, como forma de dominar os cristãos, é outra idiotice. Sabemos que Constantino foi imperador romano e que ostentou, mesmo após a conversão ao Cristianismo, o título de “Pontifex Maximus” pagão, visto que não aboliu os cultos pagãos. Mas disto concluir que ele presidiu concílios e até foi “papa” já é demais! Eu sempre afirmo que, por mais que se discuta se o Edito de Milão (que aboliu as perseguições aos cristãos) marca o inicio da união entre Igreja e Estado, é fato que a partir dali a Igreja Cristã se transforma em igreja católica, com todas as suas mazelas que já são notórias. Fato é que o líder católico adotou o título de “Pontifex Maximus”. Mas desqualificar a Bíblia por causa da suposta influência de Constantino na formação do cânone é um despropósito fenomenal. Constantino não só não definiu o cânone do Novo Testamento no primeiro Concílio de Nicéia (no ano 325) como esse Concílio nem ao menos mencionou a constituição da Bíblia. Isto já estava resolvido há muito tempo, conforme atesta Eusébio de Cesaréia na sua “História Eclesiástica”, IV:25 (aliás, a lista dos livros sagrados relacionada por Eusébio não tem os apócrifos). E além do mais, Constantino não tinha nem poder de voto no Concílio - ele compareceu apenas como observador.
“Ah, mas a igreja destruiu livros que poderiam mudar a história do cristianismo”. Dizem que durante o Concílio de Nicéia “foram destruídos centenas [sic] de evangelhos e outras centenas sumiram, incluindo os ‘Manuscritos do Mar Morto’ e os evangelhos de Judas, Maria Madalena e Tomé, [dentre outros]; durante esse Concílio foi criado o mito da divindade de Jesus... foram selecionados quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) entre cerca de 400... esses evangelhos mostram um Jesus mais divino, já os que foram queimados e sumiram mostravam um Jesus mais humano ou sequer citavam o nome dele. Constantino e sua fingida conversão ao cristianismo criaram uma das maiores farsas da história, a divindade de Jesus”...
Santa ignorância, Batman! A discussão que houve sobre “a divindade” foi, na verdade, sobre a “essência” divina, quando os pais da Igreja teorizaram sobre se Jesus possuía a mesma essência (homoousious) do Pai ou se era semelhante (homoiousious). Não se questionou, em nenhum momento, se Jesus era divino ou não.  Uma polêmica, de resto, bastante metafísica, que não dá para explanar aqui – como também foram as discussões sobre se Maria era mãe de Deus ou apenas do Homem Jesus (isto é, o de Seu corpo carnal), e se o Espírito Santo fazia parte da Divindade. Isso foi necessário para formar o corpo doutrinário do cristianismo, pois não era possível deixar tudo “ao Deus dará”. Desse concílio emergiu o “Credo Apostólico”, uma confissão de fé que resume a crença cristã. Outras coisas foram discutidas, como a data da Páscoa, e nada disso ocorreu de forma leviana como sugere o pseudo-jornalista acima. Os debates duravam meses, teses eram apresentadas, esmiuçadas e por fim, dependendo da sua densidade  e consistência teológicas, eram aceitas ou não; mas o assunto da formação da Bíblia não foi mencionado pelo menos até o ano 397. A inclusão dos apócrifos foi assunto que continuou em discussão por séculos.
Mas para isso não foi preciso “destruir” os “outros evangelhos”. Foi verificado que esses “outros evangelhos” não eram realmente inspirados como os quatro “escolhidos”; basta ver as bobagens que eles contêm, e que já vinham sido combatidos desde o tempo dos primeiros apóstolos. Veja II Coríntios 11:4 e Gálatas 1:6, ambos escritas no ano 58 d.C., onde já se adverte acerca do “outro Cristo” que andava sendo pregado na época. Provavelmente era um “gezuz” genérico, quase igual, mas diferente do original, talvez mais místico, gnóstico. Talvez cheio de “sabedoria oculta”, ou até mesmo com influências orientais, estóicas ou platônicas, quem sabe? Ou até “mais humano”, como o de Saramago e o de Kazantzakis. Em todo caso, era um “falso cristo”. E isso continuou, tanto que décadas mais tarde, outro apóstolo fazia o mesmo alerta. I João 2:18 e II João 7, para ficarmos só nesses exemplos.
Mas nem mesmo os chamados livros apócrifos foram destruídos! Tanto não foram que sempre foram conhecidos, e até foram incorporados oficialmente à Bíblia católica no concílio de Trento, de pirraça, diga-se, porque a Reforma Protestante seguia o cânone já consagrado e não os manteve nas diversas edições baseadas nos textos originais. Então, os apócrifos não foram “destruídos”, apenas não entraram na lista canônica. Convenhamos, um “evangelho” que mostra Jesus criando passarinhos de barro, não tem nada a ver, tinha que ser excluído mesmo... já basta Deus criar  o homem a partir do barro. Jesus fazendo passarinho já é demais. Podiam até escrever livros e mais livros sobre a infância de Jesus, etc., mas daí a terem o mesmo grau de inspiração divina que os evangelhos originais, é outra conversa. Leia João 21:25, e depois, João 20:31 e 31 – aqui está a razão pela qual alguns livros estão na Bíblia e outros não!
E os Manuscritos do Mar Morto não foram destruídos por Constantino; afinal, acabaram descobertos 1700 anos DEPOIS de Constantino, nas cavernas de Qumram.
É tanta bobagem, é tanto argumento sem fundamento, é tanto palpite preconceituoso, como a péssima matéria do seu Zé Botelho na tal revista desinteressante, que eu vou parar por aqui, por absoluta falta de espaço.
Eu vi uma vez a exposição “Pergaminhos do Mar Morto”.
Foi montada uma sala com objetos e utensílios da época, que é “a sala do escriba”: tem a escrivaninha, e em cima dela, um tinteiro de pedra com a pena dentro. É emocionante imaginar que João e os outros apóstolos provavelmente estiveram em lugares como esse, e usaram instrumentos bem semelhantes, para nos transmitir a Palavra de Deus. Não se trata de, como escreveu o infeliz articulista, de alguém que cismou de escrever coisas como se fosse Deus. Não. Nenhum homem, por mais esperto que fosse, seria capaz de escrever sobre coisas que só aconteceriam milhares de anos depois. Ninguém poderia acertar tantos fatos, como por exemplo, a primeira vinda de Cristo, que se cumpriu nos mínimos detalhes. Clique e veja.
Ainda mais emocionante é você ler a tradução dos documentos e ver que os Salmos e os Profetas têm exatamente a mesma redação que a nossa Bíblia. Não há diferença! É fascinante você ver aqueles documentos, alguns com mais de 2000 anos, ali na sua frente, com o mesmo texto que você encontra em qualquer Bíblia! Onde está a manipulação, onde estão as “alterações”?
“Erros” ou “alterações”? Não acredito. É o método massorético usado nos manuscritos originais que preservava o texto, letra por letra. Leia aqui sobre isso. De mais a mais, aqueles que ainda ousam duvidar da autoria dos escritos bíblicos, poderiam pelo menos se dar ao trabalho de procurar trechos em o próprio apóstolo ressalta: “Eu mesmo escrevi, de próprio punho; fui eu mesmo”. Veja como exemplo João 21:24I Coríntios 16:21; Colossenses 4:18; II Tessalonicenses 3:17; Filemom 19.
Então, não acredito na teoria do acréscimo ou da manipulação... pode haver algumas diferenças mais de cunho lingüístico - não sei porque não é a minha área principal - mas o sentido é exatamente o mesmo. Por exemplo, a Bíblia católica, baseada na Vulgata, traz "geena" e a protestante, baseada na Septuaginta, traz “inferno” mesmo, embora "hades" (termo grego) também servisse, em lugar do hebraico "sheol". Mas se formos olhar bem o significado do termo, o lugar "geena" era uma espécie de lixão, um vale em Jerusalém onde queimavam entulho, carcaças de animais etc, e ali o fogo era constantemente alimentado. A ilustração de Jesus, “onde o fogo não apaga” (Marcos 9:43-48), é perfeita. Há "geena" numa tradução e “inferno’ na outra. Mas o sentido é o mesmo. O que falta a certos críticos é uma coisa chamada hermenêutica.
E não. A Bíblia não é a palavra do homem, doa a quem doer.

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domingo, 26 de abril de 2009

Entre a Bíblia e a Tradição (2)

Quando este blog ainda recebia comentários, antes da infestação de trolls, o Raniere comentou que
“naquilo em que os Pais da Igreja falharam em não harmonizar com as Escrituras não merecem mérito, mas naquilo que acertaram merecem crédito. Não se pode estudar doutrinas sem conhecer a História das doutrinas, e na história os pais tiveram sua importância”. A Célia disse que nunca esqueceu um professor que enfatizava o versículo "Examinai tudo e retende o que é bom", porque, ela diz, “cada um tem a sua própria teologia – a Teologia de Paulo, de Pedro e quantos mais aparecerem (e tem aparecido muitos!), mas que isto não necessariamente tem embasamento total nas Escrituras; como a Palavra de Deus é ampla”, continua ela, “dá margem a várias interpretações, então coloca-se um pouco de Filosofia aqui, e Psicologia ali, com um pouco mais de Sociologia, e o que temos? Meias verdades supostamente fundamentadas na Palavra”.
Concordo com ambos, pois Célia complementa Raniere: justamente por acrescentarem interpretações pessoais é que os “pais” não harmonizaram seu pensamento com a Palavra de Deus. Não os desprezamos, mas apenas evitamos colocá-los em pé de igualdade com a Bíblia. Foram e são importantes os “pais”, não há dúvida; mas seu papel não pode ser super-estimado. E aí está a base católica para dizer que sua tradição é a única que pode interpretar a Bíblia, por ter o mesmo peso; aí está a razão da ressalva ao catolicismo: ao criticar outros grupos cristãos, dizem que ninguém pode interpretar corretamente a Bíblia, a não ser eles mesmos. Usam II Pedro 1:19, “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação”. Ora, a passagem contradiz a doutrina do “sagrado magistério”, que se arvora como único organismo capaz de interpretar a Bíblia – “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação”. Mas eles pretendem alçar os “pais” ao mesmo patamar dos primeiros apóstolos – mesmo quando os “pais” contradizem a Palavra. Aí entra a tradição ou o “magistério”, pretendendo rebaixar a Bíblia aos seus achismos de momento, ao compasso das eras, dos costumes e da política, com argumentos filosóficos, como disse a Célia. Isso não dá para engolir. Paulo escreve: “derribando raciocínios e todo baluarte que se ergue contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo... Tendo cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (II Coríntios 10:5 e Colossenses 2:8).
Se nos debruçarmos sobre o exemplo de vida dos “pais”, veremos o que os influenciou a pensarem como pensavam. Sua própria ideologia – no início da Idade Média o seu modo de pensar já pode ser considerado assim, pois a filosofia helênica misturada à teologia cristã já criara uma praxis fundamentalmente distinta da doutrina dos apóstolos – fechou o círculo sobre eles, e se tornaram prisioneiros do próprio discurso. Criaram, sem perceber, um monstro que passou a dominá-los. E isto porque os “pais”, nem sempre, possuíam o discernimento espiritual para separar a realidade espiritual das coisas terrenas, como as citadas interpretações pessoais e particulares, a política e as diversas correntes filosóficas. 
A bem da verdade, eles nem sempre eram pessoas agradáveis ou de boa índole: Tertuliano, por exemplo, que nasceu em Cartago no ano 155, filho de um centurião romano, foi jurista em Roma, onde conheceu o Cristianismo em 193, explanou diversos conceitos como a trindade de três aspectos do divino mas com uma única substância, e a separação da Bíblia em dois testamentos. Porém, oscilava tanto que rompeu com a ortodoxia em 207 e aderiu ao montanismo, uma seita herege que enfatizava o misticismo. Depois, Tertuliano passou a considerar os próprios montanistas moderados demais, rompendo também com eles. Morreu em 222 e, como atestam vários historiadores, possuía uma tendência fanática e até mesmo cruel.
Justino Mártir, que nasceu em Flávia Neápolis (atual Nablus, Jordânia), cerca do ano 100, foi filósofo, e durante seus estudos do platonismo, dos ensinos pitagóricos, do estoicismo e de Aristóteles convenceu-se de que nem toda a verdade estava contida na filosofia, e que precisava continuar buscando pela verdade. Converteu-se ao cristianismo, em Éfeso, mas ao assumir a tarefa de converter pagãos educados não se desfez dos métodos filosóficos, em contraste com Paulo (ver Atos 17:16 e seguintes), que desprezava toda a metodologia humana. Embora tenha atacado de modo muito eficaz o gnosticismo, fazia da doutrina do "Logos" o centro doutrinário de sua abordagem filosófica grega à teologia. Ele acreditava que o Logos divino, o Filho de Deus, implanta as suas sementes em muitos lugares, dentro e fora da religião cristã; e também que a filosofia grega servia de aio para os pagãos para conduzi-los a Cristo, mais ou menos como a lei mosaica fez no caso dos judeus. Foi martirizado entre 163 e 167.
Hipólito viveu entre 160 e 236 d.C. Foi um apologista erudito contra o gnosticismo, mas também era cabeça de um grupo cismático local. Já Teófilo de Alexandria foi um oportunista do pior tipo, e Cirilo, seu sobrinho, perseguiu seus inimigos implacavelmente. Em 32 anos de episcopado, deixou muitos escritos e deu um ultimato aos judeus de Alexandria: ou aceitavam a religião católica ou se mudavam da cidade. Depois fechou igrejas onde não se aceitavam suas idéias, dentre elas o dogma de Maria como a Mãe de Deus (falaremos disto semana que vem). Poucos deles sabiam a língua original das Escrituras, porque ler hebraico equivalia a ser judaísta, e os judeus desde então, muito antes da Inquisição, eram vistos como “assassinos de Cristo”, como ensinavam alguns “pais”; Jerônimo era uma exceção, pois conhecia hebraico. Nasceu na Dalmácia em 342 e educou-se em Roma, viajou muito e por fim fixou residência em Belém, onde fundou um mosteiro e passou os últimos anos de sua vida. Fundador do monasticismo latino, sua obra mais importante foi uma tradução da Bíblia inteira para o latim, que veio a chamar-se "Vulgata" e se tornou a base da Bíblia católica até que o Concílio de Trento adicionou os apócrifos, que já naquela época Jerônimo identificara como não-inspirados. Ele traduziu o Antigo Testamento diretamente do hebraico, em vez de fazê-lo da "Septuaginta", conforme outros tradutores. Mas era apaixonado, briguento e ofensivo, nas palavras e na pena. Quando jovem, favoreceu as opiniões de Orígenes, mas depois atacou-o violentamente. Eremita, sacerdote, erudito e guia espiritual de nobres e de ricos, de mulheres e de monges romanos; mas, apesar disso, foi questionado abertamente e não era considerado, como hoje, uma sumidade total. Sobre a beata Marcela, ele próprio escreveu: “Não aceitava prontamente minha explanação como sendo satisfatória. Propunha questões do ponto de vista oposto, não por pretender ser contenciosa, mas para inquirir” (Epístola 127). Ele admitia não ter certeza do que dizia: “Se em alguma passagem eu ficava confuso, confessava francamente que ignorava o sentido” (Epístola 108). Seus textos, como os de Clemente, cheios de referências da literatura pagã, exaltam a salvação pelas obras ao dizer que Paula, uma cristã falecida em 404, “deserdou-se das coisas terrenas e entregou tudo aos filhos, para que pudesse encontrar herança nos céus” (Epístola 108).
Ambrósio (340-397) foi ordenado bispo de Milão uma semana após sua “conversão”, e exerceu grande influência sobre Agostinho. Embora tenha se tornado profundo conhecedor da Bíblia, era fortemente influenciado pelos escritores pagãos da Antiguidade, empregava o método alegórico dos alexandrinos e exaltava a importância da filosofia grega e do conhecimento através da razão. Foi o primeiro teólogo cristão a usar a expressão "virtudes cardeais", que encontrou nos escritos de Cícero sobre as classificações morais de Platão.
Alguns eruditos rejeitam Orígenes como “Pai da Igreja” por ele ensinar que Deus, no fim, reconciliaria toda a natureza e todas as criaturas, incluindo Satanás. Para Orígenes, a Bíblia contém erros. Talvez venha daí a idéia de que é necessário algum sábio “magistério” para filtrar a Bíblia para o povo, posição adotada pelo catolicismo até hoje.
Eusébio de Cesaréia informa na sua História Eclesiástica 6:19 que Orígenes “leu as obras de Queremon, o estóico, e os de Cornuto. Desses aprendeu o método alegórico de interpretação usual nos mistérios dos gregos, aplicando-os às Escrituras judaicas”. Na verdade, Orígenes nem era tão bom assim em matéria de interpretação. Como aconteceu a outros eruditos, o uso desse método fazia enxergar mistérios ocultos em textos claros e diretos. Mas na prática, Orígenes acabou fazendo o contrário: atormentado pelo desejo sexual, levou ao pé da letra a passagem de Mateus 5:28-30 e castrou-se.
Agostinho também vivia atormentado pelo sexo. Além de defender o funcionamento dos bordéis, como vimos no artigo anterior, escrevia: “Mandais-me, sem dúvida, que me abstenha da concupiscência da carne... mas na minha memória vivem ainda as imagens de obscenidades... Durante o sono, não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da ação. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir” (Confissões 10, 30:41). Talvez sofresse assim porque não era dado à leitura da Bíblia, até ser “ordenado padre”, como escreveu ao bispo Valério: “Eu tinha de estudar as prescrições das Escrituras, orar e ler... não o fiz antes porque não tive tempo, mas tão logo fui ordenado, planejei usar todo o tempo de lazer para estudar as Escrituras” (Epístola 41). Agostinho revela-se pródigo em heresias, contrárias ao ensino bíblico, como por exemplo:
Panteísmo:Deus está todo em toda parte. Será talvez pelo fato de nada do que existe poder existir em Vós que todas as coisas vos contêm?” (Confissões 1, 2:2)
Culto e oferenda aos mortos: (Mônica, sua mãe, trazia) “papas, pão e vinho puro, como em África costumava fazer, levando-os para junto das sepulturas dos santos ... e, se havia muitas sepulturas de mortos a honrar daquele modo, levava sempre o mesmo copo...” (Conf. 6, 2:2)
Oração pelos mortos:Esqueço um momento as boas ações de minha mãe (então falecida), pelas quais alegremente dou graças, para Vos pedir perdão de seus pecados... perdoai-lhe também as suas dívidas, se algumas contraiu depois do batismo.” (Conf. 9, 13:35)
Para não estender muito mais, destacamos os perigos de se colocar no mesmo pé de igualdade com a Bíblia um corpo doutrinário como esse, extremamente conflitante com a Palavra de Deus.
1 – As tradições devem ser analisadas criticamente, para não se tornarem mandamentos de homens, acerca dos quais Jesus nos advertiu;
2 – Católicos e ortodoxos fariam muito bem examinando o elemento humano na formação da tradição, para não colocá-la ao lado ou acima da Palavra de Deus;
3 – Nenhuma comunidade deveria forçar suas tradições sobre outros, como se essas tradições fossem mandamentos de Deus. Sola Scriptura!
COMENTÁRIO FINAL Deixemos que a Bíblia fale, inclusive com Pedro, que alguns chamam de “primeiro papa”, detonando a “tradição”:
“Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? ... Por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus” (Mateus 15:3, 6);
“Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Neglicenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens.” (Mateus 7:7-8);
“Respondeu-lhes Jesus: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim; mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens. Disse-lhes ainda: Bem sabeis rejeitar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição... invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição que vós transmitistes; também muitas outras coisas semelhantes fazeis.” (Marcos 7:6-9, 13);
“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8);
“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais.”
(I Pedro 1:18);
“Errais ao não conhecer as Escrituras e nem o poder de Deus.” (Mateus 22:29).

DOA A QUEM DOER.

Na próxima semana: MARIA.

domingo, 19 de abril de 2009

Entre a Bíblia e a Tradição (1)

Ao longo da História, alguns homens ficaram conhecidos como “Pais da Igreja”, em função da contribuição que deram ao cristianismo. Naqueles tempos, o número de cristãos ainda era relativamente pequeno, e era ameaçado por muitas heresias; sem falar nas perseguições movidas pelos imperadores romanos, havia ataques sutis de filósofos pagãos e existia a necessidade de edificação e exortação do povo de Deus. Os mais conhecidos desses personagens foram Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório, no Ocidente, e Basílio, Gregório Nazianzeno, Atanásio e João Crisóstomo, no Oriente Cristão. Alguns outros, como Tertuliano, Teófilo e Cirilo de Alexandria, Orígenes e o historiador Eusébio de Cesaréia figuram em algumas listas, as quais divergem entre si.

Entretanto, a questão não é conhecer não as obras dos “Pais”, mas sim a relevância desse conhecimento face à Palavra de Deus, que é a Bíblia, tão somente. Temos que considerar que esses homens, embora cristãos sinceros, desejosos de servir a Deus e com conhecimento da Bíblia acima da média em sua época, também sofreram da falta de discernimento comum àqueles dias. Os escritos dos “pais da Igreja”, que os católicos incluem naquilo que chamam “Tradição”, de fato possuem grande valor histórico e literário. Mas sua importância não deveria nem poderia ser superior à da Palavra de Deus. O que acontece no catolicismo é que eles ensinam que a Bíblia é difícil de entender e só os seus sacerdotes podem interpretá-la, à luz da Tradição. E assim tentam adaptar a Palavra de Deus à palavra dos homens, e quando a Tradição entra em conflito com a Bíblia, a Tradição prevalece.
Tentar conciliar duas opiniões conflitantes, a bem da verdade, foi um longo exercício de filosofia cujo processo ficou conhecido na História como “escolasticismo” (em completo desprezo à advertência em Mateus 7:24, de que “não se pode agradar a dois senhores”). Vale lembrar que a metodologia escolástica adotada na Idade Média tendia à filosofia platônica, às vezes aristotélica e até socrática, mas nunca teológica e cristocêntrica. Nessa canoa furada embarcou, como muitos outros, o sistematizador do pensamento católico, Tomás de Aquino. Uma das conseqüências dessa sistematização à la grega foi, no Concílio de Trento (1545/1563), o estabelecimento da Tradição ao mesmo nível da Palavra de Deus. Mas a prova de que a Tradição católica é insuficiente é a sua inconsistência, quando comparada às Escrituras. Uma comparação entre as duas mostra a discrepância entre os ensinos:
 
Proibição de ler a Bíblia:
“Nenhum leigo deve possuir livros das Escrituras, exceto o Saltério e as Horas (Salmos)... também não poderá ler esses livros, a não ser em latim...” – Concílio de Toulouse, 1229.

“Santos” a favor da prostituição e dos bordéis:
“Se se eliminarem os lupanares, a volúpia convulsionaria o mundo.” – “Santo” Agostinho, em De Ordine, 2:4; e “São” Tomás de Aquino, em Summa Theologica, 2:10:14.

A Bíblia diz que só o sangue de Jesus purifica do pecado (I João 1:7), mas a “Tradição” ensina que não:
“Os livros santos, por cuja leitura todos os pecados dos homens são lavados...” – “São” Jerônimo, “Cartas”, pg. 85.

Amar os inimigos? Nem tanto:
“Odeio com veemência os seus inimigos. Oh, se os matásseis com uma espada de dois gumes, para que desaparecessem! O meu desejo era vê-los morrer.” – “Santo” Agostinho, em “Confissões”, Livro 12, 14:17
"Por que (...) a Igreja não deveria usar de força para compelir seus filhos perdidos a retornar?" – idem, em “A Correção dos Donatistas”, 22-24;
“O cristão que mata um incrédulo na guerra santa está certo de sua recompensa; mais certo se for morto. O cristão cobre-se de glória na morte de um pagão porque Cristo é por esse meio glorificado.” – “São” Bernardo Aos Cavaleiros Templários, citado por H. Milman em “História da Cristandade Latina”, 4:251. Isto parece Maomé convocando os muçulmanos à jihad!

Jesus não é co-eterno com o Pai, mas uma criatura:
“Jesus Cristo Nosso Senhor, que Vós gerastes e criastes no princípio de vossos caminhos...” – “Santo” Agostinho, em “Confissões”, Livro 7, 21:27.

Clemente, tido como um dos primeiros “papas infalíveis”, crê em animais fabulosos - mitologia pagã para instruir cristãos:
“Consideremos o sinal prodigioso que ocorre na região oriental, isto é, nas terras próximas da Arábia. Aí existe um pássaro chamado fênix, único na espécie e que vive quinhentos anos. Quando está para morrer, ergue seu próprio sepulcro usando incenso, mirra e outras plantas aromáticas e, ao completar seu tempo, aí se introduz e morre. De sua carne em decomposição nasce uma larva que se alimenta da matéria putrefata do animal morto e cria asas; quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis. E, em plena luz do dia, aos olhos de todos, transporta e depõe aqueles restos sobre o altar do sol; a seguir, retoma o vôo de volta. Então os sacerdotes examinam os calendários e percebem que ele chegou ao se completarem quinhentos anos”. (Clemente de Roma, em “1ª Epístola aos Coríntios”, capítulo 25:1-5)
Essa carta, aliás, é repleta de citações duvidosas, do tipo “está escrito em alguma parte” (21:2; 26:2; 42:5; , e “em algum lugar diz a Escritura” (15:2,3,4; 28:2; 35:7; ou “em outra parte” (14:5; 46:3); ou ainda “assim se diz” (29:2,3; 30:4). Por exemplo, em 39:3; 46:2; 48:2; 50:4 acha-se a expressão “Está escrito” sem que se saiba onde está escrito. Isto pretende legitimar ensinos diferentes da Palavra de Deus. E funciona bem, já que “o magistério” não permite a leitura da Bíblia...
No capítulo 10:2 lemos que Abraão “saiu de sua terra, deixou seus parentes e a casa do pai, saindo de uma terra pequenina, parentes sem importância, uma casa modesta”. Contrariamente, a Bíblia diz: “Abrão levou consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhes acresceram em Harã” (Gênesis 12:3). Abraão era rico, e os parentes eram importantes para ele, tanto que quando Isaque se tornou adulto, Abraão buscou uma nora entre seus familiares: “E disse Abraão ao seu servo, o mais antigo da casa, que tinha o governo sobre tudo o que possuía: Põe a tua mão debaixo da minha coxa, para que eu te faça jurar pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não tomarás para meu filho mulher dentre as filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito; mas que irás à minha terra e à minha parentela, e dali tomarás mulher para meu filho Isaque” (Gênesis 24:2-4).
O capítulo 22 é um discurso atribuído a Jesus; entretanto, também não se encontra na Bíblia. O mesmo acontece em 15:7 e em 20:7 (palavras atribuídas a Deus); em 27:4 (palavras atribuídas a Jó); em 27:6 (palavras atribuídas a Moisés), e diversas outras passagens. É como se fosse um evangelho apócrifo!
Há ainda em 16:10-12 um acréscimo ao trecho de Isaías 53 que fala sobre o sofrimento do Messias, que não se encontra em lugar algum da Bíblia.
Além desses erros, os “pais”, de modo geral, seguiam métodos da filosofia grega, e dela extraíram conceitos e analogias que nivelam a fé cristã ao nível do paganismo, prática que se tornou comum sob o nome de sincretismo. Hoje, a Tradição católica é um corpo gigantesco de interpretações contraditórias e intelectualmente maçantes, compêndios, tratados, atas de concílios, encíclicas, bulas e outros arrazoados filosóficos pseudo-apostólicos, sem falar em milhões de sermões e homilias pretensamente bíblicos, que nada têm a ver com a Palavra de Deus, que é viva e eficaz.

DOA A QUEM DOER.

...continua...