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domingo, 13 de março de 2011

A MATRIX evangélica (final)

Os pseudo-líderes evangélicos da modernidade usam e abusam da cortina de fumaça para manter a estrutura e – por que não dizer – seu emprego, seu meio de vida. Criam ideias, conceitos, doutrinas e arrazoados que visam unicamente perpetuar o seu domínio sobre a congregação, e não raro, assegurar a seus descendentes e apaniguados uma fonte eterna de sustento. É o verdadeiro feudalismo evangélico (leia mais aqui).
Dentre as técnicas usadas para manter a dominação nicolaíta, uma das mais evidentes – para quem já saiu da Matrix, ou da “cobertura” – é um dialeto próprio, que identifica claramente quem ainda está “dentro da visão”. Eu chamo de “evangeliquês”. Tem várias nuances, mas de modo geral usa as palavras da tabela abaixo. Veja só: são 3 colunas de substantivos, que podem ser usados combinados na ordem das colunas (1, 2 e 3), com qualquer dos verbos da coluna 4.
Eventualmente, os termos podem ser transformados em verbos, para dar mais autenticidade (por exemplo, estabelecido = estabelecer, unção = ungir, profético = profetizar, liberado = liberar, etc.), assim:
- Precisamos marchar na unção profética com adoração extravagante para alcançar a batalha de alto nível!
- Vamos guerrear no mover apostólico e poderoso para conquistar o tabernáculo consagrado do reino levítico para as nações!
- A geração apaixonada dos dizimistas fiéis foi estabelecida para gerar a cobertura territorial e como leões declarar restaurado o reino celestial!
- É tempo de liberar o ato apostólico da intercessão poderosa e decapitar as hostes malignas!
Também pode ser usada a coluna especial de entonação, se for o caso.
E sabe o que é engraçado? Os seguidores mais próximos do “líder” começam, pouco a pouco, a copiar os gestos, o tom de voz, o estilo do ungidão-mor. Repare só, e depois me diga se não estou dizendo a verdade...
Como ilustração prática disso todo, releia este artigo, e veja se não é a prova final desta tentativa de manter os  abestados sob o tacão do líder todo-poderoso: palavras vazias, sem conteúdo, genéricas como as previsões da Mãe Diná ou do Jair de Ogum, lançadas como se viessem do próprio Trono da Graça! Anos proféticos decretados um após o outro, apenas como promoções das Casas Bahia, para manter a platéia hipnotizada! Boletins de pseudo-profetas, encaminhados por e-mail, são lidos nas “igrejas” e congregações como se fossem a “instrução suprema”, para que todos sigam, à uma, o “mover da visão”.
Veja este texto:
2008 será um tempo de usar o dedo indicador como nunca. Um tempo de ensinar, movimentando o indicador com força, um ano de profetizar, apontando para cima e desferindo a palavra de Deus. Um ano de expandir o Reino, apontando o dedo para onde o Espírito quer que vamos. Um ano de ativação, esticando o indicador e apertando o botão que fará as coisas funcionarem. Um ano de inovação, onde vamos criar artisticamente de forma livre e nunca antes vista, como quem desenha na areia. Um ano de disposição, onde Deus vai esperar os indicadores que se levantarem dizendo “presente!” ... O rio apostólico aumentará seu volume. Jovens apóstolos genuínos surgirão nas nações através de “Pais Apostólicos”; eles serão sinais do Avivamento Mundial que se inicia.  Guia Profético para o ano de 2008, em http://projetojoel2.com/blog/?cat=21&paged=8).
Ou este:
[2010] Ano de cavar poços das provisões que o Senhor nos envia enquanto passamos pelo vale. Ano de nos aplicarmos a crer e a buscarmos as águas vivas de Deus para nos suprir. Temos que cavar, ir atrás, aplicar esforço pessoal para desfrutar de nossa herança já legalmente determinada pelo Pai ...  Fique atento às estações espirituais de chuvas divinas, que tornarão o solo do nosso coração fértil para as sementes divinas que florescerão e frutificarão em 2010. Lembre-se de recolher a água da chuva divina em tanques (?); guarde as porções de águas vivas que lhe serão entregues ... Os céus estão abertos; é tempo de colheita nas 12 regiões proféticas. (http://guerreiros.insejec.com.br/category/palavras-profeticas/).
Percebe a enrolação?
Seria cômico se não fosse trágico!
E para você tirar a dúvida sobre quem é o maluco nesta história – eu, que estou metendo o dedão na pereba, ou o pessoal da “cobertura”, “apostolado”, etc... – veja sobre o novo título que deram a “papaipóstolo” Hernandes, ou sobre o que a IURD anda fazendo. Aí está a prova do que estou dizendo, esses camaradas fazem o que fazem porque têm quem os apóia e os considera o último biscoito do pacote, a derradeira revelação, a encarnação do Espírito Santo, a última palavra, a unção suprema.
Russell Shedd nos dá um alerta sobre esses caras:
“[Satanás] foi mentiroso no princípio (João 8:44) e continuará até o fim. Gera mentiras, assim como poços de água parada geram micróbios. Propaga falsas ideias com astucia para alcançar seus objetivos. Mesmo quando homens inteligentes percebem que foram iludidos, continuam crendo nas novas falsidades promulgadas pelo pai da mentira. Se a habilidade de Satanás para enganar fosse limitada aos seus adeptos, a conseqüência não seria tão catastrófica. Mas podemos imaginar a satisfação que tem o demônio quando se transforma em anjo de luz (II Coríntios 11:14), para iludir os mais instruídos. Não hesita em vestir uma roupagem santa para confundir os que carecem de discernimento, Ele comparece aos cultos para inculcar suas ideias nefastas. Por isso Paulo ordena que falem apenas dois ou três profetas e os outros julguem (I Coríntios 14:29). Se Satanás não tivesse acesso aos cultos, não haveria necessidade de avaliar as mensagens. A frase “se alguém se considera profeta ou espiritual” (v. 37) também aponta o perigo de auto-proclamação de um ministro que se diz mensageiro de Deus, quando de fato é porta-voz do inimigo. Por essa razão, João manda que as igrejas provem os espíritos se vêm ou não de Deus (I ao 4:1). A apostasia das igrejas acontece porque não reconhece que os espíritos enganadores espalham suas doutrinas demoníacas sem que os fiéis percebam a falsidade (I Timóteo 4:1). Shedd, in “O mundo, a carne e o diabo”, pg 96-97.
Olha, faço um apelo sério: saia logo dessa “matrix” maligna. Leia a Bíblia, especialmente o livro de Atos e as epístolas, e veja, sinceramente, se está dentro do padrão neo-testamentário para a vida cristã. Veja se seu líder incentiva o estudo bereiano da Palavra, se aceita crítica, se vive pela fé ou de campanha em campanha, congresso em congresso, conferência atrás de conferência – tudo com ingresso pago, claro. Avalie se de tempos em tempos te convocam para um encontro ou “clínica” para confessar de novo todos os pecados conhecidos e desconhecidos, desde não sei quantas gerações passadas, e quebrar de novo as maldições que Jesus já quebrou na Cruz. Com ingresso pago, evidentemente. Mas mesmo se for de graça também é esquisito. Veja se na hora da oração há uma balbúrdia de “línguas estranhas”, onde ninguém entende nada, pois não existe interpretação. Veja se o “louvor” é de acordo com Efésios 5:18-21 e Colossenses 3:16, ou é uma sucessão de apresentações e showzinhos de pseudo-levitas toscos e dançarinas desengonçadas. Veja se estão te espremendo para dar o dízimo religiosamente – coisa da outra dispensação – senão o devorador, o migrador, o picador, o moedor, o ralador e o espremedor vão puxar seu pé de noite; se os recursos arrecadados estão financiando a caminhonete do apóstolo, a viagem da bispa, o tênis novo do filhote do pastor; ou se as ofertas – voluntárias - estão sendo aplicadas de acordo com o que a Bíblia ensina...
Abra seus olhos!
70200

domingo, 31 de janeiro de 2010

De pai para filho

Há muitos anos assisti a um filme do diretor francês Regis Wargnier, chamado “Eu Sou o Senhor do Castelo”. É um drama que conta as impressões de um menino a partir da morte de sua mãe e sua solidão na grande propriedade da família, onde ele vê o pai, a governanta, o filho dela e outros personagens como invasores no que ele considera o seu espaço particular, o “seu castelo”. Daí o título do filme. Um título bastante intrigante.
Corta para os dias atuais. Local: qualquer jornal diário. O assunto: o nepotismo. Praga antiga, que desde a Roma Imperial vem empesteando a sociedade. Recentemente vimos o senador Sarney enrolado para explicar o emprego de funcionários fantasmas que por sinal eram parentes seus. Até namorado da neta mamava no Senado sem nunca ter ido lá. Já nos acostumamos a ver – e criticar duramente – principalmente no meio político essa prática infeliz.
Mas o que muitos ignoram, ou se recusam a ver, é que esse costume abominável chegou às nossas igrejas. Muitas igrejas têm-se desfiliado das convenções nacionais exclusivamente com o propósito velado de adotar essa prática nefanda.
Muitos de vocês nem eram nascidos nesse tempo. Há uns trinta anos ou mais, a grande maioria das igrejas evangélicas deste país era organizada em convenções. Havia a Convenção Batista Brasileira, chamada “tradicional”, e sua dissidência, a Convenção Batista Nacional, chamada “renovada”; mas ambas seguiam – e seguem – praticamente a mesma organização e métodos (inclusive já há quem defenda a re-união, assunto para outra postagem, em breve). Mas a Igreja Presbiteriana tem o seu Concílio, as Assembléias de Deus têm a CGADB e a Conamad, e assim por diante. Com algumas exceções, é claro, mas no geral as igrejas, que então eram sérias e evangélicas, funcionavam com muita organização. Um dos principais motivos era que dessa forma, a convenção geral ou nacional era quem escalava e distribuía os pastores pelas igrejas, fazendo um rodízio de tantos em tantos anos. Isso não deixava que eles viessem a ser idolatrados pelo povo, e se tornassem donos de igrejas.
Entretanto, há uns trinta anos, aproximadamente, começaram a surgir alguns movimentos estranhos. Algumas igrejas, principalmente as maiores e mais influentes, começaram a alegar motivos esdrúxulos e começaram a se desfiliar das convenções. Uma estranha coincidência é que nessa mesma época aparece, a princípio timidamente, depois com mais ousadia, o conceito de “cobertura”. Estranha por que não se pode entender que o pastor titular exija que os membros fiquem sob sua “cobertura” – um conceito por si só bastante discutível à luz das Escrituras – mas ao mesmo tempo saia de debaixo da “cobertura” da denominação. Ou seja, a “cobertura” só vale deles para baixo.
Mas tudo tem uma explicação, que nem sempre é clara, mas que com o tempo acaba vindo à tona.
O que aconteceu? Aconteceu que aquele pastor se tornava “dono” da igreja! Não tendo mais a quem prestar contas, não corria o risco de “fazer um bom trabalho” e depois ser substituído, deixando o aprisco para outro tomar conta. Agora ele era dono do redil; podia imprimir o seu ritmo, o seu estilo, até mesmo a sua interpretação particular, ou, como se tornou chavão, “a visão”.
Mas o efeito mais duradouro dessa mudança organizacional é de caráter prático. Eu comecei há muitos anos a detectar esse movimento e o chamei, na época, de feudalismo evangélico. Isso porque as igrejas não só passaram a ter donos, mas também herdeiros! Os pastores, sabiamente, ao perceberem que não durariam para sempre, trataram de cuidar da sucessão do que agora era seu feudo particular – lembre-se, não estavam mais sob a autoridade da convenção geral. Passou a ser o senhor do castelo, como o garoto do filme, e todos os outros passam a ser vistos como invasores em potencial daquele mundinho. E como todo senhor feudal que se preze, a possessão passa para a próxima geração, mas sempre na mesma família! Uma possessão vitalícia.
Senão vejamos. Faça uma breve pesquisa pelas maiores igrejas do país e verá que os pastores titulares são, pela ordem, o pastor (ou bispo, apóstolo etc.) Fulano de Tal; depois vem pastor Fulano de Tal Júnior, Fulano de Tal Filho, Fulano de Tal Neto e por aí vai. Isso quando não tem a pastora (ou bispa, ou apóstola etc.) Fulaninha de Tal, Beltranice de Tal, ou Cicrânia de Tal. Mas é sempre o sobrenome “de Tal”, igual ao do chefão.
Talvez a única exceção seja o “apóstolo” Doriel de Oliveira, cujo filho é deputado em Brasília e se chama Rubens César Brunelli Júnior, aquele mesmo da oração da propina. Opa, peraí? Se ele é filho do Doriel, e se chama Júnior, por que seu primeiro nome não é Doriel? Link aqui... Eu hein... Se alguém souber o que houve, por favor, nos avise, para não cometermos injustiças nem darmos informações incorretas. Enfim, somente como exemplo, seguem algumas fotos para que vocês nos ajudem com mais informações. Outro aspecto que caracteriza o feudalismo evangélico é que, assim como na Europa Medieval, muitas igrejas hoje tratam de produzir tudo aquilo de que precisam para a própria subsistência.
Começou com a venda de Bíblias e livros evangélicos. Até aí, tudo bem, nada contra. Mas logo surgiram lojinhas de bugigangas: chaveiros, adesivos, camisetas, marcador, discos, cds, dvds, e agora até calcinha tem. Virou um verdadeiro mercado persa. Se Jesus viesse visitar uma igreja dessas, talvez usasse o bom e velho azorrague no recinto.
Mas o feudo ia crescendo, e logo se abandonou o velho hinário, pois como ouvi um “pastor” justificar tal assassinato, “a linguagem é arcaica, ultrapassada; o pessoal não entende”. Com isso, foram suprimindo os hinos e aumentando o uso dos “corinhos” – que também acabaram desaparecendo com a adoção das músicas de cds dos “levitas”. De preferência os oriundos do próprio “ministério”. Os que têm mais recursos até se tornam conhecidos fora das fronteiras, e são cantados nos feudos vizinhos; com o advento da Internet, até em feudos distantes. De feudo para feudo. E nesse meio tempo, um estudiozinho para produzir as próprias músicas. Em si, isso não é ruim. O que não é bom é que o custo da produção cai, mas o preço final não... Um cd custa menos que R$5 para ser produzido, mas vai ver o preço da venda. Se fosse para o Reino de Deus, até daria pra engolir, mas é para o Feudo.
Edição de livros, a mesma coisa. O pastor escreve uma coisinha aqui, outra ali, daqui a pouco a igreja tem sua própria editora. Mesma coisa do estúdio, baixam-se os custos de produção, mas não o preço da venda. Mentalidade empresarial, ora, dirão os modernos.
Depois, surgiu outro malefício, o seminário próprio. Primeiro, um cursinho básico de especialização, de aprofundamento. Depois, com o crescimento natural da freguesia, acaba virando um “seminário” ao gosto do patrão, onde são enfatizadas as doutrinas que o senhor do castelo mais preza: prosperidade, exorcismo, regressão mental, batalha espiritual... raramente missões e evangelismo. Mais uma vez peço que você faça uma pesquisa, como eu fiz, e dê uma olhada nas matérias oferecidas. Compare com um seminário sério, um que seja reconhecido pelo MEC há mais de 30 anos, por exemplo.
Outras comparações podem ser feitas com o feudalismo, como por exemplo, a fragmentação da unidade anterior e a auto-suficiência de cada feudo; a palavra do senhor do castelo é a lei suprema; a administração da justiça própria àqueles considerados dissidentes; a formação de um cordão de puxa-sacos e parasitas; uma tropa de choque para cegamente defender o senhor a qualquer custo etc.
Mas, para não alongar demais a conversa, e por falar em livros, vamos terminar tratando de mídia.
É sem dúvida muito importante o uso da mídia, em todas as suas possibilidades, para a evangelização, missões, edificação pela pregação da Palavra de Deus. Sou totalmente a favor do rádio, da TV, do cinema, dos jornais, livros, folhetos, revistas. Internet, blogs, e-mail (sem spam, por favor), twitter, torpedos, e o que mais ainda for inventado. O que eu sou contra é o uso dessas ferramentas para promoção
própria, enriquecimento pessoal e/ou divulgação de doutrinas particulares! Igrejas com canais de TV? Isso era o sonho de toda uma geração de cristãos bíblicos! Resta ver se o conteúdo presta. Programas de culinária (ao lado)? Programas de moda? Transmissão ao vivo de raves gospel? E isso é o que vemos hoje em canais ditos “cristãos”. Mais uma vez, felizmente, com honrosas, mas poucas, exceções. E quando a mídia resulta mais em glorificação do feudo e do senhor do castelo do que de Deus, aí podemos de fato desconfiar de que quem manda é o senhor feudal, com vistas à perpetuação do seu poder.
E de sua dinastia, PER OMNIA SAECVLA SAECVLORVM.

Depois, quando o pessoal diz que há uma mentalidade medieval permeando certos rincões do cristianismo atual, tem gente que reclama.