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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Evangélicos e as eleições (de novo)


É sempre assim. A cada quatro anos, eles saem das tocas e aparecem com seus discursos ensaiados, cheios de emoção, raramente tendo algum fundamento lógico ou racional. As multidões que presenciam seus eventos saem animadas, acreditando em tudo que disseram, e prometendo seguir fielmente o que foi dito. Tudo isso para depois das eleições desaparecerem, ou pelo menos ficarem mais discretos, voltando, digamos assim, à normalidade. Sabe de quem estou falando?
Não, não é dos políticos. É de uma outra categoria de pessoas, que também depende da credulidade e da falta de espírito crítico das massas para poder sobreviver. Trata-se dos modernos “apóstolos”, que não perdem oportunidade para tentar uma boquinha no governo. De preferência uma que lhes agrade ideológica e politicamente (se é que têm noção dessas coisas); mas se não der, não tem problema. O importante é entrar na festa; depois, se for o caso, bandeia-se para a “oposição”, cospe-se no prato em que se comeu e busca-se outra sombra melhor.
Aqui vai um exemplo claro. Recentemente apareceu na mídia uma notícia dando conta de que começou uma “campanha de jejum e oração pelas eleições”. Essa campanha foi inventada por “líderes evangélicos” e “levitas” famosos. O objetivo? “proclamar que o Senhor Jesus Cristo é o único Senhor e Rei soberano da República Federativa do Brasil, por direito de criação e por direito de redenção”. E também escolher “12.000 sentinelas [intercessores] para levantar cobertura espiritual sobre o Brasil que vai eleger novos gestores públicos em âmbito estadual e federal”, e assim “acelerar, ocupar e influenciar pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”.
Uma espécie de manifesto explica que “a igreja deve experimentar um avivamento [com] poder de gerar a verdadeira mudança política e cultural na sociedade”.
Ora, sabemos da importância da intercessão – é uma prática que a Bíblia incentiva. Abraão suplicou por Ló e este escapou da destruição; Moisés intercedeu por Israel e foi ouvido; Samuel orou constantemente pela nação; Daniel orou pela libertação do seu povo; Davi suplicou pelo povo; Cristo rogou por Seus discípulos e fez especial intercessão por Pedro; Paulo é exemplo de constante intercessão. Mas aqui já vemos a diferença entre o Velho e o Novo Testamentos: antes, muitas vezes a nação era objeto da intercessão; agora, não. Deus presentemente trata com indivíduos, e não com nações. Esse tratamento com as nações será retomado na Tribulação: tanto é verdade que esse período consiste exatamente no julgamento das nações. Não há intercessão “pelas nações” na Era da Igreja. Começa aí a confusão.
E de onde será que tiraram essa idéia de “12.000 sentinelas”? Porque não 40 milhões, que é o número (estimado) de cristãos evangélicos do Brasil? Será que o apelo á intercessão não se aplica a todos os cristãos? Por que só a uma casta privilegiada e “sacerdotal”? E por que o número “12.000”? Isso parece mais um apelo à crendice popular e cabalística, um certo “misticismo” pseudo-cristão que eu chamo de “numerologia evangélica”.
E mais: onde na Bíblia se encontra uma ordem de Jesus Cristo, o Cabeça da Igreja, dizendo “Ide, acelerai, ocupai e influenciai pessoas, cidades e nações com os valores do governo de Deus”? Onde Ele ensina que precisamos “transformar nações [...] e gerar mudança política e cultural na sociedade”? Qual é a passagem bíblica que traz esses ensinamentos?
É sabido que esse pessoal pertence àquela facção da Cristandade que atende pela pretensiosa denominação de “Nova Reforma Apostólica” – o que já denota a sua arrogância. Querem se comparar, e até mesmo superar, a Reforma do século XVI com Lutero, Calvino e outros heróis da fé. Eles mesmos assumem isto, como você pode constatar aqui neste link. O que eles pretendem? O que pensam? O que pregam?
Seus principais mentores são C. Peter Wagner e Chuck Pierce; e outros como Rony Chavez; Ana Mendez; Neuza Itioka; Valnice Milhomens; Renê Terranova; Cindy Jacobs; John Eckhardt; etc. Você pode procurar depois na Internet. E talvez fique espantado com a quantidade de seguidores que eles já têm em nosso país. Geralmente são apoiados por “levitas” como David Quinlan e outros, muitos outros, que divulgam excrescências como “louvor profético”, “adoração extravagante”, “dança profética”, “transferência de gerações” e outras aberrações. Seus ensinos baseiam-se, muitas vezes, em teorias de administração e marketing, como as de George Barna, Alvin Toffler, Peter Drucker, Peter Senge e Ken Blanchard (como expus aqui neste link).
Peter Wagner mesmo defende o crescimento exponencial do número de membros, usando técnicas de network-marketing, a popular “pirâmide”, como G12, M12 etc. E diz que o “apóstolo moderno” é “espontaneamente reconhecido pelas igrejas”. E aí sou obrigado a perguntar: quem, dessa lista de “apóstolos modernos”, foi “espontaneamente reconhecido” pelas igrejas? Na maioria dos casos, eles foram impostos como tais, devendo a obediência a eles ser adotada por decreto, sob risco de excomunhão. Interessante  é que se trata de uma “ação entre amigos”: eles mesmos dizem que para ser apóstolo, precisa ser “ungido” por outro “apóstolo”. Ou seja, fica tudo no mesmo clube. Você duvida? Diga a algum membro dessas igrejas que você não crê no apostolado de um desses fulanos, para ver o que acontece. Eu mesmo levantei essa questão antes, neste link: “será que existem apóstolos hoje em dia”?
Pode-se então notar claramente que o objetivo não é, como parece, “interceder pela transformação da nação” - o que em si é altamente questionável, pois a Bíblia não nos manda “transformar nações” e sim pregar o Evangelho a pessoas, indivíduos, uma vez que salvação na presente dispensação é de caráter pessoal e não nacional, o que eu explico melhor aqui neste link e neste outro . O objetivo, na verdade, é participar do governo terreno “em nome de Deus”, exatamente como defendia Agostinho em sua obra “A Cidade de Deus”. Agostinho defendia a ideia de que o reino de Deus é exercido pela igreja na terra. Um equívoco total, fruto de uma visão de mundo muito pessoal. Ele escreveu isso por volta do ano 400 da era cristã, quando a igreja, então se transformando de cristã em católica, crescia com o apoio do governo temporal. Agostinho imaginou então que a igreja poderia governar o mundo por sua influência no poder político, aliando-se aos reis e magistrados. Daí o costume medieval de sempre o rei ser coroado pelo bispo ou até mesmo pelo “papa”. Mas nada disso se aplica à verdadeira Igreja de Cristo.
Os ensinos desses novos “apóstolos” estão levando muitos evangélicos a pensar que estão preparando a Terra para o reinado de Cristo. Sua doutrina se traduz, basicamente, nesses pontos:
I) Satanás usurpou o domínio da Terra através da tentação de Adão e Eva;
II) A Igreja é o instrumento de Deus para recuperar esse domínio;
III) Jesus não pode voltar, nem voltará, até que a Igreja tenha recuperado o domínio, pelo controle das instituições governamentais e sociais da Terra
(leia mais aqui).
Assim, vende-se a idéia de que, entrando (e dominando) a esfera política, aceleramos a vinda de Cristo para que, quando Ele chegar, o poder já esteja consolidado nas mãos da igreja, por meio de seus “apóstolos” e – incrível isso – seus “generais”!
O próprio Chuck Pierce, em suas mensagens repletas de esoterismo e numerologia, diz que “os cristãos irão realizar sinais e maravilhas, e controlar sete montanhas de influência cultural – governo, educação, religião, família, artes e entretenimento, negócios e mídia – para fazer um reino cristão para Jesus retornar e governar”.
Isso é uma das maiores mentiras do Diabo. A verdade é que, como a Igreja será arrebatada a qualquer momento, jamais terá destaque na Terra sem a companhia do Noivo. Enquanto a Igreja de Jesus estiver na Terra, habitando corpos de carne, jamais alcançará, como Cristo não alcançou, qualquer destaque entre os homens. Aqui está o engano. Não há nas Escrituras margem para se crer que a Igreja reinará ou governará na presente era (antes do Arrebatamento). Pelo contrário! Entretanto, os que não se guiam pelas Escrituras são levados a crer que estão aperfeiçoando o que Deus projetou. Por isso “nova reforma”, o “novo de Deus”, um “novo mover”, “novas revelações”, “estabelecer um novo tempo”! Preste atenção!
Eles pregam a “teologia da substituição”, como os católicos. Deus teria deixado Israel de lado, por sua incredulidade, e estabelecido “um novo Israel”, e agora a igreja é a beneficiária das bênçãos antes prometidas a Israel. Duas consequências graves dessa teoria: o anti-semitismo (pregado por muitos pastores), já que Israel negou Jesus e merece sofrer (baseado em Mateus 27:25, “o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”), e a teologia da prosperidade, que assume para si as promessas de bens terrenos – que eram para Israel (baseados em Deuteronômio 30:9; Josué 1:3; Isaías 61:6, etc.).
Os líderes evangélicos, como os “papas” medievais, estão totalmente seduzidos pelo poder temporal. Fazem de tudo para conquistar a atenção dos políticos, tentando “influenciar e acelerar” processos de cunho meramente eleitoreiro. Para se justificar, apelam para Provérbios 29:2 (“Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”), querendo com isso se auto-proclamar “justos”. Ou seja, só seremos abençoados se os escolhermos para dirigentes da nação! Esquecem-se de que o Brasil já teve presidentes evangélicos, e nem por isso o povo se alegrou...
Vejam esse Silas Malafaia. Primeiro, em 2010 disse que apoiava Marina, porque ela seria “evangélica”. Depois, quando ela passou a andar de beijos e abraços com o notório ex-terrorista Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis, no então Partido Verde, com o “pai-de-santo” Luiz Bassuma e recebeu apoio total e irrestrito do padre “new-age” Leonardo Boff, voltou atrás e vislumbrou em José Serra a sua chave para a prosperidade. Não deu certo.
Agora, em 2014, hipotecou seu apoio (e de sua boiada cativa) à candidatura natimorta do pastor Everaldo. Mas como ele sabe que não há a mais remota possibilidade de vitória, declarou que apoiaria Marina no segundo turno  - e a boiada deveria ir junto. E explicou que o apoio a Everaldo é apenas para lhe ajudar a ter visibilidade. A menos, é claro (em se tratando de Malafaia, sempre tem um “senão”) que Marina obedeça a cartilha de seu partido e permaneça a favor do aborto, da união (casamento) gay e da liberação das drogas. Aí Malafaia apoiará Dilma e vai detonar Marina, pois Aécio já afundou. É a famosa “maria-vai-com-as-outras”. Nesse meio-tempo, ele cansou de malhar o PT, mas levou o candidato do partido ao governo Rio à sua igreja e até “o apresentou” lá na frente. O que mudou?
É por essa e por outras que eu repudio todo e qualquer pastor que queira influenciar seu rebanho, sua congregação, a mídia, seguidores do Facebook e assemelhados, a votar nesse ou naquele candidato. Por mais querido e amigo que seja, me desculpe. Já falei mais de uma vez: isto não é “dar uma opinião” ou “revelar sua opção”, é tráfico de influência! Isso mesmo, repito, tráfico de influência. Cada um pode e deve ter sua opção, mas a partir do momento em que você tem uma audiência cativa, se coloca numa posição de liderança espiritual e autoridade (ainda que questionável) e coloca essa opção para a galera, está criando um curral eleitoral, doa a quem doer. Está vendendo a fazenda, como se dizia antigamente, “de porteira fechada”, isto é, com tudo que está lá dentro. O pastor é candidato? OK, mas então que faça como os radialistas, saia de licença três meses antes do pleito, pare de pregar no púlpito, vá fazer campanha da porta do templo para fora, lá na rua. O pastor gosta desse ou daquele partido? OK, mas nada de levar seus candidatos preferidos para fazer farol na igreja. O pastor quer arranjar uma boquinha no governo com a desculpa esfarrapada de “governar em nome de Deus”? Que vá puxar saco lisonjear o candidato lá no gabinete dele; fazer isso escancaradamente na Internet e na TV só rebaixa o “líder espiritual” ao nível de aventureiro e interesseiro.
Ainda mais quando esse “líder espiritual” manifesta sua opção política a cada quatro anos; e pior ainda, quando muda de opinião com as estações do ano. Quando cisma de “levantar intercessores para mudar a nação”, para que a nação e o governo sejam de acordo com o que ele acha.  Sinto muito, mas estou fora desses caras.

Fontes externas:

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