Eles tentam nos empurrar que “o Novo Testamento também cita o dízimo”, que “Jesus incentivou o dízimo”, que “a igreja primitiva fazia assim”, e que “o dízimo é anterior à Lei e não foi abolido pela Graça”, como se pode ver nos textos que usam para defender seu ponto de vista (como nesses em marrom, retirados de sites favoráveis ao dízimo, tipo este aqui).

Primeira – se, como pregam, “Deus não está preocupado com a quantia que entregamos, mas com o nível de desprendimento, sacrifício e fé”, então por que devemos nos ater aos 10%?

Terceira – Se Jesus já cumpriu toda a Lei, por que devemos nós cumpri-la de novo? Quando Jesus diz que não veio ab-rogar a Lei, mas cumpri-la, Ele quer dizer que cumpriu toda a exigência de que o pecado requer um sacrifício, e Ele foi o sacrifício propiciatório para o nosso pecado, “pois o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Romanos 10:4). Por meio Dele, somos justificados perante Deus: isso significa que a Lei foi totalmente satisfeita, e por isso a Lei mosaica, com suas ordenanças e preceitos, não tem mais efeito para nós, gentios, hoje. Jesus mesmo disse que “a lei e os profetas vigoraram até João” (Lucas 16:16). A Lei que Jesus cumpriu totalmente, e da qual nenhum jota ou til pode ser retirado ou modificado, é a propiciação pelos pecados.
Doutra forma, se a Lei ainda está vigente para nós, aí sim o dízimo ainda vigora, mas também vigoram a circuncisão, os animais puros e impuros, o sábado, o levirato, o nazireado, o apedrejamento, a purificação da mulher, e um monte de outras coisas. Pergunto aos arautos do dízimo se cumprem essas ordenanças, já que para eles elas não foram revogadas.

Quarta – quando Jesus diz aos fariseus que “devíeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mateus 23:23 e Lucas 11: 42) é no sentido de que eles “dizimavam” até a última merreca, mas não praticavam a misericórdia. Ele de novo afirma que os judeus (veja bem, os judeus) deviam cumprir toda a Lei, e não apenas parte dela. E mais: Jesus está falando aos fariseus, judeus da gema, e não à Igreja. É unanimidade universal, de conhecimento até do reino vegetal, que a Igreja foi estabelecida em Atos 2, e portanto em Mateus 23 ela ainda não existia, era ainda um mistério não revelado aos homens. É óbvio que Jesus está se dirigindo a Israel, aos judeus!

Quinta – dizem que o dízimo é uma forma de adoração, com base em Provérbios 3:9,10. Mas essa é uma grande forçação de barra, porque não há nada que comprove essa “adoração” nas Epístolas. Lemos sobre louvar a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, mas nada de dinheiro para adorar. Os crentes davam dinheiro? Davam, lógico, como Barnabé (Atos 4:36, 37) – mas era voluntário, e ele deu tudo, não 10% da venda de sua propriedade. Ninguém disse que ele tinha que “dar 10% para a igreja como forma de adoração”. O texto de Provérbios está no contexto do dízimo mosaico, e “as primícias” dizem respeito ao que os judeus guardavam para comemorar suas festas, conf. Deuteronômio 14:28. Por isso os celeiros e lagares ficavam cheios. E veja que este é “um dízimo” especial, a cada três anos. Alguém pratica isso hoje em dia?

Sétima – quando dizem que II Coríntios 9:7 é um incentivo ao dízimo, passam atestado de analfabetismo, pois a passagem é clara: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria” (notem o grifo: segundo propôs, não os 10% obrigatórios!). E a coisa piora quando tentam associar essa passagem a Êxodo 25:1,2, para dizer que devemos ser generosos, e que dinheiro também era aceito; mas o verso fala de oferta voluntária, mais uma vez, não de dízimo! Uma coleta que ocorreu apenas uma vez, não todos os meses! Não se repetiu jamais, como o dízimo de Abraão.
Oitava contradição – a batida teoria da provisão, multiplicação e restituição, com base - como sempre - em passagens do Velho Testamento endereçadas a Israel, como Malaquias 3:10,11 (específica aos sacerdotes, como vimos aqui, mas que insistem em jogar nas nossas costas), e Joel 2:25 (onde confundem o gafanhoto literal com uma figura alegórica, simbólica, à maneira dos católicos; Deus está dizendo a Israel que irá restaurar a terra prometida a Seu povo, dando-lhe prosperidade e livrando-a tanto do inimigo militar como dos predadores naturais da lavoura). Note que no cap. 1:6 Deus fala sobre “a minha terra” (Israel), e em 2:18-20 promete o livramento para... Israel. Sem alegorias ou adaptações para a Igreja. Aliás, nesse trecho de Joel não há referência a uma eventual “proteção contra falência” ou restituição do que foi perdido “por não ofertar”, como sugere este pessoal aqui, que associa cada tipo de gafanhoto a um demônio específico. Leia o resumo do livro de Joel aqui, e veja se tem algo a ver com dízimo; mesmo que se busque uma analogia com uma situação de dificuldade pela qual passemos um dia, sua posterior restauração nada tem a ver com dízimos, mas sim com arrependimento (2:12,13).

Assim podemos concluir, mais uma vez, que o dízimo é uma prática da Velha Aliança, aquela mesma que foi extinta quando o véu do Templo se rasgou, conf. Hebreus 8:13 – “Novo pacto, ele tornou antiquado o primeiro. E o que se torna antiquado e envelhece, perto está de desaparecer”.
E para aqueles que dizem que o dízimo é anterior à Lei e, portanto, superior a ela, digo que a circuncisão, o sacrifício de animais, o sábado, a separação entre animais puros e impuros, tudo isto também é anterior à Lei. Por que vocês não
praticam essas coisas? Porque só praticam o que lhes interessa, doa a quem doer. É muito fácil o pastor, na “hora da oferta”, ir até o gazofilácio e colocar ali o seu dízimo, para todo mundo ver como ele é “abnegado e desinteresseiro”. Esse dízimo que ele acaba de depositar vai para a coluna de “entradas” na contabilidade da igreja, e dali retornará ao seu bolso na forma de salário! Ele “ofertou” para si mesmo!!!

Querer trazer para a Igreja práticas de Israel, como o dízimo, equivale à opinião dos saduceus, que em Atos 15:5 “levantaram-se dizendo que era necessário circuncidá-los [os cristãos gentios, ou seja, nós] e mandar-lhes observar a lei de Moisés”. Essa opinião foi rechaçada, quando os Apóstolos ensinaram que aos crentes gentios (isto é, nós) não se deveria impor nada, exceto “que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue” (Atos 15:20 e 21:25). Senão, Felipe teria dito ao eunuco que precisaria seguir a Lei para ser salvo (Atos 8:36-38), e Pedro teria dado ao povo uma resposta muito mais longa do que a que está em Atos 2:38, 39. Felipe não pediu o dízimo do eunuco (e olha que devia ser um dízimo bem gordo, afinal o cara era Ministro de Estado).
Impondo leis aos crentes, a igreja evangélica aproxima-se perigosamente da católica, com suas leis canônicas, ordenanças, catecismos, regulamentos e exigências, que dificultam o caminho das pessoas. “Ai de vós também, doutores da lei! porque carregais os homens com fardos difíceis de suportar” (Lucas 11:46).
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