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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Bispos e bispos...

A posse da presidente Dilma Rousseff foi transmitida por todos os canais de TV do Brasil e vários do exterior. O engraçado foi saber que a Globo cortou na hora a sua transmissão, colocando no ar “melhores momentos”(?) do “Caldeirão do Huck”. Mas quem mudou de canal viu por que: na fila do salamaleque estava o “empresário” Edir Macedo, dono da TV Record, segundo a qual a comitiva era a única da mídia no evento.
Duas reflexões:
A primeira é que uma das poucas coisas boas, se é que há alguma, em ver Edir Macedo ao lado da presidente Dilma é saber que a Globo se mordeu e espumou de raiva, sendo obrigada a cortar a transmissão abruptamente. Isso é muito bom! Fazer raiva na Globo não tem preço!
A segunda é mais séria.
Como diria Lula, “nunca antes na história deste país” teve tanto evangélico (ou pelo menos gente que se acha evangélica). Não por acaso, a visita a um bom número de igrejas já faz parte do roteiro de qualquer político. O PV de Marina Silva, por exemplo, apesar de defender a união civil de homossexuais, o aborto, a legalização de drogas e outros temas que quase custaram a cabeça a outros candidatos, ganhou pontos abençoados desse rebanho e forçou o segundo turno em outubro passado. Apesar da anencefalia coletiva, ou talvez por causa dela, é um contingente nada desprezível.
É preciso afagar a manada. E a forma mais fácil é lhe dando uma parcela, ainda que ínfima, desse poder e visibilidade. Isso agrada a massa.
Nos portais de notícias que aceitam comentários, a aparição do “bispo” na posse causou júbilo entre as hostes iurdianas. Um comentário dizia, eufórico, que “ninguém agüenta nós da universal” (sic). O comentarista tem razão; mas eu fico pensando na grande diferença dos “bispos” da atualidade para os verdadeiros bispos da história da Igreja.
João, por exemplo. É, aquele mesmo que escreveu um evangelho, três epístolas e o Apocalipse. Aquele que junto com Pedro foi o primeiro discípulo a chegar à tumba vazia. Aquele a quem Jesus amava.
Sabe-se que João foi bispo na cidade de Éfeso, uma das maiores cidades do Império Romano. Como em outros lugares, havia ali um templo da deusa Diana: eu vi um deles em Portugal e fiquei impressionado - e nem era dos maiores. Imagine-se o de Éfeso, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. A cidade, extremamente idólatra, vivia em torno do comércio religioso que emanava desse templo. A Bíblia relata que se faziam miniaturas dele, vendidas com muito lucro, até o dia em que os cristãos começaram a se multiplicar. Libertos da idolatria, abandonaram as bugigangas, que começaram a encalhar nas prateleiras, e aí, parece que é o noticiário de hoje: com a iminente quebra da economia local, houve um protesto na associação comercial. Foi tão grande o tumulto que a polícia chegou, desceu o cassetete a torto e a direito, e levou todo mundo para a delegacia, inclusive o apóstolo Paulo, para prestar esclarecimentos... leia mais em Atos 19.
Mas a despeito da antipatia dos comerciantes, a comunidade cristã cresceu e algum tempo depois, João se tornou bispo na cidade. A igreja em Éfeso foi mencionada em Apocalipse, e apesar de tomar uma repreensão do Senhor, foi elogiada por detonar os nicolaítas, o que significa que era uma igreja que não aceitava o domínio de uns sobre os outros. Já se vê aí uma diferença entre aqueles bispos e os de hoje.
Entre o tumulto em Atos e a carta em Apocalipse, se passaram cerca de 40 anos. Nesse meio tempo, pelo menos oito imperadores subiram ao poder: Nero em 54, Oto, Galba e Vitélio em 67/68, Vespasiano em 69, Tito em 79, Domiciano em 81 e Nerva em 96.
Não se tem notícia de que João tenha sido convidado para as solenidades de posse de nenhum deles. Nem Pedro, Lino, Anacleto ou Clemente, que a tradição diz terem sido os primeiros bispos da capital do império, foram convidados. O motivo? Simples: a igreja não compactuava com o governo, com suas diretrizes, seus métodos, sua ideologia. Não se misturavam. É  outra diferença entre aqueles bispos e os de hoje.
Para se ter uma idéia, o historiador Tácito escreveu que os cristãos eram, para os romanos, “o que há de abominável e infame no mundo... uns foram revestidos de peles de animais ferozes e jogados aos cães pra serem devorados; outros eram pregados em cruzes; muitos foram queimados vivos, embebidos de matéria inflamável, acesos para servirem de tochas à noite” (Anais da Historia Romana, XV:44).
Mas hoje... são outros tempos, dirão alguns.
Sem dúvida, são outros tempos.
Hoje o político precisa da igreja, e a igreja precisa do político. E nessa dependência mútua, abre-se espaço para o comércio, o negócio, a combinação: você não me atrapalha que eu não te atrapalho. Você me ajuda que eu te ajudo. Você fala, que eu te escuto.
E aí pergunto, mais uma vez: a Igreja precisa disto? Jesus, a quem pretendemos representar nesta terra, precisa disto? A Igreja precisa do poder terreno? Precisamos “tomar posse da nação”? Evidentemente, todo cidadão tem o direito de votar e ser votado, de acordo com suas convicções. Congressistas cristãos podem agir como sal e luz, barrar certas leis etc., mas têm o direito de exigir poder e holofotes? Podem barganhar verbas? Prometer votos em troca de concessão de emissoras de rádio e canais de TV?
O que temos visto a cada dia não é exatamente sal e luz, mas sim dólar na meia, na cueca, oração da propina, sanguessugas, passagens aéreas para parentes e apaniguados, tentativa de meter a mão no dinheiro do FGTS e outros absurdos.
Mas... são outros tempos.
O bispo agora não é mais queimado vivo não, que absurdo, ele é convidado para a posse presidencial.
Nunca antes na história deste país se viu tal coisa, dirão alguns. Nem da Igreja, digo eu. 
O bispo agora não vive distante da política; ele não é mais oposição a César. O bispo agora janta com César. César precisa do bispo, e vice-versa. E se você quiser saber o que é ser bispo, clique aqui.
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No dia da posse, o Jornal Nacional exibiu matéria sobre uma concentração da igreja Mundial, que vem crescendo mais que a IURD. O evento reuniu cerca de 100 mil pessoas no autódromo de Interlagos, em São Paulo.
Há oito meses, a IURD reuniu mais de 1 milhão de pessoas no mesmo local, e a TV Globo não noticiou o encontro. Só o jornal O Globo deu foco ao “congestionamento” e à “sujeira”, com o título pejorativo de “Caos universal e autorizado”. Valdemiro Santiago, auto-proclamado “apóstolo” e chefe da Mundial, é dissidente da IURD e nunca antes teve espaço na Globo, mas ofereceu R$15 milhões mensais por um horário no SBT. Dinheiro não falta, para isso existe o “bízimo” e o “trízimo”. Teria sido paga a matéria do JN, ou a Globo resolveu contra-atacar a Universal com a Mundial?
Será que vai ter próximos capítulos? Será que vale a pena ver de novo a guerra santa?
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