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sexta-feira, 23 de julho de 2010

A ideologia


Há algum tempo li no Gospel +, portal evangélico de notícias, um artigo de um famoso blogueiro cristão, em que ele descia o porrete em quem tentava juntar o socialismo e o cristianismo. Ele tem razão em parte: o episódio da distribuição de terras na conquista de Canaã, levantado por alguém para tentar provar o argumento socialista de “pão, terra e liberdade”, não se aplica ao caso; e nem a comunidade de Atos era comunista. Concordo plenamente.
Mas então ele confunde, como a maioria dos evangélicos, conceitos marxistas, comunistas, socialistas e até stalinistas. Por exemplo, que as pessoas são naturalmente diferentes e por isso a utopia socialista nunca se realizará. Talvez tenha se esquecido da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que norteia a maioria das constituições dos países democráticos e que diz que todos são iguais. Nisso até a Bíblia concorda, pois afirma que todos são iguais perante Deus – Romanos 3:23. O fato de existirem desigualdades sociais não significa que somos diferentes, mas sim que agimos de formas diferentes. Usar Marcos 14:7 (“os pobres sempre os tendes convosco”) para justificar as diferenças sociais é uma piada de mau gosto. Além do mais, o verso bíblico não termina aí, mas continua: “quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem”. Ou seja, justiça social e erradicação da pobreza são opções que Jesus nos deu: “quando quiserdes. Isto é questão de ideologia. E a melhor explicação de ideologia está, justamente, na explicação marxista, doa a quem doer.

O que vem a ser ideologia? É um sistema estruturado de pensamento cuja base é uma visão de mundo consolidada em determinado extrato da sociedade, que não admite outra explicação das coisas. Lênin explica que isso tende a criar a alienação, ou seja, por meios que não cabe discutir aqui, uma classe impõe sua visão de mundo, determinando então a dominação de uma classe sobre a outra – isso é a “ideologia da classe dominante”. A ideologia impede as pessoas de terem uma visão crítica da realidade objetiva, pois fornece falsos valores como sendo verdadeiros e válidos.
Marx dizia que a religião é o ópio do povo e muitos, como tal blogueiro, ficam indignados ao ouvir isto. Mas Voltaire disse quase a mesma coisa um século antes de Marx, e não estava longe da verdade. Senão, vejamos.
O que vem a ser a religião? É um sistema organizado de ritos e crenças que busca o contato do humano com o divino. Geralmente, um grupo especial faz a intermediação: o clero (“sacerdotes”). Entendemos que esse sistema já não é mais necessário, pois Jesus aboliu o sistema sacerdotal, como aprendemos na Epístola aos Hebreus. O antigo esquema não é mais válido: cada cristão, individualmente, tem acesso direto e irrestrito ao Pai, por meio do sacrifício do Filho. Evidentemente, a conclusão lógica é que o Cristianismo - o verdadeiro, com inicial maiúscula - não é uma religião, mas um relacionamento - direto - entre o humano e o Divino. Não precisamos de guias espirituais. Cada ser humano, em Cristo, é livre para ter acesso ao Pai celestial. Foi isso que significou o véu do templo se rasgando de alto a baixo na morte de Cristo.

Já outros credos se enquadram, via de regra, no esquema religioso-ideológico, inclusive ramos do próprio cristianismo (com inicial minúscula, o cristianismo nominal, ou, como diz Mário Persona, “a cristandade”). É necessária figura do mediador entre o Homem e a divindade. Um figura poderosa e hegemônica, cuja palavra é a lei suprema. E não é preciso esforço para perceber que a liderança do segmento sacerdotal/clero, em cada religião, é fortemente influenciada pela visão de mundo da classe a que geralmente pertence o sacerdote; quase sempre, a classe “superior”. Isto vem desde o Egito Antigo e a Babilônia, passando pela igreja estatal de Constantino. O clero compartilha da visão dos reis, dos príncipes, dos governantes. O clero criou o “direito divino dos reis”, o absolutismo; e mais recentemente, se pendurou nos empresários, políticos, banqueiros, patrões em geral, em oposição às classes “trabalhadoras” (evidentemente, todos são trabalhadores, mas aqui identificamos os assalariados, os que não detêm os meios de produção, vendendo a sua força de trabalho, sob contrato ou não). O clero repercute e propaga os valores das classes superiores.

Isso é o poder da ideologia da classe dominante: o pobre é alijado de sua capacidade de análise de sua miserável condição, e assim não busca meios de transformar objetivamente a sua realidade, porque o poder legislativo, largamente favorável aos dominantes, não deixa, e se ele se rebelar, o poder religioso o condena ao inferno. Essa ideologia – da classe dominante – procura evitar e dificultar a organização, por exemplo, de associações, sindicatos, cooperativas e grupos de pressão que alterem política e socialmente o “status quo”. Essa ideologia mantém a população alienada, e nisso a religião organizada tem papel fundamental.

A “igreja” sempre se associou aos governos de todo tipo! Desde a Idade Média o clero compôs com a realeza um bloco de poder. A Revolução Francesa surgiu, também, como revolta a esse estado de coisas. A Inquisição dos “papas” foi apoiada pelos reis europeus porque todos dividiam os bens confiscados. Os “cardeais” espanhóis abençoaram os canhões do ditador Franco na Guerra Civil Espanhola. O “papa” Pio XII fez vista grossa ao holocausto e apoiou Mussolini e Hitler. A lista é grande, mas vamos para um exemplo caseiro.

Cansei de ver pastores “aconselhando” não votar em Lula porque ele “era comunista”, ou apoiado “pelos comunistas” (não estou defendendo nem apoiando o atual presidente, nem dizendo que é o melhor ou o pior). Já ouvi esses “sacerdotes” pedirem votos para candidatos “da direita” porque os “da esquerda” iriam fechar igrejas... É verdade que é preciso conhecer o programa do candidato ou do partido, pois o que não faltam são propostas anti-cristãs: a união gay é uma delas, e no campo da educação infantil há outras.
Mas já me arrependi ao votar em um candidato cristão, membro influente e endinheirado de uma grande e famosa igreja evangélica. No Congresso, esse cidadão votou propostas contra os direitos dos trabalhadores, mudou de partido ao sabor da corrente política dominante no momento, e quando o questionei falou que era a favor de tais e tais emendas “de acordo com a sua consciência e com o que entendia ser o melhor”. Retruquei que ele deveria se manifestar no Congresso não de acordo “com a sua própria consciência”, mas de acordo com o desejo de quem o elegera. Afinal, ele estava ali para nos representar, e não a si próprio. Mas no fim das contas isso mostra que ele agia de acordo com a sua consciência de classe, e não com a de quem o elegera. Bem feito para mim.
Também já vi e ouvi de “sacerdotes evangélicos” que Deus livrou o Brasil em 1964, e o golpe militar (que instaurou a ditadura militar) foi “resposta de oração”. Isso equivale a dizer que os torturadores da repressão e os anos de chumbo tinham a bênção de Deus e dos “sacerdotes evangélicos”, o que é um absurdo. Engraçado é que durante esse período éramos incentivados a “orar pelas autoridades”; mas quando o governo passou a ser “de esquerda” esse versículo foi cuidadosamente esquecido...
É ideologia ou não é? É o ópio da religião nublando a visão do povo ou não? É alienação ou não? Qual a diferença entre esses “sacerdotes” e os do Vaticano, usando o púlpito para propagar valores políticos e sociais viciados pelas preferências pessoais?
O tal bogueiro misturou vários conceitos num só balaio. Isso é o que a mídia secular e global faz ao dizer que pastores são ladrões, charlatães, que crentes são manipulados etc. Isso existe de fato: pastor picareta, crente besta, e coisas piores. Mas não podemos generalizar. Nem todo político é ladrão. Nem todo jogador de futebol é pagodeiro. Nem todo judeu é avarento. Todo preconceito deve ser combatido. Nem todo esquerdista é comunista. Nem todo marxista é ateu. Por que um cristão não pode ser “de esquerda” sem ser “comunista”? Por que o crente não pode fazer greve, se a lei lhe assegura esse direito? Será que todo político de esquerda apóia invasão de terra e a luta armada? O que dizer então da Marina Silva, que sempre foi do PT, da CUT, que apoiou o movimento dos “sem-terra”, chegou a ser ministra do governo Lula, e agora candidata a presidente pelo PV virou a santa padroeira dos evangélicos, “porque é cristã”? Em que momento se deu essa transformação?
Forças econômicas influenciam decisões políticas. E também tingem a visão de uma classe com as cores daquela que detêm o poder temporal, pela dominação intelectual/cultural/ideológica, aceitemos ou não. Deixar de exercer o senso crítico e fazer o julgamento da realidade objetiva atrofia a capacidade do pensamento e a inteligência. E isso leva à alienação política.

Podemos influenciar - positiva ou negativamente – os rumos da Nação por meio do voto e da fiscalização dos nossos representantes no Congresso Nacional, nas câmaras de vereadores, nas assembléias estaduais. No fim das contas, sabemos que o destino está nas mãos de um Deus Todo-poderoso e misericordioso; não numa revolução ou reviravolta política. Deus está no controle da História, não o materialismo histórico e dialético. Mas precisamos nos conscientizar que somos cidadãos, e como tais, temos a obrigação de analisar nossa motivação na hora do voto: que tipo de sociedade desejamos? Queremos perpetuar a exploração do homem pelo homem, o desemprego, insegurança, a privatização/venda do patrimônio da nação aos amigos do poder, ou queremos mais justiça social, melhor distribuição de renda, emprego, reajuste de salário acima da inflação e trabalho para todos, serviços de saúde, segurança, transporte digno e barato, enfim, tudo aquilo que um país decente deveria ter?
Na próxima semana, faremos uma análise das duas principais propostas de governo que se colocam para a escolha dos eleitores daqui a dois meses. Espero que seja útil, e ajude você a responder algumas questões:
Vale a pena deixar a nossa consciência de classe e de cidadão ser levada pelo cabresto? Qual seria a razão de tanta tentativa de manipulação de votos e manutenção dos currais eleitorais evangélicos? Será que o exemplo dos políticos ditos cristãos tem sido válido?

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