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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Dispensacionalismo

e suas implicações no entendimento
das Escrituras

Talvez uma implicação das mais importantes do entendimento do conceito das Dispensações seja que, uma vez que conhecemos o plano eterno de Deus para o homem através das eras, deixamos de tentar seguir a Lei de Israel, e de aplicar à Igreja o que foi determinado para Israel (ex.: circuncisão, nazireado, votos de raspar a cabeça, assembléia solene, toque de shofar, sacrifícios de sangue, levirato, templo, dízimos, sacerdócio levítico etc.). Pois, mesmo dentro da Lei, há que se fazer distinção entre:
- Lei Moral: preceitos comuns a toda a Humanidade, como honrar os pais, fazer caridade, não cobiçar os bens alheios, evitar a usura. Quase todas as culturas possuem esse tipo de ordenanças; princípios éticos e morais que ainda perduram e são válidas para todos os homens; Êxodo 20:1-17 e Romanos 2:14-15.
- Lei Civil/Penal: definição de crimes, como assassinato (mesmo acidental), estupro, divórcio, etc., e suas punições (multas, ressarcimentos, restituições, pena capital por apedrejamento, banimento, cidades de refúgio); leis a respeito de escravos, transferência de terras, heranças etc.; são exemplos de leis que foram aplicadas a um determinado contexto, mas hoje não se praticam mais nem mesmo no moderno Estado de Israel; Êxodo 21:1-23:33; 
- Lei Cerimonial: é a que mais nos interessa, pois trata de aspectos ligados à religião e ao relacionamento dos homens com Deus, e que vigorou até João Batista, o último profeta do VT, cf. Mateus 11:13 e Lucas 16:16. Aqui se enquadram os holocaustos, sacrifícios de sangue, as ofertas pacíficas, o sacerdócio levítico, o tabernáculo (e depois o templo), os dízimos, as ofertas alçadas, a circuncisão, a primogenitura, o nazireado, a purificação ritual, os alimentos puros e os impuros, o sábado, o levirato etc. Tudo isso foi abolido com o sacrifício totalmente suficiente de Jesus Cristo. Para a Igreja não há mais necessidade de sacerdote, nem de levitas, nem de sacrifícios (Epístola aos Hebreus); de dízimos (não há mais templo nem sacerdotes nem levitas a sustentar); de circuncisão (que agora é espiritual); de primogenitura, pois todos somos herdeiros com Cristo; de templos físicos; de votos etc. Êxodo 24:12-31:18. Lembre-se: o descumprimento do pacto leva sempre ao juízo.
Se você insiste em cumprir partes da Lei, deve cumpri-la toda, cf Tiago 2:10 (Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado culpado de todos) e Gálatas 3:10 (Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las). Se você insiste em dar dízimo, deve antes se purificar, e também guardar o sábado, não tocar em coisa impura, inclusive mulher menstruada, não comer carne de animal impuro, circuncidar-se etc. Caso contrário, estará incorrendo em juízo.
Porventura não foi o que sucedeu com Israel no Antigo Testamento e com os fariseus no tempo de Jesus? Davam dízimo de tudo, mas odiavam o semelhante, adulteravam com os olhos. Cultuavam a Deus no templo, mas negavam a caridade aos necessitados. Queimavam incenso a Deus e a Baal. Ofereciam carneiros a Deus e os filhos a Moloque. E muitos hoje contribuem com dinheiro, mas estão servindo a Mamom, pois sua oferta é um investimento para receber mais prosperidade. E os “sacerdotes” aceitam esse tipo de coisa, sendo portanto os ladrões a que Malaquias se refere no cap. 3:8 (Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas). Como já vimos, para desgosto de alguns, os sacerdotes retinham as ofertas para si, como muitos “sacerdotes modernos” continuam fazendo hoje.
Cada dispensação apresenta uma promessa de Deus se o homem cumprir a sua parte, e um castigo em forma de juízo para cada quebra de pacto. Clique neste link para ver um resumo esquemático.
O Dr. Roy B. Zuck, acadêmico, professor emérito de exposição bíblica do Dallas Theological Seminary, e editor, juntamente com o prof. John Walvoord, do famoso comentário bíblico "Bible Knowledge Commentary", diz que:
1) A "igreja" é formada pelo povo redimido de Deus em todas as eras, não somente pelos da era atual (que se estende do dia de Pentecoste até o Arrebatamento).
2) O programa divino tem finalidade soteriológica, ou seja, proporcionar salvação para as pessoas.
Em linhas gerais, a igreja não equivale a Israel e o plano divino tem um propósito doxológico, ou seja, glorificar o próprio Deus (Efésios 1:6, 12, 14).
Com respeito à distinção entre a igreja e Israel, Paulo escreveu a respeito de uma dispensação na qual Deus eleva tanto os judeus crentes quanto os gentios a uma mesma condição de igualdade como membros do corpo de Cristo. Esse fato era desconhecido nos tempos do Antigo Testamento (Efésios 3:5, 6). No Antigo Testamento, desde a época de Moisés, Deus tratava essencialmente com Israel, mas hoje a igreja é composta por judeus e gentios crentes, que formam um único corpo de Cristo, a igreja. Em 1 Coríntios 12:13, lemos do batismo dos crentes no corpo de Cristo, e 10:32 fala da diferença entre Israel e a igreja. A dispensação ou administração vindoura é o futuro reino milenar (Efésios 1:10). Romanos 10:1 também faz alusão ao caráter exclusivo de Israel.
Considera-se a diferença entre a igreja e Israel não só pelo caráter bem definido da primeira, mas também por sua época própria. A era da igreja começou após a ressurreição (Efésios 1:20-22) e a ascensão de Cristo (Efésios 4:7-12). Como todos os crentes nesta era são batizados no corpo de Cristo (1 Coríntios 12:13), o princípio da era da igreja deve ser associado ao início do ministério de batismo do Espírito Santo. Os cristãos gentios na casa de Cornélio, "assim como nós, receberam o Espírito Santo", afirmou Pedro (Atos 10:47), e "caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós no princípio" (Atos 11:15). A alusão que Pedro fez ao fato de os judeus já terem recebido o Espírito Santo e de que o Espírito Santo desceu sobre eles "como também sobre nós no princípio" refere-se ao que aconteceu no dia de Pentecoste, conforme relata Atos 2. Está claro que é desse acontecimento que ele está falando, pois o Senhor dissera pouco antes, enquanto ascendia aos céus, que eles haveriam de receber o Espírito Santo (Atos 1:8).
A Igreja, que nasceu no dia de Pentecoste, possui um programa próprio, que distingue a era moderna da dispensação inaugurada com o fornecimento da Lei a Israel. Essa nação recebeu promessas especiais, enquanto outras foram feitas à igreja, que é o corpo de Cristo. É claro que em cada dispensação as pessoas são salvas pela fé, não por obras.
Além disso, Deus tratava com a humanidade de forma diferente antes da instituição da lei mosaica. E, antes da queda do homem, em Gênesis 3, havia outra dispensação em vigor. Assim, as Escrituras distinguem as dispensações.
Charles Ryrie também comentou: "Se a interpretação direta e normal consiste num princípio hermenêutico válido e se for aplicada coerentemente, a pessoa se tornará dispensacionalista" (Dispensacionalism today, p. 21). Aceitar os termos Israel e Igreja em sentido normal, literal, equivale a conservar sua distinção. Israel sempre significa o Israel étnico, nunca se confundindo com o termo Igreja, nem as Escrituras jamais empregam Igreja em substituição ou como sinônimo de Israel.
O plano divino da salvação pela fé permeia todas as dispensações, ao mesmo tempo em que eleva a graça de Deus à condição de princípio fundamental que unifica todas elas. Em outras palavras, o programa de Deus em cada dispensação visa a glorificá-Lo.
O grande propósito de Deus em cada era é glorificar a Si mesmo. Um dos meios principais de fazer isso é mediante a salvação pela fé (em todas as eras), mas o alvo final é sua glória.

Com informações de ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1994
(
http://tiagoabdalla.blogspot.com/2008/04/o-que-roy-b.html)

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dispensacionalismo

O que é?
Para que serve?
É bíblico?

Tenho sempre dito aqui que determinados mandamentos e ordenanças foram dados a Israel e não à Igreja; que certas práticas que temos visto hoje em dia estão deslocadas e não deveriam mais ser a norma do cristão.
Mas por que essa distinção, hão de perguntar. Como saber o que é válido e o que não é? Como saber por que motivo não se usa mais circuncidar o primogênito, mas ainda se pratica o dízimo? Por que temos levitas na Igreja mas não sacrifício de animais e sacerdotes? Por que muitas igrejas implicam se a mulher usar calça comprida mas não guardam o sábado e até fazem feijoada, feita com animal considerado impuro? Afinal, o que fazer? Quem está com a razão?
Creio que a resposta a todas essas perguntas – e mais uma vez, a compreensão sobre a questão levantada anteriormente sobre o dízimo – está no entendimento do conceito teológico das dispensações.
Vamos tentar esclarecer isto em três capítulos, começando com este.

A palavra “dispensação” vem do substantivo grego oikonomá (oikos = casa; nomos = lei); normalmente traduzido como “administração” ou, por transliteração, “economia” (no sentido de gerir, administrar, supervisionar), cf. Lucas 16:1-13. “Dispensação” se refere, portanto, ao método divino de lidar com a humanidade e de administrar a Verdade em diferentes períodos de tempo. Ninguém consegue ler as Escrituras sem ver que Deus lida com o homem em algumas épocas diferentemente do que Ele lidou em outras. Compreender as diferentes “economias” ou administrações de Deus é essencial para uma correta interpretação da revelação de Deus na História.
Quanto ao número de dispensações, o mais comumente sugerido é sete, com cinco delas já passadas, uma na qual estamos agora vivendo, e mais uma que está ainda no futuro.
A palavra “dispensação” aparece várias vezes nas Escrituras, com o sentido de administração, a saber:
O verbo oikonoméiô em Lucas 16:2.
O substantivo oikonomos em Lucas 12:42 (mordomo); 16:1, 3, 8 (administrador); Romanos 16:23 (tesoureiro); I Coríntios 4:1, 2; Tito 1:7; I Pedro 4:10 (despenseiros); Gálatas 4:2 (tutores ou curadores).
O substantivo oikonomá aparece em Lucas 16:2, 3,4; I Coríntios 9:17; Efésios 1:10; 3:2, 9; Colossenses 1:25; I Timóteo 1:4.
No entanto, a palavra grega aion, que aparece no Novo Testamento cerca de cem vezes, geralmente traduzida “mundo”, “eternamente” ou “sempre”, é aceita comumente com o sentido de “era” ou “época”.
Vemos que antes do cumprimento de todas as coisas no grande programa de Deus, há só esta era atual e outra que virá:
“E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século (aion = época) nem no futuro (literalmente, ‘nem no vindouro’). (Mateus 12:32)
“Que não haja de receber muito mais neste mundo (kairos = tempo), e na idade vindoura (aion = época) a vida eterna”. (Lucas 18:30)
“Acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século (aion = época), mas também no vindouro (de novo, literalmente ‘o vindouro’)”. (Efésios 1:21)
Aí se vê uma era ou dispensação presente e uma que está para vir.
Mas como tudo isso entra na correta interpretação da Bíblia? Deve-se considerar bem esse assunto, pois algumas coisas das Escrituras estão ligadas somente a determinada dispensação, e se tentarmos interpretá-las em referência a outra, o resultado será confuso. Algumas coisas são aplicáveis a todas as eras, pois são princípios eternos de verdade e justiça. Os princípios apresentados no Decálogo ou Dez Mandamentos, embora tivessem sido registrados pela primeira vez na dispensação mosaica, são de tal verdade moral que estão em vigor em todas as eras da história do homem. Está implícito em Romanos 2:14-15 que essas leis sempre estiveram escritas no coração humano, mesmo antes que fossem escritas em pedra no monte Sinai. Ninguém pode anulá-las sob a alegação de que não pertencem à presente dispensação, a não ser para ver a ordem moral praticamente destruída.
As dispensações pressupõem algumas condições:
1 – há sempre duas partes envolvidas
2 – há responsabilidades específicas
3 – há prestação de contas
4 – podem ocorrer mudanças a qualquer tempo se for constatada infidelidade/irregularidade na administração
5 – os homens são responsáveis diante de Deus
6 – é exigida a fidelidade de ambas as partes
7 – a administração pode acabar a qualquer tempo
8 – há, provavelmente 7 dispensações, havendo alguma diferença no nome dado a cada uma, mas cada uma é claramente específica e diferente das demais.
Cada dispensação é caracterizada da seguinte forma:
1 – revelação distinta e clara do seu propósito e condições
2 – há possibilidade de falhas
3 – nesse caso, há sempre uma penalidade, como em um contrato, sob a forma de julgamento/juízo
4 – pode haver anulação de certos preceitos até então válidos
5 – pode haver introdução de novos princípios não válidos anteriormente
6 – pode haver manutenção de alguns preceitos antigos
7 – novo nível de revelação do plano de Deus (revelação progressiva)
8 – distinção entre os planos da Deus para Israel, para a Igreja e para as nações (I Coríntios 10:32 = Não vos torneis causa de tropeço nem a judeus, nem a gregos [cf. gentios], nem à igreja de Deus)
Para não estender muito descrevendo todas as dispensações nos mínimos detalhes, só gostaríamos de observar que muitas coisas foram dadas por Deus para instruir e preparar Israel a reconhecer o Messias quando Ele viesse, sendo, portanto, representativas do que ainda havia de vir. Conseqüentemente, essas coisas passaram - no que se refere à obrigação de praticá-las - quando o Filho do Homem veio e as cumpriu. As pessoas hoje não mais precisam praticá-las, pois elas evidenciam o que Deus predissera para que os homens não deixassem de reconhecê-Lo e recebê-Lo.
O fim dessa era se deu quando se rasgou o véu do Santíssimo Lugar na morte de Jesus, Marcos 15:37-38. Veja a referência em Hebreus 10:18-20: “Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado. Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus 10:18-20).
Numerosas passagens inibem o uso de coisas representativas hoje, pois estavam limitadas ao período que terminou com a morte de Cristo. Contudo, multidões ainda incorporam coisas da dispensação passada, puramente judaica, na dispensação da igreja, o que mostra a importância de considerar as divisões e limitações dispensacionais na interpretação das Escrituras.
Muitas coisas foram ordenadas a Israel exclusivamente, mas são às vezes aplicadas como se ainda estivessem em vigor. Por exemplo, alguns tentam aplicar Deuteronômio 22:5 hoje: “Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao SENHOR teu Deus”.
Supõe-se erroneamente que Deus dita a moda, como um pretexto para criticar as mulheres por vestirem calças, apesar de calças serem, muitas vezes, mais decentes do que alguns vestidos... Mas o fato é que, em nenhum lugar Deus dita a moda. Em vez disso, Ele manda que sejamos decentes. Numa cultura o que é roupa de mulher pode ser considerado roupa de homem em outra. Em alguns países saias são roupas de homens, enquanto em outros roupas tipo calça são usadas mais por mulheres. O mais provável é que esse texto tenha a ver com o costume homossexual de homens e mulheres “transvestirem” (usar roupas do sexo oposto) - que é uma questão moral - Deus lida é com questões morais: uma rebelião deliberada contra a vontade de Deus, com relação à masculinidade e feminilidade. Os que repreendem as mulheres usando Deuteronômio 22:5 são hipócritas, pois não usam qualquer outro versículo nesse capítulo em sua pregação. Por exemplo, pelo mesmo critério, muita gente viola
Deuteronômio 22:11: “Não te vestirás de diversos estofos de lã e linho juntamente”. Moças que não são mais virgens quando se casam, não correm o risco de serem apedrejadas; mas veja o dever dos líderes de assumir a liderança nisso em Deuteronômio 22:13-21. E o capítulo 22 tem outras coisas que os pregadores modernos não obedecem, de modo que é incoerente e hipócrita usar o versículo 5 para açoitar os irmãos e, ao mesmo tempo, ignorar todos os outros versículos.
Isto reflete, de fato, a falta de critério na interpretação dos mandamentos bíblicos. Desconhecimento do conceito dispensacionalista leva a erros cada vez piores na vida da Igreja. Há muitas coisas em Deuteronômio que são apropriadas, pois nosso Senhor Jesus citou desse Livro mais vezes do que qualquer outro, e Ele próprio cumpriu o que foi predito em 18:15, 18-19. Mas muitas leis desse Livro eram puramente nacionais, só para Israel, e não se deve aplicá-las de outro modo. Tentar obrigar os santos do Novo Testamento a guardar leis nacionais, dietéticas e cerimoniais do Velho Testamento envolve a incapacidade de reconhecer a Lei do Dispensacionalismo, e invariavelmente trará confusão e tenderá ao legalismo.
Continua, doa a quem doer!

Texto de Davis W. Huckabee, traduzido por Júlio Severo, revisado por Joy E Gardner e Calvin G Gardner, editado por Georges Edward Alves
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