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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Crente pode ir à manifestação ou deve obedecer às autoridades?

Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu evito discutir assuntos que estão “na moda”, ou em efervescência momentânea. Prefiro – na medida do possível – esperar as coisas se acalmarem para então observar com mais calma os efeitos de certas ocorrências, se é que valem a pena serem analisados. Como dizia o velho Tancredo Neves, “deixar a onda bater para analisar a espuma”. Com essa postura, sei que perco muitos “cliques”, mas sempre preferi a prudência ao número de seguidores ou de acessos no blog. Não são assim muitos blogueiros, nem a maioria dos “portais evangélicos” de notícias. Põem no ar notícias bombásticas, explodem de comentários, de tal modo que alguns fazem três ou quatro postagens por dia; nem conseguimos ler direito e assimilar quando, “pimba”! outra notícia pipoca na página. Eu não. Prefiro outro estilo.
Mas desta vez, com as manifestações se sucedendo em cada esquina deste país, penso que preciso quebrar um pouco a regra e falar logo o que penso sobre tudo isso. Acredito que uma das principais questões que se coloca no momento é se o crente deve ou não participar dessas e outras manifestações.
Vejo por aí um grande número de pastores do momento, mais midiáticos e com maior penetração nas redes sociais, incentivando as pessoas a participarem ativamente do que chamam de “mudanças no país”. Vejo muitas dessas caras empoadas, em seus terninhos de griffe – muitas vezes sem gravata, para parecerem mais joviais, mais aceitáveis ao paladar adocicado que a juventude conectada pede – se deleitarem ao botar lenha na fogueira dos protestos. Enganam-se culpando o governo federal (que a maioria dos líderes bacanas odeia) das mazelas do transporte coletivo, e se esquecem de que essa é uma responsabilidade das prefeituras. Tentam misturar – e quase sempre são bem sucedidos, a julgar pelos comentários de apoio – os gastos da Copa com a precariedade dos ônibus urbanos. Ora, sem querer defender o governo federal, que a bem da verdade tem muitas falhas, não adianta, agora, cobrar “os gastos da Copa”. Esses gastos já foram realizados; o dinheiro não regressará de imediato, só depois da Copa uma parte desses recursos poderá ser visto de novo, sob a face do incremento ao turismo e de alguma melhoria nas vias urbanas. Pelo menos é o que se diz.
Sejamos justos: o governo federal já havia editado uma medida provisória que desonerava o transporte público em cerca de 8% (informações do senador Magno Malta à Band TV). Então a culpa do aumento das passagens é, obviamente, dos empresários do setor e das prefeituras. A tarifa não só não poderia aumentar, como deveria ter baixado!
Um artigo recente mostra que o governo hoje já investe na Educação quase 10 vezes mais do que investiu na Copa: cerca de R$233 bilhões contra cerca de R$28 bilhões. Ou seja, mesmo que não se tivesse gasto esses R$28 bilhões na Copa, e mandado todo o dinheiro para a Educação, o aumento no dispêndio atual seria de aproximadamente 12% sobre o orçamento da pasta. Não sei se resolveria “o problema da Educação”. Além do mais, esqueceram que 100% dos royalties do petróleo já foram destinados à Educação. Estão reclamando onde não devem...
Não quero aqui discutir um por um os itens da pauta de reivindicações. Apenas perguntar onde estavam esses líderes evangélicos tão moderninhos e progressistas quando multidões maiores e mais ordeiras do que as de hoje estavam nas ruas pedindo o fim da ditadura militar e eleições diretas para presidente da República. 
Provavelmente estavam escrevendo nos boletins de suas igrejas que aquilo era coisa de comunista. Afinal aqueles comícios eram coloridos por bandeiras vermelhas, e os partidos progressistas da época, como o PMDB (sim, o PMDB já foi progressista) eram apoiados por “clandestinos” como o então ilegal PCB. Provavelmente uma ova, estavam escrevendo isso sim, e pregando isso de seus púlpitos, pois eu mesmo li e ouvi tais besteiras.
Pergunto onde estavam esses líderes – pergunto por educação, pois eu sei a resposta – quando poucos anos depois tivemos a primeira eleição direta para presidente. Estavam defendendo Collor, pois Lula era apoiado por comunistas. Diziam isto sem nem mesmo saber o que era comunismo, uma coisa meio esquisita que tinha lá na Rússia, na China e em Cuba, que mandava fechar igrejas e torturava pastores. E que ia acontecer o mesmo no Brasil. Ora, o tempo passou, o Lula e o PT ganharam eleições, e as igrejas evangélicas aumentaram em número. Já não se pode dizer o mesmo em relação à fidelidade bíblica da atual doutrina evangélica-protestante, que desde então só vem se esgarçando cada vez mais.
Pergunto também onde estavam esses mesmos líderes, que hoje incentivam os jovens irem protestar nas ruas, quando a população saiu de roupa preta pedindo a saída do mesmo Collor que os bacanas defendiam pouco tempo antes. Deixo que você tente adivinhar onde eles estavam.
Estavam pregando que devemos respeitar as autoridades, como lemos em diversas passagens do Novo Testamento - Romanos 13:1-2 e seguintes: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação...”;
I Timóteo 2:1-3: “Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador”;
Tito 3:1,2: “Adverte-lhes que estejam sujeitos aos governadores e autoridades, que sejam obedientes, e estejam preparados para toda boa obra, que a ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas moderados, mostrando toda a mansidão para com todos os homens...”;
I Pedro 2:13-15: “Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos”. Isso é Bíblia. Mas por que só a usam em determinadas ocasiões, e em outras a esquecem? Explico.
Naqueles tempos bicudos do governo militar eu estava na faculdade, e fiz parte de movimentos estudantis que pediam que um mínimo de 10% do orçamento nacional fosse para a Educação – vejam os senhores como isso é velho.  Fui tachado de comunista, claro. Ousei perguntar a vários desses líderes o que fazer, então, quando a autoridade está claramente se posicionando pela injustiça. Devemos compactuar com a injustiça e com as obras das trevas (Romanos 13:12)? Invariavelmente diziam que tínhamos que obedecer às autoridades. Ao que eu invariavelmente exemplificava com a ditadura militar, que de acordo com um de seus mais ilustres representantes, mandava “prender e arrebentar”. Invariavelmente eles diziam que tínhamos que obedecer. E eu, invariavelmente, perguntava então por que os cristãos primitivos desobedeceram a César, e os cristãos das igrejas subterrâneas desobedeciam aos governos totalitários. Invariavelmente, me mandavam calar a boca e “parar de perguntar essas coisas”.
Tempos depois, fiz parte de movimentos reivindicando melhorias nos salários e nas condições de trabalho na empresa onde estava (aliás, foi a primeira greve que se fez nessa empresa em mais de cem anos). Não foram poucos os irmãos que me recriminaram, e recriminam até hoje, quando chega a época da campanha salarial, dizendo que não fazem greve porque não podem desobedecer às autoridades, que greve é rebelião e rebelião é do Diabo.
E são esses mesmos – esses sim, massa de manobra (não de partidos políticos, mas de líderes evangélicos espertinhos) – que hoje defendem que se deve até mesmo cancelar a Copa de 2014. O que acontece na cabeça dessas pessoas?
Por fim, a própria liderança do Movimento Passe Livre anunciou que não vai mais convocar manifestações, pois detectou a infiltração de baderneiros e defensores de “pautas conservadoras”, como a redução da maioridade penal, uma discussão que não fazia parte da reivindicação original. Essa e outras pautas são apoiadas tanto pelos tais líderes evangélicos como por políticos, que tentam se aproveitar da manjada tática do “quanto pior melhor” para tentar desestabilizar o governo a que se opõem. Se bem que esse movimento seja eminentemente mais social do que político, tentar evitar a participação de militantes de esquerda no processo é uma forma de cerceamento da liberdade que o movimento prega.
Esses mesmos políticos conservadores espalham o boato do cancelamento da Copa, por “questões de segurança”. Na verdade, evangélicos que defendem tais idéias querem com isso apenas desmoralizar as próprias autoridades que antes deveriam ser obedecidas. E se você olhar bem, verá que são os mesmos que diziam que Dilma Rousseff ia ser presa assim que desembarcasse em Nova York, espalharam fotos dela como terrorista, mas apoiaram Marina Silva e sua comitiva, formada pelo médium Luiz Bassuma e pelos ex-terroristas Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis. Dois pesos, dezesseis medidas...
E então eu pergunto novamente – porque obedecer às autoridades é tão importante quando se apóia o governo, e desobedecê-las é um dever sagrado quando não gostamos do governo?
Por que esses bonitinhos dos blogs, do Facebook e do Youtube, de detrás dos seus púlpitos de acrílico e de seus MacBook Pro de última geração, de dentro dos seus terninhos modernos (mas sem gravata), em vez de ficar incentivando o pessoal a ir reivindicar, não passam uma semana como ovelhas, para sentir na pele o que é andar de ônibus lotado (e caro)? Por que, num arroubo de democracia e transparência que cobram das autoridades, não abrem a contabilidade de suas igrejas e permitem aos membros decidirem se e quando vão lhes dar um reajuste nos seus já polpudos vencimentos de sacerdotes profissionais? Será que permitiriam que os membros de suas igrejas fizessem uma greve e recusassem seus sermões insípidos até que se pregasse exclusivamente o que está na Palavra de Deus? Será que esses manda-chuvas evangélicos aceitariam manifestações de repúdio às doutrinas estranhas que eles às vezes pregam? Ensinos fora do Novo Testamento, que é a regra de fé e prática da Igreja de Jesus Cristo? Afinal, “vem pra rua na manifestação dos outros é refresco. No seu quintal não, é spray de pimenta nesses baderneiros, rebeldes...
Acho que devemos ser coerentes. Acho que devemos como cristãos obedecer às autoridades sim. Mas se as autoridades são injustas, não temos que ficar passivos como carneirinhos. Os cristãos primitivos não hesitaram ao escolher a quem obedecer primeiro. Felizmente – graças a Deus e aos que vieram antes de nós para construir a democracia – temos canais onde podemos manifestar nossa indignação e insatisfação contra o que consideramos injusto. Seja contra o dinheiro aplicado na Copa, que deveria ir para o transporte e educação, seja contra o dinheiro suado dos dízimos do povo, gasto em jatinhos e implantes de cabelo, em jantares para políticos 
corruptos e em fazendas. Seja no Facebook, no Twitter, nas ruas ou nas igrejas, temos o direito de exigir a prestação de contas das autoridades – civis e eclesiásticas. Quantos desses nossos pobres irmãos, tão obedientes, que hoje vêem com entusiasmo as manifestações nas ruas, já não furaram greves e deixaram na mão seus colegas de trabalho que na ocasião lutavam por melhores salários para todos? Quantos desses que hoje enchem os templos a cada domingo se disporiam a empunhar cartazes com os dizeres “só a Bíblia” na cara de seus pastores? 
Quantos desses apóstolos, patriarcas e profetas empoadinhos, que hoje se mostram indignados com “a corrupção”, sairiam pela rua portando cartazes dizendo “acabem com a idolatria” ou “abaixo a pedofilia” ou “o papa não me representa”, quando o “papa” F1 vier ao país em breve?
Finalizo dizendo que esse movimento que se alastrou pelo país, chamado pela mídia internacional de “primavera tropical” (coitados, não sabem que a primavera aqui é em setembro), se é eminentemente social e não político, se de fato rejeita o cabresto dos partidos, deve então ser a oportunidade para os cristãos se organizarem como segmento grande e importante da sociedade que já são de fato, para se posicionar claramente contra o que considera inaceitável – assuntos que estão na mídia diariamente e que não preciso pontuar aqui. Que não se perca mais tempo dando atenção a assuntos secundários e se tenha em foco o que realmente é importante: a moralização da política, da economia e que o cidadão seja respeitado em todas as suas reivindicações. E como cristãos, acho que estamos perdendo tempo e espaço.
Veja você que queimaram bandeiras de partidos políticos, mas a bandeirinha do arco-íris tremulava impávida no meio da manifestação. Faixas de “Fora Feliciano” também. O que tem isso a ver com redução de passagem de ônibus? Mas claro, não se pode queimá-las como fizeram com outras, seria sacrilégio, “homofobia”. Se aparecesse alguma bandeira evangélica, o que aconteceria?
É hora de acordar.

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